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Revista Brasileira de Psicanálise

versão impressa ISSN 0486-641Xversão On-line ISSN 2175-3601

Rev. bras. psicanál vol.58 no.3 São Paulo  2024  Epub 28-Mar-2025

https://doi.org/10.69904/0486-641x.v58n3.05 

Temáticos

O brincar na psicanálise e as vias da simbolização

El juego en el psicoanálisis y las vías de simbolización

Playing in psychoanalysis and the pathways to symbolization

Le jeu en psychanalyse et les voies de la symbolisation

Bernardo Tanis1 

Doutor em psicologia clínica.

1Membro efetivo e ex-presidente da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo (SBPSP). São Paulo


Resumo

O autor busca esclarecer a ideia winnicottiana de que a psicoterapia se efetua na sobreposição de duas áreas do brincar, a do paciente e a do terapeuta, de modo que o brincar não se restringe ao brincar infantil, mas está na raiz dos complexos processos do vir a ser, e como tal é um elemento constitutivo de todo e qualquer processo analítico. Endossa a perspectiva de que o brincar, ao lado do sonhar, constitui um dos dois processos fundamentais que promovem a capacidade de representação, simbolização e criatividade - criatividade compreendida no contexto como criação do mundo objetal e da própria experiência de existir.

Palavras-chave: brincar; simbolização; ato; sonho; criatividade

Resumen

El autor trata de aclarar la idea winnicottiana de que la psicoterapia tiene lugar en la superposición de dos áreas de juego, la del paciente y la del terapeuta, de modo que el juego no se restringe al juego infantil, sino que está en la raíz de los complejos procesos del devenir, y como tal es un elemento constitutivo de cualquier proceso analítico. En este sentido, considera que el juego, junto con el sueño, es uno de los dos procesos fundamentales que promueven la capacidad de representación, simbolización y creatividad - creatividad entendida en este contexto como la creación del mundo objetal y de la propia experiencia de existir.

Palabras clave: juego; simbolización; acto; sueño; creatividad

Abstract

The author seeks to clarify the Winnicottian idea that psychotherapy takes place in the overlapping of two areas of playing, that of the patient and that of the therapist, so that playing is not restricted to infantile playing, but is at the root of the complex processes of becoming, and as such is a constitutive element of any analytical process. He endorses the view that playing, alongside dreaming, is one of the two fundamental processes that promote the capacity for representation, symbolization and creativity - creativity understood in this context as the creation of the object world and of the very experience of existing.

Keywords: playing; symbolization; act; dreaming; creativity

Résumé

L’auteur cherche à clarifier l’idée winnicottienne selon laquelle la psychothérapie se déroule dans le chevauchement de deux zones de jeu, celle du patient et celle du thérapeute, de sorte que le jeu ne se limite pas au jeu infantile, mais se trouve à la racine des processus complexes du devenir et, en tant que tel, est un élément constitutif de tout processus analytique. Il soutient l’idée que le jeu est, avec le rêve, l’un des deux processus fondamentaux qui favorisent la capacité de représentation, de symbolisation et de créativité - la créativité étant entendue dans ce contexte comme la création du monde des objets et de l’expérience même de l’existence.

Mots clés: jeu; symbolisation; acte; rêve; créativité

A psicoterapia se efetua na sobreposição de duas áreas do brincar, a do paciente e a do terapeuta. A psicoterapia trata de duas pessoas que brincam juntas. Em consequência, onde o brincar não é possível, o trabalho efetuado pelo terapeuta é dirigido então no sentido de trazer o paciente de um estado em que não é capaz de brincar para um estado em que o é.

D. W. WINNICOTT, O brincar e a realidade

O texto usado como epígrafe é inúmeras vezes citado como o paradigma da análise na perspectiva winnicottiana. No entanto, assim como outros motes a modo de aforismo de grandes pensadores da psicanálise - a mulher não existe (Lacan), a fantasia é expressão mental dos instintos (Isaacs/Klein), pensamentos sem pensador (Bion) -, merece que nos debrucemos sobre ele para procurar compreender seu alcance clínico e seu potencial transformador do sofrimento psíquico. Vivemos um tempo de simplificação e banalização, de palavras de ordem, de um certo repúdio e desqualificação do pensamento, no qual determinados bordões se acomodam bem a uma superficialidade reinante nas práticas clínicas e na nossa cultura em geral.

Neste breve texto, pretendo contextualizar a potência dessa concepção e formular algumas ideias sobre por que ela ganha um estatuto tão relevante. Esse exercício tem sido a tônica de um seminário que venho oferecendo há alguns semestres no instituto da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo (SBPSP), As Noções de Sujeito na Psicanálise e suas Implicações Clínico- -Teóricas, e também em grupos de estudo em torno de Leituras Críticas em Psicanálise Contemporânea. Não se trata de um exercício de exegese ou de algum tipo de hermenêutica do texto original, muito em voga nos anos 70 e 80 em torno do texto freudiano, mas sim de resgatar o potencial heurístico teórico-clínico de certas formulações que, muitas vezes condensadas, são a expressão criativa e potente dos autores.

Contexto necessário

Uma passagem pelo modelo do sonho se faz necessária para uma aproximação ao brincar, sem a qual não teríamos acesso à dimensão inovadora que essa perspectiva oferece para a psicanálise e ao porquê ela não se restringe apenas à criança, mas abarca a clínica em seu conjunto. Desse modo, segue-se uma breve retomada do sonho.

O sonho e o ato estão na base do fazer psicanalítico; assim, a compreensão desses fenômenos atravessa nosso cotidiano clínico. Eles contemplam os pilares da constituição da subjetividade e das possibilidades e limites do nosso conhecimento.

Sabemos que a representação, numa perspectiva psicanalítica, tem variadas formas, e que sua natureza é heterogênea. Mergulhada no mais profundo do universo pulsional, afetivo e emocional, adquire desde a marca de sua origem (corporal/pulsional e de encontro com o objeto) até o seu registro psíquico: representante da pulsão, representante afetivo, representação de coisa, representação de palavra (Freud) - seu percurso, transformação e destino se configurando desde Freud, no dizer de André Green, como a representação-meta da psicanálise.

O sonho foi compreendido, no contexto da primeira tópica freudiana, como testemunho de um trabalho psíquico que disfarça e revela um conflito, via régia que vai ao encontro do desejo sexual infantil recalcado, à procura de uma identidade de percepção das primeiras experiências de satisfação. Desejo que se vincula aos primeiros embates com o objeto da pulsão. O sonho comporta uma primeira teoria da representação inconsciente e do trabalho de sentido a partir do enlace possível do investimento pulsional da representação de coisa inconsciente com a representação de palavra.

A ideia de limite da representação põe em pauta o âmago da psicanálise contemporânea: a tensão dialética entre a representação e o irrepresentável, enraizada clinicamente no percurso freudiano na tensão entre força (campo da pulsão) e sentido (campo da representação e da linguagem), na compulsão à repetição, que ganha estatuto metapsicológico na passagem da primeira para a segunda tópica.

Freud propõe um olhar mais acurado sobre o traumático, o não representado e o irrepresentável. Cabe lembrar que, para ele, o irrepresentável, mesmo na versão do incognoscível da coisa em si kantiana, não é da ordem nem do biológico nem do místico, mas sim de algo que demanda um trabalho de representação e sentido, deixando sempre um resto - o umbigo do sonho. Estamos no campo da realidade psíquica.

Uma nova tópica será formulada para dar lugar às novas descobertas, às novas defesas mais drásticas (clivagem, recusa) frente aos conflitos com a realidade, a pulsão e os objetos, que tornarão mais complexos os processos de simbolização, os quais até então pareciam garantidos pela existência do recalque e do processo secundário. As ideias de id e pulsão de morte não implicam a renúncia à representação, mas esta, se já era heterogênea desde a perspectiva psicanalítica da primeira tópica, fica agora muito mais complexa. Firmam-se assim as bases do que será nossa clínica atual. “Tornar consciente o inconsciente” se complementa com “Wo Es war, soll Ich werden” (“Onde era o id, eu devo advir”), acrescentando-se ainda o potencial traumático - pela sua inadequação, ausência ou intrusão - do objeto. Desse ponto partem os grandes analistas pós-freudianos: Ferenczi, Winnicott, Bion, Lacan, Green, Laplanche e outros.

Perante essa nova formulação do processo representativo, a compreensão do sonhar não poderia ficar inabalada.

Convergem aqui ideias iniciais de Freud com modelos de importantes autores, como Meltzer, Bion e Money-Kyrle, e com aportes da neurobiologia, atenta aos processos transformativos, de simbolização e epistemológicos promovidos pelo sonhar. Vale dizer: as múltiplas possibilidades de representação/tradução, nas suas diferentes acepções. Hoje reina certo elemento consensual entre analistas: a semiose infinita do sonho no contexto do processo analítico.

Adentremos então um pouco mais na direção da forma, semiose e função do sonhar. A dimensão traumática e intraduzível do encontro com o outro primordial, com a realidade nas suas formas, assim como o registro das intensidades pulsionais, nos convoca hoje a avançar nas fronteiras dos processos intersemióticos e representativos presentes na clínica do sonho. Essa constatação vai ainda mais longe, na medida em que a própria ideia de passagem para a imagem (via perceptiva) como condição da representação simbólica pode ser questionada como única via possível. Não é à toa que muitos analistas se aproximam de modelos da estética, da filosofia das formas simbólicas, da semiótica…, modelos de transformação da matéria bruta em signos de maior complexidade. Assim como aceitamos a heterogeneidade do psíquico e as vias de perlaboração (Roussillon, 2008/2016) e simbolização, devemos estar cientes - pois é o que constatamos na clínica - de que nenhuma semiose é traduzível por inteiro ao verbal. Ocupamo-nos do sonho como expressão simbólica de um trabalho psíquico, mas também da própria capacidade de sonhar/de transformar que ele propicia, vale dizer, das falhas do aparelho do sonhar que impedem o processamento das experiências, que se transformam em traumáticas pela impossibilidade de serem sonhadas/representadas em formas simbólicas.

Segundo Levine (2016), porém, essas referências apresentam problemas epistemológicos, na medida em que alteram em parte a base sobre a qual a técnica psicanalítica se sustenta. O autor ressalta que a referência à “fraqueza” ou ausência de representação não necessariamente implica a total falta de “registro” ou “inscrição” na psique ou no soma, mas diferentes níveis ou gradientes de “registro” ou “inscrição”, em que a representação está no nível mais organizado e avançado. Em relação ao processo de sonhar, sustenta que precisamos indagar se algo que ainda não é ou é apenas potencialmente psíquico pode estimular ou entrar na produção de um sonho. Se for, que tipo de sonho se produziria (por exemplo, satisfação de desejo, evacuativo, traumatolítico etc.) e como se reconheceria esse sonho? É possível que, a não ser e até que ocorram transformações, certas inscrições e experiências que os sonhos refletem permaneçam não sonhadas e não sonháveis. Talvez elas sejam o que podemos chamar de sonhos-em-busca-de-formação ou ainda-não-são-mas-algum-dia-poderão-ser-sonhos.

Voltemos nosso olhar para a direção do ato que tensiona a ideia de sonho. Talvez transitemos por territórios menos consensuais. Isso não é mau. Contextos de máxima expressividade e mínima representação (Green) evocam as diferentes modalidades de repetição: o agieren (o ato), a passagem para o ato, o acting-out, o enactment, que demandam uma discriminação de seu lugar na clínica e dos diferentes estatutos metapsicológicos. Não apenas subvertem o enquadre, o setting clássico (Bleger). Alguns desses mecanismos têm sido apreendidos não só como resistência, mas como tentativas precursoras de novos processos de sentido e simbolização.

É bastante difundida a ideia de que tudo o que é ato, tudo o que é motor, deve ser antes transferido para o visual e, em seguida, para a representação de coisa. E que as representações de coisa devem ser transferidas para o aparelho de linguagem. O setting clássico favorece essa compreensão. Sem dúvida, é um movimento fundamental do sonhar e precursor da simbolização, em destaque nos trabalhos de Bion e, mais recentemente, nos de Botella, Ogden e Ferro, para citar alguns dos que mais circulam em nosso contexto.

Mas constatamos que alguns analisandos se expressam sob a forma de ato, sob a forma de movimento - por exemplo, quando se levantam ou gesticulam durante a sessão. Segundo Roussillon, “ela não me fala disso, mas me mostra. Mantenho então o olho/escuta, a sensibilidade afetiva/escuta” (Andrade et al., 2012, p. 112). Para o autor, existe uma polimorfia da associatividade e é preciso ter uma escuta polifônica para apreender as diferentes modalidades de expressividade. Essa escuta se abre pela via inaugurada por Winnicott do brincar, das diferentes funções do objeto, da transicionalidade, da terceiridade e de elementos que a compõem, no novo campo criado analista-analisando.

Podemos nos indagar, como fazem as editoras da Revue Française de Psychanalyse em número especial dedicado ao ato:

Algumas análises teriam um passo necessário pelo ato (R. Roussillon) para alcançar o arcaico? … Ou a ausência de qualquer ação, a adesão ritualizada ao enquadre, fetichizada em parte, refletiria uma idealização, perpetuando um falso self e um conluio que corresponde a um setor clivado desconhecido e desligado? Haveria outros modelos para além da reverie com vias de criar representações? (Bourdellon & Papageorgiou, 2006, p. 8)

Talvez nas configurações em que dominam a inibição, a não ação frequente na adolescência, a tristeza, o isolamento narcisista, seja possível perceber o efeito anti-mentalisation da retirada relacional. A reintegração de elaboração do ato ou pelo ato poderia restabelecer uma área do brincar dinâmica e intrapsíquica. O espaço psíquico pode evidenciar o ato (o paciente ou o analista) que vai reabrir a conflitualidade negada ou clivada.

Como entender melhor a distinção entre a ação específica, que se abre para a experiência de satisfação, e o agir, evacuativo, mera descarga que se opõe à mentalização? Para esse efeito, André Green (2012/2017) oferece a ideia de julgamento de ação, que complementa o julgamento de atribuição e o juízo de existência de Freud.

Pelo dito anteriormente e seguindo Green e Roussillon, Freud não faria sempre uma equivalência entre ato e fuga (como defesa ou resistência).

O inconsciente continua a ser ativo. O ato é essência transgressora. Ele traz algo novo. Ele tem um potencial regressivo, desorganizador, mas também criativo. Poderia traduzir a variação da capacidade de negociação do eu com a alteridade interna e externa?

Assim, tanto o limite da representação quanto as múltiplas formas de conquistá-la instigam. A psicanálise nos convida a um olhar reflexivo para a multiplicidade das formas, gestos e línguas, as múltiplas vias do desejo e da simbolização expressas no modelo do sonho, da historização, seja no agieren ou no modelo do brincar, que examinaremos a seguir, como elementos que se conjugam no exercer criativo e ético da psicanálise na sua abertura para o outro.

Brincar e simbolização2

O clássico modelo do brincar, conhecido por todos os analistas como fort-da, observado por Freud e analisado em Além do princípio do prazer (1920/2010), é concebido como paradigma de uma primeira articulação significante, que determina uma tentativa de elaboração da emergência de uma repetição desagradável que afeta o infans. Embora conhecido, cabe retomar o jogo do fort-da tal como descrito por Freud, como uma brincadeira que consistia na desaparição e no surgimento de determinado objeto. Em certa oportunidade, Freud repara que o neto atirava o objeto sobre a borda de sua cama segurando-o pelo cordão, de modo que o carretel desaparecesse junto à emissão de um expressivo som o-o-o (interpretado por Freud e familiares como fort, correspondente a “ir embora” em alemão). Posteriormente, puxava o objeto e, quando este aparecia, emitia um da (ressignificado por “ali”, “retorno”). Freud interpreta o jogo do fort-da como uma encenação das partidas e dos retornos da mãe do seu neto, ausência-presença, passagem/elaboração de atividade-passividade. Embora a ida/saída da mãe fosse desprazerosa, o jogo aparece como uma conquista cultural/simbólica. A insatisfação pulsional pode ser contornada por meio de uma função simbolizante do brincar, que abre novas perspectivas, uma apropriação subjetiva (conceito de Roussillon) da vivência de insatisfação, o nascimento de um sujeito.

O brincar, junto com o sonhar, constitui um dos dois processos fundamentais que promovem a capacidade de representação, simbolização e criatividade - criatividade compreendida como criação do mundo objetal e da própria representação de si.

Green (2012/2017) e Roussillon (2012/2019) nos mostram claramente dois modelos sustentando a transformação da matéria bruta da experiência e suas inscrições: o modelo do sonho e o modelo do jogo.

Por muito tempo, a psicanálise privilegiou o primeiro, matriz fundamental, cuja origem data do “Projeto” freudiano e com a qual, com base na obra A interpretação dos sonhos, Freud dá sustentação à primeira tópica. Como descrito antes, esse modelo sofre profundas alterações na segunda tópica. Com a proposta das instâncias e com a entrada em cena da pulsão de morte e do traumático, alarga-se a concepção do sonho, agora visto também como espaço de elaboração/ligação possível do traumático. Autores como Bion e outros analistas contemporâneos (Ogden, Botella, Green etc.), inspirados nas ideias em torno da identificação projetiva, do fenômeno da reverie e da origem do pensamento, enfatizam o modelo do sonho como campo transformativo. O sonho também serve de modelo privilegiado para a sessão analítica. Não vou me estender sobre esse ponto bastante conhecido e difundido entre os analistas brasileiros.

Desde outra perspectiva, também aberta por Freud a partir da sua análise do jogo do fort-da em Além do princípio do prazer, Freud inaugura, e com grande estilo, um segundo modelo, que terá em Winnicott um de seus expoentes mais criativos: nele, o brincar, o fazer e o ato não mais serão concebidos como acting-in ou acting-out, nem como ataque ao pensamento, mas como modalidades alternativas de transformação, simbolização e criação. Quando falamos em criação, nós o fazemos da perspectiva de processos de engendramento do sujeito subjetivo.

Quais seriam as condições de tempo e espaço para o jogo efetivar sua capacidade simbolizante? Quando e em que contexto poderá se tornar um simples passatempo, e em que circunstâncias uma experiência alienante é aditiva? É possível, como sabemos, diferenciar modalidades de brincar e os distintos contextos em que acontecem. A diferença entre jogar (game) e brincar (play) é decisiva. Sem criar uma barreira intransponível entre os dois, o brincar alude a algo mais solto e menos regrado, privilegia a imaginação; o brincar ocupa, como assinala Winnicott (1971/1975), o espaço-tempo da transicionalidade, que envolve um modo bastante particular da presença do outro.

Além da inspiração freudiana que ele mesmo havia evocado, foi claramente em resposta a Melanie Klein que Winnicott elaborou sua teoria do brincar. Sabe-se que foi Klein (1930/1996, 1926/1997) quem elevou o jogo ao status de associação livre, o que lhe permitiu, de modo brilhante, inaugurar e desenvolver a psicanálise com crianças. A técnica do jogo foi a solução encontrada para superar as dificuldades inerentes à análise infantil, concebendo-o como um modo de expressão das fantasias inconscientes da criança.

Herdeira dessa tradição, a abordagem de Winnicott foi elaborada distanciando-se dela em três aspectos:

  • - a prioridade dada à experiência sobre a interpretação;

  • - os efeitos dessa prioridade na teoria da análise em geral;

  • - o tom luminoso que o jogo (na versão do brincar) dá à sua teoria.

O tom winnicottiano na abordagem do brincar desenvolveu-se como reação a certo pessimismo kleiniano, como Hinshelwood (1989) aponta eloquentemente. Diz ele que, para Klein, brincar “não é divertido. … O jogo … tem um aspecto desesperado e é na verdade uma forma de defesa: expulsão ou projeção. Esse recurso do jogo é bastante sombrio e pessimista. … É para aliviar esses estados internos perseguidos” (p. 14).

Continuemos nossa argumentação com o modelo conhecido por jogo da espátula, origem do paradigma winnicottiano. Em “A observação de bebês em uma situação estabelecida” (1941/1993), Winnicott conta que recebia o bebê com sua mãe, colocava uma espátula na mesa e aguardava o gesto da criança. Nessas observações com várias crianças, constatou a manifestação de um período de hesitação, no qual, apesar de mostrar interesse, o bebê não se precipitava em direção à espátula nem a pegava. Posteriormente, se não houvesse interferência da mãe nem de Winnicott, a hesitação era superada. O bebê então se apropriava da espátula e realizava algum tipo de jogo com ela. Segundo Winnicott, a experiência completa dava ao bebê o que ele denominou de lição de objeto. Havia acontecido uma experiência que o tinha transformado.

Muito resumidamente, segundo Winnicott, o bebê havia tido a oportunidade de criar o mundo e a si. Nesse rico texto, fala-nos de bebês com inibições em face de um olhar materno superegoico e de outros casos em que o fluir da experiência é inibido.

Destacamos de maneira muito esquemática alguns modelos, que evidentemente merecem aprofundamento.

1) O modelo do fort-da, como uma experiência que representa (simboliza) o efeito de uma ausência, contempla a repetição, o incômodo, e também manifesta certo grau de agressividade. Para Lacan (1964/1988), essa ausência ganha o sentido de um corte, uma noção ampla da castração que produz no nascimento do sujeito. Pois o jogo do carretel é a resposta do sujeito àquilo que a ausência da mãe veio criar na fronteira de seu domínio - a borda do berço -, isto é, um fosso em torno do qual ele nada mais tenha senão o jogo do salto. Esse carretel não é a mãe reduzida a uma bolinha; “é alguma coisinha do sujeito que se destaca embora ainda sendo bem dele, que ele ainda segura” (p. 63)

2) O jogo, que segundo a leitura kleiniana obedece a uma lógica de fantasias inconscientes e que contemplam principalmente aspectos projetivos.

3) O modelo winnicottiano, que põe o brincar (playing) no contexto transicional e intersubjetivo. O outro ganha aqui um papel de extrema relevância. Por fim, teríamos os conjuntos de regras, que também permitem a manifestação de aspectos estruturais de organização psíquica e são tão comuns em latência (se é que esta ainda existe, mas esse é um assunto para futuros debates).

Se o fort-da emerge como jogo estruturante do sujeito, dando lugar à emergência da simbolização como transformação da experiência bruta e seu mal-estar, o jogo da espátula também tem, de outra perspectiva, função estruturante, como possibilidade de nascimento do sujeito a partir do gesto espontâneo perante o outro. Outros jogos, que se dariam em tempos posteriores da estruturação do psiquismo, não apenas cronologicamente, mas também estruturalmente, no que se refere à instauração dos processos de simbolização, já não teriam esse potencial.

O brincar na análise e suas modalidades

Há algumas diferenças3 entre o modelo do brincar do fort-da e o modelo que se desprende do jogo da espátula. No primeiro, embora exista o objeto que observa o brincar da criança, esse brincar tem uma característica mais solitária; ele pressupõe já uma capacidade de estar só na presença de alguém, vale dizer, um recurso simbólico já presente na criança, que a torna mais independente na sua capacidade de elaboração. No modelo descrito por Winnicott (1941/1993) com o jogo da espátula, a presença do objeto é fundamental enquanto outro sujeito. Trata-se de um espaço entre sujeitos; há um campo intersubjetivo no qual a experiência acontece.

A primeira modalidade aponta a dimensão mais clássica da simbolização, a capacidade de representar o objeto na sua ausência - no caso, a mãe. A esse modelo, que não é apenas psicanalítico, mas que sustenta teorias de simbolização na linguística e na filosofia, Roussillon chamará de simbolização secundária; pressupõe o recurso da representação vinculada à representação de palavra. O modelo que Winnicott apresenta será assimilado por Roussillon à simbolização primária, a passagem ao princípio do prazer de experiências que ainda não foram ligadas, experiências que dependem da presença do objeto enquanto sujeito para contribuir no processo de vinculação. Seguindo a trilha inaugurada por Winnicott, nos encontramos no campo do traumático, daquilo que se repete compulsivamente sob a chave de um masoquismo ou de somatizações. Está em jogo o lugar ocupado pelo outro como agente/sujeito na presença. Para a análise, significa uma presença no campo transferencial que não obedece ao registro da evocação, mas que dá lugar, potência ao constituído, permitindo - através dessa presença brincante - a emergência de um sujeito nascente, espaço da ilusão e da possibilidade de criar a si mesmo na relação com o outro.

Surgem então desafios interessantes para a clínica em relação ao meio (objeto/analista, ambiente, setting, enquadre) que oferecemos aos nossos analisandos, sejam eles bebês, crianças, adolescentes, adultos ou idosos (que cada vez mais procuram análise).

São duas ideias/conceitos que se complementam e fornecem subsídios indispensáveis para a experiência de simbolização na presença do objeto, que sem excluir possibilitam processos que obedecem a outras funções subjetivantes, para além das clássicas funções de para-excitação (Freud) e de continente e consequente reverie do analista (Bion).

Trata-se aqui da utilização do objeto e do objeto (analista) como meio maleável. Estarão em pauta respectivamente a capacidade de suportar e “sobreviver” à agressividade e aos ataques do analisando e, ao mesmo tempo, a disponibilidade de adaptação às necessidades primárias dele.

Ora, podemos pensar de que maneira isso se relaciona ao brincar. Evidentemente, percebemos que a riqueza desse brincar vinculado à simbolização primária está bastante distante das nossas ideias do brincar do senso comum. Trata-se justamente do brincar capaz de conter o impulso pulsional do analisando, de modo que ganhe reconhecimento no interjogo com o analista. Essa disponibilidade de estar com, afetiva e receptiva, permite a expansão de uma potencialidade que aos poucos poderá ganhar representatividade psíquica, não pelo luto devido à ausência do objeto, mas pela qualidade da presença.

Devemos estar atentos ao fato de que esses primeiros movimentos não são substitutos do sonho ou da simbolização secundária por meio das diferentes formas e linguagens, mas modos pelos quais uma intersubjetividade primária oferece tempo e espaço para o acontecimento e o ato, que não será interpretado apenas como descarga pulsional ou atuação (acting nas suas diferentes modalidades), e sim como gesto espontâneo com potencial criativo, de criar o mundo e a si mesmo na presença de um objeto (analista).

Essa seria a modalidade de brincar a que Winnicott se refere na epígrafe deste trabalho e que Roussillon expande nos casos mais severos de traumas narcísico-identitários. Ganha sentido a frase de Winnicott: a análise se dá na intersecção entre as duas áreas do brincar, a do paciente e a do analista, e quando, pelas vicissitudes de uma história traumática, essa área não se desenvolveu no analisando, há a esperança de um encontro na presença de um objeto maleável (analista) suportar os ataques oriundos da privação e da desesperança, para que o novo possa advir.

Não coube no espaço deste trabalho apresentação de material clínico, mas para aqueles que quiserem se aprofundar nessa temática sugiro a leitura de outro texto (Tanis, 2014), no qual o tema é desenvolvido em torno de uma situação clínica.

2Este item retoma uma análise desenvolvida em Tanis (2022).

3Para uma leitura mais detalhada sobre as diferentes modalidades do brincar, remeto o leitor a Roussillon (2012/2019, p. 251).

Referências

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Recebido: 12 de Setembro de 2024; Aceito: 26 de Setembro de 2024

Bernardo Tanis bernardo.tanis@gmail.com

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