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Estudos de Psicologia (Natal)

versión impresa ISSN 1413-294Xversión On-line ISSN 1678-4669

Estud. psicol. (Natal) vol.28 no.3 Natal  2023  Epub 28-Mar-2025

https://doi.org/10.69909/1678-4669.20230027 

Artigo Original

Fatores Psicossociais e Prevalência de Transtornos Mentais Menores em Trabalhadores de Saúde na Linha de Frente do Enfrentamento à Pandemia

Psychosocial factors and prevalence of minor mental disorders in health front line workers against pandemic

Factores psicosociales y prevalencia de trastornos mentales menores en trabajadores de la salud en la primera línea de enfrentamiento de la pandemia

Liliana Andolpho Magalhães Guimarães1 

Doutora em Saúde Mental pela Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP, é Professora do Programa de Pós-graduação (Mestrado e Doutorado) em Psicologia da Universidade Católica Dom Bosco (UCDB). Endereço para correspondência: Av. Tamandaré, 6000, Bloco M, Jardim Seminário, Campo Grande/MS. CEP 79.117-900. Telefone: (67) 3312-3605. Email: lguimaraes@mpc.com.br


http://orcid.org/0000-0002-9355-4015

Alessandra Laudelino Neto2 

Doutora em Psicologia pela Universidade Católica Dom Bosco (UCDB), é Psicóloga Clínica. Email: alessandraneto.psico@gmail.com


http://orcid.org/0000-0003-1918-2046

Fernando Faleiros de Oliveira3 

Doutor em Psicologia pela Universidade Católica Dom Bosco (UCDB), é Professor da Universidade Federal Fluminense (UFF). Email: ffaleiros@gmail.com


http://orcid.org/0000-0002-3953-6393

João Massuda Junior4 

Doutor em Psicologia pela Universidade Católica Dom Bosco (UCDB), é Professor do Instituto Federal de Mato Grosso do Sul - Campus Campo Grande Email: joao.massuda@ifms.edu.br


http://orcid.org/0000-0003-0523-6285

1Universidade Católica Dom Bosco

2Sem vínculo institucional

3Universidade Federal Fluminense

4Instituto Federal de Mato Grosso do Sul


Resumo

A pandemia da Covid-19 evidenciou desigualdades sociais e de acesso à saúde no Brasil e no mundo, com superutilização dos serviços e heterogeneidade de ações de enfrentamento à pandemia. Assim, o objetivo da pesquisa foi investigar a Saúde Mental de profissionais da saúde que atuam em um Hospital Público de referência para atendimento de casos graves de Covid-19 na capital do Mato Grosso do Sul. Como resultados, se evidenciou a suspeição para Transtornos Mentais Menores, com níveis acentuados (73,1%), além de situações de risco para a saúde, nos fatores psicossociais do trabalho - Exigências emocionais (86,5%), Exigências cognitivas (78,8%), Ritmo de trabalho (50,0%) e Exigências para esconder emoções (46,2%) - que se associaram moderadamente à elevada suspeição supracitada e impactaram negativamente a saúde desses trabalhadores. É necessário propor protocolos efetivos para enfrentar tais riscos e privilegiar um ambiente laboral mais seguro e saudável.

Palavras-chave: saúde mental; condições de trabalho; assistência hospitalar; trabalhadores da saúde; pandemia

Abstract

The Covid-19 pandemic highlighted social inequalities and difficulties to access health in Brazil and around the world, with services overutilization and heterogeneity of actions to face the pandemic. Thus, this research aimed to investigate the Mental Health of health professionals working at a referencial Public Hospital for the care of severe cases of Covid-19 in Mato Grosso do Sul state capital. As a result, this study has found an elevated suspicion for Minor Mental Disorders (73.1%) and its association to risk situations for health, in the psychosocial factors of work - Emotional Demands (86.5%), Cognitive Demands (78 .8%), accentuated work rhythm (50.0%) and demands to hide emotions (46.2%) - which were moderately associated with high suspicion and negatively impacted the health of these workers. It is necessary to propose effective protocols to face these risks and that favor a safer and healthier work environment.

Keywords: mental health; work conditions; hospital care; health workers; pandemic

Resúmen

La pandemia de Covid-19 destacó las desigualdades sociales y del acceso a la salud en Brasil y en el mundo, con sobreutilización de los sistemas y heterogeneidad de acciones para combatir la pandemia. El objetivo de la búsqueda científica fue investigar la Salud Mental de los profesionales de la salud que trabajan en un Hospital Público de referencia para la atención de casos graves de Covid-19 en la capital del Mato Grosso do Sul. Como resultado, se evidenció la sospecha por Trastornos Mentales Menores, con niveles acentuados (73,1%), además de situaciones de riesgo en los factores psicosociales del trabajo - Demandas Emocionales (86,5%), Demandas Cognitivas (78,8%), Ritmo de trabajo (50,0%) y Exigencias para ocultar emociones (46,2%) - que se asociaron moderadamente con la alta sospecha e impactaron negativamente en la salud de estos trabajadores. Es necesario proponer protocolos eficaces para confrontar estos riesgos y que favorezcan un entorno de trabajo más seguro y saludable.

Palabras clave: salud mental; condiciones de trabajo; atención hospitalaria; trabajadores de la salud; pandemia

Desde a detecção do primeiro caso na China, no final de 2019, em Wuhan, o novo coronavírus SARS-CoV-2, denominado Covid-19, alcançou alto grau de transmissibilidade e foi classificado, rapidamente, como uma emergência de saúde internacional. A condição pandêmica foi declarada em 11 de março de 2020, com aproximadamente 118.000 casos em 114 países e territórios. Sete meses após o primeiro relato da doença do Covid-19, foram notificadas, na Região das Américas, as maiores proporções de incidência do vírus nos Estados Unidos da América [EUA] (44%) e no Brasil (30%), e de mortes, no Brasil (29%), EUA (26%) e México (17%) (Organização Pan-Americana de Saúde [OPAS], 2020; World Health Organization [WHO], 2022).

Concomitantemente ao crescimento incontrolável dos casos e mortes ocasionados pela Covid-19, as evidências geradas pela comunidade científica nacional e internacional recomendavam a formulação de estratégias e ações com o intuito de contenção da intensa transmissão da Covid-19, por meio da aplicabilidade de intervenções não farmacológicas, como o distanciamento social e a utilização de máscaras de proteção. Revisadas periodicamente, tais evidências científicas forneciam, também, orientações provisórias e avanços no conhecimento da doença, sobretudo para amparar a equipe multiprofissional de saúde responsável por cuidar de pacientes infectados pela Covid-19 em serviços de emergência e/ou unidades de terapia intensiva. Do mesmo modo, o conhecimento das complicações e sequelas dessa doença indicavam a superutilização dos sistemas de saúde (Hallal et al., 2020, Santos et al., 2021).

A OPAS (2020) e a WHO (2022) também manifestaram preocupação elevada relacionada aos possíveis impactos para os trabalhadores da saúde da linha de frente do atendimento a infectados. Já para a European Agency for Safety and Health at Work ([EU-OSHA], 2011), esses trabalhadores, a todo momento lidam com decisões complexas, sob pressão, em situações de elevado estresse.

Em um momento pandêmico, com a superutilização dos sistemas de saúde, o fornecimento de cuidados essenciais aos pacientes gravemente enfermos ocorre em paralelo com a escassez de leitos e suprimentos, além do acréscimo de horas de trabalho, alto índice de infectividade, além do sentimento de impotência e estigmatização (Hallal et al., 2020, Wang & Lucca-Silveira, 2020), que podem propiciar, a instauração ou desenvolvimento de graves problemas emocionais e sobrecarga nos trabalhadores da saúde. Os ‘rearranjos institucionais’ sujeitam o profissional da saúde a um penoso não-saber (Narvaez et al., 2020).

Embora os estudos da EU-OSHA (2011) evidenciem que equipes de trabalhadores que atuam em emergências, ao experimentar o estresse ocupacional, ainda que elevado, não necessariamente desenvolvem transtornos mentais diagnosticáveis; a vivência de um incidente, sobretudo de grandes proporções, pode proporcionar impactos negativos na saúde mental destes trabalhadores, com uma multiplicidade de sintomas emocionais, cognitivos e sociais, com durabilidade bastante variável. Pesquisas recentes apresentam dados preliminares expondo a maiores riscos psicossociais os profissionais de saúde que atuam na linha de frente no atendimento aos pacientes acometidos pela Covid-19, com um aumento nos níveis de ansiedade e estresse, sintomas como solidão e impotência, além de depressão, Burnout e Transtorno por Estresse Pós-Traumático (Cheung et al., 2021; Lai et al., 2020; Shanafelt et al., 2020).

Fenômenos globais, como a Covid-19, necessitam ser processados e situados a partir de contextos locais (Segata et al., 2021). No Brasil, em 3 de fevereiro de 2020, houve a notificação da Emergência em Saúde Pública de Importância Nacional (ESPIN), com a instalação do Centro de Operações de Emergências (COE) e a definição dos Planos de Contingência Nacional e Estaduais, com o intuito de delineamento de estratégias e ações de resposta à pandemia da Covid-19. A partir da sistematização da rede de atenção, da orientação da assistência hospitalar e da atenção hospitalar para os casos graves, se dimensionou na maioria dos estados brasileiros (74,07%), o estabelecimento de serviços hospitalares de referência, ainda assim, a situação da pandemia foi caracterizada pela heterogeneidade de ações, iniquidade ética e social, além de divergências e desalinhamentos entre os atores governamentais (Santos et al., 2021), contribuindo para o aumento das desigualdades sociais e de acesso aos serviços de saúde (Wang & Lucca-Silveira, 2020).

Diante desse cenário, este estudo se propôs a analisar a Saúde Mental de profissionais da saúde que atuaram, durante esse período, no hospital público de referência para atendimento de casos graves do novo coronavírus - Covid-19 na capital do estado de Mato Grosso do Sul, Brasil, por meio do rastreio de Transtornos Mentais Menores (TMM) e possível associação destes com os Fatores Psicossociais do Trabalho (FPT), identificando também variáveis sociodemográficas e ocupacionais relevantes para as análises propostas.

É importante destacar que a presente pesquisa compreende: (i) Saúde Mental como o estado de bem-estar no qual o indivíduo é capaz de usar suas próprias habilidades, recuperar-se do estresse rotineiro e contribuir com a sua comunidade (WHO, 2022); (ii) TMM como o conjunto de sintomas não-psicóticos, relacionados a sintomas ou quadros depressivos, ansiosos, ou de estresse (irritabilidade, fadiga, insônia, dificuldade de memória/concentração) e queixas somáticas, que se manifestam por quadros individualizados ou conjuntos (de tais sintomas). (Almeida et al., 2007); e, (iii) FPT os elementos que representam o conjunto de percepções e experiências do trabalhador resultantes da interação entre indivíduo, condições de vida e condições de trabalho - e que trazem risco ou proteção à saúde dos trabalhadores - impactam no desempenho, na satisfação no trabalho e na saúde do trabalhador, e se devem às mudanças e à evolução contínua da natureza e organização do trabalho (F. F. Oliveira & Guimarães, 2021).

Essa proposta encontra consonância e se consolida no campo teórico da Psicossociologia do Trabalho, pois enxerga este como uma produção humana, que mobiliza investimentos, representações e valores, legitimando atividades como cuidar, educar, produzir, analisar as interações entre os diversos atores do mundo do trabalho, individualmente e em grupo. Passa pela atuação e interação do ser humano no contexto laboral, objetivando melhorar qualidade de vida no trabalho e a saúde dos trabalhadores (Lhuilier, 2017).

Método

Tratou-se de um estudo exploratório-descritivo de delineamento transversal, com amostragem não-probabilística, composta por conveniência (com técnica bola de neve, devido à impossibilidade de acesso ao hospital, em virtude do período pandêmico) e realizado por meio da plataforma de questionários on-line Survio (www.survio.com).

O instrumento de coleta foi disponibilizado eletronicamente no período de outubro de 2020 a abril de 2021 (6 meses), com orientações específicas para acesso e preenchimento, devido às limitações de presencialidade e divulgação, com o intuito de permitir a constituição de um perfil epidemiológico dos construtos pesquisados.

A pesquisa foi aprovada pelo Comitê de Ética em Pesquisa, de modo que se cumpriram todos os preceitos éticos recomendados, incluída a diretriz para pesquisas remotas durante a pandemia, expedido pelo sistema CEP/CONEP, culminando com a disponibilização digital do Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE), como requisito obrigatório para acesso aos instrumentos e participação na pesquisa. Além disso, foram previstas devolutivas gerais (resultados coletivos) e individuais (casos específicos de alto risco), para follow up da pesquisa.

A amostra contemplou a participação de 52 trabalhadores da saúde (médicos, enfermeiros, fisioterapeutas, entre outros), funcionários públicos estaduais, que atuaram na linha de frente de atendimento a pacientes infectados por Covid-19 no período e no Hospital supracitados.

Os dados sobre TMM foram obtidos por meio da aplicação do instrumento Self Report Questionnaire (SRQ-20) - em sua versão traduzida e validada para uso no Brasil (Iacoponi & Mari, 1989) - composto de 20 questões dicotômicas (sim/não), para o rastreamento de quadros sintomáticos não psicóticos (humor depressivo/ansioso; sintomas somáticos; decréscimo de energia vital; pensamentos depressivos) - considerando nota de corte igual ou superior a 7 (sete) pontos - sem a intencionalidade de fornecer um diagnóstico nosológico; para a mensuração dos FPT, foram utilizadas as subescalas Exigências Quantitativas, Ritmo de Trabalho, Exigências Cognitivas, Exigências Emocionais e Exigências de Esconder Emoções, do domínio Exigências Laborais do instrumento Copenhagen Psychosocial Questionnaire em sua segunda edição (COPSOQ II - Pejtersen et al., 2010), consideradas também as adaptações e validações para Portugal e para o Brasil (Gonçalves et al., 2021; Rosário et al., 2017); e, um Questionário Sociodemográfico e Ocupacional (QSDO), elaborado especificamente para esse estudo, em que constaram questões como: profissão, sexo, estado civil, renda, carga horária de trabalho, trabalho aos finais de semana, tempo para descanso, entre outras.

Os dados quantitativos foram analisados utilizando-se o software estatístico Statistical Package for the Social Sciences (SPSS), em sua 25ª versão, cujos testes têm como critério de significância um percentual de 95%. Foram realizadas análises descritivas (média, desvio padrão e distribuição de frequência) e inferencial (coeficiente de correlação de Pearson) para consecução dos objetivos do presente estudo.

Resultados

Dos trabalhadores da saúde que atuavam na linha de frente de atendimento a pacientes infectados pela Covid-19 (médicos, enfermeiros, fisioterapeutas, entre outros) e que concordaram em participar do estudo (n = 52), observou-se que as características sociodemográficas mais prevalentes (teste de uma proporção, p < 0,05) foram: 86,5% do sexo feminino; 61,5% casados ou em união estável; 67,3% com filhos; 51,9% com idade entre 29 e 39 anos; 46,2% com renda mensal familiar de até três salários-mínimos e 11,6% com renda familiar de mais de 10 salários-mínimos; sendo que 53,9% pertenciam à categoria da enfermagem (enfermeiros e técnicos). Quanto à carga de trabalho, 48,1% relataram cumprir de 8 a 12 horas por dia e 17,3% mais de 12 horas; quanto ao trabalho nos finais de semana e feriados, 57,7% dos respondentes o fazem e trabalham mais de 10 horas por dia; e quanto ao tempo dedicado ao repouso, 57,7% dormem menos de 6 horas por dia.

Os resultados do SRQ-20 apresentaram as seguintes prevalências: (i) Suspeição geral para TMM em 73,1% da amostra; (ii) Grupos sintomáticos - Decréscimo de energia vital (34,6%), Sintomas Somáticos (30,0%), Humor Depressivo/Ansioso (24,8%) e Pensamentos Depressivos (10,5%).

Os elementos que mais contribuíram para o decréscimo da energia vital dos participantes deste estudo foram a dificuldade de obter satisfação em suas tarefas laborais (69,2%), o fato de sentirem-se cansados o tempo todo (67,3%) e cansarem-se com facilidade (65,4%). Em relação aos sintomas somáticos, foi observado que grande parte da amostra reportou problemas com o sono (75,0%), má digestão (61,5%) e dores de cabeça frequentes (57,7%).

A avaliação do humor ansiógeno e depressivo indicou que 86,5% dos profissionais participantes deste estudo sentiam-se nervosos, tensos ou preocupados e 69,2% sentiram-se tristes ultimamente. Já a análise dos sintomas relacionados aos pensamentos depressivos indicou que metade dos trabalhadores avaliados perdeu o interesse pelas coisas que até então o atraiam.

Já os resultados das dimensões avaliadas pelo COPSOQ II, para análise dos FPT investigados, revelou uma alta carga de Exigências emocionais (86,5%) e de Exigências cognitivas (78,8%), indicando que estes fatores estavam em situação de risco à saúde dos trabalhadores, conforme exposto na Tabela 1.

A avaliação analítica da escala de Exigências emocionais revelou que 90,4% dos participantes deste estudo sentiram-se emocionalmente envolvidos com seu trabalho, 88,4% acreditaram que o trabalho lhes exige emocionalmente e 82,7% perceberam que foram expostos, frequentemente ou sempre, a situações emocionalmente perturbadoras em seu ofício.

O detalhamento da escala de Exigências cognitivas indicou que o trabalho destes profissionais havia: exigido sua atenção constante (96,1%), demandado a tomada de decisões difíceis (71,2%) e requerido a proposição de novas ideias (71,1%) com grande frequência.

Tabela 1: Média, Desvio-Padrão e Classificação quanto à Avaliação das Escalas COPSOQ-II 

Instrumento/Escala Média (Desvio-padrão) Classificação
Exigências quantitativas 3,00 (± 0,95) Situação de atenção
Ritmo de trabalho 3,50 (± 1,04) Situação de atenção
Exigências cognitivas 4,33 (± 0,57) Situação de risco para saúde
Exigências emocionais 4,47 (± 0,65) Situação de risco para saúde
Exigências para esconder emoções 3,25 (± 0,98) Situação de atenção

Também há necessidade de atenção quanto às Exigências quantitativas (50,0%), Ritmo de trabalho (50,0%) e Exigências para esconder emoções (46,2%), pois apresentaram um nível de classificação considerado intermediário com relação ao risco à saúde, conforme apresentado na Tabela 1.

Cabe destacar que a realização de horas extras, com grande frequência, por parte de 50% da amostra investigada, foi o fator de maior peso na avaliação das Exigências quantitativas. Já a exigência de se trabalhar muito rapidamente, reportada também por 50% dos respondentes deste estudo, ressaltou a necessidade de atenção para o Ritmo de trabalho destes profissionais.

Em relação à necessidade de atenção para o fator Exigência para esconder emoções, foi observado que este resultado decorre do diagnóstico de que 48,1% dos trabalhadores sentiram-se impelidos a tratar as pessoas de forma igual, mesmo que não se sentissem satisfeitos em ter de agir desta maneira, e a frequente demanda, reportada por 46,2% dos respondentes, para que fossem simpáticos com todos, ainda que não houvesse retribuição por tal ação.

Com o intuito de compreender a associação dos FPT investigados com a suspeição para TMM, ou seja, a associação entre o contexto em que o trabalho é desenvolvido e os efeitos deste para a saúde dos trabalhadores, foram avaliadas as correlações entre estas variáveis. Identificou-se uma correlação moderada e positiva entre maiores escores na avaliação da suspeição para TMM e uma maior exigência quantitativa, um ritmo de trabalho mais intenso e uma maior exigência para esconder emoções, todos estes fatores psicossociais avaliados em um estado intermediário com relação ao risco à saúde dos trabalhadores (Tabela 2).

Tabela 2: Correlação entre os Fatores Psicossociais e o Escore de Suspeição para TMM 

SRQ-20 EQ RT EC EE
EQ p-valor 0,318* 0,022
RT p-valor 0,512** 0,000 0,486** 0,000
EC p-valor 0,264 0,059 0,220 0,118 0,465** 0,001
EE p-valor 0,253 0,070 0,212 0,131 0,325* 0,019 0,270 0,052
EpEE p-valor 0,415** 0,002 0,493** 0,000 0,298* 0,032 0,226 0,107 0,276* 0,048

Notas. EQ - Exigências quantitativas; RT - Ritmo de trabalho; EC - Exigências

cognitivas; EE - Exigências emocionais; EpEE - Exigências para esconder emoções.

* A correlação é significativa no nível de 0,05 (Coeficiente de correlação de Pearson)

** A correlação é significativa no nível de 0,01 (Coeficiente de correlação de Pearson)

A Tabela 2 também apresentou que não foi identificada a associação direta entre as exigências emocionais e exigências cognitivas com maiores escores na avaliação de suspeição para TMM. No entanto, observou-se o efeito indireto destas variáveis para o adoecimento dos trabalhadores, tendo em vista a identificação de correlações moderadas e positivas entre estes dois fatores psicossociais e um ritmo de trabalho mais intenso, fator este associado diretamente a maiores escores na escala de avaliação de suspeição para TMM.

Discussão

Os trabalhadores da saúde cotidianamente, em sua rotina de trabalho, têm de enfrentar um ambiente profissional de intensa pressão, em que múltiplas decisões e ações precisam ser tomadas e colocadas em prática em um curto espaço de tempo, por vezes dispondo de recursos limitados e insuficientes para enfrentar os diversos desafios existentes (Willis et al., 2021).

Durante a pandemia da Covid-19, tendo suas atividades caracterizadas como serviços essenciais à população, os profissionais da saúde tiveram sua rotina de trabalho significativamente impactada pelo aumento expressivo da utilização dos sistemas de saúde (Lee, 2020; Santos et al., 2021), ocasionado pela ampliação exponencial da demanda de trabalho, aumento da utilização dos recursos, já reduzidos em tempos normais de operação, e precarização da infraestrutura, muitas vezes insuficiente para o atendimento regular da população (Shigemura et al., 2020).

Especificamente no Hospital pesquisado, durante o período da pandemia, observou-se a ampliação dos leitos de Unidade de Terapia Intensiva em 320,51%, passando de 39 para 125 leitos críticos (Ostemberg, 2021). Esta expansão da capacidade de atendimento, ainda que possa ter sido acompanhada do aumento no número de trabalhadores, invariavelmente demanda a intensificação da rotina ocupacional destes profissionais, ou seja, o aumento excessivo do número de horas de trabalho (por vezes acima de 60 horas semanais), a convivência com fluxos laborais imprevisíveis ou com modificações constantes/significativas na rotina habitual, o aumento das responsabilidades no ambiente de trabalho e o aumento dos riscos físicos e psicológicos neste local (Willis et al., 2021).

Luz et al. (2020) exemplificam esse cenário de intensificação da rotina de trabalho destacando modificações que podem não aparentar serem significativas, na visão da população geral, mas que acentuam a sobrecarga de trabalho dos profissionais da saúde.

Para a utilização dos EPIs recomendados para o cuidado de pacientes portadores da Covid-19, por exemplo, os profissionais deveriam seguir protocolos internacionais de regulamentação da paramentação e desparamentação dos trabalhadores, visando reduzir o risco de contaminação destes. No entanto, diante das restrições orçamentárias no cenário nacional, estes profissionais foram comumente expostos a rotinas extensas com o objetivo não apenas de reduzir a circulação de pessoas em áreas de alto risco de infecção, mas também para proporcionar a utilização mais eficiente e racional dos equipamentos e trabalhadores disponíveis. Isto fez com que estes indivíduos estivessem expostos a jornadas prolongadas que frequentemente causaram, por exemplo, lesões em sua pele, oriundas do uso contínuo das máscaras N95, problemas urinários, decorrentes de extensos períodos de trabalho paramentado, além da fadiga e cansaço extremo diante da rotina de trabalho intensificada (Luz et al., 2020; Souza et al., 2021).

Ressaltou-se que as nuances decorrentes da intensificação do trabalho se apresentaram quando o presente estudo expõe que 48,1% dos trabalhadores cumpriram de 8 a 12 horas por dia de trabalho, seguidos por 17,3% que, diariamente, laboravam mais de 12 horas, e de 57,7% que reportaram trabalhar mais de 10 horas por dia nos finais de semana e feriados, possibilitando inferir-se que certamente os trabalhadores da unidade hospitalar investigada se aproximaram e muitas vezes superaram a carga horária semanal de 60 horas.

Adicionou-se a este cenário a avaliação de um contexto de trabalho em que há a necessidade de atenção para as Exigências Quantitativas e o Ritmo de Trabalho, corroborando a inferência proposta acerca da carga horária semanal excessiva no período de realização deste estudo, acentuando a necessidade de atenção para com a carga de trabalho dos profissionais de saúde durante a pandemia e sinalizando a urgência de se implementar medidas para um melhor gerenciamento destes fatores.

Assim, a Psicossociologia do Trabalho pode se fazer presente no confronto e gerenciamento eficaz de tais fatores, pois, em campo, pensa em possibilidades de transformação das situações de trabalho com vistas a promover saúde, segurança e bem-estar, e ampliar a consciência do trabalhador sobre o mundo do trabalho que vivencia, para continuamente construírem emancipação e autonomia (Borges & Barros, 2021).

Ainda que a elevada carga quantitativa e o acentuado ritmo de trabalho tenham sido destacados nos resultados levantados, este estudo ainda identificou que as exigências cognitivas e emocionais também demandam ações assertivas e urgentes, pois já se encontram em situação de risco para a saúde dos trabalhadores. A avaliação analítica destas escalas reconheceu o grande envolvimento emocional dos profissionais com seu contexto de trabalho, a vivência de situações emocionalmente perturbadoras, a necessidade de atenção constante e a tomada de decisões difíceis como elementos centrais para o alto risco identificado.

Estes elementos são compatíveis com o diagnóstico proposto por Damasceno e Merces (2020) quanto aos principais motivos para o adoecimento mental dos profissionais de saúde durante a pandemia. Segundo os autores, o medo de perder o emprego e consequentemente sua fonte de subsistência, o alto risco de ser infectado e ter de lidar com o isolamento e separação de sua família, a sobrecarga física e mental, a necessidade de se atualizar constantemente acerca da evolução de uma doença com modificações frequentes, a tomada de decisões difíceis acerca da terapêutica a ser adotada, o luto decorrente da perda de pacientes, colegas de trabalho e profissão e amigos e a necessidade de lidar com questões familiares (e.g. filhos estudando em casa em virtude do fechamento das escolas) são as principais fontes de adoecimento mental dos profissionais de saúde neste período.

Luz et al. (2020) adicionam, aos aspectos elencados anteriormente, o sentimento de frustração e impotência vivenciado por muitos trabalhadores da saúde ao ter de presenciar diariamente alas superlotadas, falta de leitos e equipamentos para a internação adequada dos pacientes, tendo, em casos extremos, de realizar o procedimento de triagem de pacientes para indicar aqueles que terão acesso à dispositivos essenciais à manutenção de sua vida.

Diante de tal realidade, Murcho et al. (2016), Esperidião et al. (2020) e Zhang e Ma (2020) relataram que é esperada uma crescente das estatísticas de depressão, síndromes de ansiedade, comportamento suicida, burnout, uso de álcool e outras drogas, estresse, fadiga e outros transtornos mentais menores, sendo todos estes quadros associados ao sofrimento e adoecimento mental destes trabalhadores da saúde.

Não obstante, ainda que esse tipo de ambiente de trabalho tenha forte presença de fatores estressores e possíveis potencializadores de agravo à saúde mental desses trabalhadores, o presente estudo identificou que, dentre aqueles que atuam na linha de frente de atendimento a pacientes infectados pela Covid-19 no HRMS, a prevalência de suspeição para TMM atingiu níveis extremamente acentuados (73,1%) e preocupantes.

Corrobora-se esse apontamento quando em estudos com populações-alvo similares, realizados antes do período da pandemia, são identificados resultados como os de: J. L. L. Silva (2008), em um hospital público no estado do Rio de Janeiro, em que a prevalência de TMM encontrada foi 23,6%, sendo de 20,9% entre trabalhadores permanentes e de 26,4% entre temporários (p = 0,027); Magnago et al. (2015), em um hospital universitário no estado do Rio Grande do Sul, em que o indicador de suspeição foi da ordem de 33,7%; A. F. Silva (2017) em que os participantes sequer tiveram média dentro da pontuação de corte para suspeição (mulheres: 4,37; homens: 3,85); e E. B. Oliveira et al. (2020), em estudo realizado em 2018 com trabalhadores de enfermagem em um hospital, onde a suspeição para TMM foi de 32,2%. Ressalta-se que nestes estudos, anteriores à pandemia, a prevalência mais alta não atingiu metade do escore da população, atuante durante a crise da COVID-19, pesquisada neste trabalho.

Estudo recente com 1.257 profissionais de saúde, que atuam em hospital na China, revelou sintomas de TMM, tais como, depressão (50,4%), ansiedade (44,6%) e dificuldades para dormir (34%), em profissionais de saúde, sendo estes em sua maioria mulheres e pertencentes à categoria da enfermagem, expondo resultados mais graves que outros trabalhadores nesses quesitos (Bohlken et al., 2020). Com particular destaque, a presente pesquisa expõe, da mesma forma, sintomatologias relatadas majoritariamente por mulheres (86,5%) da categoria de enfermagem (53,9%), vinculadas aos sintomas somáticos (30,0%, sendo que destes, 75,0% apresentaram queixas de dificuldades para dormir), seguidos por humor depressivo-ansioso (24,8%, com 86,5% destes relatando nervosismo, tensão ou preocupação constante).

Durante uma crise de saúde global dramática, com a ameaça de patógenos contagiosos e virulentos, como a pandemia da Covid-19, os profissionais de saúde experimentam grandes desafios diariamente, com altos índices de morbidade psiquiátrica (Mulatu et al., 2021), semelhante aos achados de Liu et al. (2012).

Ressalta-se que estados de ansiedade, depressão, inquietude e estresse em profissionais que atuam em emergências constituíram preditores de condutas equivocadas, além de absenteísmo, presenteísmo e burnout (Laudelino Neto & Guimarães, 2021; Mulatu et al., 2021; Ornell et al., 2020). No entanto, experiências com outras epidemias, como a síndrome respiratória aguda grave (SARS), expuseram que as implicações para a saúde mental são frequentemente negligenciadas ou subestimadas (Liu et al., 2012).

Dessa forma, assim como para Morawa et al. (2021), se estabeleceu a relação dos FPT, num ambiente modificado pelo fator pandemia, com os impactos na saúde mental deste grupo de trabalhadores (principalmente quadros ansiosos e/ou depressivos), quando houve interfaces com a quantidade e ritmo de trabalho, e com as demandas de se esconder emoções, pelo contato direto com situações de luto.

Para confrontar essas situações, a abordagem da Psicossociologia do Trabalho compreende tal correlação, a partir da intervenção prática, com o enfrentamento de três questões essenciais relativas a essa estruturação do trabalho: (i) desenvolver processos de humanização e de subjetivação; (ii) compreender o trabalho como instituição e como organização; e, (iii) construir o sentido do trabalho em suas ligações com a cultura (Carreteiro & Barros, 2014; Schmidt & Guimarães, 2021).

Logo, frente à pandemia e ao volume de novas demandas psicológicas, uma das possibilidades de ação é realizar atividades como as propostas por Poersch et al. (2021), por meio de um protocolo de assistência especializada em saúde mental para os trabalhadores de forma a monitorar ativamente as manifestações psíquicas, por meio da identificação e pronto atendimento aos grupos de alto risco de sofrimento psíquico, oferecendo, da mesma forma, um conjunto de recursos de investigação e ação, constituído pela articulação entre o campo social, as condutas humanas e a vida psíquica (Barus-Michel et al., 2005), aplicados à realidade das situações de trabalho e às representações de que ela é objeto (Lhuilier, 2017).

Por fim, se considera que monitorar a estrutura de trabalho e o sofrimento emocional do trabalhador deve se estender além do período de maior incidência de casos, visto que novos surtos têm se manifestado ao redor do mundo e deve se manter a atenção a tais fatores estressores.

Limites e Perspectivas

Ainda que os achados identificados nesta pesquisa, como por exemplo, a associação direta de elevadas exigências quantitativas, acentuado ritmo de trabalho e necessidade de se esconder emoções com o desenvolvimento de TMM sejam coerentes com a literatura existente e por isso suportem as inferências propostas, é importante destacar que o delineamento utilizado na pesquisa, assim como os testes estatísticos utilizados, impossibilitam a confirmação da existência de uma relação de causa e efeito entre as variáveis analisadas, sendo recomendada a realização de novas coletas posteriores para que tal relação seja melhor compreendida.

Da mesma maneira, é importante mencionar que a adoção de uma amostragem não probabilística, por conveniência, reduz o potencial de extrapolação dos resultados obtidos para além dos participantes desta pesquisa. No entanto, salienta-se que a discussão dos resultados obtidos e a análise comparativa destes com outros estudos, aponta que os achados desta pesquisa estão em consonância com o conhecimento científico desenvolvido não apenas no Brasil, mas também em outros países com profissionais da saúde atuantes no enfrentamento da Covid-19.

Ainda que o enfoque deste trabalho tenha sido a avaliação da presença de casos suspeitos de TMM no HRMS e a associação destes a determinados FPT, observou-se que outros elementos também poderiam estar associados ao adoecimento dos trabalhadores, como por exemplo a privação do sono ao qual alguns profissionais revelaram estar sujeitos. Novas pesquisas objetivando melhor compreender a relação entre estes fatores são de extrema importância, tal qual a reprodução deste estudo no decorrer da pandemia e após a sua superação para que a associação de TMM à presença de FPT seja avaliada ao longo do tempo.

Considerações Finais

Ações que visem a prevenção e o enfrentamento precoce aos agravos à saúde mental, decorrentes de fatores psicossociais do trabalho ou não, são fundamentais para se construir ambientes de trabalho mais saudáveis e seguros, diante dos desafios diversos que a pandemia tem trazido aos trabalhadores da linha de frente. Estratégias ativas para cuidados com a saúde mental e emocional podem possibilitar o acolhimento e o acompanhamento de tais demandas psíquicas desse grupo ocupacional, servindo como dispositivo de humanização do ambiente laboral e reduzindo os efeitos da sobrecarga quantitativa, cognitiva e emocional existente no trabalho destes indivíduos.

Especificamente neste estudo, elevadas demandas de trabalho cognitivas e emocionais, bem como ritmo de trabalho acentuado e elevada quantidade de trabalho foram identificados como fatores psicossociais que impactaram negativamente a saúde dos trabalhadores atuantes no enfrentamento à pandemia, estando moderadamente associados à elevada prevalência de suspeição de TMM na amostra. Fatores como suporte organizacional, percepção de justiça e desenvolvimento de ações para acolhimento e atendimento às demandas psicossociais desses trabalhadores são relatadas na literatura como caminho para intervir em fatores estressores, com potencial de redução dos efeitos deletérios de tais fatores psicossociais, demandando, no entanto, a participação ativa desses trabalhadores na construção de tais iniciativas e o engajamento e comprometimento das lideranças com a implementação destes programas.

Destaca-se ainda que a proposição de políticas mais efetivas para a redução da exposição dos trabalhadores da saúde a condições adversas de trabalho atendem não apenas a necessidade crescente de se construir um ambiente laboral mais seguro e saudável, como também está alinhada às recomendações de organismos nacionais e internacionais quanto à necessidade de se desenvolver uma cultura organizacional centrada no ser humano, de modo a se respeitar a dignidade nas relações interpessoais e estabelecer protocolos para criação de fatores de proteção ou redução de fatores de riscos psicossociais do trabalho.

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Recebido: 02 de Agosto de 2022; Revisado: 16 de Fevereiro de 2023; Aceito: 31 de Março de 2023

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