Delineamento da questão
Nosso interesse primordial neste trabalho não será pensar sobre o que não se fala ou sobre aquilo a partir do qual se silencia, mas sobre o aspecto criativo e necessário do silêncio. Também não focalizaremos o problema da resistência, e como o silêncio é, muitas vezes, a sua expressão. Discutiremos em especial a possibilidade de serem produzidas, pelo silêncio, inúmeras formas de comunicação, tanto solipsistas, de si para si mesmo, quanto intersubjetivas, ambas na presença da alteridade. Nesse sentido, não nos interessamos em discutir problemas relacionados à fala que causem mudez, nem processos psicoterapêuticos em que o silêncio aconteça como única forma de comunicação. Partiremos da ideia de que a recomendação freudiana para que o paciente observasse aquilo que se passava em sua mente, independentemente de sua vontade, e comunicasse, sem resistências, ao analista partiria justamente da não comunicação inicial para uma comunicação associativa.
Não comunicação e solidão
Em seu trabalho sobre a comunicação e a falta de comunicação, Winiccott (1963/1982b) já havia indicado uma característica peculiar do adolescente, como aquele que enfatiza a própria solidão, como um isolado. É certo que essa caracterização não serve senão para entender a importância, para uma moça ou um rapaz, de estabelecer vínculos que resguardem a possibilidade de uma comunicação feita a partir desse seu isolamento, de sua distância para com os outros. O isolamento, nesse caso, tal qual Winnicott se refere, é um isolamento que parece estar a serviço tanto da comunicação pessoal íntima quanto da experiência da distinção entre essa comunicação e uma outra forma de se falar: a que responde diretamente ao sentimento de invasão ou de intrusão da realidade. Precisamos considerar que, em nossa época, o silêncio, bem como a espera e a paciência, parece ser cada vez mais substituído por respostas automáticas e prontas, como um novo valor social, de modo que um pensamento é mais raramente produzido.
O tema da solidão é amplo, e nos leva a pensar e a devanear com outras afirmações de Winnicott, como a que se refere sobre a distinção imprecisa entre a reclusão patológica e a autocomunicação central e normal, que ocorre na solidão. Poderíamos nos indagar: não seria a reclusão patológica um estado mental em que a não comunicação não consegue alcançar e ser alcançada pelas palavras que comunicam, que fazem uma narrativa ser realmente pessoal? E essa pergunta, que nos faz meditar sobre o que significa a não comunicação, traz à lembrança uma frase de Fordham: “A experiência primordial ocorre na solidão” (citado por Winnicott, 1963/1982b, p. 172).
Esse primordial parece ser justamente a não comunicação. E a não comunicação ocorre na solidão. De modo geral, porém, se entende a não comunicação como o estado em que alguém se encontra quando não se comunica com alguém. No entanto, também é possível entender que a não comunicação poderá ser o prenúncio de uma comunicação consigo mesmo. Mas o que significa essa não comunicação consigo mesmo? Seria ela o primeiro momento de uma autocomunicação normal, da comunicação de si para si, como a abertura e a correspondência para aquilo que quer ser falado por meio de nós? Para uma comunicação de ideias e expressões inconscientes? Essas perguntas nos levam a mais devaneios, que nos deixam esperando que algum outro pensamento apareça. Um pensamento que certamente surge da solidão, da não comunicação.
Surge assim a recordação de uma imagem: uma criança insone em seu quarto escuro. Além de todo o silêncio que paira à sua volta, podemos dizer, como a descrição de Levinas (1997) dessa cena, que “há” algo por lá. A criança sente o silêncio de seu quarto como ruidoso. Há uma inquietude proveniente da impossibilidade de ela ser alcançada por palavras que deem sentido à sua experiência emocional. É como se o vazio estivesse cheio. E nessa hora insone sobrevêm a angústia, o negativo e o medo do silêncio, desse silêncio que toma conta de todo o quarto, tornando-o cheio de algo que nada é, mas que ainda assim “há”.
Algo semelhante ao que acontece quando colocamos uma concha vazia no ouvido, como se o vazio estivesse cheio, como se o silêncio fosse um ruído. Alguma coisa que podemos sentir também quando pensamos que, mesmo se não houvesse nada, o fato de que “há” não pode ser negado. Não que exista isto ou aquilo; mas o próprio palco do ser ê aberto: há. (Levinas, 1997, p. 22)
Essa angústia aponta não tanto para a dimensão da exterioridade – embora tampouco para a da interioridade –, mas para uma dimensão em que “há” a emergência da experiência de que as coisas conhecidas se tornam progressivamente estranhas e desiguais. Podemos, assim, lembrar-nos novamente das palavras de Fordham: “A experiência primordial ocorre na solidão”.
E, nessa atmosfera de silêncio e de nada, muito embora não seja um nada que a nada leve, alguém tenta constituir experiências com pessoas, com objetos e com um lugar de morada. É quando se pode experimentar a negatividade como necessidade de ir em direção àquilo que nos realiza: “Há um anseio que surge da solidão” (G. Safra, comunicação pessoal, 2007). E, nessa tentativa, procura alcançar algo, talvez um sonho ou uma narrativa, em sua solidão, que fale mais intimamente consigo, que fale das pessoas, dos objetos e da familiaridade da casa a partir dessa experiência primordial, dessa experiência íntima baseada na não comunicação.
Podemos dizer que a não comunicação ê o prenúncio da autocomunicação e da narrativa de uma experiência emocional pessoal, e não de uma reclusão que nada diz. Trata-se de poder ser o que não se comunica, para sempre silencioso (Winnicott, 1963/1982b): o próprio eu. Enquanto a reclusão ê aquele estado em que, como diz uma antiga frase latina, “Ex nihil, nihil fit”, ou seja, “Do nada, nada vem”, a comunicação que nasce da não comunicação parece, em oposição a essa frase, nos dizer: do nada, tudo vem. Esse nada do qual tudo vem parece tambêm associado àquela cêlebre formulação de Hegel, redescoberta por Heidegger: “O puro ser e o puro nada são, portanto, o mesmo”. De modo que diríamos: é do ser/nada que a não comunicação se faz voz.
Constituindo narrativas heterogêneas
Essa experiência imaginária talvez ajude a falar sobre a diferença entre a tentativa de escutar o que diz o inconsciente e a palavra que sai de nossa boca, porque precisamos nos defender de uma intrusão, de uma invasão. A sociedade que nos cala é a mesma que não permite que silenciemos. Agir e reagir ao mundo, agir e reagir aos outros, é de certo modo tentar proteger-se de uma situação traumática e adaptar-se às circunstâncias da vida, o que educadores, psicólogos, pais e professores podem querer das crianças, não sem sua razão. Mas é importante considerarmos também o papel fundamental de uma comunicação que não seja unicamente baseada em pressupostos demandantes que levem à invasão, à intrusão, às reações e às defesas. Nesse sentido, as palavras, em forma de narrativa, podem ser elaboradas apenas como meio de proteção e reação a uma experiência de intrusão precoce, como tentativa de encontrar prematuramente aquele sujeito que não estava ainda preparado para ser encontrado daquela forma, daquele modo. A linguagem assim, ao invés de revelar, torna-se um meio de ocultar, de distanciamento em relação à verdade emocional. Pois a intrusão, nesse sentido, é o resultado de um encontro prematuro. Podemos lembrar-nos mais uma vez de Fordham: “O fato geral permanece, que a experiência primordial ocorre na solidão”.
No mesmo trabalho de Winnicott (1963/1982b), há uma rápida passagem em que ele diz que os adolescentes, em geral, evitam o trabalho psicanalítico, embora estejam interessados nas teorias psicanalíticas. Isso se deve, segundo o autor, ao fato de que, pela psicanálise, eles sentem que poderiam ser violados, não sexualmente, mas espiritualmente. Isso nos faz pensar que os adolescentes, talvez de modo mais contundente do que nós, adultos, estejam engajados em um período de experimentação consigo mesmos, de maneira que procuram apreender algo inapreensível: a sua identidade. Trata-se, como sabemos, de uma tentativa vã, no sentido de que a apreensão da identidade não poderá ser nem a posse de uma qualidade concreta, nem a apropriação de uma qualidade que distinguiria claramente alguém dos outros e por meio da qual ele se tornaria especial. Uma característica da personalidade, mesmo das mais marcantes, será, como sabemos, parte de um conjunto palimpséstico de características sobrepostas, que não são suprimidas pelas demais. Bion (1992/2000) havia assinalado isso ao dizer que o comportamento é um palimpsesto no qual se poderia detectar várias camadas de conduta, todas elas operando e criando conflitos entre pontos de vista diversos. Freud (1930/2010) foi o primeiro a indicar como a mente humana poderia ser palimpséstica. Em sua descrição de Roma, a Cidade Eterna, ele revela como certos fatos emocionais poderiam permanecer na mente mesmo após uma impressão de que esses fatos ou registros emocionais teriam sido destruídos. Tal como Roma, Freud mostra que o trabalho do analista seria o de reconstruir o que ainda existe na mente do analisando, como as escritas sobrepostas e aparentemente apagadas do palimpsesto.
A identidade, nesse sentido, é um conjunto inapreensível de inúmeras camadas sobrepostas e articuláveis (ou não), e não uma entidade concreta que poderia ser descoberta. Há um anseio de encontrar um porto seguro, que seja um ponto de apoio para si mesmo, no qual seja possível se basear e se firmar, principalmente quando o mundo parece abrir-se diante dos pés. Pois há, nessa tentativa de autocomunicação, um encontro justamente com aquilo que não é encontrado: com um eu que se anuncia como uma positiva negatividade. Essa característica do eu pode ser compreendida como a não comunicação primordial, que, quando tolerada, pode ser o prenúncio de uma escuta da alteridade inconsciente que fala por meio dele, que faz com que possibilidades imaginárias apareçam e sejam, inclusive, realizadas. Mas essa é uma instável experiência sobre si mesmo. Proteger-se e reagir a uma invasão é, assim, fabricar uma personalidade dura, identificada com algum modelo discursivo que, frequentemente, impede a abertura e o contato com a não comunicação e com as experiências emocionais íntimas. Nossa sociedade, com sua crescente competitividade, vai na direção de valorizar aqueles que já sabem ou conseguem responder a problemas, mas que pouco conseguem questioná-los e investigá-los. É a sociedade da eficiência e da autoexploração (Han, 2017). E podemos novamente nos lembrar da frase de Fordham: “A experiência primordial ocorre na solidão”.
Essa experiência primordial, que precisa ser tolerada para que possa existir, para se converter justamente em uma experiência, demanda, assim, um outro. Experimentar a solidão, como sabemos, é estar inicialmente sozinho quando alguém mais está presente. A qualidade não intrusiva desse outro é fundamental. É ser só na presença de um outro (Winnicott, 1958/1982a), que posteriormente – e isso é importante – estará como um outro em nós. Podemos estar a sós quando um outro em nós fala: nossa alteridade fundamental. Uma atividade psicanalítica intrusiva, a que se refere Winnicott (1963/1982b), parece ser aquela que impossibilita justamente o avanço da comunicação ou da narrativa, ou da articulação “democrática” da alteridade de nosso palimpsesto. Nesse sentido, podemos distinguir a comunicação proveniente de uma reclusão patológica do adolescente, que deveria ser compreendida como uma resposta à intrusão, e não como a expressão daquilo que surge enquanto narrativa pessoal, íntima, que fala a alteridade – uma abertura àquilo que não se sabe, o que é realmente difícil de ser suportado, e assim demanda esforços permanentes para que não se torne algo de traumático. Mas quem é o outro que em nós fala?
Não é raro escutarmos de colegas e observarmos em nosso próprio trabalho clínico como certas pessoas formulam pensamentos como o resultado da apreensão da sua realidade psíquica, de maneira ampla, que toca certa realidade da sua experiência emocional, mas sem que isso tenha a ver com a quantidade de anos de vida ou de experiências particulares. Bion (1965/2004) acreditava que a apreensão da realidade psíquica não tem uma relação direta com nada disso, mas com o contato direto, encarnado, com o desconhecido, com O, com a coisa em si e, por fim, com a própria capacidade de suportar as frustrações de uma pesquisa em andamento, ou seja, da investigação sobre os problemas do desconhecido (O).
Podemos afirmar, como Winnicott (1958/1982a), que cada indivíduo é isolado, permanentemente desconhecido e na realidade nunca encontrado. Trata-se de uma incrível visão sobre o eu: não se encontra disponível, é desconhecido, não é um conteúdo nem uma qualidade puramente positiva, situa-se nas bordas da não representação e das peculiares experiências corporais associadas a ritmo, movimento, senso estético e tolerância à frustração, e fundamenta uma experiência primordial de autocomunicação baseada na solidão. E com a apreensão tolerante desse desconhecido do eu – um eu também corporal –, é estabelecida uma comunicação consigo e com o outro, ambos alteridades.
Neste momento do nosso trabalho, da nossa comunicação, percebemos que estamos falando sobre como estabelecer essa intimidade consigo mesmo, que promove essa escuta da alteridade. E, assim, pensamos na importância não apenas dos outros, mas de um estado mental que podemos designar como reverie.
A reverie materna parece ecoar aqui como a transformação de emoções não representáveis em sentidos, tanto para quem escuta quanto para quem fala, apresentados por meio de uma narrativa nova, naquelas palavras que estavam sendo faladas. A reverie, como a continência que torna as experiências possíveis, é aquele outro que em nós fala, ou os resquícios de poder permanecermos a sós na companhia de mais alguém. No escuro do quarto repleto de sentimentos, em que “há” um conglomerado de palavras não faladas e de emoções, do qual fala Levinas (1997), a reverie é o estado mental que apreende aquilo que se passa no escuro vazio e percebe que se trata de um escuro cheio, à medida que procura torná-lo expressivo e sensorialmente apreensível, por meio de palavras que digam o que se passa lá, naquele lugar. Visto que a comunicação surge da não comunicação, é certo que a comunicação do adolescente – e também a do adulto – carece justamente de um sentido prévio, pois vai se estabelecendo por meio de uma narrativa que nasce de um estado de intimidade, inicialmente com alguém, de um desdobramento da alteridade que nos fala por meio da não comunicação, do silêncio; ou seja, da negatividade da experiência emocional, a base da comunicação normal e criativa. Podemos dizer, portanto, que a comunicação é, desde sempre, intersubjetiva: depende da alteridade. Winnicott (1963/1982b) parece se referir a isso como uma comunicação que nasce de um estado inicial de indiscriminação e vai para um estado de obtenção de uma forma. Nesse sentido, é preciso que a dupla respeite o fato de que nessa conversa – que é uma conversa psicanalítica – se conserve um espaço insaturado diante de ambos, e que a conversa nunca destrua esse espaço, que é justamente o manancial de onde a palavra indiscriminada poderá surgir como uma tentativa sem fim de formalizar o disforme, nomeando palavras possíveis para o impossível Real.2
Desse modo, a não comunicação não se refere somente ao processo de se silenciar sobre determinados assuntos, um silenciar que tem como premissa a tentativa de não ser encontrado por alguém naquele momento, para não se expor; pois pelo silenciar há a possibilidade de não ser inquirido sobre aquelas coisas que demandam uma ação para a qual ainda se está incapaz de fazer ou de pensar. Assim se procura preservar também a possibilidade de uma comunicação que não seja resposta a uma situação sentida como invasiva, que é justamente uma resposta prematura para aquilo que ainda não se pode responder, já que a resposta, nesse caso, não seria proveniente de uma experiência emocional baseada na escuta da alteridade – por meio da tolerância da solidão e dos pensamentos que estão sendo contidos e transformados –, mas de um discurso pronto, automatizado e impessoal de um eu preocupado em se esconder e se adaptar: um eu que se revela colado a uma identificação, entificado. Esse discurso, uma defesa contra a invasão, poderia, sem dúvida, gerar maior necessidade de recolhimento e reclusão posteriores para restabelecer um contato silencioso e negativo consigo, que permitisse o aparecimento de palavras, gestos e pensamentos pessoais, incompletos, incertos e que demandam sempre novos pensamentos e novas questões, num incessante para além.
Há diferença entre estar em correspondência ao que fala em nós, uma narrativa que surge do silêncio, da alteridade e do negativo, e uma fala que surge do contato com um ambiente intrusivo, que invade ou tenta invadir. Podemos dizer, como Le Breton (Bujalance, 2017), que o silêncio implica uma forma de resistência política, uma maneira de manter a salvo uma dimensão interior frente às inúmeras agressões e ruídos do mundo exterior: “O silêncio permite-nos ser conscientes da conexão que mantemos com esse espaço interior, o silêncio o viabiliza, enquanto o ruído o esconde”.
O silêncio, assim, é uma forma de resistência por sua ausência de pragmática, por não ser utilitário e objetivo. O silêncio pode ser o prenúncio da comunicação, na medida em que é também uma forma de defesa contra a excessiva intrusão do mundo, com seus mais variados estímulos e demandas, muitos dos quais são extremamente difíceis de suportar, e implicam respostas prontas e sem contato com o mundo interior. A psicanálise invasiva é aquela conversa que significa previamente e que nem poderia ser denominada de psicanálise; não aquela que permite, pelo silêncio, que as palavras surjam explicitando e revelando uma experiência sobre a realidade psíquica, na forma de uma expressão que procura um narrador que a conte para alguém, para um outro. Afinal, como disse Fordham: “A experiência primordial ocorre na solidão”.
O respeito pelo silêncio, esse polo positivo e negativo, parece ser condição prévia sine qua non para estabelecer uma atividade em que ambos escutem o que há para ser dito naquela situação, tanto quem fala quanto aquele para quem fala. E isso nasce da não comunicação, de algo que está ali, fora de alcance, mas presente na dupla como algo ainda inominável (Blanchot, 2007). O silêncio é guardião dessa presença. Esse inominável ou desconhecido é a base para estabelecer a comunicação normal: uma comunicação que nasce da possibilidade de serem ditas palavras que tentam sempre falar aquilo que sentimos, mas que, embora estejam sempre tentando, nunca conseguem realmente ser expressas em sua totalidade. Na conversação com o outro, a reverie é aquele estado que não apenas respeita uma fala que procura contar uma narrativa pessoal, mas ajuda a dizê-la, pois mantém-se aberto ao desconhecido da fala.
A reverie é um estado negativo, pois tem a capacidade de apreender aquilo que ainda não formou um sentido. Bion (1970/1991) utiliza-se de um termo, emprestado de John Keats, que designa isso: capacidade negativa. Trata-se da capacidade de permanecer em um estado de dúvidas e incertezas, sem apressar a formação de significados, até que um padrão possa evoluir e ser compreendido. É um estado paciente, desprovido de persecutoriedade. Estamos às voltas com a ideia de que há um estado negativo em nossa mente que pode ser imprescindível para o estabelecimento de uma comunicação de fato, que permita que um sentido ainda desconhecido possa acontecer – ou seja, que possa haver uma comunicação baseada numa não comunicação inicial. A comunicação precisa, portanto, ser atingida, como disponibilidade ou abertura, mas pode também não ocorrer. Pensamos que os sentidos apenas podem ser formados no momento em que uma relação com o desconhecido é estabelecida, na presença de um interlocutor, de um terceiro ou de uma triangulação mental. E isso parece ser a base de um trabalho com pessoas que carecem justamente de comunicação consigo mesmas, desse estado de apreensão de um estado silencioso que é a fonte, o manancial de onde brotam os pensamentos a serem ainda pensados. Pensamentos brotam da solidão, e podem ser, na presença de alguém que ajude no trabalho maiêutico,3 o prenúncio do desenvolvimento e da criatividade. Pensar, nesse sentido, é pensar na presença interna ou externa de um outro, formando um par. O par, interno ou externo, significa ser: existir em busca da apreensão daquilo que “há”.
No entanto, o mais comum é encontrarmos hoje em dia pessoas saturadas de atividades incessantes, que tamponam essa não comunicação inicial. Vivemos numa época em que tudo está à mão, pronto e disponível, como coisas já pensadas. Mas com isso parece que estamos formando uma sociedade de pessoas que sentem que nada há para ser feito, além de torná-las incapazes de esperar, incapazes de tolerar um desconhecimento. Estando tudo à mão, o mundo se torna plano e sem reentrâncias. Estando tudo à mão, o homem esgota o mistério das coisas. Por que então escutar uma alteridade inconsciente? Parece que a não comunicação é tratada por nós, nos dias de hoje, como um estado antiprodutivo, em que não se escutará nada mais do que pensamentos sem sentido ou sem pragmática. A não comunicação inicial é comumente tratada como algo simplesmente banal, a partir do qual nada acontecerá. Permanecemos, assim, hipnotizados com nossa vida “hiperocupada”, na frente de telas que brilham incessantemente, repletas de estímulos, que nos fazem reagir a todo momento, mas ensurdecidos e com grande dificuldade de realizar uma ação pessoal para o encontro com a intimidade. Han, por exemplo, associa a sobrecarga de trabalho, denominada de multitasking (multitarefa), com uma técnica de atenção dos animais selvagens, que são obrigados a dividir sua atenção em diversas atividades:
O animal não pode mergulhar contemplativamente no que tem diante de si, pois tem de elaborar ao mesmo tempo o que tem atrás de si. Não apenas a multitarefa, mas também atividades como jogos de computador geram uma atenção ampla, mas rasa, que se assemelha à atenção de um animal selvagem. (2017, p. 32)
Ritmo, tempo e entonação
Uma ação pessoal parece ser um dos aspectos mais interessantes na formulação de uma narrativa pessoal, pois ela ocorre como o aspecto idiossincrático do ritmo e da natureza do tempo em uma conversação. Cada narrativa, quanto menos ocupada com as intrusões do mundo, acaba por realizar-se expressando um ritmo que lhe é específico e que reflete uma temporalidade própria daquela situação emocional que está sendo vivida e comunicada. A forma e o conteúdo parecem indissociáveis.
Tais narrativas, situadas entre solilóquios e interlocuções, são moduladas por uma prosódia específica. Quando podem ser espontâneas, ecoam tanto os ares do passado infantil quanto de um presente, que parecem expressar a voz do próprio futuro; e desvelam uma entonação e uma modulação que dão graça ou gravidade melódica à fala, em um espectro de gradações possíveis.
A formulação da narrativa pessoal, nesse sentido, não está associada apenas com um conteúdo específico, e sua forma parece ser tão ou mais importante do que ele. O ritmo, o tempo e a prosódia estão associados com o silêncio, aquele sentimento de que o outro está disponível para escutar e aberto às incertezas do agora no desenvolvimento do pensar. A ação pessoal é, portanto, uma comunicação que envolve o silêncio e a forma sonora da narrativa.
Reclusão e a fascinação pelo sombrio
Observamos que fenomenologicamente os estados de reclusão e de não comunicação são aparentemente semelhantes. Tanto um quanto o outro são silenciosos, embora de qualidades distintas. O problema da reclusão pode ser compreendido a partir da impossibilidade de a reverie ocorrer como uma experiência continente, que permita experimentar tanto a solidão quanto uma alternativa simbólica frente a esse estado. Na clínica contemporânea, é cada vez mais frequente observarmos pessoas com uma atitude mental de indiferença em relação ao mundo, de homogeneização do sentido das coisas, e em que a presença da alteridade inconsciente é sentida como um prenúncio de invasão intolerável. Nesses casos, torna-se difícil ampliar a vida mental e a escuta de uma narrativa inconsciente. São pessoas que têm grande dificuldade de apreender o que vem da alteridade e, em sua reclusão defensiva, tornam-se apenas receptivas do mesmo, do igual.
Parece sobrevir, com esse estado de reclusão, uma “orfandade” na solidão, de modo que da reclusão se torna impossível sair e, desse modo, a ela se associam, numa erotização do negativo. Podemos dizer que, nesse momento, a reverie deixa de ser capaz de fazer a sua função. Investir no não pensar, no tamponamento das experiências, como um investimento narcísico, é parte dessa erotização. Pois o negativo pode ser experimentado como o estado de inanição, desalento, opacidade, falta de contato com a própria mente e esvaziamento de que, muitas vezes, sofrem os reclusos.
Nesse estado, há uma evocação do negativo, não como aquilo que é a origem de uma narrativa pessoal, mas como uma alienação na desesperança; e o negativo se torna, desse modo, um sombrio. Esse negativo, em vez de produzir, tampona; ele parece ser, portanto, a face obscura da positividade. Podemos dizer que nesse abismo há uma luz escura que ofusca, atrai e silencia no desalento, como algo que fascina: a fascinação por não ter anseios. Parece curioso que os meios eletrônicos – em nosso tempo atual, fonte de estímulos e ruídos incessantes – se tornem aquilo para o qual, muito frequentemente, o recluso se volta. Mas é importante que saibamos diferenciar esse estado de reclusão do silenciar. Pois a pessoa que simplesmente se aliena em seu quarto e que não pode, a partir disso, formular aquelas palavras que merecem ser ditas ou que precisam ser ditas, mas se conserva diante de seu silêncio como um ser que é o negativo, que não pensa, não sente e não fala, pois deixa de ansiar pelo desconhecido, parece em absoluta oposição àquilo que procuramos descrever ao longo deste trabalho. Podemos dizer que há, nessa perspectiva, uma impossibilidade de continência, da reverie, e o outro em nós se torna mudo, silencioso, como um continente saturado ou incapaz de receber emoções; e passa a ser experimentado como o sombrio que contém o mal, pois despreza a não comunicação e a abertura ao outro. E quando há esse emudecimento, a fidelidade ao sombrio (Grotstein, 2010) passa a ser uma alternativa à falta de continência do outro, agora silenciada e vazia.
Recuperar ou estabelecer – às vezes pela primeira vez – uma relação em que emoções inomináveis tenham espaço psíquico é uma das funções principais de uma análise. Inaugurar a abertura para a escuta do silêncio que fala é apostar na comunicação. Trata-se de um trabalho que precisa ser centrado no desenvolvimento da função continente, mais do que em interpretações sobre o conteúdo da sessão.
Dessa fidelidade ao sombrio podemos extrair diversas formas de adoecimento psíquico, todas elas relacionadas à impossibilidade de manifestação da alteridade inconsciente que fala por meio de nós, como nós mesmos. E, nesse caso, não há a experiência primordial, que ocorre na solidão, bem como não há propriamente a solidão, muito embora pareça haver um estado em que alguém está realmente muito sozinho, a despeito de quantas relações tenha, sem que se dê conta disso, e sem que isso se torne uma experiência emocional de sofrimento. Basicamente, um sofrimento de quem precisa se manter muito protegido, defendido ou inacessível, na desesperança da abertura que conduz ao novo, pois o próprio eu está em perigo. É claro que, desse modo, as perturbações normais e cotidianas, que muito ajudam no desenvolvimento do pensar, pelas frustrações decorrentes de expectativas não realizadas, e que estão envolvidas nesse processo, ficam muito comprometidas.
Em uma sociedade da positividade, que se manifesta no excesso de estímulos e na sobrecarga de informações, a recuperação do silêncio e de seu sentido original – possibilitar a comunicação – se torna fundamental para que a apreensão da realidade psíquica aconteça. Acaso a associação livre não depende fundamentalmente dessa simples e complexa condição?













