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Revista Brasileira de Psicanálise

Print version ISSN 0486-641XOn-line version ISSN 2175-3601

Rev. bras. psicanál vol.58 no.1 São Paulo  2024  Epub Nov 29, 2024

https://doi.org/10.69904/0486-641x.v58n1.17 

Resenha

Os (des)caminhos de Édipo: A resposta é o infortúnio da pergunta

Elsa Vera Kunze Post Susemihl1 

Membro efetivo e analista didata da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo (SBPSP)

1Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo (SBPSP). São Paulo

Os (des)caminhos de Édipo: A resposta é o infortúnio da pergunta. Castelo Filho, Claudio. Blucher: Editora, 2023. 130p.


Diante da fertilidade de situações e ideias contidas neste livro, vou destacar algumas com o intuito de estimular a sua leitura. Não pretendo fazer um resumo com estas poucas palavras, o que naturalmente seria impossível.

Psicanálise

Claudio abre o livro no primeiro capítulo dando o tom: estabelece desde o início sua ideia do que é um processo psicanalítico, já resumida no título “O estranho, o duplo e a possibilidade de uma relação amorosa genuína”. A partir do relato de uma experiência pessoal na qual tem uma vivência de profundo estranhamento diante do seu duplo no espelho, o autor mostra a essência da sua compreensão a respeito do que é o processo psicanalítico – nos depararmos com o estranho e o desconhecido em nós, ou com o grupo de estranhos que nos habitam, sem que tenhamos a mais vaga ideia da sua existência.

Assim também a tarefa de uma análise é a de apresentar uma pessoa a ela mesma, a esse grupo que a constitui, a cada dia, apresentar os seus vários e surpreendentes aspectos, tanto os mais brutais e primitivos quanto os mais sofisticados e criativos. Esse encontro de uma pessoa consigo mesma pode levá-la a um casamento dela com ela mesma, desenvolvendo um relacionamento, se possível, amoroso, ou pelo menos respeitoso, com a única pessoa de quem não pode se separar ou se livrar. (p. 17)

Destaco duas ideias desse rico e interessante capítulo.

A comparação dos antigos mapas, desenhados a partir do mundo conhecido e imaginado de então, com os mapas atuais como uma analogia com o conhecimento a nosso respeito que pode ser ampliado em uma análise, lembrando que o conhecimento é sempre parcial e limitado temporal e espacialmente. O mesmo acontece na análise: enquanto há vida, há um desconhecido estranho a nós, interna e externamente, e nenhuma análise transforma esse fato. Como assinala o autor:

A impossibilidade de esgotarmos o conhecimento e muito menos o “domínio” de nossos selves também se dá porque todo dia e a todo instante nos tornamos um novo desconhecido, não só por conta do envelhecimento ou da passagem dos anos, mas também porque cada experiência ... vai nos tornando um outro, ao mesmo tempo que algo permanente também continua, nessa dualidade paradoxal. (p. 19)

O autor sublinha ainda a experiência de turbulência perturbadora que faz parte do encontro com o desconhecido e o estranho, tanto no paciente quanto no analista, e a maneira como em uma análise o par analista-analisando pode se tornar um continente capaz de suportar a intensidade dessa experiência de contato com o que está em andamento. Ressalta, para tanto, a importância de uma análise pessoal longa e profunda do analista para desenvolver a condição de suportar e assimilar essa experiência turbulenta.

Édipo e a responsabilidade sobre si mesmo

O segundo capítulo, que dá nome ao livro, “Os (des)caminhos de Édipo: a resposta é o infortúnio da pergunta”, é um artigo primoroso, que apresenta a visão estendida de Bion a respeito de Édipo. O autor mostra que Bion considerou a compreensão de Freud sobre o mito de Édipo restrita a aspectos sensoriais e concretos, ao tomar como núcleo dele a sexualidade e o incesto, contextualizados no modelo da família burguesa. Bion amplia o estudo do mito, alcançando outras dimensões presentes e deslocando a centralidade para a questão do pensar – para como Édipo e também Jocasta não puderam ver o que estava dado, como não puderam pensar: “Tudo estava escancarado. Faltava, contudo, quem pudesse enxergar o que estava visível. O problema não era encontrar algo recalcado ou inconsciente, mas perceber o que era evidente, porém não enxergado, era pensar o nunca pensado ou o impensável” (p. 40).

Essas ideias são tecidas pelo autor com a sua experiência de analista, e a cada ideia na qual avança, traz sua clínica e sua experiência para esclarecimento. Sim, deparamos diariamente nos nossos pacientes com a arrogância de Édipo, quando julgam saber tudo de antemão, quem são e quais os problemas que têm e às vezes até as soluções – tal qual Édipo quando deixa Corinto. Ou também quando o analista se vê tentado o ocupar esse lugar de quem sabe o que é melhor para o analisando, em fantasia de arrogância e supremacia. O autor lembra ainda que o que o paciente conta sobre sua vida fora do consultório é somente isso, algo que ele relata.

Aquilo que o analista pode realmente verificar é o que se apresenta diante dele e em seu consultório. Caso contrário, pode começar a interagir com o analisando e aquilo que ele acredita serem os fatos, ficando engolfado em um estado (como teria acontecido com Jocasta) de alucinose. (p. 38)

Assim, novamente ele enfatiza o núcleo da experiência analítica: a busca pelo contato íntimo consigo mesmo – lembrando que o que nos importa não é aquilo que acreditamos saber, mas sim aquilo que ignoramos por completo.

Quase que como decorrência desse importante capítulo, surge o próximo, “Da submissão à autoridade à responsabilidade sobre si mesmo”. Nesse terceiro capítulo, é feita uma ampliação do campo psicanalítico para o “social” e são enfrentadas algumas questões muito discutidas hoje, como racismo, machismo, feminismo e homofobia, trabalhadas rigorosamente pelo autor a partir do que estou enfatizando como vértice psicanalítico.

O autor apresenta de início e de forma viva diferentes relatos que demonstram a tensão entre o indivíduo e o grupo externo, e a maneira pela qual esse grupo externo tem sua correspondência no mundo interno de cada um, como a autoridade, que, expressa de diferentes formas na realidade externa grupal (enquanto valores, preconceitos etc.), é introjetada e passa a fazer pressão internamente. De modo semelhante, os preconceitos presentes socialmente e vividos pelos indivíduos, como o machismo, o racismo estrutural e a homofobia, são introjetados e passam a fazer parte do indivíduo e a operar como preconceitos agora internamente. O indivíduo pode então viver submetido a esses preconceitos internos e externos, ou não. Uma coisa é a crítica racional e intelectual desses preconceitos; outra é a investigação e o processamento emocional interno e profundo de como esses preconceitos operam em si.

Intelectualmente e na superfície, os discursos aparentam estar elaborados, mas nas profundezas esses preconceitos permanecem tendo muita repercussão, e é necessário que o psicanalista esteja atento a eles e os demonstre aos pacientes. Somente com a conscientização deles pode ser que se tornem capazes de pensá-los e elaborá-los. (p. 54)

O autor também oferece relatos de situações nas quais foi possível enfrentar a realidade externa adversa e, ainda assim, viver os próprios desígnios, por mais diferentes que fossem. Conta-nos de grandes atores brasileiros, e também de histórias da literatura e do passado, de pessoas que, “à revelia do contexto social, [conseguem] manter a cabeça livre e não ficar à mercê do lugar que lhe[s] é atribuído ou mesmo imposto socialmente” (p. 62), em função de determinado estado de mente.

O autor então opõe o medo do adulto ao do bebê, enfatizando que, mesmo que nossa sobrevivência dependa do grupo, por sermos animais gregários, isso não significa que precisemos estar psiquicamente submetidos ao grupo, ou às identificações projetivas dos pais ou do grupo. A essa ideia acrescenta outra, a respeito da importância de não se identificar com a visão do grupo sobre si, não se tornar um rejeitado ou um não amado ao se ver tratado assim pelo grupo. Ou ainda a importância de se desprender das próprias expectativas em relação ao grupo. Ou como ele resume algumas páginas adiante:

A possível liberdade para sermos honestos e livres conosco está não só na aceitação de que jamais seremos aquilo que os outros possam esperar de nós, mas aceitar que os outros e a realidade não existem para corresponder às nossas expectativas. (p. 68)

Nesse sentido, ele propõe que emancipar-se é a capacidade de tolerar maiores níveis de angústia, e não o contrário: “A emancipação aparece com o conhecimento advindo da experiência e a convivência com a constante angústia diante do desconhecido e da ausência de certezas” (p. 72).

Atendimento virtual

No capítulo 4, “Encontros reais e encontros virtuais”, o autor reflete a respeito de sua experiência com o atendimento psicanalítico online, ao qual foi levado pelo lockdown imposto durante a pandemia de covid-19. Relata algumas situações clínicas, a partir das quais realça a importância da observação das impressões sensoriais – captadas somente no contato presencial – para o trabalho com o paciente. Comenta que o maior cansaço sentido por ele no atendimento online contrasta com observações feitas por colegas de que essa modalidade de atendimento seria mais fácil, pois angústias vividas por certos pacientes quando na presença física do analista não se faziam presentes. A essa ideia o autor contrapõe outra, a de que justamente esse fato constitui uma grande perda, na medida em que essas camadas mais profundas de angústia, que se apresentam tanto em análise quanto na vida cotidiana relacional, precisam ser toleradas na relação com o analista, de modo que sua turbulência possa eventualmente ser assimilada por ambos, com a ajuda do analista. Refere-se ainda a algumas questões que surgem no trabalho online, como o compartilhamento do cuidado com o setting e com a confidencialidade, as interrupções em função dos dispositivos eletrônicos e a possibilidade de a sessão ser gravada. Ele não se opõe ao atendimento online se não existir outra opção, mas pensa haver uma questão ética presente quando surge a crença de que essa modalidade poderia substituir o trabalho presencial, o que ele considera inviável.

A epopeia do profeta enviado pelos deuses

No capítulo 5, “A epopeia do herói ou profeta enviado pelos deuses a um mortal comum que exerce sua profissão: a religião e a religiosidade que permeiam as práticas psicanalíticas”, o autor ilumina o aspecto religioso da mente, propondo de certa forma um aprofundamento do tema do capítulo 3, agora sob um novo ponto de vista.

A partir de várias vinhetas clínicas e à luz de citações de Bion, ele mostra a presença constante, e nas suas mais variadas facetas, da idealização do analista pelo analisando e da sua contraparte, a demonização e perseguição. Na sua maneira livre e direta de conversar com os analisandos, revela uma percepção aguçada desses movimentos emocionais na relação analítica e de como convida o analisando a pensar sobre o que está em andamento, não se identificando com lugares atribuídos a ele pelos analisandos: “Cabe ao analista sustentar a desilusão e sua queda dos céus ou infernos para a terra dos mortais comuns” (p. 97).

Discute ainda a insistência de alguns analisandos, e às vezes até de analistas, de buscar diagnósticos, patologias, soluções, desenvolvimentos ideais preconcebidos etc., e faz um amplo painel de como o moralismo pode se imiscuir na vida das pessoas, e mesmo na análise, tanto por parte do analisando quanto, por vezes, por parte do analista. “Penso que efetivamente existe em nosso meio uma grande confusão entre um viés psicanalítico/científico e um viés moral/religioso, frequentemente confundido com algo científico” (p. 103). Essas ideias, somente mencionadas aqui, são expandidas e exemplificadas de forma viva e clara ao longo do texto.

Minha ideia não é uma psicanálise para tirar a repressão, mas para ajudar o paciente a desenvolver capacidade suficiente de reconhecer, nomear e assimilar aquilo que experimenta, de modo a ter condição de pensar e negociar com seus sentimentos, impulsos e desejos e, assim, levá-los a algum acordo, a um caminho em conformidade com seus próprios interesses, sem se tornarem desastrosos. Nem sempre o que se deseja é realmente o que se quer. (p. 94)

Ou seja, uma análise trata de encontrar aquilo que é, e não o que o analisando ou o analista desejam, e a partir disso “ajudar o analisando a desenvolver recursos mentais e emocionais para negociar e administrar suas características e reconhecê-las como próprias tornando-o capaz de pensar antes de agir” (p. 110).

Memórias do passado e do futuro

No fechamento do livro, com o capítulo 6, “Entre memórias do passado e memórias do futuro”, o autor apresenta um texto sobre transformações ao longo do tempo, à luz das ideias de Bion sobre a invariância na transformação. O campo aberto por essas ideias é ricamente explorado. Na clínica, o paciente talvez sinta não poder deixar sua velha roupagem, seus hábitos arraigados, por não se reconhecer diante de novas percepções de si e do mundo – a invariância que é o âmago de si e da sua personalidade não é reconhecida. O mesmo pode se dar em diferentes momentos da vida em que há transformações: diante do luto, do envelhecimento etc. pode-se perder a noção de si, a invariante. A memória como fator nessa dificuldade é ressaltada pelo autor. A memória como tamponamento da experiência transitória atual em andamento. A memória do que fui, a memória do que penso que deve ser, a memória do que acredito que sei, a memória do que imagino que deva acontecer. A memória pode ser buscada para explicações do presente, para causas do sofrimento. Ou, inclusive, a memória das minhas memórias, que pode me fazer acreditar que o passado aconteceu de acordo com a minha memória, o que é também um engano – nesse caso, a memória é igualmente uma ficção, e algum acesso possível àquilo que foi pode se dar de outra forma, por sonhos, por exemplo, conforme o autor aponta. Mais uma vez, ele recorre a exemplos interessantes do mundo da arte, do cinema, dos atores e atrizes, bem como de sua clínica. Com esse capítulo, ele encerra o livro talvez trazendo à luz a essência da sua orientação e concepção de análise:

O reconhecimento de que o tempo é finito e que é preciso viver o presente, o que implica o abandono de modos de viver há muito mantidos, mas que impedem de usufruir o que há da única vida que realmente sabemos ter. (p. 117)

Encerro a resenha com esta citação de Bion, presente no livro:

Isso nos importa quando formos ver nosso paciente amanhã. Penso que é útil esquecer todas as nossas teorias e os nossos desejos porque eles são tão obstrutivos que se tornam uma impressionante cesura que não conseguimos transpor. O problema é como permitir que o germe de uma ideia, ou o germe de uma interpretação, possa ter a chance de se desenvolver. (p. 124)

Elsa Vera Kunze Post Susemihl esusemihl@gmail.com

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