Tenho a honra e a satisfação de ter sido convidada a escrever esta resenha por Gildo Katz e Gley P. Costa, queridos e estimulantes colegas da Sociedade Brasileira de Psicanálise de Porto Alegre (SBPdePA), que com espírito inquieto, curioso e instigante são parte importante da formação de mais de uma geração de analistas.
Gildo e Gley têm uma longa história de amizade, de parceria científica e intelectual, expressa em dezenas de artigos publicados. Psicanálise das manifestações psicossomáticas é o segundo livro que produzem juntos. Para dar sentido à história dessa publicação, é necessário contar um pouco do que veio antes. Os dois se conheceram em 1970 na Divisão Melanie Klein do curso de pós-graduação em psiquiatria da Faculdade de Medicina da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). A relação se estreitou ao jogarem futebol no lendário time Veludo. Eles também compartilhavam o amor pelo Grêmio e, à medida que o tempo foi passando, compartilharam o interesse pela psicanálise, que se estendeu ao longo dos 50 anos de amizade.
Estiveram juntos na fundação de duas importantes instituições de Porto Alegre, a Fundação Universitária Mario Martins (FUMM) e, em 1991, com outros colegas, o Grupo de Estudos Psicanalíticos (GEP), primeiro estágio para a constituição de uma Sociedade filiada à Associação Psicanalítica Internacional (IPA), que hoje é a SBPdePA. Durante todo esse tempo, trabalharam com vigor, entusiasmo e afinco pelo desenvolvimento da SBPdePA e da psicanálise que praticamos. O livro que nos apresentam é prova viva disso.
Psicanálise das manifestações psicossomáticas, lançado pela editora Buqui, é considerado pelos autores uma releitura crítica da própria e vasta produção científica dos dois e da produção de diferentes autores que se debruçaram sobre o tema.
O interesse pela psicossomática nasceu no mestrado e no doutorado realizados na Universidade de Ciências Empresariais e Sociais (Uces), de Buenos Aires, orientados pelo professor David Maldavsky, no contexto dos estudos sobre patologias do desvalimento. Na abertura do livro prestam homenagem a esse inesquecível mestre e amigo, cuja obra acompanham há mais de 30 anos.
Patologias do desvalimento é uma expressão cunhada por Maldavsky para designar a clínica psicossomática e de patologias como adições, traumatofilias, transtornos alimentares, transtornos do sono e neuroses tóxicas. Do ponto de vista teórico, técnico e clínico, diferem das neuroses, psicoses e perversões, e exigem uma especificidade teórico-técnica própria, que faça frente aos desafios da clínica dos fenômenos psicossomáticos. Os autores ressaltam que, com alguma frequência, recebemos pacientes com manifestações somáticas que não são facilmente distinguíveis dos sintomas histéricos e com precária capacidade para reconhecer seu sofrimento. O universo clínico onde as manifestações psicossomáticas são transitórias ou duradouras se faz presente na clínica de cada um de nós e exige uma escuta analítica para uma área da vida psíquica carente de mentalização, como diz Plinio Montagna na apresentação do livro resenhado.
O propósito central do livro, para além da vasta e profunda revisão teórica, é ser uma espécie de mapa, com um cursor que nos permita atualizar nossos conhecimentos sobre a teoria e a prática em relação a esse importante quadro da clínica contemporânea, o qual não pode restringir nossa compreensão ao âmbito do simbólico. Para produzir esse efeito no leitor, apresentam com profundidade conceitos básicos e fundamentais dos principais modelos psicanalíticos das enfermidades psicossomáticas e seus desenvolvimentos. São 17 modelos de autores freudianos, pós-freudianos e contemporâneos. Menciono a seguir alguns deles. Georg Groddeck acreditava que toda doença era simbólica, como uma atividade do isso, e passível de análise, como as psiconeuroses. Franz Alexander, da escola psicossomática de Chicago, relacionava determinada reação fisiológica do corpo a um tipo de personalidade. Pierre Marty, da escola psicossomática de Paris, com os conceitos de pensamento operatório e mentalização, influenciou os desenvolvimentos posteriores acerca do que hoje é chamado de funcionamento operatório. Joyce McDougall propôs a ideia de forclusão do afeto que retorna na forma de atos-sintomas. Claude Smadja e Gérard Szwec apresentaram o conceito de procedimentos autocalmantes diante do excesso de excitação interna. Nessa grande revisão, os autores dedicam um capítulo a um artigo de Karen Horney pouco conhecido entre nós, intitulado “A escassez de experiências internas” (1952). Com isso, pretendem dar a ela um lugar de destaque entre os pioneiros no estudo das manifestações psicossomáticas, levando-se em conta o fato de seu texto não ser referido na vasta literatura sobre o tema produzida dos anos 1960 até hoje.
Do meu ponto de vista, também é interessante a inclusão nessa listagem da contribuição teórica de André Green, Melanie Klein, D. W. Winnicott, Wilfred R. Bion e Antonino Ferro, possivelmente indicando que a principal questão para qualquer psicanalista é como o sujeito vive e experimenta o afeto – qual o destino do afeto na vida psíquica (reprimido, deslocado, transformado em angústia, repudiado, descarregado no corpo) e qual a história que aquela manifestação afetiva pode nos contar. Como psicanalistas, sabemos que todas as pessoas apresentam pontos de vulnerabilidade e que, em determinados momentos da vida, podem apresentar uma manifestação no corpo. Algumas excitações somáticas trilham o caminho da transformação em material psíquico, enquanto outras trilham o caminho regrediente, em que um material psíquico se degrada num material somático, podendo chegar ao ponto de pôr a vida em risco.
Os autores entendem que os fenômenos psicossomáticos podem se apresentar em uma mesma pessoa em dois níveis distintos: num deles, esses fenômenos são passíveis de representação, o conflito e a defesa estão presentes, e a angústia funciona como sinal de alerta, algo característico das psiconeuroses; no outro, há uma corrente tóxica (que situam na linha conceitual freudiana das neuroses atuais), com uma estrutura egoica primitiva que opera com defesas arcaicas, em que as representações foram rompidas ou são inexistentes e necessitam ser resgatadas para o campo do simbólico.
Diante dessas situações, o trabalho do analista é oferecer ligações e produzir tecido psíquico onde parece ter faltado. Como dizem os autores, “o trabalho a ser desenvolvido deve ter como meta a construção de experiências não sentidas para que possam obter significação na relação analítica” (p. 127). Acrescentam a recomendação técnica de que, para alcançar esse fim, a atitude do analista deve ser predominantemente facilitadora, reanimadora, explicativa, discriminativa e inter-relacionada. Dizem ainda que o sucesso desse tratamento depende de o analista manter uma vitalidade ativa sem perder a indispensável neutralidade. Enfatizam o cuidado com a contratransferência com esses pacientes, que muitas vezes são apáticos e desafetados, despertando no analista sonolência e até impulsos violentos de querer tirar o paciente daquele estado, podendo o analista ficar tomado por furor curandis. Observações e recomendações técnicas como essas só podem ser compartilhadas tendo em vista a longa experiencia clínica dos dois autores, a qual não se furtam em entregar aos leitores.














