Deus é necessariamente o mais desconhecido de todos os seres,
já que só é definido em sentido das nossas experiências; é tudo o que não
somos, é o infinito oposto ao finito por hipótese contraditória. …
O pensamento humano cria o que imagina; os fantasmas da superstição
projetam sua deformidade real na luz astral e
vivem dos próprios terrores que lhes dão origem.
ÉLIPHAS LÉVI, A chave dos grandes mistérios
Espectros mentais
Quando Bion (1992/2000, 1965/2004b, 1970/2006) propõe a mudança de vértice do espectro mental consciente ↔ inconsciente para o espectro mental finito ↔ infinito, ele direciona nosso olhar tanto para o fluir constante e infinito da existência, para a conexão entre todas as coisas e tempos, para o universo infinito (interno ou externo), como para nossa limitação, da espécie ou de um indivíduo em particular, de viver sem referências que reduzam nossas experiências dentro de certos vértices.
A ideia de infinitude é anterior a qualquer ideia de finito. O finito é “arrebatado do infinito obscuro e sem forma”. Vou afirmar a mesma coisa de modo mais concreto: um “sentimento oceânico” torna a personalidade humana ciente do infinito, conscientizando-se então de uma limitação, presumivelmente por meio de experiência física e mental, e da sensação de frustração. Um número que é infinito, uma sensação de infinito, é substituído por uma sensação de “três-ice”. Um sentido de existência de apenas três objetos substitui o sentido de existência de um número infinito de objetos; o espaço infinito tornou-se um espaço finito. (Bion, 1967/2022, p. 229)
Bion utiliza o símbolo O para referir-se ao infinito obscuro e sem forma (a coisa-em-si, o incognoscível, deus, a deidade) e T (transformações) para as “traduções” finitas que fazemos do nosso contato com O. Uma vez que o incognoscível é incognoscível, tudo o que alcançamos são as transformações que fazemos dele, dos pequenos fragmentos que alcançamos de O. Onde se dá nosso encontro com o incognoscível, começam nossas transformações. A qualidade dessas transformações é influenciada pelos impulsos, emoções ou instintos (L-H-K)2 operantes no instante do contato com O, de tal modo que, se fosse possível viver duas vezes a mesma experiência, ela seria transformada em qualidades muito diferentes se numa primeira edição o impulso predominante fosse L e numa segunda edição fosse H, por exemplo. Assim, se O é o fluir constante e infinito da existência, fica óbvia a impossibilidade de viver duas vezes a mesma experiência. Mas se tudo o que alcançamos de O são as transformações que fazemos dele, talvez possamos encontrar formas de editar as experiências em curso no instante atual, numa qualidade que se aproxime mais da verdade desse instante, favorecendo a nutrição da mente, seu desenvolvimento e expansão. Essa nova experiência, num entrelaçamento entre presente, passado e futuro (Caseiro, 2019; Chuster, 2021; Marques & Marques, 2018), pode “acordar” experiências passadas vivenciadas de maneira dista da verdade daquele instante, fazer brotar experiências que nunca encontraram condições para serem vividas e sulcar caminhos para experiências futuras de boa qualidade. Boa qualidade aqui se refere à proximidade que se alcança do que é verdadeiro no instante da experiência, proximidade a O, estar-uno-a-si-mesmo (at-one-ment), a O, e ir sendo o que se é naquele instante, tornar-se o que se é naquele instante. É ir odiando em seu “auto-ódio”, amando em seu “autoamor” e desenvolvendo “autoconhecimento”.
Vértice místico e religioso
Para Holloway (2016/2019), um pensador que se denomina pós-religioso, não existe forma de estudar a história do homem sem estudar a história da religião. Diz que o homem é o único mamífero que aprendeu a se preocupar consigo mesmo, e que no instante em que isso aconteceu, ao olhar para o cosmos, perguntou “Tem alguém aí?”, inventando religiões e deuses como resposta, não suportando a possibilidade de estar só. As religiões afirmam que “há uma força no universo para além do que está disponível aos nossos sentidos físicos, e essa força se revelou a indivíduos especiais que proclamam suas mensagens a outros” (p. 16). A esses indivíduos damos o nome de profetas, e poucos passos foram necessários para elaborar textos sagrados (inicialmente orais) e construir templos aos deuses. Os textos sagrados são traduções de universos distantes de uma realidade sensorial, e o templo sagrado é uma referência de espaço geográfico, um lugar em que se pode entrar, sair e voltar.
A palavra sagrado provém do latim sacrum, que se refere aos deuses ou a alguma coisa em seu poder. Nos vários vértices do estudo do sagrado (histórico, antropológico, sociológico etc.) encontramos algo em comum: aproximadamente, no ponto em que não se pode alcançar conhecimento, ali se inicia o sagrado – o intocável, sanctus ou sacer. É o ponto que sinaliza o início do incognoscível, no qual um objeto – ou uma experiência – se torna outra coisa, além de manter-se ele mesmo. Torna-se algo além do que nossos órgãos dos sentidos podem perceber. O sagrado não é observável. Ele é sentido, experienciado. Quando olhamos para o sagrado e os rituais relacionados a ele na história, vemos uma relação espaço-tempo diferente. O tempo é vivido como circular. Durante o ano há repetição dos rituais: do plantio, da colheita, do início do novo ano… Só que não é apenas uma repetição dos gestos dos antepassados, mas uma atualização, um resgate. Um estar novamente com os deuses no instante da criação do mundo, o instante cosmogônico, e nesse reencontro deixar-se insuflar pelo sopro criativo divino. O tempo sagrado enfatiza os ritmos da natureza e do homem, a finitude de cada ciclo e dele (o homem) naquela forma de ser, e o conecta com a continuidade de tudo, com o eterno. Essa vivência de continuidade/finitude mitiga a dor da consciência de sua própria finitude e esvaece a dor frente à transitoriedade do mundo (Eliade, 1957/2018). Os deuses, as religiões, os textos e os templos sagrados começam no ponto que nosso conhecimento não alcança.
Tem alguém aí?
Bion (1992/2000, 1963/2004a) afirma que os mitos podem ser considerados sonhos coletivos e que são tentativas de lidar com situações emocionais da raça humana, como a tentativa de lidar com a pergunta “Tem alguém aí?”. É como se a raça humana, consoante a Édipo no mito, estivesse diante da Esfinge procurando decifrar onde estamos, de onde viemos, para onde vamos, quem somos nós. As possíveis respostas formuladas para essas perguntas alcançam até o tempo presente na linha temporal (ainda que não sejam respostas, mas apenas hipóteses religiosas, científicas etc.). Ao vivenciarmos as emoções e sentimentos que emergem diante da percepção das incertezas que nossas formulações carregam, do denso desconhecido que vemos quando olhamos para o futuro, do assombro perante a constatação de nossa finitude, algumas vezes alcançamos condições para lidar com essa realidade e sustentar as dúvidas. Muitas vezes, porém, a odiamos e a destruímos, construindo outra realidade, equivocada, e mantendo constante vigilância para que nada que a ameace floresça.
Nessa direção, Bion considera a forma narrativa das imagens visuais dos mitos como elementos alfa que foram integrados pela função alfa e dispostos coerentemente, uma conjunção constante que pretende conter e expressar uma forte emoção. Pensa o mito como uma forma primitiva de preconcepção e um estágio na comunicação do conhecimento privado do indivíduo para o outro. Afirma que para certos indivíduos a carga emocional acarretada pela preconcepção elemento alfa privada é tão intensa que a própria preconcepção é destruída, ou se chega a uma concepção saturada e equivocada, resultado do ódio à realidade interna e/ou externa.
Quando olhamos para os deuses dos mitos e das religiões, existe algum que não apresente ao menos um momento de surpreendente crueldade?

Rembrandt, O sacrifício de Isaac, 1635, óleo sobre tela, 193 x 132 cm, Museu Hermitage, São Petersburgo, Rússia.
Em Gênesis 22,1-2, lemos:
Sucedeu que Deus pôs Abraão à prova e lhe disse: “Abraão! Abraão!”. Ele respondeu: “Eis-me aqui!”. Deus disse: “Toma teu filho, teu único filho, que amas, Isaac, e vai à terra de Moriá, e lá o oferecerás em holocausto sobre uma montanha que eu te indicarei”. (Bíblia de Jerusalém, 1985)
Por que Abraão não fez uma única pergunta ao seu deus quando recebeu a ordem? O que o impedia de investigar se tinha mesmo que ser assim? Por que cria que sua única possibilidade era obedecer à ordem de imolar seu filho? O que ou quem é o anjo que surge e impede o sacrifício?
Nesse mito, podemos tomar a ausência de perguntas e a imposição de uma ação cruel como modelo de um estado de mente saturado, no qual já estão determinados o certo, o errado e o que deve ser, preponderando a qualidade de vínculo H: ódio à realidade externa e/ou interna. O anjo pode ser modelo de um estado mental que posterga a ação e produz perguntas, uma qualidade de vínculo K (conhecer), no qual não cabe o certo, o errado ou o que deve ser, mas apenas “O que é?”.
É preciso entrar para poder sair
Clara trabalhava num emprego público atendendo comunidades carentes. A infraestrutura da instituição pouco disponibilizava para que Clara ou seus colegas encontrassem possibilidades de resolução para as pessoas da comunidade que os procuravam. Em muitos momentos, Clara se via diante de situações intensamente frustrantes: enxergava os problemas, compreendia o que a pessoa que a procurava necessitava, mas não descobria meios de levar os processos de resolução em frente. Além disso, seu salário era bem inferior ao que um profissional da área merecidamente poderia receber, e seu contrato de trabalho nada oferecia em termos de plano de carreira. Essas últimas questões nunca lhe pareceram um problema até o momento em que deu à luz seu primeiro filho.
Em certo período de sua análise, passou a se torturar com a necessidade de aumentar seus ganhos. Percebeu que, trabalhando 40 horas semanais em seu emprego, não havia muitas chances para isso. Chamava a minha atenção a impossibilidade que sentia para se demitir, como se não existissem outras possibilidades de trabalho, como se não fosse uma profissional capacitada, como se as pessoas da comunidade não fossem suportar sua ausência, como se sua demissão fosse provocar um mal terrível e irremediável a elas. Sua aflição era intensa e contínua. Mantive-me ouvindo essa espécie de ladainha sessão após sessão, algumas vezes em silêncio, outras fazendo algum comentário, tentando mostrar-lhe que se colocava presa a essa situação, outras ainda apresentando alguma ideia diferente da que ela exprimia. Minhas observações só conseguiam fazê-la querer me convencer de que eu não estava entendendo a situação: “Pode ser, mas…”, “Mas você tem que levar em conta que…”.
Comecei a notar que em vários momentos surgia uma irritação na minha maneira de falar. Em algumas sessões pude “ouvir” os pensamentos que povoavam minha mente, perceber o tom de voz impiedoso de “quem me dizia” esses pensamentos. Eram pensamentos como “Acha que a vida é fácil? Emprego público é salário garantido. Vai para a iniciativa privada para ver o que é bom! Não sai de lá porque sabe que não tem competência para a iniciativa privada…”. Espantavam-me a rudeza e a crueldade dessas falas. Em alguns encontros tive medo de que alguma dessas falas escapasse de mim e fosse dita em voz alta, como se meu corpo pudesse ser possuído pelo autor das falas – sensação angustiante que durou semanas.
Numa sessão, disse para Clara de forma inclemente que não tínhamos como resolver as mazelas da comunidade em que trabalhava, que ela teria de escolher entre ela ou as pessoas da comunidade. Assustei-me com a dureza da tonalidade da minha voz e silenciei. Durante o silêncio, lembrei-me de um filme que vi na infância, no qual uma secretária fica trancada no prédio da empresa em que trabalha. Pela janela ela vê e ouve as pessoas na rua, mas as pessoas não a veem ou ouvem, até que a secretária descobre que está trancada na companhia de um diabo. Resgatei o pavor que o filme me provocou. Segurei as imagens do filme e o sentimento de pavor até que me reconheci sendo o próprio diabo: o do filme, o de dentro de Clara e o que havia me encarnado tentando azucrinar a minha analisanda com a minha fala. Não sei dizer quantos minutos durou essa experiência, mas em certo momento pude dizer para Clara algo mais ou menos assim:
Você vê as pessoas da comunidade em que trabalha queimando no inferno, num fogo eterno, e acredita que sua única alternativa é deixar-se queimar junto delas, já que o diabo não permite que elas ou você saiam. Eu te vejo queimando e te queimo também, me transformando no próprio diabo. Será que a gente consegue sair desse inferno?
Ficamos em silêncio o restante da sessão. Nas sessões que se seguiram, o diabo dentro de mim havia desencarnado e a palavra inferno ganhou grande significado nas comunicações de Clara: “Hoje meu trabalho estava um inferno especial”, “Eu continuo queimando lá. Preciso sair daquele inferno”. Clara pôde ir reconhecendo que tinha condições de procurar outro trabalho, mas que olhando para a vida das pessoas da comunidade sentia-se culpada por ter uma vida com melhores condições e esteve procurando sofrer junto daquelas pessoas para evitar sentir culpa. Para a minha surpresa, como num salto, os horizontes da mente de Clara se ampliaram e passou a considerar boas possibilidades de mudança, de fato encontrando-as.
Esse relato poderia ser abordado através das elaborações de Bion (1992/2000, 1965/2004b, 1967/2022) sobre um superego primitivo e cruel, e/ou através do conflito entre os polos narcisismo/social-ismo (Bion, 1992/2000), e/ou através das elaborações de Cassorla (2021) sobre enactment, entre outras abordagens. Em seus domínios, essas abordagens abarcam e procuram descrever por diferentes vértices estados emocionais e qualidades de funcionamento mental que dificultam ao indivíduo a aproximação a O no instante vivenciado.
Mas procuro focalizar outra questão para esses fenômenos, a saber: como sair deles, como saltar para novas possibilidades? Como o analista pode migrar do vínculo K com seu analisando (conhecer a experiência do instante) para o vínculo O e tornar-se o que se é no instante da experiência (Bion, 1970/2006)?
No trabalho analítico, a dupla está imersa no fluir constante e infinito da existência, O. Abstendo-se de memória (que aponta para o passado), de desejo (que aponta para o futuro) e da necessidade de compreensão, a mente do analista torna-se infinita (Bion, 1967/1986; Bléandonu, 1990/1993), alcançando a condição de estar at-one-ment com a experiência emocional do instante da sessão, o O da sessão, e tornar-se O. Nessa condição, escrevendo de forma caricata, pois as palavras não cingem a experiência vivida, o analista torna-se ora o deus cruel do mito de Abraão, ora o diabo da vinheta apresentada, ora outra existência presente naquele instante, ao saltar do vínculo K (conhecer) para o vínculo O (tornar-se).
Eu não considero esse estado [alucinose] como um exagero de uma patologia ou mesmo de uma condição natural; considero-o mais como um estado que está sempre presente, mas superposto a outros fenômenos que o encobrem. Caso esses outros elementos possam ser moderados ou suspensos, a alucinose se torna demonstrável; sua plena riqueza e profundidade são acessíveis apenas aos “atos de fé”. Os elementos de alucinose possíveis de serem apreendidos sensorialmente são apenas as manifestações mais grosseiras e de menor importância; para avaliar a alucinação o analista precisa participar do estado de alucinose. (Bion, 1970/2006, p. 49)
Estando at-one-ment a O, o analista alcança a possibilidade de vivenciar a qualidade de transformação que o analisando faz daquela experiência e, voltando ao vínculo K, comunicá-la ao analisando, abrindo-lhe novos vértices para a apreensão da experiência em curso (Bion, 1977/1981). Nesses instantes, a fala do analista é eficaz como um ato físico é eficaz porque brotou do chão sensorial dos seus sentidos e da qualidade sensorial de suas reações primitivas à experiência vivida, que mostraram o caminho para suas intuições e imaginações revelarem universos imateriais.
Dar uma interpretação significa que o analista tem que ser capaz de verbalizar uma afirmação dos seus sentidos, suas intuições e suas reações primitivas ao que o paciente diz. Esta afirmação do analista deve ser eficaz como um ato físico é eficaz. (Bion, 1977/1981, p. 127)
Sugiro imaginarmos como um instante cosmogônico o instante em que se está at-one-ment a O. At-one-ment ao O do instante da sessão é a experiência emocional em sua verdade, é estar no vínculo O, é tornar-se O, é “entrar no templo”. É o estado mental que favorece aos pensamentos nunca nascidos, ou mantidos numa condição sacer, brotarem de forma criativa. Alcançar na sessão de psicanálise o instante cosmogônico é estar novamente com os deuses no instante da criação do mundo, e nesse reencontro deixar-se insuflar por um sopro criativo divino.
O útero, nossa primeira delimitação geográfica, nosso primeiro templo, já nos traz mergulhados em água não para um renascimento, como o ritual de algumas religiões, mas para o início de uma jornada, quiçá longa. Os ritmos do corpo materno, o batimento cardíaco, a respiração, a cadência do andar da futura mãe já nos inscrevem na continuidade e conexão de tudo (Chuster, 2018), através de elementos carregados de qualidade sensorial: “No ventre da mãe o homem conhece o universo e esquece-o ao nascer” (Buber, citado por Bion, 1977/1981, p. 124).
Dois, um e novamente dois
No quadro Mulher diante do Sol, de Miró, a cabeça (ou a mente) da mulher e seus olhos se con-fundem com o Sol, estão em intensa conexão: a mente da mulher é o Sol, e o Sol é a mente da mulher.
Numa sessão online, Caio, deitado no divã de seu consultório, descrevia a angústia física que estava sentindo com gestos, toques em seu peito e suspiros. Dizia que em vários momentos sentia a necessidade de respirar fundo, o que fez algumas vezes. Eu observava uma vivência densa, sobre a qual nada me ocorria para falar. Caímos num silêncio. Fui me percebendo angustiada e tendo a sensação de Caio estar se distanciando num espaço imenso. Passei a focalizar meu olhar nos movimentos de sua respiração para me certificar de que a conexão não havia caído. Lembrei-me de uma jovem mãe que, ao cuidar de seu recém-nascido, sentia a necessidade de verificar se ele continuava respirando enquanto dormia. Comentei essa lembrança. Silêncio. Caio relatou a lembrança de uma criança que, ao ser colocada para dormir, ficava repetindo com gestos “mamãe pertinho, mamãe pertinho” até adormecer. Em silêncio, tentei clarificar uma vaga lembrança que me veio à mente, do relato de alguma criança no escuro que pedia para a avó falar algo, porque a fala dela deixava o escuro mais claro. Não conseguia discernir se era o relato de algum texto psicanalítico, de algum analisando ou da cena de algum filme. Silêncio. Caio quebrou o silêncio: “Lembrei-me do que Freud conta nos Três ensaios sobre a teoria da sexualidade, sobre o garotinho com medo do escuro pedindo para a tia falar algo, porque quando alguém falava tudo ficava claro”. Nesse instante Caio e eu estávamos pertinho um do outro. Comentei que não sabíamos o que era a sensação ruim que ele estava vivenciando, mas que tínhamos encontrado imagens e palavras que nos aproximaram de seja lá o que fosse.
Nessa vinheta, ao procurar descrever com palavras o indizível, analista e analisando embrenharam-se angustiados num templo escuro. Tornaram-se o garotinho amedrontado e, depois, vislumbraram o garotinho com medo.
O espaço-tempo de uma sessão de análise busca que se alcance a qualidade de um instante cosmogônico – busca que analista e analisando sincronizem seus ritmos e resgatem o sacer, o que nunca foi tocado ou nascido, para receber o sopro divino criativo.
At-one-ment a O e tornar-se são fenômenos diversos dos descritos através do conceito de identificação projetiva e do aparelho continente ↔ conteúdo, que podem emergir espontaneamente quando o analista alcança em sua técnica psicanalítica o estado de sem memória, sem desejo e sem necessidade de compreensão (Bion, 1967/1986). A ocorrência de at-one-ment a O e tornar-se favorece a aproximação com a verdade da experiência emocional do instante e a conexão com experiências do passado vivenciadas de forma dista da verdade daquele instante, apontando para a possibilidade de um futuro criativo sendo o que se é.
Assim como Deus é Nada, fazer-se Nada é atrair Deus a si mesmo, sendo assim feitos como somos realmente: um com Deus que só é Deus na dimensão da existência, porém não da essência e, destarte, o mestre nos remete à origem humana e leva-nos a sermos o que já fomos desde sempre. (Oliveira, 2012)














