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Estudos de Psicologia (Natal)

versión impresa ISSN 1413-294Xversión On-line ISSN 1678-4669

Estud. psicol. (Natal) vol.27 no.2 Natal mayo/ago. 2022  Epub 28-Oct-2024

https://doi.org/10.22491/1678-4669.20220021 

Temas em Políticas Sociais: Assistência Social e Sistema de Garantia de Direitos

Narrativas sobre conjugalidade, feminilidade e vínculos familiares de mulheres de homens encarcerados

Narratives about conjugality, femininity, and family bonds of imprisoned men’s female partners

Narrativas sobre conyugalidad, feminidad y vínculos familiares de mujeres de hombres encarcelados

Sabrina Daiana Cúnico1 
http://orcid.org/0000-0003-2198-9957

Frederico Pereira Balestro2 
http://orcid.org/0000-0002-8849-6893

Helena Salgueiro Lermen3 
http://orcid.org/0000-0002-7148-6760

Adolfo Pizzinato4 
http://orcid.org/0000-0002-1777-5860

1Universidade Feevale

2Universidade Federal do Rio Grande do Sul

3Universidade do Estado do Rio de Janeiro

4Universidade Federal do Rio Grande do Sul


Resumo

O objetivo do estudo foi compreender, a partir das narrativas de três mulheres que tiveram diferentes tipos de aproximação com o cárcere, de que modo elas constroem discursivamente os arranjos conjugais e identitário com os parceiros que têm ou tiveram trajetórias marcadas pelo aprisionamento. Através de entrevistas realizadas nas residências das participantes, analisadas por meio da Análise Crítica do Discurso, quatro aspectos emergiram em comum nos discursos: o sacrifício, a resistência, a responsabilização e a solidão. O papel de mulheres cuidadoras que se sacrificam em nome da relação conjugal coexistiu com as narrativas que estabeleciam a fronteira até onde seus esforços poderiam ir. A responsabilização feminina - em que as mulheres se sentem culpadas ou culpam outras mulheres pelos desvios legais e morais dos homens – também ficou evidente. O fato de serem as únicas visitantes de seus parceiros desvelou a solidão cotidiana e a sobrecarga social e parental dessas mulheres.

Palavras-chave relações conjugais; feminilidade; família; mulheres; prisão

Abstract

Narratives about conjugality, femininity, and family bonds of imprisoned men’s female partners. This study aimed to understand, based on narratives of three women who had different types of connections with imprisonment, the way they discursively express marital and identity arrangements with partners who have or had trajectories marked by imprisonment. By analyzing interviews carried out in the participants’ homes, based on the Critical Discourse Analysis, four aspects were identified as common in the speeches: sacrifice, resistance, accountability, and loneliness. The role of women caregivers who sacrifice themselves in the name of the marital relationship coexisted in the narratives which established the limit to their efforts. Women’s accountability – in which women feel guilty or blame other women for men’s legal and moral deviations – was also evident. The fact of being the only visitors their partners had revealed these women’s daily loneliness, and social and parental overload

Keywords marital relations; femininity; family; women; prison

Resumen

Narrativas sobre conyugalidad, feminidad y vínculos familiares de mujeres de hombres encarcelados. Este estudio ha buscado comprender, a partir de las narrativas biográficas de tres mujeres que han tenido diferentes tipos de acercamiento con la cárcel, de qué modo construyen, discursivamente las relaciones conyugales e identitarias con las parejas que tienen - o han tenido - trayectorias marcadas por el encarcelamiento del compañero. A través de entrevistas realizadas en las residencias de las participantes y, analizadas bajo el Análisis Crítico del Discurso, cuatro ejes organizan un discurso común: el sacrificio, la resistencia, la responsabilidad y la soledad. El rol de las mujeres en cuanto cuidadoras, que se sacrifican en nombre de la relación conyugal, coexistió con las narrativas que buscaban establecer la frontera hasta donde sus esfuerzos podrían ir. La responsabilidad femenina - en la que las mujeres se sienten culpables o culpan a otras mujeres por las desviaciones legales y morales de los hombres - también se hizo evidente, así como el hecho de que sean las únicas visitadoras de sus parejas desveló la soledad cotidiana y la sobrecarrega social y parental de esas mujeres.

Palabras-clave relaciones conyugales; feminidad; mujeres; prisión

Os familiares das pessoas presas integram-se ao espaço da prisão especialmente por meio das visitas, momento em que entram em contato com os procedimentos, os constrangimentos e as violências operadas nas instituições prisionais (Duarte, 2013; Lago, 2019; Padovani, 2017; Telles, Godoi, Brito, & Mallart, 2020). Mesmo quando estão distantes do cárcere, os familiares compartilham sentimentos de aprisionamento, uma vez que o estigma e o preconceito se estendem a todos com quem as pessoas presas possuem laços de parentesco (Cúnico, Strey, & Costa, 2019; Wallace, 2018).

Dentro do conjunto de pessoas que transitam nas prisões, as “mulheres de presos”, ou seja, aquelas que têm companheiros encarcerados, têm despertado maior interesse acadêmico no Brasil, especialmente nos estudos sobre gênero e sexualidade no sistema prisional (Cúnico et al., 2019; Lago & Zamboni, 2017). De modo geral, são pesquisas realizadas em dias de visitas aos cárceres masculinos, abrangendo diferentes cenários percorridos e experiências vividas por mulheres para poder encontrar os parceiros dentro das cadeias (Bassani, 2016; Duarte, 2013; Ferraz de Lima, 2013; Lago, 2017).

Entre as mulheres visitantes que têm relacionamentos com homens encarcerados, muitas se dizem motivadas a manter os relacionamentos conjugais e a ir às prisões pelo sentimento de comprometimento e lealdade para com seus parceiros (Ferraz de Lima, 2013; Stockman et al., 2021), além do amor e compaixão sentido por eles (Duarte, 2013; Ferraz de Lima, 2013; Lermen, 2015). O abandono do parceiro, nesse momento, seria uma quebra de vínculo afetivo e, muitas vezes, uma exposição moral dentro de suas comunidades e frente às facções criminosas que também julgam e monitoram os comportamentos de famílias de pessoas implicadas em atividades criminosas.

Aliado a isso, há um posicionamento de seus companheiros como sendo dependentes, necessitados de auxílios para sobreviver ao período de encarceramento (Barcinski, Lermen, Campani, & Altenbernd, 2014). Há também uma aposta na fidelidade do parceiro, uma vez que, supostamente, por estarem presos, não poderiam se relacionar com outras mulheres (Duarte, 2013). Além disso, o sentimento de satisfação frente ao acréscimo de atenção recebida quando do aprisionamento do companheiro também aparece na narrativa dessas mulheres (Stockman et al., 2021). Em contrapartida, há aquelas que narram o medo que sentem de seus companheiros, não tendo coragem, portanto, de os abandonarem (Ferraz de Lima, 2013; Lago, 2017), demonstrando uma relação de submissão para com eles (Guimarães et al., 2006; Lago, 2017; Lermen, 2015).

Devido às precárias condições do sistema penitenciário brasileiro, os sujeitos que têm sua liberdade cerceada acabam encontrando-se num contexto de re-vulnerabilização. Assim sendo, não é de se estranhar o receio e a preocupação que suas famílias demonstram com as condições em que seu ente encarcerado está aprisionado (Telles et al., 2020). No entanto, dentre os familiares que exercem a função de apoio ao longo da privação de liberdade, é fato que a maioria deles seja mulheres. Situação essa que está diretamente relacionada com as expectativas sociais de gênero que situam as mulheres como seres que cuidam e os homens como seres que são cuidados (Brun & Leite, 2021).

Destacamos, portanto, que a manutenção do vínculo conjugal das visitantes com os privados de liberdade está intimamente conectada às expectativas atribuídas às mulheres, a saber: o cuidado do cônjuge preso. Tal cuidado é expresso pela frequência e assiduidade nas visitas e pelo transporte de insumos - legalizados ou não - para dentro das cadeias. A exaustiva rotina prisional dessas visitantes exige empenho, pois elas usualmente assumem exclusivamente a responsabilidade de acompanhar e apoiar emocional e financeiramente seus companheiros durante o período de privação de liberdade, não contando – frequentemente – com o apoio de outras pessoas nas tarefas de visitação e cuidado (Ferraz de Lima, 2013; Guimarães et al., 2006; Lago, 2017; Lermen, 2015).

A desassistência Estatal na provisão de materiais para população prisional é evidente, de modo que os privados de liberdade ficam, de fato, dependentes de suas famílias e necessitados de auxílios externos para sobreviver ao período de encarceramento. Esse panorama reforça a atribuição de cuidado às mulheres, contribuindo para o acúmulo de responsabilidades imposto às suas famílias, o que gera uma sobrecarga de gestão delas, tanto para o suporte material, quanto para o apoio emocional contínuo. A elas também se atribui a responsabilidade de preparação do ambiente para quando houver a retomada de liberdade do encarcerado (Barcinski et al., 2014).

Vale pontuar, no entanto, que dentro desse modo de subjetivação feminina enquanto cuidadora, também se encontram alternativas de exercício de poder nas relações. O conceito de Marianismo, por exemplo, explica porque o auto sacrifício e a resiliência frente ao sofrimento imposto podem ser interpretados como uma demonstração da superioridade moral e espiritual da mulher, além de em certos contextos - e aí inclui-se o ambiente carcerário - poder servir como ponto de acesso para posições de controle e poder (Consoli & Unzueta, 2017). Isso equivale dizer que quanto mais as mulheres disponibilizam sua energia e tempo para dedicar-se ao cuidado do outro, mais valorosas se tornam. Seu protagonismo passa a ser exercido nos modos como esse cuidado ocorre, e em como enfrentam as adversidades associadas ao sistema prisional.

Por essa razão que alguns estudos (Cúnico et al., 2019) apontam o paradoxo envolvido na manutenção de um relacionamento com um homem em situação de prisão, uma vez que a prisão pode proporcionar mais autonomia, gerência e ganhos identitários para as mulheres. Isso porque, em muitos casos, elas são deslocadas de uma posição de subalternas, sofredoras e vítimas do abandono e do descaso do companheiro para a posição de mulheres fortes, autônomas e que enfrentam todas as adversidades em nome da família e do relacionamento.

Pensando nas questões apresentadas, o presente artigo propõe dar continuidade aos estudos sobre mulheres que mantêm um relacionamento com homens que estão ou já estiveram privados de liberdade. Para tanto, procuramos compreender, a partir das narrativas biográficas de três mulheres que tiveram diferentes tipos de aproximação com o cárcere, de que modo elas constroem discursivamente os arranjos conjugais com os parceiros que têm ou tiveram a trajetória marcada pela situação de prisão.

Método

Trata-se de um estudo qualitativo, aprovado pelos Comitês de Ética em Pesquisa das universidades a que os autores estão vinculados (CAEE: 01390918.0.0000.5348 e 01390918.0.3001.5334). Os dados foram produzidos a partir de entrevistas semiestruturadas, cujas respondentes foram três mulheres, companheiras de homens que estavam ou já estiveram em privação de liberdade. As perguntas versaram sobre os sentimentos despertados no momento da prisão do companheiro e como se deu a reorganização familiar nuclear e extensa, a partir da prisão. Também se questionou a motivação para a visitação e o relacionamento dos filhos com o pai antes, durante e após a prisão, quando possível.

Tendo em vista que o estudo tinha por objetivo entrevistar as mulheres em suas próprias residências e não nas filas de visitação como usualmente os estudos com mulheres de presos são realizados, entrou-se em contato com uma Unidade Básica de Saúde (UBS) de uma região de reconhecida vulnerabilidade em Porto Alegre/RS-Brasil para que atuasse como intermediária na localização de possíveis participantes. Os critérios de inclusão eram terem filhos e serem ou terem sido visitantes de um indivíduo em privação de liberdade. Em posse desses critérios, o convite para participar da pesquisa se deu, portanto, pela equipe da UBS que, ao obter o aceite das mulheres, agendou as entrevistas.

As entrevistas ocorreram nas residências das participantes em horário conveniente a elas. Por questões de segurança, os pesquisadores foram acompanhados por um integrante da equipe da UBS até a residência da participante. Tal integrante, no entanto, não participou do momento da entrevista, de modo a garantir a privacidade da participante. Todas as entrevistas foram gravadas e transcritas para posterior análise. Os encontros também foram relatados em um diário de campo. Salienta-se que as três mulheres concordaram com sua participação no estudo por meio de assinatura do Termo de Consentimento Livre e Esclarecido.

A análise das entrevistas se deu conforme preconizado pela Análise Crítica do Discurso (ACD), a qual busca não apenas descrever estruturas de discurso, mas também enfocar os modos como essas estruturas produzem, confirmam, legitimam, reproduzem ou desafiam as relações de poder e dominação existentes na sociedade (Van Dijk, 2010). As entrevistas, portanto, foram analisadas de modo a destacar as particularidades das histórias de cada participante, bem como os aspectos comuns presentes em suas trajetórias.

Resultados

As histórias apresentadas tratam da vida de três mulheres: Jane, Neusa e Vera. Os nomes são fictícios de modo a garantir o sigilo da identidade das participantes. Elas são mulheres negras, moradoras de um bairro periférico de uma região de reconhecida vulnerabilidade social e que tiveram sua vida marcada pela aproximação com o cárcere. Tal descrição corresponde ao descrito pela literatura que aponta que as experiências das mulheres que frequentam o espaço da prisão são determinadas pelo seu posicionamento social mais amplo, sendo elas, em sua maioria, pobres, negras e com histórias de vida marcadas por privações estruturais marcantes (Barcinski et al., 2014). Para melhor identificação das histórias, apresenta-se, a seguir, um breve resumo de cada uma.

Jane

Jane tem 28 anos, tem ensino médio completo e sua renda advém prioritariamente do auxílio financeiro recebido de seu companheiro detento José, com quem está junto há dois anos e tem um filho de 1 ano. O companheiro de Jane, José, atua como “plantão” ou “prefeito” de uma galeria na instituição prisional onde está encarcerado. Um “plantão” é um preso que assume a função de chefe da galeria, escolhido de forma autocrática, por exercer algum tipo de liderança no grupo. Como chefe, dita as regras, organiza o espaço e faz a comunicação da galeria com a direção da casa prisional, num processo de gestão compartilhada. A ocupação garante a José uma renda que possibilita que ajude financeiramente a companheira. O repasse dos valores à Jane se dá nas visitas. Das três participantes, somente Jane relatou não levar nenhum item ao parceiro na prisão, o que configura uma exceção no meio prisional, uma vez que assumir o cuidado afetivo e material do ente encarcerado é comum no cotidiano das mulheres (Barcinski et al., 2014).

No momento da prisão, Jane e José não estavam juntos. Segundo a participante, ela o teria “liberado para tomar um ar na rua”, isto é, lhe dado mais espaço, e logo após isso ele teria iniciado outro relacionamento. Jane culpa a outra mulher pelo crime de José, pois como relata:

[José] Queria dinheiro, essas coisas fáceis, luxo, foi aí que aconteceu isso aí, por isso que ele está preso. Porque ela botou ele em cana, não que ele queria... tudo bem que ninguém faz nada que não queira, mas quem ajudou mais a botar pilha foi ela, na cabeça dele.

É perceptível, na narrativa assumida por Jane, uma destituição da agência de José. Além de se colocar como responsável pelo término da relação, pois não teria monitorado José como julgava ser necessário, Jane também pressupõe a incapacidade do companheiro de cometer um crime por iniciativa própria, sendo a realização desse decorrente de sua suscetibilidade à influência de uma terceira. Ele é colocado condescendentemente numa posição moralmente ambígua. Pela perspectiva da participante, fica implícito que José necessitaria de cuidado e vigilância constantes, do contrário ele não agiria conforme a conduta desejada por ela e pela moral social.

Jane iniciou as visitas tacitamente um ano após a prisão de José, já que a ex-companheira dele não foi visitá-lo nenhuma vez. Jane visita-o duas vezes por semana sem faltas, sendo a única exceção um dia em que estava doente. Jane não esconde o orgulho que sente ao falar sobre sua assiduidade nos momentos de visitação. Devido à frequência das visitas e da comunicação via telefonia móvel que ocorre entre eles, ela diz não se sentir tão sozinha. Segundo ela, o período de separação foi triste, mas agora sempre que o vê se sente renovada.

Nas visitações, ela diz preferir ficar mais reservada, não tendo muito contato com outras mulheres, pois sente ciúmes, e tem receio de alguém se aproximar demais de José e ocorrer uma outra infidelidade. A única exceção é Rosane, mãe de um amigo do casal que também está encarcerado, com quem ela conversa nas saídas dos dias de visitação. Frequentemente, Jane diz solicitar para Rosane que “fique de olho” em José, pois teme que nos momentos em que eles não estão juntos, José possa estar conversando com outra pessoa via telefone celular. Somado ao sentimento que Jane diz ter por José – o que, segundo ela, justifica sua visitação frequente – a frequência de visitas também parece servir para exercer uma vigilância sobre ele.

Quando estão juntos, as conversas tratam sobre as crianças e sobre os planos do casal para quando José sair da prisão. Jane possui uma filha de 8 anos de um relacionamento anterior, a quem José sempre tratou como filha biológica. Jane, inclusive, contou ter solicitado uma ordem judicial para que a filha pudesse ir visitá-lo, uma vez que ele refere sentir muitas saudades da menina.

Para Jane, José diz que irá mudar, que “as coisas não serão mais como eram e que ele não dará as costas” para Jane, pois ele não irá ignorar quem o ajudou tanto nesse período. Ela tem receio que esse discurso decorra da situação de encarceramento, e não seja cumprido por José quando sair da cadeia. Por isso diz sempre frisar para ele que o real motivo de o ajudar no período de encarceramento é porque José é pai de seu filho. Jane menciona deixar claro para José que não quer que fiquem juntos por um sentimento de obrigação dele para com ela, que “se ele fica tem que ser porque quer e sempre é livre para sair caso não queira”. O discurso acolhedor e de liberdade proferido por Jane contradiz com as atitudes de controle e vigilância que assume frente ao marido em outros momentos.

De acordo com seu relato, o amor é o motivador maior para ela continuar vendo José. Falando sobre o parceiro, ela comenta: “Gosto, senão não voltava, né. Se eu sou outra pegava e fazia só a carteira pro gurizinho [filho de ambos]... e não ia mais”. Jane pontua veementemente como ela se diferencia de outras mulheres a partir da sinceridade de seu sentimento por José, passando por situações desagradáveis no ambiente prisional rotineiramente para poder estar com ele. Caso fosse outra mulher, ela pressupõe que não haveria o mesmo empenho. Quando José foi preso, o filho de ambos ainda não havia nascido. Porém, José já estava ciente da gravidez. De acordo com Jane, se o companheiro não soubesse da gestação, certamente a paternidade do bebê seria questionada tanto por ele quanto pela comunidade, o que não pareceu ser algo que a tenha incomodado.

Somente Jane visita José. A mãe dele apenas se comunica com o filho via celular. O fato de a mãe dele não o visitar é atribuído por Jane à idade. O contato que ela tem com sua sogra, e o restante da família do seu companheiro, é escasso. Quando precisa que alguém cuide de algum de seus filhos, ela conta com o auxílio de sua afilhada ou sua vizinha, mas sempre mediante pagamento, pois Jane crê ser de “má índole” querer que outras pessoas efetuem esse cuidado gratuitamente. O cuidado parece ser algo que Jane considera exclusivo seu, preferindo não ter participação de outros – nem no cuidado exercido com o companheiro nem com os filhos.

Para Jane, a prova de que o companheiro a ama é o fato de ele ter ciúmes dela, não querendo que ela saia de casa nem para fazer compras, a orientando que solicite ajuda aos vizinhos para que façam as compras por ela. Se sair da residência, José pede para que ela leve uma criança da comunidade junto, pois essa – por ser criança – faria relatos honestos, caso algo acontecesse. Inclusive, Jane conta que durante as ligações de José, ele pede para falar com alguém que estiver próximo de Jane, de modo a conferir se ela está “se comportando”. Jane diz que não segue todas essas orientações do marido à risca para não se sentir sufocada, embora ela própria deseje também monitorar o parceiro o máximo que pode. Assim, o relacionamento de Jane e José, ainda que ela mesma não esboce essa crítica, parece estar sustentado no monitoramento constante um do outro, sendo o ciúme e o controle as condições primordiais para “medir” o amor sentido entre ambos.

Vera

Vera tem 32 anos, ensino fundamental incompleto e trabalha como auxiliar de serviços gerais. Ela é mãe de quatro meninas, de 17, 11, 8 e 4 anos, todas fruto da relação com Gustavo, seu companheiro há 18 anos. Ao longo da relação com Gustavo, Vera presenciou três períodos de privação de liberdade do companheiro, sendo o primeiro em 2006. Ele cumpre sua pena atual há seis anos, tendo ainda mais três anos para cumprir em regime fechado. A última condenação de Gustavo foi uma surpresa para Vera, pois acreditava que ele já havia abandonado o tráfico de drogas no momento em que foi detido.

Ao narrar o início da vinculação de Gustavo com o tráfico, Vera comenta que esse se deu em função de uma outra mulher: Betina. Betina era filha de um “patrão” do tráfico e teria sido, segundo Vera, a responsável pelo ingresso do companheiro no crime. Em contraste com esse relato, Vera coloca que quando eles estavam juntos, Gustavo trabalhava, dando a entender que ela seria responsável por ele seguir uma conduta mais desejável, e outras mulheres teriam envolvimento em sua conduta indesejável. Tal como Jane na história anterior, Vera também busca discursivamente se diferenciar de outras mulheres, demarcando sua importância na vida de Gustavo, a quem retira toda a agência no envolvimento com a criminalidade.

Questionada sobre como Gustavo era como pai quando estava em liberdade, Vera declara não ter reclamações, pois além de afetuoso, ele era, segundo ela, o responsável pelas tarefas de casa. Ao falar do cuidado exercido por Gustavo no ambiente doméstico, Vera diz que ele era “a mulher da casa”, afinal “[...] ele fazia tudo, eu não fazia nada, associando a função doméstica ao papel de gênero feminino. Foi pensando na boa relação de seu companheiro com suas filhas que Vera decidiu levá-las nas visitas, pois não queria apagar a imagem que as meninas tinham do pai, ao mesmo tempo que queria formar o vínculo paterno das que nasceram durante o período de encarceramento. Em função da demora de uma das filhas do casal, nascida durante uma das privações de liberdade de Gustavo, de chamá-lo de pai, Vera conta que passou a levar as meninas com ainda mais frequência na visitação. Além disso, ao longo de suas privações de liberdade, Gustavo diariamente contatava suas filhas por meio de ligações ou vídeo chamadas, o que, para Vera, mostra como ele sempre esteve presente na relação familiar.

A relação de Gustavo com as filhas foi afetada recentemente, no entanto, quando o casal se separou devido a uma infidelidade de Gustavo com Vânia, vizinha de ambos, com quem Gustavo já havia traído Vera anteriormente. A nova infidelidade se deu quando Gustavo já estava privado de liberdade. Devido ao seu trabalho, Vera só conseguia visitá-lo aos domingos. Isso permitiu que Vânia ocupasse o segundo dia possível de visitação na semana. Quando descobriu a traição, Vera afastou-se de Gustavo, que por sua vez consolidou a relação com Vânia. Embora separados, Vera seguiu levando as filhas para visitar o pai, mesmo Gustavo contatando-as cada vez menos por telefone. Segundo Vera, o afastamento do pai, nesse período, trouxe muito sofrimento para as filhas, que seguiram esperando pacientemente as ligações diárias do pai.

Vera fala que, durante a separação do casal, embora Gustavo seguisse encontrando com Vânia, ele nunca deixou de tentar uma reaproximação com Vera, reforçando como necessitava dela pois, como declarava, ela era seu “alicerce”. A palavra alicerce, com efeito, foi usada por Vera incontáveis vezes na entrevista, sempre que era questionada sobre sua relação com Gustavo. Vera mencionava com orgulho e prazer que Gustavo a procurava insistentemente, pedindo desculpas e afirmando que nenhuma mulher com quem ele já se relacionou foi tão importante quanto ela em sua vida.

Diante de toda a insistência, Vera aceitou se reaproximar de Gustavo. No momento em que a entrevista foi realizada, o casal estava buscando reconciliar-se, já que Gustavo havia terminado seu relacionamento com Vânia. Para Vera, no entanto, as palavras de Gustavo ainda geravam desconfiança e, mais de uma vez, reforçou na entrevista que ele precisará se esforçar muito para compensá-la pelas angústias que a fez passar. As visitas de Vera a ele voltaram, embora no momento ela não saiba justificar bem o que a motiva a ir. Em contraste com o que havia dito anteriormente, quando relatou que as filhas e seu afeto pelo companheiro eram os maiores motivadores, agora ela menciona que talvez seja uma questão apenas de costume, embora reconheça que ainda nutre um sentimento por ele:

Eu também não entendo porque que... que me motiva [a ir visita-lo]. Eu não sei se é porque é tanto tempo que tu já tem essa tua rotina [...] Se fosse antigamente eu poderia dizer ‘Ah, porque eu gostava... gosto muito dele, né. Que ele é o pai das minhas filhas’. Não vou te dizer que eu não goste dele, eu posso te dizer assim ó, que eu tenho um... uma afinidade [...].

Diversas contradições apareceram no relato de Vera. Uma delas referente ao relacionamento afetivo com Gustavo. Seu discurso de um relacionamento duradouro e feliz com o marido coexistiu com relatos de infidelidades, abandono, desvalorização e manipulação. Em uma das vezes que Gustavo foi preso, por exemplo, Vera não foi visitá-lo. Gustavo, então, a ameaçou de morte. A respeito disso, Vera somente mencionou que ficou aliviada que Gustavo não cumpriu sua promessa de atentar contra sua vida no momento de sua liberdade, reatando o relacionamento com o marido sem maiores críticas sobre a ameaça feita.

Ainda que as narrativas tratem de situações graves e estressantes que viveu com o marido, Vera parece ter orgulho em contar que sempre buscou superar, seja em nome das filhas ou então em nome do amor. Vera diz que seguirá visitando Gustavo, mas não sabe até quando porque diz não conseguir se imaginar morando novamente com ele, já que são anos separados pela prisão. Ela menciona que compartilha todos esses receios com o companheiro, deixando claro que ele precisará convencê-la de que está arrependido e que merece seu perdão para que as visitas não sejam interrompidas.

Narrativamente, ela demonstra segurança em exercer um “poder” de decidir se ou quando perdoará o companheiro. Simultaneamente, Vera se coloca numa posição discursiva de quem está cansada, magoada e sem gerência total de sua vida e do futuro de sua relação com Gustavo. Na prática, no entanto, segue o visitando regularmente, levando mantimentos e dando suporte emocional a ele, mesmo depois de todos os traumas que diz que Gustavo deixou nela e na relação.

Neusa

Neusa tem 37 anos, ensino fundamental incompleto e também é auxiliar de serviços gerais. É mãe de três filhas, de 18, 11 e 4 anos, sendo as duas últimas filhas também de seu marido, Ricardo. Em 2018, Ricardo ficou duas semanas privado de liberdade em uma delegacia por uma acusação de roubo. Enquanto os companheiros de Jane e Vera seguem privados de liberdade em uma instituição prisional, o marido de Neusa goza de liberdade condicional. Essa última, ao contrário das outras duas participantes, nunca visitou o marido enquanto havia a privação de sua liberdade, uma vez que sua detenção se deu em uma delegacia. Ainda assim, cumpria a rotina de levar mantimentos para ele três vezes ao dia, mesmo que não lhe fosse permitido conversar com o companheiro nesse período.

Neusa considerava boa sua relação com Ricardo antes desse evento, ainda que tenha relatado um episódio de violência doméstica que sofreu. O marido a agrediu e ela se defendeu usando uma faca. Logo após o ocorrido, ela fez uma denúncia contra ele. Assim, quando ocorreu o episódio do roubo, Ricardo já tinha antecedentes criminais por conta da agressão. Segundo ela, até hoje ele comenta que ela “chama a polícia por qualquer coisa”, deslegitimando a gravidade de sua denúncia e, ainda que indiretamente, a responsabilizando pela prisão.

A notícia da prisão de Ricardo por roubo foi um baque para Neusa, pois ela diz que ambos eram trabalhadores e nunca tiveram problemas com a polícia – exceto por conta da violência doméstica. Aparentemente, o executor do roubo fora o irmão de Ricardo, mas em função dos objetos roubados terem sido encontrados na casa de Neusa, Ricardo foi implicado no crime. Até então, Neusa acreditava que o envolvimento do marido era superficial. Entretanto, descobriu que ele teve um papel ativo no crime junto com seu irmão.

Durante as duas semanas de detenção, Neusa levava mantimentos para Ricardo três vezes ao dia, todos os dias. Ela não tinha contato direto com ele. Todas as informações, poucas e vagas, vinham dos policiais. Podemos conjecturar que o grau de dependência dos presos em relação à família se torna ainda maior quando a detenção se dá em uma delegacia, uma vez que – tal qual nos conta Neusa – ela precisava ir levar mantimentos nos três turnos para garantir a alimentação do parceiro. Ela sentia angústia nesse período, mas dizia a si mesma que era preciso manter o foco, pois era necessário cuidar da casa, das filhas e do marido. Cuidar dos outros era o que estava em primeiro plano.

A mãe de Neusa foi de grande auxílio para ela nesse período, ajudando com as crianças. O cuidado, para ela, é visto como algo mais intimamente ligado às mulheres da família nuclear, e quando ele advém de pessoas externas, incluindo aí parentes próximos, é visto como algo pontual, sem substituir o cuidado principal, como é demonstrado nessa fala:

O que eu faço aqui, o que a gente passa aqui, a gente não comenta com eles [família do marido], e nem com a minha família. Então a gente fica aqui, a minha mãe que vinha aqui vê se as gurias estavam bem, modo de assim, de ajudar. [...] mas eu sempre deixei comida pronta, eu saía e deixava tudo pronto e ia trabalhar.

O suporte não é algo que associe à família do marido, com quem Neusa não tem contato. A entrevistada também relata que sua sogra lhe culpa pela prisão de Ricardo, pois diz que seu filho cometeu o crime por influência de Neusa. Da mesma forma que nas histórias anteriores, o envolvido com o crime também aparece como destituído de sua autonomia, ficando a mercê da influência da mulher com quem mantém algum tipo de relacionamento amoroso e que acaba por “desvirtuá-lo”. Neusa complementa dizendo que Ricardo teria internalizado o pensamento de sua mãe, e também parece achar que ela teria contribuído para sua prisão, possivelmente devido à denúncia por agressão. Mais uma vez, Ricardo é posto na posição de influenciável, seja no cometimento do crime seja na reflexão sobre a culpa de sua prisão. Ao confrontar o marido sobre essa questão, Neusa responde às acusações dizendo: “Quem te tirou de dentro da cadeia fui eu, porque quem comeu o pão que o diabo amassou fui eu, eu que tinha que passar com as gurias gato e sapato”, indicando o lugar de destaque que se atribui na soltura do marido.

No dia em que Ricardo foi solto, porém, Neusa descobriu que o marido estava sendo infiel. A amante teria inclusive buscado Ricardo na delegacia e o levado até a casa em que ele divide com Neusa, causando surpresa e revolta em Neusa que não tinha ciência nem que o marido estava prestes a ser liberado. O envolvimento de Ricardo no crime e sua infidelidade conjugal abalaram a confiança de Neusa na relação. Ela diz que hoje, avaliando a situação, não teria se esforçado tanto para manter o contato com o parceiro na privação de liberdade, pois sentiu que seu esforço não foi valorizado, em especial por causa da traição. De todo modo, ela afirma que se Ricardo tivesse sido encaminhado para um presídio, ela não o teria visitado, nem teria levado as filhas para serem poupadas da humilhação sofrida naquela instituição. Narrativamente, Neusa estabelece uma fronteira até onde seus esforços e sacrifícios poderiam ir.

Após descobrir a traição conjugal, Neusa e Ricardo se separaram por um tempo, e ela adoeceu. Para reatarem, Neusa impôs uma nova conduta para seu companheiro, exigindo saber sobre seus passos diários, e aumentando sua participação nas tarefas de cuidado da casa. Neusa estabelece o monitoramento cotidiano do companheiro como pré-requisito para a manutenção da conjugalidade, uma vez que Ricardo – pelo seu julgamento – não poderia ficar desassistido de controle, ou poderia uma vez mais iniciar uma relação extraconjugal e/ou se envolver novamente em algum ato criminal. Ademais, ao realizar a renegociação de funções domésticas, podemos notar como a condição de cuidadora, em sua narrativa, está diretamente ligada à sua posição como mãe e mulher: “Eu cansei de ser mulher... de ser mãe dentro de casa, chegar do serviço, lavar a roupa, limpar a casa, deixar a comida pronta todinha”. A escolha das condições do perdão, que aliviaram a carga cotidiana que exerce na função de cuidado, parece agir, ainda que de modo limitado, como exercício de poder de Neusa.

Discussão

Embora as histórias de Jane, Neusa e Vera tenham particularidades no que se refere ao relacionamento estabelecido e a forma com que encararam o encarceramento do companheiro, quatro aspectos emergem em campo comum em suas trajetórias: o sacrifício, a resistência, a responsabilização e a solidão. A partir de relacionamentos marcados pela infidelidade, pela desconfiança e pela falta de apoio de outras pessoas para lidar com a rotina imposta pelo cárcere, as três mulheres entrevistadas desvelam como aspecto central em suas narrativas o papel de mulheres “guerreiras” que superam sacrifícios constantes advindos do relacionamento com um homem privado de liberdade. Ainda que sutilmente esbocem alguma crítica sobre a toxicidade e as violências das relações que vivem, as quais são marcadas pelo controle e pela dominação, ao assumirem os cuidados desses homens, parecem esperar ao final que sejam reconhecidas e retribuídas por todo o esforço cometido em nome de suas relações.

A questão já havia sido observada anteriormente na literatura. Em seu estudo sobre as mulheres de presos, Ferraz de Lima (2013) também destaca os sacrifícios advindos da exaustiva rotina de visitas, descritos como “elementos que compunham a imagem da mulher fiel” e que conferem “sacralidade às famílias” nos âmbitos conjugais, familiares e comunitários - incluindo a própria estrutura prisional. Para as “fiéis”, os sacrifícios são enfrentados pelas mulheres “por desejarem estar com o preso”, em um compromisso semanalmente reforçado de “não abandonar o preso” (p. 76). Similarmente, Lago (2017) aponta para as diferenças discursivas contidas na expressão “mulher de preso”. Ao mesmo tempo em que não ser reconhecida como mulher de preso pode significar maior capacidade de trânsito e comunicação com as pessoas que não fazem parte da rotina prisional, ser reconhecida como tal é importante para se diferenciar das amantes e das garotas de programa. Essas últimas são mal vistas pelas “fiéis”, que questionam os reais motivos que circundam as entradas dessas outras mulheres na prisão. Ademais, ser “mulher de preso” é um meio de legitimação social em suas comunidades de origem, em especial quando elas têm contato com as estruturas do crime organizado.

Ainda que façam questão de nomear e vangloriar-se de todos os sacrifícios para acompanhar os parceiros nas prisões, as três entrevistadas buscam, ao mesmo tempo, indicar que têm agência e que estabelecem limites aos seus parceiros. São narrativas que tratam de formas de resistência dessas mulheres diante de um contexto que tanto exige delas. Jane parece se sentir lisonjeada com o controle estabelecido por seu marido de dentro da cadeia, uma vez que esse monitoramento estaria a serviço de reafirmar a sua posição de objeto de desejo desse homem (Guimarães et al., 2006). Contudo, ela informa que não segue totalmente as orientações de seu parceiro, por se sentir sufocada.

Nas demais histórias, Neusa e Vera expressam a possibilidade de abandono definitivo dos maridos. Ambas tiveram um período de rompimento do relacionamento conjugal, mas reataram a relação. Para isso, Neusa impôs condições e atribuiu mais responsabilidades domésticas ao companheiro, dividindo com ele o papel de “mulher da casa”, reiterando certa estereotipia de gênero frente aos afazeres domésticos e de cuidado da família, ao mesmo tempo em que os subverte. Já Vera é financeiramente independente do parceiro e embora tenha reatado a relação, parece ser a entrevistada que mais vislumbra o término do casamento, quando da liberação do mesmo. Podemos conjecturar que o fato de as entrevistas terem acontecido nas casas das participantes, e não no contexto do dia da visita como em outros estudos anteriormente citados, pode ter favorecido com quem as mulheres tivessem maior liberdade para contar sobre os momentos de divergências e de distanciamento dos parceiros, além de assumirem a possibilidade de finalizar de vez suas relações conjugais.

Por outro lado, esse poder de escolha pelo abandono do parceiro parece algo restrito, considerando que as narrativas também tratam da vigilância, ameaça, agressão, e/ou dependência financeira dos homens e das comunidades. Não por acaso, suas histórias são marcadas – recorrentemente – pela ultrapassagem dos limites que elas dizem impor aos parceiros. Desse modo, a autonomia delas parece cerceada pelas regulações morais e de gênero, como também pelas variadas formas de violências descritas nos relatos.

Notamos ainda o alto grau de responsabilização feminina manifesto nos relatos. Para além do cuidado que socialmente é esperado delas, notamos casos em que as mulheres se sentem culpadas, de alguma forma, pela privação de liberdade dos homens que vão visitar, em função da conduta que tiveram quando eles estavam em liberdade. São narrativas nas quais elas teriam falhado em dar limites ou terem dado demasiado espaço, permitindo que seus parceiros cometessem erros ou crimes. Até mesmo a traição do homem poderia ser entendida como culpa da mulher, que teria “dado espaço” demais a ele, como pontuou Jane. É uma produção discursiva que infantiliza e inocenta os homens, desresponsabilizando-os por seus atos. Por outro lado, é também uma forma constrangida de exercício de poder dessas mulheres, que se posicionam como reguladoras do comportamento masculino, responsáveis por manter os parceiros dentro da moralidade e da legalidade, mediante suas constantes vigilâncias.

Tal vigilância não pode diminuir nem durante o período de confinamento, pois outras visitantes poderiam utilizar brechas deixadas por elas para iniciar relações afetivas/sexuais com seus companheiros presos. O medo de que os maridos consigam amantes também foi descrito pelas mulheres participantes do estudo de Lago (2017). A possibilidade de que os companheiros presos passem a conversar com outras mulheres por telefone, e que as cadastrem como visitantes de outros presos para poderem conhecê-las pessoalmente, fez com que as esposas analisassem e desconfiassem de outras mulheres na fila de visitação (Lago, 2017). A esse respeito, chama atenção como o cárcere não atua como um meio de garantir a fidelidade dos parceiros como supostamente idealizado por algumas mulheres que se envolvem com homens em situação de prisão (Duarte, 2013). A narrativa descrita por Vera, por exemplo, indica episódios de traição do parceiro durante a pena privativa de liberdade.

As participantes procuraram se posicionar moralmente superiores às mulheres com quem seus parceiros tiveram outras relações. Trata-se de uma produção em que constroem discursivamente suas imagens em comparação ao comportamento que elas observam, ou esperam, de outras mulheres. De modo semelhante, Ferraz de Lima (2013, p. 22), pontua que as mulheres “fiéis” são “produzidas contrastivamente às ‘talaricas’, ‘recalcadas’, mulheres que gostam de cadeia, de ladrão, do crime” (p. 44). As “fiéis” também se diferenciam das mulheres nomeadas de “gadinho”, que seriam apenas “diversão dos presos”, ou seja, mulheres com quem os homens privados de liberdade estabelecem relações sexuais superficiais e não estáveis ou “verdadeiras”.

As interlocutoras – Jane e Vera – pontuam que essas “outras mulheres” não apenas ameaçariam suas relações conjugais, como também seriam motivadoras de condutas delitivas de seus parceiros. A questão figura como outro elemento de responsabilização feminina, mas desta vez as entrevistadas atribuem culpa a outras mulheres pelos desvios dos homens. A culpabilização feminina pelas atitudes masculinas se estende para as próprias entrevistadas, como a sogra de Neusa, que a acusa de ter sido responsável pelos crimes cometidos por seu filho. Nas narrativas, os homens novamente são colocados pelas mulheres como sujeitos sem agência ou poder de decisão, incapazes de agirem de acordo com a lei, caso estejam sob a má influência de suas cônjuges. Simultaneamente, a fala de Neusa, única entrevistada que não era mais visitante, informa que por meio de seus esforços desmedidos, ela teria sido a responsável pela soltura do parceiro da prisão. Trata-se de uma fala ativa, que também funciona como modo de se diferenciar das mulheres que apenas colocam homens na prisão, mas não os tiram de lá.

Outra forma de responsabilização feminina é a de mantenedora do contato entre pais e filhos. O desejo idealizado de que pais e filhos convivam – mesmo que em situação de aprisionamento – foi descrito por Jane e Vera como motivador para que as visitas ocorram. As qualidades dos companheiros enquanto pais foram enaltecidas pelas participantes, ainda que os relatos também trouxessem situações como as de Gustavo, que se afastou das filhas no momento em que assumiu outra relação dentro da cadeia.

Diante desse contexto, é por óbvio dizer que uma relação conflituosa entre o casal poderia ser motivadora para um afastamento entre o pai e a prole, já que as mães são as principais responsáveis por levarem as crianças nas visitas. Essa situação coloca nas mulheres a responsabilidade de salvaguardar os laços familiares, sendo que esquiva os homens de sua responsabilidade pelo tipo de relação que construíram com a mãe dos filhos, pois se despojam do dever de ter sido um bom pai e de ter estabelecido seu lugar independente da relação com aquela mulher (Cúnico, Strey, & Costa, 2020).

As histórias também mostram que as participantes têm pouco contato com as famílias de seus parceiros. Esse afastamento, por sua vez, gera novos componentes de responsabilização feminina no cárcere, uma vez que as entrevistadas carregam para si a tarefa exclusiva da visitação. A rede de apoio é circunscrita às suas próprias famílias de origem e, ainda sim, é um apoio descrito como restrito ou circunstancial. A solidão parece acompanhar Jane, Neusa e Vânia. Isso porque, diferentemente do trazido por outros estudos (Guimarães et al., 2006; Pereira, 2016), as entrevistadas não mencionam o estabelecimento de relações e redes de apoio nem com familiares próximos e nem com outras mulheres que também possuem um relacionamento com um indivíduo privado de liberdade.

Considerações finais

O presente artigo teve por objetivo compreender, a partir das narrativas biográficas de três mulheres que tiveram diferentes tipos de aproximação com o cárcere, de que modo elas constroem discursivamente os arranjos conjugais e identitários com os parceiros que têm ou tiveram trajetórias marcadas pela situação de prisão. Trata-se de três mulheres negras, jovens e moradoras de um bairro periférico de uma região de reconhecida vulnerabilidade no Brasil.

Ainda que com particularidades que atravessam suas histórias, as três mulheres entrevistadas expressaram seu comprometimento e lealdade com os companheiros privados de liberdade. Mesmo vinculadas em relações marcadas pela infidelidade, pela desconfiança, necessidade de monitoramento e pela falta de rede de apoio, essas mulheres assumiram o papel quase que exclusivo de cuidado e de assistência do parceiro. A (re)produção desse modelo de feminilidade que cuida e que está relacionado à abnegação, ao sofrimento e a resiliência como “prova de caráter” configura o ideal do feminino que é reproduzido socialmente e que encontra espaço numa realidade em que a desassistência Estatal impera. Não por acaso, as entrevistadas buscaram em suas narrativas se diferenciarem de outras mulheres, que seriam supostamente responsáveis pelo envolvimento dos seus companheiros em atividades criminosas. Seriam mulheres que apenas “colocam” homens na prisão, mas não os apoiam e tampouco os auxiliam durante a privação de liberdade.

A feminilização do cuidado bem como a desresponsabilização dos homens tanto no que se refere à infidelidade quanto ao cometimento de atos criminosos esteve presente nas três narrativas apresentadas. Ao narrarem esses homens como desprovidos de agência, em posições de fragilidade, uma vez que necessitam de vigilância, controle e cuidado constantes, as mulheres buscam subverter – ainda que discursivamente – as posições estereotipadas de gênero, assumindo uma posição de poder. De acordo com as narrativas apresentadas, foi possível identificar que os processos de manutenção da conjugalidade, de manutenção financeira e dos vínculos familiares se entrelaçam em uma complexa teia que envolve sacrifício, resistência, responsabilização e solidão. São processos que contribuem na manutenção de discursividades vitimizadoras tanto para essas mulheres, como para seus companheiros encarcerados. É nessa trama discursiva de companheiras de homens ingênuos, que o eixo do ideal de feminilidade – de mulheres abnegadas e resilientes - recobra poder simbólico.

A trajetórias das mulheres entrevistadas ilustra vidas marcadas por intenso sofrimento ao mesmo tempo que demarca identidades fortes e potentes, as quais foram construídas tendo como base esse mesmo sofrimento. A história de vida das mulheres entrevistadas deve ser vista, por fim, a partir de seu posicionamento social mais amplo – mulheres negras, pobres, moradoras de área de intensa vulnerabilidade social – para quem a invisibilidade social limita as formas de protagonismo feminino, sendo o posicionamento vitimizado uma das poucas oportunidades de exercício de poder.

Impende mencionar, mais uma vez, que as entrevistas foram realizadas na residência das participantes e não nas filas de visitação, tal como usualmente os estudos com foco em mulheres visitantes são realizados. Poder adentrar a casa dessas mulheres e ouvi-las em um espaço de conforto e segurança para elas, não permeado pela desconfiança e vigilância características das instituições prisionais e seus arredores, certamente possibilitou que trouxessem elementos adicionais em suas narrativas, como os receios da manutenção do relacionamento conjugal e o vislumbre de um possível término.

Pode-se afirmar que o campo comum entre as narrativas das participantes deste estudo foi a intersecção de elementos como a solidão, a resistência, e a responsabilização. Aspetos comuns em suas trajetórias e que são, certamente, compartilhadas por outras mulheres que mantêm um relacionamento com um homem que está ou esteve privado de liberdade, mas não só. Mulheres vivenciando outras situações de isolamento e/ou de afastamento forçado como os processos migratórios, por exemplo, também podem compartilhar vivências semelhantes, em que a prescrição normativa do cuidado coexiste paradoxalmente com posições de poder e agência assumido por elas.

Como limitações do estudo, salienta-se que, devido a pandemia da Covid-19, a pesquisa precisou ser encerrada antes do previsto e outras entrevistas não puderam ser realizadas. Algumas possíveis participantes não contavam com internet ilimitada, o que inviabilizou que as entrevistas ocorressem por vídeo-chamada. Ademais, a Unidade Básica de Saúde que atuou como mediadora permaneceu em sistema de plantão por muitos meses, sendo todos os trabalhos externos realizados em parceria com o local suspensos sem prognóstico de retorno. Sugere-se, portanto, que outras pesquisas sejam realizadas com mulheres que vivenciam o afastamento forçado de seus cônjuges, investigando, inclusive, como a pandemia afetou suas relações conjugais e parentais.

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Recebido: 05 de Maio de 2022; Revisado: 21 de Novembro de 2022; Aceito: 07 de Dezembro de 2022

Sabrina Daiana Cúnico, Doutora em Psicologia pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS), é Professora do Programa de Pós-Graduação em Psicologia da Universidade Feevale. Endereço para correspondência: Universidade Feevale, ERS-239, 2755, Novo Hamburgo/RS. CEP 93.525-075. Telefone:+55 51 3586.8800 ramal 8632. Email: sabrinacunico@yahoo.com.br ORCID: https://orcid.org/0000-0003-2198-9957

Frederico Pereira Balestro, Graduando em Psicologia na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Email: fredericobalestro@hotmail.com ORCID: https://orcid.org/0000-0002-8849-6893

Helena Salgueiro Lermen, Doutora em Saúde Coletiva pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), é Pesquisadora colaboradora no Instituto de Medicina Social da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ). Email: hslermen@gmail.com ORCID: https://orcid.org/0000-0002-7148-6760

Adolfo Pizzinato, Doutor em Psicologia pela Universitat Atutònoma de Barcelona, Espanha, é Professor dos Programas de Pós-Graduação em Psicologia (PPGP) e Política Social e Serviço Social (PPGPSSS) da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Email: adolfopizzinato@hotmail.com ORCID: https://orcid.org/0000-0002-1777-5860

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