Rita Segato é uma antropóloga argentina, reconhecida internacionalmente pelos trabalhos em torno do feminismo, da violência contra as mulheres, das religiões de matriz africana e dos julgamentos criminais, sendo pioneira no desenho de propostas de cotas para estudantes negros e indígenas, na Universidade de Brasília (UnB), onde lecionou entre 1985 e 2010.
A leitura de Rita Segato me transportou a uma memória antiga: a fala de Ferreira Gullar, que remonta a seu exílio, durante a ditadura brasileira, em países da América Latina. Naquele momento, ele se encontrava em Lima, na companhia de Darcy Ribeiro, que o convidou para um jantar na casa de uma amiga, artista plástica peruana, onde ouviu essa frase do filho dela. Gullar relatou a cena com humor e destacou a identificação fenotípica que o rapaz fez dele com a população peruana: cholos. Índios, precarizados, peles morenas, cabelos lisos, lábios grossos, que destoam dos ambientes burgueses das elites brancas locais. O livro de Rita Segato nos ajuda a reconhecer a questão das racializações presentes em todos os países colonizados e que hoje trazemos para a reflexão.
Antes de mergulharmos nos ensaios surpreendentes e tomarmos contato com o modo de pensar da autora, cabe entender o que ela denomina antropologia por demanda – práxis no mínimo impactante, que nos inspira a deslocarmos essa chave, quase numa transferência automática e necessária, ao campo da psicanálise.
Rita Segato propõe que nosso olhar seja dirigido ao outro, objeto de estudo, não com a mera finalidade de conhecê-lo, mas com a possibilidade de nos conhecermos no olhar do outro. Até que ponto essa torção se faz método e ética? E pode ser pensada em outros campos do conhecimento, como a psicanálise? Tal abordagem parece fazer sentido quando nos voltamos, por exemplo, às realidades que sempre estiveram em nós, ao nosso redor, e que insistimos em negligenciar. E aqui me dirijo às ações de equidade e diversidade que trazem tantas tensões para o campo de trabalho e para o mundo institucional, e que tumultuam a inexorável relação sujeito-objeto, o outro como fora, externo. Conceitos como extimidade comparecem e abalam nossa ética e método.
Dentro dessa proposta, o objeto ao qual nos dedicamos passa a nos interpelar de forma incontornável e a criar uma espiral de questionamentos, que demandam não apenas velhas e conhecidas ferramentas, mas também outras, que se constroem na relação ética que passamos a estabelecer com o campo do conhecimento.
Ainda a título de apresentação de seu método e contribuição ao campo da antropologia, Rita questiona e complexifica a proposta de neutralidade: a autora enfatiza que nossa opção teórica, num primeiro momento, não guarda nada em comum com a neutralidade; muito pelo contrário, revela uma postura político-ética do pesquisador. Essa escolha guarda em si um recorte que fazemos do mundo, de nós no mundo e de nossa aposta na práxis, precedida por uma escolha que fala de nós. Na psicanálise, isso fica muito claro: alguns fundamentos metapsicológicos, que Rita nomeia de caixa de ferramentas, nortearão nossa proposta de trabalho diante dos sofrimentos que escutamos. Já as questões que vão surgindo da prática nos convocam a entrar em contato com áreas sempre novas, que brotam do contato com esse outro, que reconfigura nosso olhar, nossa escuta, as imagens que formamos dos mundos.
Rita nos apresenta um pensador e sociólogo peruano, Aníbal Quijano (1928-2018), seu grande mestre nas questões da colonialidade, que desenvolveu o conceito de colonialidade do poder – um operador interessante para nos debruçarmos sobre a questão da colonialidade, que há poucos anos passou a ser tematizada. O próprio desconhecimento dos estudos de Quijano entre nós, brasileiros, reforça a ideia da colonialidade que emana do hemisfério norte e nos blinda em relação às produções da América Latina. Tal autor invoca a raça para compreender melhor as desigualdades; sua hipótese é de que o conceito de raça é produto do grande empreendimento colonial. E vai além: a partir da exploração das colônias, criou-se o sentido de Europa, bem como a escravidão criou os negros e a própria África (“Eu não sofri racismo por ser negra. Eu sou negra porque sofri racismo” – Grada Kilomba).
A partir da leitura de seus textos, vai se configurando um “combo” raça-classe-gênero – e qualquer ordem dos termos pode ser acionada –, que funciona como marcador de desigualdades, poder, violência. Marcador que transforma as questões numa binariedade atroz, marcando a relação colonizador e colonizado, em que poder e violência se retroalimentam e resultam em grandes parcelas de grupos excluídos, violentados, injustiçados. Tais reflexões, tendo como pano de fundo o governo Trump, recém-empossado, que une poder e tecnofeudalismo bilionário, agitam nossa caixa de ferramentas, precária diante de tanta barbaridade...
Rita mostra que o processo de colonização incide sobre gênero e raça de forma cruel, erigindo um ideal que preconiza a supremacia do homem branco, capaz, potente – esse, sim, digno de privilégios em virtude de seus méritos. Biologia desistoricizada vira destino e passa a ser naturalizada. Em razão desse movimento, cabe a nós pensarmos se, ao propormos pautas antirracistas, seremos confundidos com militantes do identitarismo, o que nos coloca em espelho com esse pensamento que fetichiza e reifica raça, gênero, classe.
Também podemos localizar os colonizadores internos, que passam a praticar a ideologia que vem do outro poderoso. Esse processo é apontado no livro em relação à chamada criolização, que ainda ocorre nos países de colonização espanhola. O criollo local, filho de espanhóis, morador dos novos mundos, passa a reproduzir o papel de senhor, torna-se o colonizador local – o que também não exime as populações ancestrais de participarem dessa ideologia.
O tema da miscigenação aparece em alguns ensaios: se, por um lado, pode representar uma forma pacífica de convivência entre os povos originários e os que chegam, por outro, carrega uma face ilusória. O exemplo brasileiro que remonta às teses de Gilberto Freyre merece ser problematizado: a mistura continha um projeto de branqueamento, em detrimento da afirmação dos povos originários. Misturar para branquear – esse era o projeto nacional –, e não misturar, reafirmando o terroir de cada etnia ou grupo. Hoje assistimos a movimentos potentes, que visam o resgate da história e das origens, e a afirmação dos povos que eram os habitantes das terras invadidas.
Um ensaio do livro, em especial, atrai nossa atenção: “O Édipo negro: colonialidade e forclusão de gênero e raça”. Tema que chamou a atenção de Rita ao se deparar, no museu de Petrópolis (RJ), com um pequeno retrato, sem autoria, sem legenda, que ilustra a capa do livro. Um bebê branco, que apoia uma de suas mãozinhas no seio da mulher negra que o carrega. Esse quadro coloca interrogantes sobre a forclusão dessa relação afetiva e íntima com a outra mãe, a mãe negra. Para nós, psicanalistas, que podemos puxar nossa caixa de ferramentas, é um assunto que nos remete aos mecanismos de defesa diante do afeto que está por trás do racismo e da difícil convivência entre os diversos que decidiram ficar por aqui, que nos distancia, sobremaneira, do mito da democracia racial ou da afirmação/desmentida de que o Brasil não sofre de preconceitos ou racismo.
Um livro do colega peruano Jorge Bruce, cujo título nos provoca curiosidade, Nos habíamos choleado tanto: psicoanálisis y racismo (2007), pode dialogar de forma fértil com as ideias de Rita. O autor inquieta-se diante da constatação de que os psicanalistas pouco tratam de racismo em seus territórios e nos oferece uma aula da história das fronteiras traumáticas que o Peru abarca, com sua diversidade e conflitos, tratadas como segredo e que mantêm a marca traumática de origem. Os cholos, bem explicados pelo autor, nos remetem aos mulatos, pretinhos, sararás, cabelos duros, aqui praticados, que escondem, atrás de uma brejeirice de fachada, afetos traumáticos que também têm a ver conosco, brancos. Jorge Bruce apresenta sua clínica e faz bom uso de sua caixa de ferramentas, acompanhado por Freud, Green, Bettelheim, Bollas, Winnicott, Piera Aulagnier, Castoriadis, Žižek etc., nos dizendo que sim, parece possível uma práxis inquieta, interrogante. E se pergunta e nos pergunta: afinal, qual a erótica do racismo? Como opera na transferência? Nas palavras de Bollas (1987), como levantar a inibição do unthought known, reconhecendo seu caráter universal e avassalador?
Os ensaios de Rita Segato nos alertam para a importância de conhecermos as travessias, as histórias locais, os quadros sem legenda, que compõem nossos imaginários e que hoje não mais se sustentam. Parece que a autora abre um diálogo importante para os psicanalistas ao nos convocar a escutar a história transmitida com maior desconfiança e a olhar seus restos e o sofrimento psíquico que os afetos raciais deixam como rastros. A conversa da antropologia por demanda, proposta pela autora, pode tumultuar nossas certezas e favorecer novas escutas, olhares e sentidos.













