Ao ler este livro, deparamo-nos com um verdadeiro intercâmbio entre a arte literária e a psicanálise. O modelo pós-kleiniano da mente e suas origens poéticas permeiam toda a obra.
A autora inicia O vale da feitura da alma com o romanesco Sir Galvão e o Cavaleiro Verde, datado do século 14, em que aventuras cavaleirescas e poemas oníricos marcam a defesa de valores morais cristãos, os quais passam a ter um significado muito mais amplo, com vistas à “feitura da alma” na nova ordem político-social que começa a se esboçar no Ocidente.
A seguir, em “A evolução de Psique”, somos embalados pelos poemas de John Keats, influenciados pelo Paraíso perdido, de John Milton. Através de seus escritos, diz a autora, Milton recontou também os mitos de Orfeu e Prosérpina, na sua relação com a musa. Esta, na verdade, é a capacidade de produção do artista, resultado da evolução de seus instrumentos internos.
Em “Ascenção e queda de Eva”, vemos a influência de Milton nos processos de internalização e formação de símbolos por meio da ideia de que a musa se enraíza no útero de Eva.
Já em “Édipo na encruzilhada”, a autora apresenta as peças de Sófocles com muita sensibilidade, numa investigação da natureza do sofrimento e de seu potencial para a criatividade ou para o sepultamento da alma.
Posteriormente, ao encontrarmos Homero e a Odisseia (“As urdiduras de Atena”), Meg Harris Williams enfatiza a longa caminhada de Odisseu (ou Ulisses) – figura que antecede Édipo – em busca da descoberta do símbolo de sua identidade.
Em toda a narrativa, há uma constante integração da obra de Keats, Homero, Sófocles e Shakespeare com conceitos psicanalíticos pós-kleinianos, pinçados da poesia e da literatura ocidental com muita perspicácia e beleza. O leitor se envolve com os poemas de Keats, com o Paraíso perdido de Milton, com a Odisseia de Homero e com as peças de Sófocles, por meio da análise de seus personagens, o que nos leva a conhecer o âmago de sua alma.
Shakespeare fecha com chave de ouro esses capítulos literários, com “O monumento a Cleópatra”, em que a autora nos lembra do jardim de Keats, da encruzilhada de Édipo e da caverna dos sonhos de Odisseu, ao mesmo tempo que traça um paralelo entre Cleópatra versus Marco Antônio e Otelo versus Iago.
O conflito estético nessas implicações poéticas está sempre presente, desnudando os objetos internos, o objeto combinado, as introjeções, bem como o narcisismo dos personagens, seus sofrimentos e as dores de sua alma.
Em toda a obra, os conhecimentos psicanalíticos são assim inter-relacionados, particularmente os de Klein, Bion e Meltzer. A autora transcreve o artigo “Criatividade e a contratransferência”, de Meltzer, em que ele abarca a obra de Bion com muita propriedade.
Por fim, Meg Harris Williams dedica um capítulo especial à poética pós-kleiniana, e ainda nos presenteia com dois apêndices dedicados a Bion: “As raízes de Rosemary: a musa nas autobiografias de Bion” e “Confissões de um superego em maturação, ou O lamento da aia”, nos quais, através da trilogia Uma memória do futuro, podemos ver a relação de Bion com seus objetos primários, a mãe-musa e a aia indiana-musa.
É particularmente tocante o modo como a autora transmite a ideia de uma psicanálise como forma de arte, em sua busca por significado, entrando em contato com a misteriosa criatividade dos objetos internos.













