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Revista Brasileira de Psicanálise

Print version ISSN 0486-641XOn-line version ISSN 2175-3601

Rev. bras. psicanál vol.58 no.3 São Paulo  2024  Epub Mar 28, 2025

https://doi.org/10.69904/0486-641x.v58n3.02 

Carta-convite

O brincar na clínica de adultos

Claudio Castelo Filho, Editor


Será que deveríamos procurar já na infância os primeiros traços de atividade imaginativa? A ocupação favorita e mais intensa da criança é o brinquedo ou os jogos. Acaso não poderíamos dizer que ao brincar toda criança se comporta como um escritor criativo, pois cria um mundo próprio, ou melhor, reajusta os elementos de seu mundo de uma forma que lhe agrade? Seria errado supor que a criança não leva esse mundo a sério; ao contrário, leva muito a sério a sua brincadeira e despende na mesma muita emoção. A antítese de brincar não é o que é sério, mas o que é real. Apesar de toda a emoção com que a criança catexiza seu mundo de brinquedo, ela o distingue perfeitamente da realidade, e gosta de ligar seus objetos e situações imaginados às coisas visíveis e tangíveis do mundo real. Essa conexão é tudo o que diferencia o “brincar” infantil do “fantasiar”.

O escritor criativo faz o mesmo que a criança que brinca. … A linguagem preservou essa relação entre o brincar infantil e a criação poética. Dá [em alemão] o nome de “Spiel” [peça] às formas literárias que são necessariamente ligadas a objetos tangíveis e que podem ser representadas. Fala em “Lustspiel” ou Trauerspiel” [“comédia” e “tragédia”: literalmente, “brincadeira prazerosa” e “brincadeira lutuosa”], chamando os que realizam a representação de “Schauspieler” [“atores”: literalmente, “jogadores de espetáculo”].1 sigmund freud, “Escritores criativos e devaneio”

É frequente, não só no atendimento de pacientes, mas muitas vezes na conversa com colegas ou na leitura de trabalhos psicanalíticos, que nos deparemos com algo sisudo, maçante, cheio de referências eruditas, no qual parece faltar algo da vida real. Nas sessões descritas ou vividas na dupla, os relatos costumam ser dramáticos, mostrando a constante busca de uma patologia, um “cid” e, por conseguinte, uma suposta cura para esse diagnóstico. Há amiúde um grande anseio por encontrar uma situação “traumática” da infância que explicaria a situação presente (a “neurose”). O humor parece completamente ausente, e não parece haver espaço para uma conversa real entre duas pessoas. Quando digo real, não me refiro a algo equivalente a um papo de botequim, mas a algo que não fosse uma impostação de dois personagens melodramáticos e overacting, que não corresponderiam a pessoas verdadeiras, mas a caricaturas sem humor.

Ao ouvir relatos dessa natureza, indago se as explicações dadas para os sintomas neuróticos descritos servem para alguma coisa, pois não aparentam trazer qualquer mudança ao quadro vivido pelos pacientes em questão. Muitas vezes, parece-me que muitos dos sentimentos que seriam “neuróticos” são mais reações emocionais pertinentes a situações de dificuldades reais enfrentadas, angústias inerentes ao próprio viver, ao erotismo real de que alguém não pode se “curar”. Há uma expectativa de alcançar um estado “zen” e “sublimado”, em que as pessoas desencarnadas estariam acima das agruras, satisfações e prazeres humanos, intrínsecos ao próprio existir.

A necessidade de produzir resultados (alívio/cura), tanto da parte do analisando quanto da parte do analista, costuma travar a relação e quase sempre a torna persecutória. O analista teria de produzir um alívio/cura, e o analisando teria de produzir “material útil” para seu analista desvendar os “segredos inconscientes” e fazer uma “interpretação salvadora”.

Penso na forma como Clarice Lispector, na tentativa de encontrar algo fértil para escrever, chamava um motorista de táxi e pedia que ele dirigisse a esmo e sem destino pelo Rio de Janeiro. Caso ele ficasse incomodado, solicitava que a levasse ao Jardim Botânico, e lá ficava a vagar aleatoriamente, em busca de algum lugar recôndito que ainda não conhecesse. Nessas situações descompromissadas, uma ideia costumava encontrá-la, e dela desenvolvia um texto sobre o qual não havia pensado antes. Não seria o equivalente às associações livres propostas por Freud, antes que elas ficassem comprometidas com alguma obrigatoriedade de achar algo relevante a ser dito ou interpretado?

Também me vem à lembrança o matemático, físico e filósofo Henri Poincaré, que durante parte do dia fazia seus exercícios de matemática e depois, da mesma maneira, pegava um ônibus e saía por Paris de forma descompromissada, sem destino, e em geral, nesse contexto, encontrava “fatos selecionados” a partir dos quais desenvolvia suas complexas teorias.

Arquimedes, chamado por um rei para desvendar se uma coroa confeccionada para ele tinha todo o ouro entregue aos artesãos ou se eles teriam posto outro metal menos precioso, como o cobre, e se apropriado de parte do ouro, estressou-se na tentativa de encontrar a solução e, ao se ver encurralado para desvendar o mistério, resolveu ir para casa e tomar um banho. Sem o compromisso de resolver o problema, entrou na banheira e a água transbordou. Nesse transbordamento, encontrou o meio de resolver o problema (“Eureka!”).

Há alguns anos, um conhecido contou que um grupo de ex-colegas de colégio se reunia dois sábados por mês para jogar futebol. O grupo ia muito bem e as relações floresciam até que um outro ex-colega soube desses encontros e pediu para participar. Foi o fim do grupo. Esse último acabou literalmente com a brincadeira ao levar os jogos a ferro e fogo e ao brigar e criar climas dificílimos caso perdesse uma partida, portando-se de forma extremamente agressiva se alguém errasse um passe etc. Ele não percebeu que o jogo de futebol era um meio para que se encontrassem, uma brincadeira que permitia que as relações se aprofundassem.

Nas análises de crianças, quanta brincadeira pode acontecer até que o analista vislumbre algo útil? Por que se perde de vista que a mesma situação é igualmente importante na análise de adultos? Numa peça de teatro, em que os atores brincam, se não houver prazer na brincadeira, a peça tende a se tornar maçante e pouco estimulante tanto para os atores quanto para os espectadores.

Há alguns anos, em entrevista à jornalista Marília Gabriela, Cassio Scapin e Karin Rodrigues, ao serem indagados, confirmaram que o grande Paulo Autran frequentemente fazia brincadeiras que desconcertavam os colegas de palco durante as representações, brincadeiras que só eram percebidas por eles, e não pelo público. A meu ver, ele estava sempre se lembrando e lembrando aos demais que aquilo era uma brincadeira, elemento do qual não deveriam se esquecer. Como Freud destacou, brincadeira é algo sério. A possibilidade de brincar seriamente também no atendimento de adultos nos pareceu muito relevante, e por isso estamos propondo esse tema para o próximo número da rbp.

Como diz Bion, “nosso problema aqui envolve não apenas sermos capazes de pensar intelectualmente, mas também sermos capazes de sentir emocionalmente. Deixe-me colocar a questão novamente: a que pensamentos selvagens e a que sentimentos selvagens vocês estão preparados a dar um lar?” (2005, p. 76).

Os trabalhos com essa temática deverão ser entregues para avaliação até o dia 20 de setembro de 2024.

1Em inglês, uma peça de teatro é uma play (brincadeira), e os atores, ao atuar, play (jogam, brincam). Em francês acontece o mesmo com a atividade dos atores: ils jouent (brincam, jogam).

Referências

Bion, W. R. (2005). The Italian seminars. Karnac. [ Links ]

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