O psicanalista contemporâneo se debruça cuidadosamente sobre a experiência clínica, verifica as teorias implícitas que orientam sua observação, desconfia de teorias totalizantes e combate qualquer tipo de dogmatismo. Conhece, na medida do que lhe é possível, os autores clássicos e os valoriza quando o auxiliam na clínica. Sente-se desafiado a problematizá-los diante de novos desenvolvimentos. Transita entre a observação do intrapsíquico e a participação no intersubjetivo, toma os afetos como importantes formas de revelação, não se intimida frente às dificuldades decorrentes de áreas com déficit de representação e usa sua própria mente para ajudar a representar o que o paciente não pode. O conhecimento de seu próprio funcionamento mental no campo analítico é sua bússola. Considera sua atividade uma arte/ciência em que todos os fatos devem ser levados em conta, sentindo-se contrariado em face de “verdades” e juízos “certo/errado”, que obstruem a capacidade de observação.
As considerações efetuadas devem ser relativizadas, pois o homem e a mulher contemporâneos - como peixes dentro da água - não têm acesso ao que seria visto de fora. Preenchem esse vácuo com exercícios imaginativos. Poderíamos considerar o que acontece ao observarmos as estrelas. Sua visão está a nosso alcance “contemporâneo”, mas sabemos que o que vemos ocorreu há milhões de anos, o tempo que a luz percorreu o espaço até atingir nossa retina. Ao mesmo tempo, tentamos adivinhar o que está vindo e ainda não chegou, sabendo que sua percepção será influenciada pelo que estamos fazendo com o que vemos.3 O contemporâneo, portanto, é produto do passado, e também do futuro.
Essas ideias influenciam o modo como cada um de nós vai ver o contemporâneo de 1923 - O eu e o isso, 100 anos depois - e conectá-lo com o misterioso futuro. Como o psicanalista que vive o passado de seu paciente (e dele próprio), no campo analítico, ao mesmo tempo que vislumbra emanações do futuro.
Sonhos e não-sonhos
Ontem, no alto da escada,
Encontrei um homem que não estava lá
Ele não estava lá de novo hoje
Oh! Como gostaria que ele tivesse ido embora… w. h. mearns, “Antigonish” (fragmento)
Através do sonho (da noite e da vigília), ou melhor, do relato emocionado do sonho, o analista entra em contato com a rede simbólica do pensamento de seu paciente. Mas, como sabemos, o analista não vai além do umbigo do sonho, a última fronteira. O que haveria além dela? O biológico se apresenta através das pulsões, das fantasias originárias, das preconcepções, dos tropismos, fenômenos que buscam desesperadamente o objeto para que o ser se torne humano.
As experiências emocionais - o encontro íntimo com o outro - podem instalar-se na mente inicial como registros que não puderam ser simbolizados. Seus traços farão parte do inconsciente não reprimido, como mente arcaica ou primordial. Como na epígrafe, eles não estão lá, no alto da escada. E como seria bom que o que não está lá - não ligado pelo símbolo - tivesse ido embora, principalmente quando o que não está lá se manifesta como assombrações compulsivas, sob a égide da pulsão de morte.
Esses registros constituem os alicerces, fundamento para a constituição da mente simbólica. Por outro lado, experiências emocionais vivenciadas como traumáticas podem destruir a incipiente capacidade de simbolização. A cisão defensiva faz com que seus resíduos sejam evacuados, por exemplo, através de conglomerados constituídos por partes do aparelho mental, constituindo-se objetos bizarros. Tais aspectos fazem parte de um espectro de manifestações que podem ser agrupadas na denominação não-sonhos. Quando eles se manifestam no campo analítico, o fazem através de descargas emocionais, descargas em ato e no corpo, transformações em alucinose e dramatizações estanques.
Impõe-se considerar que sonhos incluem camadas de não-sonho da mente primordial, camadas que escondem a terra original, a terra do não está lá, porque não temos acesso simbólico a ela. O modelo do palimpsesto nos ajuda a imaginar a sobreposição de camadas, como gradientes de representação.4
Os aspectos assinalados - déficit na simbolização, não-sonho, compulsão à repetição, pulsão de morte, mente primordial, inconsciente não reprimido - fazem parte de um conjunto que levou Freud a perceber que o modelo do sonho (primeira tópica) teria de se tornar mais complexo. Surgiu o modelo estrutural (segunda tópica), com as instâncias eu, isso e supereu. Esse modelo provocou também uma mudança na compreensão do caráter, objeto principal deste estudo.
Especulações sobre o caráter
A etimologia da palavra caráter indica marcas, sulcos, que se fixam na matéria. Impõe-se a hipótese de que existe uma parte inicial do caráter, irredutível, uma camada que não sofreria transformação. Esse caráter inicial seria o núcleo constante, a terra sobre a qual crescem as diversas culturas (neurose, psicose, perversão, somatizações e os próprios distúrbios do caráter). Acrescento: de onde se desenvolve e é atacada a vida de cada um. É a célula-base de um conglomerado constituído por derivados da pulsão, o resultado das sublimações e as defesas do tipo formação reativa, como Freud ensina nos Três ensaios (1905/1976b). Mas não só isso, como veremos adiante.
O caráter se manifesta através da forma como a pessoa é. Observa-se em seu comportamento espontâneo não pensado. Sua parte arcaica estaria aquém das neuroses de caráter e dos transtornos de personalidade. Esses fatos resultariam de organizações defensivas que, inevitavelmente, se articulam com ela.
Podemos considerar que o mais antigo desse palimpsesto, o suposto irredutível do caráter, vincula fatores constitucionais e pré-natais com as fantasias inconscientes dos pais em relação a seu bebê. Essas fantasias são, por sua vez, transformações de marcas de gerações anteriores e incluem experiências filogenéticas. Refiro-me a aspectos transgeracionais que são transmitidos por meio de identificações das quais é impossível escapar - registros que determinam o destino, para aquém e além de qualquer organização neurótica, psicótica e perversa, como se fosse um correlato psíquico da impressão digital humana com seu idioma particular, na analogia proposta por Bollas (2007/2013).
Seria possível dar significado a alguns aspectos desse destino. Existiria um certo grau de liberdade, associado a experiências emocionais subsequentes, que permite modificá-lo dando-lhe significado retroativo através do sonhar. Mas persistem comportamentos que se manifestam como repetição não pensada.
A proposta metapsicológica envolve a constituição da mente supostamente normal, ainda que saibamos que pode ocorrer uma patologia intrínseca ao caráter, como mostraram Freud, Abraham, Reich, Fenichel e outros, tema que não será abordado neste estudo. As ideias envolvem riscos ideológicos e técnicos - entre eles, considerar não analisável algo que poderia ser sonhado por outro analista. Temos que lidar com essa possibilidade.
Sônia:5 cena 1
Sônia me conta que sofre com pesadelos noturnos. São sempre os mesmos e os tem desde sempre. Caminha por determinados locais até encontrar-se num local escuro, onde tem a sensação de que vai ser esmagada por algo muito pesado que está caindo sobre ela. Acorda desesperada. Durante o despertar, vive o pavor de que algo poderá vir do corredor em direção ao seu quarto, para fazer-lhe mal. Por isso, dorme com a luz acesa. Às vezes, precisa levantar-se e examinar os cômodos da casa, para poder tranquilizar-se. Não há associações. Não vejo em Sônia desejo de investigação.
Podemos supor que Sônia busca transformar experiências emocionais em sonho, mas os esboços de significados gerados são sentidos como traumáticos. O aparelho de sonhar não dá conta e/ou foi atacado e os significados iniciais revertidos. Não podendo sonhar, Sônia desperta. Seu não-sonho-pesadelo continua na vigília, com ela imaginando assombrações que entrarão em seu quarto. Na verdade, Sônia não está dormindo nem está acordada. A luz acesa busca protegê-la da escuridão que nutre os objetos bizarros ameaçadores, mas não é suficiente para tal. São assombrações porque não têm significado.
A denominação aparelho de sonhar e de pensar envolve funções de ligação do eu, instância que negocia a relação entre os elementos pulsionais que provêm do isso e a realidade externa e interna, que inclui sua derivação para supereu. O fracasso se revela na repetição compulsiva demoníaca, que vem desde sempre, indicando manifestações da pulsão de morte. O eu esmagado perde sua função, e os afetos pulsionais, mal representados, são descarregados por meio de alucinações. O atravessamento pulsional carrega partes fragmentadas do eu que constituirão os objetos persecutórios bizarros.
De forma concomitante, um aspecto do eu, mais preservado, consegue registrar o esmagamento que está ocorrendo, como um filme desesperado de terror, produto de um aparelho que filma e projeta ao mesmo tempo. O diretor do filme não suporta a dor esmagadora. O filme é interrompido, mas a máquina - dominada pela pulsão de morte - não cessa a projeção, ainda que esteja sendo destruída e suas próprias partes evacuadas.
Esse quase-sonho é comunicado ao analista. Revela a catástrofe e fornece pistas enigmáticas sobre a relação esmagador/esmagado. O analista deve ser conhecedor de catástrofes, desabamentos e recuperação de sobreviventes, cônscio de que o esmagamento pode atingi-lo.
O analista se interessa por resíduos de significado. Sinto que devo valorizar o escuro, o pano de fundo constante do não-sonho repetitivo. Escuro é ausência de imagem, vazio de representações, ou é um sofisticado sistema de representação, altamente expressivo e evocativo, de algo sem sentido? Algo que está lá ainda que ausente… Um paradoxo que vale a pena manter. O escuro lhe evoca o clima de terror e suspense. É o tema melódico de uma fuga, enquadre para a instalação de outras vozes. Melodias, afetos e palavras que descrevem e evocam estados sensoriais e afetivos: escuro, apavorante, pesado, esmagamento, desespero. Palavras acompanhadas de imagens que se repetem e repetem, sem vinculação à rede simbólica do pensamento. O desinteresse de Sônia em investigar passa a impressão de que a situação foi naturalizada. Necessita-se um analista que se interesse pelo desinteresse.
O analista percebe sua dificuldade em vincular as imagens e afetos a símbolos verbais. Surpreende-se por sentir-se tomado por um sonho/flash visual que desaparece instantaneamente: um corpo cai sobre Sônia. Curioso e paradoxal: qualidades secundárias de algo ausente. Não vemos o corpo no riso do Gato de Cheshire de Alice no país das maravilhas. Esse corpo existe ou não? Estamos frente a um problema epistemológico que acompanha a psicanálise quando lida com as questões da representação e da não representação. Com consequências técnicas importantes.
Penso que o terror de Sônia foi representado da forma possível por meio do não-sonho traumático. Os ataques a esse sinal - traumático - foram também representados através do escuro. Talvez um símbolo icônico (Scarfone, 2013) - os reis medievais eram representados em seu túmulo por um espaço vazio com a forma de seu corpo (Ginzburg, 2001)? O afeto esmagamento é um sinal - lembremos a ansiedade-sinal (Freud, 1926/1976a) - que alerta para a fratura da rede simbólica. Ela se manifesta como pista arqueológica de cataclisma primordial.
Em relação ao não-sonho traumático de Sônia, podemos considerar várias possibilidades. Por exemplo, o não-sonho busca representar significados apavorantes, que em seguida ou ao mesmo tempo são atacados em sua percepção, e esse ataque é representado pela escuridão. E/ou: parte da mente tenta esmagar outra parte que gera significados esmagadores para essa mesma mente. E/ou: os esboços de significado buscam esmagar a mente que, apavorada, tenta também esmagar os mesmos significados. E assim por diante. Esses aspectos incluem projeções, condensações e deslocamentos para a pessoa do analista, isto é, transferência. A mente do analista, projetivamente, também foi esmagada em sua capacidade de sonhar os não-sonhos de Sônia, ainda que em outro nível exista esperança de que esse esmagamento seja não apenas suportado, mas também significado. Juntando partes fraturadas, construindo ou reconstruindo áreas esmagadas. O analista é afetado (essa palavra remete a afetos) pelo que acontece no campo analítico. Ouve palavras envolvidas por afetos e vivencia afetos que estão além e aquém das palavras, o que inclui tons, timbres, pausas, ritmos, melodias, gestos, cheiros e olhares - o corpo fala. Palavras não conseguem expressar fatos que potencialmente podem ser captados pela intuição do analista.
Sônia: cena 2
Sônia me contou, durante meses, os detalhes de uma disputa com suas irmãs em relação a uma herança deixada pelo pai. Não demonstrava raiva nem ódio e acreditava que cada irmã estava lutando pelo que achava certo. Minha impressão era que ela buscava observar os fatos à distância para evitar entrar em contato com seus sentimentos.
Aos poucos, sua capacidade de sonhar e pensar parecia desenvolver-se, mas não me sentia satisfeito com o trabalho analítico. Parecia que algo me escapava. Em determinados momentos, me incomodava a concordância fácil de Sônia com minhas intervenções, sem que se ampliasse sua capacidade de pensar. Quando passou a insistir que estava “muito melhor”, eu não conseguia imaginar como isso havia acontecido. Sabia que deveria continuar observando o campo analítico.
Certo dia, encerro a sessão anterior à de Sônia e sei que ela não chegou, porque certa luz em minha sala de atendimento - que indica a chegada de alguém - não se acendeu. Mesmo assim, vou até a sala de espera, e ela não está lá. Volto para minha sala e deixo a porta aberta. Passam-se 10 minutos, e me sinto incomodado. Trata-se de uma experiência emocional, ainda não-sonho tentando ser sonhado - quem não está lá está dentro de mim buscando significado. Passam-se 15 minutos, e sem pensar retorno à sala de espera. Encontro Sônia, em pé, como sem saber o que fazer. Escapa-me a frase: “Você está aí?”. Não tenho certeza se ela ouviu. Pensei: “O que ela está fazendo aí? Por que não entrou na sala?”.
Convido Sônia a entrar. Ela se deita e fica em silêncio. Sinto-me constrangido. Pergunto-lhe se chegou agora. Diz que chegou há 10 minutos. Viu a porta aberta, mas não sabia se podia entrar. Digo-lhe que a porta está aberta para ela. Sônia responde que não entrou porque imaginou que poderia incomodar, ser um estorvo. (Soube-se, depois, que o paciente anterior havia deixado a porta de entrada aberta, o que impediu o acionamento da luz.) Continuo ouvindo. Sônia conta que, quando me viu, teve certeza de que ali não era seu lugar, que eu não a estava esperando, que não era seu horário.
Nesse momento, e depois, dei-me conta de fatos que havia observado, desde a entrevista inicial, aos quais não dera importância. Sônia se apresentava como uma pessoa elegante e discreta. Sua gestualidade era cuidadosa e delicada. Suas vestes e maquiagem refletiam essas características. Seu sorriso e sua voz eram agradáveis. Uma pessoa educada e simpática. Alguém com quem a gente se sente civilizado, uma lady. Frente a ela, o lado cavalheiro do analista fora reforçado. Quando ele abria a porta, Sônia esperava na soleira e o olhava. O analista a convidava para entrar com um gesto acolhedor. Ela agradecia com um sorriso e entrava cuidadosamente. O analista esperava até que ela desse os cinco passos que a separavam do divã. Ela parava e se virava para o analista. Este, cavalheirescamente, a convidava a deitar-se. Ela sorria e se deitava com delicadeza. Em seguida, o analista se sentava, atrás do divã.
Posteriormente, percebeu-se que lady Sônia e seu analista-cavalheiro estavam envolvidos, em certas áreas, num conluio dual de idealização mútua. O caráter de Sônia se manifestava como simpatia, delicadeza, educação, eficiência. Essas características induziam o analista a comportar-se de forma complementar.
O episódio descrito desfez o conluio dual. Agora Sônia se apresenta como alguém diminuído, um estorvo, incapaz de estimular admiração e amor. Uma Gata Borralheira. Estamos diante de um sofrer sem sentido, que - escondido - é repetido e repetido, mas mascarado por defesas (delicadeza, educação) que também se repetem. Sônia não pode sonhar esses aspectos. Ela mal tem consciência de seu comportamento. O analista, por sua vez, transformou seu cavalheirismo em irritação e quase falta de educação.
Antes, considerei caráter como algo tão natural que a pessoa não se dá conta de sua existência. Não temos como saber o quanto estamos próximos do irredutível do caráter proposto. É possível que não estejamos muito longe, mas será importante continuar a observação.
Retomemos o não-sonho traumático. Caminhemos do intrapsíquico para o intersubjetivo. Podemos imaginar a lady caindo sobre a Gata Borralheira e a esmagando, ou o contrário? Ela caindo sobre o analista e esmagando sua capacidade de percepção? Ela, na sala de espera, esmagando sua potência? Ela, na sala de espera, sendo esmagada pela ausência do analista? Ambos esmagados em sua capacidade de sonhar, durante o conluio de idealização mútua? Tudo ao mesmo tempo? Em outras palavras, o não-sonho traumático já vinha sendo colocado no campo analítico, refletindo tanto os traumas como as defesas contra eles. O não-sonho se constitui como tentativa de conseguir carona rumo a uma área simbólica. Essa tentativa/pesadelo também existe desde sempre?
O conluio dual manifesta a impossibilidade de viver na realidade triangular. Seu desfazimento acontece através das cenas: 1) Sônia não entra na sala de análise - depois veríamos que ela queria ser buscada. 2) O analista, preocupado, vai buscá-la. 3) Surpreende-se - “Você está aí?”. 4) O analista se sente constrangido. 5) Sônia manifesta sua desvalorização. A idealização mútua termina. O conluio poderia ser facilmente retomado: bastaria que Sônia e o analista se desculpassem, e o idílio continuaria.
Por outro lado, está tudo pronto para que o conluio de idealização mútua se transforme num conluio de ressentimento mútuo, com cobranças e culpas pelos desencontros. Identificar-se-ia uma oscilação entre aspectos “pele fina” (idealização mútua) e “pele grossa” (cobranças mútuas). Em ambas as situações, a relação dual continuaria.
É importante considerar que a percepção dos conluios duais descritos somente ocorre a posteriori, ou après-coup, isto é, depois que o conluio dual é desfeito. A continuação da transformação em sonho (ou seu fracasso) será fator da capacidade da dupla, em particular da arte do analista.
Retomando a questão do caráter
No material clínico, referi-me ao comportamento lady de Sônia como manifestação de seu caráter. Como vimos, estamos frente a uma forma de estruturação do psiquismo que determina a “forma de ser” da pessoa, para aquém de sintomas ou comportamentos que refletem transtornos do caráter ou da personalidade. Por se tratar de algo egossintônico - isto é, uma estruturação do eu que se mantém em equilíbrio razoável com as demais instâncias -, passa desapercebido tanto pelo indivíduo como pelo objeto.
Quando essa estruturação é estável, utiliza-se a expressão pessoa de caráter - que se apresenta de maneira coerente e verdadeira. Usamos também o termo pessoa íntegra, isto é, inteira, que se contrapõe a mau-caráter ou sem caráter. O termo filho da puta revela a intuição popular sobre voracidade invejosa e déficit de função paterna estruturante. Em situações de evidente falso self, manifesta-se a artificialidade da formação reativa.
Como veremos adiante, as primeiras identificações (que constituem o caráter inicial) seguem o modelo canibalístico - sou aquilo que ingiro. Podemos ampliar a ideia para a fantasia de entrar dentro do objeto, isto é, como e sou comido, tornando-me igual ao objeto inicial. Os primórdios da mente do bebê decorreriam desse tipo de identificação, com todas as instâncias do aparelho mental do objeto. O modelo do imprinting, da etologia, se torna produtivo (Andrade, 1993).
As ideias sobre caráter, ainda que não sistematizadas, aparecem em vários momentos da obra freudiana. Um parágrafo póstumo indica seu contínuo interesse pelas primeiras identificações:
É interessante que, em conexão com experiências primitivas, quando contrastadas com experiências posteriores, todas as variadas reações a elas sobrevivem, naturalmente inclusive as contraditórias. Em vez de uma decisão, que teria sido o desfecho mais tarde. Explicação: fraqueza do poder de síntese, retenção da característica dos processos primários. (Freud, 1941/1969b, p. 335)
Uma definição de caráter se encontra nos Três ensaios:
O que chamamos “caráter” de um indivíduo é, em boa parte, construído com o material de excitações sexuais, e se compõe de instintos fixados desde a infância, de construções adquiridas através de sublimação e daquelas destinadas a refrear eficazmente impulsos perversos reconhecidos como inaproveitáveis. (Freud, 1905/1976b, pp. 165-166)
A “normalidade” do caráter ou seu transtorno dependerá da percepção interna e/ou do ambiente. Freud também usa o termo sadio:
Todas as particularidades desta segunda etapa de atividade sexual infantil deixam profundos traços (inconscientes) de impressões na memória da pessoa, determinam o desenvolvimento de seu caráter, quando ela permanece sadia, e a sintomatologia de sua neurose, quando ela adoece após a puberdade. (p. 166, grifo meu)
Nos trabalhos freudianos anteriores à segunda tópica, caráter é definido a partir da transformação das pulsões em traços caracterológicos,
ora sem maior deformação em seu objeto nem em sua finalidade (como a gula em sequência à avidez oral do bebê), ora como sublimação por substituição de sua fonte, objeto e finalidade primitivos por outros mais evoluídos (gula por fome de saber), ora como formação reativa (como a limpeza contra o desejo de sujar). (Baranger et al., 1956)
São clássicas as descrições de traços de caráter associados às fases libidinais (Abraham, 1927/1965), mas temos que nos cuidar contra o reducionismo dessas classificações, que podem mascarar a complexidade dos fatos, como nos alertam Meltzer (1973/1979) e o próprio Abraham.
Com o advento da segunda tópica, perde-se a primazia das pulsões para a abordagem dos mecanismos defensivos utilizados pelo eu:
Esses mecanismos não são abandonados após terem assistido o ego durante os anos difíceis de seu desenvolvimento. … Estes se fixam em seu ego. Tornam-se modalidades regulares de reação de seu caráter, as quais são repetidas durante toda a vida, sempre que ocorre uma situação semelhante à original. (Freud, 1937/1969a, p. 270)
Em O eu e o isso, Freud se refere ao inconsciente não reprimido: “Uma parte do eu - e sabe Deus quão importante é ela - pode ser ics” (1923/2011, p. 22). Aqui se encontra o caráter acompanhando outros fatos que “só Deus sabe”. A referência divina nos abre para a ideia de infinito, um desconhecido em expansão que sempre nos escapa.
Nesse texto, utilizando o modelo da melancolia, Freud propõe que o caráter do eu é um precipitado dos investimentos objetais abandonados que contêm a história dessas escolhas de objeto. Como vimos, na primitiva fase oral, o investimento objetal se confunde com identificação. Os povos primitivos adquirem as características do animal incorporado como alimento, que persistem no caráter de quem o devora. Essa é a origem da refeição totêmica, especulação que indica a assunção do caráter do pai morto. Dessa forma, o caráter vai sendo formado antes do abandono do objeto. “A mudança do caráter poderia sobreviver à relação objetal e, num certo sentido, conservá-la” (p. 37).
As identificações com objetos idealizados - incluindo o pai da pré-história pessoal - serão diretas, imediatas. Entra em jogo a filogênese, a herança arcaica do indivíduo, especulada em Totem e tabu, resultando nas limitações éticas do complexo de Édipo e na superação da rivalidade entre os irmãos e semelhantes. As identificações com os pais complementam essa identificação primária, assim como outras identificações posteriores.
Lembremos que o supereu não é apenas um resíduo das primeiras escolhas objetais, pois também é uma formação reativa a elas. Além de “ser igual ao pai”, há proibições, aspectos que só pertencem a ele. Nesse assoalho também se assentarão as características da cultura.
Freud retoma a questão da hereditariedade:
As vivências do eu parecem inicialmente perdidas para a herança, mas quando se repetem com frequência e força suficientes, em muitos indivíduos que se sucedem por gerações, elas como que se transformam em vivências do id, experiências cujas impressões são mantidas hereditariamente. Assim o id hereditário alberga resíduos de incontáveis existências de eu, e, quando o eu cria o supereu a partir do id, talvez faça aparecer de novo anteriores formas de eu, proporcione-lhes uma ressurreição. (p. 48)
Sabemos que Freud tem sido criticado por essa suposta visão lamarckiana. No entanto, as recentes descobertas sobre a epigênese (herança de caracteres adquiridos durante a vida) se coadunam com suas hipóteses. Aqui, portanto, entram em jogo características adquiridas através de vivências ambientais subsequentes, que se insertam nos aspectos transgeracionais.6
Lembremos que, ao abandonar o objeto, a libido objetal se transforma em libido narcísica, dessexualizada, que será a base das sublimações. Nesse momento já identificamos aspectos importantes do caráter: identificações iniciais, formações reativas e sublimações, aos quais agora devemos acrescentar outros mecanismos de defesa do eu.
Green propõe que nos voltemos para o caráter como modelo clínico de base:
Trata-se do efeito combinado de diferentes partes do aparelho psíquico. A referência às pulsões remete ao id, destacando a “parcialidade” das fixações pulsionais. O envolvimento do ego está presente na tendência à unificação e na orientação em direção à sublimação. Com relação ao superego seu impacto é duplo: num nível mais elementar pelas referências às formações reativas, num nível mais geral para o apoio sobre o papel dos mecanismos de identificação e, nesse último caso, da identificação do superego dos pais. Assim, a partir de uma noção simples, toda a complexidade e heterogeneidade do aparelho psíquico se apresenta nesses processos, revelando aquilo que aparece como uma marca da individualidade. Evidentemente restaria ainda considerar o papel desempenhado pela ideologia de uma certa cultura - o superego cultural - no encorajamento ou reprovação de certos traços de caráter. (2002/2008, pp. 181-182)
Sobre esse último aspecto, voltemos a Freud:
Essa coisa de difícil definição a que chamamos “caráter” deve ser atribuída ao eu. Algo que compõe esse caráter já apreendemos. Sobretudo a incorporação, como supereu, da inicial instância parental, talvez a mais decisiva e importante, depois as identificações com os dois genitores da época posterior e com outras influentes pessoas e as mesmas identificações como precipitados de relações objetais abandonadas. E acrescentemos, como contribuições nunca ausentes na formação do caráter, as formações reativas, que o eu adquire primeiramente em suas repressões e, depois, nas rejeições de impulsos instintuais indesejados, por meios mais normais. (1933/2010, p. 236)
Sônia, novamente
Retomemos a situação clínica durante o conluio dual de gentilezas entre os membros da dupla analítica. Trata-se de uma espécie de teatro mímico repetitivo e estático, que lembra rituais. A ansiedade não é manifesta. Esses fatos têm sido nomeados não-sonhos-a-dois ou enactments crônicos (Cassorla, 2016). O desfazimento do enactment crônico é nomeado enactment agudo. Não nos deteremos nesses aspectos. Considero, no entanto, que a psicanálise contemporânea está sendo desafiada a levar em conta o ato, o comportamento, para aquém da ação pensada e do ato/descarga. Algo nos limites do sonho. Possivelmente estamos frente a emanações do futuro.
Após o episódio descrito - o enactment agudo - o processo, antes estancado, é vitalizado. O pesadelo contado nas primeiras sessões, que estava desaparecido, retorna. Mas com outras características, que mostram como a rede simbólica vai se ampliando.
O cenário é o mesmo. Está escuro e algo cai sobre Sônia, algo que vai esmagá-la. Aos poucos, surge um esboço de imagem que, numa sessão, é nomeada: “Parecia uma… viola… um piano?… um violoncelo talvez”.
As associações fazem Sônia retornar à sua infância, quando estudava piano. Não se lembra direito dessa fase, mas sabia ler partituras e tocava obras clássicas. Hoje não se lembra de nada, não sabe ler uma nota… Tem certeza de que era uma ótima aluna e que sua professora, Violeta, era rígida e gostava dela por sua aplicação e seriedade. Aos poucos, percebemos que a imagem de um piano, condensado com viola (de Violeta), simboliza responsabilidade, eficiência e rigidez, fatos que traumaticamente caíram sobre ela, esmagando-a. Essas constatações fazem Sônia lembrar que, quando tinha 4 anos de idade, enganava sobre sua suposta capacidade de leitura, repetindo aquilo que os adultos lhe contavam ao lerem livros infantis para ela. Isso era motivo de admiração. Um dia, era à noitinha, já estava escuro. Seu pai chega do trabalho com um livrinho infantil. Senta-se junto a ela e pede que leia. Sônia se sente aterrorizada. Chora desesperada e corre para junto da mãe. Sônia me diz, emocionada: “Era a morte, era perder o amor de meu pai”.
Após a sessão, Sônia divide essa lembrança com a mãe. Esta lhe diz que o episódio realmente aconteceu, mas não dessa forma. Os adultos da casa sabiam que ela não tinha condições de ler e levavam suas exibições na brincadeira. O pai de fato havia comprado um livrinho, mas não era de histórias, era de colorir. Ninguém entendeu por que ela tinha ficado naquele estado, mas a mãe supôs que ela se assustou com alguma expectativa do pai e lhe dizia: “Seu pai gosta muito de você”.
Verifica-se, portanto, que Sônia externalizava no campo analítico (e na vida) um conluio de perseguição e sedução mútua com a imago do pai internalizado. Essa situação foi ampliada, durante a análise, para fantasias sobre a cena primária, também idealizada e esmagadora. Esses fatos lembrados se instalaram sobre outros, anteriores, inscrições primordiais de fatos transgeracionais, impossíveis de lembrar. De qualquer forma, a dupla analítica recupera fatos relacionados aos avós maternos, que eram músicos. Havia também um ancestral escritor, ídolo da família, em quem o pai se espelhava. A dupla analítica efetua reconstruções hipotéticas que ampliam a rede simbólica. Sei, no entanto, que devo cuidar-me para não deixar de identificar compulsão à concordância, forma sedutora de Sônia retomar traços caracterológicos miméticos.
O decorrer da análise de Sônia revelou traumas continuados. Sua mãe havia provocado aborto antes de Sônia nascer e se sentia culpada e ameaçada de perder Sônia na nova gravidez. Seu irmão mais novo estava constantemente doente e, aos poucos, vimos que Sônia teve que criar recursos para cuidar da própria mãe, reforçando as características de simpatia e eficiência já presentes.
Bastante tempo depois, Sônia me conta que, entre os 4 e 6 anos, ficava excitada com um vizinho que a acariciava. Buscava-o compulsivamente para sentir-se existente. O sonho traumático de alguém caindo sobre ela incluía esses aspectos, o violoncelo representando masculinidade excitantemente perigosa. O conluio crônico também tinha um componente erótico. O “você está aí” lembrou frases de seu vizinho quando ela chegava e, ansiosa, tinha de esperar que ele ficasse livre para ela. Somente então a reverie do analista (sobre um homem caindo sobre ela) lhe fez algum sentido. Sônia também revelou, durante a análise, sua raiva da mãe por ser muito sexualizada, sentindo-se um estorvo na relação entre os pais. Os fatos descritos surgiram como associações a fatos que estavam ocorrendo no campo analítico.
Psicanálise não acontece a partir de relações causais, mas a partir de complexos sonhos e não-sonhos que revelam e atacam a rede simbólica. O fato de Sônia ter informações de sua mãe, que complementavam nossas reconstruções, nos ajudou a verificar como fatos ocorridos em fases pré-verbais foram registrados e intuídos, de alguma forma, frente a vivências similares ocorridas no campo analítico. Sentimentos pré-históricos foram recuperados, como nas escavações arqueológicas, e ligados a símbolos criados no encontro analítico.
Este trabalho utilizou o modelo do caráter como auxiliar na compreensão dos fatos estudados. Não é possível supor que tudo aquilo não representado, em sua infinitude, se reflita no caráter, mas não podemos deixar de considerar que uma parte se manifesta dessa forma. Aquilo que se imagina conhecer nos conduz para um maior desconhecido.
Em resumo, do “infinito sem forma” se alçam as matérias que constituirão o genético, que se complicará com a constituição permeada pelas pulsões e pelas identificações transgeracionais, que por sua vez interagirão com os objetos iniciais enquanto o aparelho psíquico se constitui. Essa interação estará condicionada, portanto, por esses registros primordiais. Poderá acontecer o caminho inverso: experiências objetais poderão ressignificar os aspectos primordiais. Os alcances dessa ressignificação serão mais ou menos limitados, dependendo da qualidade tantos das marcas primordiais como das experiências posteriores. O conceito de Nachträglichkeit (après-coup) é básico, assim como as características da memória. Lembremos a famosa Carta 52: “O material que se apresenta em forma de traços (vestígios) mnêmicos … [está] sujeito de tempos em tempos a uma reorganização de acordo com circunstâncias novas - a uma retranscrição” (Freud, 1977, p. 317).
Quando a análise terminou, Sônia continuava uma lady: simpática e gentil, alguém com quem a gente se sente civilizado. No entanto, Sônia se mostrava capaz de lidar com sofrimento e frustrações, podendo dar significado a perseguições e depressões. Mesmo quando o sonhar era difícil e Sônia se desesperava, os ataques ao analista mantinham um cuidado amoroso. Isto é, os fatos caracterológicos também envolviam potencialidades de reparação significativa. Se faziam parte das marcas iniciais, também se desenvolveram através de relações intersubjetivas íntimas. Elas estavam lá, invisíveis e inaudíveis, e passaram a estar aqui quando simbolizadas.
A validação externa das hipóteses levantadas surgiu quando Sônia reencontrou uma antiga amiga que, após várias semanas de contato íntimo, lhe disse: “Você está bem diferente, mas continua a mesma”.













