SciELO - Scientific Electronic Library Online

 
vol.58 issue1Emotional experience in the analytical field: theory and clinicHow do we stay? For a Brazilian psychoanalysis author indexsubject indexarticles search
Home Pagealphabetic serial listing  

Services on Demand

article

Indicators

Share


Revista Brasileira de Psicanálise

Print version ISSN 0486-641XOn-line version ISSN 2175-3601

Rev. bras. psicanál vol.58 no.1 São Paulo  2024  Epub Nov 29, 2024

https://doi.org/10.69904/0486-641x.v58n1.09 

Artigos

Observação e intuição em psicanálise: Uma perspectiva dual

Observación e intuición en psicoanálisis: una perspectiva dual

Observation and intuition in psychoanalysis: a dual perspective

Observation et intuition en psychanalyse : une perspective duale

Carmen C. Mion1 

1Membro efetivo, docente, analista didata e atual presidente da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo (SBPSP). São Paulo


Resumo

Em um dos seus últimos seminários, Bion afirma que não estava interessado nas teorias psicanalíticas ou mesmo em outras quaisquer, mas no “mais importante, que chamo de ‘a coisa real’, a prática da análise, a prática do tratamento, a prática da comunicação”. Neste artigo, a autora desenvolve os conceitos de observação e intuição como pertencentes ao tema maior da comunicação psicanalítica, restringindo-se à especificidade da “escuta” do analista às comunicações do analisando na sala de análise e seus instrumentos para isso: os órgãos dos sentidos e de percepção, incluindo aqui o conceito freudiano do consciente como órgão de percepção. Propõe que essas duas funções do psicanalista, observação e intuição, atuam em sincronia, de forma semelhante ao modelo biológico de “visão binocular” utilizado por Bion como uma aproximação ao seu conceito de barreira de contato e interação entre consciente e inconsciente. A autora inicia o artigo com uma separação artificial entre ambas as funções, para reuni-las ao final.

Palavras-chave intuição; observação; visão binocular; comunicação na prática clínica; percepção inconsciente

Resumen

En uno de sus últimos seminarios, Bion afirma que no le interesaban las teorías psicoanalíticas ni ninguna otra teoría, sino lo “más importante, lo que llamo ‘lo real’, la práctica del análisis, la práctica del tratamiento, la práctica de la comunicación”. En este artículo, la autora desarrolla los conceptos de observación e intuición como pertenecientes a un tema más amplio, la comunicación psicoanalítica, limitándose a la especificidad de la “escucha” del analista de las comunicaciones del analizando en la sala de análisis y sus instrumentos para ello: los órganos de los sentidos y de percepción, incluido aquí el concepto freudiano del consciente como órgano de percepción. Propone que estas dos funciones del psicoanalista, observación e intuición, actúan en sincronía, de forma similar al modelo biológico de “visión binocular” utilizado por Bion como aproximación a su concepto de barrera de contacto e interacción entre consciente e inconsciente. La autora comienza el artículo con una separación artificial entre ambas funciones, para unirlas al final.

Palabras clave intuición; observación; visión binocular; comunicación en la práctica clínica; percepción inconsciente

Abstract

In one of his last seminars, Bion states that he was not interested in psychoanalytic theories or any other theories, but in “the most important thing, which I call ‘the real thing’, the practice of analysis, the practice of treatment, the practice of communication”. In this article, the author develops the concepts of observation and intuition as belonging to a larger theme, psychoanalytic communication, restricting herself to the specificity of the analyst’s “listening” to their analysand’s communications in the analysis room, and their instruments for this: the sense and perception organs, including here the Freudian concept of the conscious as an organ of perception. She proposes that these psychoanalyst’s functions, observation and intuition, act in synchrony, in a similar way to the biological model of “binocular vision” used by Bion as an approximation to his concept of contact barrier and interaction between conscious and unconscious. She starts with an artificial separation between both functions, to bring them together in the end.

Keywords intuition; observation; binocular vision; communication in clinical practice; unconscious perception

Résumé

Dans l’un de ses derniers séminaires, Bion déclare qu’il ne s’intéresse pas aux théories psychanalytiques, ni d’ailleurs à aucune autre théorie, mais à « la chose la plus importante, que j’appelle “la chose réelle”, la pratique de l’analyse, la pratique du traitement, la pratique de la communication ». Dans cet article, l’autrice développe les concepts d’observation et d’intuition comme appartenant au thème plus large de la communication psychanalytique, en se limitant à la spécificité de « l’écoute » par l’analyste des communications de l’analysé dans la salle d’analyse et ses instruments pour cela : les organes des sens et de perception, y compris ici le concept freudien du conscient comme organe de perception. Elle propose que ces deux fonctions du psychanalyste, l’observation et l’intuition, agissent en synchronie, de manière similaire au modèle biologique de la « vision binoculaire » utilisé par Bion comme une approximation de son concept de barrière de contact et interaction entre conscient et inconscient. L’autrice commence l’article par une séparation artificielle entre les deux fonctions, pour les réunir à la fin.

Mots-clés intuition; observation; vision binoculaire; communication dans la pratique clinique; perception inconsciente

Introdução

No exercício da função a que se propõem diariamente, os psicanalistas são constantemente confrontados com as vicissitudes da comunicação humana, desde o momento do encontro com o analisando até aquele em que decidem fazer uma interpretação que, espera-se, combine profundidade, concisão e clareza. A comunicação na sala de análise contém grande complexidade, já que se trata de uma comunicação bastante específica, que cumpre uma função específica e sobre a qual muito se escreveu. Contudo, creio que nenhum autor se dedicou tão profundamente à questão da comunicação em psicanálise como Bion. Em vários de seus textos e seminários, frequentemente ele chama a atenção para as limitações da própria linguagem que utilizamos, uma vez que não é específica do nosso objeto de investigação, mas sim emprestada das ciências, das religiões, da literatura ou de outros campos do conhecimento. Em um de seus últimos seminários, Bion afirmou que não estava interessado em teorias psicanalíticas, mas no “mais importante, que chamo de ‘a coisa real’, a prática da análise, a prática do tratamento, a prática da comunicação” (2005, p. 16).

Desenvolverei neste artigo os conceitos de observação e intuição como parte deste tema mais amplo, comunicação em psicanálise, restringindo-me à especificidade da “escuta” do analista às comunicações do analisando na sala de análise e seus instrumentos para isso. A intuição e a observação constituem as vias através das quais recebemos e percebemos as comunicações sensoriais e não sensoriais de nossos analisandos, incluindo aqui o conceito freudiano do consciente como órgão de percepção. Da mesma forma que o binômio somático ↔ psíquico, acredito que não há como separar observação e intuição a não ser artificialmente, com o propósito de aprofundamento em ambas. Em outras palavras, como indica Bion (1977/1989), para os psicanalistas essas são questões que pertencem à prática cotidiana, não são apenas teóricas.

Antes de entrar no tema em si, considero importante apresentar o vértice psicanalítico a partir do qual o desenvolverei, uma vez que os diferentes referenciais teóricos refletem diferentes perspectivas sobre o psiquismo humano, determinam diferentes preconcepções e consequentemente diferentes abordagens na prática clínica, sem esquecer que, mesmo partindo das mesmas teorias, dois analistas ainda farão suas próprias transformações.

Parto da premissa de que o encontro psicanalítico entre analista e analisando está impregnado pelas emoções e sentimentos da dupla, e vejo uma sessão como uma sucessão de movimentos resultantes da interação entre as duas mentes desde o início do encontro. O foco do analista é o material para o qual ele tem evidências, ou seja, a experiência emocional da dupla analítica no momento da sessão, “sem memórias, sem desejos e sem conhecimento a priori”. A partir desse estado de mente do analista, o aqui e agora da relação ganha destaque na cena analítica, favorecendo para ambos um vínculo de intimidade, criatividade e abertura ao desconhecido. Considero que esse é o exercício de uma “disciplina” que leva em conta a multidimensionalidade, a variabilidade e a complexidade psíquica da mente humana.

Começo por uma separação artificial entre ambas as funções, para reuni-las ao final.

Observação

A questão da observação continua sendo um dos problemas mais importantes da psicanálise desde o encontro de Freud com Charcot em 1885: “Aprendi a conter tendências especulativas e a seguir as palavras esquecidas de meu mestre Charcot para olhar a mesma coisa repetidamente até que comece a falar por si” (1914/1957, p. 22). Bion (2005) remete-se a essa afirmação de Freud quando propõe que a observação da experiência em psicanálise é o mais próximo que podemos chegar ao que seria um fato na ciência, e se dedicou ao desenvolvimento de uma teoria sobre a prática da observação psicanalítica, reunida principalmente no livro Transformações (1965/1983). Com base no pensamento dos filósofos Immanuel Kant e David Hume, Bion propõe que em todas as comunicações que envolvam a observação de pessoas ou objetos, sejam eles concretos ou imateriais, sempre haverá uma transformação de uma invariante incognoscível, a “coisa em si”, que ele denominou O. Sob esse vértice, o foco principal do psicanalista, a especificidade de sua observação, será relacionada ao material do qual ele participa diretamente, à experiência emocional ocorrida entre/com a dupla no momento presente da sessão: “Qualquer O não comum ao analista e ao analisando, e portanto não disponível para transformação por ambos, pode ser ignorado como irrelevante para a psicanálise” (2005, p. 48).

Certamente toda observação necessita de condições mínimas para sua realização, o que, em psicanálise, Freud denominou setting psicanalítico, conceito que envolve uma complexidade muito maior do que poderei abordar aqui. Bion (2005, p. 13) sugere ainda considerar a observação em psicanálise com uma metáfora utilizada por John Milton em Paraíso perdido, quando este afirma ter a esperança de ser capaz de “ver e falar de coisas invisíveis aos olhos mortais”. Mantendo a fé nos processos do inconsciente (Prada, 2018), sabendo que os fatos são sempre psíquicos, o analista deve poder perder-se e, levantando os limites da atividade racional e da lógica que é própria da vigília habitual, desprender-se do amparo fornecido pelas estruturas teóricas e dos significados gratificantes “já conhecidos”, assim como das expectativas em relação ao outro e a si mesmo. Como Bion (1973-1978) sugere em vários dos seus seminários, quando temos a chance de esquecer tudo que sabemos sobre o paciente, que fará o possível para nos lembrar, então pode haver a chance de penetrarmos a impressionante cesura do conhecimento, dos fatos relatados, das teorias conhecidas, e ter a chance de ouvir estas pequenas sutilezas, estas pequenas coisas difíceis de ver, ouvir, sentir, captar. Cegar-se para enxergar algo que tenha relevância (Grotstein, 2007), escutar ao paciente e a nós mesmos, porque vez ou outra podemos ter a chance de captar aquele fragmento de informação que pode vir a ser relevante, às vezes iluminador como um fato selecionado.

Mas afinal o que o psicanalista observa, o que “olhamos” na sala de análise? Em relação ao/à analisando/a, eu diria que tudo o que se apresenta aos nossos sentidos e à consciência: como o/a encontramos, se é pontual ou não, sua expressão facial no momento do encontro, a forma como entra na sala de análise, se joga-se no divã ou aproxima-se cautelosamente, se hesita ou nem se deita, ou mesmo se nada nos chama a atenção, seu modo de vestir naquele dia específico, um cheiro ou uma respiração diferente, e assim por diante. Simultaneamente, prestamos atenção ao conteúdo do que o/a paciente fala, à sua forma de falar, à melodia da sua voz; ou, se não fala nada, que tipo de silêncio se instala (pesado, pacífico, prazeroso, ameaçador etc.); se uma frase ou outra, por algum motivo que ainda não conhecemos, chama a atenção ou nos causa desconforto. Se o/a paciente parece ansioso/a, confuso/a, assustado/a ou, pelo contrário, parece feliz ou triunfante, ou não parece ter nenhum sentimento. Às vezes, percebemos determinado tom de voz, sutilezas do seu olhar; outras vezes, notamos uma pausa inusitada, um sorriso ou um gesto com as mãos: o que o corpo do/a analisando/a comunica para além do que ele/ela nos diz?

Ao mesmo tempo que observamos o/a analisando/a, precisamos ter outro olhar voltado para nós mesmos, o próprio analista. Tentamos perceber, como terceiros, que sentimentos o/a paciente nos desperta; se surge repentinamente alguma irritação, sensação de sonolência ou qualquer outro sentimento ou emoção aparentemente não relacionado à sessão; se nos surpreendemos revisando mentalmente a agenda da semana; se estamos “ausentes”; se surge um desconforto indefinido em relação ao/à analisando/a, ou em relação a nós mesmos; se ficamos inquietos; se temos uma dor súbita, uma dor de cabeça; se nos ocorre uma música, ou um pensamento selvagem; se nos vem à mente uma imagem com ou sem relação aparente com o que está acontecendo; se percebemos uma excitação sexual ou um ódio repentino; e assim por diante. Como analistas, precisamos nos expor à experiência da sessão para apreender o inefável. Uma presença viva e atenta ao que acontece entre/com a dupla, que toca a ambos. Quem pode provar ou demonstrar a identificação projetiva? Que a dor ou o medo que o analisando sente está no analista? Como aponta Bion, os conceitos de transferência e contratransferência são úteis para os analistas se comunicarem entre si, são experiências que temos e vivemos em nossos consultórios, mas somente outro analista conseguirá alcançar o que tentamos transmitir ao mencionar esses conceitos. Estamos irremediavelmente condenados a apreensões subjetivas na sala de análise.

Com o tempo e alguma sorte, podemos identificar algum padrão que emerja dessa miríade de informações coletadas, uma conjunção constante, que se repete ao longo dos sucessivos encontros. Detectado o padrão, prosseguem a investigação e a observação: o que leva o/a paciente a repetir esse padrão, seja qual for? O que o/a move e não é visível? Refiro-me também à questão da complementaridade em psicanálise, a complementaridade de O, a realidade última. As teorias psicanalíticas aprendidas e o próprio discurso do/a paciente podem produzir uma barreira contra o contato direto com a experiência e a observação da “coisa real”, um vislumbre do sofrimento real do/a paciente. Bion propõe um modelo ilustrativo da situação em que nos encontramos em sala de análise, onde essas informações com as quais somos bombardeados, interna e externamente, podem ser ensurdecedoras e nos impedir de ouvir o essencial: “Sabemos tanto sobre o paciente, sobre nós, sobre teorias, sobre a vida, que é muito difícil ver ou detectar ‘isso’ que estamos observando, para que se possa ouvir os débeis sons soterrados nessa massa de barulhos” (2005, p. 19).

Intuição

Freud (1937/1964) já se refere a verdades subjacentes não apreendidas pelos sentidos que dependem da intuição, do insight e da capacidade de sonhar do analista. O inconsciente, a realidade psíquica, como postula Freud em “Construções em análise”, não se dá a conhecer diretamente: só podemos apreendê-la de forma não sensorial, ela só pode ser intuída.

Além de se dedicar à questão da observação, Bion apresenta uma importante contribuição à questão da intuição em psicanálise, o que não surpreende em vista do seu interesse e aprofundamento na questão das diferentes facetas da comunicação em psicanálise. Através da sua proposta não só de inserir as teorias psicanalíticas no grupo das transformações, mas também de colocá-las como preconcepções no estado de mente do analista nas sessões, Bion discrimina e especifica a intuição utilizada na sala de análise como uma intuição psicanaliticamente informada pela teoria pessoal que vamos desenvolvendo e construindo ao longo do nosso vir a ser psicanalistas, diferenciando-a da intuição do leigo ou da intuição relacionada a qualquer outro campo do conhecimento. Como preconcepções esquecidas, ficam também a própria análise, supervisões e experiências de vida do analista, as quais, eventualmente, podem emergir na sala de análise ao encontrarem uma realização na experiência da dupla.

A direção em que se movimenta a investigação psicanalítica se sobrepõe aos espaços infinitos de Pascal (1670/2013) e segue até alcançar os recessos profundos do Hades. Bion põe o analista em contato com a angústia de conviver com o incerto, tolerar mistérios e dúvidas; com a percepção de que se pode estar cego, enganado nas próprias percepções, escolhas e decisões, o que acarretará inevitáveis repercussões no futuro – mas sabendo também que essa limitada percepção é o único instrumento de que dispomos (Mion, 2006). A atmosfera emocional da sessão, as impressões do analista, o estado emocional da dupla analista-analisando, os próprios pensamentos oníricos são as únicas bússolas disponíveis. Esse estado de mente do analista em sessão, de insaturação psíquica, além das observações pelos órgãos dos sentidos e pela consciência, torna-nos sensíveis ao que “não é”, ao que “não se encaixa”, dificuldades, incômodos ou pré-moções não assinalados ou nem sequer percebidos pelo paciente, mas que uma vez captados pelo analista, podem funcionar como “sinalizações”, que geralmente se apresentam como intuições surgidas sob a forma de imagens, lembranças oníricas, pensamentos selvagens, músicas, sensações, poemas (Mion, 2012/2019).

Relembro aqui uma observação de Bion (1977/1989) de que limitar-nos à observação e à investigação apenas do que compreendemos significa deixar de lado a matéria-prima da qual o conhecimento e a sabedoria podem depender. A experiência clínica mostra continuamente evidências de algo remanescente de estados de mente que poderíamos localizar na pré-história de alguns pacientes adultos. Bion sugere que eventos contidos no útero do tempo podem se apresentar à vida consciente de uma pessoa, que no entanto terá de agir e existir no presente. Memórias do futuro, enterradas em um passado que não pode ser (re)(a)presentado? Às vezes, precisamos “ouvir” (intuir) os vestígios remanescentes do que sobreviveu na mente de uma pessoa, soterrados no meio de todo o barulho que nos chega pelos sentidos da visão e da audição; detectar o vestígio de algo que ainda é atuante em sua vida. Como propõe Bion, não temos apenas duas pessoas na sala de análise: “É como ter o todo de uma pessoa em todas as idades e de todos os tempos num quarto ao mesmo tempo” (2005, p. 29). Contudo, esses momentos de iluminação são eventos raros, construídos durante o tempo que os antecede, muito além da área de qualquer experiência analítica.

Ao discorrer sobre esses raros “momentos de iluminação”, “a coisa real”, Bion faz uma referência a John Milton, quando ele menciona o rio Alpheus em “Lycidas”: “Return, Alpheus, the dread voice is past”.2 Alpheus é um rio que corre no subterrâneo, oculto, e que de vez em quando irrompe em diferentes e inesperados lugares. Onde ele aparece e que efeito terá, ninguém sabe. Bion propõe que certas ideias, muito difíceis de rastrear, seguem seu curso através da mente e da personalidade como o rio Alpheus, sem serem vistas, escutadas ou observadas. Ideias que nunca foram conscientes parecem flutuar por aí e irrompem muito mais tarde quando o embrião ou feto se tornou uma pessoa sofisticada. Aonde chegam essas ideias à medida que elas seguem seu percurso, e de que aparelho podemos dispor para captá-las além dos sentidos e do senso comum? Em outro momento, penso que Bion expande o tema ao afirmar que a razão pela qual nos ocupamos com coisas que são lembradas, com a nossa história passada, não é pelo que foi,

mas por causa das marcas que deixou em você ou em mim ou em nós agora. … Pode haver ainda traços na mente ou caráter ou personalidade, no presente, de partículas que tem uma longa história, coisas que esperaríamos serem fundamentais, básicas, primordiais. (1997, p. 38)

Visão binocular

Penso que a presença da subjetividade do analista adquire maior importância, com todas as suas possibilidades e limitações, à medida que a observação ↔ intuição estão vinculadas à visão binocular do analista, consciente/finito ↔ inconsciente/infinito. Quando Bion (1962) apresenta sua teoria da função-alfa, utiliza um modelo da biologia como aproximação ao seu conceito de barreira de contato: a visão binocular. A barreira de contato, que não só mantém como origina a diferenciação entre consciente e inconsciente, é formada pelos elementos-alfa, apresentando uma face para a consciência e outra para o inconsciente. Bion introduz a ideia de que a percepção consciente e a captação inconsciente se dariam simultaneamente, tal qual uma visão binocular.3 Em seus seminários na Tavistock, Bion (2005) retoma o modelo como aproximação à percepção do germe de uma ideia embrionária que no início se apresenta desfocada, meio confusa, traz sensação de incômodo, até que acontece o “foco”. Embora Bion não explicite isso, penso que esse é o modelo que melhor se aproxima à utilização da observação (consciente) e da captação intuitiva (que assoma do inconsciente) pelo analista na sala de análise. Semelhante à visão binocular, há um momento em que a observação e a intuição unem-se na mente do analista e acontece o “foco”: esse é o momento em que o analista “enxerga” (sente/capta) que a impressão que estava tomando forma, que talvez viesse crescendo em sua mente, sobre o paciente ou sobre o que está se passando naquele momento, torna-se subitamente “visível”.

O desenrolar desse processo vai depender das qualidades psíquicas do analista que serão comunicadas ao paciente através dos canais de comunicação afetivos, e dos seus inevitáveis impactos sobre a mente do paciente. Acolhimento amoroso e liberdade do objeto com paciência, tolerância e empatia formam e possibilitam o crescimento da trama da rede continente, a ser preenchida com os diferentes conteúdos emocionais (♀♂ → ∞). Para que os pensamentos oníricos e a “percepção binocular” sejam possíveis, torna-se condição necessária ao analista tolerância à dúvida e a um sentido de infinito; receptividade e atenção; certo estado de mente aberto à recepção de todos os objetos, sejam eles sentidos como bons ou maus, vindos do analisando; capacidade de trabalho-de-sonho-alfa; continência suficiente para ficar no papel em que o analisando o colocar; certa capacidade negativa, conceito de Keats que se refere à capacidade que um homem tem de estar entre incertezas, mistérios, dúvidas, sem qualquer tentativa de alcançar fato e razão (Bion, 1992); compaixão madura e respeito pelo paciente (Mion, 2018).

Como salientei em trabalho anterior (Mion, 2012/2019), um analista capaz de transitar entre as cesuras de uma mente multidimensional, atravessar espelhos transparentes4 sem se deixar imobilizar ou naufragar como Narciso embevecido pelo próprio reflexo. Ou seja, a função do analista envolve não apenas ideias em trânsito, mas um analista com uma mente trânsito, um vir a ser no sentido de poder transcender seus vértices, sem perdê-los de vista, “ver” ambos os lados dos inúmeros espelhos/cesuras com os quais, como Alices, nos deparamos diariamente. Um analista capaz de viver a experiência de tornar- -se a realidade T → (O) junto com o/a paciente. Bion (2005) apresenta uma belíssima imagem em relação às nossas resistências ao tornar-se (becoming) e à questão das cesuras entre as diferentes dimensões psíquicas: as pinturas de Picasso em vidros transparentes, que vistas do lado oposto parecem desenhos diferentes. Ele propõe ao analista olhar para o outro lado da resistência, como nessas pinturas; olhar de tal modo que o que está sendo resistido comece a brilhar através dela, intuir a natureza de O:

Quando se tem clareza de que é a análise que está sendo resistida, o que está brilhando através dela? Não é simplesmente uma questão de mudança de vértice; é também ser capaz de ver através da resistência, da contratransferência, ou do que for. (p. 67)

As mudanças em psicanálise acontecem em pequenos movimentos, pois resistimos bravamente a elas. Vivemos em espaços delimitados e não queremos ser perturbados pela invasão de forças ou pensamentos de outro lugar qualquer – passado, futuro ou presente. Bion (2005) compara-nos a esse respeito com os dinossauros, os quais, para se defenderem, desenvolveram uma casca que se tornou tão pesada que eles mal podiam andar. O problema é que a capacidade lógica do homem, quando hipertrofiada, como a casca dos dinossauros, não deixa espaço para crescimento. Basicamente, cada mecanismo de defesa é uma mentira que contamos a nós mesmos a respeito de uma verdade, O, intolerável e dolorosa. Bion chama a atenção para o sofrimento em situações de análise ao afirmar que resistência é aquilo que o paciente diria se pudesse: “Faço isso para sobreviver”.

Outro capítulo dessa história seria a abordagem das condições psíquicas a serem privilegiadas em nosso vir a ser psicanalistas, que nos habilitem a estar nesse estado de mente, com a possibilidade de viver uma mente em trânsito, sem portos seguros para atracar, e poder experimentar tornar-se a realidade T → (O) juntamente com o paciente (Mion, 2017). Para tanto, é necessária ao analista a capacidade de ser parte e, ao mesmo tempo, estar separado da experiência, mantendo-se a função analítica. Como já assinalado, penso que só podemos desenvolvê-la através de uma sólida formação e uma análise profunda, que alcance as cavernas mais profundas nos recessos de nossa mente, as partes psicóticas ↔ não-psicóticas e psicossomáticas ↔ somatopsicóticas do próprio analista. Seria esse o domínio a que pertencem as transformações de/em O. Estar em uníssono (at-one-ment) com O descreve a experiência de tornar-se O, expressão de ser de uma pessoa. Como ressalta Chuster (2018), O de Onthus e de Opus, um trabalho em construção (work in progress). Estar em uníssono com O depende da capacidade de integrar os estados mais primitivos da mente com as funções mentais superiores, através das quais as evoluções de O podem ser experenciadas (Williams, 2010). Como sintetiza lindamente Bollas:

O self consciente está agora no lugar da criança que não sabe, que não pode pensar as experiências de ser, ao passo que é o self inconsciente que carrega a sabedoria da história do self e faz o trabalho profundo de processar os detalhes da experiência vivida por meio da sinfonia do pensamento inconsciente. (2009, p. 142)

Considerações finais

As configurações do sofrimento psíquico com as quais lidamos atualmente apontam em direção ao vazio, à ausência de sentido da vida, sentimentos de insuficiência e não existência, vivências psicossomáticas, em que os objetos têm uma função utilitária e as relações de intimidade estão ausentes. Na intimidade dos nossos consultórios, temos encontrado fundamentalismos de toda sorte, autodefinições através da profissão, individualidades empobrecidas. Por outro lado, a tecnologia, technos, torna-se por assim dizer um ideal, diante do qual se submete impotente o eu, camuflando o seu desamparo e medo diante da morte, da indeterminação, do vazio, através do hiperdesenvolvimento tecnológico e suas próteses (Freud, 1930/1961), tentando recusar o acaso, a morte e as dores invitáveis da existência. Homens e mulheres nos quais a aspiração de se tornarem eles mesmos é mais urgente e demandante do que tornar consciente o inconsciente, reintegrar o projetado ou mesmo desenvolver pensamentos a partir das próprias experiências emocionais. Pacientes nos quais percebemos a necessidade de desenvolver ou criar espaço psíquico para que seja possível haver crescimento e desenvolvimento (♀♂ → ∞), detectar o que brilha através das resistências e que não se apresenta aos sentidos, atravessar cesuras. Situações em que me parece que a necessidade de converter a experiência emocional em sonhos torna-se mais demandante do que converter sonhos em experiência consciente, como propôs Freud. Um processo sustentado no tempo pela presença do analista, em um setting capaz de oferecer intimidade, estabilidade, continuidade e autenticidade, condições fundamentais para a constituição do sentimento de vir a ser ou tornar-se e, talvez, de um sentido de existência.

2“Retorne, Alpheus, a voz terrível é o passado.”

3“A visão binocular de seres humanos resulta da superposição quase completa dos campos visuais de cada olho, o que suscita discriminação perceptual de localizações espaciais de objetos relativamente ao observador bem mais fina (estereopsia), mas isso ocorre em apenas uma faixa muito estreita (o horóptero). Aquém e além dela, acham-se presentes diplopia e confusão, sendo necessária supressão fisiológica (cortical) para evitá-las. … Os aspectos clínicos da visão binocular normal são percepção simultânea, fusão, visão estereoscópica” (Bicas, 2004, p. 172).

4Em uma conferência em São Paulo (1978), ao discorrer sobre a questão da penetração de cesuras, que paradoxalmente separam e unem “acontecimentos”/estados de mente/irradiações de O no espaço-tempo infinito, Bion sugere uma imagem muito forte: espelho transparente. Um espelho transparente pressupõe não só contato/separação como também movimentos e passagens em ambas as direções da cesura. Bion considera a possibilidade de um pensamento primordial do feto, projetado na cesura, se refletir partindo da criança para seus níveis primordiais de pensamentos e sentimentos.

Referências

Bicas, H. E. A. (2004). Fisiologia da visão binocular. Arquivos Brasileiros de Oftalmologia, 67, 172-180. [ Links ]

Bion, W. R. (1962). Learning from experience. William Heinemann. [ Links ]

Bion, W. R. (1973-1978). Supervisões de Bion em São Paulo [Apresentadas por José Américo Junqueira de Mattos e Gisele Mattos em reuniões científicas da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo]. [ Links ]

Bion, W. R. (1983). Transformations. Jason Aronson. (Trabalho original publicado em 1965) [ Links ]

Bion, W. R. (1989). Two papers: The grid and Caesura. Karnac. (Trabalho original publicado em 1977) [ Links ]

Bion, W. R. (1992). Cogitations. Karnac. [ Links ]

Bion, W. R. (1997). Taming wild thoughts. Karnac. [ Links ]

Bion, W. R. (2005). The Tavistock seminars. Karnac. [ Links ]

Bollas, C. (2009). A questão infinita (R. C. Costa, Trad.). Artmed. [ Links ]

Chuster, A. (2018). [Apresentação de trabalho]. Encontro Internacional Bion 2018, Ribeirão Preto, sp, Brasil. [ Links ]

Freud, S. (1957). The history of the psychoanalytic movement. In S. Freud, The standard edition of the complete psychological works of Sigmund Freud (J. Strachey, Trad., Vol. 14, pp. 2-66). Hogarth. (Trabalho original publicado em 1914) [ Links ]

Freud, S. (1961). Civilization and its discontents. In S. Freud, The standard edition of the complete psychological works of Sigmund Freud (J. Strachey, Trad., Vol. 21, pp. 57-145). Hogarth. (Trabalho original publicado em 1930) [ Links ]

Freud, S. (1964). Constructions in analysis. In S. Freud, The standard edition of the complete psychological works of Sigmund Freud (J. Strachey, Trad., Vol. 23, pp. 255-270). Hogarth. (Trabalho original publicado em 1937) [ Links ]

Grotstein, J. (2007). A beam of intense darkness. Karnac. [ Links ]

Mion, C. C. (2006). The stranger. The International Journal of Psychoanalysis, 87, 125-143. [ Links ]

Mion, C. C. (2017). Supervision a2 commentary. In J. A. J. Mattos, G. M. Brito & H. B. Levine (Eds.), Bion in Brazil: supervisions and commentaries (pp. 224-232). Karnac. [ Links ]

Mion, C. C. (2018). O desamparo e a mente do analista. In R. A. A. Melo & W. N. P. Santos (Orgs.), Des-amparo e a mente do analista (pp. 233-250). Blucher. [ Links ]

Mion, C. C. (2019). Conjectures about dreams, memories and caesuras. In A. K. Alisobhani & G. Corstorphine (Eds.), Explorations in Bion’s O: everything we know nothing about. Routledge. (Trabalho original publicado em 2012) [ Links ]

Pascal, B. (2013). Thoughts. Cambridge. (Trabalho original publicado em 1670) [ Links ]

Prada, M. S. (2018, 23 de junho). O absurdo da fé [Apresentação de trabalho]. Reunião científica da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo, São Paulo, sp, Brasil. [ Links ]

Williams, M. H. (2010). Bion’s dream. Karnac. [ Links ]

Recebido: 04 de Março de 2024; Aceito: 21 de Março de 2024

Carmen C. Mion carmenmion@uol.com.br

Creative Commons License Este é um artigo publicado em acesso aberto (Open Access) sob a licença Creative Commons Attribution, que permite uso, distribuição e reprodução em qualquer meio, sem restrições desde que o trabalho original seja corretamente citado.