Introdução
Gostaria de compartilhar algumas considerações sobre a psicanálise e o envelhecimento, a partir da experiência teórico-clínica que desenvolvo há muitos anos, e de minhas próprias vivências pessoais sobre o tema, pois escrever um texto de psicanálise é tornar visível algo de si (McDougall, 1983).
Chamo de falências narcísicas a impossibilidade de nosso narcisismo, marcado pela onipotência e imortalidade, de elaborar lutos e perdas, em particular aqueles produzidos pelo passar do tempo, que invariavelmente a vida nos apresenta (Freud, 1914/2004). A intensidade e a dor da perda guardam relação direta com nossa capacidade de elaborar o luto, ainda que, “na realidade, nunca renunciemos a nada; apenas troquemos uma coisa por outra. O que parece ser uma renúncia é, na verdade, a formação de um substituto” (Freud, 1908/1976a, p. 151). Dificilmente aceitamos que “viver é trazer, no mais profundo de si, a potencialidade de morrer” (Ameisen, 1999/2007, p. 329).
Situações que podem gerar falências narcísicas foram magistralmente reunidas nesta conhecida passagem de O mal-estar na cultura:
O sofrimento ameaça de três lados: a partir do próprio corpo, que, destinado à ruína e à dissolução, não pode prescindir nem mesmo da dor e do medo como sinais de alarme; a partir do mundo externo, que pode se abater sobre nós com forças prepotentes, implacáveis e destrutivas; e, por fim, das relações com os outros seres humanos. (Freud, 1930/2016b, p. 64)
Em um passado recente, a covid-19 escancarou as falências narcísicas de forma nunca vista nas últimas décadas, abatendo sobre nós “forças prepotentes, implacáveis e destrutivas”. Medo, angústia e desamparo foram semeados em dimensão global, provocando insegurança afetiva, política e econômica, o que levou a uma sensação de orfandade (Ceccarelli, 2022). Em 2019, o rompimento da barragem de Brumadinho, em Minas Gerais, provocou efeito semelhante, cujas repercussões ainda são ouvidas (Levy & Ceccarelli, 2020). Não por acaso, a Organização Mundial da Saúde prevê que a próxima epidemia afetará particularmente a saúde psíquica (Borges, 2020).
Embora a covid-19 tenha afetado todas as faixas etárias, pareceu-nos que ela acelerou os processos de envelhecimento em sujeitos que já tinham dificuldade com essa etapa da vida, como se neles as barreiras se rompessem e a recusa (Verleugnung) da castração, há muito usada como defesa para negar os limites do próprio corpo, não mais se sustentasse, escancarando uma situação há tempos negada. Aceitar o corpo que passa a ser estranho e limitador implica para o sujeito renunciar a ideais narcísicos e construir projetos que tragam satisfação dentro dos limites permitidos pelo corpo e pelo social. Esse processo requer um reposicionamento subjetivo importante, que só pode ser feito se mudanças intrapsíquicas profundas acontecerem e forem respaldas pelo olhar do outro.
A história das epidemias (Ujvari, 2020) mostra que as falências narcísicas sempre acompanharam a espécie humana, e que as soluções propostas para enfrentar a ameaça são enfadonhamente repetitivas. A sensação de estarmos vivendo um momento sem precedentes deve-se a razões puramente narcísicas: por estarmos vivendo agora, nos sentimos ameaçados (Ceccarelli, 2007).
Evidentemente, as falências narcísicas podem acontecer em qualquer etapa da vida, diante da incapacidade/impossibilidade de elaborar uma experiência intensa, não necessariamente dolorosa. Além disso, elas não guardam relação direta com o tempo cronológico: trata-se antes de um descompasso, produzido pelo recalque (Verdrängung), entre a atemporalidade do inconsciente (processos primários, marcados por Aion), e os inevitáveis percalços que a realidade nos reserva (processos secundários, ligados a Chronos).2
Neste trabalho, centraremos nossa reflexão nos “adultos maduros”, para utilizarmos a feliz expressão de Adriana Mendonça e Denise Souza (2020). Em uma sociedade na qual juventude e performance são altamente enaltecidas e valorizadas, o envelhecimento pode ser sentido como grande ameaça, sobretudo de exclusão. Limitações diversas que afetam a funcionalidade do corpo (um diagnóstico de enfermidade grave, muitas vezes irreversível; uma lesão física; uma queda na rua; a possiblidade concreta de morte ou mesmo fantasias de morte) podem ser narcisicamente insuportáveis. Tais circunstâncias comprometem o trabalho de luto, podendo produzir processos de demência que fazem regredir ao infantilismo da sexualidade diante da nova e dolorosa realidade (Goldfard, 2004).
A exclusão dos que envelhecem pode começar pelo próprio profissional encarregado de cuidar deles, o que inclui os psicanalistas, quando lhes parece perda de tempo ouvir repetidamente as mesmas histórias, sobretudo quando elas tocam aspectos pessoais e familiares do analista. Muitos profissionais têm dificuldade de reconhecer um sujeito de desejo naquele corpo fragilizado que está à sua frente, e que pode mobilizar “angústias primitivas relacionadas com o medo da finitude, a impotência e a dependência do outro” (Cherix, 2015, p. 47). Como sabemos, Freud (1898/1969) acreditava que, quanto mais velho fosse o indivíduo, mais sólidas seriam as defesas, o que impossibilitaria mudanças subjetivas significativas. Contudo, reviver o passado, recordá-lo e ser ouvido é uma forma de reconstruir a própria história e experimentar mudanças significativas – uma forma de “se construir um passado” (Aulagnier, 1989).
Os psicanalistas não podem ficar alheios às transformações dessa faixa etária: “Não podemos continuar com a visão desatualizada e preconceituosa de um falso empobrecimento psíquico dos adultos maduros” (Mendonça, 2022, p. 51).
Além de perdas físicas, o envelhecimento traz perdas sociais, afetivas e econômicas:
Os idosos, naquela experiência de privação, deixam seu ódio transparecer no meio ambiente e se mobilizam para destruí-lo magicamente. … O velho, como a criança, quer se sentir amado, mas ambos são impotentes para alcançar isso e devem obter apoio externo para serem dignos de amor. (Mendonça, 2022, pp. 53-54)
Contudo, por mais que se sintam amados e dignos do amor do outro, a fantasia de deixar de ser alvo de investimento deixa o adulto em envelhecimento inexoravelmente desprotegido contra o sofrimento. A intensidade da dor da perda é proporcional ao quantum de energia investido: “Jamais nos tornamos tão desamparadamente infelizes do que quando perdemos o objeto amado ou o seu amor” (Freud, 1930/2016b, p. 75).
Ainda que seja difícil encontrar uma dinâmica psíquica que condense, de forma relativamente abrangente, os sinais de alerta que o corpo emite, acreditamos que as alterações corporais e as perdas afetivas – um dado implacável, que todo ser humano tem de enfrentar – possam tomar contornos imprevisíveis no envelhecimento. Não há como separar o envelhecimento da forma como o sujeito vivenciou a passagem do tempo: aquele/a para quem a morte sempre se apresentou como um espectro assustador durante a vida vai se sentir ainda mais desamparado no momento de “encontrar o mistério frente a frente sem poder evitá-lo” (Pessoa, 1965, p. 493).
O envelhecer é um processo individual balizado pelo eu; um processo totalmente subjetivo e singular, marcado pela tensão entre a realidade externa e a psíquica, mediatizado pelo olhar do outro (Quinodoz, 2011). As mudanças corporais convocam o psiquismo a enfrentar novamente a castração e, por extensão, a reelaborar conteúdos edípicos para que novos posicionamentos subjetivos sejam alcançados. As marcas físicas, mas sobretudo simbólicas, que a passagem do tempo imprime no sujeito reatualizam antigos conflitos psíquicos presentes ao longo de sua vida. A nova realidade que então surge é mais uma tentativa de sobrevivência psíquica (McDougall, 1997).
Envelhecimento e desamparo
Outro elemento que retorna com força nos processos de envelhecimento é a condição antropológica fundamental do humano: o desamparo.3 Assim como o recém-nascido depende de um outro, de uma assistência alheia, para a diminuição da tensão interna (Freud, 1950[1895]/1977), o envelhecer reativa, em muitos casos, uma dependência semelhante, devido à falta de recursos motores e psíquicos, de origem diversa. A perda, real ou fantasmática, de quem promove a assistência alheia reatualiza antigas situações de desamparo. Por exemplo, a perda ou a iminência de perda do/a companheiro/a pode ser sentida como a perda de um dos pares do casal parental protetor, ou dos dois. Essa situação pode ser agravada quando, de fato, uma perda dessa amplitude aconteceu na infância; o temor, muitas vezes inconsciente, do desamparo então sentido é uma presença perturbadora. Não por acaso, ao nos percebermos frágeis e desprotegidos diante das incertezas da vida, procuramos negar nosso desamparo e desconsolo sustentados pelo “encantamento de nossa infância, que nos é apresentada por nossa memória não imparcial como uma época de ininterrupta felicidade” (Freud, 1939/1975, p. 140).
A incapacidade do bebê de dominar grandes excitações é, a nosso ver, igualmente aplicável a alguns sujeitos nos processos de envelhecimento:
O ser da primeira infância [o adulto maduro] realmente não está equipado para dominar psiquicamente grandes somas de excitação que chegam de fora ou de dentro. Num certo período da vida, o interesse mais importante consiste realmente em que as pessoas das quais se depende não retirem seu cuidado terno. (Freud, 1926/2016a, 130)
Vemos, portanto, que o quantum pulsional ligado ao desamparo, sua força, tem relação direta com a maneira como o estado de total dependência (de um outro) no início da vida foi elaborado. Isso significa que a intensidade como cada sujeito vivencia os processos de envelhecimento, assim como a capacidade de ressignificar essa nova etapa da vida, é tributária dos recursos psíquicos de que o então recém-nascido, candidato potencial a sujeito, lançou mão para enfrentar a particularidade de sua situação de desamparo. Por outro lado, é igualmente o desamparo que nos impulsiona a investir em novos objetos quando elaboramos perdas. Nesse sentido, o desamparo é, paradoxalmente, a afirmação da vida (Levy & Ceccarelli, 2020). Não existe, por conseguinte, uma maneira única, “normal”, e muito menos uma receita, para aplacar o sofrimento: “A angústia é a mãe da invenção no teatro psíquico” (McDougall, 1997, p. 229).
Quando o envelhecimento se torna pesado, a retirada do cuidado terno, como uma internação em uma casa de repouso, pode privar o sujeito de sua autonomia e ter efeitos devastadores em seu psiquismo, causando processos depressivos ou mesmo melancólicos. A mudança do local físico altera a percepção do espaço e, por conseguinte, do corpo. Não raro, escutamos relatos de pessoas que têm dificuldade de se orientar no novo local para onde foram transferidas, passando por uma desorientação espaçotemporal significativa.
Mendonça observa o seguinte:
Na privação do envelhecimento, o ambiente “suficientemente bom” criado, construído e mantido ao longo de uma vida de repente se torna destrutível, quando figuras importantes desaparecem ou quando não se recebe, durante um tempo prolongado, respostas emocionais do ambiente em virtude das perdas naturais do envelhecer: aposentadoria, ninho vazio etc. (2022, p. 54)
A grande incidência de delinquência em adultos maduros vem preocupando as autoridades mundiais, levando-as a construir cárceres especiais para essa população. No presídio, esses sujeitos encontram “um grupo de pertencimento, cuidados adequados ao seu estado físico, alimentação saudável e atenção” (p. 56).
Essa observação sugere que o alto nível de reincidência de delitos nos sujeitos em liberdade é uma forma de voltar ao cárcere, a um ambiente “suficientemente bom”, que propicie um espaço de envelhecimento. Nesse sentido, é urgente pensar políticas públicas que contemplem essa população, para que o sentimento de abandono seja minimizado (Almeida, 2017).
Quanto à população lgbtqia+, as coisas são ainda mais complicadas: nas casas de repouso, ou nos abrigos destinados aos que estão envelhecendo, reencontramos os mesmos preconceitos e segregações que esses sujeitos experimentaram ao longo da vida. Alguns países, como a Holanda, oferecem redes humanas e vínculos colaborativos que propiciem, à população lgbtqia+ em envelhecimento, espaços de convivência nos quais – espera-se – essa população se sinta mais acolhida (Mendonça, 2022).
Abordar a questão do envelhecimento a partir dos tipos libidinais (Freud, 1931/1980), o erótico, o obsessivo e o narcísico, mereceria por si só um longo trabalho. Contudo, para nossos objetivos, gostaríamos apenas de observar que o trabalho clínico sugere que os sujeitos do tipo narcísico apresentam uma dificuldade maior no envelhecimento, por se recusarem a renunciar ao passado, insistindo em manter-se como se nada estivesse acontecendo: continuam a negar os limites impostos pela nova realidade. Esse aspecto é particularmente intenso quando o sujeito é notificado de alguma doença irreversível que evidencia o fracasso da recusa (Verleugnung). De qualquer forma, seja o desamparo um perigo real ou uma ameaça pulsional, criamos “a necessidade de ser amado, que não mais abandonará o ser humano” (Freud, 1926/2016a, p. 143).
Sexualidade e envelhecimento
A opinião popular tem posições definidas quanto ao afeto e à sexualidade do homem e da mulher, repetindo os ideais socioculturais que determinam seus lugares e expectativas relativos à prática e à vida sexual. Os preconceitos em torno da sexualidade tomam proporções ainda maiores quando se trata de falar dos caminhos da sexualidade no envelhecimento, tornando a dissimetria entre os dois gêneros ainda mais evidente. Por exemplo, é comum ouvir que determinado homem, que já ultrapassou a casa dos 80, continua com uma sexualidade invejável para a sua idade, e nunca apresentou problemas de ereção. Já a mulher que quer ter uma vida sexual depois de certa idade, o que pode acontecer em torno dos 50 anos, costuma ser bastante criticada, pois nessa idade “deveria estar em casa cuidando dos netos”. Não raro, os próprios filhos, talvez em uma versão do Édipo reatualizada, opõem-se veementemente a que um dos pais, viúvos ou separados, tenham novas relações afetivo-sexuais.
Um dos problemas que precisamos enfrentar para falar da sexualidade no envelhecimento é se e em que medida a sexualidade sofre modificações com o passar do tempo. Se deixamos de lado problemas de ordem orgânico-fisiológica e centramos nossas reflexões na dimensão psicossexual, parece-nos desafiador abordar o tema quando pensamos no infantilismo do sexual, que desconhece a temporalidade. O estatuto do sujeito, circunscrito à ideia de inconsciente, faz com que tanto o envelhecer quanto a morte não tenham representação psíquica. Assim, do ponto de vista da psicanálise, não é fácil estabelecer uma clínica do envelhecimento, pois nada delimita o retorno do recalcado.
A intensificação da libido na mulher ocorre em dois momentos, “na puberdade e por volta da menopausa” (Freud, 1937/2017, p. 328). Para Helene Deutsch (1967/1994), da mesma forma que a puberdade é marcada pela reatualização do complexo de Édipo infantil, um terceiro momento de surgimento de desejos edípicos aconteceria na menopausa. Em alguns casos, a clínica sugere que o desinteresse na sexualidade que a mulher pode apresentar na meia-idade deve-se antes a fantasmas incestuosos, ligados ao/à filho/a, sobretudo se for adolescente, e não à diminuição da libido: diante de desejos incestuosos, o preço a pagar é o abandono da sexualidade.
A sexualidade no envelhecimento pode ser afetada quando o homem digere mal o sucesso profissional da mulher. O fato de ela ir “mais longe” intelectualmente pode evocar sentimentos de inferioridade no homem e afetar a relação: alguns homens sentem-se ameaçados em sua masculinidade quando não se sentem superiores, intelectual e/ou financeiramente, à mulher. As relações entre uma mulher de meia-idade e um/a jovem sofrem com o peso impiedoso da moral sexual ocidental. Contudo, os laços conjugais podem ser mantidos quando fatores não financeiros estão envolvidos. Por exemplo, quando existe uma admiração irrestrita pelo/a companheiro/a, embora a diferença de idade seja significativa. Talvez não seja exagero especular que o modelo dito tradicional de relacionamento deva a sua estabilidade ao fato de o homem ser o provedor e a mulher a rainha do lar. No que diz respeito a casais homoafetivos, o fato de um dos cônjuges ter um destaque profissional pode ser motivo de conflito, sobretudo quando a questão financeira está em jogo.
Algumas mulheres interpretam a falta de interesse do/a companheiro/a como ligada à perda de seus encantos. Os homens, por sua vez, procuram mulheres mais novas para provarem que ainda são sexualmente potentes: uma vertente da histeria masculina (Ceccarelli & Silva, 2019). Ainda assim, nesses momentos difíceis, quando o futuro do casal parece vacilar, não devemos renunciar ao princípio de prazer e a nossas reivindicações de felicidade (Freud, 1930/2016b). Suporta-se melhor o passar dos anos quando o olhar do/a parceiro/a ameniza a implacável condenação do espelho: “Há alguém mais belo/a que eu”. O olhar do outro também contribui para aplacar o narcisismo ferido do “Eu me sinto invisível”, “Ninguém me olha mais na rua”, “Não tenho nenhum atrativo”.
Um novo amor sempre desperta um retorno do vigor da juventude, evocando sentimentos como “Ainda estou em forma” e “Sou desejado/a”. Ao mesmo tempo, o cônjuge que não está envolvido pode sentir-se abandonado/a e experimentar angústias de envelhecimento e morte, além de fantasias de abandono, sobretudo quando o/a novo/a amado/a é muito mais jovem (Neuter, 2001). Seja como for, mesmo nas situações em que os conflitos com o sexual não são centrais, não há como escapar ao luto do envelhecimento em seus múltiplos aspectos, sendo a mudança da imagem corporal uma das mais difíceis.
Stoller (1993) sugere que o excesso de intimidade pode diminuir o interesse sexual do casal, como se os cônjuges se tornassem por demais íntimos, levando a uma diminuição da dimensão erótica do relacionamento. Por outro lado, observamos uma forma de dependência nas relações duradouras: “Um não vive sem o outro”, ouvimos com frequência. E o fato facilmente observável de que, quando um morre, o outro morra pouco tempo depois, está magistralmente presentificado na belíssima passagem de uma música de Chico Buarque (1978): “Oh pedaço de mim/ Oh metade arrancada de mim”.
Conclusões provisórias
Quando falamos de envelhecer em psicanálise, a primeira grande referência que temos é a do próprio Freud. Sua impressionante produção intelectual manteve-se firme, apesar do câncer que o atormentou por décadas (Jones, 1970; Roudinesco, 2014). Não temos condições de avaliar como Freud viveu subjetivamente suas falências narcísicas: o envelhecimento, a doença, as angústias e os temores que experimentou; muito menos, de avaliar os arranjos psíquicos que encontrou diante das agruras da existência. Porém, ao que tudo indica, Eros esteve sempre presente em sua vida, mesmo nos momentos mais incertos. Seus investimentos em pessoas, família, projetos de vida, trabalho, conhecimentos e tantas outras coisas fizeram-no encontrar seu lugar no mundo, sentir-se amado e, às vezes, compreendido (Freud, 1926/2016a).
Como observa Leão Lopes (2023), a escrita foi uma ferramenta constantemente utilizada por ele para elaborar os momentos difíceis e os lutos que teve de enfrentar: a Grande Guerra, a perda de entes queridos, as incertezas quanto ao futuro, tanto o próprio quanto o da psicanálise, entre outros. As produções freudianas deram origem a textos de uma atualidade desconcertante, o que sugere que a sublimação foi um importante auxiliar nesses momentos. É muito provável que seu grande adágio tenha sido seu farol: “Tolerar a vida continua a ser, afinal, a primeira tarefa de todo ser vivo” (Freud, 1915/1976b, p. 339).
No verão de 1915, Freud escreveu um de seus mais belos textos, “Transitoriedade”, publicado no ano seguinte. Nele, relata a caminhada por campos floridos em companhia de um poeta e de um amigo taciturno.4 O poeta parece relutar em aceitar que toda aquela beleza desapareceria quando o inverno chegasse: “Até mesmo tudo o que ele [o poeta] amara e admirara parecia- lhe desvalorizado pelo destino determinante da transitoriedade” (Freud, 1916/2015, p. 221). Todavia, a beleza da natureza e os bens culturais não perdem seu valor por serem transitórios. Pelo contrário, devido à limitação da fruição, seu valor aumenta. Aceitar, enfim, a transitoriedade da vida equivale à elaboração de um luto relativo a perdas, o que nos permite reinvestir novos objetos, talvez sobre bases mais sólidas e duráveis. A revolta do poeta contra o transitório traduz uma “exigência de eternidade”. Trata-se, no fundo, de uma “revolta psíquica contra o luto” (p. 223). Essa revolta é, a nosso ver, uma das expressões da falência narcísica. Observamos essa situação com frequência quando o adulto maduro se vê incapaz de novos investimentos e se aferra obstinadamente ao passado, como se ali fosse o único lugar no qual pudesse encontrar reconhecimento.
Mesmo quando a dimensão da sexualidade diminui, a capacidade de reconhecer, aceitar, apreciar e admirar a presença física e psíquica do/a parceiro/a pode persistir, mostrando que amor e desejo têm registros diferentes, transformando a paixão ardente dos primeiros anos em amor, companheirismo, cumplicidade, amizade e, mais que tudo, respeito pelo/a outro/a, por sua história – enfim, pela diferença.
A frase cheia de carinho e ternura “Você está tão linda/o quanto no primeiro dia em que a/o conheci” reatualiza o primeiro grande encontro narcísico que anula a diferença, aplacando, ainda que efemeramente, as falências narcísicas.













