Construa seus próprios sonhos ou alguém vai contratá-lo para construir os seus.
FARRAH GRAY
Para este ensaio, tratarei de construir um “sonho”. Tenho recebido mensagens difíceis anunciando a perda de colegas, assim como mensagens convidando para conversas científicas, culturais, políticas, que parecem poder vir a dialogar com minhas paixões – leia-se, psicanálise clínica. A carta-convite da rbp para enviar artigos sobre o tema da formação é a base do pensamento latente deste sonho. Vamos a ele.
Um grupo de analistas estava na praia. Não conheço nenhum deles. Eu não tinha voz e sabia que eles não me viam. Não era importante se eu era visto. Falavam apaixonadamente. Dois deles pareciam liderar a conversa. Um chamou o outro pelo nome – Jaques e Willian. Eram amigos. Conversavam civilizadamente sobre o instituto de psicanálise e a sua formação.
JAQUES: Por que será que chamaram de formação esse processo de vir a ser psicanalista?
WILLIAN: Verdade, são muitas variáveis. Em inglês é treinamento ou treinando (training). Tenho a impressão de que seria melhor pensar em outro nome ou título para esse processo. Todos podemos chegar à instituição para a formação com uma tendência, uma certa capacitação, que pode ser maior ou menor, para sentir/escutar o outro, sensibilizar-se com a dor, querer ajudar, ou seja, quase uma disposição a se voluntariar para lidar com sofrimentos. Por isso, vejo que treinar essa potencial capacitação também pode ter a ver com a formação.
JAQUES: E quanto à noção de formação?
WILLIAN: Não creio que seja algo que possa ser formado. A tarefa a que me refiro é a de fazer aparecer essa função compromissada com o método e a técnica psicanalítica. No Instituto buscamos suas matrizes para treiná-las e vir a desenvolvê-las, mas desafortunadamente ou chegam com o candidato ou dificilmente podem ser criadas.
JAQUES: Tudo bem, não é uma discórdia, mas acho que cabe sim a ideia de formação. Porém acrescentaria: no sentido que Piera Aulagnier (1989) construiu com a noção de aprendiz de sapateiro.
WILLIAN: Estamos falando da análise do analista? Ou de alguém que tem um saber e vai transportá-lo para seu discípulo?
JAQUES: Bom ponto. Não era isso que eu focalizava. É um desastre essa equação mestre-discípulo para a formação. E aí minha correção: vir a se tornar psicanalista não é deixar-se domesticar em um discípulo.
WILLIAN: Aprender para mim é um ato do indivíduo, uma disposição para lidar com sua ignorância. Por isso tenho essa prevenção quanto à ideia de aprendiz. O aprendiz de sapateiro, diferentemente do aprendiz de historiador, tende a abolir o preexistente do indivíduo, por vezes deforma a fôrma, nem chega a re-formar, pode não conseguir desin-formar, como escreveu Kernberg (1996/1998), citando 30 maneiras de chegar a tais deformações. Na de-formação, por exemplo, podemos criar uma espécie de igreja que se instala na boa vontade, na ingenuidade e na idealização do analista iniciante. Tendo dificuldades emocionais, ele pode se alojar em um grupo – melhor: em um ideal de grupo, como Freud (1921/1969b) destacou desde Le Bon. Esse aprendiz tende a ficar limitado pelo universo de seu tutor/dono e pode não vir a conquistar uma identidade psicanalítica voltada para a clínica, acomodando-se com massagens narcísicas em palestras sobre teoria sem experiência, em conferências temáticas sem libido, na TV participando da espetacularização da dor do outro, dando shows de ser o oráculo, ou em outras ocupações que não a transmissão psicanalítica. Não tenho nada contra essas atividades; são maneiras de sobrevivência individual. No entanto, elas se afastam do principal meio de transmissão psicanalítica: a clínica. Certamente Freud teve que espetacularizar seus achados. Hoje em dia, considerando a superficialização do conhecimento, esses shows acabam mais por alimentar reações anti-psicanálise do que por atrair interesse genuíno. Vivemos de maneira intensa a era do anti-pensar.
JAQUES: Pois bem, devemos considerar que a identidade profissional está sempre sendo moldada e que o aprendiz quer aprender, não? Não é obrigatório seguir esse roteiro? Acho que você está se referindo aos desvios, não à proposta. Penso que também no seu training pode acontecer a formação de uma identidade. Pode existir transmissão no contexto da mídia. Ou não?
WILLIAN: Pode sim, mas o psicanalista que faz essa transmissão deve pôr em primeiro plano a investigação do sofrimento, base do método psicanalítico. Assim, estaria compromissado com o sofrimento do outro, não com os aplausos que pode receber. Se aplicarmos isso ao Instituto, temos que considerar a coerência de também investigar as dores do candidato, sua verdade individual.
JAQUES: Totalmente de acordo contigo. Temos que criar condições para formar a identidade psicanalítica dos nossos candidatos, que em sua maioria chegam “psicanalistas” para a formação.
WILLIAN: Não são todos. Mesmo os que têm muita experiência e conhecimento teórico se beneficiam da análise pessoal consistente. Além disso, não conceberemos a pretensão de formar uma identidade. Se assim o fizermos, já não trabalharemos com o psíquico, mas com a criação de seitas cegas. A vida de uma pessoa feita desde seu fenótipo modulado pelo ontogênico, e por muitos fatores que se precipitam para formar a personalidade, precisa ser considerada no processo de aquisição da identidade psicanalítica, não acha?
JAQUES: E não é isso que ocorre no período da formação? Escola inglesa, alemã, francesa, norte-americana, latino-americana etc. “Paixões” por coordenadores, por supervisores, pelo analista. Paixões positivas ou não. No desenvolvimento do adolescente, não se formam subgrupos? Não se aceitam ideais sem crítica, apoiando-se completamente na simpatia e na afinidade emocional, processos identificatórios temperados por estados maníacos?
WILLIAN: Sem dúvida, precisamos ter analistas responsáveis pela análise de novos analistas. Claro, são pessoas falíveis. Além do mais, têm que lidar com pessoas de outra geração, que desembarcam no Instituto com configurações diversas. Há analistas que nem sempre atualizam sua percepção do que estão fazendo. Muitas vezes agem como muitos pais que vemos por aí, criando aristocratas arrogantes. Por isso acho importante, como Freud recomendou, que os analistas passem por nova análise. Aqueles que buscam um título, como se fosse um mestrado, uma pós-graduação ou mesmo uma profissionalização, são os que mais precisam do compromisso psicanalítico de seu analista. Em geral, fazem análise para cumprir um protocolo. Com frequência, procuram apenas ter a grife ipa para chancelar o título.
JAQUES: Nisso concordamos. Acho que a distorção da interface com comunicações em redes sociais e modismos pode estar nos afastando da nossa principal razão de ser enquanto Instituto: formar clínicos. A conhecida psicanálise-espetáculo, que desembarcou com Freud na Clark University, me parece não ter mais lugar. Procurando não ser pessimista, creio que vivemos tempos de banalização do saber pela superficialização associada à arrogância. Esse caldo fica ainda mais viscoso porque não tem aparecido nada que seja espetacular, que cause um impacto significativo na cultura para competir com o tecnológico. Em termos da grande mídia, temos vivido um sensacionalismo das catástrofes, em que a tal felicidade consumista, que cria falsos ideais, está severamente ameaçada por pandemias e/ou guerras. O sucesso das ideias contidas no livro do historiador Yuval Noah Harari (2015) não se instalou, a esperança da prosperidade e do acesso universal às benesses está questionada, e o trabalho com a insanidade se tornou ainda mais central.
WILLIAN: Você tocou em pontos importantes. Para ampliar nossa conversa, quero acrescentar no modelo do aprendiz de sapateiro a questão da neurose transferencial na análise do analista. Refiro-me às vicissitudes da idealização em folie à deux, à mútua alimentação que acontece quando o analisando endeusa seu analista e o analista se nutre disso. Quantos por aí não se tornam clones de seus “gurus”, a ponto de assumir seus maneirismos e defender conflitos que mal entendem, que não lhes pertence. Como no sensível filme O carteiro e o poeta (Radford, 1994). O personagem Mario Ruoppolo, filho de pescador, não quer seguir os passos do pai e ser pescador; quer antes sair das restrições da limitada ilha italiana em que vive. Ele encontra no poeta Pablo Neruda uma potencial porta de saída, torna-se um aprendiz de poeta. Disfarçado de carteiro busca seus sonhos com a sã influência do poeta.
JAQUES: Nessa ficção a que você se refere as coisas são de outra ordem. O pescador exige do filho que siga o único caminho que conhece, e que vive sem investimento, sem vibração. Já o que quero focalizar com o aprendiz de sapateiro diz respeito à possibilidade de adquirir caminhos escolhidos, com o anseio de aprender uma técnica, como trocar o salto sem deixar que o prego incomode a sola do pé. Aprende-se a costurar sobre o rasgo. Aprende-se a colorir o couro. Aprende-se a realizar as tarefas.
WILLIAN: Também se pode aprender, sem notar, que se tem uma pretensa verdade. Aprende-se que estar tutelado cria uma aura de prestígio grupal. Nossa, Jaques! Obrigado. Você tem razão. Eureca! Isso acontece em qualquer um dos modelos, acabo de me dar conta. Não é uma questão semântica ou de diretrizes escolásticas; é o compromisso com a pessoa, o respeito consigo mesmo.
JAQUES: Não fiz nada. Acho que você também me fez ver que insistir em um pseudomodelo é colocar temas centrais em segundo plano. Concordo com você: isso acontece de qualquer forma. Uma formação deve conter a esperança de criar algo que não existia, encontrar seu eu/self dentro do que foi uma escolha.
WILLIAN: Essa nova forma talvez seja algo próximo do que quero dizer com uma “função analítica like” que precisa ser desenvolvida, treinada.
JAQUES: Com uma coisa concordamos: a concepção da proposta – formação –não é adequada. Propus aprendiz. Você não gostou.
WILLIAN: Não. Não critiquei a busca por aprender, aprender sempre. Critiquei a questão do paternalismo ingênuo e egocêntrico, do tomar posse do outro. Quero crer que os que agem assim não o percebem. Estão severamente envolvidos em seus propósitos pessoais. Nem olham para o que estão fazendo. Por vezes seu universo de intenções não sofre um escrutínio, o que em Sociedade precisa ser feito periodicamente.
JAQUES: Desculpe, mas isso também é pretensão. Constituir um senso crítico útil depende de inúmeros fatores. Apenas não entendo por que centrar tudo na análise didática (aliás, outro termo ambíguo). Pensando em seu ponto anterior – ou seja, o perigo de o analisando assimilar partes complicadas da personalidade do analista – e ao mesmo tempo na análise como central, absoluta e irremediável, não há aí uma contradição? Você não estaria criticando exatamente o que propõe? Você não fica com cara de conservador?
WILLIAN: Quando digo que a análise do analista é essencial, central, é para colocar ênfase na ética.
JAQUES: Aceito esse argumento. Você acha que pode existir outro caminho?
WILLIAN: Na história da medicina, há um episódio que pode nos servir. Na Idade Média, alguns cirurgiões estavam encafifados com a diferença de mortalidade entre duas enfermarias de pós-operatório que recebiam pacientes com condições pareadas, operados pelas mesmas equipes. Em uma os pacientes morriam mais frequentemente que na outra. Precisou de um século para entenderem que a diferença estava no fato de que a enfermaria em que morriam menos pós-operados tinha uma pia com água e sabão. Será que podemos pensar na análise do analista não como uma central obrigatória, mas como esse único e potencial instrumento capaz de diminuir o desperdício da vida? Caso você possa me apresentar outro instrumento capaz de substituí-la, eu sem dúvida poderei reconsiderar minha afirmação.
JAQUES: Claro que temos outros. A supervisão. A aceitação da clínica do analista. Colecionar bons resultados (resultados psicanalíticos), publicar-se, assumir tarefas institucionais.
WILLIAN: Não me parecem outras coisas, outros parâmetros. Quando acontecem, são evoluções da análise do analista. Do contrário, vão evidenciar dificuldades outras.
JAQUES: Bom, se você atribuir a vida na Terra à existência do Sol, ou se reduzir todo o seu argumento em prol de uma reserva de mercado confortável para a clínica particular… É como se estivesse dizendo que, tendo candidatos com alta frequência, não seria preciso mais nada – a instituição faria o trabalho de trazer os pacientes.
WILLIAN: Meu caro, você deveria saber que os candidatos não vêm ao encontro do analista por força institucional. Em geral, chegam à instituição com conhecimento dos membros, da atitude dos analistas. Desculpe, mas não se trata de interesse pessoal. Pensei que nossa conversa estava sendo marcada pelo compromisso com a psicanálise, e não com nossa breve passagem por esta vida. Nossa paixão deve permanecer. Creio que existe sim uma gratidão aos seus criadores, àqueles que deixaram boa parte de sua vida para fazer nascer essa nossa paixão, aos que nos ajudaram e toleraram nossas limitações, mas nossa gratidão pode se processar pelo manejo do conhecimento com as pessoas que sofrem, com o compromisso ético. Os analistas não deveriam procurar visibilidade. Nós, analistas, procuramos ser úteis e criar relações verdadeiras, principalmente com nós mesmos. Disso você não discorda.
JAQUES: Não, claro que não. Vou aproveitar as ideias de Glas (2021) também como método para nossa conversa. Para mim, a ética psicanalítica tem relação com sustentar os espaços transitórios, manter-se dentro da busca de um vir a saber conjugado à capacidade para tolerar o não saber, de forma a não saturar a mente. Entendo bem quando você diz que não devemos assumir uma posição dogmática, mas temos nossa família analítica (Bolognini, 2008). Como desmontá-la em nome de não influenciar? Parece ingênuo.
WILLIAN: Não podemos deixar de ser o que somos, mas podemos priorizar o paciente/candidato mais que nossas necessidades de confirmação do “acerto” de nossas escolhas.
JAQUES: Vamos ao tema das análises de alta frequência. Sinto que para certos pacientes quatro sessões semanais são sufocantes; outros, vejo que viriam sete vezes na semana. Como analistas, devemos estar alinhados com as capacidades do analisando. A meu ver, uma imposição não tem mais lugar algum agora. Precisamos acompanhar a mudança dos tempos.
WILLIAN: Veja bem, como você pode atribuir a noção de evolução quando propõe que afrouxemos, no que concerne ao essencial, o preparo de um analista com medidas condescendentes, que indicam falsos confortos? Que evolução você vê nisso? Que alternativa propõe? Afrouxar é simpático – é a tendência nas escolas, nas famílias, nos escritórios. O arsenal tecnológico de nosso tempo facilita muito a vida por um lado, mas escraviza por outro. Sendo bem simplório: será que em nome do “agradável” não estamos descaracterizando nosso método?
JAQUES: Claro que não! Procuro considerar a pluralidade da informação pós-internet, os movimentos culturais que combatem diversos equívocos históricos (como a questão racial e a condição das mulheres), a aceleração da vida nos centros urbanos, o burnout, as questões das minorias e da identidade de gênero, a discussão politizada das cotas. Freud via pacientes que andavam alguns quarteirões até sua clínica. Hoje alguns analisandos viajam uma noite inteira e não conseguem saúde econômica para ter uma história no Instituto que não inclua a loucura do quase burnout. Na pandemia, as sessões online mostraram como esse fator colaborou para diminuir a falta às sessões, como contribuiu para o analisando sentir-se menos submetido, como criou mais condições para comunicar que não há o rei e seus súditos.
WILLIAN: Você acabou de me oferecer outro ponto que ajuda na minha argumentação: as facilitações imediatistas. Veja bem, meu amigo, penso que oferecer o que temos de melhor não é criar sujeição. Concordo que isso custa dinheiro, deslocamento, ausência familiar, limitação de lazer e tantas outras coisas, mas qualquer desenvolvimento implica custos. Sem dúvida, um futuro analista, chancelado pela ipa, não pode deixar de ter a fascinante e organizadora experiência de ter se submetido a uma análise consistente. É o que realmente difere dos outros grupos que também “formam” analistas.
JAQUES: Não sou contra a análise do analista. Parece que estamos discutindo qual é a verdadeira psicanálise. Isso deveria ser assunto do século passado. Do contrário, continuamos combatendo inimigos que de fato não são nem nocivos nem – como nós – donos da verdade. Eu vejo um Instituto mais livre, mais integrado às mudanças de nosso tempo, saindo de “ortodoxismos”, de obrigatoriedades que não fazem mais sentido, nem têm mais lugar nesta nossa realidade.
WILLIAN: Escuto isso há pelo menos 30 anos. A meu ver, esse discurso parece uma maneira de superficializar o que precisa ser oferecido em profundidade e consistência. Veja, estou dizendo oferecido. O candidato a psicanalista deve sentir que está em um contexto firme, bem pensado, sustentado, e que as “identificações” com professores, palestrantes e outros que conhecem através da Sociedade têm um melhor destino quando levam à assimilação das qualidades, e não à imitação estereotipada. Numa aula inaugural proferida por Odilon de Mello Franco Filho há alguns anos, ele salientou sua gratidão à sbpsp e aos seus membros. Não foi uma colocação “educada”, mas sincera. Os candidatos precisam ter a oportunidade de sentir uma adequada pavimentação da paixão pela psicanálise, um caminho a seguir, uma vez que manifestam o desejo de exercer essa impossível ocupação, que requer libido, persistência, busca interminável pelo conhecimento e treinamento para a função.
JAQUES: Também escuto isso há décadas, mas esse esquema não está funcionando bem. Hoje em dia, em geral, não temos mais, por exemplo, pacientes de alta frequência, menos ainda candidatos. Acho que você concorda comigo que, atualmente, os candidatos chegam à instituição em condições piores que antes. O ciclo de prestígio da psicanálise anda claudicando, e as dissidências internas estão mais aguçadas. Vemos que a necessidade de criar um fato novo, que gere impacto, que você chamou de raso, vai se avizinhando. O que fazer? Manter padrões que os candidatos não podem assumir? Insistir em formar analistas como nas décadas de 1970, 1980 e 1990? O que você propõe?
WILLIAN: Esse é um ponto importante, um assunto delicado. Voltemos ao ponto inicial: se hoje existe a robótica para algumas cirurgias, não precisamos estudar anatomia? A propedêutica médica avançou muito. Não há mais necessidade de pôr a mão no paciente? Realmente, tenho pena de uma pessoa que não teve a experiência de uma análise consistente e vai se trancar em uma sala com gente sofrendo com sua vida emocional. Quem não passou por isso terá, sem sombra de dúvida, muito mais dificuldade de alcançar o psíquico de seus pacientes. E talvez por esse motivo tenda mais a se prender à influência das redes sociais, ao desempenho escolar, do que a investigar, por exemplo, a violência. O que estou dizendo pode parecer conservador, mas são tantos os caminhos do artificialismo que só podem ser vistos se houver coragem para enfrentá-los. Isso não quer dizer que um pai não possa ser agradável, nem que uma mãe não possa querer ter a mesma potência econômica do marido.
JAQUES: Pois é, a análise do analista obrigatória e engessada funciona da mesma maneira. Um candidato pode acabar ficando apenas para completar o protocolo, cumprir a tarefa.
WILLIAN: O que seria uma pena. Nem sempre isso se deve ao analista ou apenas ao candidato. Creio que existem muitos fatores envolvidos. Mas devemos oferecer o melhor. Temos que estar centrados em nossa tarefa de participar no processo de lapidação em direção à identidade psicanalítica.
JAQUES: Não entendi.
WILLIAN: Ao coordenar um seminário, deve-se coordenar o seminário, não usar o espaço como um palanque político. Ao supervisionar, deve-se centrar o trabalho na função analítica do candidato, não na excelência das escolhas do supervisor. Como analista do candidato, não se deve arrastá-lo para os amigos que são coordenadores de seminários ou supervisores. Quando isso acontece, o código de ética ou de moral implícito deixa de funcionar e passa a operar na instância dos favores. Afinal, estamos na terra do “tudo bem”. Com isso, surgem situações bizarras criadas por colegas. Será que houve análise do analista minimamente ética?
JAQUES: Concordo com o problema que você bem equacionou – duvido que alguém não concordaria. Mas voltemos a outro ponto. Você sugeriu que eu não posso ter preferências, não posso indicar a meu analisando um colega que sei que trata de forma compromissada um seminário, um supervisor que fez a diferença para um candidato a quem acompanhei de perto?
WILLIAN: Não se trata do reconhecimento da família analítica (Bolognini, 2008) de um analista, nem de seu compromisso com seu analisando. Na questão “minha turma”, “nossos votos”, “nosso rebanho”, a resposta é não, não pode, pois interfere na construção da identidade, cria igrejas, subtrai a individualidade, fatores que devem formar a função analítica do futuro analista. A influência é mais ampla. Veja as decorrências da identificação em estados de idealização. É um desastre para a pessoa, mesmo que a “intenção” seja correta e nobre. Sabemos de actings sexuais, de analistas que compactuaram com a tortura, de analistas que acabaram nas manchetes. Precisamos também olhar essa cultura assimilada para a qual Britton (1998) já apontava há 24 anos.
JAQUES: Mas é justamente nesse sentido que estou argumentando. Eles não podem ter apenas a opção “ortodoxa”.
WILLIAN: Agora você está induzindo à discussão que prescinde da escuta. Estou me referindo a parâmetros psicanalíticos. Essa coisa de rotular as pessoas “pre-ocupadas” com a qualidade e que tiveram uma boa experiência quando de sua formação e querem levar isso aos novos… Não cabe chamá-las de ortodoxas. É no mínimo desviar a discussão.
JAQUES: Você se fecha em uma verdade e não me escuta. É apenas o que você deseja e argumenta. Fica monótono. Deixemos o verbete ortodoxo de lado. Falemos de ter que se comprometer com quatro sessões por semana, por pelo menos cinco anos, em um contemporâneo em que não há nem tempo nem espaço para isso.
WILLIAN: Veja bem, na minha opinião a análise do analista não é uma tarefa curricular, não pode ser tratada como obrigação, e ao mesmo tempo precisa ser oferecida com consistência, de modo a produzir uma experiência realmente transformadora – que o candidato se aproveite dos elementos de que dispõe acerca de sua “função humana”, que venha com ela à mão e possa lapidá-la, não para uma escola ou um grupo, mas para o conjunto da vida, vida que inclui a importância do compromisso com as pessoas com as quais convive e que também vai atender.
JAQUES: Como assim “lapidar”?
WILLIAN: Sim, tenho observado que algumas pessoas que procuram a formação são como diamantes brutos: às vezes, têm um formato de caco de vidro; se lapidadas, porém, tornam-se valiosas para elas mesmas e para outras pessoas. O instituto de psicanálise deveria ter esse papel multiplicador. O mundo precisa muito de analistas – mas analistas, porque showmen já há de sobra.
JAQUES: Fale um pouco dessa lapidação. Para mim, tem a ver com retirar o excesso e tornar o valioso visível. É isso?
WILLIAN: Concordo plenamente com os argumentos de Gabbard e Ogden (2011), e me atrevo a acrescer um quinto ponto aos quatro pontos que elencam para um candidato se tornar analista. Eles falam da necessidade de 1) aprender a pensar/sonhar, ir além do processo secundário, como propôs Freud, e agregar a digestão das próprias experiências, as quais só podem vir a ser objeto desse pensar quando partilhadas em um plano analítico, e com uma perspectiva dialética de 2) relação interpessoal ↔ estar só (consigo mesmo); consequentemente a pessoa do analista cria um 3) senso de existência nas relações, consigo e com os seus (familiares, pacientes, colegas), produzindo mais confiança que poder político, aparando os excessos (estereotipias, verdades obstrutivas que passam a ser vistas como medos, inibições etc.) e evidenciando o diamante pela criação de uma função específica, ou seja, modulando a função prévia, que chamei de função humana, para a função psicanalítica, acerca da qual Bion (1962/1984, 1970/1975) nos esclareceu com a concepção de 4) continente, que aqui se constitui para trabalhar os conteúdos, o conhecido trabalho psíquico com as questões que adquiriram importância. Eu acrescentaria o desenvolvimento de algo que engloba 5) confiança e fé no trabalho analítico, não como panaceia, nem sem os limites da analisabilidade, mas dentro da experiência que inclui o respeito aos invariantes e à individualidade do analisando – algo que promove uma posição depressiva que integra e induz a um novo ciclo evolutivo importante (ps ↔ d) para a expansão do mundo mental, recursos de que o analista vai precisar ao ter de lidar com diferentes configurações mentais, distintas da dele.
JAQUES: Não tenho como discordar. Utilizo tudo isso da mesma maneira no prisma do aprendiz de historiador (Aulagnier, 1989), mas com ênfase não em um abstrato impossível de ser apreendido, não de maneira tão ambígua ou incongruente. Para que ser tão inalcançável?
WILLIAN: Sim, e por que não, a ética é moldada pela identidade. Não devemos ver quem é melhor, maior ou mais completo. Não podemos entrar no sensacionalismo egocêntrico, como alguns jornalistas que leem Freud de bolso e fazem pseudocrítica, retirando frases do contexto, como se tudo em psicanálise fosse ultrapassado, como se o essencial do ser humano mudasse em um século. Sobre a escrita ambígua, tenho vontade de dizer que Klein teve oportunidade de melhorar as comunicações que Freud procurou na medicina. Ela escreveu para psicanalistas, aproveitou a história sofrida de Freud, as perseguições pela teoria da psicossexualidade infantil, KrafftEbing, fatos absolutamente compreensíveis para a época. Os analistas que se ocuparam da linguagem clínica, porém, passaram a escrever para analistas clínicos, não para convencer a academia, mas para que a psicanálise existisse e se ampliasse intramuros.
JAQUES: Mas os impactos das “descobertas” apresentadas pela psicanálise não tiveram importância?
WILLIAN: Claro que sim. Sem dúvida, mudaram o pensamento ocidental, mas para isso precisaram antes aprender a andar nas epistemes existentes, ter muita consistência e desenvolver uma “fé” experimentada, empiricamente absorvida, curada, como queijo curado. Às vezes, tenho dúvidas de que aprendemos com a experiência. Freud procurou de todas as maneiras possíveis conferir sustentação à episteme que foi criada. Utilizou os ângulos de Adler e Jung para dar consistência aos seus desenvolvimentos. As controvérsias com Adler (Handlbauer, 1998/2004) já eram uma realidade antes mesmo da criação das instituições psicanalíticas. Bion aproveita a experiência de Klein, que também foi muito criticada (não no bom sentido), e apresenta suas ideias para analistas clínicos, fazendo dessa forma uma inferência “contrária” à psicanálise-show. Com frequência, os encontros de Bion envolviam pequenos grupos de analistas, para ver a clínica, para trocar experiências. Hoje não vejo analistas seniores buscando plateia, querendo uma carga de energia pela notoriedade. Conheci uma Judith muito simples, uma Lygia muito amorosa e uma Virgínia muito firme em suas ideias, mas todas voltadas para o compromisso de serem úteis a seus pacientes. Uma vez D. Virgínia me disse: “Sendo útil me sinto maior, melhor e mais viva”.
JAQUES: Você falando dessas pioneiras paulistas me remeteu a questionamentos sobre a clínica que tenho vivido há décadas. “O que eu pareço quando falo deste jeito (com o paciente)? Será que quero mesmo dar esta impressão? Fico parecido com quem? De que maneira posso parecer estranho à pessoa que me tornei e estou me tornando? Se fosse para eu falar diferente, como será que isso soaria? Como seria eu me sentir falando de um jeito diferente de qualquer outra pessoa que não fosse eu mesmo?” (Gabbard & Ogden, 2011).
WILLIAN: Bons pontos. A capacidade de refletir, de transitar da autocrítica para o pensamento verbal, uma derivação do que Freud chamou de agente auto-observador, parece compor sua concepção de formação. Forma-se um caminho inquieto, não acomodado, em que sempre se busca situar a própria identidade com relação às mudanças promovidas pela experiência, o que às vezes penso que se confunde com a ideia de novos tempos, com a afirmação de que o mundo mudou. As novas experiências promovem sem dúvida uma melhor utilização das dimensões da mente, mas também precisam ser digeridas, também precisam ter suas inquietudes expressas no âmbito do pensamento verbal (Bion, 1967/1987), da necessidade de buscar legítima condição de ser quem se é.
JAQUES: Também considero essa capacidade de investigação do que o analista oferece ao paciente, em forma e conteúdo, um amadurecimento, mas ela não necessariamente decorre da análise pessoal.
WILLIAN: Prefiro deixar a causalidade de lado. Penso que somos mais das matrizes da física quântica do que podemos admitir. As partículas estão ali, em movimento, e o conjunto, o momentum, define o acontecimento pelo princípio da incerteza. Insisto na ideia de que a análise do analista é um processo individualizado, intenso, que precisa ser íntimo para não levar a processos complacentes (Britton, 1998) nem se tornar uma oportunidade de ampliar rebanhos, o que não indica utilidade para o analisando, mas para perpetuar transferências edípicas não visitadas, criar o melhor Deus, o mundo de merecimento que seja o único verdadeiro e capaz – um desperdício.
JAQUES: É preciso coragem para cometer “atos de parricídio em relação a nossos próprios pais analíticos, ao mesmo tempo que se expia o parricídio no ato de internalizar uma versão transformada deles” (Gabbard & Ogden, 2011).
WILLIAN: Essa etapa acontece depois da interrupção da análise, quando a segurança de se apresentar se estabelece satisfatoriamente para o candidato. Ele pode se ver publicando sua identidade, capaz de conversar e enfrentar as discórdias. É quando o processo infinito tem um sobressalto finito (Freud, 1937/2018).
JAQUES: Vou voltar às relações primordiais e ao que decorre delas, como as transferências não visitadas. Eu me lembrei de um pequeno texto de Freud, “Uma experiência religiosa” (1928/2014). Um estudante de medicina escreve a ele contestando uma entrevista em que deixou patente a ideia de que a personalidade acaba com a morte. Esse estudante conta que, depois da ruptura com Deus, teve uma revelação importante ao ver o cadáver de uma senhora que adjetivou como sweet-faced dear old woman, cadáver que estava sendo levado para o anatômico. Diz que essa imagem o capturou e que seguiu pensando naquela mulher horas depois do fim da aula. Foi quando teve a “revelação divina” – e quer que Freud também a tenha. Ao comentar esse fato em uma palestra, Freud atribuiu a essa sweet-faced woman a recordação da mãe do estudante. Assim, para Freud, a experiência divina seria uma re-visita ao tenro amor materno. Parece simples, mas mostra que a análise pode produzir outros caminhos.
WILLIAN: Interessante essa lembrança. Como poderia Freud não atrelar o acontecimento a Édipo? Talvez sigamos um caminho semelhante quando queremos dar vazão à “culturalização” da psicanálise em detrimento da constituição da identidade psicanalítica – ou, ao contrário, quando queremos priorizar a identidade do futuro psicanalista e quase relegamos a um plano irrelevante os acontecimentos culturais, que evidentemente influenciam tudo.
JAQUES: Não entendi. Você disse “semelhante”. Em que sentido?
WILLIAN: Da mesma maneira que Freud se voltava ao que podia ver, os adeptos de uma ou outra posição podem apenas retoricamente voltar-se a seu próprio horizonte. Não deixa de ser uma circunstância humana, que pode enriquecer o diálogo, o debate, desde que não interfira na individualidade do candidato que, em análise, está vivendo regressões sob o efeito das idealizações da situação analítica.
JAQUES: Assim, você toca na questão de qual seria a especificidade da psicanálise. O que busca um analista quando analisa? Do mesmo modo, o que busca o analisando que deseja ser analista em sua análise?
WILLIAN: São questões muito abrangentes. Não tenho como discutir todos os fatores envolvidos. Vou levantar alguns para começar a conversa. Freud (1914/1969a) determinou a especificidade da psicanálise no artigo sobre a história do movimento psicanalítico, ao argumentar sobre as diferenças com Adler e Jung, e pedir a eles que deixassem o grupo e sustentassem sua episteme com outro referencial. Nesse texto, fez um brilhante esclarecimento sobre o plano epistemológico proposto pela psicanálise, nada centrado em um fenômeno psicodinâmico, nem em um culturalismo abstrato que não privilegia a individualidade singular do analisando. Argumentou que, para ele, a verdade útil para o analisando passa pelos caminhos de seu mundo intrapsíquico, e que os fatores externos são indicativos desse funcionamento. Por vezes, essas expressões são apenas expressões codificadas do mundo interno em busca de homeostase, equilíbrio ou sobrevivência. A formação deveria privilegiar essa vertente, que é por si só imensa, sofisticada e de difícil acesso. Duvido que haja espaço para ampliações, mesmo que transculturais. Veja bem, não me oponho a encontros ou seminários “culturalistas”. Pelo contrário, acho isso muito interessante. Só fico perplexo ao ver que há tempo para tanto – de fato, apenas no universo do burnout há tempo e espaço para tudo isso. Sabemos que, no manejo com o aparelho para pensar que privilegia a vida emocional, as contribuições transdisciplinares são sempre muito bem-vindas, mas não constituem ou substituem a formação, podem apenas agregar no já constituído.
JAQUES: Nesse teu argumento, há diferentes tipos de análise do analista?
WILLIAN: Sim, a análise do analista pode ser estudada através de diferentes pontos de vista. Como análise, a análise didática não difere das não didáticas. Precisa instituir um método para lidar com as perturbações contemplando a verdade individual singular, a partir da relação dos dois dentro da sala, relação que produz evidências incontestáveis para esse trabalho. Mas a análise didática tem elementos que fazem com que esse encontro não seja como o que acontece em outras análises. Existem muitas interferências no processo, uma vez que analista e analisando dividem o mesmo território institucional. Ocorre muita contaminação extra-análise, e os envolvidos necessitam constituir-se como dupla suficientemente integrada para superar potenciais situações de interface. Soma-se a isso o fato de que o analista didata precisa estar muito bem situado em sua função, tanto como modelo, produtor de seguidores, quanto como representante da psicanálise mais que do Instituto. Estou alinhado com Junqueira Filho, que acrescenta o seguinte ao processo analítico: “a atmosfera de solidão e abstinência, a dinâmica de ausências e presenças, as vivências emocionais ligadas à remuneração desse trabalho, a dialética entre acting-outs e acting-ins, o exercício de uma ludicidade não utilitária e a busca incansável por inovações de toda ordem” (2018, p. 21). O autor fala também sobre o enquadre interno do analista, estar com a mente insaturada, mas atrelada ao vértice psicanalítico. Salienta a utilização de um “lençol freático amoroso do vínculo”, que pode vir a irrigar construtivamente as incursões destrutivas que perpassam a vida psicanalítica de uma dupla envolvida nesse árduo trabalho.
JAQUES: Há muita coisa nessa nossa conversa. Ela é apenas um canapé indicando o tamanho da refeição, um alimentar-se da polêmica e da pluralidade. Como Junqueira Filho, também penso que o que oxigena a psicanálise, e principalmente o candidato, não é a diversidade nem a transdisciplinaridade. Isso pode ser importante depois da consolidação dos pilares da metapsicologia.
Acordei e pensei: não vou lembrar de tudo isso, nem de nada disso; então, vou escrever, mais para aqueles que não acompanham esse debate, que vejo há décadas, e menos para os iniciados; escrevo para vir a conversar.













