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Estudos de Psicologia (Natal)

versión impresa ISSN 1413-294Xversión On-line ISSN 1678-4669

Estud. psicol. (Natal) vol.27 no.2 Natal mayo/ago. 2022  Epub 28-Oct-2024

https://doi.org/10.22491/1678-4669.20220024 

Aspectos Psicossociais das Interações Entre Pessoas e Diversos Contextos Socioambientais

Relacionamentos afetivo-sexuais de jovens rurais no Sertão de Pernambuco: Entre modos de subjetivação e resistências cotidianas

Affective-sexual relationships of rural youth in the rural area of Pernambuco: Between modes of subjectivation and everyday resistance

Relaciones afectivo-sexuales de la juventud rural en el área rural de Pernambuco: Entre modos de subjetivación y resistencia cotidiana

Fernanda Sardelich Nascimento1 
http://orcid.org/0000-0002-4032-2202

Rosineide de Lourdes Meira Cordeiro1 
http://orcid.org/0000-0001-6487-4012

1Universidade Federal de Pernambuco


Resumo

Este artigo tem como objetivo analisar como os jovens rurais vivenciam os valores rurais nos seus relacionamentos afetivo-sexuais no Sertão de Pernambuco. O desenho metodológico foi pautado na pesquisa no cotidiano, por meio da observação participante, e de entrevistas com jovens estudantes de uma escola pública da região. Apesar das mudanças nas áreas rurais, os jovens vivenciam valores camponeses alicerçados no interconhecimento, no valor-família, honra familiar e nas hierarquias intergeracional e de gênero. No cotidiano, criam resistências que objetivam outras possibilidades de existência e de vivências afetivo-sexuais, por meio de deslocamentos, linhas de fugas e recusas parciais desses valores.

Palavras-chave juventude rural; relações afetivo-sexuais; psicologia rural; ruralidades

Abstract

Affective-sexual relationships of rural youth in the rural area of Pernambuco: Between modes of subjectivation and everyday resistance. This article aims to analyze how rural youth experience rural values in their affective-sexual relationships in the rural area of Pernambuco. The methodological design was based on daily research, through participant observation, and interviews with young students from a public school in the region. Despite changes in rural areas, young people experience peasant values based on inter-knowledge, family value, family honor and intergenerational and gender hierarchies. In everyday life, they create resistance, which aim at other possibilities of existence and affective-sexual experiences, through displacements, lines of escape and partial refusals of these values.

Keywords rural youth; affective-sexual relationships; rural psychology; rurality

Resumen

Relaciones afectivo-sexuales de la juventud rural en el área rural de Pernambuco: Entre modos de subjetivación y resistencia cotidiana. Este artículo tiene como objetivo analizar cómo los jóvenes rurales experimentan los valores rurales en sus relaciones afectivo-sexuales en el área rural de Pernambuco. El diseño metodológico se basó en la investigación diaria, a través de la observación participante, y entrevistas con jóvenes estudiantes de una escuela pública de la región. A pesar de los cambios en las zonas rurales, los jóvenes experimentan valores campesinos basados en el interconocimiento, el valor familiar, el honor familiar y las jerarquías intergeneracionales y de género. En la vida cotidiana crean resistencias, que apuntan a otras posibilidades de existencia y vivencias afectivo-sexuales, a través de desplazamientos, líneas de escape y rechazos parciales de estos valores.

Palabras-clave juventud rural; relaciones afectivo-sexuales; psicología rural; ruralidades

A escassez de debates sobre o meio rural na formação acadêmica de psicólogos/as ainda permite que prevaleça na Psicologia a ideia do mundo rural como homogêneo, atrasado, precário, pobre e sem acesso a bens e serviço (Landini, 2015; Leite, Macedo, Dimenstein, & Dantas, 2013; Zambenedetti & Sidoski, 2021). Poderíamos acrescentar a classificação problemática e arbitrária das áreas urbanas brasileiras, a qual considera apenas a dimensão político-administrativa e promove a falsa ideia de que o Brasil é predominantemente urbano e o rural é tomado como lugar de atraso (Veiga, 2003).

Fernando Landini (2015) nos lembra que espaços rurais têm potencialidade para gerar processos subjetivos específicos e que nem sempre as generalizações realizadas pela psicologia, como ciência centrada no urbano, são possíveis nesses contextos. Reforçar as especificidades dos contextos rurais não significa afirmar a existência de dicotomia entre rural e urbano, há aproximações e distanciamento. Ambos espaços são compreendidos como singulares, multifacetados e inter-relacionados, de forma dialética, com continuidades e descontinuidades (Wanderley, 2009).

É preciso atentar para a não idealização dos espaços rurais brasileiros, considerar sua formação histórica, social e econômica, demarcada por desigualdades, herança escravocrata e por relações paternalistas, “responsável por um processo de modernização e pela construção de um capitalismo excludente [...] que ainda hoje são determinantes para as condições de precariedade que marca grande parte do meio rural” (Paulo, 2011, p. 95).

O mundo rural brasileiro é complexo, heterogêneo e desigual. A modernizadora conservadora do campo acentuou a concentração fundiária, a monocultura e a pobreza rural. Nas últimas décadas houve o delineamento de pelo menos dois modelos de agricultura em disputa no País. De um lado, apoiado por grandes grupos econômicos, o agronegócio patronal, inserido no mercado internacional de commodities, baseado em grandes extensões de terra e no trabalho assalariado. O segundo modelo tem como foco a defesa da agricultura familiar, da reforma agrária e das comunidades tradicionais (Noronha & Falcón, 2018), defendido pelos inúmeros movimentos sociais rurais. As lutas no campo expressam não só disputas territoriais, econômicas e socioambientais, como manifestam conflitos sobre modos de existência no campo e na floresta. Essas disputas foram agravadas desde a posse do atual presidente, que incentivou o agronegócio, as mineradoras e o desmatamento na Amazônia.

Carlos Brandão (2007) trabalha com as categorias de tempos e espaços para circunscrever a pluralidade das áreas rurais. O autor identifica três formas - e suas diversas variações - de vida e de trabalho no mundo rural brasileiro: 1) comunidades indígenas, comunidades quilombolas e as comunidades regionais campesinas semi-isoladas, em que a reprodução da vida coletiva é obtida da natureza; 2) comunidades camponesas ainda tradicionais, nas quais o trabalho é dirigido para o consumo e comercialização do excedente, o lugar central é o sitio, pequena propriedade e a posse camponesa; e 3) racionalidade empresarial no campo, que é representada pelos espaços vazios uniformizantes e pela monocultura do agronegócio. Essa racionalidade, muitas vezes, vai impregnar pequenos e médios produtores rurais, especialmente os mais jovens.

Neste artigo estamos trabalhando com a noção de comunidades rurais em que ainda persistem traços de campesinidade nos moldes de Klass Woortmann (1988), que é descrita com detalhes no artigo de Brandão referido acima, um mundo rural como espaço de vida integrado ao conjunto de preceitos dessa sociedade, que engloba tanto um espaço físico diferenciado, quanto um lugar de vida “de onde se vê e se vive o mundo (a cidadania do homem rural e sua inserção na sociedade nacional)” (Wanderley, 2006, p. 13). Essas comunidades, em que predominam a agricultura familiar, possuem características específicas, entre elas: 1) são sociedades de interconhecimento, as pessoas se conhecem e estabelecem relações de proximidade e reciprocidade; 2) têm uma tradição passada de geração a geração, com foco na manutenção dos bens culturais; 3) as pessoas estão inseridas em uma teia relacional que abarca casa (família) e vizinhança (comunidade), localizada entre o passado e o presente das tradições familiares. É no interior das relações de interconhecimento que as representações das pessoas sobre espaço de vida e trabalho, tempo e família são desenvolvidas (Wanderley, 2000, 2009).

A noção de família nas áreas rurais não diz respeito apenas a laços de consanguinidade, é composta também pela comunidade afetiva e é em seu interior que o/a jovem constrói modos de ser e se compreender no mundo e apreende os valores que regem a ordem moral própria daquela família. Woortmann (1988) defende como importante a compreensão subjetiva da sociedade camponesa, que tem no parentesco e na família enquanto valor-família seus pontos centrais. O valor-família é mantido pela tradição e hierarquia, que se refere desde a forma de ser dos indivíduos até as formas de sucessão e herança da terra, organização familiar, lugar de trabalho e morada (Maciazeki-Gomes, Toneli, Nogueira, & Grave, 2019; Woortmann, 1988).

Portanto, é importante que a Psicologia amplie o olhar e a escuta para as áreas rurais, compreendendo que, mesmo quando os ambientes rurais compartilham de elementos comuns com os urbanos, apresentam especificidades de acordo com as características econômicas, políticas, sociais e culturais das localidades. Para discutir o objetivo deste trabalho, que é analisar como os jovens rurais vivenciam os valores rurais nos seus relacionamentos afetivo-sexuais no Sertão de Pernambuco, este artigo, fruto da pesquisa de doutoramento da primeira autora, sob a orientação da segunda, intitulada “Juventude, sexualidade e relações afetivo-sexuais: uma análise interseccional de jovens rurais e urbanos/as”, está dividido em quatro partes: vivências juvenis nos contextos rurais; desenho metodológico; discussão e análise dos dados no item relacionamentos afetivo-sexuais de jovens rurais, e considerações finais.

Vivências juvenis nos contextos rurais

A categoria analítica adolescente/jovem surgiu com foco nos jovens urbanos, isso porque, além da crença de que o rural iria acabar, os estudos dos contextos rurais privilegiaram a família ficando os/as jovens invisibilizados/as em seu interior (Castro, 2008; Oliveira & Prado, 2013; Wanderley, 2006).

Estudos sobre a juventude rural (Stropasolas, 2005, 2014) destacam que a interação entre rural e urbano é significativa nessa geração, seja pela migração para o trabalho, seja para qualificação educacional em outras cidades. Esses/as jovens têm maior contato com os valores urbanos, o que propicia uma reconstrução cultural e, em certa medida, uma ruptura com os moldes tradicionais existentes na sociedade local. Mais recentemente, pesquisadores (Izquierdo, Paulo, & Santos, 2020; Schwendler & Vieira, 2022; Vettorassi, Ferreira, & Sofiati, 2021) ressaltaram a aceleração dos processos de mudanças nessa geração, frutos do maior acesso às tecnologias, aos espaços de socialização por onde transitam e à convivência em instituições educativas.

Para Nazareth Wanderley (2000), a juventude rural vive o paradoxo entre ruptura e continuidade dos valores rurais, compartilha de um modo de vida que tem na hierarquia familiar, na vida comunitária, e na tradição passada entre as gerações valores característicos, ao mesmo tempo em que tem acesso ao mundo globalizado e com a cidade. Maria A. de L. Paulo (2014) afirma que a identidade do jovem rural é construída, de maneira tensionada, na relação com o/a jovem morador das áreas urbanas, e não se restringe apenas à localização da moradia, mas também ao trabalho na agricultura com os pais, as vestimentas, e o modo de vida rural.

O fato de os/as jovens rurais experimentarem, simultaneamente, a quebra e a manutenção das tradições rurais, a inserção numa cultura camponesa em que ainda persistem o valor-família e a ideia de honra familiar, vai produzir modos de ser jovem e processos de subjetividade que diferenciam a vivência juvenil nos espaços rurais dos urbanos. Esses aspectos articulados com os marcadores sociais da diferença (gênero, geração, classe social, pertencimento), que devem ser analisados nos contextos específicos de desigualdades, vão delinear os relacionamentos afetivos-sexuais dos jovens, pois, como destacado por Avtar Brah (2006, p. 341), “vidas reais são forjadas a partir de articulações complexas dessas dimensões”.

Desenho metodológico

A pesquisa aqui apresentada teve caráter qualitativo (Denzin & Lincolin, 2006) e foi desenvolvida no município de Santa Cruz da Baixa Verde, localizado na microrregião do Pajeú, ao norte do estado de Pernambuco, a 500km de distância da capital, aproximadamente. Segundo o censo de 2010, o município tinha 11.768 habitantes, dos quais 5.277 residem na área urbana e 6.491 na área rural, sendo 5.956 mulheres residentes com 10 anos ou mais de idade e com 5.812 homens com a mesma faixa etária (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística [IBGE], 2010). Como em outros municípios rurais, é caracterizado pelo trabalho na agricultura, e pelo processo de migração, principalmente de jovens em busca de emprego e melhores oportunidades de renda (Stropasolas, 2005). Há entre o sitio e a rua uma intensa troca, muitos moradores da rua vieram dos sítios e mantêm relações de proximidade. Vale ressaltar que a rua é considerada como a sede do município, a área urbana, enquanto o sitio é o espaço rural, como encontrado na pesquisa de Paulo (2011).

A escolha da escola ocorreu principalmente pela proximidade com uma moradora do sítio da região, que tinha estudado na escola e se propôs a colaborar na abertura do campo. Ser apresentada por uma jovem da região, conhecida da diretora, foi importante para a inserção no campo. A escola Estadual Santa Cruz está localizada na rua; entretanto, a maior parte dos/as alunos/as eram dos sítios da região e vinham para escola em conduções fornecidas pela prefeitura.

A pesquisa utilizou duas metodologias: observação participante (Cordona, Cordeiro, & Brasilino, 2014; M. J. Spink, 2007) e entrevistas semiestruturadas. A compreensão de observação participante é a de “prática social, dialógica e reflexiva”, produto de negociações, as quais impõem limites e possibilidades, e como prática discursiva, técnica e estratégia metodológica, que implica o processo de construção e coconstrução de sentidos (Cordona et al., 2014, p. 123). Assim, sempre se refere a uma participação mútua e implicada, logo, nunca é neutra.

Durante o período de observação, em que a pesquisadora ficava no pátio próxima à cantina, inicialmente os/as jovens mantiveram uma postura de distanciamento, porém, conforme se acostumaram com a presença da pesquisadora e tiveram seus questionamentos respondidos, foram se aproximando e convidando a pesquisadora a participar das rodas de conversa entre eles/elas. Os limites éticos, as relações de poder existentes e a “etiqueta social” do local foram pontos de constante atenção durante a pesquisa.

As entrevistas semiestruturadas, realizadas com oito jovens (dois homens e seis mulheres), tiveram como objetivo aprofundar questões relativas à sexualidade, que não eram faladas nas rodas, dada as especificidades do contexto rural pesquisado. Para a realização das entrevistas todos os preceitos éticos normativos, orientados pela Comissão Nacional de Ética em Pesquisa (CONEP), foram realizados.

A pesquisa de campo é tomada aqui a partir do referencial de campo-tema trazido por P. K. Spink (2003, p. 36) como um processo multifacetado que não se refere a um lugar “onde o tema pode ser visto [...], mas são as redes de causalidade intersubjetiva que se interconectam em vozes, lugares e momentos diferentes, que não são necessariamente conhecidos uns dos outros”.

A análise das entrevistas e das notas do diário de campo foi feita à luz dos estudos de Maria Magliano (2015) e Avtar Brah (2006), visando compreender quais categorias se articulam e quais sentidos diferenciados recebiam a partir dos contextos específicos.

Os relacionamentos afetivo-sexuais de jovens rurais

Para compreender como os/as jovens rurais vivenciam nos seus relacionamentos afetivo-sexuais os valores rurais, que têm no valor-família um de seus elementos centrais, lançamos mão da reflexão sobre resistência cotidiana (J. C. Scott, 2011). James C. Scott (2011, p. 223) destaca que as “resistências cotidianas”, conceito pensado para as sociedades camponesas, dizem respeito às pequenas fugas, desvios e recusas parciais, “informais, muitas vezes dissimuladas, e em grande medida preocupadas com ganhos de factos imediatos”. São deslocamentos que permitem a criação de linhas de fuga e que ocorrem no campo da micropolítica. Segundo o autor, essa forma de resistência permite uma penetração nas entranhas das hierarquias e poder, se torna uma forma de r-existência e, embora não traga uma mudança no status quo, permite outras formas de existir, para pessoas que ocupam um lugar de subalternidade.

Na comunidade rural pesquisada, assim como em outras pesquisas (Maciazeki-Gomes et al., 2019; Schwendler, 2020; Schwendler & Vieira, 2022), as hierarquias sociais posicionam os/as jovens como subalternos (Castro, 2008); entretanto, o entrelaçamento dos marcadores sociais da diferença, de gênero, raça e contexto de pertencimento (ser do sítio ou da rua) possibilitava que os/as jovens tivessem maior ou menor condição de resistência (Brah, 2006).

As hierarquias de gênero, no contexto pesquisado, impõem às mulheres maior controle sobre seus corpos e principalmente de sua sexualidade. Já com os homens é diferente, há liberdade de circulação e de vivência de sua sexualidade (Izquierdo et al., 2020). Na entrevista, Ketly retrata esse controle, ela só saía acompanhada da irmã, que, ao noivar, não podia mais sair, pois a família do noivo controlava a jovem enquanto ele estava em outra cidade trabalhando, logo ao perder a companhia da irmã, não podia sair só.

Ketly: (...) nós nunca sai só. Até que agora eu tô sem sair de casa por causa dela. Mas, porque é assim, sempre que uma sai, pai só deixa sair se a outra for. (...). Meu irmão é mais liberal. (...) Eu falo sempre em casa, porque é assim, homem eles trata diferente, até o mais novo, diferente do que nós duas. (...)

Como forma de resistências cotidianas (J. C. Scott, 2011), as jovens utilizam o horário da escola, a rede de amigas ou mesmo a casa de familiares e/ou amigos para os encontros amorosos, para se manterem longe dos olhares da comunidade. Entretanto, há a manutenção dos valores rurais e da honra da jovem e, consequentemente, da família, pelo uso do dispositivo do segredo.

A jovem do sitio conta como conheceu seu namorado, por telefone, na casa da tia. (...) Ficaram durante um tempo pequeno e logo ele foi para a casa dela, no sítio, pedir ela em namoro. (...). Perguntei como ela fazia para ficar no sítio e ela explicou que ela ficava na rua, na casa da tia, que permitia os encontros para que ela ficasse mais protegia. Essa tia é casada há 3 anos e hoje tem 19 anos, é irmã de sua mãe (...). (Diário de Campo, 8 de Novembro de 2013)

Importante ressaltar que não são todas as jovens que conseguem esse recurso de driblar o controle social de seus corpos, principalmente para as jovens pertencentes aos sítios, já que a própria escola aderiu a mecanismos de controle dos corpos dos/as jovens, por meio da colocação de grades nas janelas das salas de aulas, do guarda municipal no portão e do trancamento dos banheiros com as chaves, que precisam ser retiradas na secretaria da escola.

Klass e Ellen Woortmann (1990) destacam que os ordenamentos moral e social, que fazem parte das comunidades rurais norteiam também as concepções amorosas e influenciam a escolha do/a cônjuge para os/as filhos/as, privilegiando a endogamia (casamento no interior da própria família consanguínea ou de pessoas do mesmo lugar), pois casar entre “iguais” garantiria a manutenção da herança e da tradição. Os casamentos endogâmicos estavam presentes na região pesquisada, a justificativa era de que quando eram da mesma família, tinham o “pensamento igual” o que, em muitos momentos, foi o motivo inicial para a relação.

A influência da família na escolha do/a parceiro/a para namorar, e do incentivo de relações endogâmicas, aparece no caso de Silvana, 16 anos, moradora do sítio, estudante do 4º ano do Ensino Normal. Segundo ela, sua mãe sempre quis que ela namorasse primos, o que chegou a fazer, porém, acabou terminando e começou a namorar outro homem quando tinha 14 para 15 anos e ele 27 para 28 anos. Namoraram escondido por um ano e um mês, sua mãe não aceitava a relação, após esse período fugiu para casar, conforme trecho do diário: “Silvana contou que ficou fora por três dias com o namorado, quando voltou foi para a casa dos pais, que ainda tentaram convencê-la a não casar, mas não adiantou” (Diário de Campo, 01 de Novembro de 2013). Hoje vive com seu companheiro, na rua, não oficializou a união porque sua mãe não assinou os papéis necessários, ela ainda é “menor”, nos termos da lei, e não emancipada.

O relato de Ketly, 16 anos, moradora da rua, também apresenta essa interferência da família na escolha e manutenção das relações de namoro, quando fala sobre seu primeiro namoro sério:

Ketly: (...) meu primeiro namoro foi com meus 13 anos. Só que foi assim, é porque pai não queria, que dizia que eu era muito nova pra ele. Porque eu tinha 13 e ele tinha 23 (...), mas mesmo assim ele pediu a pai, e pai deixou. Só que depois com dois meses pai botou pra eu terminar. (...) aí eu terminei. Só que depois nós voltamos e fiquemo um mês escondido. ((risos))

Os relatos apresentam dois elementos muito comuns na região: a influência da família na escolha do namorado, e a diferença de idade que não é problematizada. Contudo, embora as jovens respeitem a hierarquia existente, nem sempre se submetem a essas escolhas, às vezes resistem ou buscam estratégias para driblar o controle, como já destacado anteriormente.

Os conflitos com os familiares é algo presente também entre os/as jovens participantes da pesquisa, seja por não sentirem suas opiniões respeitadas, seja pela postura de controle dos pais em relação aos caminhos que os/as jovens devem seguir, as pessoas com quem devem namorar e casar, a forma como o namoro deve acontecer, o tempo de duração, e as amizades que podem ter. Esse controle, bem como os conflitos, são diferentes a depender do recorte de gênero. Esses achados também aparecem em outros estudos realizados (Aguiar & Stropasolas, 2010; Paulo, 2014; Wanderley, 2006, 2009).

Parry Scott (2010) destaca que as hierarquias de gênero, geração e família pautadas na tradição e ordenamento moral estão imbricadas e são preservadas não apenas pela família, mas pela comunidade de interconhecimento, que busca a manutenção da tradição e da honra familiar. A responsabilidade sobre a manutenção da honra recai sobre o/a jovem (Rohden, 2006), entretanto, o entrelaçamento entre honra, gênero e geração tem um desdobramento diferente para os jovens e as jovens.

O jovem carrega a honra da família por meio do trabalho, que ocorre no espaço fora da casa, a partir da divisão sexual do trabalho (Schwendler, 2020), enquanto a jovem carrega a honra pelo controle de sua sexualidade, a virgindade é “uma espécie de dote simbólico”, por meio do qual “a honra de sua família de origem” é garantida (Woortmann & Woortmann, 1992, pp. 101-102), observado também em outras pesquisas (Izquierdo et al., 2020; Maciazeki-Gomes, Schwendler, & Vieira, 2022; Toneli, Nogueira, & Grave, 2019). Esse entrelaçamento posiciona e subjetiva os/as jovens, a partir de classificações sociais historicamente situadas, e se insere nas complexas relações sociais de poder produzidas nas desigualdades (Magliano, 2015).

Também é por causa da honra que o segredo é instaurado em relação à vida sexual da jovem. Família, comunidade e vizinhança contribuem para o controle da jovem, seja por meio da fofoca ou contando aos pais, quando descobrem algo sobre o/a jovem. Sobre o dispositivo da fofoca, Vanda Silva (2007) destaca que este pode ser pensado a partir de dois eixos: como um “entretenimento”, que ocorre de forma coletiva; como “instrumento de regulação social” e neste sentido funciona como algo que “corrige os costumes”, pode causar a desonra de alguém, intrigas (p. 187). Uma jovem estudante do 3º ao do Ensino Normal, de 17 anos e residente no sítio, ressalta o quanto a fofoca controla as jovens ao dizer que é preciso cuidado com o que se faz, principalmente na frente das pessoas, pois na região valia o ditado “cidade pequena, língua grande” (Diário de Campo 07 de Novembro de 2013).

Woortmann e Woortmann (1990), ao pesquisarem sobre amor e celibato no universo camponês, destacam que, embora exista uma cobrança para que a jovem permaneça virgem, conforme ela vai envelhecendo essa cobrança passa a ser menor. Na entrevista de Isabela, de 19 anos e de Tainara de 20 anos, ambas moradoras da rua, essa suposta “flexibilização” aparece. Ambas já tiveram uma primeira relação sexual, com seus respectivos namorados atuais, e quando questionadas sobre o que os pais pensariam se soubessem, disseram que não haveria problemas, pois são “de maior”. Entretanto essa suposta “flexibilização” não parece se sustentar, uma vez que, no caso de Isabela, segundo ela, todas as amigas pensam que ela ainda é virgem e os pais não sabem, e no caso de Tainara, quando os pais dele souberam, “obrigaram” o rapaz a casar com ela. Outro elemento que também propicia a flexibilização, segundo as jovens da escola, é o recorte de classe social: Madalena explica que há exceções, quando a jovem tem dinheiro, ela tem mais liberdade para fazer o que quer e Isabela complementa com a seguinte afirmação “isso é fogo, se tem dinheiro as pessoas diz assim, é namoradeira, mas se não tem, o povo já vai logo dizendo assim, é uma vadia, fez isso, fez aquilo” (Diário de Campo, 08 de Setembro de 2013).

Vale destacar que mesmo na área estudada, em que há maior homogeneidade, o recorte de classe e o local de moradia (rua ou sítio) apontam para as diferenças e complexidades de ser jovem rural (Brah, 2006). É possível afirmar que, embora exista uma aparente liberdade em relação à sexualidade da jovem, a depender de sua faixa etária e de sua condição social, ainda assim, estão submetidas ao controle de sua sexualidade e às normatizações de gênero.

Em entrevista com Eduardo, jovem do sítio, fala sobre a forma como o pai de sua ex-namorada mantinha o controle do namoro e tentou determinar o tempo que poderia durar:

[...] aí comecei a namorar, fui na casa dela, falei com o pai dela. Aí o pai dela disse assim, era liberado, mas só que lá não esquentava banco. Era tudo muito rápido. Começar a namorar, com um mês poderia noivar. Aí eu só namorei ela um mês.(...) ele (pai da jovem) disse que o rapaz lá não namora com a filha dele muito tempo. (...) Aí assim pouco tempo não dá pra se conhecer bem (riso). (...) Eu terminei assim, porque não dava certo. (riso) O pai dela pegava muito no pé dela pra apressar ela. Pra me apressar (...).

Eduardo traz outro elemento importante, há um “ritual” a ser seguido no namoro, que faz parte da tradição dessa área, pelo menos no namoro sério. O jovem precisa pedir para os pais da jovem para namorar. Esse é um momento de tensão para ambos, pois os pais podem negar o pedido e no caso a relação pode nem acontecer, ou dependendo do sentimento existente entre eles, ou do enfrentamento e resistência à ordem moral, o namoro pode acontecer às escondidas. O pedido, em geral, acontece quando a jovem acredita que o pai dará a permissão, mas isso não é uma regra, pois durante o período de convivência os/as jovens partilharam de situações em que no momento do pedido o pai da jovem negou, ou mesmo após ter aceitado voltou atrás na decisão e exigiu o término da relação.

Deslocando os valores rurais no ficar e no namoro sério.

As diferentes formas de resistir cotidianamente ao controle exercido sobre os/as jovens produzem também uma multiplicidade na maneira de os/as jovens se relacionarem. Na pesquisa, os/as jovens falaram de diferentes maneiras de se relacionar, as quais denominamos de “tipologia de relacionamentos”: 1) ficar, caracterizada pelos/as jovens como um período de experimentação; 2) namoro escondido, que, em geral, ocorre antes de os pais saberem do relacionamento, sendo uma estratégia utilizada para driblar as regras dos pais para o relacionamento; 3) namoro sério, que é aquele no qual o jovem oficializa o pedido ao pai da jovem e recebe a autorização para acontecer dando-se em geral, em casa, sob a regulamentação dos pais. Por último, há ainda o namoro moído, que é aquele relacionamento pautado por idas e vindas, términos, ciúmes e controle.

Antes do ficar em si, é comum na região uma intermediação de uma terceira pessoa que pode ser amigo/a ou algum familiar (primo/a, tio/a, irmão/irmã), no que eles/elas chamam de ajeitar, agitar1 ou arrumar. Em relação a isso, há duas posições que os/as jovens assumem: 1) há aqueles/as que sempre ajeitam e pedem para o/a outro/a ajeitar, porque na opinião deles/delas já vai falar com a pessoa “na certeza” para ficar. Em geral, é uma estratégia utilizadas por jovens tímidos/as; 2) e há os que são contra o ajeitar. No caso dos jovens, porque eles não são tímidos e preferem ir direto conversar com a jovem; e no caso das jovens, há duas questões envolvidas; primeiro porque consideram que é o rapaz que tem que mostrar o interesse primeiro, e segundo, porque quando o rapaz vem diretamente, mostra que tem mais inciativa, algo que é valorizado pelas jovens.

Durante o período de observação participante, nas conversas com os/as jovens compreendemos que o ficar apresenta diferentes significados: 1) diversão – neste caso, fica e se sentir vontade, pode repetir esse ficar outras vezes, porém a intenção não é de namorar futuramente com aquela pessoa; 2) período de experimentação – neste caso, a intenção é ficar com a pessoa por um tempo para ver se vale a pena namorar; 3) etapa para o namoro em geral, depois de ficar algumas vezes, existe o envolvimento emocional e o objetivo passa a ser namorar. Esses significados não são fixos, há momentos em que os/as jovens começam por diversão, mas acabam namorando, ou consideram como um período de experimentação, mas não seguem adiante, ficando apenas uma vez ou outra. Porém, quase todos/as os/as jovens consideram uma etapa importante antes do namoro. De forma geral, o que vai definir que tipo de ficar a pessoa vai ter tem relação com a forma de ser da pessoa, o tipo de criação e liberdade que tem, segundo os/as jovens da pesquisa.

Um ponto comum era que, independentemente de ser no ficar ou no namoro, o mais importante é a confiança com quem se fica, e que o segredo sobre o que acontece no momento da intimidade do casal seja mantido. Isso porque ficar “falada” é algo que afeta não apenas a honra da jovem, mas a de sua família, e pode ser, e em geral é, um empecilho para futuras relações, podendo levar a família a exigir reparação. Esses elementos corroboram com os achados de outras pesquisas (Izquierdo et al., 2020; Paulo, 2011). Já sobre o namoro, essa relação é “permeada pelo desejo de ficarem juntos, com regras estabelecidas de compromisso e fidelidade, no qual cada um reside em um lar diferente, podendo ou não ser uma relação que preceda um casamento” (Nascimento, 2009, p. 45). Um fator importante que diferencia o namoro do ficar é o pedido de namoro, que pode ser feito de maneira espontânea pelo jovem, ou a partir de uma cobrança da jovem para que a relação tenha maior compromisso. Na área rural, a jovem explicita seu desejo de oficializar a relação com o pedido e isso é considerado como demonstração de afeto e de que o jovem a valoriza, como uma jovem de “respeito” (Izquierdo et al., 2020).

O namoro escondido tem nuances em seu interior e para compreendê-lo é necessário o convívio com os/as jovens. O namoro pode ser escondido dos amigos mais distantes, dos conhecidos, da família e/ou dos pais, ou apenas do pai da jovem, quando a mãe sabe da existência do namoro e o acoberta. Independentemente de quem sabe sobre o namoro, ele só deixa de ter o status de escondido quando o jovem pede permissão ao pai da jovem para namorá-la. O pedido de permissão ao pai da jovem faz parte do protocolo do namoro na região, da tradição que normatiza as formas de relação, demonstrando a importância da figura do patriarca nesse contexto, o que está alinhado a outros achados de pesquisas (Maciazeki-Gomes et al., 2019; Schwendler, 2020; Schwendler & Vieira, 2022).

Essa forma de namoro ocorre por diferentes razões, segundo os/as jovens: porque ainda não tem certeza dos sentimentos e se o namoro irá durar, então, neste caso, esperam para apresentar o jovem aos pais; porque o jovem ainda não pediu a jovem para “assumir” o namoro como sério, o que implica em obrigatoriamente o rapaz ir falar com o pai da jovem; porque os pais não permitiram o namoro, mesmo depois de o jovem pedir permissão; para evitar o controle dos pais sobre o namoro, ou seja, para evitar as regras e, no caso da jovem, para que ela tenha mais liberdade para encontrar o namorado e circular pelos lugares.

Tanto no ficar quanto no namoro escondido os/as jovens estabelecem uma rede de apoio ao relacionamento. Embora os/as amigos/as estejam presentes nessa rede de apoio, há três outras figuras com maior destaque: a tia, a prima e a/o irmã/irmão. Em geral, essa tia é uma jovem com a idade próxima a da jovem, que, em geral, já é casada e mora em outra casa.

O namoro sério é aquele em que há a permissão dos pais para acontecer e no qual a família, principalmente na figura dos pais, participa de forma mais ativa, determinando regras para a relação, como local onde deve acontecer (em casa, na sala com a presença dos pais, ou na calçada, no claro, para que possa ser vigiado pela janela), dias e horário. Essas regras fazem parte do manual do namoro e tanto os jovens quanto as jovens se submetem a elas (Nascimento-Gomes, 2016).

Esse é um dos motivos que faz a escola ser um importante espaço para os/as jovens, segundo relataram durante o período de observação participante e nas entrevistas. Outros motivos são: ser um dos espaços de lazer desses/as jovens, privilegiado para encontrar pessoas para ficar e namorar; onde conseguem acesso à internet para o uso das redes sociais, e em muitos momentos, é o lugar no qual conseguem intimidade com seu/sua namorado/a, quando estudam juntos, o que também apareceu em outras pesquisas (Paulo, 2011; Silva, 2007).

O namoro sério carrega elementos muito próximos ao que Thales de Azevedo (1986) denominou de “namoro à antiga”, com elementos do namoro que se estabeleceu no século XX, em que este poderia ser precedido de um período às escondidas, e, com o amadurecimento da relação, ser assumido para a família. Essa relação não se resume no pedido de namoro aos pais, e o assumir a relação, significa também maior compromisso, intenção em casar, mas isso não é algo consensual entre os/as jovens. Se para o jovem assumir o namoro como sério implica em ter condições de assumir um compromisso maior, para a jovem o assumir o namoro leva a uma mudança não só de status, que passa de solteira para namorando, mas também uma mudança na forma que a jovem é tratada, como relatado por Beatriz:

Pesquisadora: (...) você falou disso daí, quando você namora a tua rotina muda?

Beatriz: No domingo eu não saía muito mais, porque geralmente ele ia lá pra casa. E também nas festas, na maioria, eu só ia quando ele ia. Porque eu ir pra uma festa, certo que dançar eu podia dançar mais qualquer um, mas eu acho desanimado uma festa, você ter um namorado e ir sem ele (...).

Pesquisadora: ah, entendi. E seus pais, eles ficam diferente quando você está namorando?

Beatriz: ficam. (risos) Eles mudam bastante. Porque quando a pessoa vai sair já ficam recomendando um monte de coisa (...). Também ficam diferente, ficam dando conselho direto, (...) ficam perguntando pra onde eu vou. Se eu vou demorar. Na escola aí é que ele pega no pé. (...).

Quando o namoro é assumido, e o jovem está em um período de migração, o controle sobre a jovem é ainda mais rigoroso, e exercido não apenas pela sua família, mas também pela família do namorado e da comunidade. Natasha, jovem de 16 anos, moradora do sítio, que namora um rapaz do mesmo sítio, tem vida controlada pelo namorado, que liga diariamente para falar com ela e saber de seu dia, e também liga para parentes do sítio que contam sobre a conduta dela, e pela família dele, com quem ela mantém uma convivência (Diário de Campo 03 de Dezembro de 2013).

Pesquisas (Paulo, 2011; Silva, 2007) demonstram que o namoro nas áreas rurais tem como objetivo o casamento. O jovem deve ser o provedor do lar, enquanto a jovem deve cuidar da casa e dos futuros filhos. Neste sentido, assumir o namoro publicamente demonstra a intenção de uma união. Talvez por esse elemento de responsabilidade, assumir o namoro compreenda assumir um compromisso maior publicamente, e permanece como algo desejado, muito embora carregue também elementos negativos, como algo “não tão bom”, já que aumenta o controle pela família, o cerceamento da circulação para a jovem e as regras de conduta.

Na escolha do/a jovem para namorar, o contexto de pertencimento (rua ou sítio) também é importante, pois os/as jovens do sitio, embora sejam caracterizados como “matutos”, como também na pesquisa de Paulo (2011), por outro lado, são considerados como mais sérios, trabalhadores, respeitadores, e, no caso das jovens, “para casar”. Sobre os jovens do sítio, isso fica evidenciado no trecho abaixo do diário de campo, durante diálogo com três jovens:

Perguntei se achavam que tinha diferença em namorar rapaz do sitio ou da rua. Logo disseram que sim. Duas jovens afirmaram que “os do sítio são mais reservados, matuto”. A terceira que já tinha morado em sítio e que namora um do sitio responde: “ôxe, eu era do sítio e não era matuta, os do sítio são mais reservados, trabalhadores, sérios”; uma das jovens complementa: “é trabalhador, mas logo quer casar” (Diário de Campo, 11 de Outubro de 2013).

Assim, a depender do tipo de relacionamento que se deseje, a escolha da pessoa para namorar também perpassa pelo pertencimento dela, que engloba não apenas o local de moradia, mas todo o modo de vida, que produz formas de ser desse/a jovem.

Considerações finais

A Psicologia precisa olhar para as áreas rurais como um campo que produz processos subjetivos específicos. O pertencimento à família, enquanto valor-família – mantido pela tradição e hierarquia, que se refere desde a forma de ser dos indivíduos até as formas de sucessão e herança da terra, organização familiar, lugar de trabalho e morada – significa carregar a produção cultural e a honra familiar, seja mediante o controle de sua sexualidade, no caso das jovens, seja pelo trabalho no roçado ou fora dele, no caso dos jovens. Gênero, valor-família, pertencimento, estão articulados, marcados histórico e socialmente, e em alguns contextos essas diferenças produzem opressão e desigualdade, mas também possibilidade de resistência (Brah, 2006).

A manutenção da honra é garantida tanto pela família quanto pela comunidade, tanto pelo dispositivo da fofoca, quanto pela manutenção do segredo. Como forma de garantir a manutenção dos valores familiares e sociais desse contexto, as famílias tendem a preferir relações endogâmicas. Porém, as resistências cotidianas ocorrem para driblar o controle existente, ainda que não rompam com o status quo. Entre as estratégias de resistências temos: a vivência de diferentes tipos de relacionamento (ficar, namoro escondido), as fugas para casar, o uso de uma rede de amigos e/ou família para acobertar o/a jovem, as saídas antes de entrar na escola, o segredo.

É importante compreender que o paradoxo entre ruptura e continuidade dos valores rurais, apontado na literatura, se atualiza nas vivências dos relacionamentos afetivo-sexuais entre os/as jovens. É possível observar não apenas pela multiplicidade de relacionamentos existentes, mas também pela preocupação em manter o protocolo esperado para o namoro sério. Nesse sentido, a escolha da pessoa para se relacionar é importante, e o/a jovem do sitio é visto como possuindo características que propiciam o namoro sério. Entretanto, vale ressaltar que há resistências cotidianas, que objetivam outras possibilidades de existência e de vivências afetivo-sexuais, por meio de deslocamentos, fugas e recusas parciais. Tornar o namoro sério implica na aceitação do “protocolo do namoro”: o pedido para que o pai da jovem dê a permissão oficial ao jovem para namorar sua filha, em que implícita a aceitação das regras do namoro rural (controle do horário, dias e local em que o namoro deve ocorrer); as jovens ficam cientes de que o controle sobre elas irá se intensificar, e passará a ser feito não apenas pela família; os jovens também se comprometem com o pai da jovem de que o namoro terá uma intenção mais séria, com o desejo de uma união futura.

Nota

1Dayane define o “agitar” sinônimo do ajeitar e do arrumar, como “dar uma de cupido, chegar e falar ‘olha ele quer ficar com você, ela também’ e segundo ela, Isabela precisava disso no primeiro ano, pois era muito devagar” (Diário de Campo, 11 de Outubro de 2013).

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Recebido: 30 de Dezembro de 2021; Revisado: 22 de Maio de 2022; Aceito: 25 de Outubro de 2022

Fernanda Sardelich Nascimento, Doutora em Psicologia pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), é Professora Adjunta da Universidade Federal de Pernambuco, Campus Agreste (UFPE/CAA). Endereço para correspondência: Avenida Campina Grande, Bairro Nova Caruaru. 3ª Etapa - Blocos 27, 28, 29 e 30. Curso de Pedagogia, NFD/UFPE/CAA. Caruaru – PE. CEP 55.014-900. Telefone: (81) 2103-9208. Email: fernanda.sardelich@ufpe.br ORCID: https://orcid.org/0000-0002-4032-2202

Rosineide de Lourdes Meira Cordeiro, Doutora em Psicologia pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC/SP), é Professora Aposentada do Departamento de Serviço Social e Professora Colaboradora do Programa de Pós-Graduação em Psicologia da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE). Email: rocordeirope@gmail.com ORCID: http://orcid.org/0000-0001-6487-4012

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