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Revista Brasileira de Psicanálise

versão impressa ISSN 0486-641Xversão On-line ISSN 2175-3601

Rev. bras. psicanál vol.57 no.2 São Paulo  2023  Epub 22-Nov-2024

https://doi.org/10.69904/0486-641x.v57n2.07 

Temáticos

Enquanto espero escrevo uns versos1: Tolerância, criatividade e continência em observação psicanalítica durante a pandemia

Mientras espero escribo unos versos: tolerancia, creatividad y continencia en observación psicoanalítica durante la pandemia

While I wait, I write some verses: tolerance, creativity, and continence in psychoanalytic observation during the pandemic

Pendant que i’attends, j’écris quelques vers : tolérance, créativité et contenance dans l’observation psychanalytique pendant la pandémie

Cristiane da Silva Geraldo Folino2 

Denise de Sousa Feliciano3 

Hilda Botero4 

Mariângela Mendes de Almeida5 

Maria Cecília Pereira da Silva6 

Maria da Graça Palmigiani7 

Tereza Marques de Oliveira8 

2Psicóloga. Psicanalista. Membro filiado do Instituto Durval Marcondes da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo (SBPSP)

3Psicóloga. Psicanalista. Membro associado da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo (SBPSP)

4Psicóloga. Psicanalista. Membro titular da Associação Psicanalítica Colombiana (APC)

5Psicóloga. Psicanalista. Membro associado da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo (SBPSP)

6Psicanalista. Membro efetivo, analista didata, analista de criança e adolescente e docente da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo (SBPSP)

7Psicóloga. Psicoterapeuta. Membro da Associação Latino-Americana de Observadores de Bebês (Alobb)

8Psicóloga. Psicanalista. Membro fundador e coordenadora-geral do Centro Habitare


Resumo

As autoras constroem o artigo a partir da experiência de alunos e professores do curso Relação Pais-Bebê: da Observação à Intervenção, no Instituto Sedes Sapientiae, São Paulo, durante o ano de 2020, em meio ao confinamento requerido pela pandemia de covid-19. A prática do método Esther Bick é a ferramenta de desenvolvimento da continência interna dos alunos, mas a situação pandêmica e o distanciamento social impossibilitaram realizar a observação das famílias em suas residências, pondo em xeque uma de suas principais atividades. As autoras descrevem o processo de gestação da capacidade de observar e conter os afetos despertados ante o susto e a sensação de desamparo desencadeados pela crise sanitária – processo que propiciou ao grupo experiências criativas através da escrita –, bem como a alternativa de observação virtual em caráter experimental, que ganhou status de pioneirismo, ampliando o método para novas possibilidades e aplicações.

Palavras-chave observação de bebês; pandemia; criatividade; observação psicanalítica; método Esther Bick

Resumen

Las autoras desarrollan el trabajo a partir de la experiencia de alumnos y docentes del curso Relación Padre-Bebé: de la Observación a la Intervención, en el Instituto Sedes Sapientiae, São Paulo, durante el año 2020, en el necesario confinamiento de la pandemia de covid-19. La práctica del método Esther Bick es la herramienta de desarrollo de la continencia interna de los estudiantes, pero la situación de pandemia y el distanciamiento social impidieron acompañar a las familias en sus domicilios, poniendo en jaque una de sus principales actividades. Las autoras describen el proceso de gestación de la capacidad de observar y contener las emociones suscitadas por el miedo y el sentimiento de impotencia provocados por la crisis sanitaria – proceso que ofreció experiencias creativas al grupo a través de la escritura –, así como la alternativa de observación de interacciones virtuales

Palabras clave observación de bebés; pandemia; creatividad; observación psicoanalítica; método Esther Bick

Abstract

The authors present the experience of students and teachers in the course Parent-Baby Relationship: from Observation to Intervention, at Instituto Sedes Sapientiae, São Paulo, during the year 2020, in the period of lockdown due to the covid-19 pandemic. The practice of the Esther Bick method is the tool for developing students’ internal continence, but the pandemic situation and social distancing made it impossible for students to observe families in their homes, putting one of their main activities at stake. The authors describe the developing process of the ability to observe and to restrain the affections awakened in the face of the fright and the feeling of helplessness brought about by the health crisis – a process that provided the group with creative experiences through writing –, and the possibility of virtual observation on an experimental basis, which gained pioneering status, expanding the method to new possibilities and applications.

Keywords infant observation; pandemic; creativity; psychoanalytic observation; Esther Bick method

Résumé

Les autrices construisent l’article à partir de l’expérience d’étudiants et de professeurs du cours Relation Parents-Bébé : de l’Observation à l’Intervention, dans l’Institut Sedes Sapientiae, à São Paulo, pendant l’an 2020, au beau milieu du confinement exigée par la pandémie de Covid-19. La pratique de la méthode Esther Bick est l’outil de développement de la contenance interne des étudiants, mais l’occurrence de l’épidémie et la distanciation sociale ont empêché de mener l’observation des familles dans leurs résidences, menaçant l’une de leurs activités principales. Les autrices ont décrit le processus de gestation de l’habilité d’observer et de maîtriser les affects éveillés en face du choc et la sensation d’abandon déclenchés par la crise sanitaire – un processus qui a entraîné dans le groupe des expériences créatives au moyen de l’écriture – ainsi que l’alternative de l’observation virtuelle, à titre expérimental, qui a obtenu le statut de pionnière, en élargissant la méthode vers de nouvelles possibilités et applications.

Mots-clés observation de bébés; pandémie; créativité; observation psychanalytique; méthode Esther Bick

Março de 2020. Acabávamos de receber os novos alunos e lhes apresentávamos o método Esther Bick. A costumeira inquietação e ansiedade do processo de busca de uma família que os aceitasse em casa como observadores foi bruscamente substituída pelo impacto da solicitação de que não saíssemos de casa e não recebêssemos ninguém. Estranheza, medo. Suspendemos as aulas por uma semana. Não tínhamos a dimensão do que estava por vir. Não sabíamos quanto tempo precisaríamos esperar, mas decidimos propor aos alunos continuarmos por videoconferência, trabalhando dessa forma com o que fosse possível, certamente as questões teóricas. Incerteza, espera.

Quando a pandemia foi decretada no Brasil, as aulas haviam apenas começado com a nova turma que chegava ao curso Relação Pais-Bebê: da Observação à Intervenção, que compõe os cursos do Departamento de Psicanálise com Crianças do Instituto Sedes Sapientiae, em São Paulo. Trata-se de um curso multidisciplinar, com um eixo teórico-clínico, que contempla a metapsicologia da primeiríssima infância (0 a 3 anos) e técnicas de intervenção nas relações iniciais por meio de aulas teóricas, e que em paralelo, como atividade prática, utiliza o método Esther Bick de observação da relação mãe-bebê.

Bick pensou em uma experiência que permitisse aos psicoterapeutas infantis ampliar a capacidade de observar o desenvolvimento psíquico in loco na relação pais-bebê sem interferir. Bion (1970/2006), evocando Keats,9 considerou a capacidade negativa – tolerar incertezas, mistérios e dúvidas sem buscar a razão – um recurso essencial à função analítica, por ser base fundamental para o pensamento. Profissionais de outras áreas da saúde e da educação também se beneficiam dessa condição, que é tão cara ao desenvolvimento profissional e identitário do psicanalista.

O campo emocional que envolve a presença de um bebê é pleno de projeções e identificações de natureza primária, e não pode prescindir da mente continente de um adulto para receber e processar esses afetos e angústias arcaicas em significados afetivos, potencialmente vividos como ameaça ao psiquismo incipiente.

Bion (1962/1984) chamou de reverie a capacidade de transformar as projeções do bebê em algo possível de digestão para ele – em geral, da mãe ou do representante da função materna –, que dá significado aos afetos em estado bruto (Lisondo, 2010). O observador, compartilhando em silêncio desse campo de angústias e afetos variados, recebe as projeções da mãe com seu bebê, exercitando sua própria função de continência e reverie. O grupo de supervisão, por sua vez, constitui uma rede de sustentação que contém e transforma em pensamentos a experiência ainda plena de afetos brutos. Sabemos que, quando essas experiências podem ser vividas com tal qualidade de processamento, forma-se um lastro emocional para a vida. A família que recebe o observador pode se beneficiar de sua presença como um modelo de mente continente.

De praxe, pedimos aos alunos que escrevam diários semanais sobre como se sentem em relação à busca da família, que depois se tornam os relatos das observações. Uma espécie de gestação do processo. Nesse momento insólito, os diários se tornaram um desabafo da angústia diante da turbulência que vivíamos, e as supervisões, o seu continente digestivo. O método se desenvolvia como previsto, porém os bebês observados eram os próprios bebês internos de alunos e supervisores revivendo o pânico do desamparo primordial desencadeado pela pandemia, em busca de uma pele psíquica que contivesse as partes fragmentadas pela perda da unidade uterina e o medo do desconhecido.

Pouco a pouco, os diários se transformaram. Passaram a ser menos uma descarga de angústias e mais um espaço criativo de elaboração. Vimos nascer relatos com tons literários, poéticos, e até ideias práticas sobre a realização da observação online. Quase todos descobríamos as ferramentas virtuais como possibilidades de continuarmos a ser seres sociais e realizarmos nosso trabalho. No início, uma aluna em seu segundo ano trazia às discussões antigas observações, mas aos poucos foram substituídas por observações virtuais inéditas e pioneiras, pela sugestão surpreendente da família que ela observava.

Encerramos o primeiro semestre com belos relatos do bebê imaginário que havia se constituído para cada um, embora pairasse muita incerteza e a frustração de ainda não ser possível o bebê real.

Eis alguns trechos dos pré-relatórios entregues em junho:

O entusiasmo e o envolvimento do início são afetados pelo contexto da pandemia e do isolamento social. Já não tenho certeza se cabem nos novos tempos que tento organizar. Parecem escapar. Resolvo, então, esperar, acompanhada pela dúvida de não saber. Sigo assim por algumas semanas. Converso sobre isso, sobre as possibilidades de seguir. Decido continuar. Ficar na incerteza, sem tomar uma decisão imediata, esperar, observar, abrir espaço para dialogar, olhar de novo. Imagino que a observação de bebês também seja feita desse processo. Estar presente para o que acontece. E o que parecia não caber nesse momento encontra espaço. As leituras, as aulas nutrem o cotidiano.

De que modo me expressar sobre a experiência do curso Relação Pais-Bebê? O meu primeiro movimento foi abrir espaço no dia para escrever. Me coloquei parcialmente deitada ao sol, ao pé da janela, numa tentativa de entrar em outra sintonia. Talvez não por acaso, uma vez que a perspectiva da observação me solicitou um outro modo de estar-com. Estar receptiva, porém não ativa. Atenta... Acho que atenta ao surgimento de manifestações que até então nem figuravam no campo do que eu tinha como registro de algo que devesse ser observado.

A mudança de formato do curso, frente à pandemia, me fez pensar no impacto produzido em uma gestante que se vê subitamente impelida a permanecer em repouso total, logo no início da gestação. Frustração, raiva diante da imobilidade, da perda de possibilidades desejadas. Impaciência, vontade de acelerar o tempo e chegar logo ao momento tão esperado. Por fim, resignação. Resignar? Seria essa a palavra que melhor define? Me levanto e procuro no dicionário. Encontro: “Aceitação sem revolta dos sofrimentos da existência”. Acho que me dou por satisfeita. Penso novamente no espaço que se pode criar frente à ausência da revolta. Nesse espaço, algo de novo pode ser notado, algo pode surgir, algo pode se expressar e ser percebido. ... Uma pausa para aguçar os sentidos.

Notamos aqui aberturas para um alargamento do campo pessoal e possibilidades de se identificar com a gestante imaginária – tal como a aluna – de um bebê que ela espera para observar. A procura de significados no dicionário talvez fosse uma busca de contorno e significados para a experiência sem palavras da pandemia, e também para a própria experiência do curso e da observação.

Uma mudança de atitude, um outro lugar; olhar para as relações estabelecidas e para nós, levantar hipóteses, dialogar internamente com nossas percepções, nossos entendimentos, nossos sentimentos, na busca de uma leitura mais complexa. ... Ela, essa postura, seria também uma possibilidade de estabelecer no seu entorno uma provocação, uma reflexão, portanto servindo em si mesma como uma intervenção. . Mas essa postura não estaria apenas nos momentos pontuais de observação da relação pais-bebê; a partir dessa experiência, ela poderia estar presente nas relações, na vida. ... A oportunidade da mãe de se rever e se transformar, a partir da condição de desamparo do recém-nascido, que coloca a mãe na própria condição infantil. Fico me indagando no limiar em que a mãe pode olhar para si e para o bebê.

Essa curiosidade e empolgação em iniciar as observações geram certa preocupação e receio em relação à viabilidade desse processo diante do atual contexto de isolamento social. Por outro lado, percebo que as leituras teóricas do curso têm sido um “respiro” nesses tempos de incerteza. Sempre tive curiosidade de estudar esses autores, e essa tem sido uma boa oportunidade. Ler Winnicott tem sido muito mais inspirador do que ler o jornal.

Eu telefonei para a mãe no dia 18 de março para suspender pelas próximas duas semanas a observação. Comentei que eu não fazia ideia do que aconteceria e que veria juntamente com o grupo, pois se tratava de algo completamente novo, e que voltaria a falar com ela. A mãe compreendeu e disse: “Eu não sei se dá para fazer por vídeo... Não sei, porque ela também não fica parada”. Desligamos. Em minha mente estava mais uma ideia de que tudo estaria “perdido”, que encerraria a observação por ali, que não frequentaria mais o curso. Naquele momento, tantas outras tarefas tinham sido adicionadas à minha vida que não imaginava como daria conta de frequentar os grupos de supervisão, por exemplo. Contudo, ficou na minha cabeça o “por vídeo” que a mãe falou.

Como coordenadoras, reconhecíamos o viés criativo de um “pensar sonhante”, que foi se instaurando e dividindo espaço com momentos de frustração, sobretudo para os alunos que terminaram o ano sem sucesso em conseguir uma família, mesmo com a proposta da opção online. Os relatórios finais consolidaram o movimento interno criativo e de reflexão:

É do caminho que percorro no curso, do meu movimento, dos ventos fortes e também da brisa leve encontrada que eu escrevo. . A primeira pergunta que nasce é sobre a continuidade ou não do curso remoto. O planejado, o imaginado ocupavam bastante espaço, e a princípio outras possibilidades pareciam não caber. Seguir ou não seguir por esse caminho? Convivo com essa incerteza por algumas semanas. ... Deixar em suspenso ou iniciar à distância? ... Um ano de tantos desafios, de tantos ventos fortes. Aguentar as incertezas, as dúvidas. O não saber é como o sol que se apresenta no horizonte, é como a brisa leve que acaricia a pele. . Sinto que esse percurso ainda não terminou, segue em movimento.

Me matriculei no curso, as aulas começaram e veio a pandemia... A maldita e bendita pandemia. . Negar a realidade que o mundo estava vivendo já não era mais possível. Então, a opção era tentar fazer algo mesmo sem ter uma ideia clara do que fazer ... continente de muitas emoções que brotavam. ... A alegria de pertencer ao curso, de resgatar uma parte minha que havia ficado para trás diante das questões da vida, um lugar que me relacionava com o meu desejo e me trazia elementos para as minhas reflexões, que eram acolhidas, me confortava. Um novo espaço, um respiro que me oxigenava. . Um ritmo começava a se estabelecer, satisfação, desejo, frustração, angústias, demandas de trabalhos, as múltiplas tarefas e a necessidade de estar inteira em tantas facetas da vida, a exaustão, a reparação.

Muitas vezes a sensação que me dava era de que a mãe que eu observava, ao mesmo tempo que carregava o bebê no colo, também me carregava, através do celular, para levar nos outros lugares, para filmá-los, direcionando meu olhar a partir do seu pela tela. ... Foi assim que comecei a viver este espaço continente neste lugar de observadora e me relacionar com tantas possibilidades que me apresentavam e que permitiam me encantar com as cenas e refletir sobre estas relações. ... Nossas supervisões, as aulas, a troca entre nós, sentimentos compartilhados, diferentes pontos de vista, contraposições compunham a construção de fios de sentidos, faziam refletir e aprofundar olhares. Ao mesmo tempo que um papo de corredor passou a fazer falta, e a vontade de aproximação se fez presente.

Me deparar com uma equipe que vem pensando nessas questões – tão novas, mas já tão caras a mim – há tempos e com tanta solidez me maravilhou. ... A expectativa teve que se ajustar à realidade imposta: não trabalhar inicialmente no campo da práxis. ... Apesar disso, conter essa “pressa” provavelmente me propiciou mais ferramentas para poder ocupar o lugar primeiramente de observador. ... O “simples observar” exige um tipo de disponibilidade interna diferenciada e pode ser mais desafiador do que imaginado.

Me desorganizei em nível pessoal e me dediquei muito menos do que o programado: não fiz diversas leituras, perdi aulas, não consegui me organizar para iniciar as observações na nova situação proposta. ... Não há de haver pressa. Tempo.../Tempo, tempo, tempo.../ Tempo de espera?!/ Tempo de esperança?!/ Tempo de entrega?!/ Tempo de resgate?!/ Tempo de transformação!!/ Tempo de uma pandemia que carregou muitos tempos em um./ No decorrer dele olhava para mim,/ olhava para os outros, para as relações.../ As muitas relações,/ e refletia.../ Para dar continuidade a este relato, preciso retomar... o tempo...

Penso que aprendi com essa mãe que a espera pelo bebê pode ser mais longa do que a desejada. ... Sinto que houve uma mudança na sensibilidade do meu olhar, proporcionada pelo curso. O olhar que não pôde ser direcionado para o bebê voltou-se para vários outros objetos e, assim, me vi na posição de observador em diferentes contextos do dia a dia.

Em paralelo à espera pelo bebê, outras ideias foram sendo investidas e tomando forma. Percebo, com alguma surpresa, que ao final de um ano aparentemente infrutífero diferentes projetos gestados ganham vida agora – o consultório, o mestrado, uma aula, uma live. Concluo que, apesar das ausências – dos encontros presenciais, da resposta daquela mãe, do bebê idealizado –, essa foi uma trajetória marcada pela presença e pela fertilidade.

Nos campos da saúde e da educação em que alguns dos alunos continuavam trabalhando, apesar da pandemia, o olhar promovido pela observação psicanalítica de bebês nascidos ou por nascer seguiu seu curso.

Em meio ao impacto, à surpresa, à ameaça de aridez e paralisia diante da imprevisibilidade, à turbulência interna, foram percebidos brotos de vitalidade e resiliência em desenvolvimento, fertilizados por nossas conversas nos espaços de reflexão.

De certa forma, a pandemia colocava supervisores e alunos em um mesmo clima emocional, em condição horizontal, igualados no desamparo e na incerteza.

“Impelidos” a uma situação de extrema vulnerabilidade, teríamos vivenciado estados de sensibilidade semelhantes à preocupação materna primária (Winnicott, 1956/1993c), que tanto colaboram para a sintonia com os estados primitivos do bebê? Em consequência da formação e da experiência pessoal de cada um de nós, mobilizamos recursos internos e nos fortalecemos como grupo, podendo ser continentes para as angústias dos alunos, como a mãe para as angústias do bebê. Embora em estado de regressão, a mãe é capaz de sustentar física e psicologicamente o bebê (holding), oferecendo a ele o espaço de ilusão e criação no campo do sonhar (Winnicott, 1945/1993a, 1951/1993b). Da mesma forma, vimos germinar em nossos alunos, como contínuos observadores, a capacidade de processar suas experiências durante o curso, com efeitos para além do imediato.

Paralelamente, nós, coordenadoras, contamos com o respaldo e a pertinência à Associação Latino-Americana de Observadores de Bebês (Alobb), que facilitou intercâmbios criativos em outras salas virtuais. Assim, diante da situação inusitada que nos envolveu, compartilhamos ressonâncias em rede e continência, para prosseguir desenvolvendo a capacidade de pensar a partir da experiência emocional vivenciada com alunos e parceiros, sustentando a via preconizada por Bick de contato com os aspectos emocionais e arcaicos da experiência como fonte privilegiada de aprendizagem.

Uma educadora infantil relatou:

Em nosso projeto construímos um outro caminho na relação com as aprendizagens, com experiências significativas que consideram os processos de investigação das crianças e a arte como expressão de seus pensamentos. ... No final do ano, a mãe de um aluno nos deu um depoimento emocionante, de que a experiência com a escola transformara seu olhar, percebendo sutilezas nas expressões de seu filho, possibilitando maior autonomia a ele e percebendo o quanto ele é capaz! “O seu olhar agora/ O seu olhar nasceu/ O seu olhar me olha/ O seu olhar é seu// O seu olhar, seu olhar melhora/ Melhora o meu” (Arnaldo Antunes).

O olhar observador e perspicaz de Esther Bick

Em 1948, a psicanalista polonesa Esther Bick propôs um método que favorecesse a formação de psicoterapeutas infantis, inclusive em contextos pré-clínicos, em Londres (Bick, 1967).10Observar não é óbvio. Segundo Bick, é preciso aprender a ver, aprender a observar, para ampliar o campo de visão daquele que observa. “Aprender a observar servirá para você por toda a vida” (Prat, 2008). “A regra número um é que para observar é preciso chegar como uma tábula rasa. Esperar e observar sem compreender, sem saber nada, sem seus conceitos e teorias. Com qualquer coisa pronta, você não observa” (Haag, 2016).

Bick mostrou o potencial da observação infantil realizada na casa das famílias durante o primeiro ou os dois primeiros anos de vida para sustentar o desenvolvimento de uma perspectiva psicanalítica de estados mentais infantis a partir das relações entre os bebês e seus cuidadores primários, evocando conjecturas que enriquecem a compreensão psicanalítica das ansiedades e defesas infantis.

O método tem como objeto de observação o bebê em seu ambiente familiar. O foco não está no estado de espírito ou nos sentimentos de um indivíduo, mas na relação, no fluxo e na troca de pensamentos e sentimentos entre o bebê e aqueles que interagem com ele, bem como na identidade em evolução do bebê dentro desse campo de experiência (Rustin, 2012).

A teoria, possíveis conjecturas imaginativas ou teóricas, possíveis significados virão nas supervisões, em um terceiro momento.

O método é, portanto, realizado em três tempos:

  1. Tempo da observação: o observador vai à casa do bebê uma vez por semana e lá permanece por uma hora.

  2. Tempo das anotações: o registro escrito da experiência vivida, logo após a visita.

  3. Tempo da supervisão: com o grupo semanal de observadores e coordenador(es) do seminário.

O que é observado? O ambiente familiar, o clima, a forma como a mãe segura o bebê. Como ela olha para o bebê? Onde está a cabeça dele? Está perto do corpo da mãe? Para onde ele está olhando? O que fazem suas mãos e suas pernas quando a mãe o muda de posição? Que movimento se vê no corpo da criança em repouso, quando a mãe lhe dá comidinha ou o bebê mama? Os olhos, a boca, as orelhas, o nariz e as mãos, todos servem para ligar o bebê à mãe, em sua tentativa de manter sua coesão (Magagna, 1997). O verbal, o não verbal, todos os detalhes.

Aprende-se a olhar, a observar a mãe e o bebê, a memorizar e a descrever. Mas fundamentalmente a observar a si mesmo. As emoções, as fantasias e tudo aquilo que é imperceptível aos olhos e muitas vezes passa pelo corpo são suscitados no observador pelo bebê e seu entorno. Pensamentos mais ou menos inconscientes estão sempre prontos a intervir, e sobre eles vão se depositar as impressões a respeito do bebê observado.

Todos os ecos contratransferenciais, as ressonâncias emocionais íntimas do observador e a situação emocional do bebê e sua família são elementos da experiência emocional do observador, como reflexo da observação.

Por que é terapêutico?

Se pudermos pensar no bebê como um “intruso oficioso”, o observador passará a ser um “intruso oficial”, e os sentimentos de ambivalência que lhe são dirigidos acabam por aliviar a relação pais-bebê. Esse seria um possível efeito terapêutico. Outro possível efeito tem a ver com o acolhimento de conteúdos hostis e ambivalentes em relação ao bebê, que tornam o observador um importante elemento de continência para a mãe (sppa, 2020).

A presença do observador tem um significado valioso para a mãe. As visitas regulares expressam que seu bebê é importante e digno de ser observado por alguém ao longo de um ou dois anos. Em um período tão vulnerável e muitas vezes solitário, esse ganho narcísico a autoriza para a maternidade e reforça seu papel de mãe. A atenção e a receptividade do observador, sem interferência e julgamento, e sua disponibilidade permitem que seja usado pela mãe como um continente para suas dúvidas, preocupações e ansiedades.

Por que é útil para a formação do psicanalista e a construção de uma atitude psicanalítica?

É uma oportunidade única de desenvolver a função de continência e a capacidade de pensar sem precisar dar respostas, fazer diagnósticos ou interpretar. Simplesmente observar. Desenvolver a capacidade de manter em mente a experiência e registrá-la. Observar e focalizar a relação sem julgamento moral. Tolerar o não saber, as incertezas, as dúvidas sem prejulgar. Desenvolver a capacidade negativa. Desenvolver e exercitar a função de continência. Observar uma mente em estado nascente e na relação (vida mental presente desde o início), assim como processos mentais em formação (novas funções desenvolvidas pela experiência). Observar estados primitivos da mente, estados infantis de integração e desintegração, e formular o impacto emocional primitivo em experiência compartilhável com o grupo do seminário. Observar os ecos contratransferenciais e saber mais sobre si mesmo. Observar e aguardar o que há por vir, sem fazer nada, só observar.

A observação observada por Hilda Botero11

Com a clareza que nos acompanha agora sobre a observação de bebês (ob), sua importância e suas oportunidades para a continência, o crescimento emocional e a formação de uma ética e uma disciplina de trabalho profissional, cabe enfatizar o cuidado do próprio método. É rigoroso, não rígido. Aí reside sua essência: em que a flexibilidade não se converta em banalização ou mudança de método, de técnica. É vital então ter conceitos claros sobre o que implementamos. Formação em ob ou uma aplicação do método.

O observador tem muita “responsabilidade” nisso. É uma experiência difícil e de intenso comprometimento emocional. O coordenador do grupo detém e sustenta a enorme responsabilidade de não propor ao observador ações que não estejam contempladas pelo enquadre. Muitas vezes, para “mostrar” que se fazem muitas “coisas” na ob, pode-se perder os limites do método sem se dar conta disso. Em si mesmo, o método oferece suficiente flexibilidade, sem sacrificar seu rigor, e propõe aplicações em diferentes contextos, isso sim, com a clareza de que são aplicações do método. Elas são de uma riqueza enorme: na sala de aula, no hospital, com idosos, com vários grupos humanos que se beneficiam dessa forma de observar e tornar operativas as compreensões e experiências coletadas.

A experiência que este grupo apresenta neste relato me permite formular também minha própria experiência de observar o observador em meio aos seus movimentos emocionais, em relação à peculiaridade dos eventos, com a especialidade dos tempos, contextos e vicissitudes. Ou seja, esse “dar-se conta” da realidade. De certa forma, acompanho o desenrolar de todo o processo, e isso é interessante. Tenho a visão de cinco observadores: Andréa, Luara, Gislaine, Diego e Natália.

Uma experiência inédita, mesmo que escrevendo e/ou pensando, de visitar um espaço-tempo diferente. Proponho o seguinte ponto de vista:

O título do artigo, “Enquanto espero escrevo uns versos”, chama a atenção para o exercício da tolerância ou da intolerância. Foi um período inédito, uma experiência compartilhada por todos. Estados emocionais vibrando em sintonias similares, afinados-desafinados, e várias combinação possíveis. Agora, também eu vou combinar essa apaixonante leitura de emoções com minhas observações da apresentação em si e da revisão de alguns trechos do material dos observadores.

Eu me propus a revisar todos os pré-relatórios e relatórios nessa atmosfera peculiar. Escolhi então o ângulo da tolerância à frustração, que desde sempre tem sido considerado pela psicanálise. Quero me referir, sucintamente e sem esgotar compreensões, a partir de uma lente de observação clara e definida, ao trabalho de Darío Sor (1988), no contexto da mudança catastrófica, e de Leandro Stitzman (2010), de uma complexidade muito maior do que a que vou trazer nesta breve intervenção. Vou analisar a tolerância à frustração por meio das tolerâncias IADE,12 a fim de abordar minhas observações acerca dos observadores.

Exige-se tolerância em momentos ou situações em que uma mudança precisa ser harmonizada. Uma mudança em direção ao crescimento é uma aposta. As tolerâncias iade estão presentes em toda experiência de observação:

  1. Sensação de infinito. Em termos simples, seriam as possibilidades de eventos, acontecimentos. Podem ser de qualquer natureza, possibilidades infinitas. Não se sabe.

  2. Acaso, qual ou quais dos elementos do fato se propõem, se ajustam, se juntam, se combinam, para harmonizar “algo”.

  3. Com quais elementos conjugo uma situação nova, uma possibilidade agora. Dúvida diante de novas propostas, de como vou conjugando os fatos.

  4. Qual é a escolha, como tolero o escolhido, um novo fato (online, tela, observo, não observo, deixo tudo, espero), uma situação, uma combinação de eventos – pode ser – para lidar com a realidade do momento.

Nesse contexto, faz parte da observação considerar como foi sendo possível amadurecer essa capacidade de tolerância.

Observo também, em consonância com esse estado mental, um movimento interessante. Talvez, quando a tolerância assume sua função, predomine a incerteza e tudo o que dissemos antes, e quando a intolerância ameaça nos dominar, sejamos levados a buscar “certezas”, que não são tais, mas que nos dão certo alívio. Na falta das experiências esperadas, sonhadas, idealizadas, diante da frustração, tendemos a preencher esses espaços e o medo do desconhecido com teorias testadas, já estabelecidas. O conhecido, o formulado, o dito são tábuas de salvação.

Em todos os relatos dos observadores, há alusões a esses diferentes estados de tolerância-intolerância. Poderíamos dizer até que o grupo de supervisão também participa desses estados mentais, está envolvido pela atmosfera geral de desconhecimento e incerteza e pela gama de tolerâncias iade.

Vou assinalar, em vários trechos das narrativas, como “observo” se apresentarem diferentes aspectos da tolerância-intolerância IADE.

No grupo de supervisão:

“Vimos nascer relatos com tons literários, poéticos, e até ideias práticas sobre a realização da observação online [I, A, D]. Quase todos descobríamos as ferramentas virtuais como possibilidades de continuarmos a ser seres sociais e realizarmos nosso trabalho [E]”.

Nos observadores:

O entusiasmo e o envolvimento do início são afetados pelo contexto da pandemia e do isolamento social [I]. Já não tenho certeza se cabem nos novos tempos [A] que tento organizar. Parecem escapar [D]. Resolvo, então, esperar, acompanhada pela dúvida de não saber. Sigo assim por algumas semanas. Converso sobre isso, sobre as possibilidades de seguir. Decido continuar [E].

Frustração, raiva diante da imobilidade, da perda de possibilidades desejadas. Impaciência, vontade de acelerar o tempo e chegar logo ao momento tão esperado. Por fim, resignação [I, A, E]. ... algo pode surgir, algo pode se expressar e ser percebido [A, D]. ... A expectativa teve que se ajustar à realidade imposta: não trabalhar inicialmente no campo da práxis [I, D, E].

Ficar na incerteza, sem tomar uma decisão imediata, esperar, observar, abrir espaço para dialogar, olhar de novo. Imagino que a observação de bebês também seja feita desse processo [I, A, D].

A primeira pergunta que nasce é sobre a continuidade ou não do curso remoto [D]. O planejado, o imaginado ocupavam bastante espaço, e a princípio outras possibilidades pareciam não caber. Seguir ou não seguir por esse caminho? Convivo com essa incerteza por algumas semanas [D].

Fazer o curso de observação da relação pais-bebê e, assim, compreender mais sobre o que ocorre nesse campo. Como o bebê vai se desenvolver? O que influencia esse caminhar? [I, A, D].

Uma trama começa a se estabelecer. Instinto, pulsão, sublimação, identificação, projeção, o famoso complexo de Édipo: intolerância a iade. E é preferível buscar teorias já estabelecidas como tábuas de salvação, acalmar a mente “assegurando” significados já aprovados.

Negar a realidade que o mundo estava vivendo já não era mais possível. Então, a opção era tentar fazer algo mesmo sem ter uma ideia clara do que fazer [I, D].

Ficar em casa e se relacionar com o mundo através de uma tela. Estar em um espaço protegido, onde emergiam sentimentos, conflitos e descobertas, e construir novas possibilidades de interação. Esforço, dedicação e reflexões que aconteciam a todo momento [D, E].

Então, em uma nova ligação, propus a observação remota à mãe, que prontamente aceitou. Senti algo parecido com o que senti quando a observação presencial foi aceita pela primeira vez. Mais uma vez, mesmo diante das incertezas, essa mãe era alguém em quem eu poderia confiar para realizar a observação. Mas em poucas semanas as observações voltaram a ser distanciadas, esparsas e intermitentes, mantendo-se a configuração do antigo modo presencial, no qual prevaleciam faltas, desmarcados e ausência de respostas [A, D, E].

Penso que, através da observação “contínua”, semana a semana, seria possível desenvolver um olhar atento às pequenas mudanças, detalhes e minúcias do vínculo cuidador-bebê, o que me parece muito enriquecedor [d]. De fato, de alguma forma, já estou procurando “treinar” esse olhar quando tenho a oportunidade (em consultas pediátricas, por exemplo) [D, I, A].

Quando calculei que a gestação já estaria por volta da 38a semana (a termo), realizei novo contato, porém sem resposta. Supus que, naquele momento [I, A, D], a observação não seria uma das prioridades para aquela mãe e aguardei. Até o momento, não houve retorno. Chego ao fim do ano, portanto, sem ter iniciado a observação propriamente dita. Penso que aprendi com essa mãe que a espera pelo bebê pode ser mais longa do que a desejada [I, A, D].

Resignar? Seria essa a palavra que melhor define? Me levanto e procuro no dicionário. Encontro: “Aceitação sem revolta dos sofrimentos da existência”. Acho que me dou por satisfeita. Penso novamente no espaço que se pode criar frente à ausência da revolta [D, E]. Nesse espaço, algo de novo pode ser notado, algo pode surgir, algo pode se expressar e ser percebido [A, D]. ... Uma pausa para aguçar os sentidos [E].

As leituras, as teorias, os conceitos e as explicações preenchem um vazio e uma urgência por “conhecimento” e são de dupla natureza, podendo saturar, disfarçar ou substituir a experiência emocional durante o exercício de observação. Ou seja, diferentes intolerâncias se conjugam: ao infinito, ao acaso, à dúvida e à escolha. Talvez possamos, como ficou evidente tanto nos supervisores quanto nos observadores, tolerar a espera com poesia, caminhadas, leituras. São essas as ferramentas para lidar com a realidade, lentes de observação para a aproximação das experiências emocionais durante o processo de crescimento.

Considerações não finais e entrelaces em aberto: acaso, dúvidas, olhares, esperas, escolhas, expressões, infinito

As contribuições aqui entrelaçadas demonstram como as experiências podem ser transformadas em vários níveis. A experiência original do impacto da pandemia para os observadores foi processada pela receptividade e disponibilidade ao registro expressivo, a fim de compartilhá-la com o grupo inicial de observadores e coordenadores do seminário, dando-se à luz o primeiro texto-bebê coletivo.

A repercussão e o aprofundamento junto ao grupo institucional (corpo docente do curso do Instituto Sedes Sapientiae) e o pertencimento associativo (Alobb) propiciaram novos elos de expansão associativa. Replicam-se recorrentemente, em espiral representativa do aprender humano, os três tempos da observação de bebês modelo Bick: a experiência, o registro em linguagem expressiva e a construção em espaço grupal.

O acolhimento em progressão propiciado por essas várias camadas transformacionais nos remete ao modelo dos círculos concêntricos de continência (Mendes de Almeida et al., 2009) e ao da boneca russa matriosca,13 alusões emblemáticas significativas, que circulam em produções ligadas ao campo da observação psicanalítica. Tal mobilização de sentidos, com abertura para novas expansões, facilita o compartilhamento inclusive com colegas para os quais essa experiência ainda é inédita e transforma-se aqui em convite a essa possibilidade de desenvolvimento profissional.

Trabalho apresentado no 6º Colóquio de Psicanálise com Crianças, Infâncias, os tempos, os lutos (Instituto Sedes Sapientiae, 2022), e em reunião científica da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo (sbpsp), com comentários de Hilda Botero. Agradecemos aos nossos ex-alunos de 2020 – o pediatra Diego Fontana, a psiquiatra Luara Otoch, as educadoras Andréa Jota e Natália Francisco, e a psicóloga Gislaine Passarini –, que gentilmente nos permitiram citar trechos de seus relatórios finais de curso

9Em 21 de dezembro de 1817, John Keats, em carta a seus irmãos George e Thomas Keats, refere-se à capacidade negativa da personalidade como uma qualidade que contribui para formar um homem de êxito, em especial em literatura, qualidade amplamente presente em Shakespeare. Capacidade negativa significa que um homem é capaz de estar em meio a incertezas, mistérios e dúvidas sem qualquer irritação que busque fato e razão.

10É tradição na nossa sociedade a formação de psicanalistas no método de observação de bebês. Isso faz parte da formação do instituto e especialmente da atual formação integrada, que junta a formação de psicanalistas de adultos e de crianças num percurso unificado. Em 1975, o casal Prego formou a primeira turma de observadores de bebês em São Paulo, e Lygia Amaral foi uma das primeiras coordenadoras, seguida por Marisa Mélega, Neyla França, Alicia Lisondo e outras colegas das novas gerações, como Suzana Grunspun e Maria Cecília Pereira da Silva.

11Trecho de Hilda Botero, originalmente escrito como comentário à reunião científica da SBPSP.

12Tolerância-intolerância ao infinito, ao acaso, à dúvida e à escolha.

13A matriosca é um tradicional brinquedo russo. Constitui-se de uma série de bonecas, feitas geralmente de madeira, colocadas umas dentro das outras, da maior até a menor. de carácter experimental, que obtuvo el estatus de pionero y que amplió el método a nuevas posibilidades y aplicaciones.

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Recebido: 04 de Maio de 2023; Aceito: 18 de Maio de 2023

Cristiane da Silva Geraldo Folino cristianegf@uol.com.br

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