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Psicologia: Ciência e Profissão

Print version ISSN 1414-9893On-line version ISSN 1982-3703

Psicol. cienc. prof. vol.45  Brasília  2025  Epub Mar 17, 2025

https://doi.org/10.1590/1982-3703003275228 

Artigo

Ecologia do Cuidado: Pistas para Pesquisas em Psicologia Social

Ecology of Care: Clues for research in Social Psychology

Ecología del Cuidado: Pistas para la investigación en Psicología Social

Daniela Dalbosco Dell’Aglio1 

Doutora em Psicologia Social e Institucional pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e Pós-doutoranda do PPG Psicologia e Saúde (UFCSPA), Porto Alegre – RS. Brasil.


http://orcid.org/0000-0003-1824-9413

Paula Sandrine Machado2 

Doutora em Antropologia Social pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul - UFRGS (2008), co-coordenadora do Núcleo de Pesquisa em Sexualidade e Relações de Gênero (NUPSEX) e Professora do Programa de Pós-Graduação em Psicologia Social e Institucional na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), Porto Alegre – RS. Brasil.


http://orcid.org/0000-0002-2375-9461

1Universidade Federal de Ciências da Saúde de Porto Alegre, Porto Alegre, RS, Brasil

2Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Porto Alegre, RS, Brasil


Resumo:

Este artigo configura-se como um ensaio teórico que objetiva tecer pistas epistemológicas e/ou metodológicas para pesquisas em Psicologia Social a partir do que iremos chamar de “ecologia do cuidado”. Para tanto, o conceito de “ecologia” no campo das ciências é resgatado, a fim de situá-lo em uma perspectiva pós-estruturalista que busca compreender a interdependência de agentes humanos e não humanos. Ainda, a categoria do cuidado, a partir de um olhar feminista, é compreendida enquanto uma prática onipresente, o que, em um sentido epistemológico, sugere que ocupa centralidade em nossas análises. Propõe-se olhar para o cuidado de modo “tentacular”, interdependente e relacional, como algo que articula uma gama de atores, sejam eles humanos ou não, de modo conectivo e inventivo. Concluímos que essa contribuição cria um tensionamento na centralidade atribuída ao sujeito humano no campo da Psicologia Social, convocando as materialidades e praticalidades engajadas nas produções do cuidado e/ou do conhecimento.

Palavras-chave: Neomaterialismo; Cuidado; Ecologia; Interdependência; Epistemologia

Abstract:

This theoretical essay aims to weave epistemological and/or methodological clues in research in social psychology based on what we will call the “ecology of care”. To this end, the concept of “ecology” in science is retrieved to place it in a post-structuralist perspective that seeks to understand the interdependence of human and non-human agents. Still, the category of care from a feminist perspective is understood as an omnipresent practice, which, in epistemologically suggests that it occupies a central position in our analyses. This essay proposes to look at care in a “tentacular,” interdependent, and relational way, which articulates a range of actors, whether human or not. We conclude that this contribution creates a tension in the centrality attributed to the human subject in social psychology to provoke the materialities and practicalities engaged in the production of care and/or knowledge.

Keywords: Neomaterialism; Care; Ecology; Interdependence; Epistemology

Resumen:

Este artículo es un ensayo teórico que pretende tejer pistas epistemológicas y/o metodológicas en la investigación en Psicología Social, a partir de lo que denominaremos “ecología del cuidado”. Para ello, se rescata el concepto de “ecología” en el campo de la ciencia para ubicarlo en una perspectiva postestructuralista que busca comprender la interdependencia de los agentes humanos y no humanos. Aun así, la categoría de cuidado, desde una perspectiva feminista, se entiende como una práctica omnipresente, lo que, en un sentido epistemológico, sugiere que ocupa una posición central en nuestros análisis. Se propone, en este artículo, mirar el cuidado de forma “tentacular”, interdependiente y relacional, que articula una gama de actores, humanos o no. Concluimos que esta contribución crea una tensión en la centralidad atribuida al sujeto humano en la Psicología Social para provocar las materialidades y practicidades comprometidas en la producción del cuidado y/o del conocimiento.

Palabras clave: Neomaterialismos; Cuidado; Ecología; Interdependencia; Epistemología

Introdução

Este trabalho parte de uma pesquisa de doutorado em Psicologia Social e Institucional, na qual a primeira autora vivenciou o cotidiano de uma comunidade rural, localizada em um assentamento no interior do Estado do Rio Grande do Sul1. Tal comunidade reivindica, como proposta política, o anarquismo, na busca da construção de uma vida coletiva, com tarefas compartilhadas, tais como a alimentação, a limpeza, o cuidar da horta, o tirar o leite da vaca, as reuniões políticas, a manutenção da estrutura física, o cuidado com as crianças, entre outras. Foi possível perceber, durante o trabalho de campo, que o cuidado, ao ser performado, estabelece uma ecologia “tentacular” (Haraway, 2016), a qual coordena fazeres, esperados ou imprevisíveis, de modo distribuído e relacional. O cuidado das crianças destaca-se, assim, como um ponto articulador da organização das atividades locais. Deixa de ser aquilo que é dirigido, pelos adultos, apenas às crianças, e passa a ser compreendido enquanto um conjunto de relações interdependentes de práticas cotidianas.

Considerando as observações realizadas para a referida pesquisa e a inspiração teórica de Maria Puig de la Bellacasa (2017), o cuidado é tomado, na presente análise, em múltiplas dimensões: como um trabalho, uma ação, uma invenção cotidiana e uma responsabilidade, bem como produzido em meio a relações entre seres humanos, animais, plantas, objetos e outros elementos. Ou seja, aqui, a noção de cuidado parte de uma ótica que busca descentralizar o ser humano da análise, para considerar sua articulação com diferentes materialidades que se engajam nas práticas cotidianas. Na concepção de materialidade empregada, os artefatos não são tomados como anteriores às práticas que os constituem. Desse modo, são manipulados, da mesma forma que atuam/tocam/modificam o que se entende por “humano” (Latour, 2005). Em outras palavras, os objetos existem de modo inerentemente relacional, partindo do pressuposto de que “agem”, portanto têm “agência”. Essa perspectiva coloca em tensão o objeto que costuma ser central, tanto no campo da Psicologia quanto nos debates sobre o cuidado: o humano. A experiência prática da pesquisa, em conjunto com a perspectiva materialista relacional (atravessada pelos estudos feministas contemporâneos da ciência), vem, assim, provocar o campo da Psicologia Social para que possamos propor outros modos de compreender/fazer/pensar/produzir conhecimento.

Perseguindo essa provocação, este artigo objetiva tecer pistas epistemológicas e/ou metodológicas em pesquisas sobre cuidado no campo da Psicologia Social, a partir do que chamamos de “ecologia do cuidado”. Importante ressaltar que se trata de um ensaio teórico, oriundo, como já indicado, de uma tese de doutorado, para a qual foi realizado trabalho de campo em diferentes períodos de imersão etnográfica, tendo no mês de setembro de 2019 a duração mais longa. As reflexões aqui apresentadas são, assim, indissociáveis desse percurso. Contudo, daremos centralidade ao debate teórico e epistemológico, localizado na interface entre os estudos sobre cuidado e a abordagem das práticas semiótico-materiais que performam a(s) realidade(s), emaranhando as redes de cuidado de modo interdependente. Tal discussão está atravessada pelo crescente interesse nos estudos que têm sido chamados de “feminismos materialistas contemporâneos e neomaterialistas” (Rogowska-Stangret, 2020), ou, mais amplamente, naqueles preocupados em abordar as materialidades e as praticalidades engajadas na produção da realidade. Longe da pretensão de estabelecer uma identidade teórica que unifique autoras e autores estudadas/os, buscamos colocá-las/os em diálogo em torno de dois pontos fundamentais: (1) a descentralização do sujeito humano da análise, a partir de uma perspectiva pós-estruturalista; e (2) o lugar dado à agência das coisas, colocando em evidência os agentes não humanos.

O interesse teórico em convocar os termos “cuidado” e “ecologia” no campo da Psicologia Social parte de um questionamento de como esses descritores são acionados na história da Psicologia e dos feminismos, frequentemente de maneira a estabelecer fronteiras entre social/natural, humano/não humano, natureza/cultura. Essas polarizações evidenciam a urgência de se criar narrativas que busquem borrá-las, a fim de dar conta da complexidade de compreender o mundo sem, de partida, operar com hierarquizações desses termos. Esses questionamentos a respeito do lugar da Psicologia Social frente às teorias materialistas podem ser encontrados, no Brasil, em trabalhos como o de Mariana Cordeiro e Mary Jane Spink (2013), em que as autoras provocam a necessidade da Psicologia Social de se engajar com a realidade a partir de uma postura não perspectivista, e também o de Marcia Moraes e Ronald Arendt (2013), no qual discorrem sobre a lógica do cuidado a partir de Annemarie Mol, perspectiva que será abordada adiante.

Mesmo havendo provocações na Psicologia, a abordagem da temática do “cuidado”, tanto nesse campo quanto nas demais áreas da saúde, costuma ficar restrita ao debate do fazer profissional – afinal, a Psicologia é uma profissão que costuma ser estreitamente relacionada ao cuidado em saúde e ao cuidado dos sujeitos (Coldibeli, Paiva, & Batista, 2023). Mais particularmente na literatura do campo da Psicologia Social, é possível encontrar a defesa desse “cuidado” e seu enquadramento enquanto política pública e profissional, configurando-se enquanto atitude ético-política (Macedo & Dimenstein, 2009), para além de uma técnica ou intervenção específica. Ainda assim, o cuidado costuma ser tomado enquanto um conjunto de práticas desenvolvidas pelos profissionais que atuam no campo das políticas sociais para com o/a(s) usuário/a(s). Ou seja, a discussão, por mais pertinente que seja politicamente, parte da centralidade do ser humano – perspectiva que buscamos aqui tensionar.

Esse tensionamento não vem, de modo algum, deslegitimar modos de compreender e fazer Psicologia Social, mas visa propor estratégias de análise que tragam outros termos para o debate. Considerando as teorizações que têm discutido a agência dos objetos e das coisas, bem como o convite que vem sendo feito no meio acadêmico contemporâneo (Haraway, 2016; Latour, 2020; Puig de la Bellacasa, 2017) para que as consideradas “Ciências Humanas e Sociais” se preocupem com as questões consideradas “da natureza” ou próprias das “Ciências da Natureza”, as reflexões a seguir partem da perspectiva de que devemos mobilizar atores humanos e não humanos nas análises sobre a produção da(s) realidade(s). Nessa perspectiva, o que se costuma definir como “a natureza” – animais, plantas, objetos, fenômenos climáticos e ambientais, entre outras entidades – acaba assumindo uma inscrição teórica e metodológica distinta, que não apenas a de “pano de fundo” para as relações sociais, mas a de protagonista das práticas que performam a realidade.

A influência de Bruno Latour colaborou para que pudéssemos enxergar as diferentes materialidades como forças, ou actantes2, que se engajam em coletividades, expressando “agências interdependentes”. É desde esse argumento que assumimos a perspectiva proposta para analisar os fenômenos de modo ecológico. Para Conty (2018), “ecologizar é, de fato, o antídoto para modernizar”, ou seja, considerar as diferentes articulações materiais interdependentes pode ser uma estratégia para não cairmos nas falácias binaristas e supostas verdades polarizadas que sustentam e serão sustentadas pelas Ciências Modernas. É tomando essa frase como horizonte ético e político que nos orientamos para as reflexões a seguir.

Nas tramas ecológicas do cuidado: por uma abordagem de mundos multiplicados em Psicologia Social

Para dar conta do objetivo deste artigo, iremos, primeiramente, resgatar o conceito de “ecologia” no campo das ciências, o qual surge enquanto elemento constitutivo da noção de “interdependência”, bastante trabalhada nas teorias do cuidado (Tronto, 1993). O conceito de interdependência, que será acionado na contemporaneidade por Donna Haraway (2016), para dar visibilidade às materialidades conectadas de modo tentacular, articula-se, ainda, intrinsecamente, ao de ecologia, na medida em que esse último, nas áreas biológicas, aponta para a interligação dos seres vivos, numa ampla e complexa rede de relações (Mendes, 2000). No que se refere às teorias do cuidado, conforme apontado por Tronto (1993), interdependência está relacionada ao fato de que nós – seres humanos de diferentes idades – vivemos em uma rede de conexões. Nesse sentido, os adultos e adultas cuidadores/as nunca são “independentes” ou nomeadamente autônomos/as, já que o trabalho do cuidado não se faz sozinho. É necessária uma rede.

Entendemos que a rede que performa o cuidado é constituída por seres humanos, contudo, é também marcadamente integrada por não humanos em articulação com os mais diversos serviços, sejam eles oferecidos por políticas públicas – como a escola, a limpeza urbana, a saúde, a assistência, a construção de praças e espaços de convivência –prestados por contratação privada, ou, ainda, se dando por meio de relações sociais próximas, como na troca de favores e negociações, em vizinhança, amizades, famílias etc. Com isso, reitera-se que, para além das pessoas, para o cuidado ser possível, é necessário o engajamento das “coisas”, portanto, a interdependência remete também às relações materiais em contexto (Puig de la Bellacasa, 2017).

Após breve retomada da emergência dos estudos sobre as materialidades e a agência de seres humanos e não humanos envolvidos em redes de cuidado, discutiremos na sequência o conceito de ecologia e sua adesão nas Ciências Humanas. A partir daí, aprofundaremos a análise da relação da categoria cuidado com as teorias feministas, considerando, também, o conceito de interdependência para, então, abordarmos mais especificamente a noção de “ecologia do cuidado”. Tal aposta pretende funcionar como uma pista epistemológica e/ou metodológica a fim de tensionar as abordagens no campo da Psicologia Social. Importante ressaltar que o foco não é a psicologização do sujeito, tampouco uma análise do comportamento. Propomos, ao contrário, a observação de alianças que, por vezes, podem parecer impensáveis, como aquelas constituídas na presença de uma pulga, de uma poça d’água que vira brincadeira, do girassol plantado na horta e da fogueira que une os membros da comunidade, entre outros elementos que se enlaçam na performação cotidiana do cuidado.

Ecologia e alguns caminhos multifacetados do conceito

Levando-se em consideração que o conceito de “ecologia” percorre diferentes áreas e assume significados distintos, objetiva-se, nesta seção, apresentar como o termo passou a ser integrado no campo das Ciências Humanas e Sociais, incluindo a Psicologia, para, em seguida, ressituá-lo a partir do diálogo com a abordagem das materialidades, desde uma perspectiva pós-estruturalista.

Burø (2020) aponta que o termo “ecologia” foi primeiramente cunhado pelo cientista alemão Ernst Haeckel, em 1866. Haeckel formou Öcologie de palavras gregas, sendo que oikos (“casa”) e logos (“ordem”), unidos, resultam em “a ordem da casa”. O termo não foi imediatamente integrado à biologia, e a expressão “economia da natureza” foi massivamente utilizada por botânicos até 1893, quando, no “International Botanical Congress”, foi substituída por “ecologia”. Ainda, como aponta Burø (2020), os biólogos não foram os únicos cientistas a pensar “ecologicamente”. Um grupo de sociólogos em Chicago, em 1920, incluindo Robert Park, Ernest Burgess e Roderick Mckenzie (Santos, 2010), estabeleceram a “Ecologia Humana” enquanto uma disciplina, uma teoria e uma metodologia, uma vez que passaram a questionar o que afetava a distribuição e a segregação da população, apontando fatores geográficos, estruturais e econômicos como componentes do que iriam chamar de desequilíbrio econômico. Para esses teóricos, o equilíbrio social era uma ordem natural, não intencional, tampouco justa, que influenciava diretamente a vida nas cidades.

Pensando na influência da Escola de Chicago para a Psicologia, temos o nome de George Herbert Mead, filósofo que tinha como um de seus interesses a relação entre a mente, o self e a sociedade, e que passou a ser uma referência para a Psicologia Social norte-americana (Becker, 1996). Ele compreendia que os processos de formação da subjetividade humana aconteciam por implicações mútuas com o meio ambiente. Desenvolveu uma “visão ecológica do self”, a partir da qual a intenção era também mostrar a inseparabilidade entre o espaço e uma autoconcepção de si (Mello, 2020).

Os termos “ecológico” ou “ecologia” costumam também estar conectados à Psicologia Ecológica, a qual teve como desenvolvedor Roger Garlock Barker (1968) – influenciado por sua esposa, Louise Barker, que era bióloga. Enquanto modo de ver o mundo, a Psicologia Ecológica busca compreender a diferença entre o que seria supostamente “natural” e o que seria “artificial” ou manipulado. Para isso, Barker apostou na observação de acontecimentos da vida diária. Ainda, na Psicologia, temos a Teoria dos Sistemas Ecológicos do Desenvolvimento Humano de Urie Bronfenbrenner (1996). Com ela o autor fez uma crítica às investigações que focavam na pessoa em desenvolvimento sem considerar a influência dos contextos de vida dos sujeitos (Martins & Szymanski, 2004).

Aproximando-nos do campo da Psicologia Social desde uma perspectiva pós-estruturalista, na obra de Gilles Deleuze e Félix Guattari (2010) também é possível identificar algumas referências do conceito de Ecologia. Primeiramente, poder-se-ia estabelecer uma aproximação com o conceito de “rizoma”, uma vez que faz analogia à maneira, sempre conectada, por meio da qual a grama se distribui pela terra. Porém, Bernd Herzogenrath (2009) aponta que seria nas noções de “máquina” ou “maquínico” que poderiam ser observadas as preocupações ecológicas dos autores. O conceito de máquina, desenvolvido por Deleuze e Guattari (2010) em Anti-Édipo, fornece um modelo elucidativo para a compreensão de relações que estariam articuladas com as noções ambientais e evolutivas dentro dos sistemas ecológicos, abrindo espaço para uma conceitualização das categorias “natureza”, “homem”, “humano” e “não humano” de formas não essencialistas, ou desde classificações não polarizadas nem organizadas em pares de opostos.

Em consonância com essa não polarização entre o que é humano e não humano, temos como referência mais contemporânea o teórico Bruno Latour (2017, 2020), que tece provocações à noção de ecologia. Latour (2017) sugere que enxerguemos toda materialidade como força que se reúne em coletividades expressando “agências interdependentes”. Ou seja, aquilo que não é humano não deve ser tido como passivo nos processos políticos, devendo expressar-se a fim de minimizar os impactos sociais para todos os seres que habitam o universo. Um exemplo é a agricultura, conforme sugere Mariana Machini (2018, p. 92), enquanto “um grande híbrido entre natureza e cultura em que operam pessoas, ideias, posicionamentos políticos, ciência, o solo, as vegetações nativa e exótica, clima, técnicas, tecnologias, espécies diversas”.

E por que separamos o que seria, supostamente, da natureza de questões políticas? Latour (2017) entende que não seria possível compreender a natureza e a sociedade de maneira separada. Isso porque a ideia de “natureza” em si seria uma abstração, uma vez que a “naturalização” dos fenômenos é uma falsa solução criada pela modernidade, uma maneira de “purificar” os atores-actantes que, de fato, não poderiam ser separados. Latour (2004), portanto, propõe a destruição da ideia de natureza, a partir da ecologia política. Do ponto de vista epistemológico, situaria-se aí uma crise da objetividade, ou seja, daquilo que se entende por “sujeito e objeto”, tão concretizado na suposta e assentada ideia da modernidade a qual Latour critica.

Com esse pensamento, desfaz-se o binarismo tão caro ao pensamento moderno de “natureza” versus “cultura”, por entender que ele se sustenta em uma universalidade perversa. Ainda, entende-se que as crises ambientais, sejam mutações climáticas, desmatamentos de Mata Atlântica ou outro fenômeno, nada mais são do que crises políticas que caminham junto com a explosão de desigualdades. Se estamos propondo um modo de enxergar e pensar o cuidado no campo da Psicologia Social, temos que fazê-lo de maneira ecologicamente responsável, portanto de modo a orientar a teoria a romper a polarização e a hierarquização construídas sobre o que se entende por “natureza” e “cultura”. Com esse propósito, a noção de natureza é ressignificada para emergir nas análises enquanto substância ativa, transformadora, significante e material.

O cuidado enquanto categoria feminista

Para pensar o cuidado em conjunto com a ecologia, como propomos aqui, é importante situá-lo enquanto uma categoria feminista. Isso porque, historicamente, é compreendido que “as mulheres cuidam”, tanto nos serviços domésticos, quanto nas profissões dedicadas ao cuidado. O cuidado escancara também outros marcadores sociais que devem ser considerados socialmente, como o de raça e de classe. No campo dos estudos feministas, algumas autoras têm dedicado suas reflexões ao cuidado e seus atravessamentos, como Joan Tronto (1993), Eva Feder Kittay (1995), e, mais recentemente, Annemarie Mol (2008), Maria Puig de la Bellacasa (2017), além de Donna Haraway (2016), que vêm articulando o cuidado para além da categoria humana.

Como já abordado, o cuidado aqui é tomado enquanto performado em múltiplas dimensões, que extrapolam os humanos e são forjadas nas práticas. A partir da influência de Mol (2008), também compreendemos o cuidado como uma prática que envolve uma série de objetos e artefatos, os quais articulam-se de modo dinâmico e imprevisível. Essas práticas, conforme sublinhou a autora, são crônicas, isto é, devem ser tecidas dia após dia. O cuidado, portanto, existe no próprio fazer, no cotidiano, não havendo uma anterioridade ontológica a ele, o que abarca sempre atitudes inesperadas e a criatividade (Mol, 2008).

Marcia Moraes e Ronald Arendt (2013), ao discutirem as contribuições de Mol para a Psicologia Social, entendem que a autora convoca as pesquisas em Ciências Sociais a darem uma guinada para a prática. Aqui, estamos tomando o cuidado enquanto uma prática que acontece de maneira cotidiana, produzindo engajamentos e realidades, sendo elas múltiplas, heterogêneas e atravessadas por agentes humanos e não humanos. A realidade é, portanto, feita nas práticas. Ou seja, podemos entender, de um lado, que os objetos dependem de práticas e não são, portanto, anteriores a elas e, de outro, que as práticas de cuidado são modos de manipular, manusear e, assim, multiplicar realidades. Nessa proposta epistemológica, propomos então que o clima, as pessoas – tanto adultas, quanto crianças –, a estrutura física dos espaços que a comunidade ocupa, os animais, as plantas, a terra, a energia elétrica, a água, os objetos, enfim, esses e ainda outros elementos se relacionam com o cuidado da mesma forma que o performam enquanto prática articulatória.

Compartilhamos, desse modo, da apreensão de Puig de la Bellacasa (2017), segundo a qual, ainda que o cuidado possa ser pensado como um problema humano, isso não o torna uma questão unicamente humana. Para ela, os organismos, as forças físicas e as entidades espirituais fazem parte de uma ontologia do cuidado desde uma perspectiva pós-humanista, em que todos esses agentes estão inevitavelmente articulados. Ainda, quando se refere ao cuidado enquanto categoria de pesquisa, a autora sugere que o posicionemos enquanto central na análise, uma vez que o entende enquanto onipresente, mesmo pelos efeitos de sua ausência. Ao situar o cuidado no centro, deve-se levar em consideração suas relacionalidades, seus engajamentos e vínculos. Ou seja, com o que o cuidado se relaciona? Até onde ele alcança?

As relacionalidades do cuidado, para Donna Haraway (2016), podem ser entendidas enquanto kin, ou seja, parentescos. Quando a autora traz a proposta do “pensamento tentacular” (tentacular thinking), indica que devemos olhar para os braços, ou seja, para os tentáculos que o fenômeno analisado alcança. Pode-se relacionar essa ideia com a proposta de Puig de la Bellacasa (2017), a qual sugere que, ao situar o cuidado enquanto centro da análise, é possível compreender quais materialidades conectam-se, de modo interdependente, fazendo o cuidado ser possível. Ainda, Haraway (2016) entende que o cuidado tem o potencial de reorganizar as relações humano-não-humanas em direção a formas não exploratórias de coexistência. A autora também se ocupa das práticas, apostando na ideia de “conexões inventivas” (inventive connection) para viver e morrer bem com os outros em nosso presente. Por isso, Haraway (2016) aparece aqui enquanto uma autora que também compreende o cuidado enquanto prática, pensando suas articulações, redes, relações e coexistência, o que contribui para trilharmos o caminho da proposta epistemológica de “ecologia do cuidado” – ou seja, uma proposta de compreender o cuidado no centro, a partir de seus tentáculos, de modo interdependente.

Haraway (2016) entende que a ecologia está inspirada por uma ética feminista de responsabilidade das diferenças entre as espécies que se misturam pelo afeto, pelo enredo, pela ruptura. Ela chama essa lógica de teoria da “relacionalidade ecológica” (ecological relationality), fazendo referência a Carla Hustak e Natasha Myers (2012) em seus estudos sobre as ecologias afetivas com os encontros dos insetos e plantas, nos quais consideram seriamente as práticas dos organismos, suas invenções e experimentos ao elaborar vidas e mundos interespécies. Haraway (2016) entende que os coletivos se constroem de maneira recíproca, não apenas por humanos, de modo que todos os protagonistas da vida são ecologicamente ligados uns aos outros (interdependentes).

Estamos, portanto, partindo da ideia de cuidado enquanto prática, que se faz e se produz a partir da ação, a qual é sempre relacional e envolve não apenas humanos, mas também agentes não humanos –ecologicamente ligados uns aos outros de maneira interdependente. Desde essa compreensão, podemos visualizar o cuidado enquanto centro, porém uma espécie de centro desfocado, móvel, tentacular, que, justamente por isso, ao ser analisado, se conecta com materialidades que estão ao alcance do/a pesquisador/a. Essa reflexão nos leva ao seguinte ponto: às pistas epistemológicas e/ou metodológicas para tomar a “ecologia do cuidado” como um modo de fazer pesquisa em Psicologia Social.

Pistas para a Psicologia Social: ecologia do cuidado

O termo “ecologia do cuidado” surgiu a partir da inspiração de outros trabalhos que têm tomado a ideia de ecologia enquanto uma análise de arranjos interdependentes, como ecologia da atenção (Caliman, César, & Kastrup, 2020) e ecologia da cultura (Burø, 2020), em conjunto com conceitos teóricos que contribuíram para as reflexões, como ecologia das práticas (Stengers, 2005), ecologia política (Latour, 2004) e cuidado ecológico (Puig de la Bellacasa, 2017), além do debate a respeito de ecologia e cuidado anteriormente mencionado. Entendemos que o termo não surge no presente trabalho, mas ganha nele uma análise situada em diálogo com os feminismos materialistas e neomaterialistas, possibilitando que se converta em uma pista epistemológica para os estudos sobre o cuidado. Nesse sentido, a partir de uma perspectiva feminista, situada no campo da Psicologia Social, aposta-se em uma proposta que leve em conta a agência de atores humanos e não humanos que, em relação, fazem o cuidado ser possível em contextos específicos, sempre atravessados por imprevisibilidades.

É importante diferenciar e localizar de qual conceito de ecologia estamos partindo. Como apresentado, existem teorias ecológicas que partem de uma perspectiva que busca separar a pessoa do ambiente, e, mesmo que se perceba suas inter-relações e reciprocidades, a análise sempre é feita com uma lógica bidirecional. Nessa análise, a concepção de sujeito – ponto teórico fundamental no campo da Psicologia Social – assume uma importância para a reflexão teórico-metodológica. As teorias anteriormente citadas (Barker, 1968; Bronfenbrenner, 1996) partem de uma ideia de indivíduo que está em relação com o ambiente, ou seja, o ambiente continua existindo, independentemente da existência do ser humano. Portanto, esse ambiente é “fixo” – a escola, a família, a igreja, por exemplo. Porém, esses “lugares”, sem as pessoas, seriam lugares? Compreendemos que não existiria essa “separação”, uma vez que o ambiente se refaz na ausência de pessoas, assim como os componentes materiais – actantes – refazem o que se entende por “humano”.

O caminho que parece ser possível para pensar a proposta de “ecologia do cuidado” seria a partir da costura entre as teorias do cuidado, as teorias feministas e as teorias materialistas, tomando o cuidado enquanto uma prática relacional que envolve a agência de humanos e não humanos a fim de provocar o campo acadêmico da Psicologia Social. Sugerimos que se constitua enquanto uma estratégia possível para embaralhar fronteiras e enxergar alianças que, a priori, pareciam impensáveis, de forma que possamos dialogar com teorias contemporâneas e propor novos mundos.

Tomar a “ecologia do cuidado” enquanto uma pista/proposta epistemológica e/ou metodológica é uma forma de analisar o cuidado de modo que não se separe o “contexto” de sua prática, voltando-se para os engajamentos nas práticas do cuidar. Nessa perspectiva, não existe a pretensão de polarizar “ambiente” versus “pessoa”, mas pensar que ambos se constroem a partir da prática cotidiana e relacional do cuidado. Portanto, “ecologia do cuidado” significaria compreender o cuidado enquanto prática interdependente, em que todos os agentes estão atuando, sejam eles humanos ou não, enquanto modificam e constroem o mundo.

Por isso, enquanto pista metodológica e epistemológica, observar o que nos circunda, quais são os objetos, como eles foram feitos, que história eles carregam, como eles atuam, o que eles nos despertam, como os movemos, como os modificamos, como eles nos modificam, como eles nos movem, como, em conjunto, cuidamos e somos cuidados, faz parte da proposta de “ecologia do cuidado”. Como sugere Haraway (2016), é necessário ter um olhar profundo sobre “o aqui e o agora” com o que temos. A partir do olhar para a realidade material, é possível pensar em mundos possíveis, com diferentes práticas de trabalho e diferentes habilidades disciplinares. Ou seja, só é possível “criar mundos” à medida que estamos verdadeiramente atentas/os ao presente, sem idealizar, tampouco romantizar as práticas, mas pensando que elas estão em constante movimento, uma vez nunca estão “dadas” de modo supostamente “perfeito”. O presente está sempre em transformação.

Enquanto postura ética do fazer pesquisa, é necessário olhar ao nosso redor. Presenciar as cenas ao longo do percurso, vivenciando, de fato, os acontecimentos, possibilita construir uma análise de possibilidades. Como podemos enxergar o cuidado não o centralizando em uma figura materna? Como cuidar a partir de outras estratégias que não seja, apenas, a centrada numa família nuclear? Como considerar as práticas de cuidado para além das relações humanas? Como as materialidades estão atuando para o cuidado ser possível? Como, em uma pesquisa feminista, podemos olhar para o cuidado de maneira a descentralizar o lugar da maternidade, da mulher e, ainda, do sujeito humano?

A proposição ontológica fundamental da ecologia, além de pensar que o individual está embutido em seu ambiente, é “eliminar” a ideia de individual. Apenas a partir da investigação – tal como uma etnografia – que envolve a vivência, a experiência, pode-se revelar essas conexões. Ou seja, a proposta aqui, mais do que mostrar pontos de “conexão” entre o “organismo” e o “ambiente”, é enxergá-los como entrelaçados. E só seria possível dar visibilidade a essas relações interdependentes a partir de uma experiência profunda, inteira e verdadeiramente presente nas cenas que se busca analisar.

Pensar sobre o agenciamento das ecologias possibilita que o enxerguemos, de fato, enquanto uma dinâmica complexa que se modifica, se transforma, produz sujeitos, produz materialidades, produz cuidado. Nesse “sistema”, ou em arranjos conectados, nem tudo que acontece é conforme o esperado, portanto a complexidade, o caos e a imprevisibilidade são inerentes à ecologia. A ecologia fala também de criar possibilidades de agir conforme aquilo que não se conhece, as flutuações, a criatividade. Compreendemos a ecologia enquanto fundamentalmente imprevisível.

A partir dessas diferentes reflexões, como poderíamos conceituar o cuidado em uma lógica da “ecologia do cuidado”? Cuidado é, portanto, uma atividade/prática constante e cotidiana que inclui tudo que fazemos para manter, continuar e reparar nosso mundo para que possamos viver nele tão bem quanto possível (Tronto & Fisher , 1990). Esse “nosso mundo” inclui os agentes humanos e não humanos, de maneira a estarem entrelaçados nessa complexa rede de interdependências, em uma ecologia (Puig de la Bellacasa, 2017). Essa contribuição dialoga com a proposição de “bem viver” de Ailton Krenak (2020), o qual, a partir de sua perspectiva decolonial e indígena, compreende que todos os seres vivos, incluindo os humanos, estão dentro de uma ecologia planetária, não havendo alguém que age de fora. Portanto, não são os humanos que “cuidam” da “natureza”, mas aquilo que é entendido enquanto natureza atua também cuidando enquanto em uma “dança cósmica” (Krenak, 2020) em que há trocas e uma busca constante por um estado de equilíbrio. Ainda, o cuidado também é “tornar-se-com” (becoming-with) (Haraway, 2016). Ou seja, a partir do cuidado, tomando-o enquanto um processo sempre inacabado, é possível reinventar-se, tornar-se outro, criar, imaginar, sendo a imprevisibilidade constituinte dessa prática, carregando consigo uma agência de transformação.

Também como conceito atravessador dessa lógica, em diálogo com Haraway (2016), temos as “conexões inventivas” e o “faça parentes” (make kin). Pensar a ecologia do cuidado significa olhar para quais kin estamos escolhendo enquanto pesquisadoras/es. Ou seja, quais invenções conectivas estamos articulando com o ponto central da análise, nesse caso, com o cuidado? O/a pesquisador/a, de fato, faz escolhas, nunca é possível olhar para tudo o tempo todo. Dialogar a partir da lógica da “ecologia” possibilita mostrar que essas escolhas estão sempre conectadas, e que, ao traçar um “agente” ou um “actante”, se está falando com muitos outros que estão ali, entrelaçando-se. E, quando cuidamos, o mesmo acontece. É necessário vincular-se àquilo que está a nosso alcance, pois dar conta de “tudo” é uma impossibilidade que pode ser frustrante.

Deleuze e Guattari (2010) já propunham a ideia de rizoma como uma forma de enxergar de maneira conectiva para além da figura hierárquica de uma árvore, assim como sugere Stengers (2017, p. 2). A ideia de rizoma conecta “práticas, preocupações e modos heterogêneos de dar sentido aos habitantes da Terra, sem que nenhum deles fosse privilegiado e todos fossem passíveis de se conectar uns com os outros”. Para Stengers (2017), o rizoma é uma figura de anarquia ecológica, uma vez que ele é composto por conexões, acontecimentos e ligações que podem ser produzidas em qualquer parte de um rizoma.

Haraway (2016), ao propor a ideia de tentáculos, traz algo parecido. Porém, os tentáculos, ao contrário do rizoma, pressupõem um centro, que faz inúmeras conexões. Podemos pensar que esse “centro” não seria um objeto ou uma categoria humana específica, mas sim um centro analítico. Quando falamos em “ecologia do cuidado”, estamos tomando o cuidado como centro analítico, que se conecta de maneira “anárquica” a diferentes materialidades, formando, assim, a ecologia. Com essa estratégia epistemológica e/ou metodológica, torna-se possível descentralizar o sujeito da análise, enquanto todos os agentes/actantes atuam simultaneamente.

Considerações finais

Este artigo objetivou propor pistas para as pesquisas feministas e em Psicologia Social, de modo a descentralizar o ser humano da análise. Para isso, foi proposta a discussão acerca da “ecologia do cuidado”, que de modo tentacular conecta os diferentes agentes/actantes de uma cena em um campo de pesquisa, de modo relacional e interdependente. Portanto, em uma pesquisa, a ação humana terá a mesma força que um objeto, que os componentes da terra, que as condições meteorológicas, que o lixo acumulado, entre diversos outros elementos situados no contexto/ambiente do/a pesquisador/a.

Essa tensão não é apenas do campo da Psicologia Social, mas atravessa/é atravessada, também por um debate interdisciplinar, especialmente quando nos referimos à produção da ciência feminista. Se, nos estudos em cuidado, as categorias de gênero e de “mulher” sempre foram tomadas em foco, aqui a proposta é de tomar o “cuidado” enquanto centro da análise para, a partir dele, criar braços, ou, ainda, tentáculos interdependentes, que se conectam, o que contribui para que, quando falarmos em “cuidado”, não o associemos, direta e linearmente, à maternidade ou às mulheres. Isso não significa dizer que “ser mulher” não seja se sobrecarregar cotidianamente com as tarefas do cuidado, muito pelo contrário. Porém, devemos perceber que, enquanto cientistas, estamos produzindo mundos, portanto, mais do que afirmar que “as mulheres cuidam”, nos parece mais interessante propor “que mundo queremos em relação ao cuidado”. Desse modo, dialogamos com Haraway (2016) e Puig de la Bellacasa (2017) e suas apostas na especulação e na invenção. A pesquisa feminista e/ou social não deve apenas centrar-se em dados e afirmações numéricas, mas também ser agente de transformação.

Como já discutido, para tomar a “ecologia do cuidado” enquanto pista epistemológica e metodológica de pesquisa devemos enxergá-la como uma ferramenta a acompanhar processos, mais do que a explicá-los. Ou seja, essa estratégia propõe esmiuçar, adentrar elementos que estão surgindo no campo da Psicologia Social, levando em conta, portanto, a interdependência entre agentes humanos e não humanos e os engajamentos criativos estabelecidos nessas relações nas práticas que performam o cuidado. Investigar como eles atuam no cotidiano e como são tomados por imprevisibilidades é a maneira que apostamos para analisar o cuidado de maneira ética, feminista e social.

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1Referência da tese que será inserida posteriormente. A segunda autora foi a orientadora do trabalho.

2 Para Latour ( 2004 , 2005 ), a palavra “ator” limita-se a humanos, por isso sugere a utilização do termo “actante” para incluir os não humanos na definição da agência.

Como citar: Dell’Aglio, D. D., & Machado, P. S. (2025). Ecologia do Cuidado: Pistas para pesquisas em Psicologia Social. Psicologia: Ciência e Profissão , 45 , 1-11. https://doi.org/10.1590/1982-3703003275228

How to cite: Dell’Aglio, D. D., & Machado, P. S. (2025). Ecology of Care: Clues for research in Social Psychology. Psicologia: Ciência e Profissão , 45 , 1-11. https://doi.org/10.1590/1982-3703003275228

Cómo citar: Dell’Aglio, D. D., & Machado, P. S. (2025). Ecología del Cuidado: Pistas para la investigación en Psicología Social. Psicologia: Ciência e Profissão , 45 , 1-11. https://doi.org/10.1590/1982-3703003275228

Recebido: 29 de Maio de 2023; Aceito: 29 de Janeiro de 2024

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