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Revista Brasileira de Psicanálise

versão impressa ISSN 0486-641X

Rev. bras. psicanál vol.57 no.4 São Paulo  2023  Epub 04-Nov-2024

https://doi.org/10.69904/0486-641x.v57n4.18 

Resenhas

Deleuze ou os devires da psicanálise

Fábio Martins Pereira1 

Psiquiatra. Psicanalista pela Associação Psicanalítica Internacional (IPA).

1Membro associado da Sociedade Brasileira de Psicanálise de Porto Alegre (SBPDEPA). Professor da Faculdade de Medicina da Universidade Franciscana de Santa Maria (UFN), Santa Maria. fabiomartinspereira@yahoo.com.br

Graña, Roberto B.. Deleuze ou os devires da psicanálise. Literatura em Cena, 2023. p. 147


Com o lançamento do livro Deleuze ou os devires da psicanálise, o escritor e psicanalista Roberto Graña finaliza a trilogia A psicanálise e a crítica filosófica, sua tese de pós-doutoramento sob orientação de Elisabeth Roudinesco, na Universidade de Paris 7. Esse volume foi antecedido por Heidegger ou as vicissitudes da destruição (2016) e Sartre ou o inconsciente como álibi (2019), publicados pela editora age.

Ao iniciar a leitura dos primeiros parágrafos do volume final, o leitor se depara com o que parece ser a marca da escrita do autor, acredito eu desde a publicação de A carne e a escrita: um estudo crítico psicanalítico sobre Graciliano Ramos, editado em 2003 e reeditado em 2022: o diálogo interdisciplinar, intertextual ou transdisciplinar - para ingressarmos na linguagem utilizada por Graña - com o objetivo de abranger o que poderíamos descrever como o pensamento psicanalítico contemporâneo.

O livro trata de finalizar o que o psicanalista gaúcho chama de crítica, mas poderíamos chamar de apreciação filosófica da psicanálise. Aos já familiarizados com o tema, aqui termina a reflexão sobre o que resta da psicanálise - pensemos em Donald Winnicott e no uso de um objeto - após a desconstrução feita pelos três pensadores estudados por Graña, a saber: Martin Heidegger, crítico do método psicanalítico; Jean-Paul Sartre, examinador do inconsciente; e Gilles Deleuze, aquele que pôs o Édipo em questão, ou o crítico da representação.

Não tenhamos pressa em avaliar o estudo, eu diria. Os neófitos podem facilmente confundir-se. Todavia, um olhar atento aos textos pode mostrar uma afinidade profunda entre os três filósofos estudados e o pensamento de Sándor Ferenczi, D. W. Winnicott e Jacques Lacan - os perpetuadores da psicanálise, segundo Graña -, para não citar, obviamente, o criador de nossa disciplina, Sigmund Freud. E, sendo a transdisciplinaridade o Leitmotiv do nosso autor, a crítica literária também responde ao chamado.

Neste livro, como nos escritos anteriores, a Destruktion dá-se por uma minuciosa avaliação das contribuições de Deleuze ao pensar psicanalítico contemporâneo, assinalando seus pontos positivos e negativos.

Qualquer tentativa de resumo do livro seria uma diminuição do estudo realizado por Graña acerca das aproximações entre o pensamento de Deleuze e a psicanálise contemporânea. “Sem deixar de ser a mesma, a psicanálise hoje é outra” (p. 27). Todavia, proponho um spoiler, se me permitem uma brincadeira de nossos tempos. Não mais do que algumas pinceladas sobre o conteúdo do livro, sabendo que nesse caso uma resenha não deixa de ser uma tentativa de comunicação acerca do uso que o leitor fez de um escrito.

No capítulo inicial, o descompasso entre alguns fundamentos psicanalíticos e o pensamento filosófico contemporâneo é apresentado juntamente com a necessidade de pôr em perspectiva certas conceituações psicanalíticas, mais precisamente questionando como pode a psicanálise adentrar o século 21 sem o auxílio dos demais campos do saber. Ou melhor, quem seriam os herdeiros da psicanálise, aqueles capazes de ampliar nosso campo de visão e manter viva a descoberta freudiana? O autor apresenta uma lista de pensadores, entre os quais destaca a figura de Gilles Deleuze, um dos “amigos da psicanálise”, talvez não declarado, e se propõe a responder o porquê da expressão. O autor de O anti-Édipo começa a delinear-se, e sua relação com a psicanálise é apontada, pois alguma coisa ele quer com ela. Nas páginas subsequentes, vemos o diálogo DeleuzeWinnicott tomar forma na figura inicial do papel (des)central do complexo de Édipo e sua (re)apresentação clínica. O lugar da interpretação, Deutung, versus a experiência, Erlebnis, é apresentado e avaliado. Assim como no livro sobre Heidegger, Graña questiona o uso, nada winnicottiano, que Deleuze faz em determinados momentos da interpretação na psicanálise, pincelando equívocos e apontando aproximações.

Mais adiante, a substancialidade do inconsciente - lembro aqui o volume dedicado ao filósofo Jean-Paul Sartre e ao inconsciente como álibi - é novamente investigada, agora sob a ótica da crítica deleuziana da representação. O conceito deleuziano de desrostificação é aproximado dos estados de “regressão à dependência” de Winnicott e da tentativa de subjetivação. São tantas as afinidades entre o psicanalista britânico e o filósofo francês que o leitor chega a cogitar se ambos não se encontraram, fato não ocorrido segundo as fontes do escritor. Daqui, partimos para um estudo do rosto que é o Outro (Lacan), Alguém (Maurice Blanchot), outrem (Sartre), sem esquecer Roland Barthes e seu estudo sobre a fotografia, mostrando a desenvoltura com que Graña circula pela filosofia e pela literatura e crítica literária.

Por outro lado, Gilles Deleuze e Jacques Lacan conviveram nos seminários ministrados pelo último na École Normale Supérieure nos anos 60, e mais uma vez Graña explora esse diálogo apontando referências aos conceitos freudianos de pulsão de morte e compulsão à repetição, trabalhados por Deleuze nos livros Diferença e repetição (1968) e Lógica do sentido (1969) com a ajuda do pensamento de Lacan. Aqui o psicanalista francês aparece em toda a sua multiplicidade: é trabalhado desde sua vertente “estruturalista” até sua aproximação à filosofia da diferença, sendo elogiado e criticado por Deleuze. E novamente os acertos e os equívocos são apontados e analisados pelo autor. O inconsciente como produção, o declínio da interpretação, o complexo de Édipo, a psicanálise como acontecimento É impossível sintetizar a quantidade de material oferecido à reflexão dos interessados.

Encerro meu spoiler (enfatizo “meu”) com os votos de uma boa leitura dessa nova contribuição ao pensamento psicanalítico brasileiro.

Fábio Martins Pereira

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