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Revista Brasileira de Psicanálise

Print version ISSN 0486-641X

Rev. bras. psicanál vol.56 no.3 São Paulo July/Sept. 2022  Epub Aug 05, 2024

https://doi.org/10.5935/0486-641x.v56n3.14 

Resenha

Psychoanalytic diaries of the covid-19 pandemic1

Luca Trabucco2 

2Psicanalista. Membro da Sociedade Psicanalítica Italiana (SPI) e da Associação Psicanalítica Internacional (IPA); Gênova

Psychoanalytic diaries of the covid-19 pandemic. Goisis, Pietro Roberto; Moroni, Angelo Antonio. Routledge, 2021. 118 pp.


“A análise real é a vida real”: com esta frase, Bion e mais tarde Paulo Cesar Sandler afirmam o caráter necessário da psicanálise. Também se poderia dizer “A vida real é análise real”, ou seja, a psicanálise, aquela que é realizada nos estudos dos analistas, é a destilação de uma função da mente que se realiza de qualquer maneira na vida.

Este livro de Pietro Roberto Goisis e Angelo Antonio Moroni parece-me ser uma explicação do exposto no parágrafo anterior. Psychoanalytic diaries of the covid-19 pandemic é um livro de psicanálise real, em que se pode apreciar a explicitação da vivência da função psicanalítica da mente e a declinação poética no relato da vida.

O texto é constituído por dois diários. O primeiro, de Angelo Moroni, diz respeito ao devir da vivência alienante da reclusão na experiência de um analista, de um homem, tanto no seu próprio cotidiano extra-analítico quanto no “contato”, inaudito na sua forma virtual, com pacientes, alguns deles médicos empenhados em enfrentar o inimigo desconhecido. O segundo diário é o relato da experiência de um analista que se vê subitamente envolvido no papel de um paciente em terapia semi-intensiva, presa do inimigo invisível. Rever essas experiências a partir de uma posterioridade mais ou menos distante – no final do dia, no caso do diário de Moroni, ou mais tarde, no caso de Goisis – refere-se a olhar para a experiência vivida a fim de recontá-la, em primeiro lugar contando-a a si próprio, num caminho autobiográfico. Tal como Bion nas suas “memórias”. Ele olha para um passado de maneira a “manter fortemente a ligação com o pensamento infantil e a sua linguagem. Num modo especial de reflexão: a infância observada através de um túnel do tempo” (Sandler, 1987, p. 274), da mesma forma que o relato dos nossos autores mantém a frescura emocional da experiência vivida. Como em qualquer relato autobiográfico, o problema que surge é o da “relação entre a verdade dos fatos, a memória biográfica, e a verdade imaterial, autobiográfica”. A possibilidade de “usar a própria imaginação (conjecturas imaginativas) para compensar as deficiências da ordem material na transmissão do imaterial” (Scappaticci, 2021) é estimulada de maneira exemplar: a universalidade do sentimento é aqui inevitavelmente solicitada.

De vértices ligeiramente diferentes, a experiência “invariante” com que estamos lidando é enfrentar um caminho, como diz Moroni, no qual nos encontramos como um astronauta em órbita ao redor de um planeta inóspito e perigoso, ou, nas palavras de Goisis, é ter dentro de si um alienígena, do qual não podemos nos defender facilmente ou nos libertar. Angústia perante o desconhecido, ansiedade de morte, o Unheimliche.

A certa altura, Moroni associa essa experiência a Moby Dick, de Herman Melville. Na minha opinião, essa associação representa a ideia que estou tentando partilhar e que surgiu dentro de mim enquanto lia este diário. Moby Dick é um livro “estranho”, no qual a angústia de perseguição experimentada pelo que aparentemente é referido como o herói do romance, o capitão Ahab, e que depois se traduz em perseguição, tenderia a fazer a baleia ser vista como o inimigo. Na realidade, a baleia é inofensiva. O que é persecutório é o medo de Ahab. Ou seja, o perseguidor é interno. A angústia que o estranho e a morte induzem em nós não vem de uma maldade que conteriam, mas da nossa hybris, da revolta própria do ser humano, finita e limitada, para com o seu destino, Sísifo encarnado, a orgulhosa revolta da nossa mente, como Nietzsche, Camus, Freud… indicam. O pensamento psicanalítico está nesse registro, algo que confronta incessante e criativamente o infinito, o desconhecido ou o inconsciente (Unbewusste), o limite inescapável.

Nesse sentido, este duplo diário, tocante e poético, para além da ocasião extraordinária, faz o homem e o psicanalista falarem de uma maneira que pouco ou nada deixa às superestruturas teóricas – geralmente interligadas, em tantos escritos psicanalíticos, a modas passageiras –, permitindo-nos partilhar verdadeiramente um pensamento autêntico, o que Bion definiu como uma forma de gestão das emoções que, ao nascerem, produzem uma experiência catastrófica. Assim como Bion fez com a sua experiência de guerra, os nossos autores também toleraram “uma quantidade de mudanças catastróficas … e uma quantidade de recursos para lidar com elas e aprender com elas” (Sandler, 1987, p. 275).

Parece-me praticamente inevitável comparar este livro com as memórias de guerra de Bion (1982/1986), que são “uma descrição de uma vida autêntica, de uma análise autêntica, do ‘oceano de dificuldades’ de Hamlet. [São] também um estudo profundo dos grupos humanos. A vida humana é diferente da descrição de um capitão e do seu tanque?” (Sandler, 2003, p. 63). É diferente da descrição de duas pessoas empenhadas em enfrentar uma pandemia? O que essas experiências oferecem, ao homem em geral e ao analista em particular, é a possibilidade de entrar em contato com a verdade. “Esta é a origem de um dos legados de Bion que me parece excepcionalmente útil ao analista praticante: o sentido de ‘verdade’” (p. 65). Memórias de guerra, ver companheiros morrendo na lama dos campos de batalha, ver pessoas desaparecendo da vista, corpos escondidos em enfermarias hospitalares inacessíveis, aos quais nem sequer se pode dar um último adeus.

É precisamente por isso que considero Lock-mind (título da edição italiana) uma expressão refinada de duas mentes abertas, em ação para encontrar formas criativas de processar as emoções que surgem numa situação pandemicamente catastrófica – duas mentes inevitavelmente solicitadas por aquelas questões de fato onipresentes na experiência mental (angústia, inimigo invisível, morte e vida), em geral representadas como não presentes materialmente, imaterialmente rarefeitas, com frequência abstratas, mas que nesse contexto se tornam prementes e tangíveis.

Neste livro, um dos protagonistas implícitos é o corpo: o corpo ausente dos pacientes, que se apresentam na sessão através da virtualidade do Skype; o corpo ameaçado ou doente, terreno frágil conquistado pelo inimigo invisível; o corpo prisioneiro, que reclama a necessidade de se mover, sair para o mundo, tocar outros corpos. O forte apelo ao corpo me parece ser um dos aspectos em que este livro, em vez de ser um texto produzido a partir da uma situação extraordinária mas fortuita como a pandemia, em relação à qual se poderia esperar a reação “Nunca lerei um livro sobre covid” (como indicado na quarta-capa), torna-se uma obra de análise/vida real. O corpo é o limite necessário pelo qual o virtual – não o virtual que se tornou necessário para seguir os nossos pacientes nestes tempos – se torna “maligno”, a expressão de um pseudopensamento que perde a sua ligação com a realidade, a verdade, O, e que me parece estar representado numa proliferação de teorias que, a cada passo, afirmam inventar algo novo, sem de fato descobrir nada (Sandler, 1989/2022). Podemos pensar na engenhosa formulação de Freud sobre Trieb, instinto ou pulsão, ou seja, elementos “reais” que são absolutamente inefáveis, não identificáveis em elementos concretos, como hormônios ou neurotransmissores, mas uma expressão do nosso pensamento sobre algo que não pode ser compreendido, mas é.

É o terror sem nome, aquela angústia original, que contém implicitamente a necessidade do encontro com o outro, como um recipiente que permitirá, sempre em parte, à experiência sem nome assumir um nome, que momentaneamente dará a sensação ou a ilusão – como diz Winnicott – de estar integrado.

Na cabala, a questão do nome de Deus é narrada em várias declinações, mas em qualquer caso o nome de Deus será sempre aquele que está mais longe do que o último “encontrado”. Essa abertura ao infinito, a um desconhecido (Unbewusste, inconsciente), a um abismo sem fundo, a possibilidades de expansão infinita, é a substância do terror hipotalâmico, aquele fundo em que a nossa emocionalidade e a nossa corporeidade não têm distinção.

A dissolução do eu e a percepção imediata da própria insignificância (Grotstein, 1991) e da – persecutória – indiferença da realidade são as duas formas pelas quais “as manifestações do instinto de morte, que se revelarão não restritas a fatos externos, extrapsíquicos” (Sandler, 2003, p. 65), como a guerra ou a pandemia, podem ser experimentadas.

Os autores confrontam-se com o terror hipotalâmico, mas o convertem para nós numa viagem interior na qual se transformou em inquietação de viver, preocupação, tristeza, esperança. Declinações de vida e pensamento que pertencem ao domínio da vida, e não da morte.

Neste ponto, não se pode deixar de insistir na natureza da transformação.

Penso no “diário” como uma reflexão bastante justa sobre mim mesmo.

W. R. BION, War memoirs

Para chegar a uma “reflexão suficientemente justa”, o caminho não é simples. É preciso considerar até que ponto a psicanálise, como um dos meios para aprender sobre a realidade, se torna “uma enorme paramnésia para preencher o vazio da nossa ignorância” (Bion, 1976/1989, p. 235), com a memória servindo para afastar da experiência do inconsciente – desconhecido, Unbewusste. No sentido oposto estaria a psicanálise como um pensamento livre para “expandir o campo que explora”, expandir no sentido de conhecer, como uma apreensão. Creio que este livro é um exemplo de tudo isso. Uma expansão da apreensão da realidade, não de uma narrativa. Com isso quero dizer que o conhecimento, a apreensão, aquilo que é realizado através de todos os meios de que dispomos para ter contato com a verdade e pensar sobre ela – arte, ciência, filosofia (e penso que a psicanálise tem o privilégio de circular livremente por esses campos) –, está ligado à possibilidade de agarrar os invariantes:

Invariantes referem-se a uma qualidade – verdade – que caracteriza a natureza mais íntima de qualquer “algo” que se considere – uma pessoa, um evento, uma coisa materializada –, independentemente da posição do observador ou da época em que foi feita a observação. Invariantes referem-se às formas platônicas, ao âmbito dos númenos. (Sandler, 2021, p. 474)

Uma das qualidades deste livro é, na minha opinião, precisamente o uso de uma psicanálise liberta das suas possíveis qualidades de paramnésia, na medida em que os autores souberam/puderam experimentar o terror hipotalâmico sem se refugiar apressadamente no consolo tranquilizador da onipotência, da memória ou da erudição. Foram capazes de usar a intuição quando confrontados com a realidade que estavam experimentando: “A verdade de O é desconhecida de forma definitiva, mas a percepção, a intuição e o uso dela estão sempre disponíveis para nós” (Sandler, 2003, p. 72). Com isso acredito que nos deixam com algo muito próximo do que Sandler diz sobre as W a r memoirs de Bion:

Uma transformação verbal pode tomar a forma de um “horror encarnado”. A perda de vidas precede-a. Hoje em dia, muitos dos que o testemunharam estão mortos, e não podemos saber como foi. Mas sabemos o que ocorreu e podemos adivinhar a sua natureza. (2003, p. 78)

Outro aspecto que emerge neste livro como uma reflexão viva e concreta é o do setting. A necessidade de questionar a materialidade do setting, ou melhor, a sua ritualidade, nos obriga a pensar nele como o que realmente é, uma disposição mental ou – como escrevi num trabalho concluído tempos antes da pandemia, embora publicado em 2021 – uma preconcepção, um pensamento sem pensador: “Gostaria de propor compreender o setting como expressão da preconcepção do seio, representado pela função ♀♂. Nesse sentido … o paciente … sabe o que precisa, e tem necessidade de ver a realização dessa preconcepção” (Trabucco, 2021, p. 128).

No entanto, vimos analistas que se recusaram a aceitar as modificações do ritual do setting, chegando ao ponto de dizer que o que é feito nas sessões online não é psicanálise – como clérigos que, na ausência de parte da missa, afirmam estar diante de uma heresia. Lock-mind. Para além desses aspectos de um tipo dogmático-religioso de endurecimento mental, não ser capaz de levar em conta uma fatia da realidade – uma não pouco considerável, a propósito – seria o mesmo que dizer a um paciente que ele pode falar sobre qualquer coisa, mas… A cisão é um modo de defesa necessário para uma mente que sabe que não pode tolerar turbulências emocionais para além de certa cota. Mesmo os analistas têm as suas limitações, como diz Sandler (1989/2022). Falta de análise pessoal? Escassez congênita de tolerância à frustração? Nossos autores mostram esses elementos através dos fatos, os fatos tangíveis do seu pensamento, que eles deixaram para trás. Open mind. O setting é um lugar (mental) onde se dá espaço ao que é

inefável mas intuitivo, e portanto de alguma forma perceptível, como o contraponto na música. … Ouvir música significa ouvir o que não se pode dizer, e ao ouvir estamos envolvidos numa escuta múltipla – simplificando: a linha da melodia e a do contraponto, que geram, como um casal criativo, uma música/filho único. Como diz Bion, … é o espaço do pensar, que contém não coisas, as quais não são nada. Assim, o setting cria o espaço para ouvir a música do paciente e fazê-la ressoar no analista. (Trabucco, 2021, p. 127)

Claro, dizem Goisis e Moroni, não é a mesma coisa ter sessões online ou presenciais, mas eu argumentaria: assim como não é a mesma coisa ter sessões com um paciente delirante, obsessivo ou gravemente traumatizado. A realidade é o que ela é, e quase nunca é o que gostaríamos que fosse. Como observou Bion, a vida é cheia de surpresas, geralmente desagradáveis.

A surpresa de encontrar a nossa vida sitiada por um vírus do qual não podemos escapar, com o qual não sabemos como lidar, cuja causa desconhecemos, creio que é uma perturbação que requer muita coragem e imaginação criativa para ser de algum modo pensada e transformada – a coragem e a imaginação que Goisis e Moroni nos transmitem com este livro, que requer uma open mind.

1Diários psicanalíticos da pandemia de covid-19

Referências

Bion, W. R. (1986). La lunga attesa (B. Draghi, Trad.). Astrolabio. (Trabalho original publicado em 1982) [ Links ]

Bion, W. R. (1989). Evidenze. In W. R. Bion, Seminari clinici (P. Bion & R. L. Piperno, Trads., pp. 230-237). Cortina. (Trabalho original publicado em 1976) [ Links ]

Grotstein, J. (1991). Néant, non-sens, chaos et le trou noir. Revue Française de Psychanalyse, 55, 871-891. [ Links ]

Sandler, P. C. (1987). The long week-end: the autobiography of W. R. Bion. International Review of Psychoanalysis, 14, 273-277. [ Links ]

Sandler, P. C. (2003). Bion’s Wars memoirs: a psychoanalytical commentary. In R. M. Lipgar & M. Pines (Eds.), Building on Bion: roots (pp. 59-84). Jessica Kingsley. [ Links ]

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Sandler, P. C. (2022). Fatti: la psicoanalisi e la tragedia della conoscenza (L. Trabucco, Trad.). Alpes. (Trabalho original publicado em 1989) [ Links ]

Scappaticci, A. L. S. S. (2021, junho). A autobiografia e a poética de Wilfred Bion [Apresentação de trabalho]. Sociedade Brasileira de Psicanálise de Ribeirão Preto, Ribeirão Preto, s p, Brasil. [ Links ]

Trabucco, L. (2021). Um pensamento em torno do setting. Revista Brasileira de Psicanálise, 55(2), 115-132. [ Links ]

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