INTRODUÇÃO
Os Institutos Federais de educação fazem parte de uma rede de ensino cujo objetivo está na integração dos estudos com o mundo do trabalho, da ciência e da tecnologia. Para tanto, são oferecidos cursos de formação inicial e continuada, técnico de nível médio, cursos tecnólogos de educação superior e pós-graduação.
No Brasil, a Rede Federal de Educação Profissional e Tecnológica é composta por 661 unidades, vinculadas a 38 Institutos Federais, 02 Centros Federais de Educação Tecnológica (Cefet), Universidade Tecnológica Federal do Paraná (UTFPR), 22 escolas técnicas e ao Colégio Pedro II1.
Com o advento da expansão dos Institutos Federais em 2013 e o processo de interiorização educacional, o Instituto Federal de Sergipe inaugurou alguns campi em regiões específicas do estado como em 2014, com a inauguração do Campus Tobias Barreto. A cidade fica localizada no interior do estado, com uma população de 50.905 habitantes.2
Conhecido como a Capital dos Bordados, o município de Tobias Barreto tem o comércio como sua principal fonte geradora. Partindo da realidade local e suas necessidades, o campus oferece cursos técnicos em comércio, informática, desenvolvimento de sistemas, nas modalidades subsequente e concomitante.
No ano de 2022, contudo, a gestão do campus realizou uma mobilização interna com a finalidade de ofertar o curso técnico de nível médio em Administração na forma integrada - um dos carros-chefe da instituição. A partir disso, uma comissão - com professores do curso técnico em comércio, pedagogo, bibliotecário, técnico em assuntos educacionais e membros da Pró-Reitoria de Ensino - elaborou o Projeto Pedagógico do Curso, o qual foi aprovado pelo Conselho Superior pela Resolução CS/IFS Nº 167 de 01/12/2022.3
Nesse momento, uma nova realidade “batia às portas” da instituição. Seria necessário que a equipe multidisciplinar do campus (psicólogo, assistente social, pedagogo, técnico em assuntos educacionais, tradutor e intérprete de libras e psicopedagoga) adotasse novas propostas e intervenções. Por isso, reuniões internas foram realizadas com a intenção de verificar as lacunas, necessidades e possibilidades de atuação de cada profissional no processo de implantação do curso.
Desse modo, a grande preocupação da equipe multidisciplinar era: como reter as/os estudantes do Ensino Médio integrado e se aproximar das/os responsáveis de modo a combater a evasão escolar presente na realidade do campus já discutida com a gestão? A ideia apresentada pelo psicólogo escolar foi a de realizar entrevistas de ingresso com cada família ou pessoas responsáveis pelas/os estudantes, a fim de conhecer a realidade familiar e estudantil, estabelecendo parcerias e iniciando um vínculo entre as famílias e a escola.
Assim, o presente trabalho tem como objetivo apresentar o processo de planejamento e desenvolvimento da entrevista de ingresso (Santos & Guilherme, 2021) com famílias e pessoas responsáveis pelas/os estudantes da primeira turma do ensino médio integrado em administração do IFS - Campus Tobias Barreto. Além disso, pretende-se descrever o impacto e os desdobramentos de tal ação.
ESTRATÉGIAS DE ACOLHIMENTO, PARCERIAS E CRIAÇÃO DE VÍNCULOS COM AS FAMÍLIAS E COM OS ESTUDANTES
No IFS - Campus Tobias Barreto, o psicólogo escolar está lotado na Coordenadoria de Assistência Estudantil. Segundo normativas internas sobre a função desse profissional, sua práxis consiste em realizar trabalhos com grupos de estudantes, proporcionar ações voltadas à promoção e prevenção em saúde, auxiliar em capacitações para formação de docentes, atuar em comissões/núcleos envolvendo necessidades específicas e/ou dificuldades de aprendizagens etc.4
Ainda assim, partindo de uma perspectiva macro, o profissional integra uma equipe multidisciplinar composta por uma assistente social, um pedagogo, um técnico em assuntos educacionais, uma psicopedagoga e um tradutor/intérprete de libras. Apesar de atuarem em setores/coordenadorias diferentes, o acompanhamento e as deliberações são realizados em conjunto, por meio de reuniões semanais, para que as demandas internas relacionadas às intervenções psicossociais, os acompanhamentos psicopedagógicos e o desenvolvimento do alunado ocorram atendendo diferentes perspectivas/olhares sobre o mesmo fenômeno.
O trabalho realizado busca um afastamento da concepção psicologizante e individualizada dos processos que envolvem o ensino-aprendizagem. A equipe intenta compreender o contexto escolar, a comunidade, as/os atrizes/atores sociais envolvidas/os para a formação e desenvolvimento das/os estudantes e conceber “a escola como espaço que reflete as influências do contexto sócio-histórico e cultural, e contém os elementos necessários a favor da constituição de um sujeito emancipado, crítico e ativo, construtor de sua história” (Silva & Aquino, 2023, p. 5).
Diante disso, a grande demanda de discussões e possibilidades de atuação no ano de 2023.1 foi a inserção do ensino médio integrado em administração no campus. Quais seriam as estratégias utilizadas pela equipe para receber esse novo perfil de estudante? Estaria o campus preparado para recebê-las/os? O que seria necessário?
Como parte da realidade presente, o primeiro passo foi analisar questões de ordem prática e/ou burocráticas e encaminhadas à gerência de ensino, por meio de um parecer técnico da equipe multidisciplinar elencando pontos que mereciam atenção, tais como transporte escolar (o campus está localizado numa área distante do centro), quadra para atividades físicas, merenda escolar, uniforme, contratação de professoras/es da área propedêutica, livros didáticos etc.
A segunda estratégia foi a criação de um estilo de intervenção não utilizado no campus anteriormente: as entrevistas com as famílias - aqui apontadas como entrevistas de ingresso (Santos & Guilherme, 2021). O trabalho com as famílias é considerado na literatura como importante atuação e recurso da psicologia escolar para criação de um espaço de escuta e diálogo, aproximação da família com a instituição, apoio para a diminuição da evasão escolar, conhecimento das dinâmicas familiares que podem impactar no aprendizado de cada estudante e suporte nas atividades escolares (Albuquerque & Aquino, 2021; Burgos, Inácio, Oliveira, & Baptista, 2021; Cavalcante & Aquino, 2019).
Assim, buscando uma aliança com familiares e pessoas responsáveis pelas/os discentes, após o sorteio público das 40 vagas oferecidas pela instituição, o psicólogo escolar encaminhou uma mensagem de felicitações à/ao candidata/o, via WhatsApp da Coordenadoria de Assistência Estudantil, informando o resultado e convidando a comparecer ao IFS com a documentação especificada no edital (com horário, local, dia etc.) para efetivação da matrícula. O trabalho de aproximação, de orientação e a criação de um sentimento de pertença à nova instituição foram os principais motivos para a escolha dessa terceira estratégia.
A próxima etapa foi a elaboração de um cronograma compartilhado com os nomes e horários de cada família e a modalidade do encontro: presencial ou remota (utilizando WhatsApp ou Meet como plataformas). A proposta levou em consideração a impossibilidade de algumas pessoas se deslocarem até o campus devido à localização de alguns povoados, bem como tarefas diversas.
Assim, os profissionais realizaram o contato individual com pais, mães, responsáveis e com as/os próprias/os estudantes, com a finalidade de agendar um horário e modalidade que fosse compatível com as necessidades e realidades dessas famílias. Desse modo, 30 (trinta) responsáveis se deslocaram até o campus e outros 10 preferiram a conversa na modalidade remota.
Os encontros e/ou entrevistas tiveram como foco principal o acolhimento;, entendido como “uma ação de aproximação, um ‘estar com’ e um ‘estar perto de’, ou seja, uma atitude de inclusão” (Brasil, 2010, p.6)! Para isso, foram delimitados os seguintes objetivos específicos: conhecer melhor as/os responsáveis do novo corpo discente, apresentar o trabalho realizado no IFS, obter informações sobre a história de vida de cada estudante, apresentar o espaço do IFS e fortalecer o vínculo entre IFS e famílias. Para tanto, um roteiro semidirigido de questões foi elencado pelo psicólogo e pela assistente social a fim de identificar aspectos de maior relevância para futuras intervenções, conforme descrito por Santos e Guilherme (2021), sobre a metodologia supracitada
Como parte da recepção, o psicólogo e o assistente social tiveram cuidado e preocupação quanto à escolha do espaço para o acolhimento das famílias, em aspectos como a climatização do ambiente, a localização da sala, o estofado confortável, a iluminação adequada etc. Assim, a conversa, em ambas as modalidades, iniciava com um rapport, ou momento quebra-gelo, apresentações e agradecimento pela disponibilidade de horário. A seguir, psicólogo e assistente social apresentaram o objetivo do encontro, solicitando que as famílias compartilhassem as suas expectativas quanto ao trabalho que o IFS realizaria no processo de aprendizagem de cada estudante.
Foram pontuados aspectos como relacionamento do estudante com a família, a escola e as/os amigas/os, algumas características marcantes das/os filhas/os e suas notas. Além disso, a identificação de acompanhamentos realizados por profissionais de outras áreas (medicina, psicologia clínica, psicopedagogia, neurologia, fonoaudiologia etc.) foi tema do encontro com o objetivo de estreitar as relações e compreender necessidades de acompanhamento, intervenções e formação continuada do corpo discente. Nesse momento, foram identificadas/os quatro estudantes com necessidades específicas e o contato com as/os profissionais externos foi realizado posteriormente, com autorização das/os entrevistadas/os, para orientação do corpo docente e acompanhamento das/os discentes na instituição.
Os aspectos relativos ao trabalho, moradia, benefícios recebidos e situação familiar foram dados importantes para a compreensão e a análise social dessas famílias, bem como a necessidade de pensar ações relacionadas ao fortalecimento de vínculo e o acionamento do aparelho público caso fosse necessário. Mais que isso, possibilitou uma visão inicial sobre a situação socioeconômica das famílias, bem como aquelas/es estudantes que necessitariam de auxílio financeiro, como estratégia de continuidade no curso.
Por conseguinte, a dupla de profissionais informava questões relativas ao funcionamento do curso, uniformes, possibilidade de benefícios, quantitativo e formação da equipe multidisciplinar, e sobre o modo como era realizado o acompanhamento dos discentes. A grande preocupação sempre esteve ligada à oferta de um espaço acolhedor, com uma escuta sensível e descontraída. Por conta disso, os pais ficaram à vontade para questionar e externar suas impressões sobre o IFS, trabalho e expectativas.
Mães, pais e pessoas responsáveis relataram que as/os discentes eram muito estudiosas/os e estavam “ansiosas/os” para iniciar o curso. Assinalaram a importância do trabalho realizado e apontaram o quanto o convite e a conversa foram essenciais para a compreensão do trabalho realizado, o tipo de acolhimento que seria oferecido às/aos suas/seus filhas/os e que se sentiram “aliviadas/os” ao perceber a preocupação da instituição com o bem-estar de cada estudante.
No fim da entrevista, as/os responsáveis que visitaram presencialmente o campus eram convidadas/os a conhecer o espaço da instituição: salas de aulas, laboratórios de informática, biblioteca, setores e demais espaços de convivência. O telefone de contato foi compartilhado para que pudessem tirar dúvidas e manter a comunicação com a equipe. Por fim, o aperto de mão ou o abraço foram seladores para o agradecimento das visitas e a disponibilidade de apoio.
Após isso, no primeiro dia de aula, pelo menos uma/um responsável de cada uma/um das/os 39 estudantes compareceu à reunião. Foi o momento de um segundo acolhimento com toda a equipe (demais profissionais da equipe multidisciplinar e as/os professoras/es do Ensino Médio integrado). Diante do retorno positivo, expresso com a presença de mães/pais/responsáveis, percebemos a importância do acolhimento como estratégia de aproximação da escola com as famílias e a contribuição da psicologia escolar nesse processo.
Por conseguinte, Albuquerque e Aquino (2021) ressaltam o papel mediador da Psicologia Escolar com as famílias, desde o primeiro dia letivo, com vistas à compreensão das demandas sobre aprendizagem, as expectativas de responsáveis, papéis e funções da família e escola, bem como a criação/fortalecimento do vínculo entre as duas instituições. Nesse aspecto, informações prévias possibilitarão o planejamento de ações eficazes decorrentes do acolhimento que poderão produzir novos sentidos e relações.
Nesse sentido, reiteramos as reflexões apontadas por Macedo (2018), nas quais assevera a importância da criação de espaços onde a escuta sobre temores, dúvidas e incertezas possam ser mitigadas e, com isso, se fortaleça o reconhecimento do papel das famílias na construção do processo de aprendizagem das/os estudantes.
CONCLUSÃO
O presente trabalho teve como objetivo apresentar o processo de planejamento e desenvolvimento da entrevista de ingresso no curso de ensino médio integrado em administração - experiência realizada como parte das atribuições do psicólogo escolar e do assistente social do Campus Tobias Barreto.
Foi possível perceber o quanto o trabalho realizado “corpo a corpo” com essas famílias e responsáveis é importante para a abertura de um trabalho conjunto. Na esteira desse pensamento, Oliveira, Ramos e Souza (2020) reiteram a necessidade de uma postura indicada como “psicóloga/o parceira/o” nas relações com a comunidade escolar.
Não por acaso, as estratégias utilizadas (mensagens, agendamento remoto e presencial, disponibilidade de escuta, apresentação do campus etc.) possibilitaram a criação de “pontes” com o intuito de escutar e acolher as necessidades do público-alvo. A escuta foi um fator de destaque na criação de um vínculo afetivo-institucional e acolhimento para que pudessem se sentir à vontade no espaço que seria de todas/os a partir daquele momento,
Por fim, destaca-se que a aproximação/acolhimento e parceria citadas possibilitaram não somente a criação de um vínculo profissional com as pessoas responsáveis, mas um engajamento por uma escola democrática, participativa e focada na potência da coletividade.










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