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Revista Brasileira de Psicanálise

Print version ISSN 0486-641XOn-line version ISSN 2175-3601

Rev. bras. psicanál vol.58 no.1 São Paulo  2024  Epub Nov 29, 2024

https://doi.org/10.69904/0486-641x.v58n1.13 

Artigos

Notas sobre as notas de Freud

Notas sobre las notas de Freud

Notes on Freud’s notes

Notes sur les notes de Freud

Pedro Fernandez de Souza1 

Doutorando em filosofia da psicanálise.

1Universidade Federal de São Carlos (UFSCAR). Ribeirão Preto


Resumo

O objeto deste artigo são as notas de rodapé de Freud. Partindo do conceito de paratexto, de Gérard Genette, o autor empreende uma leitura comparativa de alguns textos de Freud, centrando-se em suas notas marginais. Pode-se notar um movimento textual e teórico constante em Freud, que vai das margens para o centro. É comum que ideias expressas pela primeira vez em notas marginais subam e se tornem o objeto específico de textos “reais”, às vezes com um intervalo de anos. Assim, por exemplo, a ideia de uma nota de rodapé, de 1923, ao caso Dora se torna o objeto central de um texto autônomo, de 1925, sobre a negação. Esse movimento não parece casual. Parece antes um índice fundamental não só da escrita, mas também da teorização freudiana, em que a diferença entre centro e margem é reiteradamente transgredida e liquefeita.

Palavras-chave nota de rodapé; Freud; paratexto; escrita; teorização

Resumen

El objeto de este artículo son las notas a pie de página de Freud. Basándose en el concepto de paratexto, de Gérard Genette, el autor hace una lectura comparativa de algunos textos de Freud, centrando-se en sus notas marginales. Se puede observar un constante movimiento textual y teórico en Freud, que va desde los márgenes hacia el centro. Es común que ideas expresadas por primera vez en notas marginales se eleven y se conviertan en objeto específico de textos “reales”, a veces con años de diferencia. Así, por ejemplo, la idea de una nota a pie de página, de 1923, sobre el caso Dora se convierte en objeto central de un texto autónomo, de 1925, sobre la negación. Este movimiento no parece casual. Parece más bien un índice fundamental no sólo de la escritura, sino también de la teorización freudiana, en la que la diferencia entre centro y margen se transgrede y licua repetidamente.

Palabras clave nota a pie de página; Freud; paratexto; escritura; teorización

Abstract

The subject of this article is Freud’s footnotes. Based on Gérard Genette’s concept of paratext, the author undertakes a comparative reading of some of Freud’s texts, focusing on his marginal notes. One can notice a constant textual and theoretical movement in Freud, which goes from the margins to the center. It is common for ideas first expressed in marginal notes to rise and become the specific subject of “real” texts, sometimes years apart. Thus, for example, the idea of a 1923 footnote on Dora’s case becomes the central subject of an autonomous text, from 1925, on negation. This movement does not seem casual. It seems to be, rather, a fundamental index not only of the Freudian writing, but also of his theorization, in which the difference between center and margin is repeatedly transgressed and liquefied.

Keywords footnote; Freud; paratext; writing; theorization

Résumé

Cet article a pour sujet les notes de bas de page de Freud. En s’appuyant sur le concept de paratexte de Gérard Genette, l’auteur entreprend une lecture comparative de certains textes de Freud, en se concentrant sur ses notes marginales. On constate chez Freud un mouvement textuel et théorique constant, des marges vers le centre. Il est fréquent que des idées d’abord exprimées dans des notes marginales s’élèvent et deviennent le sujet spécifique de « vrais » textes, parfois à des années d’intervalle. Ainsi, par exemple, l’idée d’une note de bas de page, de 1923, sur le cas Dora devient le sujet central d’un texte autonome, de 1925, sur la négation. Ce mouvement ne semble pas fortuit. Il apparaît au contraire comme un indice fondamental non seulement de l’écriture freudienne, mais aussi de la théorisation freudienne, dans laquelle la différence entre centre et marge est réitérément transgressée et liquéfiée.

Mots-clés note de bas de page; Freud; paratexte; écriture; théorisation

Os leitores de Freud certamente terão deparado com inúmeras notas de rodapé. Desde meras citações e referências até longas digressões, o texto freudiano está recheado de inúmeras notas de rodapé, de maior ou menor interesse para a leitura e o entendimento do texto em si. De fato, Freud não era o tipo de escritor que poupava os leitores de comentários amiúde muito extensos e sérios, comentários que ele decidia pôr não no centro do texto (ou no texto “real”), mas em suas margens e beiradas.

No livro The footnote: a curious history,Grafton propõe que “o estudo daquelas partes da história que jazem abaixo do nível do solo” (1997, p. 6) pode ser muito útil para o ofício do historiador. Nós cremos acontecer o mesmo com a escrita de Freud: estudar suas notas, que jazem “abaixo do nível do solo”, pode ser muito útil para compreender não só a sua escrita, mas também a sua teorização. Teorização sem dúvida supõe uma temporalidade, uma sucessão de textos. É nessa temporalidade que as notas provarão seu valor para a teoria freudiana. Elas se revelarão testemunhas, assim desejamos demonstrar neste texto, da evolução de pensamentos, da gênese e do porvir de teses e hipóteses.

É importante notar desde já uma ambiguidade constituinte da nota de rodapé “teórica”. Utilizando o conceito de paratexto, tal qual formulado por Gérard Genette (1987), é possível delinear mais esmiuçadamente essa ambiguidade. O paratexto, como o teórico francês o conceitua, é tudo o que margeia o texto, tudo o que o apresenta e o torna (materialmente) presente: prefácio, índices catalográficos, título e nome do autor, epígrafes, e assim por diante. “O paratexto, sob todas as suas formas, é um discurso fundamentalmente heterônomo, auxiliário, destinado ao serviço de outra coisa que constitui sua razão de ser, e que é o texto” (p. 13). Ou seja, uma das principais características do paratexto é sua subordinação ao texto a que pertence: “Um elemento de paratexto é sempre subordinado ao ‘seu’ texto, e essa funcionalidade determina o essencial de seu aspecto e de sua existência” (p. 13). Mas, apesar de se subordinar a um texto, isso não significa que o paratexto não seja texto. Prefácios, títulos, dedicatórias, epígrafes – tudo isso é texto, apesar de não ser ainda o texto “real” ao qual se reporta. “O mais amiúde ... o paratexto é ele mesmo um texto: se ele não é ainda o texto, ele é já algum texto” (p. 9). Trata-se, pois, de uma série de textos auxiliares que, margeando o texto principal, perfazem ou executam as suas margens, as suas bordas. O paratexto é mais que “uma fronteira estanque”, ele é uma “‘zona indecisa’, entre o dentro e o fora, ela mesma sem limite rigoroso, nem rumo ao interior (o texto) nem rumo ao exterior (o discurso do mundo sobre o texto), orla” (p. 4). Limite pouco unívoco, margem pouco rígida – eis, numa palavra, o paratexto.

Ora, é aqui que a nota de rodapé revela seu estatuto pouco inequívoco, pois ela se situa numa clara “margem” da paratextualidade. Ela é, “do paratexto, um elemento notavelmente elusivo e fugaz” (p. 326). Pois, se certos tipos de nota – como as referências (por exemplo, ibidem e op. cit.), as erratas ulteriores – desempenham um papel claramente paratextual, isso é menos certo para as notas autorais “originais”, contemporâneas à primeira edição do texto: “Outras, como as notas originais a textos discursivos, constituem antes modulações do texto, pouco mais distintas do que seria uma frase entre parênteses ou entre hifens” (p. 326). Assim, a nota autoral se situaria numa “fímbria indecisa”: “A nota original é um desvio local ou uma bifurcação momentânea do texto, e a esse respeito ela lhe pertence quase tanto quanto um simples parêntese. Nós estamos aqui numa fímbria muito indecisa entre texto e paratexto” (p. 314).

Essas notas são ambíguas: não fazem parte do texto, mas tampouco estão totalmente fora dele; não participam necessariamente da argumentação sóbria e linear do texto, mas tampouco estão isentas de importância nos fios do raciocínio. Bowersock afirma:

O texto é uma coisa contínua – tudo nele tem um contexto; mas a nota de rodapé é mais ou menos livre. Ela está conectada, obviamente, àquilo que está acima, mas ainda assim seu conteúdo não precisa ajustar-se perfeitamente num tecido de sentenças. (1984, p. 55)

Segundo esse autor, o footnoter bem-sucedido – entre os quais arrolamos sem dúvida Freud –

se parece muito com o autor de pensées ou aforismos. Mas há sempre a importante diferença de que cada nota deve ter alguma relação com o texto que a inspirou. Ela é solta e presa ao mesmo tempo. A independência da nota é garantida pela separação do texto, mas sua dependência é – ou deveria ser – visível pela sua localização no rodapé da página do texto ao qual se refere. Uma nota de rodapé não é, afinal de contas, apenas qualquer nota. (p. 55)

A nota poderia ser um mero parêntese, pertencente ao texto “real” – mas não é. Ela também poderia ser um aforismo independente, sem conexão com o texto “real” – mas não é.

Ademais, a nota de rodapé tem características formais muito próprias, pois pode apresentar-se num nível de formalidade e acurácia lógica muito menor do que o texto “real” a que pertence. A nota de rodapé, como diz Hilbert, é “uma mensagem passada por baixo da porta, um aparte murmurado em forma de contraponto ao discurso formal do texto” (1989, p. 400). Ela é uma espécie de repouso marginal aos áridos e árduos caminhos da teoria, e por isso mesmo talvez tenha muito a dizer acerca da própria teorização à qual faz nota e margem. Assim, conquanto as notas de rodapé possam passar despercebidas e muito amiúde sequer sejam lidas,2 em sua ambiguidade constituinte as notas de rodapé “teóricas” poderiam ter muito a dizer sobre o próprio ato de teorizar. Essa importância da nota marginal parece-nos central na teorização de Freud.

De fato, Freud utiliza suas notas de rodapé, em parte, como qualquer outro autor: cita referências; apõe agradecimentos marginais a terceiros que porventura o auxiliaram em sua pesquisa; indica textos alheios que possam, se lidos, conferir maior aprofundamento da questão ao leitor; interpõe reticências e dúvidas acerca dos pontos de vista expostos no corpo do texto; intercala a posteriori correções ou errata, mostrando ao leitor que mudou seus pontos de vista no ínterim entre as edições de um mesmo texto. Contudo, além desses usos claramente paratextuais da nota de rodapé, Freud também insere longas hipóteses e digressões cujo conteúdo tem um futuro muito específico. Diferentemente das notas de outros autores, destinadas a jazer em sua segurança marginal, alguns apartes de Freud são mais tarde (por vezes anos) retomados e elevados ao estatuto de texto “verdadeiro”. Diz Sylvester que a nota “é uma inclusão que é simultaneamente uma exclusão” (2007, p. 547), ou seja, exclui algo do texto ao mesmo tempo que o inclui. É a relação entre inclusão e exclusão que tentaremos analisar neste estudo. Ora, se há uma “simultaneidade” inclusivo-exclusiva da nota de rodapé, será interessante notar como, em Freud, existe um movimento (o que requer, portanto, ausência de simultaneidade) entre exclusão e inclusão. É esse movimento textual que cuidaremos de captar doravante. Para tanto, teremos de cotejar textos distintos, de épocas distintas da produção teórica de Freud.

Há uma opinião bem propagada, razoável em si mesma, que diz que notas de rodapé não devem ser longas.3 No caso de Freud, é curioso notar que são algumas de suas maiores notas as que mais têm importância na história da psicanálise. Comecemos por uma nota muito extensa à Traumdeutung (1900/1999i): quando da análise de determinado sonho, Freud agrega uma nota de rodapé de mais de meia página de extensão. Nos meados dessa nota, como que de forma desinteressada, Freud nos informa que o termo Gschnas se refere a uma produção de objetos de aspecto raro e valioso a partir de materiais triviais, sem valor, banais. O texto continua assim:

Notei então que os histéricos fazem o mesmo; além daquilo que efetivamente lhes ocorreu, eles inconscientemente criam eventos fantasiosos terríveis ou exagerados, que eles constroem a partir do material mais banal e inofensivo de sua vivência. Os sintomas se apoiam primeiramente nessas fantasias, e não nas memórias dos acontecimentos efetivos, sejam estas sérias ou igualmente inofensivas. Esse esclarecimento me ajudou a vencer muitas dificuldades e me deu muita felicidade. (p. 223)

A felicidade confessada marginalmente é altamente razoável: como se sabe, durante quase toda a década de 1890, Freud desenvolvera uma teoria etiológica das neuroses segundo a qual os sintomas eram manifestações de memórias inconscientes. É a chamada teoria da sedução: de acordo com o Freud pré-psicanálise, todo histérico teria sido seduzido ou violado durante a infância, e a memória dessa vivência seria reavivada durante a puberdade, levando assim à eclosão de sintomas.4 Foi apenas em 1897, ou seja, durante a redação da Traumdeutung, que Freud manifestou numa carta ao amigo berlinense Wilhelm Fließ a sua reviravolta teórica. Na famosa Carta 69, de 21 de setembro de 1897, Freud confessa ao seu correspondente: “Eu não acredito mais em minha neurótica” (1950, p. 229). Sem entrar em detalhes a respeito dessa importante mudança de ponto de vista, notemos que um dos principais fatores para essa descrença é a descoberta – fundante para a psicanálise – de que “no inconsciente não há sinais de realidade, de forma que não se pode diferenciar a verdade da ficção investida com afeto” (p. 230). Isto é, o que subjazia aos sintomas histéricos não eram exatamente memórias de eventos reais, mas sim ficções, fantasias inventadas pelos próprios histéricos.

Ora, é no mínimo curioso que essa descoberta fundamental, mesmo central para a história da psicanálise, seja divulgada ao mundo primeiramente sob a forma de uma nota de rodapé. Poder-se-ia argumentar que, não sendo a histeria o objeto principal do livro, não há nada de especial nesse fato. Mas a descoberta reaparece no próprio livro, mais de 270 páginas adiante, e dessa vez no corpo do texto. No capítulo sobre elaboração secundária, o tema da fantasia se erige a primeiro plano, e eis que Freud nos informa:

O estudo das psiconeuroses conduz à surpreendente constatação de que essas fantasias ou sonhos diurnos são as primeiras fases preliminares do sintoma histérico – ao menos de uma grande série deles; os sintomas histéricos não se apoiam em primeiro lugar nas próprias memórias, mas sim nas fantasias, construídas com base nas memórias. (1900/1999i, pp. 495-496)

A Traumdeutung é um livro muito extenso, cuja redação durou vários anos. Isso pode nos levar a pensar que talvez Freud tenha inserido a nota na página 223 ulteriormente, sem se lembrar do que já escrevera, nas páginas 495 e 496, sobre a relação entre sintoma e fantasia; ou mesmo que Freud tenha escrito o trecho recém-citado muito depois de ter redigido o trecho anterior, repetindo involuntariamente a mesma informação em dois locais diferentes. Mas essas conjecturas não captam o que há de mais interessante nesse nosso primeiro exemplo: o movimento textual operado por Freud. No caso, temos um movimento em três tempos: aquilo que é dito primeiro na correspondência a Fließ é, em seguida, afirmado numa nota de rodapé e, por fim, alcança o texto “real” da Traumdeutung. A nova hipótese etiológica passa da margem do texto para o seu centro; ela é primeiro afirmada num tom quase informal para, em seguida, fazer parte de uma extensa argumentação a respeito dos sonhos diurnos.

Se esse fosse um movimento isolado, não poderíamos insistir em sua importância. Trata-se, contudo, de um movimento várias vezes repetido por Freud. É digno de nota que um conceito psicanalítico tão central quanto o de narcisismo tenha feito sua primeira aparição pública também numa nota de rodapé: em 1910, na segunda edição dos Três ensaios de teoria sexual, Freud agregou uma extensa nota a respeito dos “invertidos” (terminologia da época para os homossexuais), em que ele diz:

Em todos os casos estudados, nós verificamos que aqueles que se tornaram posteriormente invertidos passaram, em seus primeiros anos de infância, por uma fase de fixação muito intensa, mas efêmera, na mulher (geralmente na mãe), após cuja superação eles se identificam com a mulher e tomam a si mesmos como objetos sexuais, isto é, partindo do narcisismo, eles procuram homens jovens e similares à sua própria pessoa, que querem amar assim como a mãe os amou. (1905/1999d, p. 44)

Duas notas importantes: o conceito de narcisismo, aqui apenas entrevisto e esboçado, será mais desenvolvido por Freud nos anos seguintes, por exemplo no texto sobre o caso Schreber (1911) e em Totem e tabu (1912-1913), e o conceito até mesmo receberá um artigo só para si, em 1914. Além disso, no texto sobre Da Vinci (também de 1910), Freud retomará essa hipótese sobre a causação da “inversão”, repetindo-a quase ipsis litteris, dessa vez no próprio corpo do texto: se o garoto “se identifica com a mãe e toma sua própria pessoa como modelo, a partir de cuja similitude ele escolhe seus novos objetos amorosos”, ele “se tornou um homossexual”, passando a amar “tal qual foi amado pela mãe enquanto era criança"; conclusão: “Nós dizemos que ele encontra seus objetos amorosos pelo caminho do narcisismo” (1910/1999e, p. 170). Ou seja, aqui, como em 1900, o que era nota de rodapé é alçado a texto, e com isso o que é marginal ruma ao centro.

Pode-se perceber o mesmo movimento em dois textos de 1938. Num de seus textos inconclusos, o assim chamado Abriss der Psychoanalyse, publicado apenas postumamente em 1940, ao discorrer sobre a dupla temporalidade da sexualidade humana (que se inicia na infância, sofre uma interrupção no período de latência e volta a desabrochar na adolescência), Freud apõe uma nota quase desinteressada, que em sua sucintez e estilo tem todos os caracteres de um aparte paratextual, menos rigoroso, quase descolado do texto de que depende. Lemos, ainda no corpo do texto, que a interrupção do instinto sexual ocorre quando o filhote de homem tem cinco anos de idade. Nesse instante da argumentação, advém a nota mencionada:

Cf. a conjectura de que o homem descende de um mamífero que se tornava sexualmente maduro aos cinco anos. Qualquer grande influência externa na espécie perturbou então o desenvolvimento linear da sexualidade. A isso poderiam estar relacionadas outras mudanças da vida sexual no homem em comparação com o animal, como a suspensão da periodicidade da libido e a utilização do papel da menstruação na relação entre os sexos. (1940[1938]/1999a, p. 75)

O que é uma nota nesse texto inconcluso se tornará o texto “real” no terceiro ensaio de O homem Moisés e a religião monoteísta, escrito e publicado em 1938. Essa mesma hipótese filogenética se incrustará num longo trecho em que Freud descreve sumariamente a teoria psicanalítica da sexualidade humana:

A teoria diz que, contrariamente à opinião popular, a vida sexual do homem – ou o que corresponde a ela em período posterior – mostra uma floração temporã, que se encerra mais ou menos aos três anos, seguida – até a puberdade – do assim chamado período de latência, no qual não ocorre nenhum desenvolvimento da sexualidade; na verdade o que foi alcançado sofre uma reversão. Essa doutrina é confirmada pela investigação anatômica do crescimento das genitálias internas; ela conduz à conjectura de que o homem descende de uma espécie animal que se tornava sexualmente madura aos cinco anos, e levanta a suspeita de que a prorrogação e a acometida em dois tempos da vida sexual se relacionam muito intimamente com a história do tornar-se homem. O homem parece ser a única espécie animal com tal latência e atraso sexual; investigações em primatas, que, até onde sei, não existem, seriam imprescindíveis para provar essa teoria. Não pode ser psicologicamente indiferente que o período da amnésia infantil coincida com esse primeiro período da sexualidade. Talvez esse fato traga a efetiva condição para a possibilidade da neurose, que é de fato, num certo sentido, um privilégio humano, e nessa consideração aparece como um sobrevivente (survival) da pré-história como certos componentes da anatomia do nosso corpo. (1938/1999f, pp. 179-180)

Comparemos rapidamente o que margeia a hipótese que emigrou das margens ao centro do texto. No Abriss, Freud inclui mais hipóteses em derredor do primata, que supostamente amadurecia aos cinco anos de idade e cujo desenvolvimento linear foi alterado: a mudança da periodicidade da libido no homem, a diferença do papel da menstruação. No Moisés, Freud inclui outras considerações, ainda que relacionadas: o crescimento dos genitais internos, possíveis investigações em primatas, a amnésia infantil, as precondições para a neurose, a neurose como privilégio humano e resquício de sua filogênese. Ou seja, nessa “elevação” da margem ao centro do texto, Freud também põe em marcha toda uma máquina de hipóteses, suposições, conjecturas. Suas ideias, em constante movimento, dão origem a novas constatações e razoamentos, num perpétuo jogo de revisitar e reelaborar hipóteses prévias.

Em dois outros momentos, vemos o mesmo jogo textual e conceitual em ação. Nessas duas ocasiões, aliás, observamos o conteúdo de uma nota marginal ganhar um texto só para si, mas isso anos depois. À redação do caso Dora, Freud agregou em 1923 uma curiosa nota de quatro linhas:

Uma outra forma muito notável e plenamente confiável de confirmação advinda do inconsciente, que eu então ainda não conhecia, é a exclamação do paciente: “Não pensei assim”, ou “Não pensei nisso”. Pode-se traduzir essa exteriorização muito simplesmente por: Sim, isso me era inconsciente. (1905/1999c, p. 218)

Ora, os leitores de Freud sabem que dois anos depois ele publicou um curto, mas fundamental artigo intitulado “Die Verneinung” (“A negação”), que trata exatamente da mesma ideia. É famosa a maneira como Freud, logo no início do texto, extrai o não da frase do paciente: “‘Você pergunta quem essa pessoa no sonho pode ser. Não é a minha mãe’. Nós corrigimos: Então é a mãe” (1925/1999j, p. 11). Trata-se, é notável, da mesmíssima ideia exposta na nota de rodapé de 1923 ao caso Dora, que agora é usada para abrir o artigo de 1925.

Interessa-nos, então, não só o fato de a ideia ter sido levada das margens para o centro, mas também o que isso acarretou em termos conceituais. O texto se abre com a mesmíssima ideia da nota de 1923, mas prossegue com hipóteses a respeito das relações lógicas e cronológicas entre os juízos existenciais e os juízos atributivos, numa argumentação abstrata sobre as relações mais primevas do eu com a realidade. Isso, contudo, é de certa forma uma retomada de algumas hipóteses aventadas ainda em 1915, em um de seus artigos metapsicológicos. Ou seja, nesse movimento textual (que vai das margens ao centro), incrusta-se outro movimento, o qual se pode denominar teorização, que passa por revisitar ideias (muitas vezes marginais) e construir novas conexões nocionais entre elas.

Cruciais aqui são os próprios adjetivos e advérbios de Freud. Sua hipótese é abertamente fantástica, e ela havia sido mencionada casualmente numa nota de rodapé. Freud sabe que notas de rodapé são “apartes sussurrados”, sabe que seu conteúdo pode ser mais fantasioso e mais casual do que o normal. Mas a escrita de Freud revela um algo a mais em sua utilização das notas de rodapé: vimos quatro momentos da letra freudiana em que Freud ergue o conteúdo de uma nota de rodapé (entre o texto e o paratexto), trazendo-o para o texto “real”, para o texto sobre cuja (não) paratextualidade não há dúvidas. Nessas notas, Freud expõe hipóteses por vezes fantasiosas; caso elas amadureçam bem, podem anos depois tornar-se textos “verdadeiros”. Nesses ínterins de sua escrita,5 Freud está trazendo a margem para o centro, está deslocando o que é paratextual rumo à textualidade central da teorização.

Esse deslocamento entre paratexto e texto se encontra ainda numa passagem muito curiosa do caso Schreber. Freud, numa nota de rodapé, analisa uma nota do livro do próprio Schreber (isto é, trata-se de uma nota a respeito de uma nota). Nesse comentário marginal, Schreber sublinha a relação entre sua teoria dos nervos e o papel do sêmen paterno e do óvulo materno. Freud conclui: “Nas Memórias não é tão raro que uma nota casual sobre uma doutrina delirante contenha a desejada alusão à gênese e, com isso, ao significado do delírio” (1911/1999h, p. 254). Ou seja, Freud confere certa ênfase (numa nota!) a uma nota marginal, a um detalhe do texto de Schreber, asserindo ser comum que notas marginais como essa contenham a chave para a elucidação de seu delírio. Agora, portanto, não é uma nota do próprio Freud que recebe atenção e é alçada a texto, mas uma nota do livro de Schreber. Nessa nota sobre a nota, Freud está sublinhando a importância da nota à margem (trata-se de uma nota metalinguística, portanto). Em termos genettianos, ele está sublinhando a importância do paratexto para a compreensão do próprio texto. O movimento textual que vimos analisando é testemunho, portanto, de que em Freud muitas vezes um texto “real” pode ser visto como uma nota metalinguística a notas de rodapé anteriores.

Nisso, o destino conferido a essas notas pode ser comparado ao próprio método interpretativo freudiano. Referimo-nos à importância dada por Freud aos detalhes, aos pormenores de um fenômeno a ser perquirido. Como se lê em 1914, em seu texto sobre o Moisés de Michelangelo, a psicanálise “está acostumada a descobrir o secreto e o oculto a partir de traços subestimados ou ignorados, a partir dos dejetos – do “refuse” – da observação” (1914/1999g, p. 185). É nos detalhes marginais que a atenção freudiana se centra. A esse respeito, poderíamos evocar diversas passagens do corpus freudiano: os dedos, as barbas do Moisés de Michelangelo, os gestos manuais aparentemente desimportantes de Dora, os detalhes sobressalentes da memória encobridora de 1899...6 Também a interpretação de sonhos segue esse princípio metodológico: na Traumdeutung, lemos que seu método interpretativo procede en détail, não en masse (1900/1999i, p. 108), ou seja, inspeciona detalhe por detalhe, e não o sonho inteiro de uma vez. Quem não se lembra da análise extremamente pormenorizada do sonho do Homem dos Lobos, por meio da qual cada um dos elementos do sonho é perquirido de forma obstinada por Freud? Para o método freudiano, os mínimos detalhes do sonho são importantes para que se lhe compreenda o sentido. Sobre isso, o seguinte parágrafo do último capítulo da Traumdeutung é muito ilustrativo:

Cada análise poderia comprovar com exemplos como precisamente os traços mais insignificantes do sonho são indispensáveis para a interpretação, e como a execução da tarefa é atrasada quando nossa atenção se volta para eles apenas depois. Prestamos o mesmo reconhecimento, na interpretação dos sonhos, a cada nuance da expressão linguística em que o sonho se nos apresenta; e mesmo quando nos era apresentado um texto absurdo ou insuficiente, como se tivesse fracassado o esforço por traduzir o sonho na versão correta, nós também respeitamos essas falhas na expressão. Em suma, aquilo que segundo os autores devia ser uma improvisação arbitrária, preparada às pressas na ocasião, nós tratamos como um texto sagrado. (1900/1999i, p. 518)

A comparação com o texto sagrado não deve passar despercebida: trata-se de textos, e trata-se de textos cuja significação, cuja tessitura integral, deve ser respeitada. Nesse respeito pelo texto, o estatuto do detalhe é central. Cada um dos fenômenos marginais desse texto tão estranho que é um sonho tem de ser levado em conta quando de sua interpretação, nada pode escapar. Ora, esse movimento metodológico de Freud é formalmente idêntico àquele que encontráramos antes: ele está trazendo a margem para o centro, ele está tomando com suas mãos hermenêuticas a nota de rodapé do texto do sonho e a está trazendo ao texto “real”.

Isso, porém, vale para o método freudiano em geral, e não apenas para a interpretação dos sonhos. Os atos falhos, os sonhos, os sintomas, as falhas de memória etc. podem muito bem ser considerados as “notas de rodapé” da nossa existência consciente e egoica. O que Freud fez foi colocar uma lupa sobre esses fenômenos marginais subestimados, trazendo-os para dentro do “texto” da vida.

E, digamos apenas de passagem, o que vale para o método e para a escrita vale também para a teorização freudiana. Como vimos, em Freud as notas de rodapé são muitas vezes espaços privilegiados de experimentos conceituais, à maneira de um laboratório de hipóteses, em que as ideias ainda sem respaldo empírico ou sem o suficiente refinamento conceitual podem ser expostas, trabalhadas e arriscadas; essas ideias à margem do texto teórico “real” podem por fim ser retrabalhadas em textos porvindouros. Como demonstrou Monzani (1989), Freud elabora e reelabora diversas vezes as mesmas ideias, às vezes em intervalos de anos ou mesmo de décadas.7 É precisamente isso o que notamos, por exemplo, com relação à sua hipótese sobre a conquista do fogo e com relação à sua análise da negação: uma ideia posta em jogo – numa nota – anos antes é retomada e recebe um texto para si. E, como vimos, nessa retomada de ideias prévias, novas ideias lhes podem ser conectadas, de modo a formar novas cadeias conceituais.

É assim que, tomando o texto de Freud de forma freudiana, suas notas de rodapé revelam ser um caso privilegiado desse movimento teórico-textual constante; as margens paratextuais do texto freudiano não podem ser ignoradas quando se estuda Freud. Desde as cartas a seus amigos e colegas até os curtos textos comentando textos alheios (prefácios, posfácios.), nada pode passar despercebido ao leitor freudiano. Nesse quesito, deve-se citar Léa Silveira:

Conhecemos bem a advertência com que V. Goldschmidt encerra seu ensaio sobre o tempo na interpretação de sistemas filosóficos, aquela que se refere ao recurso a textos póstumos no estudo da história da filosofia. Para se situar no tempo lógico e assim pretender alcançar o movimento e a estrutura do pensamento, o intérprete deve privilegiar a “obra assumida” e se precaver contra o perigo de camuflar a obra publicada a partir de argumentos apenas manuscritos. “Notas preparatórias, onde o pensamento se experimenta e se lança sem ainda determinar-se”, ele escreve, “são léxeis sem crença e, filosoficamente, irresponsáveis; elas não podem prevalecer contra a obra, para corrigi-la, prolongá-la, ou coroá-la, e desse modo, falseá-la” (Goldschmidt, 1970, p. 147). Ora, nenhum preceito poderia talvez ser mais equivocado, em termos de método de leitura, quando se trata de ler Freud. (2017, p. 179)

Ler Freud implica ser minimamente freudiano: temos constantemente de trazer a margem ao centro, caso queiramos compreender a formulação e a elaboração de suas teses e hipóteses; temos de dar atenção aos limiares do texto freudiano, pois Freud, ao escrever e ao aplicar seu método, fazia das margens de seus fenômenos o ponto central a ser estudado.

Podem-se notar, assim, três movimentos isonômicos em Freud, por meio dos quais as margens vão para o centro, referentes a:

  • 1) Escrita: o conteúdo de uma nota de rodapé deixa seu locus pouco unívoco (entre texto e paratexto) e ruma ao texto “real”.

  • 2) Método: os dejetos, os detalhes, as “escórias” subestimadas da observação são focalizados por Freud e portam em si, quando indagados, a solução do texto a que pertencem.

  • 3) Teorização: ideias e hipóteses aventadas anos antes são retomadas e re-trabalhadas, e com isso dão origem ou ensejo a novas elaborações conceituais.

Em Freud, a diferença entre centro e margem é relativizada. A linha paratextual que separa o texto “real” das suas margens é constantemente transgredida por Freud. Não é uma linha fixa; ao contrário, marca uma distância temporária e feita para ser desfeita. Relembremos a última frase de Seuils, de Gérard Genette: “Um limiar existe para ser ultrapassado” (1987, p. 393). Ora, nada é mais freudiano do que essa afirmação de Genette. O limiar entre a margem e o centro é reiteradamente ultrapassado por Freud, tanto em seu método quanto em sua escrita. Em suma, nos interstícios da teorização freudiana, os limiares entre a margem e o centro deixam de ser sólidos e, liquefeitos, deixam entrever novos sentidos entre os fenômenos estudados. Freud pode ser visto como um teórico eminentemente transgressor, caso entendamos essa ultrapassagem ou liquefação de margens como uma transgressão. Os limiares (por vezes tão rigidamente impostos) entre normalidade e patologia, razão e desrazão, natureza e cultura, apenas para citar alguns, foram constante e reiteradamente liquefeitos e transgredidos por Freud. Talvez seja nossa tarefa, enquanto leitores freudianos, continuar esse seu movimento metodológico, teórico e textual.

2“Embora frequentemente passem despercebidas ou não sejam lidas, notas de rodapé ocasionalmente se tornam elas mesmas objeto de controvérsias” (Steven & Williams, 2006, pp. 210-211).

3“Notas de rodapé não devem ser nem numerosas nem longas” (Bowersock, 1984, p. 59).

4Sobre isso, ver por exemplo Freud (1894/1999b, 1896/1999k).

5 Janine Altounian (2003) já notara que, na escrita freudiana, vários termos referentes ao movimento, à migração, ao deslocamento de povos fazem presença. O que notamos – e isso é complementar à análise de Altounian – é que esse movimento acontece na própria escrita de Freud, e não só em seus termos.

6 Naomi Schor, no excelente artigo “Le détail chez Freud” (1980), faz uma bela leitura sobre a importância do detalhe em Freud.

7“A psicanálise freudiana parece ter sido muito mais uma lenta gestação conceitual em que as noções foram retificadas, precisadas, repensadas ou explicitadas umas em função das outras e também em função das novas aquisições fornecidas pela prática clínica” (Monzani, 1989, p. 294).

Referências

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Recebido: 30 de Março de 2023; Aceito: 12 de Outubro de 2023

Pedro Fernandez de Souza pedrofsouza@gmail.com

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