Introdução
Não menos certo é, porém, que nem toda gente envelhece de igual modo e com o mesmo ritmo. E eis aqui o nódulo da questão.
A. L. NOBRE DE MELO
“Cheguei! E sem saber como… cheguei!?”
Só percebi que estava na idade avançada quando escutei alguém dizer que não tinha vivido certos acontecimentos. Suponho que muitas pessoas já passaram por essa surpresa momentânea e que talvez a relegaram por se perceberem na condição de idoso(a), espécie de reação psicológica de negação espontânea da angústia de finitude. E algumas até puderam mitigar a angústia com verbalizações lúdicas.
Perceber-se idoso(a) pode significar impacto de conscientização de vida vivida e provocar uma angústia indesejada. Diante disso, inúmeros autores têm se dedicado a compreender o envelhecimento humano. Um dos estudiosos do tema, sob a perspectiva da fenomenologia e psicopatologia em geral, é o professor A. L. Nobre de Melo.
A partir deste ponto do trabalho, realço a distinção que Nobre de Melo faz entre senescência, senectude e senilidade. Ele diz: “Senescência designa o processo do que se entende por envelhecimento normal do ser humano”. Já “senectude e ancianidade são expressões que se equivalem (do mesmo modo que juventude e mocidade, digamos), servindo ambas para designar a condição etária da velhice extrema ou muito avançada”. Por sua vez, “senilidade é a velhice patológica”. E acrescenta: “A senescência propriamente dita constituiria o marco do envelhecimento normal e se estenderia dos 65 anos em diante” (1979, p. 319).
Procurarei moldar uma compreensão psicanalítica do processo de envelhecimento normal do ser humano. Antes, citarei um apontamento biográfico, feito por Nobre de Melo, sobre Verdi:
Verdi veio a experimentar, pela primeira vez, os amargores da velhice quando, aos 68 anos de idade, viu-se compelido a assistir à cerimônia de inauguração de sua própria estátua, em corpo inteiro, já batizada com seu nome à entrada do teatro Scala de Milão. … Verdi interpretara aquela homenagem como coroamento final de sua vida, e decidira encerrar, ali mesmo, e para sempre, a sua carreira de compositor. Mas, após cinco anos, Verdi surpreendeu com a criação de uma nova e surpreendente estrutura operística: Otelo. Ainda, aos 80 anos de idade, com sua ópera-cômica Falstaff. (pp. 320-321)
Considero que, para dizer algo verdadeiramente consistente sobre as experiências de uma pessoa da senescência, deve-se estar na senescência. Explicarei. O que apontei antes sobre Verdi – e que já conhecia havia muito – sempre me provocou incerteza do que dizer das experiências da senescência até então, porque me parecia escapar de quem quer falar das experiências de um(a) idoso(a) a verdadeira compreensão da propriedade da longevidade, qual seja, a sedimentação das vivências ajustadas pelos filtros de altos e baixos da vida. Aqueles filtros resultantes das vivências dos incontáveis episódios de alegria, tristeza, conflitos, perdas, ganhos, conquistas, frustrações, ressentimentos, êxtases, sexualidade etc.
Ainda querendo me explicar melhor, citarei uma obra-prima do cinema, o admirável filme Morangos silvestres (1957), de Ingmar Bergman. Sempre considerei que só com sua genialidade Bergman pôde ultrapassar, e com maestria, os próprios limites de sua experiência etária de 39 anos para conseguir, à época, o que conseguiu.
Então, para minha surpresa, Bergman confessa textualmente o que houve com o texto do filme Morangos silvestres:
Mas o que só agora fui capaz de entender é que Victor Sjöström se apoderou de meu texto, transformando-o em propriedade sua, investindo nele todas as suas experiências. … Personificando o personagem de meu pai, ele ocupou meu espírito e fez daquilo tudo propriedade sua. Para mim, nada restou. … Morangos silvestres não era mais o meu filme, era um filme de Victor Sjöström. (Bergman, 1996/2009, p. 24)
Bergman também diz que “a diferença de idade” entre eles era grande. Victor Sjöström foi o ator que fez o papel do protagonista Isak Borg.
Por que tanta ênfase à idade de senescência para legitimar a fala de quem está na senescência? Por que outra pessoa, de faixa etária mais baixa, não estaria também legitimada? Porque em face das experiências sedimentadas pelos anos de vida, em um somatório incalculável de inúmeras experiências tanto exitosas quanto frustradas, a resultante toma forma dinâmica transformadora imperceptível – e isso desde o modo de julgar e entender a finitude até a maneira de exercer sua sexualidade, tornando-se uma pessoa perceptivelmente de maior complacência e tolerância consigo mesma e com as demais. Muitas vezes, isso pode significar madureza da capacidade empática do(a) idoso(a) com o seu entorno.
Complementando, somam-se experiências de mudanças etárias, antes mesmo da instalação da senescência propriamente dita. Começam com as autoconstatações dos pelos e cabelos brancos; da presbiopia; da diminuição da tonicidade muscular; da flacidez; da desidratação tegumentar; do espaçamento das atividades sexuais; das atitudes seletivas de evitação às frustrações; do modo de deambular e dos movimentos em geral, aos poucos se encurvando para caminhar; da mudança de timbre da voz. Todo o processo é marcado pela lentificação da mudança.
Até que se instala com clareza a senectude. Certa conscientização de uma necessidade de valorizar a sensação prazenteira de ser portador de higidez corporal, de aumentar sua atenção aos lugares que relembrem histórias pretéritas, de perceber-se facilmente mobilizado por sentimentos às crianças e amenidades em geral. Uma intensificação afetiva a netos(as), quando houver. Em certos(as) idosos(as) há início de afeições especiais para cuidar de um pet, como compensação amorosa. Experiências de reação de espanto ao espelho, como dificuldades de aceitação da autoimagem, entre a imagem idealizada e a refletida por um espelho. As que aguçam a percepção do enrugamento da pele. As de assumir compromissos de usar diariamente medicamentos profiláticos às deficiências inerentes da senectude. Enfim, experiências pessoais exclusivamente pela passagem do tempo, e que trazem para o(a) idoso(a) a inevitável percepção da finitude de ser.
O foco deste trabalho está no processo de envelhecimento normal do ser humano e, por isso, não tratarei das alterações neurocerebrais, as quais se configuram como patologias da idade e são classificadas como senilidade. Mas pretendo, dentro do possível, dirimir determinadas referências, de cunho popular, a neuropatologias atribuídas à senectude. Uma bem popular é quanto às falhas mnêmicas momentâneas, reversíveis, jocosamente chamadas de Alzheimer ou de “alemão” – alusão direta à demência pré-senil. Uma nominação popular distante do real quadro da semiologia clínico-neurológica e bem perto dos chistes desqualificativos do(a) idoso(a).
O modelo cultural em que vivemos no mundo capitalista estimula, competitivamente, a hipervalorização produtiva e, ao mesmo tempo, a desvalorização do ócio em geral, estabelecendo um embate paradoxal na simples transição etária, seja cidadão ou cidadã, quando vier a isentar-se da competitividade social, algo de que a aposentadoria é um exemplo. O quanto das relações do inconsciente isso pode mobilizar, fantasias sociais de inveja das pessoas impelidas ainda à competividade da produção capitalista?
Há outros exemplos facilmente detectáveis. Basta observarmos certos chistes nos programas televisivos sobre os idosos(as), assim como certas mentalidades dominantes de práticas governamentais das aposentadorias dos(as) idosos(as). Ao final, notaremos gestos de desqualificação da senescência, a ponto de penetrar no entendimento popular do(a) próprio(a) idoso(a), que passa a admitir ter uma patologia cerebral. Daí que espontaneamente na convivência social pode surgir, de maneira jocosa, alguém como “portador de Alzheimer ou alemão”, nos momentos em que não lembrar eventual nome ou referência coloquial.
Enquanto jocosidade, deverá ser imprevisível, mas enquanto falha mnêmica momentânea deve-se levar em conta que o funcionamento mental da senescência tem características peculiares. Uma delas é um grau oscilante de autoexigência involuntária consigo mesmo(a) para sentir-se correspondido( a) pelo outro. Somente na eliminação ou atenuação desse núcleo central de expectativas afetivas e imaginárias é que tais falhas mnêmicas do(a) idoso(a) se abrandariam pelos correspondentes insights. No fundo, seria no abrandamento momentâneo da ansiedade que se recuperariam as lembranças da hora.
É óbvio que essa falha mnêmica de momento, autocorrigível, revela-se como sintoma emocional, o que a coloca bem longe de sintoma da organicidade cerebral da senilidade. Então, vale associá-la a um texto clássico de Freud, Psicopatologia da vida cotidiana (1901/1967), cujo subtítulo adéqua-se ao que está sendo tratado: sobre o mecanismo psíquico do esquecimento.
Por outro lado, as pessoas em geral não percebem certa comicidade de um cotidiano de idosos(as) que se envolvem com suas reminiscências. Enlevam-se em devaneios espontâneos das lembranças e de sentimentos da história de vida, numa experiência prazenteira. Situações que se repetem várias vezes, porque funcionam, internamente, como um êmbolo circunstancial vívido de força do afeto, em uma ação comedida e reequilibrada da homeostase subjetiva.
Justamente nessa linha da funcionalidade das reminiscências, para reforçar a importância do que foi dito antes, separei um trecho, entre outros muito interessantes, do livro A velhice, de Simone de Beauvoir: “Se as lembranças afetivas que despertam a infância são tão preciosas, é porque, durante um breve instante, elas nos põem de novo de posse de um futuro sem limites” (1970/2018, p. 394). Pode-se entender o porquê do prazer dos(as) idosos(as) de contar histórias memoráveis involucradas de amenidades, quando encontra quem as ouça. Poderão sentir um prazer duplo, tanto das lembranças quanto de comunicá-las para alguém. Isso, para lá de um estímulo interno ao bem-estar, funcionará como um sopro fugaz indescritível no prazer de perpetuar a existência.
Ao longo da construção do mundo subjetivo, a experiência individual do ritmo circadiano, cujas peculiaridades da senescência impõem ao(à) idoso(a) aprender consigo mesmo(a) a lidar com o tempo cronológico de forma saudável, significará aprender por si mesmo − nada mais. Aprender consigo mesmo(a), quero dizer, saber o que deve e o que não deve fazer para adaptar-se ao novo período do sono e o que é apropriado fazer ou não nas horas de vigília. Ou seja, acima de tudo, aprender a lidar com possíveis rememorações inquietantes que provoquem possíveis insônias. Será uma questão de adaptação individual do(a) idoso(a) ao ritmo circadiano, tendo a peculiar percepção de clareza da rapidez da passagem das horas do dia, da semana e do ano como experiência característica da idade avançada. Por tudo isso, em conjunto, aponto a senectude como a expressão saudável da senescência.
Além da capacidade individual de adaptação às mudanças biológicas (corporais), psíquicas e existenciais, quero ainda dizer que, paralelamente, haverá experiência adquirida através da dosimetria das frustrações e gratificações perante a realidade, guiando o(a) idoso(a) a novas posturas pessoais de tolerância com outrem ou de resiliência. Enfim, algo extremamente individual.
Embora não fazendo parte do desenvolvimento deste trabalho, relaciono alguns sintomas prodrômicos da instalação da senilidade para acentuar diferenças da senectude, como comportamentos renitentes excessivos, complicadas respostas de intolerância nos relacionamentos, baixa autocrítica social, supressão narcisista da autocrítica, contumaz postura querelante de justiça, permanentes elementos persecutórios, tendência a um colecionismo adverso à realidade e hipersonias.
Desenvolvimento
Inerente à senectude há algo especial, que conduz ao polo diferenciado de experiências de vida, qual seja, a sabedoria. Kohut assim o diz: “A obtenção da sabedoria está reservada às últimas fases da vida” (1965/1984a, p. 32). Acentua que “a sabedoria é atingida através da capacidade do homem de superar seu narcisismo inalterado e repousa na aceitação dos limites de seus poderes físicos, intelectuais e emocionais” (p. 31). O tema básico do referido artigo está sintetizado no próprio título, “Formas e transformações do narcisismo”, que designa, através da teorização do narcisismo, “aquisições cuja relação com o narcisismo” ultrapassam o conceito tradicional de narcisismo. Nesse sentido, Kohut nomeia as seguintes aquisições: “a) a criatividade do homem; b) sua capacidade de empatia; c) sua capacidade de encarar sua própria transitoriedade; d) seu senso de humor; e) sua sabedoria” (p. 21).
O item c, a capacidade de encarar a própria transitoriedade, logo nos chama a atenção, porque, se quisermos falar de senectude, obrigatoriamente teremos que falar da percepção de finitude da vida. Contudo, não se trata de uma aquisição característica de quem é idoso(a); trata-se de uma aquisição própria de todos os seres humanos, independentemente da idade. Outrossim, as demais aquisições são oriundas das experiências individuais e acrescidas ao longo do tempo de vida.
Da mesma forma, essas aquisições não se apresentam isoladamente, tampouco hipertrofiadas, porque todas estarão contidas enquanto experiências pessoais e sujeitas a deslizes humanos no natural contexto intersubjetivo. Talvez convenha advertir que essas “aquisições” não são o resultado intelectual de concentração mental, mas são como salutares transformações do narcisismo.
Continuando, Kohut diz que
a sabedoria pode assim ser definida como uma atitude estável da personalidade em relação à vida e ao mundo, atitude que é moldada através da integração da função cognitiva com o humor, a aceitação da transitoriedade e um sistema de valores firmemente catexizado. (p. 31)
A frase “um sistema de valores firmemente catexizado”: quanto acena à compreensão psicanalítica dos ideais ou ao reforço dos ideais? Nesse sentido, recorro a teorizações de Janine Chasseguet-Smirgel (1975/1991) sobre a expressão “ser grande”, apontada na base do constructo teórico freudiano de ideal do ego. A autora traça uma linha evolutiva desse conceito na obra de Freud, examinando suas fases da elaboração: o “Projeto de psicologia”, de 1895; as cartas a Fliess, de 1897; o texto “Introdução ao narcisismo”, de 1914, quando aparece o termo ideal do ego; depois O ego e o id, de 1923, quando Freud provocou equívocos teóricos com a introdução do termo superego como equivalente do ideal do ego; e por fim “O problema econômico do masoquismo”, de 1924. Avança ponto por ponto nesse tema na obra freudiana. Por ora, neste trabalho, o que caberia dizer no contexto da senectude? Fundamentalmente, a expressão “ser grande” como o foco teórico freudiano de ideal do ego.
Freud quis compreender psicanaliticamente a formação criativa dos poetas no fluxo comum das fantasias dos seres humanos. Fez analogia com a atividade de brincar das crianças, a ponto de considerar “que todas as crianças que brincam se conduzem como um poeta, criam um mundo próprio” (Freud, 1908/1968, p. 1057). Mais adiante, dirá:
O brincar das crianças é dirigido pelos seus desejos ou, mais rigorosamente, por aquele desejo que tanto se estimula na sua educação: o desejo de ser adulto. A criança brinca sempre de “ser grande”; imita no brincar o que os adultos já conhecem. (p. 1058)
Freud coloca entre aspas “ser grande” por algum motivo, que certamente seria comunicar algo além das palavras. Mas, como argumento, ele segue em torno da palavra e não além: mantém o sentido de entender o quanto de fantasia infantil prepondera no desejo da criança de vir a ser um adulto e o quanto é infindável o mundo das fantasias das crianças; também, o sentido de entender a importância da relação entre o fantasiar e o tempo, na medida em que a fantasia une passado, presente e futuro no feixe do desejo.
Proponho dizer que “ser grande” seria a metáfora da experiência de uma criança de ser adulto para além da faixa etária de adulto, para além de sentir-se identificada com a força do adulto idealizado. Seria como perceber-se possuído de “algo interiorizado”, preenchido de experiências das relações intersubjetivas desde há muito. Seria algo semelhante ao conceito de Kohut no qual um self se perceberia com satisfação pela expansão da experiência de triunfo e brilho da alegria – significaria, contudo, dizer que “ser grande” representaria o ideal do ego, que se iniciou na infância e prosseguiu pela velhice.
Relaciono outro conceito formulado por Kohut, o de Homem Trágico. O Homem Trágico é aquele cujo
self procura satisfação através da realização de suas ambições e de seus ideais nucleares. Sua satisfação não dá prazer, como acontece na satisfação do impulso instintivo, mas sim triunfo e o brilho da alegria. … O Homem Trágico não teme a morte como punição simbólica (castração) pelos proibidos objetivos de prazer (como acontece com o Homem Culpado); teme, sim, a morte prematura, morte que impede a realização dos objetivos de seu self nuclear. (1974/1984b, pp. 138-139)
Aqui, o ponto das elaborações está no questionamento para além do constructo teórico freudiano de ideal do ego, seja instância aderida ao superego, seja instância de idealização do ego, sejam identificações parentais ou, ainda, resultante do conjunto das instâncias. Algo mais, como “ser grande” amanhã, não hoje. “Ser grande” como algo sem qualquer base segura de concretude, porém estabilizado em experiências pretéritas acumuladas, presentificadas e asseguradas na projeção de um futuro abstrato – essa convicção do amanhã, uma experiência subjetiva de “algo”, que está sendo retratado como o ideal do ego neste trabalho.
A experiência subjetiva de autorrealização de um amanhã estaria além da constatação individual de que houve um ontem concreto. Viria da experiência do ontem contido no espaço mnêmico de cada um, com seu mundo subjetivo e suas respectivas qualidades do prazer e do desprazer. Mas abarcaria a dinâmica intersubjetiva dos inúmeros outros mundos subjetivos do entorno e altamente complexos, que juntos catalisariam para todos virem a perceber a concretude do ontem e de dirigir intensamente a mesma convicção da concretude de um amanhã. Dessa forma, poderia aventar que a necessidade humana se uniformizaria na experiência do coletivo, emoldurada pela realidade consensual.
A respeito da importância prática da avalanche de reminiscências no dia a dia de um(a) idoso(a), em paralelo com a experiência da concretude do ontem e da percepção computada dos dias vividos, mudanças de valorização dos laços afetivos prazenteiros podem ajudar a reparar certos conflitos em algum momento, e assegurar que “o amanhã existe” (estando o verbo no presente).
Juntamente, há uma força natural gerada pelo próprio tempo no sentido da transformação, tanto para o lado psicológico como para o lado corporal, que conduz ao amadurecimento da pessoa. Enquanto idoso ou idosa, existiria em um mundo subjetivo cumulativo de faixas etárias correspondendo a três ou quatro gerações, que estimularia à autoconscientização do valor da prudência. Uma autoconscientização que viria pelo processo da percepção em si do tempo de vida vivido, da elaboração das experiências exitosas dos prazeres, dos devaneios, das revisões dos próprios ajuizamentos, das reflexões diversas, das resoluções de mágoas e decepções, das perdas, a ponto de restabelecer eventual equilíbrio emocional. Enfim, isso seria o amadurecimento.
Conclusão
Psicanaliticamente, o que diria quanto às experiências da senescência oriundas das experiências infantis? No meu entender, muita coisa. Contudo, para responder no contexto do trabalho, retomarei a expressão “ser grande”. Reafirmo a importância universal das experiências de devaneio na homeostase do funcionamento mental (Kohut & Seitz, 1963/1978); também, que o valor do brincar das crianças amolda-se enquanto experiência ativa de contrapor o fantasiar com o processo da ação, conforme a faixa etária.
“Ser grande” começa na infância, nas experiências dos primeiros passos, quando a criança fica ereta e quer deambular, quando deixa de engatinhar e toma a posição ereta. Ao iniciar a experiência de deslocar-se, olhando para frente, adiante dela, dá uns passos e os cessa repentinamente. Em ato contínuo, olha para trás, certifica-se de que o(a) cuidador(a) mantém a atenção exclusiva sobre ela, para em seguida, imediatamente, voltar a deambular com ímpetos para frente e a sentir o entusiasmo de sua primeira conquista. Cada vez que se sentir exitosa, mais excitada e mais rapidamente ela tentará se afastar do(a) cuidador(a).
O quanto configuraria na experiência infantil que os primeiros passos firmes dados sobre o chão do lar materno prosseguiriam para além do espaço corriqueiro? O quanto isso ultrapassaria a concretude, entraria na abstração do depois e viria a se configurar como experiência do desejo de “ser grande”? Através das ações repetidas, a criança se certificaria de ir além do olhar do(a) cuidador(a) e estruturar seu mundo subjetivo com partes de coragem dessa experiência do cotidiano. Apenas lúdico para um observador, mas composto de “algo” abrangente para a experiência de autorreconhecimento da criança, de ela vir a “ser grande”.
As primevas experiências servem de modelos, de espelhos do mundo subjetivo, nas incontáveis outras experiências de mesmo teor do “ser grande” no caleidoscópio da vida. Tendo isso como metáfora, daria o exemplo de determinado momento da existência de um(a) idoso(a) em que ele ou ela necessitasse ter alguém significativo para “olhar para trás”, na sua caminhada de vida, como o foco de seu compromisso do amanhã, não focalizando o tal rosto para sentir-se estimulado(a) a dar “o passo à frente”.
Outro exemplo, revisitando a história pessoal de Freud, na seguinte passagem do dia 19 de setembro de 1939. Ernest Jones atendeu às pressas ao chamado de Anna Freud, porque “ela achava que seu pai estava morrendo”. Freud andava muito cansado e era difícil alimentá-lo. Ainda conseguia ler, e sua última leitura foi um romance de Balzac, A pele de onagro. O livro fala sobre a pele misteriosa de um jumento que um homem adquiriu, pele que a cada desejo atendido encolhia e encurtava a vida do homem. O fim da pele do jumento foi o fim da vida desse homem e o ônus pelo êxtase de todos os seus desejos realizados. Quando Freud terminou a leitura, disse para Schur que “tinha sido o livro certo para ler, por tratar de encolhimento e fome”. Morreu no dia 23 de setembro de 1939 (Gay, 1988/1989, pp. 586-587).
A particularidade destacada da história é o quanto Freud, ao repensar sobre sua vida, nas suas expectativas de futuro, considerou o encolhimento da pele como autorreconhecimento do fim de “ser grande”. Não mais existia a quem virar seu olhar.
Certamente, há outros exemplos. Mas, em linhas gerais, entende-se que os(as) idosos(as), ao decidirem sobre suas condutas, objetivam ações como resultado de experiências concluídas das idas e vindas da vida. Daí o quanto se pode ouvir que “fulano(a) é ranzinza”.
Se configurássemos algum outro modo, como um princípio que surgisse ao longo da vida, esse princípio poderia se expressar como princípio de fé. Fé. Fé entendida distante do sentido religioso, conforme induz a palavra, mas no sentido de afiançar para si mesmo a certeza de que o amanhã existe. Fé pela fé, e nada mais.
É importante considerar que na senescência a experiência da passagem do tempo, do princípio da certeza no amanhã, dialeticamente toma posição relevante ao acentuar a percepção do encolhimento da vida perante a morte. A dialética existencial entre viver o cotidiano para o amanhã e perceber a abstração do porvir. A percepção da fugacidade do tempo, da velocidade das horas, imprime concretude na experiência de angústia pela ausência de controle do amanhã e intensifica um fator apaziguador, qual seja, a fé. Fé não seria sinônimo de esperança, porque esperança teria o lado cognitivo de convencimento por dogmas do amanhã. Fé seria a convicção plena de que o amanhã existirá. Seria uma reprodução modificada das primeiras experiências infantis de confiança dos afagos protetores exitosos, que persistiriam até a senescência, embora teoricamente se possa dizer que fé e esperança devam ser cara e coroa da mesma moeda.
Contudo, para concluir, precisarei suscitar o outro lado da mesma questão que envolve fé e esperança. Direi que esse outro lado deverá ser visto independentemente das possíveis conjecturas míticas e místicas sobre o amanhã. Trata-se do “para quê”. O “para quê” do sentido das coisas ou, mais diretamente, das experiências do envelhecimento. Para que “ser grande”? Para quê? O “para quê” projetar-se-ia na magnitude do amanhã, onde tudo aconteceria. Dizer, enquanto dinâmica de experiências adquiridas, que um idoso ou uma idosa deverá viver bem mais vigilante ao “para quê” do amanhã do que qualquer pessoa de outra idade. Assim, no dia a dia, significa que ele ou ela deverá ter o compromisso firmado consigo mesmo(a) de fazer no dia seguinte algo que legitime seu empenho da véspera. Seja o que for, desde ócio, banalidades, hobbies, religiosidade, planos a executar, encontro com alguém, tarefas da sobrevivência monetária – seja o que for que, na linguagem popular, chama-se razão para viver.













