Como já é de conhecimento público, o nome psicanálise virou alvo de disputa, tal como uma grife que pudesse ser usada conforme interesses de toda sorte. Esse nome tornou-se valioso por conta da obra daquele que fundou essa disciplina de pesquisa científica e de tratamento de sofrimentos psíquicos, Sigmund Freud, e da obra de outros grandes pensadores, que continuaram esse árduo trabalho a fim de expandir tal campo de conhecimento e aperfeiçoar os cuidados oferecidos àqueles que procuram ajuda para suas angústias e neuroses. Entre esses importantes pensadores, no âmbito internacional, ressaltam-se nomes como Abraham, Ferenczi, Klein, Anna Freud, Winnicott, Bion, Lacan, Rosenfeld, Mannoni, Dolto etc. No Brasil, figuras notáveis como Durval Marcondes, Darcy de Mendonça Uchôa, Adelheid Lucy Koch, Virgínia Leone Bicudo, Lygia Alcântara do Amaral, Frank Philips, Laertes Moura Ferrão, Gecel Sterling, Judith Andreucci, Isaías Melsohn, Pérsio Nogueira, José Longman, José Américo Junqueira de Mattos, Suad Haddad, Lenise Azoubel, Luiz Antonio Bocchino de Toledo, Mário e Cyro Martins, David Epelbaum Zimmermann, Alberto Abuchaim, Antônio Bento Mostardeiro, Aloysio Augusto d’Abreu, José Hamilton Gonçalves de Farias, Werner Walter Kemper, Fábio Leite Lobo, Inaura Carneiro Leão Vetter, José Lins de Almeida, Lenice Sales, Paulo Marchon, Maria José de Andrade Souza, Sonia Lobo, entre outros, se destacaram no estabelecimento, em nosso país, desse nome de grande prestígio, por conta da seriedade e da consistência do que produziram. Certamente omito nomes importantíssimos pela falta de espaço neste editorial e, por isso, peço-lhes vênia.
Estabelecido seu valor, o nome psicanálise passou a ser cobiçado pelos grupos mais variados, incluindo entidades religiosas, num completo choque com as ideias nucleares de seu fundador, Freud, tão avesso a religiões e dogmatismos.
Como aponta Bion no livro Atenção e interpretação (1970/2006), um dos modos de despojar um pensamento de sua capacidade de provocar turbulência e disrupção pelo impacto do que revela é apropriar-se dele e privá-lo de seu conteúdo, dessa forma tornando-o inócuo ou a serviço de forças que ele poderia abalar - assim como aconteceu com o próprio ensinamento de Jesus, que amiúde foi apropriado pelo establishment religioso, distorcido e transformado em instrumento de doutrinação, muitas vezes em completa desconexão com o que transmitiu alguém que foi preso, torturado e morto porque suas ideias afrontavam exatamente as instituições religiosas e o uso mercantilista delas em seu tempo (vide a fúria de Jesus no uso dos templos/sinagogas como centro de comércio e barganha). Certamente nem todo religioso ou instituição religiosa funciona dessa maneira. Contudo, o nome de Jesus, esvaziado de seu teor de ensinamentos originais, converteu-se, através dos tempos, em poderosa fonte de rendimentos e poder político. O mesmo pode ser dito de outras correntes religiosas que se valem do nome de seus fundadores para os mais diversos fins, muitas vezes pouco correspondentes com o que propagaram seus mentores.
Aparecem, por conseguinte, pessoas ávidas a portar o título de psicanalista e a estabelecer supostas formações de psicanalistas sem que seja necessário qualquer contato com a coisa real. “Formações” em psicanálise são oferecidas pela internet como se fossem produtos de varejo, como palha de aço ou xampu. Há também os que querem obter o título de instituições sérias sem se submeter aos trâmites requeridos, como se alguém pudesse trabalhar com física quântica sem ter aprendido cálculo e muito menos física newtoniana. As instituições de peso teriam, segundo eles, de adaptar-se aos seus desejos de rápida qualificação. Alguns acreditam que já a possuem. À instituição caberia apenas corroborar o “notório saber” que já têm com o título que lhes seria devido desde sempre. Não se dão conta das questões edípicas impregnadas em tais atuações, das quais pensam tudo saber, porém não as reconhecem.
Neste número contamos com importantes aportes sobre esse tema tão fundamental. O artigo de Harriet Wolfe, presidente da Associação Psicanalítica Internacional (IPA), destaca o papel central da profunda análise de formação do analista, que reverbera não só na sua prática de consultório como também nos seus atendimentos e colaborações em trabalhos sociais. Hemerson Ari Mendes, presidente da Federação Brasileira de Psicanálise (Febrapsi), apresenta sua trajetória pessoal no tornar-se analista e menciona a mudança de um vértice religioso para um vértice científico. O trabalho de João Baptista Novaes Ferreira França, decano da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo (SBPSP), traz reflexões e questionamentos oriundos de sua longa experiência. O de Ana Clara Duarte Gavião baseia-se em consistentes e aprofundadas pesquisas em que sustenta os fundamentos do modelo Eitingon.
Seguem-se artigos de Christiane Vecchi da Paixão, Alceu Casseb, e Adriana Simões Marino, Augusto Ribeiro Coaracy Neto e Érico Andrade.
Na seção “Temas livres”, temos a colaboração de Ana Maria Stucchi Vannucchi, que aborda a importância dos atendimentos presenciais em contraponto aos realizados virtualmente; de Sandra Nunes Caseiro; e de Marcus Rodrigues Jacobina Vieira e Elisa Maria de Ulhôa Cintra.
Para finalizar apresentamos a entrevista com Paulo Bacha, da Sociedade Psicanalítica de Mato Grosso do Sul, que relata sua trajetória profissional e sua relação com o desenvolvimento da SPMS.
Considero que as contribuições presentes neste número são essenciais para a preservação de nossa ciência e atividade profissional, tão ameaçada na atualidade por usos e pretensões espúrios, que deixariam Freud estupefato.














