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Revista Brasileira de Psicanálise

Print version ISSN 0486-641X

Rev. bras. psicanál vol.56 no.3 São Paulo July/Sept. 2022  Epub Aug 05, 2024

https://doi.org/10.5935/0486-641x.v56n3.06 

Artigo

Clínica psicanalítica e clínica da formação em psicanálise: Algumas reflexões sobre prudência e ingerência

Clínica psicoanalítica y clínica de la formación en psicoanálisis: algunas reflexiones sobre prudencia e injerencia

Psychoanalytic clinic and clinic of training in psychoanalysis: considerations on prudence and interference

Clinique psychanalytique et clinique de formation en psychanalyse : quelques réflexions sur la prudence et l’ingérence

Ana Clara Duarte Gavião1 

1Membro efetivo da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo (SBPSP). Coordenadora do Centro de Atendimento Psicanalítico (CAP) da Diretoria de Atendimento à Comunidade (DAC) da SBPSP. Editora do Jornal de Psicanálise do Instituto da SBPSP de 2017 a 2020. Secretária do Conselho Científico da Federação Brasileira de Psicanálise (Febrapsi). Mestre e doutora em psicologia clínica pelo Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo (IP-USP); São Paulo


Resumo

Considerando a fundação da IPA por Freud e colaboradores, em 1910, uma decorrência de preocupações éticas relacionadas à identidade clínica da psicanálise, e não de propósitos elitistas, autoritários e infantilizadores como se pode supor, a autora entende o modelo imersivo (alta frequência de sessões), regulamentado institucionalmente para a formação do psicanalista, tanto para sua análise pessoal como para sua própria prática clínica, como facilitador do desenvolvimento da função psicanalítica e como cuidado preventivo à psicanálise selvagem, praticada durante toda a história do movimento psicanalítico e agora evidente no Brasil, no lamentável exemplo do bacharelado em psicanálise, no formato online, em processo de aprovação pelo MEC. Quanto ao argumento de que padrões para a formação estariam contrariando a natureza singular e subversiva do método da psicanálise, a autora reverte essa perspectiva para ponderar que a opção pelo modelo imersivo institucionalizado favorece sua singularidade e seu potencial de subversão, sugerindo alternativas para obter recursos financeiros e responsabilidade social.

Palavras-chave formação psicanalítica; transmissão da psicanálise; modelo Eitingon; clínica psicanalítica; responsabilidade social

Resumen

Considerando la fundación de la IPA por Freud y sus colaboradores, en 1910, como resultado de las preocupaciones éticas relacionadas a la identidad clínica del psicoanálisis, y no de los propósitos elitistas, autoritarios y que infantilizan como se puede asumir, la autora entiende el modelo inmersivo (alta frecuencia de sesiones), reglamentado institucionalmente para la formación del psicoanalista, tanto para su análisis personal como para su propia práctica clínica, como facilitador del desarrollo de la función psicoanalítica y como cuidado preventivo al psicoanálisis salvaje, practicado durante toda la historia del movimiento psicoanalítico y ahora evidente en Brasil, por el lamentable ejemplo del bachillerato en psicoanálisis en el formato online, en proceso de aprobación por el MEC. En cuanto al argumento de que las normas para la formación son contrarias a la naturaleza singular y subversiva del método de psicoanálisis, la autora revierte la perspectiva para considerar si elegir el modelo inmersivo institucionalizado favorece su singularidad y su potencial de subversión, sugiriendo alternativas para obtener recursos financieros y responsabilidad social.

Palabras clave formación psicoanalítica; transmisión del psicoanálisis; modelo Eitingon; clínica psicoanalítica; responsabilidad social

Abstract

Considering the foundation of the IPA by Freud and collaborators, in 1910, as a result of ethical concerns related to the clinical identity of psychoanalysis, and not as a result of elitist, authoritarian, and infantilizing purposes as one might suppose, the author understands the immersive model (high frequency of sessions), institutionally regulated for the psychoanalysts training, both for their personal analysis and for their own clinical practice, as a facilitator for the development of the psychoanalytic function, and as prevention against the wild psychoanalysis, practiced throughout the history of the psychoanalytic movement and now evident in Brazil, in the unfortunate example of the online bachelor’s degree in psychoanalysis, in process of approval by MEX. AS for the argument that training standards would be contradicting the singular and subversive nature of the method of psychoanalysis, this perspective is reversed by the author to consider that the option for the institutionalized immersive model favors its uniqueness and its potential for subversion, suggesting alternative ways to obtain financial resources and social responsibility.

Keywords psychoanalytic training; transmission of psychoanalysis; Eitingon model; psychoanalytic clinic; social responsibility

Résumé

Considérant la fondation de I’IPA par Freud et ses collaborateurs en 1910, comme en fait qui découle de préoccupations éthiques liées à l’identité clinique de la psychanalyse et non à des intentions élitistes, autoritaires et infantilisantes comme l’on peut supposer, I’auteure envisage le modèle immersif (une fréquence élevée de séances), réglementé institutionnellement dans le but de la formation du psychanalyste tant pour son analyse personnelle que pour sa propre pratique clinique, comme un facilitateur du développement de la fonction psychanalytique et comme un soin préventif contre la psychanalyse sauvage pratiquée tout au long de l’histoire du mouvement psychanalytique, et actuellement évident au Brésil dans l’exemple lamentable de la Licence en psychanalyse offerte dans un format en ligne, en cours d’approbation par le MEC. Quant à l’argument selon lequel les étalons de formation contrarieraient le caractère singulier et subversif de la méthode de la psychanalyse, Fauteure renverse cette perspective pour conclure que l’option pour le modèle immersif institutionnalisé favorise sa singularité et son potentiel de subversion, tout en suggérant des alternatives pour obtenir des ressources financières et de la responsabilité sociale.

Mots-clés formation psychanalytique; transmission de la psychanalyse; modèle Eitingon; clinique psychanalytique; responsabilité sociale

P: Pode me dar uma ideia do que se trata?

R: Acredito que seja psicanálise.

P: Tem certeza? Parece um negócio meio esquisito.

R: É um negócio esquisito - como a psicanálise. Você teria que lê-lo.

P: Quanto custa?

R: Está dito no livro. De qualquer modo, você também teria que lê-lo.

P: É claro. Mas acho que não tenho nem tempo, nem dinheiro.

R: Nem eu...

WILFRED R. BION, Uma memória do futuro

Psicanálise selvagem

Como se não bastasse a perplexidade diante da pandemia de covid-19, numa conjuntura social e geopolítica em que se acentuam a desigualdade econômica, a mortalidade, a miséria, a fome, a violência, os movimentos de cunho nazifascista, a guerra, o risco de uma catástrofe nuclear, as instituições disfuncionais e as ameaças à democracia, ou seja, retrocessos civilizatórios que de algum modo têm ressonâncias na clínica psicanalítica, temos visto no Brasil a proliferação de cursos de formação em psicanálise sem critérios metodológicos, com nítidos interesses mercadológicos, sem qualquer respeito pelo patrimônio herdado de Freud.

Por outro lado, diversas instituições e grupos psicanalíticos reconhecidos nacional e internacionalmente ao longo da história do movimento psicanalítico têm se mobilizado em torno dessa problemática e de seu efetivo enfrentamento, como o movimento Articulação.2 Chegamos ao ponto de estar em andamento no Ministério da Educação (MEC) um processo para regulamentar um curso de bacharelado em psicanálise, em formato virtual e já iniciado em fevereiro de 2022, oferecido por um centro universitário privado que pretende, portanto, certificar alunos com diploma de psicanalista.3

Ao apresentar o dossiê “Como se forma um psicanalista?” na revista Cult,Kupermann (2022a) destaca a apropriação indevida da psicanálise que aventureiros gananciosos e doutrinadores religiosos tentam fazer, como acontece na história do movimento psicanalítico há mais de um século. No artigo “Psicanálise silvestre”, publicado no mesmo ano da fundação da Associação Psicanalítica Internacional (IPA), em 1910, Freud comunica suas preocupações com a apreensão superficial e consequentemente equivocada das proposições psicanalíticas, a partir do relato do atendimento de uma paciente cujo encaminhamento é revelador de condutas eticamente incompatíveis com a psicanálise.

Nesse texto de 1910, são preciosos o vértice clínico, a escuta flutuante e, em especial, a ética psicanalítica - por exemplo, na consideração de Freud pelo médico que havia atendido a paciente anteriormente como um objeto interno. Freud não se deixa induzir pelo viés moral que a fala da paciente poderia suscitar, uma vez que ela relatava ter recebido orientações “psicanalíticas” esdrúxulas, simplistas, restritas à dimensão sensorial, concreta, corporal e comportamental, indicativas da ignorância em relação ao método psicanalítico e ao conceito básico de psicossexualidade.

Pelo vértice da psicanálise, a sensorialidade, o corpo, a realidade concreta são levados em conta como uma dimensão fundamental, porém em suas conexões com a experiência emocional, com o sentido do fluxo inconsciente dos afetos, o que remete à alta complexidade da função psicanalítica (Freud, 1900/1990d, 1891/2013).

Não é bastante, pois, para um médico saber alguns dos achados da psicanálise; ele deve também estar familiarizado com a técnica se ele deseja que seu procedimento profissional se oriente por um ponto de vista psicanalítico. Esta técnica não pode, no entanto, ser adquirida nos livros, e ela por certo não pode ser descoberta independentemente, sem grandes sacrifícios de tempo, de cansaço e de sucesso. Como outras técnicas médicas, ela tem de ser aprendida com aqueles que são experimentados nela. (Freud, 1910/1990f, p. 212)

Desprendido de ideias depreciativas da conduta do colega, Freud ponderou e tomou os disparates relatados como expressão da vulnerabilidade científica da psicanálise e do poder de influência de tais distorções na vida das pessoas.

Nesse sentido, a institucionalização da psicanálise decorre da preocupação freudiana com a identidade psicanalítica e com a qualidade de sua formação, implicando, essencialmente, uma ética clínica, de consideração pelo sofrimento humano relacionado a fenômenos emocionais inconscientes, inteligíveis a partir de um modelo de funcionamento mental e sensorial (neurológico) em que a configuração dos sintomas escapa à lógica da consciência. A nova concepção da mente humana revoluciona a noção de saúde mental, relativiza as noções de normalidade e patologia, e transcende o referencial organicista até então hegemônico no campo das ciências médicas.

Nem eu nem meus amigos e colaboradores achamos agradável reclamar um monopólio desse modo no uso de uma técnica médica. Mas em face dos perigos para os pacientes e para a causa da psicanálise inerentes à prática que se pode antever de uma psicanálise “silvestre”, não tivemos outra escolha. Na primavera de 1910, fundamos uma International Psychoanalytical Association (Associação Internacional de Psicanálise), a que seus membros declararam aderir, pela publicação de seus nomes, de maneira a serem capazes de repudiar a responsabilidade por aquilo que é feito pelos que não pertencem a nós e, no entanto, chamam a seu procedimento “psicanálise”. (Freud, 1910/1990f, p. 212)

Ocorre que, se por um lado a institucionalização da psicanálise promove seu desenvolvimento com princípios básicos para a qualificação ao exercício de sua função clínica, por outro, como não poderia deixar de ser, ao constituir grupos institucionais que se expandem por diversos países, passam a surgir divergências teóricas mescladas com disputas de poder político-institucional, como acontece em qualquer grupo humano. A coexistência de pontos de vista divergentes, o pluralismo, pode se tornar insustentável quando prevalecem encapsulamentos narcísicos nos grupos institucionais, transformando a divergência em guerra teórica.

Em “A história do movimento psicanalítico” (1914/1990c), Freud se refere novamente à fundação da IPA e à oposição de analistas que temiam restrições à psicanálise que poderiam advir de sua institucionalização. É interessante notar como as divergências de Freud com Adler e Jung diziam respeito a certas teorizações que desconsideram os pressupostos psicanalíticos básicos sobre o funcionamento mental inconsciente, com postulados de tom moral, distantes do vértice da psicanálise. Adler chegou a fundar outra instituição com o curioso nome de Sociedade de Psicanálise Livre, que acabou por não se desenvolver.

Com Lacan e o movimento lacaniano, são reforçadas as narrativas de que a IPA estabelece padrões para a formação não no sentido ético e científico pretendido, mas no sentido de imposições contraditórias à singularidade com a qual cada dupla deve desenvolver o processo psicanalítico. A padronização de critérios para a qualificação do psicanalista passa, assim, a ser vista por alguns como ingerência, autoritarismo, imposição de fatores externos ao processo da dupla analítica, infantilização, elitização.

Desse modo, constituem-se duas correntes de pensamento sobre o significado da regulamentação do modelo de formação da IPA, as quais coexistem até hoje, podendo ser descritas como 1) prudência na transmissão da alta complexidade da função psicanalítica, organizando e facilitando a experiência de imersão no método, e 2) ingerência institucional na imposição de regras contraditórias à construção singular esperada para cada processo psicanalítico individual.

Apesar do antagonismo entre essas tendências, há um aspecto consensual: a centralidade da mente do psicanalista como instrumento técnico para operar o método e, em razão disso, a relevância de sua análise pessoal.

Portanto, podemos refletir sobre a diferenciação entre clínica psicanalítica e clínica da formação psicanalítica, já que ambas se confundem. Com o termo clínica da formação refiro-me à análise pessoal e aos atendimentos clínicos realizados pelo analista em formação, previstos na regulamentação do modelo Eitingon.4 Esses processos psicanalíticos da formação - tanto no lugar de analisando como no lugar de analista - se desenvolvem concomitantemente às supervisões e aos seminários, a partir da procura, da disponibilidade e sobretudo da liberdade de escolha da pessoa interessada.

Cabe, então, indagar: por que a facilitação das condições para o desejado aprendizado de um conhecimento complexo, implicando um compromisso cotidiano com a experiência, passa a ser vista como uma espécie de coerção? Os pré-requisitos de alta frequência de sessões durante alguns anos de análise pessoal e atendimentos clínicos seriam uma interferência institucional restritiva à liberdade de escolha de quem procura essa formação? Por que a natureza singular de um processo psicanalítico estaria comprometida no modelo imersivo regulamentado, se o próprio analista em formação buscou essa organização curricular? Estaríamos todos, membros da IPA favoráveis ao modelo Eitingon, submetidos a um sistema alienante, dogmático, do tipo religioso?

Para a convivência grupai democrática, é imprescindível que normas e regras sejam estabelecidas de forma consensual e igualitária, publicadas de maneira acessível, publicação a que chamamos de regulamento e que funciona como continente para pulsões de vida e de morte em movimento dialético incessante (Quinodoz, 1992) - daí a observação de Freud de que o processo de formação depende de “grandes sacrifícios de tempo, de cansaço e de sucesso”, implicando frustrações e desidealizações. Fatores externos à relação psicanalítica associados ao regulamento institucional são levados em conta no setting clínico como objetos internos, por seus significados emocionais, sempre peculiares a cada dupla e a cada contexto psicanalítico particular, assim como qualquer conteúdo que surja na relação psicanalítica. Revisões e atualizações estatutárias acontecem no setting institucional, de acordo com o momento histórico, social e cultural.

A flexibilidade quanto a frequência de sessões, uso do divã, honorários, duração da análise etc. é recomendável para que haja uma inserção autêntica e criativa da clínica psicanalítica na sociedade contemporânea e em qualquer época, como proposto claramente por Freud em seus artigos sobre técnica, e por Melanie Klein na criação da psicanálise de crianças, que viabilizou o atendimento psicanalítico de psicóticos, como Freud (1937/1990a, 1905/1990h) já previa.

Podemos entender como clássica a flexibilidade do método da psicanálise quando consideramos que o próprio Freud demonstra sua aplicabilidade estendida a estudos culturais no campo da antropologia, das artes plásticas, da literatura, da religião, da mitologia, entre outros. Em “O Moisés de Michelangelo” (1914/1990e), por exemplo, o exercício metodológico criterioso na observação de nuances da escultura, levando a hipóteses bastante plausíveis acerca dos significados emocionais implícitos na expressão do artista, incluindo sua relação com o papa, indica a importância da perspectiva intersubjetiva, não restrita ao intrapsíquico. No caso clínico do Homem dos Lobos (1918/1990b), por sua vez, já encontramos a proposta de abreviar o tempo do processo psicanalítico como estratégia de manejo da resistência.

Garantias de desenvolvimento da função psicanalítica não são viáveis com ou sem regulamentação, em modelos menos ou mais flexíveis, em qualquer momento histórico, uma vez que cada dupla desenvolve o processo de maneira muito particular, a depender das condições pessoais e de variáveis da personalidade dos envolvidos, assim como das características únicas do respectivo campo intersubjetivo que se instala.

No modelo imersivo regulamentar, espera-se que as sutilezas da comunicação inconsciente e a inevitável resistência (do analisando e do analista) ganhem ritmo, intimidade e visibilidade favoráveis à elaboração de actings e enactments que podem estar a serviço de ataques ao vínculo.

No artigo “Notas sobre memória e desejo” (1967/1990), Bion recupera de maneira original e revigorante certas recomendações técnicas a princípio formuladas por Freud (1912/ 1990g), nas quais fica evidente a disciplina exigida pelo método psicanalítico para que se atinja um tipo de atenção qualitativamente bastante diferente das habituais funções psíquicas que envolvem memórias, desejos e intelectualizações. De acordo com Bion, “quando consideramos a quão pouca oportunidade mesmo cinco sessões por semana oferecem ao psicanalista, qualquer obstáculo à observação parece sério” (1967/1990, p. 33).

É sob esse ponto de vista que a infantilização do profissional interessado pela formação psicanalítica nos Institutos da IPA não se encontraria exatamente na regulamentação do processo, mas sim no ato de subestimar a capacidade de discernimento e de escolha daqueles que se identificam com o modelo. Sem dúvida, enrijecimentos, idealizações e submissões podem acontecer conforme as características de cada par analítico ou de cada momento institucional, porém não como fatores intrínsecos à regulamentação.

Quanto ao comprometimento da dimensão subversiva da psicanálise que decorreria da padronização da formação (Kupermann, 2022b), é possível reverter a perspectiva para observar que a alta frequência de sessões em geral intensifica o potencial de subversão do método, pelo compromisso assumido voluntariamente com a imersão nas dimensões inconscientes, em que o verdadeiro self pode tornar-se mais perceptível, assim como, analogamente, se espera de um neurocirurgião um compromisso imersivo similar em sua especialização. Subverter o compromisso intensivo com um método subversivo por natureza pode neutralizar seu potencial transformador.

Fonseca (2020) considera o “fantasma do autoritarismo” associado à ideia de infantilização dos analistas em formação - como se o regulamento de um Instituto da IPA fosse uma imposição e não uma opção. Ao explorar o fenômeno da “clínica vazia”, a autora formula questões instigantes:

Haverá apenas falta de interesse pela psicanálise por parte das pessoas, ou falta de divulgação dos objetivos da psicanálise, implícitos aí sua natureza e modus operandi?

Há falta de crença no método analítico, ou resistência a ele?

Há falta de estímulo à discussão sobre como formar uma clínica? Falta de apoio da instituição? Qual o grau de confiança da própria instituição no método analítico? Não há preparo para lidar com o paciente que reluta em começar análise, a não ser ceder?

Noto que muitos membros filiados têm uma clínica composta em grande parte por pacientes atendidos uma vez por semana... Qual a linha divisória entre a demanda do “mercado” e a falta de convicção? (p. 37)

A identidade da psicanálise, tão vulnerável a interesses mercantilistas pela própria natureza não sensorial de seu objeto de investigação, parece se fragilizar ainda mais quando o rigor metodológico é percebido como cerceamento no interior da própria instituição psicanalítica.

Nem tempo, nem dinheiro: a psicanálise como objeto interno

A epígrafe deste artigo deve-se ao entendimento de que Bion seleciona para a abertura de sua trilogia Uma memória do futuro (1975/1989) um diálogo representativo da complexidade da psicanálise, de sua natureza inefável e apreensível exclusivamente por meio de experiência própria, evidenciando o fenômeno da repetição do argumento temporal e financeiro como obstáculo ao trabalho psicanalítico, realçando o aspecto quantitativo dissociado de fatores emocionais e qualitativos.

Com a metáfora de um livro a ser lido, Bion deixa implícito o risco de a psicanálise ser apreendida superficialmente. Na argumentação “não tenho tempo nem dinheiro”, percebe-se a estereotipia, que, como qualquer repetição, adquire qualidade sintomática - nesse caso, da relação paradoxal com a psicanálise, na qual o desejo de analisar-se e de ser psicanalista pode ficar subjugado a fantasias onipotentes de realização mágica, sem custos, principalmente afetivos, o que equivale a inviabilizá-la.

A falta de tempo e de dinheiro em sua dimensão concreta obviamente não pode ser negligenciada, e adiante tratarei mais objetivamente desse relevante aspecto. Mas antes gostaria de observar o fenômeno recorrente pelo ângulo da identificação projetiva: a inevitável resistência emocional e a fantasia de faltar recurso psíquico diante do desconhecido, do estranho, do esquisito dentro de si podem ser identificadas projetivamente na concretude do necessário investimento financeiro e de tempo. Como distinguir a realidade psíquica da realidade factual, quando ambas são complementares, fusionadas?

Em outra oportunidade, propus a discussão sobre os três modelos de formação vigentes na IPA - Eitingon, francês e uruguaio - a partir de um estudo do Comitê de Educação da IPA publicado em 2006, que mostra em detalhes semelhanças e diferenças, fundamentos lógicos, reflexões críticas e contextualizações históricas na esteira do movimento lacaniano que permanece ativo nas instituições da IPA (Erlich, 2006; Gavião, 2014).

Os três modelos adotam o tripé análise pessoal, currículo didático e experiência analítica supervisionada, porém as principais diferenças decorrem do lugar ocupado pela análise pessoal do candidato. Enquanto no modelo Eitingon a análise didática é parte da formação institucional e realizada por um analista didata oficialmente reconhecido pela instituição, no modelo francês ela é colocada fora dos limites da formação, deixando de existir o termo análise didática. A análise pessoal do candidato do modelo francês acontece antes da sua admissão à formação, podendo ser feita com qualquer analista da IPA -numa das instituições pode ser feita até mesmo com analistas em formação. O modelo uruguaio, por sua vez, procurando superar a histórica concentração de poder em torno de um grupo de analistas didatas, criou quatro grupos especializados de analistas com diferentes funções - admissão, supervisão, análise pessoal e ensino -, também extinguindo a categoria de analista didata.5

No modelo Eitingon, o objetivo da análise pessoal é ocupar-se de estruturas defensivas, transferências, resistências, material infantil e estados mentais primitivos, desidealizando a psicanálise, a profissão, o que requer grande disponibilidade para quatro ou cinco sessões semanais, e a análise supervisionada de pacientes segue esses mesmos princípios. Limitações financeiras têm sido enfrentadas por meio de bolsas de fomento e projetos especialmente voltados a contorná-las, como será exemplificado no item seguinte.

A análise pessoal no modelo francês, realizada previamente ao ingresso na formação e sem vinculação direta com a instituição, tem o objetivo de elaborar as motivações para o ofício de psicanalista, sendo posteriormente avaliada em relação à aquisição de alguns requisitos, quando o interessado solicita o ingresso institucional. Ao pressupor objetivos analíticos a serem avaliados a posteriori, enquanto critérios para ingressar na instituição, não haveria interferência na singularidade do processo, mesmo que indiretamente?

No modelo uruguaio, se por um lado a frequência mínima de quatro sessões por semana para a análise de formação não permanece como exigência institucional (passando a ser de três sessões), por outro pode ser intensificada para cinco sessões em períodos mais regressivos, pressupondo-se que a imersão no setting analítico permite que o candidato tenha uma “postura madura” nos espaços institucionais públicos. Haveria o risco, aqui, de expectativas comportamentais pelo viés moralístico?

Nos comentários críticos do estudo do comitê da IPA (Erlich, 2006), encontramos reflexões interessantes. No modelo Eitingon, o desenvolvimento real pode ficar ofuscado pelos padrões normativos, ocorrendo “gravitação” em torno de figuras poderosas e carismáticas. No modelo francês, a preocupação diz respeito ao fato de a formação tornar-se extremamente longa, com muitos candidatos permanecendo por toda a vida como “satélites” da instituição, com poder concentrado na figura do supervisor. No modelo uruguaio, nota-se forte influência do referencial acadêmico de ensino e considera-se que os candidatos têm uma experiência temporária com análise intensiva durante a formação, reduzindo-a muito depois de graduados.

A diversidade de questões suscitadas pelo estudo comparativo dos três modelos de formação vai bem além dos poucos aspectos aqui selecionados, podendo ser vista mais detalhadamente no documento da IPA. Não havendo modelo perfeito, contando todos com vantagens, desvantagens e justificativas próprias, entendemos que a análise didática pode funcionar como oportunidade para uma análise pessoal aprofundada, desprendida de metas terapêuticas ou objetivos preestabelecidos voltados às questões da formação e da profissão, abordando esse tipo de conteúdo quando surgir espontaneamente, permitindo elaborações da psicanálise enquanto objeto interno, assim como os demais conteúdos associados livremente. A proposição metodológica é sempre a mesma: associação livre, atenção flutuante e auto-observação acrítica, tanto para análises de formação como para qualquer análise (Freud, 1900/1990d, 1912/1990g).

A idealização do objeto psicanálise e das instituições filiadas ou não à IPA pode encontrar-se na expectativa de obter desenvolvimento analítico sem “grandes sacrifícios de tempo, de cansaço e de sucesso”, como já observado. Considerando que a idealização e a inveja se configuram de modo inseparável, quando o objeto idealizado é a própria psicanálise (Caper, 2002), as dificuldades e frustrações que inevitavelmente se impõem podem gerar hostilidades ao setting clínico e institucional. Dito de outra forma, a reação terapêutica negativa pode ser compreendida como efeito da inveja (Gavião, 2014; Klein, 1957/1991a, 1946/1991b).

A impregnação, na análise de formação, de temas relacionados mais diretamente aos compromissos institucionais pode levar a dificuldades de diferenciar realidade material e realidade psíquica, nosso constante desafio. Um exemplo interessante disso aparece no caloroso relato intitulado “Inimigo da tarefa de curar”, citado na revista Calibán em 2012:

Quando comecei como analista didata e recebi em análise meu primeiro candidato, me dei conta de um absurdo: me peguei pensando na carreira desse candidato tanto ou mais que em seu tratamento. Por sua vez o candidato parecia mais preocupado com cálculos de quando entraria em seminários do que com o conhecimento sobre si mesmo... Desde esse primeiro dia, a maior dificuldade que encontrei na tarefa de analista didata é fazer da análise didática uma análise terapêutica. (Aberasturi, 1959, citada por Fainstein, 2012, p. 117)

Esse relato realça a importância de a função psicanalítica ser desenvolvida através da observação da psicanálise como objeto interno. Se o analisando fica absorvido por prazos e regras, mais do que o seu analista julga ser “terapêutico”, tem-se aí os elementos a serem analisados pelo vértice psicanalítico, como qualquer conteúdo que o analisando associe livremente, no campo transferencial e contratransferencial. Intersubjetivamente, podemos supor que a dupla analítica absorvida pelas dimensões concretas do regulamento institucional evolua para um provável enactment, no qual as angústias relacionadas a ambições profissionais gerem defesas que impeçam a investigação de suas raízes mais profundas.

Sandler (2012) observa que as justificativas de Freud para fundar a IPA não parecem elitistas, autoritárias, nem “reserva de domínio” ou “tombamento científico”. Diante da multiplicação de analistas selvagens, a autora prefere utilizar o modelo da preservação ambiental de uma área em que os recursos naturais vitais, ainda pouco explorados, precisam de cuidados criteriosos, o que não impede o seu desenvolvimento e o acesso aos interessados.

Capitalismo selvagem: formação psicanalítica e responsabilidade social

Penso que a existência de armas atômicas mobiliza e atualiza o que eu descrevi como o mundo do esquizofrênico, em que ocorre uma obliteração dos limites entre realidade e fantasia, característica da psicose.

A onipotência se tornou real, mas apenas a onipotência destrutiva. Podemos realmente aniquilar o mundo ao apertar um botão, ao passo que, se em fantasia podemos também onipotentemente reconstruí-lo, na realidade não podemos fazê-lo.

HANNA SEGAL, Psicanálise, literatura e guerra

A psicanalista Hanna Segal deixou um verdadeiro exemplo de engajamento em movimentos sociais pacifistas, sem comprometer o rigor do vértice psicanalítico em suas interlocuções intra e interdisciplinares, com participação bastante ativa na causa antiarmamentista. Suas preocupações com o arsenal atômico infelizmente continuam muito pertinentes, à medida que cresce o risco de guerra nuclear, uma vez que os incríveis avanços tecnológicos conquistados pela humanidade não se integram aos conhecimentos sobre a destrutividade humana, para os quais a psicanálise tem efetivamente muito a contribuir.

Os indicadores econômicos têm mostrado um crescimento da desigualdade social, não apenas no Brasil como em diversos países, revelando que a voracidade e a concentração de renda que caracterizam o sistema capitalista contemporâneo têm alcançado níveis associáveis à selvageria. A violência urbana e rural tem aumentado de maneira substancial, conforme cresce a licença para a circulação de armas de fogo e o lucro de empresas produtoras de armas.

Com a pandemia de covid-19, a importância do Sistema Único de Saúde (sus) e do sistema público educacional tornou-se mais evidente, assim como a desconstrução a que vêm sendo submetidos por uma deterioração ética nas instituições. Quando os investimentos financeiros se voltam prioritariamente para os interesses de setores privados, numa perspectiva imediatista e elitista, não é apenas a população mais pobre que sofre, mas toda a sociedade, já que o conhecimento científico mais sofisticado depende de projetos de pesquisa tradicionalmente desenvolvidos por cientistas das universidades públicas, regidas pela ética do compromisso científico indissociável da responsabilidade social.

Como paralelamente à clínica privada trabalhei por cerca de 20 anos numa instituição pública, o Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo, diversas pesquisas e intervenções de orientação psicanalítica lá realizadas permitiram constatar a viabilidade da clínica psicanalítica estendida a settings não convencionais, porém considerando o setting clássico (alta frequência) o ponto de partida imprescindível para tal extensão (Gavião, 2003, 2005; Gavião et al., 2004). A chamada clínica extensa, como o próprio nome diz, é a extensão de um modelo original - no caso, o Eitingon.

Em 1918, no 5o Congresso Internacional de Psicanálise, em Budapeste, Freud se posicionou favoravelmente ao engajamento de psicanalistas nas clínicas públicas de atendimento à população fragilizada por traumas da Primeira Guerra Mundial, como destacado na abertura do 28° Congresso Brasileiro de Psicanálise, em março de 2022, na conferência da pesquisadora Elizabeth Ann Danto. A perspectiva dos direitos humanos e valores democráticos inerentes à ética da psicanálise amplia sua acessibilidade à comunidade de baixa renda, e não deve ser confundida com filantropia (Danto, 2019).

Na década de 1960, Virgínia Leone Bicudo,6 psicanalista da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo (SBPSP), pioneira em diversos projetos institucionais e sociais, criou um ambulatório de psicanálise de alta frequência voltado a pacientes desprovidos de recursos financeiros, junto com os então chamados candidatos - hoje, membros filiados - do Instituto Durval Marcondes da SBPSP, para que pudessem praticar psicanálise e completar sua formação clínica, e para que a instituição firmasse seu compromisso social, indispensável a qualquer entidade científica.

Ao mesmo tempo e de maneira integrada à formação no Instituto, a clínica de alta frequência com pacientes economicamente desfavorecidos viabiliza a extensão dos benefícios desse modelo de análise para além das elites econômicas, ou seja, o aprofundamento na experiência psicanalítica é reconhecido como um direito social e um compromisso ético da instituição.

Muito se discute a respeito do caráter elitista da psicanálise e, em especial na realidade do Brasil, a SBPSP é percebida socialmente como uma instituição de elite, no sentido de restringir o ingresso à formação em seu Instituto a profissionais economicamente privilegiados. No entanto, na conjuntura brasileira, o acesso à educação universitária, a cursos de pós-graduação e a especializações é historicamente um privilégio das classes mais abastadas, ou seja, a elitização do ensino no país não é um problema circunscrito à formação psicanalítica nos Institutos da IPA, tratando-se de um problema estrutural, que aparece desde os níveis educacionais básicos.

Em seu ensaio para o mencionado dossiê da revista Cult,Paim Filho (2022) se refere à questão da exclusão racial, atrelada à provável ideologia brancocêntrica silenciada da psicanálise. O autor destaca o apartheid enquanto denúncia dos aspectos racistas do universo psicanalítico. “Não existe democracia em territórios racistas”, afirma Paim Filho, explicitando a realidade do longo caminho a percorrer até uma democracia mais efetiva e um sistema educacional e de formação psicanalítica socialmente mais justo.

Medidas para maior inclusão no Instituto Durval Marcondes da SBPSP têm sido tomadas, como o Projeto Análise Didática, pelo qual análises de alta frequência são oferecidas a preços acessíveis a analistas em formação, e o Projeto Virgínia Bicudo, voltado à maior inserção de pessoas negras, indígenas e refugiadas na formação do Instituto.

De qualquer forma, a democratização da psicanálise pode ser pensada em seu sentido mais propriamente clínico e terapêutico, e não apenas no sentido da inclusão na formação, como tem sido mais destacado.

Os dados estatísticos dos formulários de inscrição de pacientes no Centro de Atendimento Psicanalítico (CAP) da SBPSP (predominantemente de baixa renda) referentes à questão introduzida em 2020 sobre o interesse por alta frequência mostram que 49% dos pacientes se interessam, 44% não se interessam e 7% talvez (ver anexo). Por mais que refinemos a investigação, chama a atenção a recorrência dessa proporção praticamente meio a meio, com quase metade dos pacientes inscritos manifestando interesse e pouco menos da metade não manifestando interesse.7

Os dados apontam a necessidade de repensar a premissa (ou preconceito) de que não haveria demanda da comunidade de baixa renda (ou de qualquer nível socioeconômico) para alta frequência, assim como a necessidade de rever certa tendência institucional de oferecer à comunidade economicamente desfavorecida preferencialmente modelos clínicos de baixa frequência. A disponibilidade para projetos sociais, para oferecer análise e supervisão a preços acessíveis, e a busca de parcerias para a obtenção de financiamentos podem significar avanços na questão da responsabilidade social.

Com base nessas estatísticas, em janeiro de 2022 criamos o Serviço de Atendimento em Alta Frequência (Saaf), com a participação de membros filiados do Instituto e supervisores da SBPSP, na mesma linha do modelo imersivo instituído originalmente por Virgínia Bicudo (que se diluiu ao longo dos anos), uma vez que ele se mostra bastante funcional para as demandas atuais.

A clínica psicanalítica contemporânea - particular ou pública - e suas configurações borderline, compulsões e somatizações impõem manejos de setting muitas vezes incompatíveis com a alta frequência de sessões, exigindo uma construção bastante gradual do vínculo analítico para chegar a maior intimidade. Assim, desconfigurações ou novas construções de setting condizentes com as demandas da clínica contemporânea não devem ser confundidas com o setting da clínica da formação psicanalítica. Caso contrário, trabalharemos com as demandas para a formação psicanalítica sem diferenciação em relação às da clínica borderline.

A estereotipia das padronizações parece estar muito mais relacionada à falta de flexibilidade dos psicanalistas para apreender a realidade psíquica de maneira livre e criativa do que aos modelos de formação em si. Patrick Guyomard, renomado psicanalista francês que conviveu por alguns anos com Lacan, em sua conferência na plenária de encerramento da 7ª Jornada Lacan na IPA, realizada na SBPSP em 2014, comentou sobre o fato de que, na França, ser lacaniano tornou-se um standard caracterizado por análises com sessões curtas (em vez de sessões de tempo variável, como originariamente foi proposto nesse modelo) e salas de espera com sete a oito pacientes. No Brasil há relatos semelhantes.

Chegamos, assim, à problemática da psicanálise como mercadoria, dentro das próprias instituições e clínicas psicanalíticas. No modelo lacaniano, como observa Guyomard, as sessões psicanalíticas foram adquirindo o padrão de curta duração, com o consequente aumento do número de pacientes atendidos, o que pode resultar em aumento de honorários. Em modelos clínicos da IPA, em que o tempo padronizado das sessões varia de 45 a 50 minutos, a diminuição da frequência semanal também favorece o agendamento de um número maior de pacientes, reduzindo o custo mensal para os analisandos e podendo aumentar a renda dos analistas.

Vê-se que a desregulamentação da análise de formação não necessariamente evita a tendência de aderir a padrões estereotipados de conduta profissional, incluindo padrões antiéticos e mercantilistas, como ocorre em qualquer vertente psicanalítica. Como seres humanos no capitalismo selvagem, os psicanalistas não escapam à lógica do ganho financeiro, que por si só evidentemente não é ilegítima, mas torna-se eticamente duvidosa quando se sobrepõe às proposições psicanalíticas.

Pertencendo a uma instituição não vinculada à IPA, Guyomard comentou, na mesma plenária, que conhece colegas lacanianos que nunca leram Freud, em razão do tempo dedicado integralmente à leitura de Lacan, e que não tiveram tempo em sua análise pessoal para analisar sonhos e questões transferenciais, devido à prática disseminada de sessões curtas.

Yang transmite com precisão o desafio da construção da identidade psicanalítica na cultura chinesa, como em todas as culturas:

Especialmente nesta era de supervalorização da satisfação das necessidades materiais, as atividades culturais do tipo fast-food tendem a ser mais populares. ... A psicanálise pode tornar-se um tópico de conversa das pessoas durante o seu tempo de lazer. Contudo, o aspecto único e profundo do pensamento psicanalítico e suas teorias sistemáticas, assim como o longo e rigoroso processo de formação, constituem--se em algo de difícil digestão para as pessoas do mundo de hoje. (2013, p. 240)

Sendo possível transcender as dinâmicas de polarização entre clínica psicanalítica imersiva e clínica extensa, suas tonalidades fundamentalistas, reconhecendo a validade de ambos os modelos conforme o contexto, quem sabe a hipocrisia institucional pode se atenuar e a psicanálise silvestre ser analisada mais profundamente dentro de cada um de nós.

2O movimento Articulação das Entidades Psicanalíticas Brasileiras foi criado em 2000, em reação à oferta de cursos de formação supostamente psicanalítica, baseados em propaganda enganosa, tratando também de várias questões relacionadas à especificidade do campo psicanalítico.

3Trata-se da instituição Uninter, reconhecida como centro universitário pela Portaria MEC n° 688, de 28 de maio de 2012, com autonomia para abrir cursos de graduação e, após um período de 50% de cumprimento de sua carga horária, solicitar ao MEC a validade nacional dos diplomas.

4Adotado originalmente pela IPA, esse modelo de formação - denominado Eitingon em alusão a seu principal articulador - põe em relevo um tripé para a formação psicanalítica: análise pessoal de alta frequência, experiência supervisionada de atendimento em alta frequência, além de seminários teóricos e clínicos. As atuais questões relacionadas ao atendimento online imposto pela pandemia de covid-19 não são diretamente tratadas aqui por limites de espaço e por constituírem um novo e recente campo de investigação, a ser elaborado mais profundamente.

5O termo análise didática tem sido repensado mais amplamente (Foster & Altman, 2019; Francischelli, 2016; Menezes et al., 2013), chegando-se a alguns consensos quanto à maior adequação do termo análise de formação, utilizado por Freud em “A história do movimento psicanalítico” (1914/1990c), suavizando a conotação de rigidez pedagógica, que destoa da função psicanalítica.

6Virgínia Leone Bicudo (1910-2003), socióloga, negra, foi a primeira psicanalista sem formação médica no Brasil, tendo iniciado sua análise com Adelheid Lucy Koch, primeira analista didata credenciada pela SBPSP e pela IPA. NO universo acadêmico, Bicudo é uma referência amplamente reconhecida por seu estudo pioneiro sobre racismo.

7Trata-se da questão n° 5, recomendada pela Comissão de Ensino: “Oferecemos também o atendimento de três a quatro vezes por semana, mantendo-se o mesmo valor mensal. Você gostaria de ser encaminhado para esse tipo de atendimento?”.

Anexo

CAP-SBPSP

Interesse por alta frequência (1/2020 a 7/2022)

Mês/ano Sim Não Talvez Total de pacientes % de pacientes interessados % de pacientes não interessados % de pacientes talvez interessados
Jan/20 10 4 1 15 66,67% 26,67% 6,67%
Fev/20 11 7 1 19 57,89% 36,84% 5,26%
Mar/20 3 1 1 5 60,00% 20,00% 20,00%
Abr/20 Atendimentos suspensos devido à pandemia de covid-19
Mai/20 10 10 2 22 45,45% 45,45% 9,09%
Jun/20 6 6 1 13 46,15% 46,15% 7,69%
Jul/20 5 4 1 10 50,00% 40,00% 10,00%
Ago/20 7 8 2 17 41,18% 47,06% 11,76%
Set/20 11 10 1 22 50,00% 45,45% 4,55%
Out/20 12 5 2 19 63,16% 26,32% 10,53%
Nov/20 7 7 1 15 46,67% 46,67% 6,67%
Dez/20 4 3 3 10 40,00% 30,00% 30,00%
Jan/21 7 5 2 14 50,00% 35,71% 14,29%
Fev/21 9 15 2 26 34,62% 57,69% 7,69%
Mar/21 12 7 1 20 60,00% 35,00% 5,00%
Abr/21 10 8 1 19 52,63% 42,11% 5,26%
Mai/21 7 11 4 22 31,82% 50,00% 18,18%
Jun/21 13 4 1 18 72,22% 22,22% 5,56%
Jul/21 2 6 0 8 25,00% 75,00% 0,00%
Ago/21 7 12 0 19 36,84% 63,16% 0,00%
Set/21 10 10 1 21 47,62% 47,62% 4,76%
Out/21 6 7 0 13 46,15% 53,85% 0,00%
Nov/21 12 4 0 16 75,00% 25,00% 0,00%
Dez/21 1 4 2 7 14,29% 57,14% 28,57%
Jan/22 5 9 1 15 33,33% 60,00% 6,67%
Fev/22 12 7 2 21 57,14% 33,33% 9,52%
Mar/22 4 8 0 12 33,33% 66,67% 0,00%
Abr/22 6 5 0 11 54,55% 45,45% 0,00%
Mai/22 4 4 1 9 44,44% 44,44% 11,11%
Jun/22 12 8 0 20 60,00% 40,00% 0,00%
Jul/22 1 4 1 6 16,67% 66,67% 16,67%
Total geral 226 203 35 464 48,71% 43,75% 7,54%

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Recebido: 26 de Agosto de 2022; Aceito: 09 de Setembro de 2022

Ana Clara Duarte Gavião gaviaoanaclara@gmail.com

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