Com o lançamento do livro Deleuze ou os devires da psicanálise, o escritor e psicanalista Roberto Graña finaliza a trilogia A psicanálise e a crítica filosófica, sua tese de pós-doutoramento sob orientação de Elisabeth Roudinesco, na Universidade de Paris 7. Esse volume foi antecedido por Heidegger ou as vicissitudes da destruição (2016) e Sartre ou o inconsciente como álibi (2019), publicados pela editora age.
Ao iniciar a leitura dos primeiros parágrafos do volume final, o leitor se depara com o que parece ser a marca da escrita do autor, acredito eu desde a publicação de A carne e a escrita: um estudo crítico psicanalítico sobre Graciliano Ramos, editado em 2003 e reeditado em 2022: o diálogo interdisciplinar, intertextual ou transdisciplinar - para ingressarmos na linguagem utilizada por Graña - com o objetivo de abranger o que poderíamos descrever como o pensamento psicanalítico contemporâneo.
O livro trata de finalizar o que o psicanalista gaúcho chama de crítica, mas poderíamos chamar de apreciação filosófica da psicanálise. Aos já familiarizados com o tema, aqui termina a reflexão sobre o que resta da psicanálise - pensemos em Donald Winnicott e no uso de um objeto - após a desconstrução feita pelos três pensadores estudados por Graña, a saber: Martin Heidegger, crítico do método psicanalítico; Jean-Paul Sartre, examinador do inconsciente; e Gilles Deleuze, aquele que pôs o Édipo em questão, ou o crítico da representação.
Não tenhamos pressa em avaliar o estudo, eu diria. Os neófitos podem facilmente confundir-se. Todavia, um olhar atento aos textos pode mostrar uma afinidade profunda entre os três filósofos estudados e o pensamento de Sándor Ferenczi, D. W. Winnicott e Jacques Lacan - os perpetuadores da psicanálise, segundo Graña -, para não citar, obviamente, o criador de nossa disciplina, Sigmund Freud. E, sendo a transdisciplinaridade o Leitmotiv do nosso autor, a crítica literária também responde ao chamado.
Neste livro, como nos escritos anteriores, a Destruktion dá-se por uma minuciosa avaliação das contribuições de Deleuze ao pensar psicanalítico contemporâneo, assinalando seus pontos positivos e negativos.
Qualquer tentativa de resumo do livro seria uma diminuição do estudo realizado por Graña acerca das aproximações entre o pensamento de Deleuze e a psicanálise contemporânea. “Sem deixar de ser a mesma, a psicanálise hoje é outra” (p. 27). Todavia, proponho um spoiler, se me permitem uma brincadeira de nossos tempos. Não mais do que algumas pinceladas sobre o conteúdo do livro, sabendo que nesse caso uma resenha não deixa de ser uma tentativa de comunicação acerca do uso que o leitor fez de um escrito.
No capítulo inicial, o descompasso entre alguns fundamentos psicanalíticos e o pensamento filosófico contemporâneo é apresentado juntamente com a necessidade de pôr em perspectiva certas conceituações psicanalíticas, mais precisamente questionando como pode a psicanálise adentrar o século 21 sem o auxílio dos demais campos do saber. Ou melhor, quem seriam os herdeiros da psicanálise, aqueles capazes de ampliar nosso campo de visão e manter viva a descoberta freudiana? O autor apresenta uma lista de pensadores, entre os quais destaca a figura de Gilles Deleuze, um dos “amigos da psicanálise”, talvez não declarado, e se propõe a responder o porquê da expressão. O autor de O anti-Édipo começa a delinear-se, e sua relação com a psicanálise é apontada, pois alguma coisa ele quer com ela. Nas páginas subsequentes, vemos o diálogo DeleuzeWinnicott tomar forma na figura inicial do papel (des)central do complexo de Édipo e sua (re)apresentação clínica. O lugar da interpretação, Deutung, versus a experiência, Erlebnis, é apresentado e avaliado. Assim como no livro sobre Heidegger, Graña questiona o uso, nada winnicottiano, que Deleuze faz em determinados momentos da interpretação na psicanálise, pincelando equívocos e apontando aproximações.
Mais adiante, a substancialidade do inconsciente - lembro aqui o volume dedicado ao filósofo Jean-Paul Sartre e ao inconsciente como álibi - é novamente investigada, agora sob a ótica da crítica deleuziana da representação. O conceito deleuziano de desrostificação é aproximado dos estados de “regressão à dependência” de Winnicott e da tentativa de subjetivação. São tantas as afinidades entre o psicanalista britânico e o filósofo francês que o leitor chega a cogitar se ambos não se encontraram, fato não ocorrido segundo as fontes do escritor. Daqui, partimos para um estudo do rosto que é o Outro (Lacan), Alguém (Maurice Blanchot), outrem (Sartre), sem esquecer Roland Barthes e seu estudo sobre a fotografia, mostrando a desenvoltura com que Graña circula pela filosofia e pela literatura e crítica literária.
Por outro lado, Gilles Deleuze e Jacques Lacan conviveram nos seminários ministrados pelo último na École Normale Supérieure nos anos 60, e mais uma vez Graña explora esse diálogo apontando referências aos conceitos freudianos de pulsão de morte e compulsão à repetição, trabalhados por Deleuze nos livros Diferença e repetição (1968) e Lógica do sentido (1969) com a ajuda do pensamento de Lacan. Aqui o psicanalista francês aparece em toda a sua multiplicidade: é trabalhado desde sua vertente “estruturalista” até sua aproximação à filosofia da diferença, sendo elogiado e criticado por Deleuze. E novamente os acertos e os equívocos são apontados e analisados pelo autor. O inconsciente como produção, o declínio da interpretação, o complexo de Édipo, a psicanálise como acontecimento É impossível sintetizar a quantidade de material oferecido à reflexão dos interessados.
Encerro meu spoiler (enfatizo “meu”) com os votos de uma boa leitura dessa nova contribuição ao pensamento psicanalítico brasileiro.
Fábio Martins Pereira













