Com satisfação, aceitei resenhar o livro do colega Carlos Tabbia, por reconhecer a importância da produção desse estudioso da obra de Meltzer.
Tabbia seguiu os seminários de Meltzer por 10 anos, como participante do Grupo Psicanalítico de Barcelona. Estendeu seus estudos com supervisões e, por meio de seus próprios casos clínicos, aprofundou a compreensão da psicanálise clínica ministrada por Meltzer.
Sua dedicação para transmitir essa psicanálise a vários grupos de colegas acabou ampliando seu olhar para dimensões “mais escuras”, ou pouco debatidas, de conceitos descritos por grandes seguidores de Freud. Eu me refiro a Klein, Bion e Meltzer como os principais que contribuíram com o avanço de nossa ciência-arte.
Em minha leitura, logo no início, Tabbia aborda um conceito fundamental: a realidade psíquica. Ele escreve:
A psicanálise é um vértice que se interroga sobre o homem. ... Tem seus limites, assim como seus pressupostos. ... Não há uma verdade última. A psicanálise tem sua própria verdade. A primeira delas é a convicção de que a realidade psíquica de um ser é determinante de sua vida. (p. 25)
Realidade psíquica é um conceito controverso em psicanálise, mas é fundamental por ser o objeto de estudo, investigação e trabalho dos psicanalistas.
Controverso, diz Tabbia, porque não haveria uma maneira única de descrever, conceituar e explicar em que consiste nem como se constrói. Mas fundamental porque o desenvolvimento das pessoas e das culturas deriva da realidade psíquica do ser humano. A realidade psíquica é uma organização estável que nos permite reconhecer a nós mesmos, e que se constrói lentamente, a partir de nossa vida fetal.
Num dos capítulos, Tabbia descreve um tripé sobre o qual se apoia o psicanalista para compreender o funcionamento mental: a estrutura da personalidade de um indivíduo, a capacidade de estabelecer relações íntimas, e o desenvolvimento do pensar.
É interessante ver Tabbia discorrendo sobre como ele foi assimilando seu aprendizado, tomando por base vários autores, que ele menciona sucessivamente – nota-se o cuidado com suas referências bibliográficas ao longo do livro. Ele conta que organizou a terceira parte do livro, “O tripé da clínica psicanalítica”, a partir de uma intervenção de Meltzer, que funcionou como fato selecionado e que foi articulada durante inúmeras supervisões do autor com ele:
Pienso que el método terapêutico que nosotros utilizamos, que estudia la transferencia y la contratransferencia, mueve tres dimensiones con un movimiento en la dirección de la realidad psíquica, otro en la dirección de las relaciones íntimas y otro en la dirección del pensamiento y la comunicación. En realidad, no se tiene que planificar la terapia, sino que, sencillamente, hay que seguir el método y tratar de conocer lo que está pasando. Afortunadamente, estas tres dimensiones también pueden producir una variación ilimitada entre los individuos, de manera que nunca dos terapias serán parecidas; existen muchas posibilidades de ver diferentes tipos de problemas, las variaciones son prácticamente infinitas.2 (Meltzer, 1996, citado por Tabbia, 2021, p. 85)
Ao contar sua experiência clínica com a estrutura da personalidade, Tabbia apresenta algumas organizações do self que foram supervisionadas por Meltzer. Ao tratar do pensar e do não pensar (Bion), fala da simbolização e das dificuldades para a transformação em símbolos.
Aborda ainda o tema da intimidade, condição essencial para o desenvolvimento da personalidade. Mostra materiais clínicos supervisionados por Meltzer, nos quais ficam evidentes a negação da realidade psíquica, a intrusividade da identificação projetiva, a grandiosidade anal, a imaturidade, e a luta contra o objeto combinado.
Na sequência, Tabbia se ocupa do pensar e das dificuldades para pensar. Enfatiza a importância da observação e da descrição para a gênese do significado (obviamente, da experiência sensorial e emocional do sujeito), e observa que a linguagem verbal, por ter sido construída para expressar a realidade externa, era vista por Bion e Meltzer como insuficiente para expressar uma experiência emocional. Aqui, Tabbia cita um texto de Meltzer, “Signos e símbolos”, para enfatizar que os signos servem para assinalar as coisas, diferentemente dos símbolos, que são compreensões do sujeito acerca de suas experiências emocionais.
Dedica um tópico à dificuldade para pensar, e cita a ideia de Meltzer de que o pensar se inicia com a observação dos fatos e, a partir destes, se constroem significados.
O problema de transtornos de pensamento está ligado à não observação dos fatos. (Aqui, eu acrescentaria que, às vezes, os fatos levantam situações emocionais não toleradas pelo observador, que interrompe a observação e passa a tirar conclusões com base nas aparências, que podem até não ser refutadas. Pode-se fabular, mas não pensar nesse caso.)
Junto-me a Tabbia ao citar Meltzer:
En una ocasión Meltzer (2000, p. 79) acudió a su propia experiencia para dar cuenta del mismo proceso: “Una de las cosas que nos enseñaba Mrs. Bick era que el significado de la conducta de los bebés y niños no era obvio. Es cuestión de interpretation, y la interpretación es algo que surge de la observación cuidadosa. El significado de la conducta de un bebé viene al observador como una intuición que surge al comprender lo que le está pasando al bebé”. ... La lección es que “la actividad del analista no es primariamente la interpretación; primero de todo es la observación y la descripción”. Si con Wittgenstein se partia de la impostergable necesidad de asentar el pensamiento psicoanalitico sobre los hechos clínicos, con Bick se da un segundo paso, el del desarrollo de los significados a partir de la observación de los hechos.3 (pp. 169-170)
A contribuição de Bion para a observação psicanalítica é o modelo continente-contido. (Eu diria: se o observador psicanalítico não dispõe de uma continência suficientemente tolerante para receber as identificações projetivas, não é possível perceber os dados que vão emergindo durante a relação analítica.)
A transferência do paciente é entendida como externalização inconsciente (por identificação projetiva no analista) dos próprios objetos internos, com suas imagens e funções. A contratransferência do analista, também inconsciente, será o meio para perceber as alterações que essa identificação projetiva provoca no analista, e os derivados conscientes da contratransferência. Se o analista puder “trabalhá-los” consigo mesmo, poderá conhecer algo que o paciente está “atribuindo” ao analista. Então, observação e descrição são a base da interpretação.
A seguir, Tabbia se pergunta o que significa descrição.
A descrição está presente nos textos de Freud, Klein, Meltzer. Ele se questiona se seria um recurso menor para aceder ao significado de uma conduta ou de uma obra de arte. A descrição seria um recurso adequado para desentranhar o significado da conduta humana?
Epistemólogos consideram a descrição o primeiro estágio na investigação do objeto de estudo. À descrição compete identificar os elementos componentes do objeto a serem conhecidos, e Freud compartilhava dessa opinião.
Descrição se opõe a explicação, e a partir dos desenvolvimentos de Bion, Meltzer e outros, a psicanálise evoluiu de uma ciência que pretendia explicar tudo e uma ciência descritiva que não explicava nada, tornando-se mais um modelo para pensar do que uma teoria.
Tabbia ainda cita Bion, que entende ser a descrição fundamentalmente uma transformação:
O es incognoscible no porque considere que la capacidad humana no esté a la altura de esa tarea, sino porque K, L o H son inadecuados para O. Son adecuados para las transformaciones de O, pero no para O. Recapitulemos: las transformaciones pueden ser científicas, estéticas, religiosas, místicas, psicoanalíticas. Se las puede describir como psicóticas y también como neuróticas, pero, aunque todas esas clasificaciones tienen valor, no me parece que el valor que tienen sea psicoanalíticamente adecuado. Elegí escribir, aunque brevemente, sobre las transformaciones en alucinosis porque la descripción puede servir para explicar por qué considero que los métodos de observación, notación, atención y curiosidad son inadecuados.4 (Bion, 1965, citado por Tabbia, 2021, p. 181)
Tabbia cita a fala de Meltzer sobre a atitude do analista diante do material clínico ser semelhante à atitude de um geólogo descobrindo um terreno:
El proceso ordinario de ir entendiendo el material de un paciente es un proceso de ir andando por las emociones que está estimulando en ti, ir andando, recorriendo hasta que algo parece ir cobrando forma. Por eso resulta tan interesante, porque no estás a la búsqueda de oro hasta que dices “ah, por fin encontré, aquí estaba”, sino que, más bien, estás andando por entre las rocas y este proceso es ya en sí mismo muy interesante, rocas son interesantes en sí mismas, no solo el oro. La geología resulta muy interesante, no es unicamente una ciencia interesada en nombrar y catalogar, sino que el geólogo está haciendo mapas de la estructura de la tierra y, al hacerlo, los movimientos, los desplazamientos, los pliegues, etc., le cuentan lo que ocurrió, cómo ocurrió y, también, lo que está ocurriendo. Poder mirar el paisaje con conocimiento de geología debe ser muy bonito porque puedes estar mirando, entonces, un paisaje con conocimiento de los movimientos que han estado operando allí. Es una visión en acción, en movimiento. A mi modo de ver este es el gran cambio introducido en el psicoanálisis por el trabajo de Mrs. Klein, al escuchar y observar acerca de algo que está sucediendo, no buscando las evidencias de lo que sucedió en un tiempo, en el pasado, a la manera de hacer del arqueólogo, sino las evidencias geológicas de lo que está sucediendo en todo momento y que resulta fundamental para describir esa estructura.5 (Meltzer, 1995, citado por Tabbia, 2021, pp. 182-183)
Ao abordar as dificuldades para sonhar, Tabbia descreve a tragédia de Macbeth, Shakespeare, e ressalta o assassinato do sonho e a função simbolizadora do sonho. Apresenta o que Freud e Klein entendem por sonho, e chega ao modelo pós-kleiniano de mente, no qual o sonhar é considerado por Bion um processo contínuo. De dia, o processo onírico aparece na consciência sob a forma de flashes que, aparentemente, pouco têm a ver com a situação que está sendo vivida. No sonho noturno, enquanto dormimos, há um trabalho do psiquismo tentando compreender experiências emocionais que aconteceram durante o dia e, como formulou Bion, o sonhador conta com uma função alfa que transforma as impressões sensoriais, relacionadas com a experiência emocional que teve, em elementos alfa, os quais por sua vez proliferam e se aderem, formando uma barreira de contato entre consciente e inconsciente. Assim se produzem pensamentos que podem ser armazenados na memória.
Seguindo Bion, Meltzer acrescenta, usando o modelo digestivo, que devemos levar em conta a “digestão” da experiência emocional (penso eu, para chegar a uma formação simbólica que será consciente para o indivíduo e que diz respeito à verdade daquela situação emocional do sujeito). Mas se a verdade não for tolerada, pela dor que provoca, haverá interrupção desse processo.
Na sequência, Tabbia aborda as dificuldades para dormir e as dificuldades para simbolizar durante o sono. Descreve a diferença entre sonhos narrativos, sonhos de simbolização condensada e sonhos alegóricos.
Ressalto ainda no livro um tema caro a Tabbia: a intimidade nas relações humanas. Ele caracteriza o conceito de intimidade no pensamento de Meltzer: para haver verdadeiras relações de intimidade, é necessário que a emoção seja totalmente experimentada e aceita. Mas experimentar emoções nem sempre é uma experiência tolerável, como ilustrado por Meltzer com o conceito de conflito estético. E a dissociação do self para tolerar o contato diminui a qualidade da relação. Tabbia descreve amplamente essa fenomenologia, incluindo o modelo do claustrum, e ilustra esse tópico com material clínico supervisionado por Meltzer.
Esses são apenas alguns dos interessantes desenvolvimentos de Tabbia neste trabalho, mas o livro como um todo aborda muitos outros pontos e finaliza com o tópico “A tarefa do psicanalista”, onde se detém principalmente na disponibilidade mental do analista e na atitude psicanalítica de fé, crença e intuição.
Tabbia apresenta no livro um testemunho de seu “aprendizado nos ateliês de Meltzer”, enriquecido com os contrapontos que sua extensa cultura possibilita. Recomendo-o para quem está interessado em trabalhar com o modelo pós-kleiniano de mente.













