A população transgênero consiste em pessoas que não se identificam com o gênero que lhes foi designado ao nascer (Coleman et al., 2012), compreendendo identidades masculinas, femininas e outras para além dessa dicotomia, como pessoas não binárias, e ainda outras específicas a determinadas localidades, como as travestis, identidade feminina muito presente no Brasil. De acordo com a Associação Mundial Profissional para a Saúde Transgênero (WPATH, 2017), há uma grande variabilidade de identidades de gênero dispostas em um espectro, não se limitando apenas ao masculino e ao feminino. A partir da perspectiva de estudos transgênero (Haefele-Thomas, 2019; Nagoshi, Nagoshi & Brzuzy, 2014; Stryker & Whittle, 2006), a identidade de gênero envolve uma combinação de aspectos biológicos e culturais, não sendo essencialmente biológica ou apenas construída socialmente, mas sim elaborada pelo próprio indivíduo a partir de suas experiências e vivências de gênero. Ou seja, está relacionada a como interpretamos e internalizamos as diferentes formas de masculinidade e feminilidade, a fim de montarmos nossa versão do que é ser homem ou ser mulher, podendo incorporar elementos de ambos ou rejeitá-los completamente.
No Brasil, a população trans é alvo frequente de violências (Benevides & Nogueira, 2020; Bonassi, Amaral, Toneli, & Queiroz, 2015), o que o tornou o país com maior número de assassinatos de indivíduos desse grupo, de acordo com relatório realizado pela Trans Europe no ano de 2015 (Balzer, LaGata & Berredo, 2016). Pessoas trans no Brasil enfrentam, para além de violência física, situações de preconceito e dificuldade de acesso a serviços de saúde e educação (Associação Brasileira de Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis, Transsexuais e Intersexos [ABGLT], 2016; Costa et al., 2018; Souza, Malvasi, Signorelli, & Pereira, 2015). O conjunto de eventos estressantes vivenciados por essa população acaba por impactar diretamente em sua saúde física e mental, conforme dados da literatura nacional (Fontanari, 2019; Zucchi, Barros, Redoschi, Deus, & Veras, 2019) e internacional (Reisner et al., 2016), que revelam altos índices de depressão, ansiedade e suicídio (Budge, Adelson, & Howard, 2013; McNeil, Elis, & Eccles, 2017).
Contudo, apesar de haver literatura fundamentando o caráter de vulnerabilidade da população trans, não se encontram muitos estudos nacionais voltados a construtos que possam auxiliar no atendimento desse público ou embasar intervenções focadas em prevenção. As pesquisas nacionais existentes, como os trabalhos de Costa et al. (2018), Chinazzo et al. (2021) e Goulart e Nardi (2022), têm enfoque centralizado no adoecimento mental e suas causas, havendo pouco investimento em investigar aspectos protetivos nessa população, que possam ser potencializados a fim de mitigar os efeitos do preconceito e da violência sistêmica. Uma das diversas áreas da psicologia que pode contribuir para esse debate é o campo da psicologia positiva, voltado ao estudo do bem-estar e promoção de saúde nos mais variados contextos.
O movimento da psicologia positiva, nomeado por Martin Seligman e Mihaly Csikszentmihalyi na virada do milênio, foca na investigação do bem-estar e na promoção de saúde, e atualmente passa por expansão significativa desde sua criação, com número e qualidade de publicações equivalentes a áreas estabelecidas há muito mais tempo (Rusk & Waters, 2013). A possibilidade de investigar indivíduos, grupos e instituições fora do contexto de adoecimento abriu um grande leque de possibilidades para pesquisadores dentro da psicologia, tendo a psicologia positiva uma grande variedade de temáticas e construtos investigados, como resiliência, emoções e afetos positivos e sentido de vida. Em especial, tendências recentes dentro do campo buscam diversificá-lo ainda mais, incorporando novos delineamentos de pesquisa, estudos multidisciplinares e populações marginalizadas fora do eixo WEIRD (Western, Educated, Industrialized, Rich, Democratic - ocidentais, de alta escolaridade, industrializados, ricos e democráticos). Entre os diferentes grupos e variáveis investigados pela psicologia positiva, este estudo dará destaque a três conceitos dentro de uma população específica: a esperança, o otimismo e o coping, e suas relações com a saúde mental da população transgênero brasileira.
Apesar de possuírem definições bastante similares no senso comum e de ambos terem origem na teoria expectativa-valor (Scheier & Carver, 1985), o otimismo e a esperança constituem construtos distintos. Sobre o otimismo, Scheier e Carver (2016) propõem que ser otimista significa ter expectativas positivas e confiança em relação ao futuro, sendo tal característica não só consistente ao longo do tempo, mas também aplicável em diversas situações. Por estar diretamente relacionado às expectativas referentes ao futuro, o otimismo está ligado à motivação e à saúde mental dos indivíduos, inclusive frente às situações estressantes, como demonstraram os estudos de Carbone e Echols (2017) e Vos, Habibović, Nyklíček, Smeets e Mertens (2021). A esperança, a partir da perspectiva de Charles Snyder (2000), também se relaciona com as expectativas sobre o futuro, porém é considerada pelo autor como um processo, contemplando dois aspectos principais: motivação rumo a determinado objetivo e capacidade de pensar diferentes formas de atingi-lo, mesmo havendo obstáculos. Ou seja, a esperança é a “soma da nossa força mental para atingir metas (willpower) e nossa capacidade de encontrar e planejar rotas em direção à mesma (waypower)” (Snyder, 2000, p. 5). Ressalta-se aqui uma diferença importante entre o otimismo e a esperança, que é o papel ativo do indivíduo na conceituação proposta por Snyder (2000), em comparação ao otimismo de Scheier e Carver (1985), que envolve apenas expectativas positivas, sem necessariamente uma ação por parte do sujeito. A esperança também esteve relacionada a desfechos positivos na saúde mental de indivíduos que vivenciaram experiências traumáticas e/ou estressantes, como demonstrou a meta-análise realizada por Gallagher, Long e Phillips (2020).
As expectativas em relação ao futuro são fatores importantes na manutenção da motivação e saúde mental, como já mencionado, porém a forma como o indivíduo reage e enfrenta situações estressantes, o coping, também está diretamente ligado ao aparecimento de quadros de depressão, ansiedade e estresse. A partir da teoria transacional de Lazarus e Folkman (1984), o coping refere-se às diferentes estratégias escolhidas pelo sujeito para lidar com eventos que excedam o que ele é capaz de suportar. Tais estratégias podem focar tanto na situação em si como nas emoções eliciadas por ela, estando diferentes táticas relacionadas com diferentes resultados em relação a indicadores de saúde física e mental (Penley, Tomaka, & Wiebe, 2002). A relação entre o coping e os conceitos de otimismo e esperança já foi explorada por outros autores (Folkman, 2010; Nes & Segerstrom, 2006) e demonstrou ter papel importante em populações que estão sujeitas a vivências estressantes, (Gallagher et al, 2020; Penley et al., 2002). Pessoas transgênero estão submetidas a situações frequentes de violência (Rigolon, Carlos, Oliveira, & Salim, 2020), ocasionando estresse típico de populações minoritárias (Fontanari, 2019), o que demonstra a importância do estudo de variáveis protetivas como a esperança, o otimismo e estratégias de coping (Gallagher, Long & Phillips, 2020; Lucas, Chang, Lee, & Hirsch, 2020; Penley et al., 2002).
A partir disso, o presente estudo buscou investigar a relação da esperança, do otimismo e das estratégias de coping com a saúde mental de pessoas transgênero brasileiras, especificamente em relação aos indicadores de depressão, ansiedade e estresse. Além disso, buscou-se investigar aspectos sociodemográficos, como idade, raça, orientação sexual, identidade de gênero e religião, e suas relações com as demais variáveis.
Método
Delineamento e procedimentos
Estudo de caráter exploratório, com utilização de método quantitativo de levantamento (Creswell, 2010) e coleta transversal. A amostra configura-se como não probabilística, sendo os participantes recrutados por conveniência. A coleta de dados foi realizada online, por meio de questionários que buscavam investigar dados demográficos, níveis de esperança e otimismo, estratégias de enfrentamento de estresse (coping) e índices de adoecimento mental. Os participantes foram recrutados por e-mails encaminhados a diferentes instituições de ensino superior, postagens em grupos voltados à população trans na rede social Facebook, postagem na rede social Twitter e postagem impulsionada na rede social Instagram. A postagem impulsionada foi direcionada a usuários da plataforma que fossem brasileiros, maiores de 18 anos e que tivessem interesses relacionados à população LGBT e a estudos de gênero. Optou-se pela utilização desses filtros devido à impossibilidade de lançar anúncios diretamente para membros da população LGBT. O termo de consentimento livre e esclarecido (TCLE) foi apresentado a todos os participantes da pesquisa para leitura sobre os procedimentos de coleta de dados e formas de contato dos pesquisadores. A pesquisa foi submetida à apreciação e aprovada pelo Comitê de Ética em Pesquisa do Instituto de Psicologia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul.
Participantes
Participaram do estudo 267 pessoas que se identificam como transgêneros/transsexuais, nasceram e residem no Brasil e têm mais de 18 anos, sendo esses os critérios de inclusão na pesquisa. Como critérios de exclusão, não seriam considerados os participantes que não concordassem com os termos do estudo e os que tivessem respostas incompletas.
Instrumentos
Os seguintes instrumentos foram utilizados para a coleta de dados deste estudo: Questionário Sociodemográfico, Teste para Avaliar Otimismo (Bastianello, Pacico & Hutz, 2014), Escala de Esperança Disposicional (Hutz, 2014), Escala Modo de Enfrentamento de Problemas (Seidl, Tróccoli, & Zannon, 2001) e, por fim, o Questionário DASS-21 (Vignola & Tucci, 2014).
O Questionário Sociodemográfico foi elaborado pelos autores e seu objetivo era indicar determinadas características dos participantes deste estudo, sendo parcialmente inspirado pela pesquisa “Trans Youth CAN!”, estudo longitudinal realizado no Canadá com a população trans infantojuvenil (Trans Youth CAN!, 2018). Os tópicos abordados no questionário utilizado nesta pesquisa são: idade, identidade de gênero, orientação sexual, raça, renda, escolaridade, situação de moradia, rede de apoio e religião/espiritualidade.
O Teste para Avaliar Otimismo, ou Life Orientation Test - Revised (LOT-R), foi elaborado originalmente por Scheier, Carver e Bridges (1994) para a avaliação do otimismo disposicional, sendo traduzido, adaptado e validado posteriormente para a população brasileira por Bastianello et al. (2014). A escala é composta por dez itens em forma de afirmações, sendo três para otimismo, três para pessimismo e quatro itens-filtro, cujas repostas devem ser fornecidas por meio de escala tipo Likert, variando de 1 (discordo totalmente) a 5 (concordo totalmente). No estudo de validação realizado por Bastianello et al. em 2014, a LOT-R demonstrou consistência interna de α=0,80, estando dentro dos limites adequados para sua utilização. Exemplos de itens incluem: “Diante de dificuldades, acho que tudo vai dar certo” e “Eu não espero que coisas boas aconteçam comigo”.
O instrumento utilizado para avaliação da esperança disposicional é a Escala de Esperança Disposicional, ou Adult Dispositional Hope Scale (ADHS), seu título original em inglês. A escala foi elaborada por Snyder et al. (1991), a partir do modelo teórico para esperança proposto pelos autores, e conta com 12 itens ao total, distribuídos entre tópicos sobre agenciamento, rotas e itens-filtro. O participante deve responder as afirmações a partir de escala do tipo Likert de cinco pontos, com respostas variando entre 1 (totalmente falsa) e 5 (totalmente verdadeira). A versão traduzida, adaptada e validada para o português brasileiro utilizada foi elaborada por Pacico e Bastianello (2014), e demonstrou consistência interna de α=0,79, sendo, portanto, apropriada para uso em pesquisa. Exemplos de itens incluem: “Eu atinjo os objetivos que estabeleço para mim” e “Eu me esforço para atingir meus objetivos”.
A fim de analisar as estratégias de coping dos participantes, optou-se pela utilização da Escala Modo de Enfrentamento de Problemas (EMEP), instrumento composto por 45 itens distribuídos em quatro fatores: busca de suporte social; práticas religiosas/pensamento fantasioso; estratégias de enfrentamento focadas no problema; e estratégias de enfrentamento focadas na emoção (Seidl et al., 2001). A partir de uma situação específica delimitada no cabeçalho do instrumento, o participante deve responder aos itens a partir de escala tipo Likert de cinco pontos, variando entre 1 (“Eu nunca faço isso”) e 5 (“Eu faço isso sempre”). Caso alguma forma de enfrentamento não tenha sido contemplada por meio dos itens da escala, há a possibilidade de o participante complementar sua resposta por escrito ao final do instrumento. A EMEP origina-se de versão revisada por Vitaliano, Russo, Carr, Maiuro e Becker (1985) da Escala Ways of Coping Checklist (Folkman & Lazarus, 1980), e foi traduzida e adaptada por Gimenes e Queiroz (1997) e validada por Seidl et al. (2001) para uso na população brasileira. As consistências internas (alfas de Cronbach) encontradas para cada um dos quatro fatores foram 0,70 (busca de suporte social), 0,74 (práticas religiosas/pensamento fantasioso), 0,84 (focalização no problema) e 0,81 (focalização na emoção), valores considerados apropriados para seu uso em pesquisa. Exemplos de itens incluem: “Eu levo em conta o lado positivo das coisas” e “Espero que um milagre aconteça”.
De forma a obter um mapeamento de saúde mental breve, optou-se pela aplicação da escala Depression Anxiety Stress Scale (DASS-21). O questionário é utilizado para identificar sintomas relacionados à ansiedade, depressão e estresse, e possui 21 itens relativos a possíveis sintomas percebidos pelo respondente durante a última semana. Cada afirmação deve ser respondida utilizando uma escala do tipo Likert que varia de 0 (“não se aplica de maneira alguma”) a 3 (“aplicou-se muito, ou na maioria do tempo”). A DASS-21 foi validada e adaptada para a população brasileira por Vignola e Tucci (2014) a partir do original elaborado por Lovibond e Lovibond (1995), sendo as consistências internas para as subescalas de depressão, ansiedade e estresse: 0,92, 0,90 e 0,86, respectivamente. Exemplos de itens incluem: “Achei difícil me acalmar” e “Senti que não tinha valor como pessoa”.
Análises
Os dados foram compilados a partir de arquivo gerado pela plataforma Google Forms, sendo organizados e preparados para análise por meio do software de análise estatística Jamovi. As análises quantitativas foram realizadas em parceria com o Núcleo de Assessoria Estatística da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, a partir da linguagem de programação R. Foram realizadas análises descritivas das variáveis de interesse e sociodemográficas, com elaboração de histogramas e gráficos de dispersão e do tipo box plot para melhor visualização dos dados e das distribuições. Para além da análise descritiva, também foram realizados testes de Kruskal-Wallis, para avaliar o efeito da etapa do ciclo vital, identidade de gênero e raça nas demais variáveis, bem como testes de correlação de Spearman. Foi necessário o uso de testes não paramétricos devido à grande assimetria das distribuições, o que também impossibilitou análises mais aprofundadas.
Resultados
Ao total, participaram do estudo 267 pessoas transgênero brasileiras, 228 compondo a amostra final após a aplicação de critérios de inclusão e exclusão. Acerca das exclusões, 29 submeteram questionários incompletos, cinco participantes não concordaram com os termos estabelecidos pelo TCLE e outros cinco respondentes não se identificavam como pessoas transgênero. As identidades de gênero foram descritas pelos próprios participantes e agruparam-se da seguinte forma: 43,4% das identidades alinhadas à masculinidade (homem trans, transmasculino, homem andrógino), 33,3% identificadas com a não binariedade (não binário, agênero, gênero fluido, queer), 18,4% alinhadas à feminilidade (mulher trans, mulher demigênero-fluido, feminina) e 4,8% identificaram-se como travestis, identidade feminina própria à América Latina. Em relação à orientação sexual, a maior dos participantes se declarou bissexual/pansexual (45,6%), seguida de heterossexual (19,7%), assexual (11,4%), lésbica/sáfica (10,5%), gay (5,7%), sem rótulo/não soube definir (3,9%), queer (1,3%), homossexual (0,9%) e fluida (0,9%).
As idades dos participantes variaram entre 18 e 64 anos, com média de 24,8 e mediana em 22 anos, indicando grande assimetria dos dados quanto à faixa etária. Na amostra, 65,4% encontra-se na faixa da adultez jovem (20 a 40 anos), 28,1% na adolescência (18 e 19 anos) e apenas 6,6% na meia-idade e adultez tardia (40 anos ou mais), estando tais faixas baseadas em Papalia e Feldman (2013). Ainda, 66,2% dos participantes se autodeclaram brancos, 89% indicaram não possuir nenhuma deficiência, 47,8% possuem renda de até 2 salários-mínimos, 76,3% residem em moradia estável e 39,9% têm ensino superior incompleto. Sobre a rede de apoio, 64,9% da amostra indicou possuir ao menos três fontes de apoio presentes em suas vidas, as quais podiam ser pais/mães, padrastos/madrastas, avôs/avós, tios/tias, irmãos, primos, amigos e/ou animais de estimação. Por fim, 14,5% dos respondentes indicaram não possuir apoio de nenhum familiar, apenas de amigos ou animais de estimação.
Os participantes também foram questionados acerca de suas práticas religiosas e/ou espirituais, tanto de forma aberta quanto por meio de escala indicativa de frequência de práticas. Assim, 48,3% da amostra indicou não possuir religião/prática espiritual ou ser ateu/agnóstico, estando os demais participantes divididos entre religiões de matriz africana (10,5%), paganismo e bruxaria (9,6%), cristãos (9,2%), espiritualidade própria/não-afiliados (8,8%), espiritismo e espiritualismo (5,7%), ocultismo (3,5%), budismo (1,3%), universalismo (1,3%), judaísmo (0,9%), deísmo (0,4%) e hinduísmo (0,4%). A frequência indicada pelos participantes para práticas espirituais corrobora com os achados qualitativos: com escala variando de 1 (não praticante) a 5 (prática diária), a média encontrada para a amostra foi de 2,19 (desvio-padrão da média=1,44).
Para as análises a seguir, foram utilizados os softwares de acesso aberto Jamovi e R Studio, em conjunto com a linguagem de programação R. A Tabela 1 apresenta os índices encontrados para as principais variáveis abordadas no estudo, bem como os histogramas para cada distribuição.
Tabela 1 Médias, desvios-padrão, medianas e histogramas das variáveis agenciamento, rotas, esperança total, otimismo, pessimismo, estratégias de coping, depressão, ansiedade e estresse.
Para as variáveis esperança e seus elementos (rotas e agenciamento), assim como o otimismo e pessimismo, quase todas apresentaram escores médios em relação à amostra normativa (Bastianello & Pacico, 2014; Bastianello et al., 2014), à exceção da variável rotas, com escores mais elevados. Em relação ao coping, as estratégias mais utilizadas, em ordem decrescente, foram o coping focado no problema, coping focado na emoção, coping por suporte social e coping religioso. Quanto às variáveis de rastreio para adoecimento mental, depressão e estresse obtiveram as maiores medianas, seguidos de ansiedade.
A fim de identificar o impacto da etapa do ciclo vital, identidade de gênero e raça nas variáveis esperança, otimismo, pessimismo, estratégias de coping, depressão, estresse e ansiedade, foi proposto teste de análise de variância. No entanto, a disparidade de indivíduos em cada estrato, bem como a grande assimetria dos dados, impossibilitou a realização de testes paramétricos e análises mais robustas. Por se tratar, então, de amostra não paramétrica, foi utilizado o teste H de Kruskal-Wallis, cujos resultados foram indicados na Tabela 2, separados por variável de agrupamento. A etapa do desenvolvimento demonstrou diferença significativa para os construtos pessimismo, agenciamento, rotas, esperança total, depressão, ansiedade, estresse, coping focado no problema e coping focado na emoção. Já a identidade de gênero indicou diferença significativa em estresse e coping focado na emoção, enquanto raça indicou diferença apenas na variável depressão.
Tabela 2 Teste de Kruskal-Wallis, a partir das variáveis etapa do desenvolvimento, identidade de gênero e raça.
| Variável | Etapa do desenvolvimento | Identidade de gênero | Raça | |||
|---|---|---|---|---|---|---|
| T | p | T | p | T | p | |
| Otimismo | 5,592 | 0,061 | 1,608 | 0,658 | 1,747 | 0,782 |
| Pessimismo | 7,957 | 0,019* | 2,457 | 0,483 | 7,194 | 0,126 |
| Agenciamento (Esp.) | 17,832 | 0* | 2,811 | 0,422 | 1,658 | 0,798 |
| Rotas (Esp.) | 11,588 | 0,003** | 4,984 | 0,173 | 6,92 | 0,14 |
| Esperança total | 17,447 | 0** | 4,894 | 0,18 | 4,631 | 0,327 |
| Depressão | 6,938 | 0,031* | 4,347 | 0,226 | 10,364 | 0,035* |
| Ansiedade | 12,097 | 0,002** | 3,982 | 0,263 | 2,61 | 0,625 |
| Estresse | 10,058 | 0,007** | 9,473 | 0,024* | 8,049 | 0,09 |
| Coping focado no problema | 21,837 | 0** | 3,394 | 0,335 | 0,88 | 0,927 |
| Coping focado na emoção | 13,116 | 0,001** | 9,5 | 0,023* | 5,84 | 0,211 |
| Coping religioso | 0,303 | 0,859 | 1,224 | 0,747 | 4,379 | 0,357 |
| Busca por suporte social | 2,069 | 0,355 | 2,145 | 0,543 | 3,997 | 0,406 |
*p<0,05; **p<0,01
Para fins de comparação, os valores das medianas dos estratos cujas diferenças foram estatisticamente significativas se encontram nas Tabelas 3, 4 e 5:
Tabela 3 Médias e medianas - etapa do desenvolvimento.
| E.D. | Pessimismo | Agência | Rotas | Esperança | Depressão | Ansiedade | Estresse | C.P. | C.E. |
|---|---|---|---|---|---|---|---|---|---|
| N | |||||||||
| AJ | 149 | 149 | 149 | 149 | 149 | 149 | 149 | 149 | 149 |
| AD | 64 | 64 | 64 | 64 | 64 | 64 | 64 | 64 | 64 |
| AT | 15 | 15 | 15 | 15 | 15 | 15 | 15 | 15 | 15 |
| Média | |||||||||
| AJ | 3,07 | 3,28 | 3,79 | 3,54 | 13,3 | 12,7 | 14,2 | 3,51 | 3,40 |
| AD | 3,33 | 3,03 | 3,61 | 3,32 | 15,0 | 14,3 | 15,5 | 3,20 | 3,52 |
| AT | 2,36 | 4,03 | 4,38 | 4,21 | 10,1 | 7,87 | 11,6 | 4,04 | 2,91 |
| Mediana | |||||||||
| AJ | 3,33 | 3,25 | 4,00 | 3,63 | 15,0 | 13,0 | 15,0 | 3,56 | 3,47 |
| AD | 3,33 | 3,25 | 3,50 | 3,25 | 16,0 | 15,0 | 16,0 | 3,22 | 3,47 |
| AT | 2,00 | 4,00 | 4,50 | 4,25 | 9,00 | 7,00 | 12,0 | 4,28 | 2,80 |
| Desvio-padrão | |||||||||
| AJ | 1,21 | 0,911 | 0,945 | 0,855 | 6,15 | 6,16 | 4,58 | 0,695 | 0,589 |
| AD | 1,09 | 0,715 | 0,821 | 0,671 | 4,82 | 5,54 | 3,93 | 0,609 | 0,583 |
| AT | 1,19 | 0,700 | 0,749 | 0,687 | 6,76 | 6,19 | 4,05 | 0,608 | 0,502 |
E.D.: Etapa do desenvolvimento; AD: Adolescência; AJ: Adultez jovem; AT: Adultez tardia; C.P.: Coping focado no problema; C.E.: Coping focado na emoção.
Tabela 4 Médias e medianas - identidade de gênero.
| Identidade de Gênero | Estresse | C.E. |
|---|---|---|
| N | ||
| NB | 76 | 76 |
| TM | 99 | 99 |
| TF | 42 | 42 |
| Travesti | 11 | 11 |
| Média | ||
| NB | 14,6 | 3,31 |
| TM | 14,9 | 3,53 |
| TF | 12,7 | 3,23 |
| Travesti | 14,5 | 3,51 |
| Mediana | ||
| NB | 15,0 | 3,33 |
| TM | 16,0 | 3,53 |
| TF | 12,0 | 3,23 |
| Travesti | 15,0 | 3,60 |
| Desvio-padrão | ||
| NB | 4,20 | 0,562 |
| TM | 4,64 | 0,609 |
| TF | 4,49 | 0,589 |
| Travesti | 3,08 | 0,539 |
NB: Não binária; TM: Transmasculina; TF: Transfeminina; C.E.: Coping focado na emoção.
Tabela 5 Médias e medianas - raça.
| Raça | Depressão |
|---|---|
| N | |
| Amarelo | 3 |
| Branco | 151 |
| Indígena | 2 |
| Pardo | 50 |
| Preto | 22 |
| Média | |
| Amarelo | 8,33 |
| Branco | 13,0 |
| Indígena | 12,0 |
| Pardo | 15,6 |
| Preto | 13,7 |
| Mediana | |
| Amarelo | 9,00 |
| Branco | 14,0 |
| Indígena | 12,0 |
| Pardo | 17,0 |
| Preto | 16,0 |
| Desvio-padrão | |
| Amarelo | 6,03 |
| Branco | 5,89 |
| Indígena | 12,7 |
| Pardo | 5,20 |
| Preto | 6,56 |
A etapa do desenvolvimento apresentou diferença significativa nas variáveis: pessimismo, esperança total, rotas, agenciamento, depressão, ansiedade, estresse, coping focado no problema e coping focado na emoção. A partir da análise das medianas, percebe-se que pessoas na fase adultez tardia (acima de 40 anos) têm menores índices de pessimismo, depressão, ansiedade, estresse e coping focado nas emoções. Adultos nessa fase também demonstraram maiores índices de esperança total, rotas, agenciamento e coping focado no problema. Identidade de gênero demonstrou diferença significativa nas variáveis estresse e coping focado na emoção, com as identidades transfemininas apresentando os menores índices em ambos, transmasculinos os maiores em estresse, e travestis os maiores em coping focado na emoção. Raça apresentou diferença significativa apenas na variável depressão, tendo o grupo de participantes pardos os maiores escores e o grupo de participantes amarelos os menores.
Por fim, foram realizadas correlações utilizando o coeficiente tau de Kendall, a fim de investigar possíveis relações entre as variáveis estudadas. A Tabela 6 ilustra as correlações encontradas pelas análises.
Tabela 6 Matriz de correlações entre as variáveis: idade, otimismo, pessimismo, agenciamento, rotas, esperança total, estratégias de coping, depressão, ansiedade e estresse.
| Idade | Ot. | Pess. | Ag. | R. | Esp. | C.P. | C.E. | C.S. | C.R. | Dep. | Ans. | |
|---|---|---|---|---|---|---|---|---|---|---|---|---|
| Ot. | 0,149** | - | - | - | - | - | - | - | - | - | - | - |
| Pess. | -0,181* | -0,570* | - | - | - | - | - | - | - | - | - | - |
| Ag. | 0,203* | 0,422* | -0,320* | - | - | - | - | - | - | - | - | - |
| R. | 0,169* | 0,411* | -0,301* | 0,514* | - | - | - | - | - | - | - | - |
| Esp. | 0,201* | 0,457* | -0,337* | 0,775* | 0,784* | - | - | - | - | - | - | - |
| C.P. | 0,225* | 0,491* | -0,376* | 0,527* | 0,536* | 0,584* | - | - | - | - | - | - |
| C.E. | -0,140** | -0,276* | 0,339* | -0,258* | -0,245* | -0,268* | -0,241* | - | - | - | - | - |
| C.R. | 0,030 | 0,065 | -0,022 | 0,003 | -0,028 | -0,013 | 0,104** | 0,231* | - | - | - | - |
| C.S. | 0,067 | 0,139** | -0,161* | 0,259* | 0,234* | 0,268* | 0,294* | -0,133** | 0,011 | - | - | - |
| Dep. | -0,157* | -0,392* | 0,439* | -0,376* | -0,372* | -0,401* | -0,395* | 0,320* | 0,036 | -0,237* | - | - |
| Ans. | -0,174* | -0,204* | 0,259* | -0,208* | -0,218* | -0,221* | -0,193* | 0,296* | 0,167* | -0,142** | 0,472* | - |
| Est. | -0,145** | -0,180* | 0,271* | -0,220 | -0,242* | -0,247* | -0,215* | 0,398* | 0,155* | -0,072 | 0,470* | 0,545* |
*p<0,001; **p<0,05; Ot.: Otimismo; Pess.: Pessimismo; Ag.: Agenciamento; R.: Rotas; Esp.: Esperança total; C.P.: Coping focado no problema; C.E.: Coping focado na emoção; C.S: Coping por suporte social; C.R.: Coping religioso; Dep.: Depressão; Ans: Ansiedade.
A partir da análise, encontrou-se que a variável idade teve apenas correlações fracas com as demais variáveis; que o otimismo correlacionou-se negativamente de forma moderada com pessimismo, esperança e seus componentes (rotas e agenciamento) e com coping focado no problema; pessimismo obteve correlações negativas moderadas com depressão; agenciamento correlacionou-se fortemente com esperança total e obteve correlações moderadas com rotas e com coping focado no problema; rotas correlacionou-se fortemente com esperança total e também de forma moderada com coping focado no problema; esperança total obteve correlação mediana com coping focado no problema e com depressão (negativa); depressão correlacionou-se moderadamente com ansiedade e estresse; ansiedade correlacionou-se moderadamente com estresse. As demais correlações estatisticamente significativas demonstraram-se insignificantes ou fracas.
Discussão
A psicologia positiva, apesar de seu crescente número de pesquisas e publicações (Rusk & Waters, 2013), ainda possui populações pouco representadas e investigadas, como minorias sexuais e de gênero. A partir disso, este estudo se propôs a investigar o impacto de três variáveis relacionadas à psicologia positiva - esperança, otimismo e coping - na saúde mental de pessoas transgênero brasileiras, especificamente em relação a índices de depressão, ansiedade e estresse.
As identidades de gênero mais representadas na amostra coletada foram as identidades transmasculinas, seguidas das identidades não binárias, com grande variabilidade de termos utilizados pelos participantes. Por outro lado, as identidades transfemininas e travestis compuseram pouco mais de 23% da amostra, podendo indicar uma maior dificuldade de acesso a essa parcela específica da população trans, sujeita a índices mais elevados de violência explícita e maior dificuldade de acesso a serviços (Monteiro & Brigeiro, 2019; Stotzer, 2009). Já em relação à orientação sexual, quase metade da amostra identificou-se como bissexual ou pansexual, orientações que englobam atração por dois ou mais gêneros distintos. Essa identificação por grande parcela da população trans já foi evidenciada por outros levantamentos (Grant et al., 2011), e, para esta amostra, pode estar relacionada à parcela significativa de participantes identificados como não binários, já que essas identidades fogem à dualidade masculino/feminino que permeia orientações sexuais como gay, lésbica ou heterossexual.
A amostra coletada também demonstrou ser bastante jovem, com idade média próxima aos 25 anos de idade e, em sua maioria, entre a faixa dos 20 a 40 anos. Tal resultado pode relacionar-se com a forma de coleta, feita predominantemente online, por meio de divulgação pela rede social Instagram. Além disso, a idade jovem pode estar relacionada ao maior número de participantes não binários. Apesar de não constituir fenômeno recente, mais adolescentes e adultos jovens têm se identificado abertamente como não binários, devido ao aumento da maior aceitação social dessa identidade em determinados países (Monro, 2019).
Para além das identidades, outro dado interessante - e que aparenta ser específico da amostra coletada - é o grau de escolaridade dos participantes: quase 40% indicaram ter cursado ensino superior incompleto, o que não está de acordo com a literatura sobre o acesso à educação de pessoas trans. O ambiente escolar no Brasil é particularmente hostil para com a população LGBT, como demonstrou o relatório publicado em 2016 pela Secretaria de Educação da Associação Brasileira de Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis e Transsexuais. Nesse documento, evidenciam-se as diversas situações de violência física, psicológica e institucional aos quais pessoas LGBT são expostas, o que acarreta uma queda do desempenho acadêmico, bem como absenteísmo e evasão escolar. Além disso, o estudo sobre transgeneridade na escola de Oliveira Júnior e Maio (2016) foi de encontro a esses dados, identificando práticas institucionais dentro de escolas que contribuem para a dificuldade no acesso à educação por parte de pessoas trans.
Em relação a fontes de apoio, apesar de 85,5% possuir ao menos um familiar presente em suas vidas, 14,5% não possuem presença significativa de qualquer familiar, contando com apoio apenas de amigos ou animais de estimação. Ou seja, para a amostra coletada, aproximadamente 1 em cada 10 pessoas trans sente não possuir apoio algum da família, o que pode ter impactos na autoestima do indivíduo (Silva & Cerqueira-Santos, 2018) e nos efeitos da discriminação (Fuller & Riggs, 2018). Em estudo realizado em 2018, Fuller e Riggs apontaram possível papel protetivo do apoio familiar frente à discriminação, indicando que pessoas trans cujas famílias as apoiavam demonstraram maior resiliência e menores índices de adoecimento mental.
Quanto à religião e práticas espirituais, outro dado interessante: para além da baixa frequência dessas práticas, indicada pelos autorrelatos, também se evidenciou a grande variedade de credos para além do cristianismo. Religiões de matriz africana, bruxaria, espiritismo e ocultismo foram algumas das crenças citadas pelos participantes, sendo os cristãos (de qualquer denominação) apenas 9,2% da amostra. A preferência por crenças para além do cristianismo, tão prevalente na sociedade brasileira (Coutinho, 2022), pode ter relação com a busca por espaços de fé mais acolhedores e cujos históricos sejam menos preconceituosos para com minorias sexuais e de gênero. De forma similar, em estudo acerca dos fatores associados ao bem-estar de jovens LGBT, Higa et al. (2014) identificaram que um pequeno número de participantes relatou experiências positivas em relação à religião/espiritualidade ao deixar religiões que não os aceitavam, a fim de integrar tradições espirituais como a Wicca e o paganismo. Tais tradições são tidas como mais inclusivas e com maior aceitação frente à diversidade sexual e de gênero (Marchetti, 2022; Lepage, 2017), o que pode relacionar-se à preferência por essas religiões por parte de pessoas LGBT.
Em relação às variáveis principais, esperança e otimismo, a amostra demonstrou escores pouco abaixo das médias de acordo com os estudos de validação e adaptação dos instrumentos utilizados (Pacico & Bastianello, 2014; Bastianello & Pacico, 2014). Apesar disso, a amostra apresentou valores mais elevados para rotas, um dos fatores que compõe a esperança, podendo indicar que a população trans pesquisada possui habilidades acima da média para encontrar formas alternativas de alcançar suas metas frente a obstáculos. Uma hipótese possível seria a de que, devido às dificuldades frequentes enfrentadas por pessoas transgênero no Brasil (Souza et al., 2015; Rodriguez, 2014; Jesus, 2013), faz-se necessário aprender a superar adversidades e buscar formas diferentes de atingir determinados objetivos.
Quanto às estratégias de coping, os valores para coping focado no problema e suporte social foram aproximados das médias para comparação de Seidl et al. (2001). A média para coping religioso mostrou-se inferior à média descrita pelos autores, corroborando a baixa religiosidade indicada pelos participantes no questionário sociodemográfico. Já em relação ao coping focado na emoção, os valores demonstrados pela amostra foram muito acima das médias descritas no estudo de validação, sendo esse resultado condizente com a literatura. Estudos anteriores já identificaram a utilização de estratégias de coping focado na emoção por pessoas trans (Grossman, D’augelli, & Frank, 2011), o que também pode contribuir para o agravamento de quadros de depressão e ansiedade nessa população, considerando a associação entre essa forma de coping e adoecimento mental (Penley et al., 2002).
A população transgênero tende a apresentar quadros mais severos de depressão, ansiedade e estresse do que a população geral (Su et al., 2016; Terra et al. 2022; Valentine & Shipherd, 2018) e isso foi identificado na amostra, em especial em relação à ansiedade. A partir de comparação com os escores propostos por Lovibond e Lovibond (1995), identificou-se que depressão e estresse, para a amostra investigada, atingiram níveis severos, ao passo que a ansiedade atingiu nível extremamente severo. O adoecimento mental de forma geral já está associado às vivências da população transgênero (Silva et al., 2021), tendo diversos estudos apontado que a violência e discriminação são fatores atenuantes para o surgimento de diagnósticos de ansiedade e depressão (Bockting, Miner, Romine, Hamilton, & Coleman, 2013). Em relação à ansiedade, tal resultado encontra respaldo na literatura. Um estudo comparativo realizado em 2016, por exemplo, identificou risco três vezes maior para transtornos ansiosos em pessoas transgênero, em comparação com a população não trans (Bouman et al., 2016). No entanto, ressalta-se o contexto da pandemia da covid-19, no qual a pesquisa foi realizada, como fator de importante impacto nos resultados relacionados à saúde mental. Apesar de estudos consolidados acerca dos índices acima da média em adoecimento mental na população trans, a pandemia impactou a saúde mental em diversos grupos (Kontoangelos, Economou & Papageorgiou, 2020), não apenas aqueles em vulnerabilidade. Por outro lado, autores apontam para vulnerabilidades específicas da população trans dentro do contexto pandêmico (van der Miesen, Raaijmakers, & van de Grift, 2020; Wang et al., 2020).
Em relação às análises de Kruskal-Wallis, os testes identificaram diferenças significativas das médias em determinadas variáveis quando a amostra era estratificada por etapa do desenvolvimento, raça e identidade de gênero. Para a variável raça, detectou-se diferença em relação aos escores de depressão, com as maiores médias fazendo parte do grupo de participantes autodeclarados pardos. Acerca disso, pessoas trans não brancas costumam apresentar pior saúde mental do que pessoas trans brancas, por conta do estresse adicional gerado pela discriminação e racismo estrutural (Williams, 2018). Já a variável identidade de gênero demonstrou diferença significativa em estresse e coping focado na emoção, tendo as identidades transfemininas os menores índices em ambos, travestis em coping focado na emoção e transmasculinos os maiores em estresse. Apesar de haver dificuldade de localizar estudos comparando diferentes grupos dentro da população trans, foi encontrado resultado similar em pesquisa com mais de 1.000 crianças e adolescentes trans que comparou a saúde mental nas identidades transfemininas e transmasculinas (Becerra-Culqui et al., 2018). Para a amostra estudada, os escores em transtornos de ansiedade e depressivos foram menores nas participantes transfemininas, o que, juntamente com o resultado encontrado na análise do presente estudo, pode sugerir que pessoas transmasculinas estejam mais vulneráveis ao adoecimento mental.
A etapa do desenvolvimento foi a variável com diferenças mais estatisticamente significativas, tendo os participantes na fase da adultez tardia (acima de 40 anos) os menores índices de pessimismo, depressão, ansiedade, estresse e coping focado nas emoções, bem como maiores índices de esperança total, rotas, agenciamento e coping focado no problema. A diminuição dos escores em variáveis negativas e aumento em variáveis positivas pode estar relacionada ao amadurecimento proporcionado pela idade, bem como ao desenvolvimento de recursos internos e externos ao longo da vida. Em consonância a essa hipótese, o estudo de Nilsson, Leppert, Simonsson e Starrin (2010), com cerca de 43.000 adultos entre 18 e 85 anos, identificou que tanto o bem-estar como o senso de coerência, isto é, a capacidade de lidar com situações estressantes, aumentaram conforme a idade.
As análises correlacionais, no entanto, não replicaram o resultado em relação à idade, havendo apenas correlações fracas com os demais construtos investigados. Por outro lado, essas análises evidenciaram correlações importantes para as variáveis depressão e coping focado no problema. A depressão correlacionou-se de forma mediana com o pessimismo, indicando possível relação entre a disposição a uma visão mais pessimista e a sintomatologia depressiva, o que já foi descrito na literatura em outras populações (Faye-Schjøll & Schou-Bredal, 2019; Kolkijkovin et al., 2019). Por outro lado, a esperança total correlacionou-se negativamente com a depressão de forma mediana, significando possível efeito protetivo da esperança frente ao adoecimento mental, tendo esse resultado sido estabelecido na literatura sobre esse construto (Ritschel & Sheppard, 2018). Em relação ao coping focado no problema, há fortes evidências na literatura apontando a importância dessa estratégia de enfrentamento para a manutenção da saúde mental (Penley et al., 2002). A partir disso, as correlações entre coping focado no problema, esperança e otimismo sugerem que ser esperançoso e otimista acaba por contribuir a uma forma mais saudável de lidar com eventos estressores, o que, consequentemente, leva a menos adoecimento mental.
Limitações e estudos futuros
O estudo buscou investigar as variáveis otimismo, esperança e estratégias de coping em pessoas trans brasileiras, bem como as relações dessas variáveis com a saúde mental dessa população. No decorrer da coleta, análise e discussão dos dados, no entanto, identificaram-se algumas limitações importantes e que devem ser consideradas na interpretação e generalização dos resultados encontrados pela pesquisa. Um dos pontos mais relevantes é a dificuldade de generalização dos resultados para a população trans, tendo em vista que a amostra do estudo foi composta por indivíduos muito jovens, em sua maioria brancos, com moradia estável e alto grau de instrução. Tal composição está muito aquém da realidade da população transgênero no país, que, como já mencionado, tem dificuldade de acesso a serviços de saúde e educação.
Uma limitação de grande importância ao interpretar os resultados das análises realizadas pelo estudo se deve ao fato de as coletas de dados terem sido realizadas durante a pandemia de covid-19, no ano de 2021. A pandemia afetou diretamente a saúde mental e física da população mundial e, como já apontado pela literatura (Hawke, Hayes, Darnay, & Henderson, 2021), impactou de forma significativa populações vulneráveis e marginalizadas, como a população trans. A partir disso, deve-se considerar tal contexto em virtude dos construtos aqui explorados, os quais certamente relacionam-se com a situação vivida pelos participantes no momento da coleta.
Além disso, outra limitação do estudo refere-se à grande assimetria dos dados, o que impede o uso de análises mais complexas, bem como a diferenças entre os estratos de etapa do desenvolvimento, raça e identidade de gênero nas análises de Kruskal-Wallis. Tais limitações também dificultam a generalização dos resultados e indicam a necessidade de mais pesquisas com análises mais robustas, a fim de corroborar ou contradizer os achados nessa amostra.
Estudos futuros devem se propor a diversificar a amostra em busca de maior representatividade frente à população trans brasileira, com maior número de participantes não brancos e com mais de 30 anos, com diferentes níveis de escolaridade e situações de moradia. Além disso, uma maior diversidade da amostra pode possibilitar a utilização de diferentes estratégias para análise de dados, o que não foi possível no estudo atual. Por fim, investigações futuras devem investigar as variáveis esperança, otimismo, estratégias de coping, depressão, ansiedade e estresse em diferentes contextos, de forma a melhor compreender tais construtos na população trans fora do período pandêmico.
Considerações finais
A população transgênero brasileira é estimada ao redor de 2% da população adulta do Brasil, contabilizando em torno de 3 milhões de pessoas (Spizzirri et al., 2021), cujas vidas são continuamente atravessadas por situações de violência física e psicológica (Benevides, 2023), dificuldade de acesso a serviços e ao mercado de trabalho (Rocon, Wandekoken, Barros, Duarte, & Sodré, 2020; Silva, Luppi & Veras, 2020) e experiências de discriminação (Souza et al., 2015). A partir de uma perspectiva pautada na psicologia positiva, o presente estudo buscou identificar possíveis fontes de saúde mental presentes em pessoas trans, frente a esse cenário de contínuas violências, investigando as variáveis esperança, otimismo e estratégias de coping e suas respectivas relações com a saúde mental nessa população. A amostra contou com participantes transfemininas, transmasculinos e não binários, em sua maioria jovens, bissexuais e cursando ensino superior. Apesar de indicarem poucas práticas religiosas ou espirituais, os participantes relataram grande variabilidade de crenças. Quanto às variáveis de interesse, otimismo e esperança, tiveram níveis pouco abaixo da média, enquanto depressão, ansiedade e estresse apresentaram-se acima da média, indicando graus severos de adoecimento mental, o que já era esperado nessa população. A etapa do desenvolvimento pareceu afetar de forma positiva em relação às variáveis de interesse, apesar de raça e identidade de gênero também afetarem determinados construtos, como depressão e coping focado na emoção. A esperança correlacionou-se positivamente com o coping focado no problema - assim como o otimismo - e negativamente com a depressão, indicando possível contribuição do otimismo e da esperança com a saúde mental dos participantes. Novos estudos devem ser realizados a fim de replicar ou refutar os resultados desta pesquisa, tendo em vista suas limitações em relação à amostra e período de coleta. Contudo, os achados constituem importante contribuição ao indicar possíveis potencialidades presentes na população trans brasileira, bem como demonstrar uma nova perspectiva de investigação a partir da psicologia positiva com populações marginalizadas.


























