A experiência bem sucedida e internacionalmente reconhecida de implantação do Sistema Único de Saúde (Castro et al., 2019) foi adotada como inspiração para a formulação de um Sistema Único de Assistência Social (SUAS), também fundamentado nos princípios doutrinários de universalidade, equidade e integralidade, e nos princípios organizativos de descentralização, hierarquização e comando único em cada esfera federativa (Souza & Dalbello-Araújo, 2021). Não obstante, Abreu et al. (2014) apontam que a descentralização das políticas sociais que decorreu da implantação do SUAS não logrou assegurar ações cooperativas e colaborativas entre as três esferas de governo, remanescendo obstáculos à implementação e à consolidação do SUAS. Estes autores constataram a transferência de responsabilidades ao nível local (municipal) a pretexto da descentralização e a persistência da precarização dos vínculos empregatícios e da desqualificação do trabalho técnico-profissional nas políticas de Assistência Social.
Embora a Lei Orgânica da Assistência Social (LOAS) tenha regulamentado a assistência social como um direito, já previsto na Constituição Federal de 1988 (Behring & Boschetti, 2011), a relação da assistência social com a filantropia, o clientelismo e o patrimonialismo (Carvalho, 1997) ainda são desafios a serem superados. Yamamoto e Oliveira (2010) salientam que o caráter voluntário e filantrópico de ações de benemerência, tradicionalmente realizadas por organizações do chamado “terceiro setor”, criam barreiras para o controle social e a gestão estatal destas ações na direção da construção de cidadania, conforme prevê a LOAS.
O clientelismo promovido pela histórica filantropização da “questão social” no Brasil oportunizou a manutenção do capital político a segmentos privilegiados do poder local (Behring & Boschetti, 2011). Nesse sentido, segundo Medeiros (2019), a priorização das ações de caridade aos pobres pelo “primeiro-damismo”, a distribuição de cestas básicas, fraldas geriátricas e outros benefícios eventuais, e a mobilização da ação voluntária nas emergências e desastres, por exemplo, têm fortalecido a precarização e a desprofissionalização do trabalho na Assistência Social e a destituição de seu caráter técnico.
Nery (2009) afirma que, para os trabalhadores do setor, a implantação do SUAS, em 2005, por meio da Resolução CNAS nº 130, trouxe mudanças positivas para o trabalho nas políticas de assistência social. Houve um maior reconhecimento de ações profissionais que buscam promover a cidadania, mais instrumentos de trabalho para os agentes do setor e maior autonomia técnico-profissional. Em contrapartida, isso não garantiu, por si só, condições adequadas de trabalho e nem criou mecanismos eficazes para impedir interferências políticas locais contrárias à construção do SUAS.
Enfocando mais especificamente o conteúdo do trabalho nas políticas de assistência social, vale salientar que os trabalhadores deste setor atuam, cotidianamente, na proteção a populações vulnerabilizadas, na redução de circunstâncias que produzem vulnerabilidade e na restituição de direitos sociais violados, abarcando desde a insegurança alimentar até as violências intrafamiliares (Guimarães et al., 2020). Os autores salientam que estes trabalhadores, assim, devem acolher e intervir diante dessas situações, lidando, no cotidiano, com o manejo de situações de intenso sofrimento.
Schott (2017) discute sobre o sofrimento vivenciado pelos trabalhadores do SUAS devido ao contato cotidiano com situações de destituição dos direitos de cidadania nas quais vivem parte relevante de seus usuários. Esta atuação, ressalta Schott (2017), gera um desgaste cognitivo e emocional significativo nos trabalhadores do setor, promovendo características adoecedoras para este trabalho. Assim, situações de intenso sofrimento por parte dos usuários da política de assistência social acabam por afetar substancialmente, também, os trabalhadores desta política.
Dado o quadro exposto, algumas questões se fazem emergentes: como sustentar uma postura de neutralidade diante da barbárie na qual o trabalhador do SUAS convive diariamente, seja por meio da escuta de narrativas marcadas por traumas, violências e violações, seja por testemunharem no território no qual atuam pobreza e injustiças? A exposição frequente destes trabalhadores a conteúdos de sofrimento inegavelmente impactam sua saúde mental. Qual é a natureza e a extensão deste sofrimento? O estudo ora relatado realizou uma revisão crítica da literatura sobre as manifestações de sofrimento mental no trabalho por profissionais que atuam no SUAS.
Metodologia
Foi realizada uma revisão da literatura que, para Souza et al. (2010), possibilita agrupar estudos disponíveis sobre um determinado tema para, assim, compreendê-lo melhor e aprofundar conhecimentos que auxiliam na prática e em maneiras de lidar com os desafios que ela apresenta. Dada a relativa facilidade de acesso por meios remotos, a revisão apresenta-se como uma estratégia factível para a compilação de resultados e conclusões e para a identificação de lacunas que, por sua vez, fomentam novos recortes de estudo e o avanço da produção de conhecimento. Além disso, Cavalcante e Oliveira (2020) apontam que revisões críticas da literatura visam análise e interpretação sobre o que já foi produzido, mais do que uma síntese sobre os resultados encontrados pelos estudos revisados.
Foram buscados estudos nas bases de dados Scielo, PePSIC, LILACS e Portal de Periódicos CAPES com os seguintes descritores: “assistência social” e “saúde do trabalhador”; “trauma vicário” e “assistência social”; “síndrome de burnout” e “assistência social”; “fadiga por compaixão” e “assistência social”, e “estresse pós-traumático” e “assistência social”. O trauma vicário (Erazo, 2018), a síndrome de burnout (Santos et al., 2010), a fadiga por compaixão (Borges et al., 2019) e o estresse pós-traumático (Schestatsky et al., 2003) foram adotados por serem descritores que, apesar de guardarem especificidades, sinalizam para modos de sofrimento devidos a uma exposição frequente a conteúdos emocionalmente difíceis no trabalho. Conforme exposto anteriormente, tais conteúdos são comuns na atividade profissional na assistência social. Na etapa de rastreamento dos descritores pertinentes ao objeto do estudo, observou-se que tais condições são mencionadas nos trabalhos inicialmente sondados, e que sua delimitação enquanto descritores poderia levar à ampliação dos estudos a serem potencialmente incluídos.
Foram incorporadas ao estudo publicações que atenderam aos seguintes critérios de inclusão: (a) serem decorrentes de pesquisas empíricas (qualitativas, quantitativas e mistas); (b) abordarem objetos relacionados à saúde mental do trabalhador do SUAS; (c) terem sido publicadas desde 2005, marco de criação do SUAS no Brasil, na ocasião da publicação da primeira Norma Operacional Básica - NOB (Brasil, 2005); (d) não terem sido publicados em língua estrangeira, e (e) terem sido realizadas em serviços consoantes à Tipificação Nacional de Serviços Socioassistenciais do Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome (2013). Além disso, foram adotados os seguintes critérios de exclusão: (a) artigos cuja autoria não fosse de pesquisadores e instituições brasileiras, haja vista que o SUAS é uma política pública com um desenho peculiar à realidade nacional, e (b) artigos duplicados nas bases de dados consultadas.
Para a seleção dos estudos foi feita inicialmente a leitura dos títulos e dos resumos. Foram localizados 2.138 trabalhos entre agosto e dezembro de 2021. De imediato observa-se, na Figura 1, uma marcante discrepância entre o número de estudos identificados e o número de artigos incluídos no estudo. Isso deve-se ao fato de que estudos realizados com profissionais de outros setores, que não a assistência social, e sobretudo da área da saúde, foram retornados pelas bases como compatíveis com os descritores utilizados. Porém, analisando-se mais detidamente, ao serem aplicados os critérios de inclusão, estes artigos revelaram-se incompatíveis com o estudo.
Figura 1: Fluxograma dos estudos revisados
Após esta etapa, por meio da qual foram incluídos 11 trabalhos, e constatando a escassez na produção científica, foi adicionada como base de dados o Portal Teses e Dissertações CAPES, recorrendo-se aos mesmos descritores. Oito dissertações foram identificadas neste processo. Além disso, à busca de mais estudos, outras fontes foram acessadas: (a) as referências citadas em cada um dos 11 trabalhos já identificados, localizando-se com isso outros cinco estudos, e (b) as referências contidas nos documentos sobre o SUAS publicados pelo Centro de Referência Técnica em Psicologia e Políticas Públicas - CREPOP (https://crepop.cfp.org.br/), identificando-se mais um estudo. Por meio destas outras fontes foram identificados, assim, 14 potenciais novos estudos, restando seis após a aplicação dos critérios de inclusão e exclusão.
A amostra final, desta forma, foi composta por 17 trabalhos, abarcando o período de 2005 a 2021, que foram lidos na íntegra. Após leitura exaustiva foram elaborados eixos de análise, com base em um raciocínio indutivo, de acordo com as aproximações entre o conteúdo dos estudos e os objetivos da presente pesquisa. Para isso, recorreu-se à análise temática dos artigos incluídos (Souza, 2019).
Resultados e Discussão
Foram delimitados os seguintes eixos de análise: (1) “Características adoecedoras do trabalho na assistência social”, que aborda especificidades, conteúdo e exigências do trabalho na assistência social que afetam a saúde mental dos trabalhadores; (2) “Precarização do trabalho na assistência social”, que contempla as condições precárias de trabalho e de vínculo empregatício dos trabalhadoros da assistência social; (3) “Manifestações de sofrimento em trabalhadores da assistência social”, que trata de como esse adoecimento pelo trabalho na assistência social se manifesta, e (4) “Estratégias de enfrentamento em benefício da saúde mental dos trabalhadores da assistência social”, que aponta os meios desenvolvidos pelos trabalhadores do setor para preservarem sua saúde mental no trabalho.
Características adoecedoras do trabalho na assistência social
Guimarães et al. (2020) focalizam a violência relacionada ao trabalho, sofrida pelos trabalhadores do SUAS, por meio de um estudo qualitativo com 12 profissionais, sendo seis da Proteção Social Básica e seis da Proteção Social Especial, predominantemente mulheres. Constataram a ocorrência de violência no trabalho pela relação abusiva da gestão. que era confusa em suas orientações, acarretando em prejuízos à saúde mental dos trabalhadores, além de se apoderar dos créditos do trabalho efetuado. Em outra oportunidade, Guimarães (2018) qualifica como violência psíquica a agressão verbal por parte dos gestores que davam instruções ambíguas aos trabalhadores do SUAS.
Silva et al. (2018) identificaram em sua pesquisa a desqualificação e a deslegitimação do trabalho, acrescidas da exigência por militância pela gestão municipal e pelas imposições do sistema de justiça sobre o trabalho técnico no SUAS, com impactos na saúde mental dos trabalhadores. Guimarães et al. (2020) afirmam ainda que as profissionais sofriam violência indireta, isto é, se afetavam emocionalmente com as questões sociais vivenciadas pelos usuários como a miséria, o abuso e dependência de drogas e a prostituição infantil.
Galbiatti (2015) destaca a dificuldade de trabalhadores de um CREAS no interior paulista para lidar com o abuso sexual por mobilizá-los emocionalmente, bem como com a decepção pela morosidade do sistema penal para proteger os usuários da situação de violência causadora de sofrimento. Lopes (2017) também estudou trabalhadores de CREAS, mas de um município do Vale do Paraíba. A autora registra a frustração vivenciada pelos trabalhadores ao atuar junto de adolescentes em cumprimento de medidas socioeducativas, que em geral não aderem ao serviço e nem se implicam nas ações de reinserção social.
Nascimento e Moraes (2019), partindo da perspectiva teórico-metodológica da clínica da atividade, e inspirados também pela psicodinâmica do trabalho, analisam a relação entre gênero profissional e o processo de saúde/adoecimento de cinco psicólogas de um CRAS em Vitória/ES. Em seu estudo com profissionais de um CREAS do Paraná, Kruger (2016) identifica um coletivo enfraquecido, levando a uma maior propensão ao sofrimento associado ao trabalho, bem como à somatização.
Mendes (2011), por sua vez, identifica que servidores da Fundação Papa João XXIII (FUNPAPA), entidade gestora de ações de assistência social em Belém/PA, escolhem esta atuação por desejarem lidar com a “questão social”. A autora acrescenta que a relação com o usuário, ao mesmo tempo em que pode ser desafiadora, potencializa o trabalho pelas emoções. Para ela, o problema está na ausência de suporte e retaguarda institucionais, o que também é mencionado por Kruger (2016), amplificando o sofrimento no trabalho.
Nascimento e Moraes (2019) apontam que as psicólogas que participaram da sua pesquisa percebem o risco a que se submetem nas visitas domiciliares devido à periculosidade dos territórios, gerando medo. Schott (2017), em sua pesquisa com profissionais da Proteção Social Básica, observou que a priorização de interesses político-partidários pelos gestores tende a gerar frustrações nos trabalhadores pela desqualificação de seu trabalho.
Almeida et al. (2009), ao estudarem a síndrome de burnout em trabalhadoras de instituições ligadas a uma fundação de assistência social, pontuam o desgaste emocional advindo da relação com chefia e colegas, e do esforço para conciliar trabalho e família devido à carga horária e às escalas de trabalho. O estudo de Dias (2013), que investiga a mesma síndrome, também pontua o processo de adoecimento advindo de se conviver, no cotidiano da assistência social, com um público em vulnerabilidade e com questões sociais salientes.
Guimarães (2018) nomeia esse sofrimento como desamparo social, para o qual contribui decisivamente a negligência da gestão com o sofrimento do trabalhador. Na mesma direção, Galbiatti (2015) sinaliza o esgotamento vivenciado pelos trabalhadores em face da negligência institucional, dadas as crescentes exigências e a responsabilização individual pelos impasses cotidianos. Esta autora acrescenta que imposições arbitrárias da gestão reduzem o poder de agir dos trabalhadores do CREAS estudado, interferindo no sentido do trabalho para eles.
Schott (2017) também elenca situações que ocorrem no trabalho no SUAS e que produzem sofrimento nos trabalhadores: assédio moral e autoritarismo praticados pela gestão; violência por parte de gestores, público atendido e colegas de outros setores; preconceito e, mais raramente, mas também digno de nota, situações de discriminação e humilhação. A autora acrescenta a existência de um adoecimento pelo consumo do tempo de lazer e de descanso do trabalhador do SUAS, o que interfere em outros aspectos de sua vida.
Em síntese, com base nos textos revisados, este núcleo destaca o adoecimento pelo trabalho no SUAS, entendendo que este encontra raízes em características da organização e do contexto do trabalho contemporâneo. Tais características abrangem: relação autoritária das chefias imediatas e gestores, exigência de manejo cotidiano de situações de ampla vulnerabilidade social, invisibilidade do trabalho com resultados que só se evidenciam a médio e longo prazo, enfraquecimento do coletivo de trabalho diante de equipes reduzidas, ausência de retaguarda institucional, cultura política clientelista e assistencialista e sentimentos de insegurança diante de territórios em severa vulnerabilidade social.
Precarização do trabalho na assistência social
Silva et al. (2018), em pesquisa realizada com trabalhadoras do CREAS de Corumbá/MS, notaram a precariedade das condições de trabalho, por meio de espaço físico inadequado e insuficiente, problemas de infraestrutura, recursos e equipamentos, ausência de capacitação e problemas de articulação com a rede sócio-assistencial. Com situação similar se deparou Ribeiro (2014), em seu estudo sobre resiliência em assistentes sociais que atuam na Proteção Social Especial em Belém/PA.
Nascimento e Moraes (2019) corroboram a discussão sobre precariedade das condições de trabalho e acrescentam a alta rotatividade de profissionais, o que prejudica o vínculo da equipe com os usuários. Discutem sobre a falta de recursos e a precarização dos vínculos empregatícios, mantidos geralmente por contratos temporários. A pesquisa de Silva (2015) mostrou que este risco iminente de desemprego, devido ao vínculo de trabalho precário, amedronta o trabalhador, nutrindo a competição e a subordinação. Além disso, Nery (2009), em pesquisa com trabalhadores de CRAS em Minas Gerais e São Paulo, alerta que a inexistência de isonomia nos vínculos empregatícios (servidores estáveis, por um lado, e trabalhadores sujeitos à demissão sem justa causa, por outro, realizando a mesma função) tem conseqüências nas relações interpessoais e de trabalho, na motivação profissional e no planejamento técnico. A alta rotatividade, a ausência de plano de carreira, os baixos salários e a carga horária reduzida deixa o trabalhador atento a outras oportunidades. Tem-se o retrato de um trabalhador inseguro, desmotivado, exausto, que estabelece com os colegas e com o trabalho em si uma relação de distanciamento e indiferença.
Dias (2013) cita ainda os baixos salários e a falta de suporte, supervisão e capacitação enquanto expressões da precarização do trabalho. Mendes (2011) acrescenta que são exigidas destes trabalhadores características como o controle das emoções, a disciplina e a resolutividade, gerando uma intensificação dos encargos cognitivos e emocionais ligados ao trabalho. A autora ainda relata que os participantes de sua pesquisa mencionam, como expressões da precarização do trabalho, a inadequação do ambiente físico, os defeitos de equipamentos de trabalho, a indisponibilidade de veículo para realização de visitas domiciliares e busca ativa, a escassez de material para a realização de oficinas e atividades socioeducativas, as mudanças recorrentes de localização dos serviços, as equipes reduzidas e a rede intersetorial fragilizada.
Lopes (2017) também ressalta as reduzidas equipes de trabalho e a desarticulação da rede de atenção, acrescentando que a ausência de profissionais da área jurídica e da educação no CREAS estudado deixa lacunas no provimento de informações e de orientações adequadas aos usuários do serviço. Pontua ainda sobre a diferença na carga horária da assistente social e da psicóloga, o que interfere negativamente na produtividade da equipe e no acompanhamento dos casos, precarizando adicionalmente o trabalho. Kruger (2016), finalmente, alerta que a alta demanda para poucos profissionais resulta no enfraquecimento do coletivo de trabalho e em sua baixa eficiência para lidar com situações complexas e de alta vulnerabilidade social.
O cenário retratado nesta seção expressa algumas das conseqüências da flexibilização das relações de trabalho decorrentes das ações de ajuste fiscal em contexto neoliberal, que traz também um retrocesso para as políticas sociais, inclusive no acesso a direitos trabalhistas. A focalização e a descentralização são também marcas do neoliberalismo (Behring & Boschetti, 2011), que transfere responsabilidades estatais para outras instâncias privadas, inclusive para o interior das famílias, que ficam mais desprotegidas e fragilizadas neste processo.
Manifestações de sofrimento em trabalhadores da assistência social
Nos estudos revisados, são frequentes as descrições de manifestações de violências por meio do trabalho na assistência social, originados do próprio conteúdo do trabalho e com expressão física (corporal), mental e interpessoal. Mendes (2011) menciona expressões de adoecimento mental cuja incidência se manifesta no corpo e da motricidade, por meio de gestos bruscos, tensão, aceleração do ritmo de trabalho e descanso insuficiente. Silva (2015) fala da insatisfação e da ansiedade advindas da relação do indivíduo com um trabalho pouco reconhecido. Guimarães (2018) descreve repercussões psíquicas como choro, cansaço, irritabilidade, medo, alterações no sono, humor e apetite. Schott (2017), por sua vez, menciona impactos sociais tais quais o trabalhador se tornar agressivo com outras pessoas.
Almeida et al. (2009) visaram avaliar a relação entre síndrome de burnout e variáveis demográficas, laborais, psicossociais e sintomas de estresse em trabalhadoras que atuavam em abrigos e casas de atendimento vinculados a uma Fundação de Proteção e Assistência Social, em Porto Alegre/RS. A amostra foi composta por 73 sujeitos, sendo 72,6% mulheres. Identificaram maior prevalência da despersonalização, inferida inclusive por muitos trabalhadores terem se negado a responder os instrumentos da pesquisa, o que foi considerado indicativo de desgaste e exaustão emocional.
Santos et al. (2010) estudaram manifestações de síndrome de burnout em 30 trabalhadoras de instituições que atendem pessoas vítimas de violência em Porto Alegre/RS, utilizando também o inventário de Maslach. Registraram desgaste físico e emocional intensificados pela insatisfação no trabalho, estresse e prejuízo na saúde física e emocional, em decorrência do trabalho desenvolvido. Observaram que 11,70% da amostra apresentou grau elevado de burnout. Os sintomas compatíveis com a síndrome também foram encontrados em nove dos 12 sujeitos da pesquisa de Guimarães (2018), realizada com trabalhadores do órgão gestor municipal do SUAS.
Dias (2013), em estudo que investigou a relação entre autoeficácia, ou seja, a maneira como a pessoa julga sua habilidade para planejar e executar tarefas, e a síndrome de burnout, percebeu que as profissões que atuam no setor de assistência social se situam como as mais desgastantes e, portanto, mais propensas às psicopatologias do trabalho. Também neste estudo houve a aplicação do modelo e inventário de Maslach, em uma amostra de 77 profissionais (77,9% mulheres) de uma instituição de assistência social na região gaúcha do Vale dos Sinos. A autora discute que o contexto de trabalho no setor pode contribuir com sentimentos de impotência e baixa autoeficácia, podendo desestabilizar emocionalmente, estressar e aumentar os níveis de burnout entre as trabalhadoras. A autora identificou que, quanto maior a exaustão emocional e a despersonalização, menor a autoeficácia.
Brito e Souza (2011) conduziram uma pesquisa quantitativa para avaliar a qualidade de vida dos educadores sociais em abrigos de proteção a crianças e adolescentes de Campo Grande/MS. Identificaram que a qualidade de vida desses trabalhadores é de boa a excelente, contrariando a hipótese de prejuízos devidos à carga emocional e física do seu trabalho, bem como do regime de plantão. Nascimento (2017), diferentemente, constata baixa qualidade de vida em psicólogas que atuam em CRAS e elevada prevalência de transtorno mental comum na amostra estudada, composta por 53 profissionais (44 mulheres) atuantes neste serviço no Espírito Santo.
Santos et al. (2010) concluíram que as mulheres são mais presentes em trabalhos que demandam o emocional, apresentando frustração e comoção com as situações que lidam no cotidiano do trabalho da assistência social. Brito e Souza (2011) interpretam que as mulheres (que constituíram 90,7% da amostra de seu estudo) concebem positivamente seu trabalho, pois realizam uma atividade entendida como associada ao seu papel de cuidar do outro, ou seja, de acordo com os autores, desempenham uma função que seria culturalmente esperada delas. Aqui é importante considerar a questão de gênero que se coloca no trabalho no SUAS, visto que predominam mulheres no universo de potenciais participantes e nas amostras dos estudos revisados.
O estudo de Silva et al. (2018) reforça a imagem do homem forte e protetor, e da mulher frágil e vulnerável, ao afirmar que, em casos que envolvem perigo, o fato da equipe profissional ser composta em sua maioria por mulheres é um agravante. Para reforçar esta análise, transcreve a fala de uma trabalhadora que diz que somente com a ajuda de um colega conseguiu contornar uma situação na qual estava sendo ameaçada. Nota-se, assim, a relevância da abordagem do gênero nas pesquisas sobre o sofrimento no trabalho no SUAS, visando compreensão mais abrangente sobre as especificidades de um fazer caracterizado pela predominância de mulheres, bem como o questionamento dos papeis que lhes foram impostos em uma sociedade machista e patriarcal.
Estratégias de enfrentamento em benefício da saúde mental dos trabalhadores da assistência social
Dado o abrangente quadro de características adoecedoras e de precarização do trabalho, levando a manifestações agudas e crônicas de sofrimento, observam-se determinadas estratégias de enfrentamento para lidar com estas circunstâncias. No entanto, tais estratégias revelam a ausência de espaços coletivos neste enfrentamento, bem como a inexistência de ações institucionais por órgãos de governo e de Estado responsáveis pelas políticas sociais.
Silva et al. (2018) afirmam que racionalização, piadas e ironias são utilizadas pelos trabalhadores para contrapor a angústia, a tristeza e a impotência por eles sentidas. Mendes (2011) elenca como fatores protetivos a religiosidade e outras atividades realizadas fora do trabalho, como ações volantes na comunidade e mutirões de limpeza. Cita ainda o absenteísmo e a antecipação das férias como estratégias de fuga dos trabalhadores diante das circunstâncias adversas do seu trabalho cotidiano.
Silva (2015) descreve que os trabalhadores buscam se adaptar às exigências por meio da expressão de suas insatisfações à gerência, da busca pela solução de problemas do cotidiano do trabalho em equipe e da solidariedade dos colegas. Kruger (2016) sustenta que a solidificação do gênero profissional contribuiria para enfrentar as condições de trabalho desfavoráveis dos trabalhadores do CREAS, o que observou não se efetivar nos participantes da sua pesquisa. O mesmo ocorre na pesquisa de Galbiatti (2015) com profissionais do mesmo tipo de serviço, mas em localidade diferente. Ambos constatam táticas coletivas de enfrentamento, com Galbiatti (2015) registrando, ainda, movimentos individuais: trocas de função, de local de trabalho e investimento em momentos de lazer. Lopes (2017), por sua vez, ressalta que as estratégias são predominantemente individuais, porque o sofrimento dos trabalhadores por ela pesquisados é tido como algo de ordem exclusivamente individual.
Guimarães (2018) contribui identificando o uso de álcool e outras drogas e o conformismo como estratégias de defesa ou negação, pelos trabalhadores, da intensidade e da penosidade do trabalho na assistência social. Para cuidar da saúde, os trabalhadores relatam buscar tratamento médico e medicamentoso, terapia e a prática de atividades físicas. Por fim, Amaral (2016) aponta que o investimento na formação técnica e a experiência profissional estão entre os meios utilizados pelos trabalhadores do CREAS, em um município da região metropolitana do Vale do Paraíba, para enfrentarem as dificuldades do trabalho.
Chama a atenção o fato de que as estratégias de enfrentamento são concentradas em ações individuais de mitigação do sofrimento. Consequentemente, os benefícios desta mitigação têm um alcance limitado ao se restringirem ao contexto imediato de trabalho, não afetando as circunstâncias estruturais às quais tal trabalho se inscreve. Estratégias coletivas ou institucionais de enfrentamento não são mencionadas na literatura revisada.
Considerações Finais
Diversos desafios são enfrentados pelos trabalhadores da assistência social em seu cotidiano de trabalho, abrangendo desde situações relacionadas ao seu conteúdo específico, até graves limitações estruturais enfrentadas no atual contexto do provimento de serviços públicos. A revisão realizada explicitou que tais limitações aproximam as vivências de pessoas que atuam em diferentes serviços do setor e em localidades distribuídas por todo o território nacional.
Isso permite inferir que o sofrimento não é localizado, sequer individualizado, devendo assim ser contextualizado social, ética e politicamente, dadas as características do trabalho no atual contexto neoliberal e de desmonte dos serviços públicos de assistência social. Behring e Boschetti (2011), a este propósito, apontam que políticas macro-econômicas focadas no fomento do mercado e em privatizações acarretam em déficits orçamentários para as políticas sociais. Sawaia (1999), por sua vez, aborda esse tipo de sofrimento enquanto sofrimento ético-político, ou seja, não é individualizado, mas produzido com base em circunstâncias estruturais de desigualdade e injustiça social que medeiam afetivamente as pessoas neste contexto. A autora defende a humanização das políticas públicas por meio de duas estratégias de enfrentamento da exclusão: a primeira, de ordem material e jurídica, que é responsabilidade do poder público; e a segunda, de ordem afetiva e intersubjetiva, que depende, então, da compreensão sobre o enfrentamento realizado por pessoas em situação de exclusão social, para sustentar um mínimo de dignidade em suas vidas.
Observou-se a candente necessidade de novos estudos, em outros espaços geográficos e com outras metodologias, que fomentem a discussão sobre o tema, contribuam com a saúde do trabalhador da assistência social e com a consolidação do SUAS. Foi surpreendente a escassez de estudos que enfocam o trabalho no SUAS, comparativamente ao número de trabalhos que abordam prescrições técnicas, governamentais e não-governamentais acerca deste trabalho. Note-se que esta escassez ocorreu mesmo com a opção de não se adotar uma definição mais delimitada e pré-definida acerca do que é o sofrimento mental no trabalho, o que em princípio poderia ser considerada uma limitação do estudo.
Não obstante os estudos ressaltarem as características adoecedoras e a precarização do trabalho no setor, o fato das estratégias de enfrentamento concentrarem recursos de ordem individual indica, também, a relevância do uso de metodologias de pesquisa participativas. Nessas, junto de seus participantes, podem ser identificados meios para o enfrentamento coletivo de tais circunstâncias. Estudos desta natureza não foram identificados.
Os estudos revisados sinalizam uma diversidade de manifestações de sofrimento entre os trabalhadores e especificam como as condições do trabalho na assistência social suscitam tais manifestações. Observa-se, no entanto, a necessidade de aprofundar o debate sobre a inclusão do trabalho no SUAS como questão para as políticas de assistência social, para além da normatização vigente acerca da sua provisão, conforme estabelecido pela NOB/SUAS. Esse aprofundamento implica em considerar a oportunidade de temas como a vigilância em saúde do trabalhador, a garantia de direitos trabalhistas e de vínculos de trabalho dignos, bem como a participação popular no setor da assistência social.
Espera-se que esta revisão provoque pesquisadores envolvidos com esse contexto sobre a necessidade de se aproximar mais detidamente das políticas de saúde do trabalhador da assistência social, seja por meio de novas investigações ou de ações extensionistas, com a intenção de colaborar com a produção de conhecimento compartilhado com as equipes de assistência social. Pesquisas futuras devem situar o trabalho e o trabalhador em seu contexto, e atualizar teorias que abarquem as novas lutas e a invenção de soluções e estratégias de enfrentamento e mitigação do sofrimento mental. Marcadores sociais tais como gênero, raça e classe social, em um contexto de baixos salários e vínculos precarizados, devem ser considerados de modo central, sustentando-se as mediações sócio-econômico-políticas que se destacam neste processo, evitando explicações patologizantes.















