A criação literária: o que é? É uma experiência, uma sublimação, a expressão de uma vida imaginária. Em geral, encontro pessoas que procuram curar seus vazios e turbulências com orações, amuletos, compulsões, castigos, paixões e também análise. Alguns, por alguma preconcepção (como tenho pensado a estética), carregam o amor nos dedos, não para ter uma vida tranquila, mas como uma espécie de repouso de suas ideias incessantes. Por vezes, me sinto exausta de ideias e necessitada de algum amor em forma de livro; reconheço que ler me acalma e envio invisivelmente ao escritor minhas emoções. Celebro com ele – neste caso, com ela – a distância. A escrita não é música, pintura, cinema, nem conjunto de pensamentos inarticulados; ela exige estratégias formais para ser várias coisas ao mesmo tempo. Esse trabalho implica dedicação, oferecida ao leitor quando o resultado é como este que testemunhamos. Entre páginas de vigília sonhante, ao ler o livro de Vera, me enchi de esperança, porque nelas encontro verdade e abrigo.
Vera Lamanno-Adamo oferece um livro-crônica de psicanálise, em uma linguagem aberta, que transita entre a oralidade e a poesia. Apresenta sensibilizações diversas, todas bastante pessoais, misturando cinema, literatura e música com vinhetas clínicas e complexas elaborações sobre a psicanálise de nossos tempos. É um texto que ousa ir além da assepsia quase normativa da produção psicanalítica dominante, levando o leitor a descobertas que provocam estranhamento e desconforto, ampliando os temas propostos, em vez de reduzi-los à cadeia repetitiva característica do dogma. Vera desenvolve uma obra que materializa (uma vez mais) dois de seus desejos de adolescência – conhecer a natureza humana e tornar-se escritora – em um contexto exuberante: o encontro analítico, “capaz de encontrar, um encontro que se situa na contracorrente do conforto alcançado no ‘quarto alienante’” (p. 12).
Já no começo da obra, uma coletânea de 25 textos (dois inéditos), a autora tematiza a própria concepção de escrita em psicanálise, no belíssimo texto “Narciso sob a tinta”, quase homônimo da obra em si: “Escreve-se porque nada mais poderia ser dito se não por meio do ato de escrever” (p. 13), afirmação que se presta também a refutar outras várias percepções sobre a escrita na área. A escrita assim motivada torna-se expressão de um eu, de um Narciso que se revela na página anteriormente em branco. É nesse ponto que Vera defende a ideia de que a escrita em psicanálise deve ser mais crônica e menos erudição, ou seja, deve prezar por uma linguagem que seja tanto mais simples quanto mais poética, aberta aos sentidos e à transitoriedade da palavra, em vez de servir à cristalização do que já foi dito um sem-número de vezes. Afinal, paralelamente ao que acontece com o gênero da crônica, a matéria-prima da escrita psicanalítica é a situação cotidiana, os fragmentos que coletamos no dia a dia da experiência. Uma escrita assim concebida será móvel, transitiva, inquietante.
O inquietante, aliás, o Unheimliche de Freud, é um dos temas marcantes da obra. O terceiro texto apresenta a estrutura da maior parte de Narciso sob tinta: com base em um livro, episódio de série ou filme, a autora provoca o leitor com ideias que lhe são visivelmente caras, além de substanciais para a psicanálise como um todo. O leitor se vê às voltas com suas inquietações, provocadas por episódios da série Black mirror; por filmes contemporâneos, como O pensamento selvagem, de Alexandre Boechat e Eduardo Climachauska; e também por autores clássicos, como Tolstói e Clarice Lispector. As elaborações acerca do inquietante, especificamente, levam a pensar sobre os impactos da digitalização e da virtualização de nosso mundo, para além da antítese morte/imortalidade. Afinal, hoje temos de lidar também com o duplo real/digital, que escancara novas formas de ver a morte, de se haver com ela, de escapar a ela. O mesmo conceito presta-se a uma consideração sobre o estranho na literatura (Freud já enfatizava que, na arte, o Unheimliche se mostra muito mais evidente do que na vida real), elucidando a tendência de fixar o que nos aparece como estranho no outro, o que por sua vez provoca sentimentos marcantes de solidão, isolamento e alienação.
De forma similar, o tema do estranho surge no contexto do cinema, em elaboração sobre o filme O céu de Suely, a partir do qual Vera elucida o desejo do estrangeiro na adolescência, quando muitos se (des)encontram, fantasiados com diferentes territórios. Ainda nesse campo semântico, o leitor se depara com elaborações sobre conceitos-chave da psicanálise, como funcionamento protomental, de Bion, uma área do psiquismo sem registro simbólico. Esse estado seria como um fóssil vivo, capaz de transformar-se em doença psicossomática ou comportamentos grupais. A autora trabalha o tema a partir do filme Sob a pele, de 2013, que ela vê como metáfora do movimento trans – do alienígena para o humano –, resultado de vivências explosivas, do fogo que constitui desejo. O alienígena remete, na linguagem, à noção de estrangeiro, desconhecido. Nessa perspectiva, o filme (cuja protagonista encena um ser estranho, provável alienígena, em descoberta pelo mundo) trata dos riscos próprios dessa passagem para o humano, em um travestimento em nacional, conhecido, a partir de um potencial quase infinito de originalidade, característica que podemos atrelar ao estrangeiro de fato, e que remonta ao protomental de Bion.
Outro tema caro à autora é o luto, em suas diversas facetas, desde a elaboração original de Freud até ideias mais recentes, como a de desenlutamento, de Jean-Claude Rolland. Esse último conceito traz em seu bojo a noção de que a vida em si é uma sequência de desenlutamentos por aquilo que permanece objeto perdido. Tal processo “dá continuidade ao trabalho do luto e desfaz a condensação melancólica” (p. 83). Mais uma vez, é a arte que se presta à elaboração: Vera se pauta na narrativa de A história dos ossos para pensar sobre o tema. Indo além, ela trabalha a perspectiva de uma nova razão de viver (em japonês, ikigai) por conta da morte e de outras perdas significativas para o sujeito. O ikigai, segundo a leitura que faz dos filmes de Hirokazu Koreeda, acaba resvalando no rancor, na ambivalência, na identificação com o objeto perdido que é própria do luto e da melancolia, considerando as devidas diferenças entre os conceitos e as dinâmicas psíquicas envolvidas. Aqui, entra em jogo a importância da família no processo de luto, a decretar diferentes destinos para cada membro, caso a família como entidade seja capaz de ultrapassar a negação, reatualizando questões antigas que a movem.
Nessa toada, Vera elucida também o tema da apatia e do tédio em sua relação com a melancolia e o enlutamento, resgatando mais uma vez um episódio de Black mirror. A diferença com o luto e a melancolia, no entanto, é que o tédio não é marcado por lamentos e recriminações. Ainda assim, ele é caracterizado pela perda substantiva de significado pessoal quanto ao mundo. Esse sentimento seria típico de nossos tempos, exatamente pelo extremismo e pela excitabilidade que aniquilam seu par antitético: a curiosidade legítima sobre a existência, que acaba esvaziada em nossa vida marcadamente digital e acelerada.
A autora ainda desenvolve os temas da morte e do que Freud descreve como sentimento oceânico – em uma crônica rápida, em que aborda o “delírio de imortalidade” (p. 176), motivada por uma leitura de Thomas Mann; e em um texto em que se vê às voltas com a negação da finitude, com base no clássico de Tolstói A morte de Ivan Ilitch. Esses textos, que se aproximam mais do gênero da crônica, e nos quais Vera resgata valiosas memórias, como uma chance perdida de conversar sobre a morte, estão carregados de lirismo e uma percepção profunda sobre a arte e os dilemas da existência. É com a mesma sensibilidade que encontramos textos sobre o masculino e o feminino. A princípio, em uma narrativa em primeira pessoa, “Libertas quae sera tamen”, que se aproxima da ficção literária, e em que a autora tematiza o amor, o corpo e o objeto fálico, da infância à maturidade do narrador. Depois, com sua típica paráfrase da arte, a autora aborda a masculinidade contemporânea a partir da literatura de Garth Greenwell, considerando o fantasma da homossexualidade e do afeto entre homens na constituição da identidade masculina; e a poética do feminino, conceito entendido aqui como estado mental, com o pano de fundo de Clarice Lispector e de experiências em análise. À guisa de conclusão, a perspectiva de que o feminino, em sua elaboração, redunda em “uma metáfora do sujeito na análise” (p. 72).
O leitor se depara ainda com outros temas, outras experiências de escrita, como uma crônica sobre uma mulher que não negocia, mas que às seis horas da tarde se deixa quebrar, e chora; análises cinematográficas sobre atos compulsivos e o fracasso em ser; e uma elaboração sobre as ideias de opressão, imperativo de homogeneização e visiofilia, que apagam o poder de insight do sujeito moderno. Mas o tema principal de Narciso sob tinta parece orbitar sobre a psicanálise de nosso tempo, para além de diferenças teóricas e campos dogmáticos, uma psicanálise em tempos de krâsis, psicanálise da “mistura”, complexa, heterogênea e processual. “Uma psicanálise craseada é uma psicanálise que traça as margens de diferenças teórico-clínicas, mas que também as mescla em benefício de uma complexização da teoria e da prática psicanalítica. Uma psicanálise que não assenta moradia em paróquias” (p. 153). A psicanálise plural e heterogênea de Vera se vale de autores como Freud, Bion, Henry Dicks, Caper e Meltzer, bem como de variadas referências à literatura e ao cinema, com um aprofundamento clínico que transborda sensibilidade e lucidez. E assim a autora tece considerações sobre o trabalho com casais em tempos de distanciamento social; a família como refúgio psíquico que aprisiona sujeitos; pacientes cujas falas parecem arrancadas do vazio, e nele habitam; a terapia como prática de elaborar dialetos, em que o paciente se apresenta como sujeito em busca da própria história, na contramão do analista, às vias com um processo autoral de criação de linguagem; o analista como cineasta, à medida que ambos praticam a arte de “construir tempos e enredos partindo de imagens” (p. 197); a análise em suas múltiplas relações – do contratual, passando por suborno de intimidade e relação íntima de fato; e a psicanálise como clínica impossível que sempre reconstrói a si própria.
A variedade de temas e formas narrativas deste livro-crônica me cativou, movendo pensamentos e práticas. Fica evidente que, nessa psicanálise, os únicos mestres de fato são os pacientes, como define Pontalis na epígrafe de um dos textos da obra. Não se trata de uma psicanálise que dispensa todo o arcabouço teórico, mas de uma prática que ousa agregar, em vez de segmentar; que reconhece as limitações do conceito e do dogma perante a vida, a escuta, o estranho e o imprevisível do cotidiano, utilizando-os quando necessário, a despeito do pertencimento a esta ou àquela escola. A psicanálise que aqui se abre ousa sobrepor-se, conectar-se e ramificar-se, em vez de excluir camadas por conta de imperativos de pertencimento. Daí a ideia de que a escrita deverá ser mais crônica e menos erudição, pois assim estará mais atenta ao cotidiano e menos propensa a defender dogmas a despeito da experiência, sem medo de incluir o narrador na linguagem aberta que se desenvolve com tanta sensibilidade.
A coletânea de textos que temos em mãos, agrupados sob um título quase metapsicológico, representa um dos momentos mais fecundos da trajetória de Vera. É importante reconhecer, para a compreensão da obra, que poucos conceitos atravessaram as fronteiras da psicanálise como o narcisismo. Trata-se de um tema importante também à autora, pois em diversos textos, ao longo de sua carreira, Vera desenvolveu as conceituações de narcisismo negativo e alucinação negativa, hoje uma referência clássica, em especial na abordagem da melancolia. Vera nos chamou a atenção para isso, sublinhando que a experiência do encontro – e, mais ainda, do encontro amoroso, desejado e sonhado em verso e prosa, letra e música – depende da base de um eu, que saiu competente de tanto juízo para a experiência da alteridade, e que se mantém durante a vida. Seu novo vislumbre, agora, é apontar que a psicanálise não é só desconstruída, mas que há psiquismos que necessitam de andaimes. Com isso, me dirijo às ideias de Ferenczi, que nos ajudam a evitar o que ele chamou de hipocrisia psicanalítica. Para ele, analisar sem levar em conta a necessidade que se apresenta é oferecer ideias sem a observação fina própria do analista. Termino com uma paráfrase de Oscar Wilde, que traz uma sensata interpretação sobre Narciso, pelo viés do lago, e que me lembra a percepção de Vera, capaz de analisar pelos dois e mais lados... “Mas Narciso era belo?”, quis saber o lago. E o lago continua: “Eu choro por Narciso, mas jamais havia percebido que era belo. Choro por ele porque, todas as vezes que ele se deitava sobre minhas margens, eu podia ver, no fundo dos seus olhos, a minha própria beleza refletida”.














