Introdução
Ao longo da história, sempre existiram mulheres que lutaram pela liberdade e fim da opressão feminina. As ações que foram relacionadas aos movimentos feministas buscaram romper com as estruturas que vinham sendo naturalizadas no decorrer do tempo. No final do século XIX, evidenciou-se a união de mulheres em diversos países que buscavam seus direitos, principalmente o direito ao voto (Nogueira, 2017), o que no Brasil foi alcançado de modo universal (ou seja, para todas as cidadãs) nas primeiras décadas do século XX (Karawejczyk, 2013).
Algumas décadas depois, em meados desse mesmo século, os estudos feministas demarcaram as primeiras compreensões de gênero como oposição ao sexo e aos determinismos biológicos na definição de comportamentos femininos e masculinos. É nesse período que o feminismo surge como um movimento que busca não apenas espaços no trabalho e em termos de cidadania como um todo, mas também condições equipolentes na relação entre homens e mulheres, apontando, dessa forma, as diferentes formas de dominação (Nogueira, 2017). Vale pontuar que, concordando com Heleieth Saffioti (1999/2015), o feminismo, aqui, está sendo considerado como “uma perspectiva político-científica, cujo objetivo não consiste apenas em ampliar o acervo de saberes, mas também em criar mecanismos políticos para a construção da igualdade social entre homens e mulheres” (p. 160).
Ao longo dos anos, foram muitas as conquistas propiciadas a partir dos debates e reflexões propostos pelos movimentos feministas, dentre as quais pode-se citar: ampliação de vagas disponíveis ao sexo feminino no mercado de trabalho, melhorias na remuneração salarial, relativa redução da ênfase nos papéis de mãe e esposa, incorporação de políticas públicas para as mulheres focadas na saúde, na segurança, no trabalho, entre outras (Dornelas, 2019). Mesmo experienciando uma dinâmica diferente de outros países, uma vez que vivia o regime ditatorial, o Brasil seguiu as tendências mundiais, comportando as primeiras manifestações feministas na década de 1970, tendo como uma de suas principais bandeiras a luta pela democracia e pela conquista de direitos sociais. Nesse contexto, outros movimentos, como o marxista e também o católico progressista, eram aliados dos grupos feministas, com exceção de algumas pautas específicas, como dos direitos reprodutivos e sexuais femininos, nas quais evidenciava-se um tensionamento com as instituições religiosas (Holanda, 2019).
Por abrigar pautas revolucionárias em relação às arcaicas organizações sociais, ainda é possível perceber em alguns contextos, como, por exemplo, em grupos políticos conservadores e de direita, a atribuição de sentidos negativos às causas feministas (Patias, Ferreira, Gaspodini, Prata-Ferreira, & Freitas, 2021). O distanciamento e/ou distorção de aspectos basilares do feminismo resulta na circulação de ideias no senso comum que, muitas vezes, conferem ao movimento ou a mulher feminista significações reducionistas, “de uma representação e/ou de uma incorporação de comportamentos desviantes, de confronto e de resistência em relação ao sexo oposto - ou de um posicionamento contra os homens” (Souza, 2017, p. 76).
Apesar desses estereótipos e da manutenção de justificativas para a desigualdade de gênero na sociedade, o feminismo conquistou espaço na academia, embora, muitas vezes, as discussões relacionadas à gênero na ciência psicológica e em outras áreas ainda ignorem uma perspectiva mais crítica, que compreende gênero para além do binarismo homem x mulher e inclua outras opressões na discussão, como raça e classe (Santos, Carvalho, Amaral, Borges, & Mayorga, 2016). Nos últimos anos, as discussões acerca das relações de gênero parecem ter aumentado de modo geral, o que também se revela como conquista dos movimentos feministas que, cada vez mais, tentaram desestabilizar a ideia de uma mulher universal, que representaria todas, e incluir perspectivas e vivências femininas que articulam no plano das desigualdades de gênero outras questões, como as relativas a orientação sexual, classe, raça, entre outros eixos (Gomes & Sorj, 2014; Nogueira, 2017).
Além de sofrer a interferência desses marcadores sociais, os estudos de gênero demonstram que as concepções acerca dessa temática variam também de acordo com os interesses pessoais do indivíduo, ou seja, com seu posicionamento político, moral, e, entre outros, religioso (Santos, Scarparo, Calvo Hernandez, Herranz, & Blanco, 2013). Apesar de ser entendido que a estruturação das feminilidades e masculinidades é afetada por diferentes contextos - culturais, temporais, sociais e identitários - a religião exerce sua influência de modo especial, e pode contribuir para a manutenção ou transformação da forma como homens e mulheres exercem e entendem seus papéis (Lemos, 2011).
Considerando que os grupos religiosos produzem, partilham e mantém significações que podem auxiliar o indivíduo na apropriação, compreensão e ação frente ao mundo, este estudo buscou investigar como lideranças cristãs, de diferentes denominações, tem compreendido e se posicionado frente a questões associadas ao feminismo em seu cotidiano. A escolha pelo cristianismo se deu pelo fato de que atualmente, no Brasil, a maioria (quase 90%) da população que afirma ter uma religião se declara cristã, segundo último censo demográfico realizado no país, de 2010, com 64,6% católicos e 22,2% evangélicos (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística [IBGE], 2016). Dessa maneira, abordar a diversidade religiosa brasileira corresponde a dialogar acerca do pluralismo cristão, dado que o contingente populacional de outras religiões é escasso em comparação ao cristianismo (Mariano, 2013). Além do mais, ao analisar as mudanças na política brasileira dos últimos 30 anos, é visível o crescimento dos cristãos evangélicos na esfera política, o que evidencia uma conjuntura peculiar no cenário brasileiro com a filiação de cristãos a partidos políticos e suas candidaturas no processo eleitoral, trazendo para o campo político de forma mais contundente e explícita as pautas reivindicadas por esse grupo, por exemplo, ideias contra a legalização do aborto e a união civil de pessoas do mesmo gênero, baseadas nos princípios da moral cristã (Oro, 2011). Já a opção por abordar as lideranças sustentou-se no entendimento de que tais sujeitos têm um envolvimento ativo com a religião e podem ocupar um lugar significativo na formação, compartilhamento e manutenção de ideias, valores e crenças sobre diferentes fenômenos sociais.
A Teoria das Representações Sociais (TRS), elaborada a partir de 1961 por Moscovici (2000/2015), foi entendida como lente teórica adequada para a empreitada descrita na medida em que tem como objetivo compreender como o conhecimento sobre um determinado fenômeno é produzido no senso comum, ou seja, como são formadas as representações sociais (RS), entendendo que elas operam como uma espécie de linguagem materna, por meio da qual pessoas frente às coisas, apropriam-se, conferem sentido, norteiam ações, práticas e comunicações. Assim, as RS se referem aos conhecimentos do senso comum construídos e partilhados socialmente no cotidiano (Moscovici, 2000/2015).
Collares-da-Rocha e Souza Filho (2014) apontam que os estudos com grupos religiosos baseados na TRS precisam, mais do que ressaltar a importância da religião na vida social como um todo, direcionar o destaque para as interações dentro dos grupos religiosos, para como se organizam e dão sentindo as práticas sociais do indivíduo e do grupo.
As RS têm a finalidade primeira de conferir familiaridade àquilo que é estranho, não familiar aos membros do grupo, e constituem-se a partir de dois processos sociocognitivos: a ancoragem e a objetivação. Em termos gerais, “ancorar é, pois, classificar e dar nome a alguma coisa” (Moscovici, 2000/2015, p. 61), ao passo que a objetivação implica “descobrir a qualidade icônica de uma ideia, ou ser impreciso, é reproduzir um conceito em uma imagem” (p. 71).
Na TRS há uma distinção entre os sistemas de pensamento, denominados por Moscovici (2000/2015) como universo consensual (que corresponde à expressão das pessoas comuns nas conversas/trocas informais e cotidianas - plano das RS) e universo reificado (concebido como campo dos especialistas, manifestação dos saberes e conhecimentos técnico-científicos). Esses conhecimentos, muitas vezes, tensionam-se e se sobrepõem na formação de representações, o que é entendido pela TRS como “estado de polifasia cognitiva” (Moscovici, 2000/2015; Jovchelovitch, 2008, 2014), que diz respeito à coexistência dinâmica de formas diferentes de saber no mesmo campo representacional, ou seja, a uma atividade no campo da representação caracterizada pela atuação de diferentes sistemas de pensamento, que convivem e cumprem diferentes funções em diferentes necessidades sociais no mesmo grupo ou, quiçá, no mesmo sujeito (Jovchelovitch, 2008).
É essa dimensão (da polifasia cognitiva), bem como o contexto de produção das RS (considerando os processos de objetivação e ancoragem) que este estudo, que faz parte de pesquisa mais ampla, buscou abordar especificamente a partir do seu objetivo geral de investigar representações sociais de feminismo entre lideranças cristãs.
Método
Participaram da pesquisa 23 pessoas, dez mulheres e 13 homens, que atuavam como lideranças em comunidades cristãs localizadas em regiões metropolitanas do Sudeste brasileiro. Neste artigo, liderança foi entendida como o indivíduo que exerce cargo ou função representativa em seu grupo religioso, tem algum tipo de autoridade/legitimidade perante os demais membros e, de forma geral, compartilha da visão de homem e de mundo desse grupo.
A idade dos participantes variou entre 19 e 60 anos. A maioria tem o ensino superior completo (17), são casados (15) e tem filhos (13). Com relação à vinculação religiosa, nove são evangélicos tradicionais (de denominações como Batista, Presbiteriana do Brasil, Anglicana e Metodista), seis evangélicos reformados (denominações como Presbiteriana Unida do Brasil e Batista da Lagoinha), três pentecostais (da Assembleia de Deus e Igreja de Deus) e cinco católicos. O tempo de participação na religião variou entre 10 e 60 anos e sobre os cargos exercidos, entre os homens, a maioria (10) exercia função de liderança principal na comunidade (pastor ou padre), e entre as mulheres, a maioria (sete) exercia liderança em algum segmento local (como líder de jovens, líder de mulheres, líder de crianças, entre outras), com apenas duas como lideranças principais (pastoras).
Os dados foram obtidos a partir de entrevista semiestruturada baseada em um roteiro, que incluía solicitação de dados sociodemográficos e questões diversas relativas a temática de feminismo, tais como: significações sobre feminismo; percepções de amigos e familiares acerca desse tema; compreensão sobre feminismo em contextos religiosos; entre outras.
Os participantes foram contatados a partir de idas às comunidades e por meio de redes sociais. No primeiro contato eram explicitados os objetivos gerais da investigação, os procedimentos e os cuidados éticos a serem tomados na pesquisa. As entrevistas foram agendadas conforme a disponibilidade dos participantes e realizadas em locais convenientes para eles. Antes da entrevista, foi apresentado o Termo de Consentimento Livre Esclarecido (TCLE) para participação em pesquisa, solicitada assinatura em duas vias e a permissão para uso de gravador de áudio. Todos os procedimentos se deram em acordo com as normas da Resolução n° 510, de 7 de abril de 2016 e com o Código de Ética profissional do Psicólogo (Conselho Federal de Psicologia [CFP], 2005), e o estudo foi autorizado pelo Comitê de Ética em Pesquisa da Universidade Federal do Espírito Santo.
Após a finalização da coleta de dados e transcrição das entrevistas, elas foram organizadas em um único corpus que foi submetido a análises do software Interface de R pour les Analyses Multidimensionnelles de Textes et de Questionnaires (IRaMuTeQ) versão 0.6, programa informático de acesso gratuito, que proporciona diferentes formas de análise de dados textuais. Um dos recursos analíticos adotados, descrito neste artigo, foi a Classificação Hierárquica Descendente (CHD), que dispõe classes de Segmentos de Texto (ST) que, de forma concomitante, identifica vocabulário semelhante entre si e vocabulário diferente dos ST de outras classes (Camargo & Justo, 2013).
Resultados
O software IRaMuTeQ, no procedimento de CHD, dividiu o corpus em 869 ST, dos quais 779 (89,64%) foram aproveitados, o que é considerado um ótimo aproveitamento. O processamento resultou na formação de três subgrupamentos, constituídos por classes com maior relação ou proximidade entre si. Os subgrupamentos formados pelas classes 6 e 5 e o subgrupamento formado pelas classes 4 e 3 estão relacionados, mas não apresentam relação com o constituído pelas classes 2 e 1, de conteúdo independente. Na Figura 1 estão ilustradas as classes, com o percentual de cada uma e com palavras que as caracterizam, bem como os nomes dados aos grupamentos e classes pelas pesquisadoras.
O subgrupamento constituído pelas classes 6 e 5 foi denominado “Significações sobre o movimento feminista” por ter expressado a tentativa dos participantes de explicarem esse movimento, inclusive situando-o historicamente. A classe 6 (16,4%), nomeada como “Objetivações do feminismo”, abarcou a compreensão dos participantes acerca do feminismo enquanto um “movimento ideológico”, constituído por representações imagéticas relacionadas ao aborto, queima de sutiã, revolução sexual, movimento hippie, destruição da família e desessencialização da mulher, e associado a questões políticas (movimento de esquerda, comunista, marxista). Nessa classe predominou o discurso dos participantes católicos, do sexo feminino, e jovens (idade entre 19 e 30 anos). Palavras como ideia, vida, ideologia, igreja católica, contrário, acreditar, evangélico, aborto, revolução sexual, família, sutiã e destruir explicitam as significações presentes em tal classe, em que predominou uma visão negativa sobre o movimento (entendido como um “modismo”) por parte de grupos religiosos. Os ST a seguir ajudam no entendimento do sentido da classe:
Porque o feminismo tem muito a ver com marxismo, marxismo cultural também, toda a ideia do comunismo está dentro do feminismo e aqui no brasil chegou justamente junto com o marxismo cultural, a ideia deles de destruir a família. (Mulher, 25 anos, católica)
Eu sempre fui simpática as ideias, mas nunca fui radical também de deixar de usar, de queimar meu sutiã, por exemplo, mas sou simpática as ideias. (Mulher, 60 anos, evangélica reformada)
Na comunidade geral o feminismo é visto como um grande inimigo do cristianismo e, eu não digo nem só batista, digo no movimento evangélico como um todo. O feminismo é visto como um inimigo dos valores da família. (Homem, 40 anos, evangélico tradicional)
A classe 5 reuniu o maior percentual do corpus (19,5%) e foi nomeada como “Ancoragens em movimentos sociais”, sendo composta principalmente pelo discurso das participantes do sexo feminino. As palavras mais fortemente associadas a essa classe foram achar, bom, igualdade, lutar, luta, direito, concordar, defender, totalmente, social, homem, feminismo, sentido, salário, e evidenciaram o entendimento do feminismo como um movimento social legítimo, de busca por direitos igualitários entre homens e mulheres em diversos espaços/contextos (voto, igualdade salarial, ocupação de cargos de trabalho, estudo, etc.), que propiciou conquistas e avanços no campo do gênero que repercutem até os dias atuais. Predominou uma visão positiva nessa classe no que se refere à “origem” do movimento e a pautas específicas, entendidas como importantes e necessárias; contudo, também apareceram críticas a algumas “causas” vistas como mais atuais, tais como, a vontade da mulher de se “igualar” ao homem em todos os aspectos e de querer mudar uma suposta “natureza” feminina. Os ST a seguir expressam de forma clara tais conteúdos:
O princípio das coisas era bom porque era a luta pelo direito de voto, mas o feminismo em si na palavra, eu acredito que é ruim porque muda completamente a mulher, muda a nossa personalidade, que é característica da mulher. (Mulher, 21 anos, evangélica pentecostal)
Então eu entendo que o feminismo existe e entendo que traz benefícios. Não quer dizer que eu concorde, mas vejo que é necessário e essencial para uma sociedade diversa e igualitária com equidade. (Homem, 35 anos, evangélico reformado)
Eu acho que a gente precisa lutar no sentido de desigualdades, de preconceitos, de abusos, de maus tratos, de preconceitos. . . Agora o problema é que o feminismo tem levantado algumas bandeiras que eu já sou contra: de igualdade entre homem e mulher em todos os sentidos, como se eles não tivessem diferença nenhuma. (Homem, 38 anos, evangélico reformado)
O subgrupamento “O feminismo em debate” foi composto pelas classes 4 e 3, e abordou a noção de feminismo circulante nas conversas cotidianas dos participantes e em seus grupos de referência. A classe 4, denominada como “Visões e vivências no contexto religioso”, representou 17,1% do corpus, e conteve palavras como: pastor, conversar, ouvir, igreja, denominação, assunto, conversa, tema e discussão. Essa classe indicou como o feminismo é tratado dentro das comunidades locais e contextos religiosos dos quais os participantes fazem parte, com referências ao que é dito, aceito e partilhado a esse respeito, e aquilo que não é. Foi explicitado que o tema encontra algum espaço para ser abordado nesse contexto, mas não constitui uma pauta nem aparece de forma declarada ou oficial em termos de posicionamento. O conteúdo dessa classe foi composto predominantemente pelos discursos das mulheres, de denominações tradicionais e com grande tempo de participação (31 a 40 anos). Os ST a seguir exemplificam tal classe:
Às vezes faz debates sobre a violência contra mulher, mas não existe um trabalho de conversa como a do feminismo, não existe um trabalho onde se converse sobre o que é o movimento ou o que a igreja representa para o movimento. (Homem, 35 anos, evangélico reformado)
Na igreja a gente fala bem do feminismo, mas é mais para a classe mais jovem, para os jovens e adolescentes, e entra muito para as mulheres mais velhas quando fala da questão do casamento. (Mulher 24 anos, evangélica tradicional)
Na minha igreja não é falado sobre feminismo, mas é vivido porque as mulheres são as líderes da igreja e já tem bastante tempo. Os homens na minha comunidade de base dão muito apoio, mas eles não são os expoentes, as mulheres é que tocam o barco. (Mulher, 40 anos, católica)
A classe 3,”Visões e vivências em geral”, reuniu 15,5% do corpus e contemplou como a temática do feminismo é geralmente partilhada fora dos contextos religiosos, nos círculos sociais dos participantes de uma maneira mais ampla. Destacou-se o discurso dos participantes mais novos (19 a 30 anos) e que tinham o tempo de participação da religião entre 10 e 20 anos. Essa classe expressou uma compreensão de que a forma como tal tema é entendido e circula varia de acordo com os espaços/grupos, que podem ser mais conservadores (família) ou mais abertos (amigos, universidade). As palavras pensar, pensamento, questionar, gostar, às vezes, amigo, machista, assumir, mal, enxergar, esposo, expressam tais conteúdos, que podem ser melhor exemplificados nos ST abaixo:
Por exemplo: se for um grupo de amigos de infância o pensamento machista está mais explícito. . . na faculdade, universidade o pensamento é mais próximo do meu. (Homem, 25 anos, evangélico reformado)
Hoje em dia, na bolha dos meus amigos fora da igreja, é mais perceptível, também que eles são muito desconstruídos. (Mulher, 19 anos, católica)
Não só o espaço acadêmico, mas como eu te disse, eu vim de uma família de mulheres muito fortes, que ousaram questionar algumas coisas que estavam postas para elas, então acredito que isso também foi determinante. (Mulher, 37 anos, evangélica tradicional)
O terceiro subgrupamento, que encontrou-se separado dos demais e, portanto, não apresentou associação direta de conteúdos, foi constituído pelas classes 2 e 1 e foi nomeado como “O feminino nos textos bíblicos: indícios de feminismo?”. A classe 2 (17,2%) foi nomeada como “‘Evangelhos femininos’: o lugar da mulher”, e abordou a perspectiva dos participantes de que há passagens bíblicas que, numa cultura (patriarcal) em que predominava o desprezo pelo feminino, evidenciaram a importância atribuída a mulher por figuras masculinas, como Jesus, que escolheu se relacionar com mulheres, ouvi-las, acolhê-las e apoiá-las. Os discursos predominantes nessa categoria foi de homens com idade entre 51 e 60 anos, que destacaram a presença nas escrituras sagradas da força e protagonismo de algumas mulheres, como Maria ou Maria Madalena, o que poderia ser entendido, no entendimento deles, como uma ‘forma’ de feminismo. As palavras associadas a essa classe - história, Jesus, mulher, cultura, adão, patriarcal, manter, força, leitura, criação, Maria Madalena - e os ST a seguir auxiliam na compreensão desses conteúdos:
Mas a igreja, por exemplo, tem Maria, que é uma grande protagonista da fé cristã. . . o evangelho de Lucas, por exemplo, é um evangelho feminino, ele estabelece com muita clareza ali o protagonismo de Maria desde o princípio da vida de Jesus. (Homem, 52 anos, católico)
Jesus ressignificou o valor das mulheres, tem várias passagens, diversas, onde Jesus encontra a mulher samaritana no poço e ali ele é repreendido pelos discípulos porque aquilo era inadmissível, as mulheres samaritanas eram tidas como a escória, povo impuro. (Homem, 31 anos, evangélico tradicional)
Porque Jesus, quando ele morreu e ressuscitou, ele apareceu para uma mulher e não para um homem, então Jesus era feminista, entende? E ele quis Maria Madalena junto com os 12 apóstolos e teve um problema muito sério com São Pedro porque ele não aceitava. (Mulher, 40 anos, católica)
Como está diretamente ligada a classe 2, a classe 1, nomeada “A mulher nas escrituras: interpretações” também englobou conteúdos que tratam de como a mulher aparece retratada em textos bíblicos, mas aqui o foco foi dado a diversidade de interpretações a esse respeito. Destacou-se a presença de personagens femininas importantes na bíblia, como Ester e Debora, e questões daquela época que envolviam diretamente mulheres e precisavam ser denunciadas, como o que hoje é denominado violência de gênero. Ainda nesta classe, composta por palavras como Ester, olhar, bíblia, texto, palestra, silenciar, citado, esquecido, Ivone Gebara, interpretação, entre outras, os participantes destacaram o acesso a essas discussões sobre questões femininas por meio de palestras, pregações, conversas, ou seja, de experiências vividas nos círculos religiosos. Vale notar que os ST apresentados em seguida, em sua maioria, foram trechos de discursos de participantes que exerciam a maior liderança em suas comunidades religiosas (padres, pastores e pastoras), especialmente homens, e de denominações evangélicas reformadas:
Eu vejo um autor de milhares de anos atrás dedicar dezenas de capítulos só sobre falar sobre o papel de liderança de uma mulher que se chama Ester. . . Eu não preciso na bíblia encontrar a palavra feminismo, mas eu encontro e eu podia aqui continuar a te citar exemplos, na bíblia, claras demandas ou nuances do movimento feminista expressos no texto. (Homem, 40 anos, evangélico tradicional)
E quando eu falei de família, lá fala que Deus odeia o divórcio e odeia aquele homem que cobre de violência as suas vestes. E eu disse o que, muito antes de existir Lei Maria da Penha, a bíblia já era contra a violência contra a mulher. (Homem, 52 anos, evangélico reformado)
Você vai ter muita coisa que se for garimpando acha várias e várias mulheres. Inclusive, na minha interpretação, quando Jesus promove libertação de mulheres, se você olhar bem, só dá espaço para elas falarem, Jesus nunca diz para eles. (Homem, 35 anos, evangélico reformado)
Discussão
O subgrupamento “Significações sobre o movimento feminista” permitiu considerações sobre a gênese e manutenção de RS de feminismo partilhadas pelas lideranças cristãs. Na classe 6 foi possível identificar imagens e conteúdos que explicitaram a forma dos participantes explicarem o que pensam e como se posicionam frente ao objeto em análise (feminismo). Aborto, queima de sutiã, ideais de esquerda, comunismo, destruição da família, ‘desconfiguração’ da essência feminina, revolução sexual, movimento hippie, entre outras, foram alguns dos símbolos e imagens associados ao feminismo para explicá-lo, o que evidenciou o mecanismo da objetivação por meio do qual os participantes, a partir da seleção de algumas características, expressaram suas compreensões, transformando o abstrato/distante em algo concreto/próximo, ou seja, “a palavra que substitui a coisa, na coisa que substitui a palavra” (Moscovici, 2000/2015, p. 71). Conforme salientam Almeida, Santos e Trindade (2014), a objetivação condensa um conceito em um símbolo por meio de um processo de “simplificação” das informações, de modo que “a retenção das informações ‘salientes é acompanhada de um ajustamento’, em que certas informações assumem um papel mais importante que outras, ou diferente daquele que tinha em sua estrutura original” (pp. 146-147).
A TRS indica que o processo de objetivação se dá em três etapas. São elas: a seleção e descontextualização da informação, a formação de um núcleo ou esquema figurativo, e a naturalização (Moscovici, 2000/2015). A primeira etapa consiste na seleção e ênfase de algumas informações, que são apropriadas com base nas experiências do indivíduo/grupo, e resulta em uma construção seletiva da realidade (Vargas, 2015; Villas Bôas, 2010). No caso dos participantes desta pesquisa, pode-se dizer que dentre todas as informações acerca do objeto as quais tiveram acesso, das mais diferentes fontes, houve uma seleção e retenção daquelas que tratavam de lutas que, supostamente, foram/são defendidas por movimentos feministas, tais como aborto e liberdade sexual. A segunda fase do processo de objetivação é constituída pela composição e organização de determinados elementos, que passam a constituir os núcleos figurativos da representação, ou seja, o conceito é transformado em uma imagem associada a ideias/palavras (Villas Bôas, 2010). Aqui, elementos como ‘ideais de esquerda’, ‘comunismo’ e ‘ideologia’, apresentados pelos participantes, indicam suas releituras, explicitadas em um esquema figurativo coerente à sua perspectiva de vida (Cardoso, 2012). Por fim, a naturalização (terceira etapa) permite concretizar o objeto, tornando-o tangível, ou seja, expressão direta da realidade (Morera, Padilha, Silva, & Sapag, 2015; Vargas, 2015), em outros termos, possibilita que o núcleo figurativo deixe de ser uma construção abstrata e passe a ser a própria realidade sobre a qual o indivíduo vai agir e se comunicar (Cardoso, 2012). Nos trechos de entrevista pode-se observar, por exemplo, o feminismo sendo representado diretamente como “inimigo dos valores da família”, “causador da desconfiguração da mulher” e “contra a vida”. Saquetto (2013) aponta que “trata-se de reificar categorias e torná-las tão operativas e resistentes à mudança, de modo que não sejam mais metáforas da existência, mas a própria existência, como se elas estivessem ali desde a origem das relações e/ou conceitos” (p. 163). Dessa maneira, uma feminista que, por exemplo, seja esposa e mãe, não tenha realizado um aborto e possua uma aparência dentro dos padrões sociais é percebida como uma exceção à regra ou até mesmo como se não fosse (ou não pudesse ser) feminista. Ou seja, a imagem de uma representação torna-se tão concreta como se fosse a própria realidade.
O outro processo envolvido na gênese das RS é a ancoragem, que não se dá independentemente da objetivação nem de modo linear/sequencial em relação à ela, sendo sua separação apenas didática. O termo ancoragem implica em um processo de integração de um objeto em um sistema de categorias previamente existente, ou seja, possibilita que um objeto estranho/não familiar seja compreendido com base em um sistema de categorias do próprio indivíduo (Moscovici, 2000/2015). Assim, a construção de compreensões referentes ao feminismo pelas lideranças cristãs, conforme foi possível observar na classe 5, parece ter ocorrido ancorada em conhecimentos prévios sobre movimentos sociais, especificamente em seu papel transformador, o que os levou a posicionarem-se positivamente, entendendo-o como um movimento que representa a busca legítima por direitos igualitários entre homens e mulheres, ou seja, a transformação de uma realidade desigual.
Contudo, cabe destacar que os participantes demonstraram uma avaliação positiva em relação a certas pautas feministas (não a todas), a exemplo das pautas de direitos sociais das mulheres (Nogueira, 2017). Porém outras rupturas propostas nesse mesmo contexto como as relacionadas ao trabalho, em alguns momentos foram entendidas como provocando uma descaraterização da mulher e como tentativa de “alcançar” o estatuto dos homens, como se fosse algo próprio deles.
Essa ideia de trabalhos exclusivamente masculinos (e femininos) revela o predomínio da lógica de divisão sexual do trabalho, de modo que aos homens, fortes e intelectuais, são designadas tarefas especificas na esfera pública e às mulheres, belas, dóceis e reprodutoras, são destinados os cuidados do ambiente doméstico e dos filhos, para os quais estariam ‘naturalmente preparadas’. Tal visão se fortaleceu com a consolidação do capitalismo e revoluções industriais, incorporando transformações significativas apenas a partir, principalmente, da segunda guerra mundial, quando mulheres brancas e burguesas foram inseridas em maior escala no mercado de trabalho para substituir os homens que foram à guerra. Nessa acepção, o que é geralmente visto como uma “conquista” no campo do trabalho, na realidade, foi impulsionado por uma necessidade do mercado. Ainda assim, contribuiu para avanços femininos no contexto profissional (Barbosa & Almeida, 2021; Collins & Bilge, 2020; Gonzalez, 2020). Não se deve perder de vista que esse cenário se refere às vivências das mulheres brancas e burguesas, uma vez que as mulheres negras, pardas e pobres já trabalhavam, sendo exploradas desde os tempos da escravidão no Brasil e, assim, não pode ser visto como uma conquista de direito ao trabalho e à liberdade financeira (Collins & Bilge, 2020; Gonzalez, 2020).
Essa divisão de tarefas baseadas no sexo biológico, que atribuía às mulheres os papéis de esposas e mães, também foi defendida e difundida por meio de concepções religiosas e permanecem até hoje nas relações conjugais, sendo a atividade materna colocada acima da profissional para as mulheres, o que pode, inclusive, prejudicar sua carreira, impactando até mesmo em termos de remuneração. Apesar de sentirem desconforto e contestarem essas divisões e desigualdades, de acordo com estudo realizado, muitas das mulheres não apostam em reivindicações em termos práticos, nem identificam-se com o feminismo, possuindo apenas uma ideia superficial do que seria o movimento (Benevides & Boris, 2021).
Patias et al. (2021), em seu estudo sobre representações sociais de brasileiros(as) sobre o feminismo, constatou que pessoas mais velhas, com filhos e religiosas designam características mais positivas a uma mulher universitária, antifeminista e branca do que a uma mulher mãe, feminista e negra. Assim, a religião, assim como a idade, pode ter um efeito sobre a percepção das pessoas em relação ao feminismo e suas contribuições.
Nessa direção cabe enfatizar que, embora as significações sobre feminismo expostas pelos participantes tenham se ancorado em suas pautas enquanto movimento social, isso não significa que tenham evidenciado apenas aspectos positivos, pelo contrário, ao que tudo indica, a articulação com bandeiras e causas feministas precisou passar pelo ‘filtro’dos valores do grupo religioso de modo que, em relação a algumas lutas, foi compreendido de maneira negativa. Inclusive a busca por igualdade entre homens e mulheres em alguns aspectos, no sentido de que poderiam destruir a família e/ou impedir a maternidade, foi entendida como inaceitável, criticando o que avaliaram como tentativa de “masculinização” da “natureza” feminina.
As interferências dos grupos de pertenças na produção e manutenção de RS foram destacadas no segundo subgrupamento formado a partir da CHD, nomeado “Feminismo em debate”. Os conteúdos presentes nas classes que o compuseram evidenciaram a variação de sentidos sobre feminismo em função dos grupos e contextos sociais dos quais as lideranças faziam parte. Mesmo que se reconheça que a compreensão sobre um objeto também se dê em função da experiência de vida individual, entende-se que a maneira como o grupo de identificação/pertencimento reage a um fenômeno interfere diretamente na maneira como o indivíduo interage com o objeto (Jodelet, 2001).
A classe cujos conteúdos foram constituídos predominantemente por participantes mais jovens e com menor tempo de participação na religião, explicitou que a discussão e debate sobre esse fenômeno se dá nos diferentes contextos pelos quais os participantes circulam (como universidade, grupos de amigos, de trabalho), não ficando restritos ao grupo religioso. Com isso os aspectos abordados em tais discussões (assim como as ações e práticas a elas relacionadas) dependem de cada um desses grupos de referência, que podem ser mais conservadores ou mais abertos, e até mesmo apresentar variações internamente, de acordo com fatores como gênero, escolaridade, acesso a informações e a educação, doutrina, e até mesmo a posição que assume politicamente.
Sobre isso, Martins e Guedes (2019), buscando debater o papel da internet na difusão de movimentos sociais, realizaram uma pesquisa com mulheres cristãs feministas em grupos e páginas do Facebook. As pesquisadoras identificaram que o conteúdo produzido pelas páginas é incorporado por quem se identifica com os valores ali defendidos, e destacam que “os indivíduos produtores de comentários ofensivos e/ou agressivos defendem os ideais que configuram a chamada direita política, como por exemplo: repúdio à legalização do aborto e defesa da preservação da família nuclear” (Martins & Guedes, 2019, p. 70). Os movimentos políticos de direita, no Brasil, ligados tanto a concepções conservadoras em termos de costumes (pautadas na moral religiosa e cristã), como também em ideias do liberalismo econômico efervesceram a partir de 2013, contribuindo para a polarização política do país (Sousa, Oliveira Filho, Araújo, & Vieira, 2022). Tal fato tem impactado, inclusive, em políticas públicas, como, por exemplo, na exclusão de qualquer referência à gênero no Plano Nacional de Educação, de 2014, o que demonstra que os ideias religiosos e políticos se misturam, afetando o cotidiano (Pizzinato, Almeida-Segundo, & Uziel, 2020).
Vale ressaltar que, ao longo da história, as ideias feministas abriram caminhos para que discussões de gênero fossem difundidas em diferentes campos sociais e, dessa forma, “mesmo o campo religioso, em seu aspecto institucional, tradicionalmente antifeminista, não ficou imune aos efeitos sociais e culturais das ideias feministas contemporâneas” (Scavone, 2008, p. 8). Pela peculiaridade e interesse de cada grupo social, o feminismo pode ser interpretado de diferentes formas. No caso dos grupos religiosos, Farias (2011) afirma que a tendência sempre foi uma posição contrária e crítica aos movimentos feministas, no entanto, ao longo do tempo, algumas igrejas se tornaram mais “flexíveis” às demandas desses movimentos, aceitando, por exemplo, que mulheres atuassem como pastoras/líderes.
A esse respeito, com base nos conteúdos da classe sobre visões e vivências do feminismo no grupo religioso, observou-se que as igrejas têm concedido maior espaço às mulheres e desenvolvido trabalhos com (e para) elas, o que pode ter sido gradativamente potencializados pelos movimentos feministas que, de alguma forma, chegaram ao meio religioso. Até porque, conforme aponta Rosado-Nunes (2006), as religiões foram afetadas de maneira significativa pelos impactos do feminismo. Apesar disso, os participantes enfatizaram que o feminismo e questões interrelacionadas não estão em pauta no meio eclesiástico, além de não ser visto de modo consensual nas comunidades religiosas; dessa maneira, são escassas (e, muitas vezes, nulas) as aproximações oficiais com a temática nos contextos religiosos, sua abordagem fica limitada aos espaços informais e aos grupos que se interessem pelo tema.
Achados da pesquisa sobre relações entre feminismo e religião para mulheres fiéis e ex-fiéis evangélicas indicaram que, entre as mulheres que estão vinculadas a alguma instituição religiosa, as diferenças atribuídas aos gêneros são mais expressivas e há maior resistência para autoafirmação como feministas. Apesar de tal diferenciação, mesmo que não se denominem feministas, as mulheres em geral pareciam compactuar com ideais de igualdade e autonomia (Oliveira & Enoque, 2019).
Nesse sentido, o feminismo nos contextos religiosos, de modo geral, pareceu ser explicitado com base em seus resultados práticos, ou seja, nas conquistas no campo do gênero que foram alcançadas a partir dele como movimento. No entanto o feminismo como ‘pensamento’, como base para a autodenominação das mulheres, como pauta assumida por grupos religiosos e como teoria a ser discutida, ainda soou ameaçador, ficando assim, de forma geral, mais distante.
Apesar de não ser algo diretamente abordado no campo religioso, os participantes associaram conteúdos típicos desse contexto com discussões que entenderam dizer respeito ao feminismo. Foi o que se deu no subgrupamento “O feminino nos textos bíblicos: indícios de feminismo?”, no qual foram abarcados ST que trataram justamente de escritos bíblicos nos quais a presença de uma mulher foi destacada de alguma forma, seja como aquela com quem Jesus escolheu conversar e para quem ressurgiu, seja como aquela que precisa ser acolhida e protegida. Para esses líderes religiosos as menções às mulheres nos textos bíblicos já representariam, por si só, uma forma do feminismo estar contido na sagrada escritura, uma vez que esta deriva de uma época em que não era conferido nenhum prestígio e poder social ao feminino. Tal compreensão evidenciaria aspectos da ancoragem, na medida em que tais ideias funcionariam como a ‘janela’ pela qual enxergariam o feminismo (Gomes, 2004).
Essa compreensão do ‘espaço’ concedido à mulher nos textos bíblicos (pelos homens que os escreveram) como um ‘tipo’ de feminismo foi aportada na concepção de que, como tal movimento objetivaria promover o protagonismo feminino em uma sociedade fortemente marcada pelo lógica patriarcal, que também vigorava entre os hebreus, gregos e romanos clássicos, garantindo “o poder de uma autoridade religiosa, econômica, social, política masculina sobre seus subordinados” (Oliveira, 2014, p. 39), os episódios da bíblia nos quais foram concedidos voz e espaço às mulheres, na perspectiva dos participantes, poderiam ser entendidos, por si só, como uma forma de promover tal protagonismo e empoderamento.
Interessante notar que esse subgrupamento foi composto por trechos de discursos predominantemente masculinos (lembrando que a maioria dos participantes homens exercia a maior autoridade na igreja - era padre ou pastor) e que não apresentou ligação com os conteúdos dos demais no dendrograma, constituindo um conteúdo independente. Tais fatos levam a crer que, diferente das demais, as classes desse ‘eixo’ parecem explicitar um conteúdo mais relacionado ao universo reificado aquele que reúne “as instituições sociais consolidadas historicamente e se encarregam de normatizar as verdades sobre o mundo físico e social; as ciências, bem como a religião e a moral ocupam este lugar” (Cravo & Trindade, 2016, p. 23). Ao trazer um discurso erudito/sagrado a partir de trechos e versículos da bíblia, os participantes assumem um lugar de conhecimento, de autoridade, de ‘sabe’. Ao falarem a partir de um lugar de autoridade sobre a bíblia, os textos e as interpretações, fizeram-no como ‘especialistas’ no assunto, como alguém que têm competência técnica para falar sobre tais questões e, justamente por isso, acabam contribuindo diretamente para a produção, difusão e manutenção de RS.
Assim, o discurso dos participantes sobre feminismo pareceu recorrer simultaneamente aos dois sistemas de pensamento, reificado e consensual, descritos por Moscovici (2000/2015), ressaltando que essa dupla atuação não ocorre por uma disfunção do participante/grupo, e sim para que os indivíduos possam elaborar e compreender o que acontece ao seu redor. Essa coexistência dos sistemas de conhecimento nos campos representacionais foi nomeada de polifasia cognitiva (Jovchelovitch, 2008).
O conteúdo discursivo que pode ser mais diretamente associado ao universo consensual evidencia as significações produzidas no cotidiano das interações com os diferentes grupos sociais dos quais fazem parte (família, comunidade religiosa, amigos, faculdade, trabalho, entre outros). Nesses espaços/contextos, os participantes trocaram ideias e sentidos sobre o feminismo, e construíram a partir daí uma teoria sobre ele, entendendo-o como um instrumento de transformações sociais, que tem um lado bom (possibilitou o direito feminino ao voto, a ampliação dos espaços de trabalho e estudo, entre outras coisas) e/ou um lado ruim (por conta de aspectos ideológicos, promove à descaracterização da mulher, a interrupção da gravidez, a destruição da família e bons costumes, entre outras coisas). Assim, os participantes apresentaram um tipo de conhecimento construído com base em suas próprias vivências, relações e interações, entendido como RS, que poderia ser resumido como um movimento social que visa transformações na sociedade, ora produzindo resultados positivos, ora gerando resultados negativos.
Já os conteúdos discursivos que trouxeram elementos que podem ser relacionados ao universo reificado indicaram que a bíblia sempre abriu espaço para a mulher e buscou valorizá-la em uma cultura absolutamente patriarcal, na qual vigorava o desprezo pelas mulheres, o que foi entendido como uma forma de feminismo. Para justificar esse posicionamento, fizeram referência à personagens bíblicas femininas que foram protagonistas em suas histórias, como Maria (mãe de Jesus), Maria Madalena, Ester, Débora, e também a figuras masculinas, como Jesus e José, que podem ser reconhecidos pelo apoio e acolhida às mulheres, apontando também a importância de palestras, cursos e conversas no contexto eclesiástico que potencializaram uma interpretação ‘coerente’ dessas questões. Desse modo, nesse caso os participantes falaram a partir do seu conhecimento técnico - baseado nos textos sagrados e na formação - que os conferiram autoridade no assunto e os possibilitaram compreender e lidar com questões relativas ao feminismo, que nesse meio reificado poderia ser entendido, em síntese, como a presença feminina na bíblia, por si só, sendo uma forma de feminismo.
Por meio da polifasia cognitiva esses sistemas cognitivos de pensamentos se ajustam, adaptam e coexistem, permitindo que indivíduo e grupos sociais possam responder a cada experiência cotidiana (Jovchelovitch, 2014). No que se refere ao objeto feminismo, observou-se que os religiosos recorreram simultaneamente aos dois sistemas, integrando conteúdos que poderiam parecer contraditórios, mas que compuseram um todo que, para eles, é dotado de coerência e sentido.
Considerações Finais
Esse estudo possibilitou tecer algumas considerações sobre como acontece o encontro entre o objeto feminismo e indivíduos que exercem lideranças em comunidades religiosas cristãs, ou seja, como o feminismo tem sido apreendido, incorporado, partilhado e significado. Numa tentativa de síntese, os resultados apontaram que: para a construção do campo representacional, os participantes ancoraram suas significações nos objetivos transformadores dos movimentos sociais e, ao mesmo tempo, em seus conteúdos ideológicos que se opõem a valores tradicionais/conservadores, objetivados por meio de elementos imagéticos como aborto, queima de sutiã, destruição da família, entre outros; as religiões, de maneira geral, foram impactadas pelos efeitos do feminismo, o que se materializa por meio da ampliação dos espaços concedidos/conquistados às/pelas mulheres nos contextos eclesiásticos; o feminismo e questões relacionadas, contudo não são discutidos no meio religioso, fazendo-se muito mais presente em outros contextos dos quais os indivíduos e grupos participam, conforme seu interesse.
Destaca-se a importância da realização de mais pesquisas que abordem os feminismos e questões de gênero entre grupos religiosos e/ou outros com características similares, haja vista que ainda há muitas lacunas a serem preenchidas neste contexto. De todo modo, espera-se que os resultados desta investigação, lidos a partir da ótica da TRS, tenham trazido algumas pistas nesta direção, colaborando para a compreensão da forma como esses movimentos, ainda vistos de forma polêmica por conta de suas pautas mais atuais e progressistas, são apropriados por grupos que, de modo geral, apregoam valores tradicionais e conservadores.















