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Revista Brasileira de Psicanálise

versão impressa ISSN 0486-641X

Rev. bras. psicanál vol.57 no.4 São Paulo  2023  Epub 04-Nov-2024

https://doi.org/10.69904/0486-641x.v57n4.10 

Artigo

Dentro/fora1: Poética e política do kleinismo na visão de Julia Kristeva

Dentro/fuera: la poética y la política del kleinismo según Julia Kristeva

Inside/outside: poetics and politics of Kleinianism in Julia Kristeva’s vision

Intérieur/extérieur : la poétique et la politique du kleinisme vues par Julia Kristeva

Elias Mallet da Rocha Barros2 

2Membro efetivo da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo (SBPSP), São Paulo. erbarro@terra.com.br


Resumo

O autor explora o significado desta afirmação de Julia Kristeva: “Não há ou há pouco de ‘mãe real’ para Klein, porque a única mãe que lhe interessa é a mãe pensável. Ela o é se - e somente se - um conhecimento da fantasia mortífera que me habita pode desenhar no objeto real uma porção do objeto pensável para mim: um objeto do qual eu possa fazer um jogo - enfim, um símbolo”. Com base nisso, discute a relação do mundo interno (dentro) com o mundo externo (fora), isto é, a relação do mundo no interior do sujeito com a cultura, num processo de introjeção e projeção que opera ao infinito.

Palavras-chave: mãe pensável; mãe real; simbolismo; envelopes pré-narrativos; representação

Resumen

El autor explora el significado de esta afirmación de Julia Kristeva: “Para Klein no hay o hay muy poco ‘madre real’, porque la única madre que le interesa es la madre pensable. Y la madre es pensable si y solo si un conocimiento de la fantasía mortífera que me habita puede dibujar en el objeto real una porción de objetos pensables para mí: un objeto con el que yo pueda hacer un juego, es decir, finalmente, un símbolo”. A partir de esto, discute la relación entre el mundo interno (dentro) y el mundo externo (fuera), es decir, la relación entre el mundo interno del sujeto y la cultura, en un proceso de introyección y proyección que opera hasta el infinito.

Palabras clave: madre pensable; madre real; simbolismo; envolturas prenarrativas; representación

Abstract

The author explores the meaning of this statement by Julia Kristeva: “For Klein, there is no ‘real mother’, or she counts for very little, because the only mother who interests her is the mother who can be thought. And a mother can be thought only if my awareness of the deadly fantasy that consumes me can imprint the real object with a portion of an object I can think about: an object I can play with - symbol, in the end”. Based on this, the author discusses the relationship between the internal world (inside) and the external world (outside), that is, the relationship between the world inside the subject and culture, in a process of introjection and projection that operate to infinity.

Keywords: mother who can be thought; real mother; symbolism; pre-narrative envelopes; representation

Résumé

L’auteur examine la signification de cette déclaration de Julia Kristeva: « Il n’y a pas ou il y a peu de “mère réelle” pour Klein, parce que la seule mère qui l’intéresse est la mère pensable. Et elle l’est, si - et seulement si - une connaissance du fantasme mortifère qui m’habite peut dessiner dans l’objet réel une portion d’objet pensable pour moi : un objet dont je peux faire un jeu - enfin, un symbole ». Sur cette base, l’auteur discute la relation entre le monde interne (intérieur) et le monde externe (extérieur), c’est-à-dire, la relation entre le monde intérieur du sujet et la culture, dans un processus d’introjection et de projection qui opère à l’infini.

Mots-clés: mère pensable; mère réelle; symbolisme; enveloppes pré-narratives; représentation

Escrevo guiado por uma atmosfera de releituras de Melanie Klein e influenciado por uma perspectiva psicanalítica transmatricial, na terminologia inaugurada por Figueiredo e Coelho Junior (2018), que expressa melhor o que faço e penso hoje. Sintetizando, para esses autores, existem duas matrizes básicas da produção teórica psicanalítica, que por sua vez englobam, cada uma delas, diversos modelos de articulação dos conceitos: a freudo-kleiniana e a ferencziana. Transmatricial aqui significa que a psicanálise contemporânea atravessa essas duas matrizes originais e seus paradigmas, aproveitando de cada uma aquilo que se articula num conjunto maior, que as suplanta. Figueiredo e Coelho Junior estão pensando na produção de autores como Thomas Ogden, Antonino Ferro, Giuseppe Civitarese, Wilfred Bion, Anne Alvarez, Fred Busch, Howard Levine e, por que não, de vários analistas brasileiros - entre muitos, nós. Remeto o leitor ao texto desses pensadores.

Uma Melanie Klein não surge do nada. Há muito de talento pessoal em suas criações, mas também existe um meio cultural que alimenta e amplia essa aptidão com certos sentidos e conceitos. Não vou me estender aqui sobre o conteúdo da atmosfera cultural da época, lembrando apenas que a discussão sobre a natureza do simbolismo estava em plena efervescência em Viena, Budapeste e Alemanha, e que esse clima direta ou indiretamente marcou a obra de Klein. Entre os muitos temas culturais, científicos e intelectuais que circulavam nessa região da Europa, havia uma reflexão sobre os fatores que produziam ou impediam uma melhor qualidade de vida para o indivíduo e para a humanidade. Não nos esqueçamos da Revolução Húngara de Béla Kun, que pretendia criar o homem novo, e da República de Weimar, um dos períodos culturais mais ricos do século 20.

Todo texto seminal comporta várias leituras marcadas, cada uma delas, por determinada época, na qual predominam certas temáticas e indagações. São as problemáticas derivadas do que se tornou atual naquele momento que guiam as abordagens que vão se constituir numa linha singular de interpretação dos textos do autor em foco. Vou me inspirar aqui na leitura que Julia Kristeva (2000), psicanalista e semióloga, fez do texto kleiniano, embora não me limite a ela.

Melanie Klein ampliou o conceito de racionalidade clássica integrando os processos de pensamento e imaginação com a vida emocional, em suas diversas manifestações lógicas, expressas nos diferentes níveis de temporalidade.

No título do artigo há três vocábulos que me chamam a atenção: dentro (intrapsíquico), fora (cultura, ambiente, organização social) e poética. Essas palavras estão associadas à leitura que Kristeva faz de Klein. Nesta argumentação, vou buscar interligá-las. Estamos no domínio do intrapsíquico e de sua relação com o intersubjetivo, além do social e cultural, representado pela realidade externa.

As eventuais contradições ou paradoxos no texto de Klein não assustam Kristeva, que diz só haver inovação “na fronteira do impossível” (p. 14).

Estou interessado em expandir as questões envolvidas nesse movimento do intrapsíquico para o intersubjetivo e vice-versa - no movimento de fora para dentro e de dentro para fora - e ainda em estabelecer seu vínculo com o surgimento de sentido, com a poiesis, ou seja, sua relação com o mundo da semiose. Esse movimento abarca um campo imantado, vibratório, dialético, onde processos tanto atuam como são originados. Estamos falando de projeção, introjeção, realidade externa e interna, mundos nos seus diversos planos, da cultura e do simbolismo.

João Frayze, ao me sugerir a releitura de Kristeva, mencionou uma passagem dela que reproduzo aqui:

Não há ou há pouco de “mãe real” para Klein, porque a única mãe que lhe interessa é a mãe pensável. Ela o é se - e somente se - um conhecimento [connaissance] da fantasia [fantasme] mortífera que me habita pode desenhar no objeto real uma porção do objeto pensável para mim: um objeto do qual eu possa fazer um jogo - enfim, um símbolo. (p. 384)

Trata-se de uma passagem que encerra um mundo de noções complexas, distantes do senso comum. O termo mãe pensável é único e novo. Ao utilizá-lo, Kristeva nos põe diante de um modelo de grande abrangência. Ela coloca juntos conceitos como fantasia inconsciente, projeção, atividade do pensamento, símbolo, destrutividade e cultura.

Mãe aqui é muito mais que uma senhora concreta, uma dona Márcia, uma relação de parentesco, a cuidadora primária. Ela é a representante do mundo externo no mundo pensável, com tudo o que ele carrega de afeto, cultura, padrões emocionais e sociais, concomitantemente colorido pelas projeções do sujeito que o experimenta. Mãe aqui é um conceito caracterizado como um campo, ou seja, aquele que ao longo da vida engloba todo tipo de cuidado material e afetivo, que numa linguagem antropomórfica chamamos de cuidados propiciados pelo objeto materno tanto interno como externo, forjado pela cultura e modificado pelas identificações projetivas e introjetivas do sujeito - inicialmente, do bebê. No processo de internalização, esse mundo se transforma e é inserido num tempo sincrônico, diacrônico e até num espaço atemporal. A mãe externa, antes de existir por si mesma, já está colorida por uma projeção, e ao ser internalizada, mescla-se ao que já existe nesse mundo e torna-se uma imago pronta para ser novamente projetada e reintrojetada ad infinitum, em interação com a mãe real, se é que existe uma, num movimento perpétuo entre o fora e o dentro. Estamos refletindo neste texto sobre como opera um espaço transicional (Winnicott) entre um mundo interno e um mundo externo, cada um governado por leis distintas, buscando captar o objeto em suas posições polarizadas e em sua transição. A mãe provê para o bebê tipos de experiência (Fulgencio, 2023).

Cabe aqui uma nota sobre a concepção de objeto para Klein. Em primeiro lugar, ela tinha noção da inadequação do termo, que adquiria para ela uma conotação centralmente antropomórfica. O termo se referia a uma experiência interna, de uma espécie de voz associada a alguma experiência. A palavra objeto tanto descrevia “essa experiência interna quanto simultaneamente oferecia a designação técnica de um fenômeno” (Likierman, 2001, pp. 108-109).

E como captamos esse processo para construir nosso modelo psicanalítico na sala de análise? Cecilia Taiana responde:

Embora todos os analistas ouçam de modo metafórico, eles não o fazem de maneira suficientemente próxima e, com frequência, referem suas metáforas a um corpo limitado do conhecimento psicanalítico, associando-as a um movimento de caráter rígido, mais do que a uma escuta gestada com o ouvido do poeta, que toma o todo da linguagem como seu mar. (2022, p. 639)

Pronto, estamos adentrando o campo indicado pelo título, ao insistirmos sobre a natureza metafórica da escuta psicanalítica, que se dá através do ouvido do poeta. É por meio desse tipo de escuta provida por um ouvido propenso à metáfora que captamos a noção de objeto interno.

Enfatizo que não estamos “poetando” a psicanálise, mas sim indicando a lógica semiótica de construção de seu modelo de mente.

Estou me centrando num aspecto da relação analítica. Essa relação é de grande complexidade. É um lugar onde tempo e espaço se sobrepõem, se confundem, se ramificam, se decompõem para formar novas sínteses. O aqui e agora da sessão não é um aqui nem um agora, sem deixar de também sê-lo. É um aqui e um agora que existem num espaço interpretante. Inclui igualmente um aqui e a presença de um outro, de maneira que a relação não entre em colapso, limitando-se ao agora de uma relação específica.

Birksted-Breen observa que o aqui e agora implica também algo que não está aparentemente lá, ou seja, “um inconsciente que perdeu a conexão com o passado, o não lembrado, o não representado” (2016, p. 47).

Ao referir-se às primeiras relações da criança com as pessoas circundantes, Klein diz: “Suas relações com esses objetos já sofreram modificações e deformações de tal ordem que os objetos de amor atuais são imagos dos objetos originais” (1927/1975, p. 151).

Nesse trecho, a autora está fazendo afirmações que revolucionariam a psicanálise nos anos seguintes e se constituiriam nos elementos mais originais de seu sistema. É preciso compreender e internalizar essas ideias para avaliar o alcance das contribuições kleinianas.

Ela diz que a própria relação com os pais reais já comporta certo grau do que vamos considerar ser clinicamente a transferência. Trata-se de um complexo movimento que interliga o mundo interno com o externo, numa relação não só interpessoal, mas também intersubjetiva, em que afetos, pensamentos e representações são movimentados. A questão essencial envolvida na transferência - e agora estamos falando da relação entre o mundo interno e o externo - não é principalmente a relação entre passado e presente, como quis no início a psicanálise clássica, mas aquela entre um mundo onde os significados são produzidos e o mundo externo, das pessoas inseridas em determinada cultura e transformadas pela projeção, que levarão consigo esses sentidos, transformando-os e sendo transformadas por eles.

Qual é a natureza desse mundo interno? Como é constituído e como é “povoado”?

Como afirmamos em outro trabalho (Rocha Barros & Rocha Barros, 2011), não se trata de um mundo sobretudo subjetivo, mas de um mundo no interior do sujeito em movimento contínuo. Desse ponto de vista, a introjeção e a projeção têm um papel estruturante da vida mental. Nessa altura, nos confrontamos com uma das aporias do sistema kleiniano. Os objetos internalizados tendem a se constituir em instâncias psíquicas ao mesmo tempo que são os “cidadãos do mundo interno”, originados por ele e dando origem a ele. Como resolver essa contradição? Talvez não precisemos resolvê-la de imediato, mas apenas concluir que é próprio da teoria psicanalítica conviver com determinado grau de contradição interna.

É importante frisar que os objetos internos que o constituem têm certa autonomia. Esse mundo no interior do sujeito contém as fantasias inconscientes, que se expressam numa identidade singular; contém também suas estruturas defensivas, sendo assim o espaço no qual as vivências emocionais são pensadas e adquirem sentido.

Sobre a existência de um mundo interno com tais características, enfatizando sua originalidade, Laplanche escreve:

É nesse ponto que falo de “escândalo”, pois esses objetos são verdadeiros objetos para Melanie Klein, objetos que, a partir desse tempo de introjeção, levam uma vida própria no interior do sujeito, provocando nele efeitos reais, quase mecânicos, de agressão e de excitação em particular. O par real/fictício é então substituído pelo par introjetado/projetado - ou este par se defasa em relação àquele outro. O que é introjetado não é ilusório, particularmente no sentido de não ser manipulável ao infinito. (1987/1993, p. 89, grifo meu)

Com essa citação, quero enfatizar que o indivíduo e a cultura se criam mutuamente, dentro de certos limites de sentido e significado. As identidades não são ilusórias, mas também não são fixas, congeladas.

Algo semelhante a esse movimento de dentro para fora, e vice-versa, acontece no mundo intrapsíquico. Ao se relacionar metafórica ou metonimicamente com a consciência, o inconsciente está sempre recriando novos significados. É nesse sentido que a transferência assume o caráter de uma poiesis. O paciente nos diz coisas com palavras e além delas, isto é, por meio de uma comunicação não verbal, com gestos, melodias e atuações e em determinado clima emocional. Nesse contexto, as próprias palavras podem tornar-se atuações da forma de operar das relações de objeto prevalentes no mundo interno. Podemos tomar essas manifestações discursivas dirigidas ao analista como tentativas permanentes de recriar as conexões perdidas entre os significantes não verbais do inconsciente e os significados da experiência emocional que dão sentido à nossa vida psíquica, em busca de uma forma narrativa (Rocha Barros, 2000).

Penso que Fédida expressou claramente essas ideias num seminário em São Paulo:

Na situação do tratamento, penso que é por uma palavra ou por um gesto que tem a função de metáfora, a função poética da metáfora, que o outro pode se reconhecer. Por isso é preciso que as palavras, os gestos, emanem do próprio paciente. É assim que a palavra metáfora toma seu verdadeiro sentido: não a poesia, mas a poética, no sentido de poiesis grega, quer dizer a dimensão poética da recriação constante do sentido, a recriação constante da língua na palavra. O poeta é aquele que cada vez inventa a língua. (1988, p. 54, grifo meu)

A cultura, enquanto moldura para o mundo externo, colore e é colorida pela projeção e modificada pela introjeção, num movimento dialético. Captamos esse processo na sala de análise através de uma escuta com o ouvido do poeta, ou seja, metaforicamente. A seguir, procuramos comunicar algo do sentido da relação estabelecida com o analista (representante do Outro) por meio da função poética da metáfora.

Não pretendo nem resumir o livro de Kristeva nem apresentar a totalidade da teoria kleiniana, mas simplesmente sublinhar alguns pontos para estimular a discussão sobre as fontes que alimentam uma reflexão contemporânea. A análise kleiniana é um trabalho de renascimento, de recriação, do sujeito, às vezes pela primeira vez. As patologias ou o adoecimento psíquico (Figueiredo & Coelho Junior, 2018) são fruto de um ataque à vida do espírito, e para Klein nosso estar no mundo é um mal-estar que precisa ser continuamente transformado em bem-estar, numa cadeia infinita.

Eu acrescentaria que o inconsciente kleiniano é povoado por fantasias que se tornam modelos, matrizes ou formas de atribuição de significado (Rocha Barros & Rocha Barros, 2011), que vão parametrizar a vida mental da criança e do adulto ao longo do desenvolvimento da maturidade.

A meu ver, a análise kleiniana visa libertar o indivíduo dos modos infantis, arcaicos, de funcionamento mental, instalando um modo reflexivo, fruto da metabolização de um conjunto de experiências emocionais vividas. (Não estou falando aqui da infância histórica, mas de uma instância psíquica.) Nessa linha, Birksted-Breen elegantemente diz que “o processo analítico é um processo de contínua reinterpretação, no qual cada ponto de chegada compreende, inclui e reestrutura o que existiu até então” (2016, p. 150).

Passo agora ao conceito de fantasia inconsciente, que é uma noção difícil de ser apreendida. Kristeva (2000) afirma que é uma entidade heteróclita, ou seja, que amalgama diferentes entidades, representações verbais e não verbais, afetos, emoções, sentimentos, sensações, movimentos etc.

A autora observa que o conceito é de uma verdadeira impureza teórica, que desafia os puristas e encanta os clínicos. Ela cunha o termo metáfora encarnada para caracterizá-la. Convido o leitor a refletir sobre essa expressão.

Como prometi, vou estimular a discussão e não recorrer ao didatismo para “matar” o problema. Qual é a relação da fantasia inconsciente, como essa metáfora encarnada, com as representações psíquicas, tanto conscientes quanto inconscientes, no sentido metapsicológico? Klein não tratou disso especificamente em sua obra.

O problema é sério e de difícil expansão. As fantasias englobam entidades de natureza distinta, como vimos. Sensações, afetos, movimentos, conteúdos verbais, não verbais e pré-verbais são parte dessas fantasias, assim como elas também são representativas das pulsões no aparelho psíquico.

No capítulo sobre fantasia inconsciente, Kristeva menciona uma questão que tem inspirado e continuará a inspirar muito da pesquisa pós-kleiniana e pós-bioniana, isto é, a presença, além de representações, igualmente de elementos sem representação ou pré-representacionais. Lembremos aqui a postulação das funções alfa e beta por parte de Bion, o processo de alfabetização indicado por Ferro e Civitarese, e nossa sugestão, em diversos trabalhos, da existência de um metabolismo representacional que resulta na formação de pictogramas afetivos (Rocha Barros, 2002; Rocha Barros & Rocha Barros, 2011). Lacan, um autor que não me é familiar, fala da visibilidade do eidos (ideia), que ainda não é uma representação no sentido metapsicológico (Kristeva, 2000).

Numa nova leitura do artigo seminal de Isaacs (1943/1991) sobre a natureza e a função da fantasia inconsciente, Ogden (2014) propõe substituir o termo fantasia inconsciente pela expressão verbal fantasiar, como atividade que, ao fim e ao cabo, é o próprio processo de pensar inconsciente. Nesse ensaio, Ogden chama a atenção - e isso é muito importante - para o fato de que a fantasia inconsciente produz “um estado de consciência em que esse conteúdo psíquico [da fantasia] tenha significado para a pessoa, desde o começo do primeiro ano de vida” (p. 75).

Cabe ressaltar que aqui está sendo sugerido um modelo metafórico (sempre), muito diferente do estrutural de Freud. É um modelo de mundo interno povoado por relações de objeto fantasiadas. É nesse contexto que Kristeva fala de metáfora encarnada, referindo-se à fantasia inconsciente. Nesse paradigma, o fantasiar equivalente ao pensar se dá através de uma metaforização (metabolização) encarnada, intrínseca ao aparelho psíquico. Acrescento que aquilo que, em Freud, eram mecanismos mentais, em Klein, são formas de fantasiar, portanto não impessoais - daí a ideia de encarnadas.

Dando um passo à frente, essa concepção muda a perspectiva da abordagem psicanalítica, sustentada até então no conteúdo do pensamento, para um foco no modo como pensamos ou deixamos de pensar e na própria experiência de pensar. Daqui surge a centralidade da expressão experiência emocional na obra de Bion e continuadores. Lembremos que Winnicott reflete sobre o brincar não apenas como expressivo e portanto símbolo de processos inconscientes, mas como uma experiência em si.

Seria interessante refletirmos sobre uma passagem específica de Kristeva (lendo Klein e relacionando-a com a psicanálise e a psicologia do desenvolvimento contemporâneas), a respeito da evolução da representação simbólica a partir de uma forma anterior, passagem em que ela se refere à experiência emocional como uma espécie de envelope pré-narrativo, num contexto interpessoal que envolve representações analógicas constituídas de algo que não é “o puro vivido, nem pura abstração, mas algo intermediário entre os dois” (2000, pp. 237-238). Gostaria de ressaltar essa formulação de algo híbrido, intermediário, de coisas que existem em processo.

O que ela quer dizer em sua compreensão das propostas kleinianas sobre a natureza do viver humano e do aparelho psíquico que o instrumentaliza?

Ela vê em Melanie Klein a sugestão de que existe uma competência narrativa básica, inata, equivalente a um engrama, tal qual a gramática gerativa de Chomsky, presente nos processos de fantasiar a realidade, na apreensão do mundo, desde a tenra infância. De meu ponto de vista, não é uma história pré-formada herdada, mas uma forma de organizar o vivido em representações que misturam fragmentos do vivido com esboços de pensamento abstrato, que ela denomina representações analógicas. Nessa concepção, haveria um interesse rudimentar no mundo externo e interno, dando início à vida do espírito.

Trata-se de um princípio de atividade simbólica baseado na similitude entre significados de experiências emocionais diante do vivido, associado a um precipitado de significado ou sentido construído na direção do abstrato. Na psicologia do desenvolvimento, esse tipo de atividade mental é semelhante ao conceito de modelos afetivo-cognitivos.

Para Klein, o símbolo não se constitui como um simples envelope condutor de significado, mas é o próprio órgão do pensamento. Temos nessa frase a presença de uma fumaça que se origina na obra de Ernst Cassirer. Dentro dessa perspectiva, o indivíduo (inicialmente, a criança) não é um mero utilizador de símbolos, mas um criador de símbolos (Kristeva, 2000). Cabe aqui uma questão contemporânea central. Klein, assim como Bion, pensava que o símbolo deriva da necessidade de representar a ausência da mãe, uma falta. No contexto, a mente é vista como reativa. Em contraposição, temos sugerido (Rocha Barros & Rocha Barros, 2011) que o símbolo surge de uma atividade contínua do fluxo mental, que necessita construir ferramentas (símbolos) nos seus diversos níveis de complexidade, sendo portanto ativa e reativa. O símbolo surge da necessidade de criar ou incrementar instrumentos de comunicação consigo ou com os outros, ou seja, de pensar reflexivamente e de se comunicar. Essa concepção está de acordo com desenvolvimentos no campo das neurociências que, por meio de uma metáfora, caracterizam o funcionamento do cérebro como tendo a função de contador de histórias. Para a psicanálise, o cérebro e a mente trabalham de maneira contínua buscando criar formas, inicialmente para representar as experiências do corpo, como Ferenczi sugeriu. A ausência da mãe ou do seio talvez seja o primeiro grande problema que o bebê experimenta.

Gosto desta afirmação do analista italiano Stefano Calamandrei: “Essas formas mentais autogeradas, de algum modo organizadas por experiências corpóreas, atribuem uma intepretação emocional aos dados sensoriais e às percepções e, no nível narcísico, constituem a base para o pensamento inconsciente” (2022, p. 772).

Essas formas adquirem conteúdos específicos, com base nas experiências disponíveis para o ego e que respondem às demandas do inconsciente, que permitem representar e expressar diversos estados emocionais, na linha do que Calamandrei sugere.

Estamos trabalhando com uma contribuição inestimável à psicanálise contemporânea e ao aprofundamento do conhecimento do funcionamento da vida psíquica. O símbolo não apenas representa algo, mas concomitantemente expressa algo - e nesse sentido é criado. A título de exemplo, o paciente sonha com um gato preto. No trabalho com o analista, estabelece que o gato preto representa a sogra. Mas então coloca-se a questão de por que a sogra é expressa simbolicamente através de um gato preto. Poderia sê-lo por meio de uma cobra ou de um anjo. É nesse sentido que o indivíduo é o criador de símbolos, na medida em que ele escolhe a forma expressiva dentro de suas possibilidades representacionais, pois cada símbolo refere-se a um momento particular e singular de uma vivência emocional e pode sempre se transformar. É aqui também que os processos simbólicos são o lugar de renascimento do sujeito, como mencionado antes - renascimento porque a criação de símbolos estabelece uma liberdade de pensamento e de escolha, sobretudo ao libertar o indivíduo do automatismo da repetição.

Espero ter ficado claro até aqui que estou trabalhando com a leitura que Kristeva faz de Klein, mas adicionado a esta a minha leitura.

Agora, com atenção redobrada, observemos o seguinte.

Como vimos, ao fim e ao cabo do desenvolvimento da capacidade de simbolizar, a mãe real morre simbolicamente inúmeras vezes para dar surgimento ao espírito individualizado, identitário. A mãe pensada torna-se fonte de inspiração para a construção de uma autoridade própria (e não mais a própria autoridade), ao se tornar fonte de inspiração para a parametrização das relações com o mundo e com o Outro, sustentada pela preocupação (concern), pelo cuidado e por uma doce ternura para com o semelhante com quem se identifica no enfrentamento das agruras da vida. Na maturidade, a pulsão inicialmente erotizada dá lugar a um interesse também terno em relação ao Outro.

Kristeva enfatiza: “Klein não desvaloriza o desejo; ela o desmistifica na medida em que desmistifica [também] a pulsão de morte, mostrando que ela é pensável, que é em si a fonte do pensar” (2000, p. 392).

Implicitamente, o desejo é permeado sobretudo por angústias, mas é transformado em paz de espírito através do prazer vivido como amor transfigurado em gratidão. Felicidade é a vivência da gratidão.

Um ponto importante da reflexão kleiniana está na investigação profunda da função materna, que em seu pensamento engloba a função do pai, por meio do desejo deste, como regulador, protetor e complementador dos cuidados de maternagem. Mas atenção: cuidados maternos aqui (da mãe ou do analista em sessão) não se confundem com assistência social ou prodigalidade da expressão amorosa. A função materna incorporando a paterna que interessa à psicanálise é oferecida na forma de um pensamento transformador, que abre as portas para a construção de uma identidade pessoal, inspirada nesses cuidados, e para a assunção de uma autoridade que outrora foi dos pais, representada pelo superego, e que agora se instala no pensar reflexivo do ego, dando lugar a um superego benevolente.

Finalizo dando a palavra mais uma vez a Julia Kristeva:

Por ter centrado sua investigação sobre a [função] mãe - a princípio, sobre sua tarefa, depois sobre a necessidade de que ela morra para que o simbolismo viva -, Melanie Klein, a orestiana, se colocou, como dissemos, no coração da crise dos valores modernos. Reparar o pai e restaurar o conhecimento da realidade, diz ela em substância, são os objetivos [de certa forma] secundários, pouco interessantes porque potencialmente tirânicos, e além disso irrealizáveis sem a criação de uma vida psíquica. (pp. 391-392)

Essa é uma afirmação que demanda profunda reflexão por parte de todos nós, analistas. Uma compreensão superficial do que está sendo dito assassina a essência do que é a psicanálise. Por sua vez, uma compreensão profunda dessa ideia instala em nosso espírito a real grandeza do que é psicanalisar nos dias de hoje e mostra como é apaixonante fazê-lo.

1Este trabalho é fruto de prolongadas discussões com Elizabeth Lima da Rocha Barros, e dessa forma deve ser encarado como uma produção conjunta.

Referências

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Recebido: 26 de Outubro de 2023; Aceito: 09 de Novembro de 2023

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