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Estudos de Psicologia (Natal)

versão impressa ISSN 1413-294Xversão On-line ISSN 1678-4669

Estud. psicol. (Natal) vol.29  Natal  2024  Epub 10-Nov-2025

https://doi.org/10.69909/1678-4669.20240007 

Temas em políticas sociais: assistência social e sistema de garantia de direitos

Exploração Sexual de Adolescentes e Processos de Resiliência Oculta: Um Estudo de Casos Múltiplos

Sexual Exploitation of Adolescents and Hidden Resilience Processes: A Multiple Case Study

Explotación Sexual de Adolescentes y Procesos de Resiliencia Oculta: Un Estudio de Casos Múltiples

Alex Sandro Gomes Pessoa¹ 

Doutor em Educação pela Universidade Estadual Paulista - UNESP.Professor do Departamento de Psicologia da Universidade Federal de São Carlos - UFSCar. E-mail: alexpessoa@ufscar.br ORCID: https://orcid.org/0000-0002-9271-8575 Rodovia Washington Luiz, Km 235. Caixa Postal 676 13.565-905 São Carlos - São Paulo - Brasil


http://orcid.org/0000-0002-9271-8575

Carolina Serrati Moreno² 

Graduada em Psicologia pela Universidade Federal de São Carlos - UFSCar. Mestranda em Psicologia pela Universidade Federal de São Carlos - UFSCar. E-mail: caarol.moreno@gmail.com ORCID: https://orcid.org/0000-0002-9222-4102


http://orcid.org/0000-0002-9222-4102

Débora Ananias Guimarães² 

Mestre em Psicologia pela Universidade Federal de São Carlos (UFSCar). Doutoranda em Psicologia pela Universidade Federal de São Carlos (UFSCar). E-mail: dgananias@gmail.com ORCID: https://orcid.org/0000-0003-2226-0690


http://orcid.org/0000-0003-2226-0690

1¹Universidade Estadual Paulista

2²Universidade Federal de São Carlos


Resumo

O objetivo deste estudo foi analisar processos de resiliência oculta em adolescentes com histórico de exploração sexual. A pesquisa foi qualitativa e a partir da modalidade de estudo de casos múltiplos. O trabalho de campo foi realizado com duas adolescentes vítimas de exploração sexual, bem como duas profissionais que as atendiam em serviços especializados. Utilizou-se dois roteiros de entrevistas semiestruturadas e os dados coletados foram analisados por Análise Temática. Os resultados obtidos refutaram a hipótese inicial da investigação, visto que não foi evidenciado que as adolescentes extraíram da exploração sexual recursos que favoreceram o desenvolvimento ou a expressão de processos de resiliência oculta. Pelo contrário, os dados revelaram exposição a inúmeros fatores de risco associados à exploração sexual e o recrutamento delas nessa rede exploratória intensificou a vulnerabilidade das participantes, com repercussões drásticas na saúde mental das adolescentes.

Palavras-chave: exploração sexual; adolescentes; resiliência; estudo de caso

Abstract

This study aimed to analyze the hidden resilience processes in adolescents with a history of sexual exploitation. The research was qualitative and based on a multiple cases study design. The fieldwork was carried out with two adolescent victims of sexual exploitation, as well as two professionals who assisted them in specialized services. Two interview scripts were employed, and the data collected were analyzed using Thematic Analysis. The findings refuted the initial hypothesis of the investigation, since it was not evidenced that the adolescents extracted resources from sexual exploitation that favored their development or motivated the hidden resilience processes. Instead, data revealed exposure to several risk factors associated with sexual exploitation and their recruitment in this exploratory market intensified the participants' vulnerability, with drastic repercussions on the adolescents' mental health.

Keywords: sexual exploitation; adolescents; resilience; case study

Resumen

El objetivo de este estudio fue analizar los procesos de resiliencia ocultos en adolescentes con antecedentes de explotación sexual. La investigación fue cualitativa y a partir de la modalidad de estudio de casos múltiples. El trabajo de campo se realizó con dos adolescentes víctimas de explotación sexual, así como dos profesionales que las asistieron en servicios especializados. Se utilizaron dos guiones de entrevista semiestructurada y los datos recogidos se analizaron mediante Análisis Temático. Los resultados obtenidos refutan la hipótesis inicial de la investigación, ya que no se evidenció que las adolescentes extrajeran recursos de la explotación sexual que favorecieran el desarrollo o de procesos de resiliencia ocultos. Por el contrario, los datos revelaron la exposición a numerosos factores de riesgo asociados a la explotación sexual y su reclutamiento en esta red exploratoria intensificó la vulnerabilidad de los participantes, con drásticas repercusiones en la salud mental de los adolescentes.

Palabras-clave: explotación sexual; adolescentes; resiliencia; estudio de caso

Introdução

A Violência Sexual (VS) é uma das formas de violação de direitos que atingem crianças e adolescentes brasileiros e refere-se a qualquer ato sexual realizado por um adulto ou pessoa em estágio psicossexual mais avançado, cujo objetivo é obter gratificação através do uso do corpo da vítima (Duarte et al., 2022). Embora a VS possa ser subdividida nas modalidades de abuso e exploração sexual (Demenech et al., 2021), nesta pesquisa dar-se-á ênfase apenas à segunda, que de acordo com a Convenção n° 182 da Organização Internacional do Trabalho (OIT, 2000), da qual o Brasil é signatário, trata-se de uma das piores formas de violação da dignidade humana.

A Exploração Sexual de Crianças e Adolescentes (ESCA) é definida como uma relação de mercantilização do corpo de crianças e adolescentes, cuja mediação pode ocorrer por dinheiro em espécie, favores, trocas ou supostos benefícios às vítimas (Cerqueira-Santos & Sousa, 2015). Os exploradores sexuais aproveitam de sua relação desigual de poder com as vítimas e objetificam os corpos de crianças e adolescentes, transformando-os em mercadorias e objetos sexuais (Veja & Paludo, 2015; Paludo et al., 2017). Ao contrário do abuso sexual, que ocorre em todas os estratos sociais e grupos étnicos, a ESCA atinge principalmente meninas adolescentes provenientes de condições econômicas e contextos desfavoráveis (Daminelli, 2021).

A literatura aponta alguns fatores de risco para a ESCA, entre eles: exposição à extrema pobreza; ser vítima de violência no contexto intrafamiliar; rompimento (temporário ou duradouro) dos vínculos familiares em idade precoce; viver em situação de rua; exposição a comunidades violentas; consumo de substâncias psicoativas; consumismo; ausência de políticas públicas (Libório, 2005; Veja & Paludo, 2015). Em muitos casos, estes fatores de riscos sobrepõem-se uns aos outros, tornando as vítimas ainda mais vulneráveis (Daminelli, 2021; Demenech et al., 2021). A ESCA agrava-se devido à estrutura da sociedade, que produz, deliberadamente, várias formas de exclusão e desigualdades sociais, culturais, de gênero e raça/etnia. Isso significa que a pauperização das condições de vida, somado a relacionamentos interpessoais enfraquecidos, ausência de políticas públicas e processos de exclusão, que se perpetuam intergeracionalmente, corroboram para a ocorrência e manutenção da ESCA no Brasil e em diversos países do mundo (Libório, 2005; Libório & Souza, 2004; Demenech et al., 2021).

Dada a complexidade do fenômeno da exploração sexual, é importante que as diversas ciências, inclusive a psicologia, engajem-se no enfrentamento e na compreensão dos mecanismos que sustentam a sua perpetuação. A ESCA, como já mencionado, manifesta-se a partir de contextos de vida precarizados pela lógica do capital, mas existem processos psíquicos e interrelacionais que também devem ser levados em consideração, como os processos de resiliência.

Resiliência é um processo intrapsíquico, que se expressa a partir de determinantes culturais, contextuais e históricos, e que está associada à possibilidade de os indivíduos lidarem com as adversidades significativas de suas vidas e acessarem recursos, psicológicos e sociais, para manter a saúde mental, autoestima e positividade pessoal (Libório & Ungar, 2010; Pessoa et al., 2019; Ungar et al., 2021). Não se trata de uma característica inata, mas do resultado da interação entre os fatores de risco e proteção presentes nos contextos e comunidades (Oliveira & Morais, 2018). Para Ungar et al. (2021), resiliência é a capacidade dos indivíduos navegarem por recursos que mantém o bem-estar, mesmo diante de infortúnios da vida. Os estudos que articulam os processos de resiliência de adolescentes expostos a fatores de risco tendem a focalizar sua atenção em desfechos desenvolvimentais positivos, considerando as expectativas sociais e parâmetros universalizantes sobre o que indicaria bom ajustamento psicossocial (Martineau, 1999).

Entretanto, de acordo com Ungar (2004), “adolescentes rotulados como problemáticos aumentam seu status de saúde através de empoderamento pessoal e social associando-se a comportamentos [tidos como] antissociais” (p. 138, tradução nossa). Ungar (2004) passou a descrever processos de desenvolvimento saudável, manutenção de saúde mental e processos de resiliência através da participação de adolescentes em atividades não convencionais, consideradas socialmente como perigosas e problemáticas (por exemplo, vinculação a gangs, trabalho infantil, abandono escolar, entre outros). Isso significa, de acordo com o autor supracitado, que o engajamento em tais atividades poderiam estar, em alguma medida, relacionadas ao fortalecimento identitário e acesso a experiências de resiliência não-convencionais, indicando, portanto, processos de hidden resilience. Tal conceito foi traduzido e apresentado no Brasil por Libório e Ungar (2010) como resiliência oculta.

O conceito de resiliência oculta inaugurou, nas ciências psicológicas, temas e hipóteses sobre o fenômeno da resiliência ainda inexplorados. A resiliência oculta refere-se a manifestações plurais, inesperadas e alternativas a processos desenvolvimentais normativos (Pessoa, 2015). Trata-se de trajetórias de sobrevivência que, a priori, não seriam avaliadas como recursos, contextos ou situações que favorecem a saúde mental (Libório & Ungar, 2010). Todavia, de acordo com Pessoa et al. (2019), percebe-se que, na ausência de recursos convencionais e de políticas púbicas eficientes, adolescentes podem recorrer a comportamentos tidos socialmente como inapropriados para assegurar bem-estar e positividade pessoal. Em outras palavras, a resiliência oculta refere-se à função desempenhada por atividades tradicionalmente consideradas perigosas, ilícitas e/ou prejudiciais ao desenvolvimento humano, mas que, na ausência de recursos e diante da inércia de contextos normativos, desempenham um papel protetivo na vida de populações expostas a adversidades significativas.

No contexto nacional, a pesquisa realizada por Pessoa (2015), entre adolescentes com histórico de envolvimento com tráfico de drogas, constatou a expressão de processos de resiliência oculta. Entre os principais achados, a investigação revelou que o tráfico de drogas viabilizou o enfretamento das condições precárias que as famílias dos adolescentes viviam, fortaleceu a autoestima e autoimagem dos participantes e fomentou a sensação de participação social e respeito em suas comunidades (Pessoa et al., 2019). O estudo supracitado é relevante pois foi a primeira investigação nacional que testou, empiricamente, o modelo teórico desenvolvido por Ungar (2004), delineado a partir das experiências de atendimentos clínicos a adolescentes e jovens. Nesse sentido, é importante salientar que os dados da pesquisa de Pessoa (2015) serão retomados e contrastados com os principais achados do presente estudo, pois o pesquisador salientou que os processos de resiliência oculta, por hipótese, poderiam estender-se a outras populações, como as adolescentes exploradas sexualmente:

as adolescentes [em situação de exploração sexual] demonstravam [...] estratégias de enfrentamento e intimidação das pessoas por meio dos conteúdos relacionados à própria sexualidade [...] Frente à sociedade que as rotula, o processo que elas criaram era assumir o estigma e usá-lo como forma de afrontar ou mesmo amedrontar as pessoas, especialmente desconhecidos e aqueles que, imaginariamente ou objetivamente, representassem perigo ou desconforto a elas (Pessoa, 2015, p. 24-25).

Embora não tenham mencionado os processos de resiliência oculta, a pesquisa de Davidon e Taylor (2007) também é relevante para o rompimento de uma visão simplista e pouco abrangente da ESCA. A partir de uma análise das artimanhas do turismo sexual, do tráfico de pessoas e da lógica que prevalece entre os exploradores, as autoras reconheceram que boa parte das crianças e adolescentes exploradas sexualmente, sobretudo das que vivem em países com desigualdades sociais abismais, saem de suas casas não apenas pela precariedade de suas famílias. Estes grupos buscam, também, se estabelecer em espaços urbanos com melhor infraestrutura, “onde haja iluminação pública, um sistema aceitável do esgoto, bares, música, alguma diversão, encanto e esperança (p. 129)”. Não se nega, portanto, que a ESCA revela “constrangimentos estruturais extremamente opressivos (Davidon & Taylor, 2007, p. 130)” contra crianças e adolescentes, mas desconsiderar a dimensão subjetiva das vítimas e suas motivações pode ofuscar dimensões da problemática e consolidar modelos teóricos incompletos.

A partir das indicações da literatura sobre o tema, bem como da inexistência de pesquisas no contexto brasileiro sobre processos de resiliência oculta vivenciados por adolescentes vítimas de exploração sexual, notou-se a necessidade de realizar um estudo empírico acerca dessa temática. A hipótese que guiou a investigação foi a de que adolescentes em situação de exploração sexual, por não disporem de uma rede de apoio afetivo e social fortalecida, bem como por não acessarem políticas públicas efetivas, extraíam da exploração sexual recursos para assegurar saúde mental e positividade pessoal. Assim, o objetivo deste estudo foi analisar os processos de resiliência oculta em adolescentes com histórico de envolvimento na exploração sexual.

Método

Delineamento

A pesquisa foi fundamenta na abordagem qualitativa, com delineamento transversal e a partir da modalidade de estudos de casos múltiplos (Yin, 2011).

Participantes

Participaram duas meninas, que no período da pesquisa de campo estavam com 18 e 16 anos de idade. A adolescente vivia em uma instituição de acolhimento e a outra participante havia saído dessa mesma instituição há pouco tempo, por ter completado maioridade. Ambas eram atendidas em um CREAS (Centro de Referência Especializado de Assistência Social) de um município de médio porte, localizado no interior do estado de São Paulo. O acolhimento das adolescentes e os atendimentos no CREAS foram motivados pelo fato de as participantes terem sido identificadas em situação de exploração sexual e submetidas a inúmeras formas de violação de direitos, tanto no contexto familiar quanto comunitário.

Para a composição do estudo de caso múltiplos, além das adolescentes, participaram duas profissionais (uma assistente social e uma terapeuta ocupacional) do CREAS que acompanhavam os casos e ofertavam atendimentos psicossociais regularmente a elas. As profissionais forneceram à equipe de pesquisa dados relativos ao contexto da exploração sexual que as adolescentes foram expostas e o tipo de vínculos familiares e comunitários que ainda possuíam.

Em síntese, os critérios de inclusão das adolescentes foram: ter um histórico de exploração sexual na adolescência; a equipe técnica que atendia as adolescentes deveria sinalizar que a participação na pesquisa não traria danos ou prejuízos às adolescentes; as possíveis participantes tinham que aceitar participar da pesquisa voluntariamente, bem como a aceitação tácita de seus responsáveis legais, caso não fossem maiores de idade; ter disponibilidade para participar de entrevistas presenciais; não estar sob efeito de substância psicoativa no momento da coleta de dados. Os critérios para a seleção das profissionais levaram em consideração àquelas que acompanhavam as adolescentes por mais de dois anos e a obtenção da assinatura do Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE).

Instrumentos

Entrevistas semiestruturadas com as adolescentes: Foram realizadas entrevistas individuais, a partir de um roteiro semiestruturado. Com esta técnica foi investigada a realidade das participantes, seu cotidiano, seu envolvimento com a exploração sexual, os fatores de risco e de proteção presentes em sua vida e como as próprias adolescentes compreendiam essas situações. O roteiro de questões foi estruturado a partir de 4 temáticas, que estavam diretamente relacionadas com os objetivos específicos desta investigação: 1) descrição sociodemográfica das participantes; 2) fatores de risco associados à exploração sexual; 3) fatores de proteção que dispõem; 4) processos de resiliência oculta associadas à exploração sexual.

Entrevistas semiestruturadas com as profissionais: similarmente, foram realizadas entrevistas individuais a partir de um roteiro semiestruturado com profissionais que atendiam as adolescentes. Com este recurso investigou-se a realidade de adolescentes envolvidas em situações de exploração sexual e os atendimentos direcionados à esta população nos serviços do Sistema Único de Assistência Social (SUAS). Além disso, buscou-se compreender, de forma aprofundada, a realidade e o envolvimento com a exploração sexual das adolescentes entrevistadas.

Procedimentos

Para que a coleta com as adolescentes pudesse ser realizada na instituição de acolhimento, foi necessária a obtenção de uma autorização judicial. Posteriormente, toda a documentação foi encaminhada à Secretaria de Cidadania e Assistência Social da mesma cidade. Após a obtenção das autorizações institucionais, toda documentação foi encaminhada para o Comitê de Ética e Pesquisa da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), que emitiu parecer favorável quanto à realização do estudo.

A pesquisa de campo ocorreu no ano de 2021, ou seja, no momento em que o país enfrentava uma pandemia. Por conta disso, a ideia inicial foi de realizar a pesquisa remotamente, sem colocar em risco a integridade das participantes ou da equipe de pesquisadores envolvidos. Notou-se, entretanto, que não seria possível a realização das entrevistas de forma remota, por conta da situação de vulnerabilidade das participantes (que não possuíam sequer recursos para participar de entrevistas virtuais) e, sobretudo, por se tratar de um estudo cujo tema central é sensível e poderia evocar sentimentos desagradáveis.

Assim, foram adotadas diversas medidas sanitárias para assegurar a saúde e minimizar os riscos de contaminação das pessoas envolvidas. Com o suporte e inestimável colaboração das profissionais do CREAS e da instituição de acolhimento do município, a coleta de dados foi viabilizada. As entrevistas individuais com as adolescentes e com as profissionais ocorreram nas próprias instituições, sendo estas efetuadas pelo primeiro autor desse artigo, que possui experiência com adolescentes em situação de vulnerabilidade social. Reiteradamente foi informado às participantes que se a participação na pesquisa trouxesse desconfortos ou agravos à saúde mental, o estudo seria imediatamente interrompido e ambas seriam orientadas e encaminhadas a serviços especializados disponíveis no município.

As entrevistas foram conduzidas individualmente em uma sala que assegurasse sigilo e conforto às participantes. Todas as interações foram áudio-gravadas, com a autorização das participantes. Foi informado que o procedimento poderia ser interrompido a qualquer momento, bem como os dados seriam descartados após a entrevista caso as participantes assim o desejassem. Posteriormente, todas as entrevistas foram transcritas integralmente e submetidas ao procedimento de análise qualitativa.

Análise de dados

Os dados foram analisados por intermédio da Análise Temática, tanto do corpus derivado das entrevistas com as adolescentes quanto com as profissionais. Em ambos os casos, os pesquisadores buscaram identificar, analisar e reportar padrões (Braun & Clarke, 2006) acerca das dimensões da exploração sexual consideradas positivas pelas adolescentes (associado, portanto, à resiliência oculta) ou negativas (fatores de risco associados à ESCA). Foram adotadas as 6 (seis) etapas propostas por Braun e Clarke (2006) e Liebenberg et al. (2020): i) familiarização com os dados: leitura flutuante e exaustiva do material transcrito, conduzida de forma independente pelos autores deste artigo; ii) geração de códigos iniciais: codificação das transcrições, também realizada de forma independente pelos autores, levando em consideração o tema central pesquisa (processos de resiliência oculta em adolescentes exploradas sexualmente); iii) identificação de temas que refletissem acuradamente a coleções de códigos: realizada de forma colaborativa e num processo dialógico entre a equipe de pesquisa; iv) revisão de dados para compreender e explicar o significado e a dinâmica dos temas, excluindo do corpus de análise temas incompletos ou infundados; v) definição e nomeação dos temas, realizado através de uma descrição pormenorizada dos principais temas que pudessem reiterar ou refutar as hipóteses iniciais; vi) elaboração do relatório final, que consistiu na organização do presente artigo.

Resultados e Discussão

Inicialmente, uma síntese dos dois casos foi organizada, com ênfase para a questão da exploração sexual e as similaridades identificadas nas trajetórias das participantes. Embora os excertos destacados neste artigo privilegiaram a perspectiva das adolescentes participantes, é importante salientar que os dados coletados junto às profissionais foram imprescindíveis para a elaboração de uma compreensão mais abrangente sobre os casos. A compilação das informações sobre as trajetórias das adolescentes só foi possível mediante à complementariedade viabilizada por diferentes fontes de investigação. Para preservar a identidade das adolescentes, nomes fictícios foram empregados.

Caso 1: Margarida, 18 anos

No momento da pesquisa de campo, a participante possuía ensino fundamental incompleto e parou de frequentar a escola na sétima série (oitavo ano). Residia com uma amiga, em um imóvel de um dormitório. Tem dez irmãos, dos quais tem proximidade com apenas três, e duas estão em situação de acolhimento institucional. Relatou ter uma relação conturbada com a mãe, que tem histórico de dependência química. Declarou que possuía uma relação boa com o pai, que faleceu no ano de 2019. Foi acompanhada pela equipe do CREAS desde a infância por conta da exposição a várias situações de violência (física, psicológica, sexual e envolvimento com o tráfico de drogas, tendo sido aliciada por sua mãe). Foi envolvida em situações de exploração sexual em mais de um momento de sua vida. Inicialmente, foi aliciada pela mãe para ter relações sexuais com o proprietário do imóvel em que moravam, como pagamento do aluguel. Em um segundo momento, foi aliciada por homens mais velhos em troca de dinheiro e presentes. Relatou que seu plano para o futuro é estudar para conseguir um emprego. Além disso, quer ter uma casa onde possa residir com seu atual namorado, irmãs e irmão e ter filhos.

Caso 2: Rosa, 16 anos

Também possui o ensino fundamental incompleto. Voltou a estudar e, no momento da pesquisa, estava na sétima série (oitavo ano). Residia numa instituição de acolhimento juntamente com duas irmãs. De acordo com o relato das profissionais, a adolescente evade a instituição de acolhimento com frequência. Tem 13 irmãos, dos quais conhece seis. Relata ter uma relação difícil com a mãe, que tem histórico de dependência química e encontra-se em situação de rua. Apresentou uma relação de proximidade com o pai. A primeira situação de exploração sexual foi no início da adolescência, com 12 anos, com a “venda da virgindade” coordenada pelo pai. Por conta disso, ficou em cárcere privado em uma “biqueira” por meses, tendo sido encontrada pela polícia. Relatou que também foi exposta a exploração sexual pela mãe, que a explorava sexualmente para comprar drogas. Além disso, entre inúmeros episódios de evasão do acolhimento, conheceu um homem mais velho a quem se refere como “tio de consideração”. Narrou a relação com esse homem como de apoio, no entanto, contraditoriamente, afirmou não se sentir segura com ele e que possuem uma relação de troca. Relatou que, no futuro, quer ser cabeleireira, adquirir uma casa e ter os irmãos e o pai próximos a ela.

Com base nas entrevistas realizadas com as participantes (adolescentes e profissionais) e, subsequentemente, por intermédio da análise qualitativa empregada, foram elaboradas temáticas que refutaram as hipóteses iniciais elaboradas pela equipe de pesquisa. Sumariamente, não foi evidenciado que as adolescentes extraíram da exploração sexual recursos que favoreceram o desenvolvimento. Pelo contrário, a pesquisa revelou exposição a inúmeros fatores de risco associados à exploração sexual, sendo que o recrutamento delas nessa rede exploratória intensificou a vulnerabilidade das participantes e, de certa forma, afetou a saúde mental das adolescentes.

Os dados obtidos foram divididos em 3 (três) temáticas: Relacionamento com as Mães; Dimensão Afetivo-Sexual e Corporeidade; e, por fim, Repercussões da Exploração Sexual na Saúde Mental das Adolescentes.

Relacionamento com as mães

Nesta temática, foram identificados dados que demonstraram a relação conturbada das adolescentes com as suas mães e a influência da figura materna no aliciamento para a exploração sexual das adolescentes. Nos dois casos, tanto Margarida quanto Rosa descreveram a relação com as mães de forma muito negativa. As genitoras expuseram as adolescentes, desde crianças, a inúmeras situações de risco, como o uso e tráfico de substâncias psicoativas e praticaram diversos tipos de violência - incluindo abusos físicos, psicológicos e sexuais. Cabe salientar que as duas adolescentes relataram que as mães tiveram algum tipo de participação no aliciamento que resultou na exploração sexual. Desta forma, as mães parecem se constituir como fatores de risco potentes para a vida das filhas. Ambas chegaram a relatar que não desejam manter contato com as mães, pois as tentativas de estabelecimento de vínculos positivos foram malsucedidas.

Ela [mãe] é um lixo [...] A gente não se dava muito bem não, eu e ela. Ela tinha ciúmes com o namoradinho dela e ela é um lixo. Ela sempre usou crack. A Assistente Social dava cesta [básica] pra ela. Ela vinha pegar, vendia a cesta e a gente ficava o dia todo sem comer nada. (Margarida)

Ela abandonou um filho na maternidade. O outro ela vendeu a troco de droga, dois ela vendeu a troca de drogas, o outro ela abandonou, o outro ela jogou na lixeira, e foi isso. E esse outro [filho] ela vai fazer a mesma coisa [...] porque ela não tem cabeça. [...] Minha mãe estava abusando muito de mim, sabe? E aí, o namorado que ela tinha, ela viu ele abusando de mim e ela não falou nada pro namorado dela, o próprio namorado. (Rosa)

Os dados apresentados nesta temática demonstraram que as mães das adolescentes não foram protetivas e expuseram as participantes a diversas situações de violação de direitos, inclusive na exploração sexual, o que se assemelha com os achados de outras investigações (Cerqueira-Santos et al., 2010; Pedersen, 2014). Dado o contexto de extrema vulnerabilidade, sobretudo em termos da precariedade socioeconômica e cerceamento de direitos fundamentais, algumas famílias transferem às filhas a responsabilidade pelo sustento familiar (Libório, 2005; Veja & Paludo, 2015), que só é possível diante do envolvimento em atividades ilícitas e exploratórias.

Identificou-se, ainda, um processo intergeracional de vulnerabilidade e exploração. As profissionais entrevistadas relataram que as mães das adolescentes também foram exploradas sexualmente na adolescência, o que acaba implicando num processo de naturalização, falta de consciência e criticidade acerca dos efeitos nocivos dessa forma de violência na vida das filhas (Benavente et al., 2022; Pedersen, 2014). Ressalta-se a importância de se compreender o contexto histórico e social que foram produzidas e perpetuadas as diversas formas de violência que acometeram a vida dessas adolescentes e de suas famílias. A análise deve voltar-se para o conjunto de fatores e todo o sistema que origina a exploração sexual, bem como os diversos tipos de violência que anulam os direitos básicos de adolescentes.

Temos uma questão cíclica, de famílias que há gerações participam de ciclos de exploração sexual. Então foi assim com todas as irmãs, com a mãe, com as tias. Tem-se, assim, a visão de que essa é a forma possível de conseguir coisas, de ter uma vida um pouco melhor, uma busca por qualidade de vida mesmo. (Terapeuta Ocupacional)

Os achados dessa temática contrastam fortemente com os dados apresentados nas pesquisas de Pessoa (2015) e Pessoa et al. (2018), que identificaram processos de resiliência oculta na vida de adolescentes que foram envolvidos no tráfico de drogas. Estes adolescentes vislumbravam, nessa atividade, uma alternativa para dar suporte às suas mães (i.e., pagar aluguel, comprar mantimentos e medicamentos para a família e dar uma condição de vida melhor às mães). No estudo supracitado, a resiliência oculta expressava-se, de acordo com Pessoa (2015), pelo fato de os adolescentes extraírem recursos materiais (por intermédio do tráfico) que os auxiliavam no suporte material às mães, que se constituíam como figuras protetivas para os adolescentes. No caso das meninas exploradas sexualmente, os recursos financeiros obtidos não eram destinados aos cuidados das famílias. Pelo contrário, as participantes relataram que suas mães as submetiam a esta situação para que pudessem adquirir substâncias psicoativas das quais eram dependentes.

Além disso, de acordo com Pessoa (2015), as mães dos adolescentes envolvidos no tráfico de drogas posicionavam-se de forma contrária à atividade que esses filhos estavam inseridos e, inúmeras vezes, os aconselhavam acerca dos riscos cotidianos dessa atividade. Por outro lado, as mães das adolescentes exploradas sexualmente, em função da própria condição de vulnerabilidade, expunham as adolescentes a riscos adicionais, o que produziu nas filhas um sentimento de desamparo, raiva e inconformidade.

Portanto, os processos de resiliência oculta associados à obtenção de recursos que poderiam favorecer as mães e as famílias das adolescentes exploradas sexualmente não foram identificados. Além das relações das adolescentes com as mães serem conturbadas (entre outros motivos, pelo fato delas terem sido submetidas à exploração pelas próprias mães), os recursos financeiros obtidos não eram utilizados em prol das famílias, tampouco das próprias adolescentes.

Dimensão Afetivo-Sexual e Corporeidade

Esta temática demonstrou a perspectiva das adolescentes sobre questões relativas à sexualidade, seus corpos e a relação com a exploração sexual. Quando questionadas acerca da exploração sexual, ficou evidenciado que existe uma interpretação negativa por parte das adolescentes quanto ao corpo e as vivências das meninas exploradas. De acordo com seus relatos, a “prostituição” é uma forma de desvalorização e degradação do corpo da mulher. As participantes afirmaram que as meninas exploradas sexualmente não se dão valor e que deveriam procurar outras atividades para se engajarem. Notadamente, as adolescentes atribuíram um juízo de valor em relação às adolescentes exploradas sexualmente, que são vistas por elas como vulgares e inadequadas. Ao ser questionada sobre o que diria para uma menina que está em situação de exploração sexual, a participante Margarida afirmou que:

“[...] falaria para ela sair dessa vida, arranjar um serviço e ficar bem. Ela tem que valorizar ao corpo dela. Vai dar o corpo para qualquer um? E se tem alguma doença? Não gosto disso aí não. Já tentaram fazer isso comigo, mas não colou não”.

Esse tema também foi mencionado pelas profissionais, que enfatizaram que as adolescentes exploradas sexualmente incorporam um sentimento de desvalorização.

A relação com a exploração sempre vem de um lugar de muitos traumas, de uma autodepreciação. As adolescentes encaram que o corpo tem um valor e, por esse valor, que eu o vendo. Normalmente é um valor muito baixo e elas reconhecem isso. Acho que isso também acaba associando para elas que elas valem muito pouco, então sempre de um lugar de uma autoestima muito baixa. (Terapeuta Ocupacional).

Tal como identificado na pesquisa de Pedersen (2014), este estudo evidenciou que adolescentes exploradas sexualmente desenvolvem uma percepção destorcida e depreciativa dos corpos e da sexualidade das vítimas. Ao serem exploradas sexualmente, além de desenvolverem uma visão depreciativa sobre si, as adolescentes perdem a autoridade quanto ao próprio corpo e sua sexualidade. Excertos das entrevistas com as profissionais solidificaram estas constatações, pois as adolescentes estavam, de alguma forma, sendo controladas pelos namorados atuais.

A Margarida não está mais envolvida com a exploração [sexual], por estar com um namorado. Ela parece que está tentando se relacionar de uma forma um tanto diferente. No entanto, não sabemos quanto a essa relação, se é saudável. Nós já temos informações desse rapaz. Ele tem um perfil agressivo com ela, ambos se agridem mutuamente. Então não, nesse momento talvez ela não esteja na influência dessa mãe abusiva, mas ela continua em um relacionamento que não é saudável. (Assistente Social) É uma relação extremamente tóxica e abusiva, ele a manipula, é violento e tem muita influência sobre as atitudes que a Rosa toma. Ele sempre controlou muito ela. Ela pediu para a gente algumas vezes a [medida] restritiva contra o ele, mas desistia horas depois. (Terapeuta Ocupacional)

A exploração sexual de adolescentes pode implicar na perda da autonomia sobre o próprio corpo e na fragilização de vínculos estabelecidos nas relações afetivas-sexuais (Serpa, 2009). Levanta-se como hipótese, a partir dos achados empíricos, que o envolvimento na exploração sexual produz a perda da autonomia e liberdade sobre o próprio corpo (Serpa, 2009). Nesse sentido, as adolescentes acabam se envolvendo em relacionamentos com pessoas que, de alguma forma, conseguem exercer controle sobre suas vidas. Apesar disso, recomenda-se que novas investigações acerca destes temas sejam desenvolvidas futuramente pela comunidade científica.

Em termos dos processos de resiliência oculta, mais uma vez os achados nesta temática foram divergentes da pesquisa de Pessoa (2015), uma vez que os adolescentes que participaram do estudo relataram ter a percepção de ganhos nas relações afetivo-sexuais ao estarem envolvidos com o tráfico de drogas. De acordo com Pessoa (2015), ao melhorarem a condição financeira, conseguiam chamar a atenção das meninas, tornando-se, em suas percepções, mais desejados. O processo de resiliência oculta expressava-se pelo fato de os adolescentes sentirem-se desejados e atraentes, o que gerava uma sensação de bem-estar e autoestima.

No caso das adolescentes exploradas sexualmente é exatamente o contrário. A exposição à exploração sexual produz uma desvalorização do corpo e reverbera na depreciação daquelas que “se submetem” à esta situação, o que, portanto, não possibilita a expressão de processos de resiliência oculta. Apesar de serem atividades lucrativas para as adolescentes (porque a maior parte vive uma condição de miserabilidade e pobreza extrema), a exploração sexual e o tráfico de drogas são avaliados socialmente de formas distintas, o que repercute no desenvolvimento de uma visão negativa das vítimas, bem como de seus corpos e sexualidades.

Repercussões da Exploração Sexual na Saúde Mental das Adolescentes

Nesta temática, foram apresentados os dados sobre dependência química e sofrimento psíquico das participantes. Rosa, por exemplo, relatou que sua mãe a buscava na instituição de acolhimento para que pudessem consumir drogas juntas. Além disso, para adquirir as drogas, Rosa era explorada sexualmente e sua mãe se prostituía para obterem recursos financeiros para adquirirem as substâncias.

As adolescentes relataram utilizar as mesmas substâncias (cocaína), o que as levou a um quadro de dependência química. O uso da maconha foi citado com menos frequência, embora Margarida, mesmo já tendo passado por tratamento de internação em uma clínica especializada, tenha relatado fazer uso para se acalmar e a lidar com os desafios da vida. Aliás, ambas adolescentes permaneceram por um período de 6 meses em uma clínica especializada no tratamento de pessoas em situação de dependência química. Essa internação foi descrita positivamente por ambas, por acreditarem ter sido a oportunidade de suspender o uso de cocaína.

Ah, foi bom, porque eu parei. Mas de vez em quando eu dou um trago em maconha, mas não é direto [...] pra distrair a minha mente um pouco. Tem dia que a minha mente tá muito perturbada, aí eu fico mal, fico pensando várias coisas [...] fumo pra não dar raiva, não fazer merda. (Margarida)

Foi bom [o período de internação], me ajudou. Eu vi minhas irmãs na visita chorando, pedindo para que quando eu saísse não usasse mais drogas, e aquilo entrou na minha cabeça. (Rosa)

Além da situação de dependência química, Rosa e Margarida relataram sofrimento psíquico intenso. Em sua fala, Margarida explicitou ter tentado se suicidar e como estes pensamentos ainda são recorrentes. Como forma de lidar com o sofrimento (Silva et al., 2020), bem como a presença constante de pensamentos suicidas, recorre ao uso de substâncias ilícitas, especialmente a maconha. No caso de Rosa, o sofrimento psíquico foi explicitado de outras maneiras. A adolescente relatou ter dificuldade de controlar a raiva e, por isso, comete diversos atos de violência, contra terceiros e contra patrimônio. Rosa relatou também se sentir ansiosa e com dificuldades de ter autocontrole, apesar de estar sendo medicada. Além disso, Rosa narrou ter experiências de autolesão ao deparar com situações estressoras. A adolescente possui inúmeras cicatrizes em seus braços e relatou que também induz as mesmas lesões em suas pernas. A adolescente descreveu que os comportamentos auto lesivos iniciaram-se após as situações de abuso e exploração sexual que sofreu.

Eu estou tomando remédio, pra quando eu tiver começando a ficar nervosa. E o outro que eu tomo é porque sou muito ansiosa. As coisas ficam na minha cabeça e não vejo a hora de passar. (Margarida)

Tem bastante [cortes no corpo], são cicatrizes, tudo que eu me corto, me cortava. Que nem, quando eu terminei com ele [ex-namorado] ... eu fui e me cortei. Quando eu brigo com as minhas irmãs eu vou e me corto. Ou quando do nada eu começo a chorar e vem aquela vontade de me cortar eu vou e me corto, e nisso vai. Faço no braço e na perna [...] Comecei depois que fui abusada [sexualmente]. (Rosa)

Foi constatado, na investigação, o recorrente uso de substâncias psicoativas antes, durante e após as situações de exploração sexual. Como descrito pela literatura, a dependência química associa-se como um fator de risco para a exploração sexual, com os altos índices no uso de álcool, maconha, crack e cocaína (Dutra-Thomé et al., 2011). O uso abusivo e a dependência de substâncias psicoativas podem ser vistos como um desfecho da exploração sexual, gerando a necessidade de continuar na exploração para a aquisição das substâncias (Alberto et al., 2012; Serpa, 2009) ou mesmo para suportar as condições desumanas a que estão submetidas.

Também já existem registros na literatura de que a exploração sexual é tão danosa às adolescentes que recorrer a substâncias psicoativas é uma alternativa para lidar com este contexto tão adverso (Demenech et al., 2021; Silva et al., 2020). Além disso, a situação de dependência química repercute na incapacidade de negociação nas atividades sexuais. Paulatinamente, as adolescentes recebem cada vez menos recursos financeiros dos exploradores, perdem a capacidade de negociação para uso de preservativos e passam a utilizar os recursos obtidos na aquisição das drogas (Libório, 2005). Ademais, as adolescentes relataram que, mesmo após a internação para tratamento da dependência, ainda utilizam substâncias psicoativas como uma forma de lidar com os sentimentos e emoções, como baixa autoestima e vergonha, o que também está em consonância com estudos realizados com esta população no contexto brasileiro (Serpa, 2009).

O sofrimento psíquico e os sintomas apresentados pelas adolescentes são decorrentes da exposição a inúmeros fatores de risco, como uso de substâncias psicoativas, violência física, psicológica, sexual, e, sem dúvidas, da exploração sexual. Margarida relatou que a sua motivação para as tentativas de suicídio é em função de não conseguir lidar com os infortúnios que a cercam. Estas situações, sem sombra de dúvidas, violam direitos fundamentais destas meninas, privando-as de sua dignidade, segurança e da própria saúde física e mental.

As adolescentes que participaram dessa pesquisa demonstraram dificuldades em lidar com os desafios que se deparam na vida, sentimento de desesperança, baixa autoestima, repertório deficiente para lidar com as emoções, ideação à suicídio, automutilação, níveis de ansiedade, entre outros aspectos que sugerem alterações no quadro de saúde mental. Sintomas, sofrimento psíquico intenso e quadros sintomatológicos também foram identificados em adolescentes com histórico de envolvimento na exploração sexual nas pesquisas de Cerqueira-Santos e Souza (2015) e Serpa (2009).

Para os adolescentes entrevistados por Pessoa (2015), envolvidos no tráfico de drogas e que demonstraram processos de resiliência oculta, o uso de substâncias psicoativas não se apresentou como um problema com as mesmas dimensões identificadas na vida das adolescentes que participaram do presente estudo. De acordo com o pesquisador supracitado, os adolescentes, por mais que tenham relatado o uso de algumas substâncias psicoativas (sobretudo a maconha), descreveram um melhor conhecimento e maior controle sobre o consumo. Desta forma, esta pesquisa revelou que as adolescentes com histórico de envolvimento na exploração sexual necessitam de mais intervenções na área da saúde mental, pois as participantes não demonstram processos de resiliência oculta; pelo contrário, os relatos das adolescentes indicaram que a exploração sexual intensificou o uso de substâncias psicoativas e colaborou na instauração de um quadro sintomatológico, marcado pela dependência química e sofrimento psíquico.

Ao comparar os achados desta temática com a pesquisa de Pessoa (2015), outro contraste foi identificado. Não foram relatados pelos adolescentes envolvidos no tráfico de drogas elementos que sugerissem comprometimento psicológico em função do envolvimento do tráfico de drogas. Para os adolescentes entrevistados por Pessoa (2015), o tráfico de drogas foi, paradoxalmente, associado à promoção de resiliência oculta, ao trazer o sentimento de pertencimento, participação social, relacionamentos interpessoais significativos, entre outros. Já na pesquisa atual, a exploração sexual foi associada apenas a fatores de risco ao desenvolvimento das adolescentes, não sendo identificados situações ou variáveis que promovessem algum tipo de desenvolvimento positivo nas vítimas.

Considerações Finais

Este estudo teve o objetivo de analisar os processos de resiliência oculta em adolescentes com histórico de exploração sexual. Não foi evidenciado que as participantes extraíram da exploração sexual recursos que favoreceram o seu próprio desenvolvimento. O início da exploração sexual deu-se ao final da infância das participantes, sendo aliciadas por pessoas que deveriam protegê-las. Além disso, os recursos financeiros, que poderiam oferecer recursos materiais e algum tipo de benefício para elas próprias ou suas famílias, eram usufruídos pelos aliciadores, em especial pelas mães, para o consumo de substâncias psicoativas. A exploração sexual também trouxe consequências na desvalorização do próprio corpo e deformou a autoimagem das participantes. Isso resultou na instauração de quadros sindrômicos graves e deterioração da saúde mental das vítimas. Portanto, estes achados refutaram as hipóteses iniciais levantadas e sugerem que não há uma relação entre exploração sexual de adolescentes e processos de resiliência oculta.

Entre as limitações desta pesquisa, destaca-se o fato de as participantes estarem recebendo intervenções especializadas, o que pode ter alterado suas percepções acerca da exploração sexual. Levanta-se como hipótese que a replicação desse estudo com adolescentes que não passaram por intervenções possa trazer elementos que não foram possíveis de serem identificados nesta investigação. Além disso, recomenda-se que estudos futuros ampliem o número de participantes e que outras técnicas de coleta de dados sejam empregadas de forma combinada (i.e., entrevistas reflexivas, métodos visuais, inserção ecológica, grupos focais e instrumentos de autorrelato).

Dada a inexistência de investigações empíricas sobre os processos de resiliência oculta, os dados da presente investigação foram contrastados apenas com um estudo realizado no contexto brasileiro, o que configura outra limitação da investigação. Por se tratar de um tema incipiente na literatura nacional e internacional, aponta-se como relevante que a comunidade científica direcione seus esforços para este tema e contribua para o delineamento de novos recortes investigativos que explorem possíveis relações entre a exploração sexual de adolescentes e os processos de resiliência oculta.

Referências

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Recebido: 15 de Junho de 2023; Revisado: 01 de Setembro de 2023; Aceito: 11 de Dezembro de 2023

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