Quando fui convidada por Marta Foster e Carmen Mion para a aula inaugural deste curso, fiquei lisonjeada e agradecida. O termo experiência emocional me parecia suficientemente abrangente e, num primeiro momento, não tão difícil de comentar. Ao longo desta preparação, fui percebendo que me deparava com uma grande complexidade.
O substantivo experiência, associado ao adjetivo emocional, apela ao senso comum, mas é muito mais complexo de ser definido, ao contrário do que parece à primeira vista. Resolvi então voltar às origens e procurar nos dicionários de filosofia e psicanálise sua definição.
Pesquisando o índice de diversos livros recentes sobre Bion e a clínica psicanalítica, de autores com grande autoridade, como Nicola Abel-Hirsch (2023), Dana Birksted-Breen (2016), Giuseppe Civitarese (2023) e Robert Hinshelwood (2023), o termo experiência emocional não é listado, embora seja usado várias vezes no interior desses livros. Isso significa que, para esses autores, experiência emocional não é um conceito em si, mas sim, no mais das vezes, uma expressão descritiva de uma mudança de foco no campo da psicanálise.
Civitarese (2023) aborda essa questão ao afirmar que o pensamento de Bion pode ser caracterizado como deslizando de uma preocupação com a ausência de significado para uma outra centrada na criação intersubjetiva de significado através de uma experiência (emocional) vivida.
Nos dicionários psicanalíticos, o termo não é definido. Nessas condições, escolhi usar a expressão experiência emocional apenas numa de suas muitas acepções: “Conhecimento direto, intuitivo, imediato que nós temos dos fatos ou fenômenos” (Lalande, 1953). Alguns autores só consideram haver uma experiência de fato quando, e somente quando, ela está associada à vivência de um sentido, no contexto de uma relação.
Queria começar com um tema que capturasse a atenção de vocês de modo inequívoco, por meio da contemplação de um quadro, a fim de discutir a experiência que terão diante dele numa primeira mirada e como esta pode evoluir a partir de informações sobre a natureza das formas ali presentes.
Trata-se do quadro A leiteira, de Vermeer, que pertence ao Rijksmuseum, de Amsterdã. Embora seja um quadro relativamente pequeno, seu impacto visual é intenso pela sua beleza e simplicidade. Podemos ficar emocionados com sua beleza. Uma primeira experiência emocional pode ser despertada centrando-se apenas nos aspectos formais do quadro. Entretanto, gostaria de propor a seguir outros elementos, que possam modificar nosso olhar e talvez torná-lo ainda mais prazeroso, através de uma expansão das emoções associadas às suas figurações, depois de estas serem inseridas em certo contexto. Poderíamos dizer que, após o acréscimo de algumas informações, estaremos compreendendo melhor o quadro. Assim, compreender é transformar algo.
O insight na vida e aquele obtido na sessão psicanalítica têm muito em comum, mas também diferem.
Tanto na primeira contemplação quanto na segunda, vivemos uma experiência. Na segunda mirada, depois de compreendermos melhor a pintura, a vivência diante dela é ampliada em intensidade e qualidade. As formas e cores que a constituem não são percebidas como as mesmas nas duas oportunidades.
Pouco se sabe sobre a personalidade de Vermeer, que viveu entre 1632 e 1675. Parece ter sido uma pessoa introspectiva e reservada. Não por acaso, seus quadros convidam à contemplação, à introspecção, e foi por essa razão que escolhi esse quadro. Ele não é apenas para ser visto, mas também pensado ou visto pensadamente. O pintor era bastante religioso – no caso, católico. Voltemos ao quadro.
Trata-se de uma cena no interior de uma casa holandesa simples, dentro da qual uma jovem está vertendo leite numa massa para fazer pão ou pudim de pão, popular naqueles tempos. Na singeleza do quadro, é o ato de derramar o leite na tigela de cerâmica que captura a atenção. Nas pinturas dos séculos 14 e 15, a entrada da luz pela esquerda em direção à figura principal era associada à luz divina.

Johannes Vermeer, A leiteira, c. 1657, óleo sobre tela, 45,5 × 41 cm. Rijksmuseum, Amsterdã, Holanda.
Há uma janela com um vidro quebrado ao lado da parede que serve de pano de fundo à figura feminina. Isso poderia nos remeter ao clima dos quadros da Anunciação. Esse detalhe de algo imperfeito – no caso, o vidro quebrado –, retratado em suas pinturas, parece indicar a preocupação de Vermeer em sempre reafirmar o quão imperfeito é o mundo dos homens em relação ao divino. A moça parece concentrada em sua tarefa. Embora vestida aparentemente como uma empregada da casa, sua roupa é pintada com o azul do Afeganistão, um lápis-lazúli, muito caro naquele período. Esse azul muito especial também era a cor preferida dos pintores italianos para retratar o manto ou a vestimenta de Nossa Senhora. A qualidade da tinta, refletida em seu preço e raridade, usada na figura de uma pessoa simples a eleva. O amarelo também era uma cor reservada aos nobres. Estou adicionando mais informações sobre aquilo que estamos vendo pensando em ilustrar como elas podem impactar a mente e a sensibilidade do observador.
Outro objeto aparentemente solto na pintura é o aquecedor de pés. Ora, esse objeto parece trazer um clima caloroso a essa parte da casa, mas se nos detivermos na simbologia da época na pintura holandesa, ele também diz respeito à sexualidade, à excitação sexual feminina. A presença do cupido num dos azulejos no rodapé do piso seria uma referência ao amor erótico?
O quadro faz um elogio às virtudes da temperança, da pureza, e ao valor do trabalho árduo. Nesse sentido, a cena retratada pode evocar até em nós o sagrado naquela época como a essência do belo e nos aproximar da sensação de estar assistindo à cerimônia de uma missa. Não se trata de estimular uma referência à religião, mas de mostrar a evocação de um sentimento de “maravilhamento” diante do divino, algo que o quadro pode produzir em nós (Gaspari, 2022). Será que agora olharíamos esse quadro da mesma maneira que o fizemos no primeiro momento?
A experiência emocional, depois de acrescentarmos essas informações, impacta a percepção das formas, que agora se associam a um conjunto mais amplo de vivências e se tornam, para usar uma linguagem técnica, a metáfora de um conjunto maior, que captura uma nova gama de estados subjetivos do observador. Essa reação é uma experiência emocional ampliada tanto pela transformação do significado dos aspectos formais quanto pela produção, em quem contempla a cena, de uma espécie de consciência da própria existência, potencialmente transformadora tanto do gosto estético quanto do significado do vivido. A meu ver, quando integradas às formas, as informações dão origem a novas maneiras de ordenar as experiências diante do quadro e da vida – novos sentimentos surgem, ao mesmo tempo que alguns significados se alteram.
Pretendi ilustrar o que em psicanálise poderíamos chamar de impacto do insight: parte da vivência de uma experiência emocional original que a transforma em seu significado, integrando-se a ela.
Recorro aqui a um conceito proposto por Jorge Ahumada (1999), inspirado em Bertrand Russell, que trata da experiência emocional vivida ao ter um tipo de insight que ele nomeia de ostensivo. Ahumada deriva esse termo do que Russell chamava de conhecimento por familiaridade – Ogden (2023) sugere o termo vivência ontológica –, o qual supõe uma experiência pessoal com a constituição do próprio objeto, algo que vai além do cognitivo. Nesse caso, o insight se baseia no que o indivíduo sente e vive, e o objeto é definido ostensivamente como aquele que produz mudança psíquica. O insight ostensivo em psicanálise é a experiência de conhecer seu inconsciente no momento do sendo, num processo vivo de transição entre o saber como o sujeito se constitui enquanto tal e a aquisição de uma identidade. Essa experiência de tornar-se sujeito através de um estado de ser, ou seja, de uma experiência, é na imensa maioria das vezes desconhecida do sujeito e/ou do paciente – ou ainda, podemos dizer, daquele que contempla uma obra de arte.
Quero ressaltar que não estou discutindo teorias da estética, nem equacionando a experiência estética em si com o insight psicanalítico. Estou dizendo que ambos são baseados numa transformação da experiência com a emoção. Quero apenas me dirigir a essa situação em que novas redes de experiência emocional são evocadas, produzindo afetos, sem nos darmos conta de como a simples visualização de um quadro pode mobilizar sentimentos e estabelecer novas conexões com o que somos, através de uma ampliação do que é vivido. Quando nos emocionamos, somos conduzidos a um mundo novo pela ampliação dos afetos ali emergentes, criando assim novos significados.
Em ocasiões especiais, a reação consciente racional pode transformar-se numa espécie de vivência onírica. Bion refere-se a uma “necessidade sentida de converter a experiência racional consciente em sonho” (1992, p. 184), de modo a integrá-la no psiquismo. Creio que ele está propondo uma ampliação do mundo emocional por meio de um estado de espírito que capta o vivido simultaneamente através de múltiplas perspectivas e temporalidades. O maravilhamento transformador tem uma qualidade oniroide.
É interessante notar que Sartre, falando de um ponto de vista fenomenológico, que a meu ver é importante ser levado em conta pela psicanálise, diz: “A consciência que se emociona assemelha-se bastante à consciência que adormece” (1939/1965, p. 69). Essa afirmação parece inicialmente contraditória, mas só o é a partir de um exame superficial. Quando adormecemos, mudamos de mundo, perdemos o controle das cenas que se passam durante o sonho, não somos capazes de deter a vivência que oniricamente se constrói, nem de saber que conexões são feitas entre fatos do presente e do passado, ou ainda com o que viveremos no futuro. Nesse âmbito, há uma simultaneidade de perspectivas no tempo e no espaço. Psicanaliticamente, estamos diante de um tipo de pensamento inconsciente emocionado, que inclui tanto o processo primário como o secundário, que se passa nas duas posições definidas por Klein (esquizoparanoide e depressiva), e igualmente do ponto de vista do continente e do contido, na terminologia de Bion.
Acredito que é isso que ocorre quando apreciamos uma obra de arte e somos tocados por ela à medida que a conhecemos melhor. Abre-se uma janela para a novidade transformadora, transcendente, para o maravilhamento, para o assombro (Nosek, 2021).
Agora nos centremos na psicanálise.
Tenho dificuldade de imaginar a psicanálise sem associá-la diretamente a uma experiência emocional. É claro que existem pacientes coartados de qualquer experiência de emoções, aqueles que nada sentem, mas mesmo nesses casos a questão central versa em torno da noção do sentir.
Segundo Bion, “uma experiência emocional não pode ser concebida isolada de uma relação” (1962/1984, p. 42). Noutra passagem, ele é ainda mais enfático ao dizer que, quando duas personalidades se encontram, uma tempestade emocional é criada (Bion, 1979/1994). O que seria o emocional aqui? Seria, por exemplo, a conexão, o engajamento vivido como experiência cheia de um significado diferente do simples existir, que acontece entre essas duas pessoas? Bion e os autores nele inspirados indicam que essa ligação é invisível e não sensual. Amor, ira, desprezo, humilhação não são entidades visíveis; são sentidas subjetivamente e alteram a estrutura do ser.
Cito Bion porque ele usa a expressão experiência emocional, que parece central em seu pensamento. Ele afirma: “A experiência de uma sessão não pode ser concebida diretamente. … Sua existência necessita ser conjecturada fenomenologicamente” (Bion, 1970/2007, p. 26). Quero enfatizar a expressão conjecturada fenomenologicamente. Creio que Bion quer dizer que uma experiência emocional é captada numa relação através de uma imaginação empática, que produz uma vivência a partir de formas significativas, verbais e não verbais. Seria uma vivência ontológica.
No campo das neurociências, Damásio, por exemplo, define emoção assim: “Uma coleção de mudanças corporais conectadas a imagens mentais específicas, que são ativadas num sistema cerebral específico” (1994/1996, p. 145, grifo meu). Para esses cientistas, a emoção tem uma presença corporal, sensorial, e é evocada por uma imagem mental (não sensorial), uma vivência associada a determinado sentido. O cérebro aqui é visto com a função de contador de histórias, isto é, ele incorpora o que vai vivendo num contexto narrativo de sentidos.
Não há paralelismo entre mente e cérebro, mas com certeza um impacta o outro, não necessariamente estabelecendo relações de causalidade. É claro que Damásio e Bion estão falando de emoção sob ângulos bastante diferentes. No entanto, vale notar que para ambos os autores, de campos muito distintos, a emoção ou a experiência emocional é evocada a partir de algo – no caso, de uma imagem mental. E para ambos cabe a ideia de conjectura fenomenológica vivida como significativa.
Emoção em psicanálise é também uma forma de comunicação consigo ou com o outro. Estamos interessados fundamentalmente em seu sentido e significado. Não é isenta de complexidade a afirmação de que a experiência emocional é algo não sensorial. Ser invisível ao observador não é a mesma coisa que não ser detectável de alguma forma. Digo isso para enfatizar que a questão da sensorialidade ou não da emoção serve para focalizar o que realmente importa: o significado da vivência, o que ela representa e expressa. Mas significado aqui é algo vivido e conjecturável, que pode ser figurável metaforicamente. Seria a experiência do dispositivo teatral da relação analítica (Foresti, 2018).
A emoção já é uma forma de apreensão do mundo, e é nesse sentido que Klein implicitamente se refere às vivências significativas produtoras de um afeto expressivo que dá sentido a uma particular vivência. É também nesse sentido de apreensão emocionada do mundo que surge a expressão experiência emocional para se referir a uma transformação total do mundo. Ela se inspira na fenomenologia, sem contudo fazer referência explícita a essa perspectiva.
Menciono agora um exemplo clínico. A paciente começa a sessão tensa, muito triste e fisicamente abatida. Provinha de uma família estrangeira de classe média empobrecida. Tinha sido muito doloroso para ela dar-se conta dos limites financeiros da família em relação aos dos colegas de escola. Era particularmente difícil para ela ver sinais de decrepitude nos móveis da casa – por exemplo, manchas e buracos nas cadeiras e no sofá da sala do modesto apartamento em que vivia. Ficava constrangida ao convidar colegas para irem à sua casa, pois sentia-se humilhada diante deles. Ela pôde estudar graças a uma bolsa de estudo, financiada por uma organização de seu país de origem. Essa paciente é hoje uma pessoa muito bem-sucedida em termos profissionais e familiares.
Voltando à sessão. Ela fala do choque que teve recentemente quando um dos filhos indicou que não estaria fazendo uma escolha heterossexual. Diz ter ficado sem chão: abriu-se uma cratera sob seus pés. Prossegue observando que, antes de vir à sessão, ficou arrasada ao saber que uma operação imobiliária, na qual estava engajada com grande esperança de boa remuneração, poderia não acontecer.
Vou descrever agora como construí meu comentário, tentando me concentrar nos possíveis significados da experiência que estava me relatando. Posso dizer que tomei toda a sua narrativa como uma espécie de resíduo diurno de um mau sonho; ouvi o relato como um poeta que olha para uma paisagem e tenta captar sua essência metaforicamente. O que estava acontecendo nessa linha em seu sonho diurno? Como estava se construindo seu estado de espírito arrasado e qual era sua natureza? Ela tomou sua impressão do negócio no qual botara tanta fé e da comunicação do filho sob o vértice da pobreza de sua vivência passada, caiu no buraco, ficou sem chão. O buraco dos tecidos que evocavam a ruína de sua situação familiar infantil tornou-se o interpretante de sua vivência atual. Sua consciência, como órgão de percepção de seu mundo interno, se constituiu em pobreza, miserabilidade, discriminação e humilhação, sem esperança de mudança. O presente estacionou e, nessa condição, o passado se repetiria no futuro. O inconsciente se manifestava aqui como forma atribuidora de significado, concentrada na vergonha, na discriminação e na humilhação em face da pobreza, que a meu ver era representada por um pictograma afetivo na forma de tecidos decrépitos e buracos. Esse pictograma se manifestava conscientemente como a experiência de ficar sem chão.
Tomei essa minha elaboração como base para a conversa que passamos a ter sobre o seu estado de espírito, e ela demonstrou grande surpresa diante da ideia de um presente sem possibilidade de alteração, que a levaria a viver o futuro como mera repetição do passado. O importante dessa interpretação encontrava-se no estabelecimento da conexão com uma situação do passado que estaria congelada e se repetiria ad aeternum. Desse modo, nossa conversa produziu o que podemos considerar uma experiência emocional sustentada por um pensamento transformador (Ogden, 2023).
É nesse sentido que posso dizer que, para Melanie Klein, a emoção exerce função similar à da percepção, e só quando é de fato vivida ela se torna transformadora. E a meu ver Bion segue na mesma linha.
Desde o início, os analistas de inspiração kleiniana se preocuparam com o que produz inércia (stasis) na vida mental, o que obstrui o desenvolvimento e também o que muda uma pessoa, como ela se transforma. Klein considerava a superficialidade dos sentimentos e a falta de compromisso afetivo com pessoas significativas uma indicação de patologia. E a resposta sobre como alterar essa situação tem sido: a experiência emocional intensa é a única forma de existir que produz mudanças psíquicas através de transformações.
Como o termo experiência emocional se torna relevante e mesmo central?
Estou tentada a propor a hipótese de que a expressão experiência emocional, em Bion, nasce da necessidade de diferenciar as maneiras de Freud e Klein teorizarem suas observações clínicas.
Aqui eu me inspiro em algumas ideias de Meira Likierman (2001). Freud fazia clara distinção entre a experiência (emocional) vivida pelo paciente e o quadro conceitual com o qual trabalharia essa experiência, tendo em vista seu interesse em destacar princípios gerais do funcionamento mental humano. Ele desejava ir muito além da descrição da vivência subjetiva, buscando nesta os princípios gerais que a governavam.
Por exemplo, ao descrever a reação de uma paciente a uma tentativa de contato sexual, Freud fala de como a moça seduzida reprimiu seu desejo sexual pelo abusador por pressão do superego. De uma experiência – de sedução –, Freud teoriza metapsicologicamente o que aconteceu ao derivar daí um princípio geral.
Já Klein tendia a “usar um termo tanto para descrever a experiência interna e subjetiva quanto para oferecer uma designação psicanalítica técnica do fenômeno” (Likierman, 2001, p. 108). É aqui que aparece a perspectiva fenomenológica. Ao escrever, Klein não fazia distinção clara entre a vivência subjetiva mencionada e as implicações teóricas e metapsicológicas dela. De imediato, Klein não se referiria ao superego, embora esse conceito estivesse implícito.
Ulhoa Cintra e Figueiredo, em sua excepcional análise do estilo narrativo do pensamento de Melanie Klein, observam: “Klein faz teoria, e teoria altamente especulativa, sobre processos e mecanismos psíquicos arcaicos como se estivesse apenas descrevendo o que pode captar por meio de observações clínicas a olho nu, pela via da intuição” (2004, p. 53).
O tempo todo, Klein valoriza sua experiência pessoal, o que está vivendo e intuindo, e daí nasce, a meu ver, a expressão experiência emocional (em si mesma, não usada por ela), que num primeiro momento é algo puramente descritivo, e só depois se torna, sobretudo com Bion, um conceito central em seus trabalhos sobre a observação psicanalítica.
Não por acaso, podemos até nos lembrar aqui do que diz Riobaldo em Grande sertão: veredas: “Não esperdiço palavras. Macaco meu veste roupa. O senhor pense, o senhor ache. O senhor ponha enredo” (Rosa, 1956/2001, p. 325). É esse enredo inserido pelo interlocutor – ou seja, quando se transforma numa história vivida e narrada – que veste a roupa do macaco que constitui a experiência emocional.
Volto aos textos psicanalíticos com uma reflexão sobre a relação da experiência emocional com a construção de significado na relação transferencial. Eventualmente, estarei citando outros trabalhos meus e em conjunto com Elias Rocha Barros.
É no ponto de virada que representou a mudança de foco da psicanálise – de uma preocupação com o conteúdo do pensamento para uma ênfase em como pensamos –, operada a meu ver a partir da ideia de fantasia inconsciente, que o termo experiência emocional ganhou centralidade. Explico isso recorrendo a Ogden (2014): o autor ressalta que a transferência vivida já é um modo de pensar, sendo fruto de uma fantasia inconsciente, sendo um ato de vivenciar algo, talvez pela primeira vez. Gosto muito de um termo utilizado por Kristeva (2000): ela define a fantasia inconsciente como uma metáfora encarnada.
A escuta analítica tem um caráter poético, na medida em que toma a fala do paciente como equivalente aos resíduos diurnos de um sonho (Taiana, 2022). Quero frisar que o termo poético é usado aqui tanto no sentido de autoexpressão como no sentido de uma forma de saber metafórico.
Num seminário em São Paulo, Fédida ressaltou:
Na situação do tratamento, penso que é por uma palavra ou por um gesto que tem a função de metáfora, a função poética da metáfora, que o outro pode se reconhecer. Por isso, é preciso que as palavras, os gestos, emanem do próprio paciente. É assim que a palavra metáfora toma seu verdadeiro sentido: não a poesia, mas a poética, no sentido de poiesis grega, quer dizer a dimensão poética da recriação constante do sentido, a recriação constante da língua na palavra. O poeta é aquele que cada vez inventa a língua. (1988, p. 54, grifo meu)
Termino esta minha apresentação com um poema de Wisława Szymborska (2016, p. 299) que descreve sua emoção diante do quadro de Vermeer:













