Introdução
Pretendemos refletir sobre a proposta de trabalho do working party Sobre a Especificidade do Tratamento Psicanalítico Hoje (wpsetph), particularmente sobre a capacidade de um grupo de analistas, em uma sessão “interanalítica”, de associar livremente, “sonhar” (Bion, 1962, 1970) e apreender a emocionalidade e os aspectos representados e não representados do inconsciente de uma dupla analítica. Supõe-se que essa capacidade de associação livre e de apreensão do inconsciente ocorre pela capacidade de grupo de “sonhar” (Bion, 1962, 1970) o material clínico apresentado e formar imagens e metáforas de alto poder evocativo. Ademais, colocaremos em destaque a pluridiscursividade que acontece num grupo desse tipo, em que se entrelaçam as dimensões intrapsíquicas, intersubjetivas e transobjetivas.
O grupo
Façamos um esforço imaginativo. Estamos em um grupo do wpsetph. Os moderadores dão as primeiras consignas sobre o funcionamento grupal, e uma analista - comprometida a permanecer em silêncio após a apresentação de cada sessão analítica - começa a ler a sessão dialogada. O grupo está atento e escuta o material clínico dialogado; uns fazem anotações, outros estão recostados em suas cadeiras de olhos fechados, enquanto outros simplesmente escutam.
O grupo não recebeu nenhuma informação a respeito do paciente nem do processo analítico, mas, na leitura realizada pela analista na primeira sessão, o paciente comenta que está há seis anos em análise, casado há 14 anos e que teria buscado se analisar porque traía e mentia para o seu companheiro. No transcurso das leituras das sessões, tanto a analista quanto o paciente aludem a uma traição ocorrida entre a dupla analítica, sem que o material lido esclareça a que traição se referem. O conteúdo manifesto do paciente é bastante repetitivo, apresentando várias vezes menções às suas dificuldades financeiras e à insatisfação diante de seu atual contexto laboral.
Inicialmente, chama a atenção do grupo a postura pouco interpretativa da analista, que faz, nas palavras de uma participante do grupo, um “jogo investigativo” com o paciente, tentando ampliar e insaturar o discurso e os afetos. A primeira observação é que o grupo, em um movimento de espelhamento, de modo espontâneo, em nenhum momento censura ou critica o trabalho da analista, o que a faz sentir-se respeitada e entendida pelos integrantes. O grupo faz também um jogo investigativo aberto, fornecendo imagens e associações, “rabiscos” - como postula Winnicott (1994) -, sustentando a ambiguidade essencial (Baranger & Baranger, 1961) do processo grupal. Chama a atenção da analista, já nesses movimentos iniciais, o espelhamento no grupo do modo de abordagem do material clínico - nada intrusivo, e sim investigativo e aberto.
Pensando retrospectivamente, no primeiro dia do wp, em que foram lidas as duas primeiras sessões do material clínico, o grupo referiu sentimentos de irritação, tristeza e pena/compaixão pelo paciente. Esses afetos chamaram a atenção da analista, que, novamente em silêncio, se perguntou onde estavam o cansaço e o sono que ela própria costumava sentir ao atender o paciente. Entretanto, na manhã do dia seguinte, todo o grupo referiu muito sono e cansaço logo no começo da atividade, a ponto de uma participante escorregar da cadeira e mostrar expressiva dificuldade em permanecer acordada. Parecia que o grupo novamente funcionava como uma caixa de ressonância da vivência da analista na relação com seu paciente, pois ela seguidamente vinha tendo esse mesmo sentimento. A analista começou a se questionar se, por trás do seu próprio cansaço, não haveria de fato, no atendimento desse paciente, a irritação, a tristeza e a compaixão referidas pelo grupo, sentimentos dos quais ela poderia estar se defendendo na cena analítica.
O grupo pareceu mais vivo no primeiro dia de atividade e mais esgotado no segundo dia, talvez mais em contato com o efeito desobjetalizante e silencioso da pulsão de morte, tão frequente no paciente. Seria mais uma ressonância no grupo? O paciente constantemente se relacionava da seguinte forma: convidava de maneira entusiástica o outro para vincular-se, mas em seguida desligava-se, desvitalizava as relações e seu próprio mundo interno.
Na medida em que começou a ocorrer um verdadeiro processo associativo grupal, foram surgindo alusões a filmes, séries e livros, como O talentoso Ripley, O retrato de Dorian Gray, Bebê Rena, Crime e castigo, para citar alguns. A analista apresentadora impressionou-se, uma vez que esses elementos de alto valor simbólico também fizeram parte das associações do paciente e do trabalho analítico ao longo desses seis anos, constituindo-se como objetos analíticos (Ogden, 1996) e agregados funcionais (Bezoari & Ferro, 1992) do processo, embora não tenham sido apresentados ao grupo em nenhuma das sessões. Ou seja, novamente ressoava no inconsciente grupal elementos simbólicos da mesma natureza daqueles criados pela dupla analítica. Isso reforçava a sensação de “verdade” na analista, pois era como se presenciasse a “visão binocular” referida por Bion (1962). Diante da mesma situação clínica, o grupo e a dupla analítica formavam as mesmas imagens, tinham “sonhos” espelhados. A frase “Eu amo me odiar” da série Bebê Rena foi longamente trabalhada pela dupla em momentos anteriores da análise, o que também não fora apresentado no grupo. Outros símbolos e referências fornecidas pelo grupo fizeram muito sentido para a analista, embora nunca tenham sido mencionados conscientemente no processo: os filmes Match point, Teorema e Anjo mau. A vivência da analista era a de sentir-se abastecida, já que esses elementos simbólicos suscitados pelo grupo reforçavam o repertório imagético e discursivo dela e, eventualmente, podiam ressurgir como reveries5 na análise.
Logo na primeira sessão discutida na atividade, a analista mencionou que o paciente havia chorado pela primeira vez em uma sessão. O grupo associou o choro a “lágrimas de crocodilo”, o que a surpreendeu inicialmente. Para ela, naquele momento do choro, a dupla estava funcionando em O, como propõe Bion (1970), e aquela experiência emocional íntima e compartilhada na sala de análise configurava um turning point da análise, que muitas vezes operava num modo mais racional e menos emocional. A analista questionou-se se havia sido seduzida pelo material e pelo choro, se estava sendo benevolente e compactuando, contratransferencialmente, com a possível estrutura perversa do paciente. Ao longo da discussão, o personagem “crocodilo” voltou várias vezes às associações do grupo. Um dos coordenadores associou com a diferença entre os mamíferos e os répteis. A analista ficou novamente impactada, porque o significante “crocodilo” fora bastante presente na análise. Logo na primeira sessão, o paciente apresentou-se como tendo “sangue-frio”, e a dupla refere-se ao seu lado “crocodilo” em momentos em que ele perde a capacidade empática e se anestesia dos sentimentos. Novamente, no processo associativo grupal emergia mais uma imagem, outro personagem que frequentava assiduamente a sala de análise e que não apareceu no material dialogado de nenhuma das quatro sessões levadas para a atividade, mas que o grupo construiu por meio de sua própria função onírica diurna (Bion, 1962).
No segundo dia de atividade, ao reiniciar o grupo, os moderadores perguntaram se havia ocorrido a alguém, durante o intervalo ou à noite, alguma associação ou sonho que julgasse relevante em relação ao material apresentado. Um dos participantes disse que sonhou com uma bolsa cheia de furos, incapaz de conter o que havia dentro. O grupo imediatamente associou esse sonho à incontinência do paciente e de seus objetos internos. Conjecturaram a existência de possíveis abusos, imaginaram que o paciente era órfão. Mais uma vez, a analista, silenciosa e impassível para não emitir nenhum sinal não verbal ao grupo de aprovação ou negação das associações e reveries, se impressiona. O grupo estava, através do “sonho” grupal, intuindo e deduzindo dados históricos do paciente sem que tivessem sido mencionados, como um abuso sexual, diversos abusos afetivos, o sentimento de orfandade e a incontinência dos objetos primários.
Outro aspecto do funcionamento grupal que a analista entendia como análogo ao que se passava na sua relação com o paciente foi a proeminência de associações, imagens, ideias e pensamentos que surgiram no grupo durante a atividade. Vários integrantes queriam falar ao mesmo tempo, levantavam a mão, pediam a palavra. Os coordenadores tentavam organizar as falas - priorizar quem falaria primeiro era uma tarefa árdua -, mas muitas vezes se atrapalhavam, se esquecendo de alguém ou passando um integrante na frente do outro. Isso foi bem tolerado pelo grupo, que entendeu a dificuldade de conter, “organizar” e traduzir a riqueza de materiais que o caso evocava. A analista refletia que seguidamente se sentia dessa forma ao atender esse paciente: são tantas as vias possíveis, as possibilidades de intervenção, que por vezes é difícil escolher o ponto de urgência do material e o fato selecionado (Bion, 1965/2004) da sessão. De tantas intervenções possíveis, qual fazer primeiro? Qual caminho escolher na análise? Qual material trabalhar antes e qual “deixar passar”? Os coordenadores do grupo enfatizaram, mais de uma vez, a importância de sustentar os múltiplos vértices de compreensão, e essa postura complexa - no sentido atribuído por Morin (2006) - é análoga à técnica que a analista tenta empregar nesse caso.
No final da atividade, quando coube à analista fazer o seu depoimento sobre a experiência do wp, ela comentou que essa postura técnica foi conquistada ao longo dos anos, após tentar várias outras abordagens. Uma postura superegoica, tentando criar bordas e contornos para as atuações, gerou mentiras por parte do paciente na análise (a traição mencionada). Em outros momentos, a analista assumiu uma postura de mais cuidado, tentando acolher o lado infantil e desamparado do paciente, acarretando o uso perverso de algumas interpretações, pelo paciente, para alimentar e justificar suas atuações. Então, após tentativas e erros, a dupla chegou ao equilíbrio delicado de uma técnica artesanalmente criada para esse caso específico, com intervenções insaturadas e convites para a experiência emocional compartilhada.
Terminado o wp, uma integrante do grupo abordou a analista no congresso e entregou a ela oito desenhos que havia feito durante as discussões, dois dos quais são apresentados na sequência. A analista olhou os desenhos atentamente e guardou-os como imagens capturadas pela integrante de algo que poderia fazer sentido mais adiante.
Algumas reflexões da analista pós-wp
Após o congresso, a analista voltou à sua prática clínica. Na semana seguinte, na sessão de segunda-feira, o paciente mais uma vez começou com o mesmo conteúdo manifesto que costumava trazer: sentia que recebia pouco (dinheiro, afeto, atenção, cuidado). A analista, no seu íntimo, pensou o quanto o paciente indiretamente recebeu na semana anterior, já que o grupo forneceu uma série de associações que agora são repertório para essa análise. Talvez o abastecimento vivido na experiência do wp tenha ajudado a analista a sair de uma escuta voltada para o aspecto vitimizado e “pobre” do paciente. Enquanto ele falava da sua pouca capacidade financeira, a analista associou isso com o desenho do mendigo/pedinte rico (figura 1) e com o desenho do Tio Patinhas (figura 2) feitos pela integrante do grupo.
A partir dessas imagens, fornecidas pelo grupo, ela percebe que esse paciente tem uma parte do self muito voraz e avarenta, que mendiga por afeto, atenção e cuidado através de um discurso vitimizado e empobrecido. Ocorre à analista que esse material repetitivo acerca da sua pobreza de recursos talvez seja uma forma de seduzi-la e, então, ela o associa com as “lágrimas de crocodilo” que muito surgiram nas associações grupais. Cria-se um turbilhão associativo e de insights na mente da analista, que passa a “ver” o Tio Patinhas e o mendigo rico como figuras “sacos sem fundo” - imagem do sonho de um dos participantes do grupo -, que são vorazes, grandes acumuladores. Ela aponta a voracidade e a avareza para o paciente nessa sessão, e há uma mudança imediata no campo. Nas sessões subsequentes a essa interpretação, chama a sua atenção a transformação no discurso manifesto com que o paciente abre as sessões.
Gostaríamos de sublinhar a interdiscursividade e a polifonia (Kaës, 2010) não apenas na cadeia associativa grupal, mas também entre a “mente grupal” e a mente da analista. A capacidade de sonhar o material clínico evidenciada pelo grupo possibilitou um novo sonho para essa dupla, podendo traçar novos e múltiplos caminhos ao processo analítico em marcha. Ou seja, o grupo pode “sonhar” elementos do campo ainda não “sonhados” pela dupla. Dizendo de modo diferente, como escreve Bion (1961) em Experiências com grupos, surgiram pensamentos dos “confins” do grupo que não haviam sido pensados pelos indivíduos da dupla analítica.
Algumas palavras sobre o wpsetph
Working parties são grupos de trabalho originalmente criados na Federação Europeia de Psicanálise (epf), nos anos 2000, destinados a desenvolver dispositivos específicos para investigar a clínica e a formação psicanalítica. Posteriormente, foram implantados em outras regiões da Associação Psicanalítica Internacional (IPA) - América Latina e América do Norte. Em 2018, a ipa criou um Comitê de wps a fim de estimulá-los e estabelecer pontes de diálogo entre eles. A metodologia de alguns desses wps caracteriza-se como uma pesquisa em ação, um método que possibilita a reconstrução de um caminho percorrido (Lalande, 1991), conforme evidenciado no material descrito anteriormente.
O wp Specificity of Psychoanalytic Treatment Today (sptt) foi criado em 2006 por Evelyne Séchaud na Europa, e, desde 2009, se espalhou pela América do Norte, América Latina e Austrália. Em cada região teve desenvolvimentos independentes, explorando aspectos psicanalíticos específicos de cada cultura. Na Europa, constitui-se um grupo com cerca de 15 analistas, de vários idiomas e culturas analíticas distintas, que se reúnem durante o período de um dia e meio para trabalhar com o mesmo material clínico (Frisch et al., 2024), coordenados por dois analistas mais experientes, um analista que lê o seu material clínico, mantendo-se em silêncio após a leitura, e um observador, também silencioso, que analisa e documenta o funcionamento do grupo. Os participantes entram em contato com o material a partir do mesmo método utilizado internamente pelo analista na sessão: usando a associação livre, a sua reverie, ou seja, a sua capacidade de “sonhar” o material clínico apresentado, e a atenção flutuante. Solicita-se aos participantes que associem não apenas em relação ao que é reportado pelo analista apresentador, mas também a partir das associações dos demais participantes do grupo, propiciando uma “tecelagem do pensamento” (Norman & Salomonsson, 2005) de um trabalho no nível onírico, e não de um processo intelectual/reflexivo do grupo. O grupo trabalha a partir de quatro sessões dialogadas, sem conhecimento prévio do caso ou de qualquer informação relacionada, nem do processo analítico. Ao final, o analista conta a sua experiência de acompanhar silenciosamente o grupo “sonhando” o material apresentado por ele e “costura” as associações do grupo com o caso clínico, comentando o quanto lhe parece que o grupo se aproximou de sua experiência com o paciente - em quais aspectos - e o quanto não. Por outro lado, o observador devolve as suas percepções sobre o funcionamento do grupo. O objetivo é acompanhar as formas que a psicanálise se desenvolve hoje, depois de tantas alterações na teoria e técnica psicanalítica, ao mesmo tempo que se mantém um tratamento específico, próprio (Frisch et al., 2024).
As dimensões intrapsíquicas, intersubjetivas e transubjetivas no processo associativo e onírico grupal
Como foi ilustrado anteriormente, o grupo interanalítico do wpsetph funciona como uma caixa de ressonância do mundo interno do paciente e da relação analítica, além de um continente para pensamentos, emoções e identificações inconscientes. Atua também na qualidade de parteiro de pensamentos sem pensador que repousam nos confins do grupo (Bion, 1961), trazendo à luz tais pensamentos para serem pensados. Assim, por meio desse trabalho artesanal e coletivo em que o onírico protagoniza a cena frente ao processo secundário e seguindo a lógica de que complexo (complexas) é “aquilo que é tecido conjuntamente” (Morin & Le Moigne, 2000, p. 207), protopensamentos/pensamentos podem ser domesticados (Bion, 2016), constituindo-se como propriedades emergentes do trabalho grupal. Pensamentos selvagens podem ser pensados a partir da capacidade do grupo de associar livremente e de “sonhar” o material, captando tanto os conteúdos representados e reprimidos quanto os não representados.
Ao postular um sistema protomental, Bion descreve uma matriz em que o físico e o mental estão indiferenciados, servindo como fonte das emoções básicas pré-verbais. A partir dessa matriz protomental, essas emoções podem evoluir e dar origem a fenômenos primitivos do campo emocional do grupo como um todo. Por isso, a esfera dos eventos protomentais não pode ser compreendida apenas com base no indivíduo, já que tais fenômenos são uma função do grupo (Torres, 2013). A dinâmica do processo associativo do grupo é distinta da individual, havendo determinantes intrapsíquicos, intersubjetivos e grupais: observa-se uma pluralidade de discursos entrelaçados, de transferências e de espaços psíquicos com diferentes estruturas, em que enunciados verbais coexistem com significantes corporais (Kaës, 2010), como ilustrado anteriormente através da postura corporal dos participantes do grupo ou de seus cansaços.
De acordo com Kaës (2010), o processo associativo caracteriza-se pela interdiscursividade, propiciando duas cadeias associativas. A primeira evidencia-se a quando um sujeito do grupo fala, determinado pelas metarrepresentações e pelos caminhos de conexão que lhe são específicos, demonstrando o inconsciente do sujeito. Já a segunda, dirige-se aos enunciados que ocorrem no grupo, suscitados pelos organizadores inconscientes da realidade psíquica do grupo e que interferem nas cadeias associativas de cada sujeito. Os discursos têm vida: interagem, se ligam, se separam e se diferenciam, fazendo com que o que é dito entre os sujeitos também explicite algo sobre eles e seja endereçado a cada um deles. Ainda nas palavras de Kaës, há uma polifonia da cadeia associativa do grupo característica da interdiscursividade, em que opera uma lógica “transgressora do sonho ou da revolução” (p. 188). Diferentemente de uma supervisão tradicional, no wpsetph evidencia-se uma pluridiscursividade em detrimento de uma reificação monológica do discurso, o que constitui um aspecto fundamental, visto que essas múltiplas vozes simultâneas, asseguradas pelo papel acolhedor e sustentador de múltiplos vértices dos moderadores, garantem que aspectos reprimidos ou rechaçados não sejam descartados precocemente por membros do grupo. Como dito anteriormente, a manutenção de diversos ângulos de observação, bem como a de múltiplas vozes, é parte fundamental do trabalho grupal. Assim, chega-se a símbolos compartilhados (“crocodilo”, série Bebê Rena etc.) que funcionam como “sonhos coletivos”, já que os integrantes estão inseridos na mesma malha cultural simbólica.
Segundo Agamben (2009), um novo saber científico é aquele que conforma um conjunto de normas, uma certa característica de discurso científico em determinado período e um certo efeito de incentivo àquilo que é cientificamente válido. Ao abordar as características mencionadas de interdiscursividade e polifonia da produção inconsciente grupal, Kaës se refere a grupos terapêuticos, e não a grupos de investigação clínica, e, considerando que o wpsetph tem uma metodologia de trabalho replicada internacionalmente, que conforma uma série de normas e possui um background científico na teoria psicanalítica, poderíamos conjecturar que o wpsetph configura uma nova forma de investigação em psicanálise.
Considerações finais
Fazendo uma analogia com o acelerador de partículas atômicas, entendemos que o grupo interanalítico do wpsetph age como um “acelerador de reveries”, o que lhe permite funcionar como uma caixa de ressonância do que se passa no campo analítico, espelhando o que nele acontece. Ademais, parece potencializar a capacidade de parir pensamentos ainda sem pensador, como ficou evidenciado nesse grupo e em tantos outros realizados ao longo de vários anos. Observa-se também um “efeito prisma” no funcionamento grupal: determinados conteúdos atravessam o grupo e refratam seus diversos componentes constituintes em diferentes integrantes do grupo. No interjogo discursivo das mentes desses integrantes, apreendem-se conteúdos e constroem-se “sonhos” muitas vezes mais dificilmente acessados pela mente individual.
Na ilustração de wp aqui apresentada, percebe-se a potencialidade do grupo de “sonhar”. Não há dúvida de que a analista se beneficiou da atividade do wp para se abastecer de novos repertórios imagéticos, narrativos e emocionais. O que o relato evidencia é o quanto a atividade desse wp contribui não apenas para todos os integrantes, mas também para o arcabouço teórico-científico da própria psicanálise. Quem participa do wpsetph costuma sair com a “fé no método psicanalítico” renovada. A especificidade da teoria e da técnica psicanalítica é usada na própria condução metodológica dessa atividade, a qual é centrada na associação livre dos participantes, na atenção ao funcionamento grupal, na capacidade de cada integrante de personificar aspectos distintos do paciente e da dupla terapêutica, na contratransferência despertada nos participantes, na transferência estabelecida com o material clínico e os coordenadores da atividade, no exercício da capacidade negativa e na ampliação da capacidade de sonhar, para citar alguns exemplos específicos da teoria e da técnica psicanalítica. Trata-se de uma imersão vivencial nos próprios princípios que regem o inconsciente e o método psicanalítico, sendo uma atividade fundamental para a investigação em psicanálise, a transmissão, o ensino da psicanálise e a formação analítica continuada, além de, talvez, uma nova forma de investigação dos processos inconscientes e de sua representação através da atividade onírica grupal.















