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Psicologia Escolar e Educacional

Print version ISSN 1413-8557On-line version ISSN 2175-3539

Psicol. Esc. Educ. vol.29  São Paulo  2025  Epub Sep 29, 2025

https://doi.org/10.1590/2175-3539-2025-01 

Dossiê

APRESENTAÇÃO DO DOSSIÊ TEMÁTICO

Sonia Mari Shima Barroco1  
http://orcid.org/0000-0002-4136-8915

1 Universidade Estadual de Maringá - Maringá - PR - Brasil; smsbarroco@uem.br


O presente dossiê, (Im)Pertinências dos estudos de Vigotski em Defectologia (1924-1935) para as investigações contemporâneas sobre a pedagogia e a clínica numa perspectiva inclusiva, responde ao Edital lançado em 2023 pela Revista Psicologia Escolar e Educacional, publicada pela ABRAPEE. Sob a organização de Daniele Nunes Henrique Silva, Ana Paula de Freitas e Fabricio Dias de Abreu, conta com nove textos com conteúdos derivados de ensaios teóricos, investigações bibliográficas e de campo, abrangendo os fundamentos da perspectiva histórico-cultural a respeito da sociedade, das relações nela estabelecidas entre pessoas com e sem deficiências e dos seus impactos ou das suas implicações para os seus desenvolvimentos.

Os textos não apenas arrolam conceitos e problematizações de teóricos fundadores e continuadores dessa escola. Também apresentam discussões problematizando demandas da sociedade do século XXI, suas contradições, e a necessidade de a academia expor subsídios para compreensão destas, suas gêneses e os desdobramentos sobre os sujeitos.

Assim, numa sociedade tão produtiva - como podem atestar o volume de publicações em periódicos científicos e de solicitações de registros de patentes, por exemplo, que reúnem materiais que revelam o intenso processo criativo dessa sociedade, mas que também é tão excludente, como as mais diferentes estatísticas e a prática social revelam, é essencial que se tenham lentes que permitam “ver” o real. Esse olhar que pode capturar o real é subsidiado em conhecimentos que permitem o desvelar das múltiplas determinações que incidem sobre ele, que permitem apreendê-lo e, num posicionamento ético-político, junto a ele intervir.

Recuperar autores e obras de outro momento histórico e de uma sociedade tão diversa da atual permite que se exercite numa análise histórico-dialética das questões que buscavam responder e as teorizações que elaboraram a respeito. À época não existia a proposição da inclusão educacional e escolar como se tem de 1994 para cá; contudo, L. S. Vigotski (2022, 2019) já apresentava fundamentos filosóficos, epistemológicos e metodológicos para uma nova Defectologia e para a compreensão do desenvolvimento humano de pessoas com e sem deficiências, para a infância difícil, para uma nova concepção de normalidade e de “defeito”. Critica veementemente uma ciência sem objeto e sem método, como a velha Defectologia que mais arrolava o que faltava nos sujeitos que os explicava, que lançava luz ou olhar prospectivo sobre as camadas e camadas do que lhes estava íntegro e que poderia, contraditoriamente, subsidiar a superação do que estava limitado, enfermo ou não desenvolvido.

Num momento em que tanto se fala de direitos humanos, direitos fundamentais e inclusão - justamente pela não observação deles e pelos ataques ao denso acervo teórico, legal e de trabalho formativo de profissionais da educação, estudantes e da sociedade em geral- o presente Dossiê revela sua importância com o compromisso do processo de humanização de todos os sujeitos culturais livres, emancipados.

Inicialmente aborda contribuições teóricas de Vigotski para o campo da Educação Especial com a entrevista Além do caráter normativo da psicologia, com o Professor Luciano Mecacci - teórico e tradutor da teoria histórico-cultural no campo da defectologia, por Alessio Surian.

Mônica de Carvalho Magalhães Kassar e Flavia Faissal de Souza apresentam o artigo Vigotski no contexto do surgimento da educação especial como campo de conhecimento, em que são exploradas as ideias do autor sobre a crítica acerca da Pedagogia Terapêutica/Curativa presente na Educação Especial nas décadas de 1920 e 1930. Na confluência dos estudos pedológicos e defectológicos de Vigotski: a criança com deficiência intelectual, de autoria de Daniele Nunes Henrique Silva e Ana Paula de Freitas analisa criticamente textos pedológicos de Vigotski elaborados no período de 1931-1934, abordando a problemática da idade e a deficiência.

Fabrício Santos Dias de Abreu e Lavínia Lopes Salomão Magiolin são autores do texto Relação afeto-intelecto e a proposição de unidade semântica na abordagem vigotskiana da deficiência intelectual, que analisa os principais conceitos elaborados por Vigotski referentes ao retardo mental, e questões que envolvem a ideia de sistema interfuncional, a indissociabilidade intelecto-afeto, a noção de unidade dinâmica do sistema semântico, apontando a centralidade da palavra na formação sistêmica do funcionamento psicológico.

Cristina Broglia Feitosa de Lacerda, Christiane Thatiana Ramos de Souza e Maria Cecília Raphael de Góes são autoras do artigo A educação de surdos nos escritos de Vigotski: a mímica entre as formas de fala, onde buscam problematizar a reorientação das ideias de Vigotski sobre a surdez, do oralismo à poliglossia, a partir de 1931, revelando as teses gerais vigotskianas sobre a centralidade da dimensão semântica para a constituição e o desenvolvimento das funções psíquicas superiores.

Marina Teixeira Mendes de Souza Costa e Fabiana Alvarenga Rangel respondem pelo artigo O desenho das crianças com deficiência visual e seus processos de leitura e escrita. Nele, abordam os processos de alfabetização das crianças com deficiência visual (cegas e com baixa visão), tendo como ponto de partida o desenho. Trata-se de atividade que demanda as mesmas funções observadas na criança sem deficiência visual, mas contando com técnicas e ferramentas especializadas.

Com questões mais afetas à educação e à inclusão, Régis Henrique dos Reis Silva e Anna Maria Padilha apresentam Contribuições dos estudos defectológicos de Vigotski para a inclusão escolar de estudantes com deficiência, retomando os principais conceitos desenvolvidos por Lev Vigotski em seus estudos sobre a defectologia e, à luz deles, discutem criticamente como o capacitismo afeta as pessoas com deficiência. Partem de uma análise dialética da educação-deficiência buscando superar os modelos excludentes das relações de ensino que ainda se baseiam naquilo que a criança com deficiência não consegue fazer: sua incapacidade e falta.

Luciane Schlindwein, Marilene Proença e Olivia Milléo, no artigo Defectologia de Vigotski, laudos médicos e políticas de inclusão em Santa Catarina, abordam criticamente as políticas vigentes no âmbito da educação especial, numa perspectiva inclusiva, problematizando os processos de medicalização envolvendo crianças, diagnosticadas com as mais diversas síndromes, gerando exclusão dentro e fora da escola.

Arte e inclusão em Vigotski: acessibilidade cultural em música é de autoria de Regina Jodely Rodrigues Campos Aguiar, Patrícia Lima Martins Pederiva, Elisângela Moreira Peraci e Lucia Helena Cavasin Zabotto Pulino. Nele, abordam o lugar da arte na interface com a inclusão. Discutem a acessibilidade cultural e o papel da música como vivência necessária para o desenvolvimento humano, visto ser um tema ainda pouco contemplado nas pesquisas acadêmicas, bem como o território de exclusão das vivências artísticas que é experimentado por pessoas com deficiências.

Certamente que o presente dossiê em muito contribuirá para a formação e atuação de profissionais de diferentes áreas do conhecimento e para o fortalecimento dessa perspectiva teórica, num momento de tantas contradições e incertezas em relação aos rumos da ciência e das políticas públicas em favor da emancipação humana.

REFERÊNCIAS

Vigotski, L. S. (2018). Acerca dos processos compensatórios no desenvolvimento da criança mentalmente atrasada. Educação e Pesquisa, 44, e440030001. https://doi.org/10.1590/S1678-4634201844003001 [ Links ]

Vigotski, L. S. (2022). Obras escolhidas (Vol. 5, Fundamentos de defectologia). Edunioeste. [ Links ]

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