Introdução
O racismo é compreendido como uma ideologia que afirma existir diferentes raças entre os seres humanos, sendo que a diversidade de indivíduos pode ser descrita, caracterizada e categorizada hierarquicamente, constituindo assim a ideia de superioridade e inferioridade baseadas em aspectos físicos e/ou culturais (Gomes, 2005). Entretanto as discussões atuais trazem a complexidade do racismo e de sua multiplicidade de manifestações buscando compreender como esse problema social tem afetado histórica e socialmente as populações branca e não branca no cenário mundial.
Assim, o racismo pode ser compreendido em três dimensões: individual, institucional e estrutural (Almeida, 2018). Na perspectiva individual a pessoa racista é aquela que acredita na ideologia que hierarquiza as raças e pode ou não adotar práticas discriminatórias diretas às populações não brancas. Já o racismo institucional se constitui em práticas discriminatórias indiretas que foram integradas historicamente à organização e funcionamento das instituições e que perpetuam a exclusão das populações não brancas, conferindo prejuízos a esse grupos sociais. Como exemplo, no âmbito educacional percebe-se o racismo institucional no ensino superior tanto no acesso quanto na permanência de estudantes negros e indígenas nas universidades, devido às disparidades econômicas e desigualdades sociais que influenciam a continuidade e conclusão dos estudos dessas populações no país (Almeida, 2018).
O processo histórico que constitui a formação da sociedade brasileira foi marcada pela violência do período colonial, no qual o domínio dos países europeus na ‘conquista’ de novos territórios resultou em processo de extermínio e exploração de outros povos, causando a morte da maioria dos povos originários, assim como com a escravização dos povos africanos. Para a população negra brasileira as marcas da escravização persistem até a atualidade, pois fazem parte das instituições e estruturam a realidade social na qual ser negro ou ser branco pode determinar as trajetórias de vida e acesso a bens, direitos e cidadania no país (Conselho Federal de Psicologia [CFP], 2017).
Apesar da escravização ser apontada como a origem dos problemas sociais que negras(os) enfrentam até a atualidade, não se pode reduzir a essa explicação a justificativa da existência da desigualdade, sem implicar a continuidade do racismo na estrutura social e seus benefícios para a população branca em detrimento às demais populações constituintes da sociedade brasileira. Corre-se o risco de estar perpetuando o mito da democracia racial e ignorar que no Brasil a desigualdade é racial, resistindo a toda tentativa de tornar explícitas as formas pelas quais o racismo se manifesta nos âmbitos individual, das instituições e na estrutura social.
Tendo em vista a desconstrução da ideologia do racismo estudos em diversas áreas de conhecimento como a Sociologia, Antropologia, Direito, Saúde e, em especial, a Psicologia têm debatido sobre como o racismo se constitui e gera impactos na ordem individual, social, econômica, política e cultural. Para este trabalho, a fim de compreender a concepção de psicólogas(os) sobre o racismo e seus impactos na subjetividade, entende-se o racismo em sua perspectiva estruturante da sociedade, a qual não sobrepuja suas dimensões individual e institucional, e sim traz uma perspectiva integradora em que diversas áreas das ciências podem estudar sobre o fenômeno e contribuir para sua superação (Almeida, 2018).
Na Psicologia o estudo das relações raciais passou por mudanças de foco ao longo da história e formação da sociedade brasileira. Em um primeiro período, iniciado no final do século XIX, a Psicologia começou a organizar-se enquanto ciência e foi influenciada por teorias construídas em outras áreas científicas como a biologia. Assim o racismo científico marca a entrada no século XX e as teorias racialistas desenvolvidas no norte cêntrico - países da Europa e Estados Unidos - são importadas para o cenário brasileiro. Posteriormente, a Psicologia no estudo sobre as relações raciais passa a ser influenciada por uma visão culturalista na qual se institui o mito da democracia racial e o ideal de branqueamento. Hoje, observa-se que os estudos psicológicos têm foco no aspecto relacional, a partir de pesquisas desenvolvidas que discutem os efeitos do racismo nas populações negra e branca no país (Santos & Schucman, 2015; Schucman & Martins, 2017).
No início do século XX as elites brasileiras discutiam, a partir das teorias racialistas, os efeitos da miscigenação na constituição brasileira, ora visualizando a evolução da população através do branqueamento ocasionado pela mistura racial, ora condenando a miscigenação, pois acabaria prejudicando o desenvolvimento do país. As duas concepções partem do princípio racista no qual a raça superior e forte que deve predominar em relação às demais é a branca, sendo que o ideal de branqueamento antes expresso como tentativa de ‘arianizar’ a população brasileira, hoje mantém suas marcas no imaginário social ao determinar o branco como referência daquilo que é superior estética, física, intelectual e culturalmente (Carone & Bento, 2014).
A ideologia do branqueamento atualmente é ressignificada como um problema exclusivo da população negra, pois a busca pelo embranquecimento como um padrão é vista como um problema moral de negros, que não aceitam sua negritude e buscam, por inveja, igualar-se aos brancos (Carone & Bento, 2014). Nota-se que mais uma vez a história é reinterpretada de maneira que o negro passa a ser responsável pelas próprias mazelas, pois se deseja branquear é porque ele é racista ao não aceitar sua negritude. Assim, a construção de um ideal em que o branco é colocado como o padrão a ser alcançado estética, cultural e moralmente, formado a partir do domínio colonial, exime o branco da responsabilidade pelo racismo e suas consequências, como o embranquecimento.
Aliado ao branqueamento está o mito da democracia racial, um pensamento alienado que perpetua desigualdades sociais no país. O mito da democracia racial gera conformismo em relação a situação do negro no Brasil, ao declarar que o racismo não é um problema num país de população miscigenada. A miscigenação atesta o fato de que os diferentes grupos raciais convivem em harmonia, que todos possuem as mesmas oportunidades e igualdade de direitos (Gomes, 2005; Sales Jr., 2006).
As marcas do racismo constituem as instituições e fazem parte do desenvolvimento científico e da educação no país. Como citado, os saberes psicológicos utilizaram-se inicialmente dos atributos físicos para justificar a concepção racial e a associação de características morais e psicológicas a indivíduos pertencentes a determinados grupos num processo de generalização, ocasionados pela ideologia que classifica e hierarquiza a população humana. Depois ocorreram mudanças nas perspectivas teóricas, que demonstraram como o racismo fez parte da formação científica e pode permanecer influenciando as bases epistemológicas. Por isso é importante que se tenha um resgate histórico sobre a Psicologia no país, a fim de realizar permanente análise crítica sobre a lógica que sustenta as reflexões teóricas e as práticas realizadas, para não incorrer em ações excludentes baseadas em preconceitos e discriminações.
A compreensão de psicólogas(os) sobre o racismo e suas manifestações é essencial para articular caminhos de enfrentamento a essa ideologia, estimulando o debate sobre como as relações raciais ocorrem no país, a partir de um desequilíbrio de forças entre as populações branca e negra. Na pesquisa sobre a compreensão de psicólogos sobre o racismo institucional em serviços do âmbito de saúde, ficou exposta a dificuldade de reconhecimento da problemática e de como atuar em relação à singularidades terapêuticas de pessoas negras pelo Sistema Único de Saúde (SUS) (Tavares, Oliveira, & Lages, 2013). O estudo trouxe a falta do olhar crítico de profissionais da Psicologia sobre as relações étnico-raciais sobre as implicações do racismo nas instituições de saúde pública, o que acaba por afetar a visão sobre as questões de equidade e, assim, as ações e práticas profissionais da(o) psicóloga(o) nos serviços de saúde (Tavares et al., 2013).
Outro estudo investigou como a raça e o racismo afetam as práticas de psicólogas(os) na perspectiva clínica. As autoras Benedito e Fernandes (2020) realizaram entrevistas abertas com três profissionais da área com o objetivo de entender como a Psicologia pode contribuir com o enfrentamento aos efeitos do racismo, em especial, em relação ao sofrimento psíquico que ele causa. As autoras identificaram que há a lacuna de debate sobre o tema e, por isso,
Defende-se que se a graduação em Psicologia não forneceu ou não fornece as ferramentas para lidar com o sofrimento causado pelo racismo, fazendo-se imprescindível a constante busca por tal conhecimento em outros espaços e campos do saber: na história, na sociologia, nas artes e na política. De outro lado, os registros mostram também as dificuldades no enfrentamento do racismo pela psicologia, quando se revela a falta de recursos e estudos que identifiquem um caminho e as consequências dessa situação em termos de resistência ao processo: “algumas coisas não se discutem” (Benedito & Fernandes, 2020, p. 13).
Assim, a Psicologia acaba reproduzindo o racismo institucional ao não trazer para o ensino superior debates e contribuições que efetivem mudanças para a população negra em relação aos efeitos nocivos do racismo e também ao desconsiderar que seja tema relevante para tratar em suas pesquisas ou em sala de aula, já que ainda é um assunto que, embora fale da relação entre brancos e negros e da estutura social racista, é constantemente vinculado a um problema do negro. Essa visão de culpabilização do negro precisa cessar e é a partir da discussão do aspecto relacional que se constroi atualmente, que é viável visualizar alguma possibilidade de transformação para uma sociedade mais justa, igualitária e com respeito a diversidade.
Método
Este artigo está vinculado ao projeto de pesquisa de mestrado intitulado “O Racismo como temática transversal na formação acadêmica de psicólogas(os) de Santa Maria - RS” desenvolvido no Programa de Pós-graduação em Psicologia da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM). A pesquisa foi desenvolvida com o intuito de investigar se psicólogas(os) que atuam no município de Santa Maria reconheciam em suas trajetórias acadêmicas o estudo sobre a temática do racismo como problema social que constituía as discussões envolvendo as subjetividades humanas. Para a produção das informações referentes ao estudo foram utilizados um questionário online, a realização de entrevista semiestruturada e a produção de um diário de campo pela pesquisadora. Participaram da pesquisa 14 psicólogas(os) que responderam ao questionário, sendo que desse grupo, seis concordaram em participar da segunda etapa da pesquisa, que envolveu a entrevista semiestruturada. As/os psicólogas(os) que participaram do estudo receberam nomes fictícios escolhidos aleatoriamente pela pesquisadora ao serem identificados durante a pesquisa. Para a produção deste artigo, todas as informações produzidas por meio do questionário e da entrevista foram consideradas na análise de dados, a fim de obter o máximo de elementos.
Os dados sociodemográficos das(os) psicólogas(os) participantes demonstram que do total de 14 participantes, dez se autodeclararam brancos e quatro se autodeclararam como negros. Em relação ao gênero, dez profissionais afirmaram ser mulher cisgênero, três homem cisgênero e um participante se declarou como pertencente a outro gênero que não estava especificado nas alternativas. Em específico sobre a formação acadêmica, as(os) psicólogas(os) encontravam-se em diferentes etapas no exercício profissional, sendo que alguns deles eram recém formados e estavam iniciando a prática. Em relação à pós-graduação, dez psicólogas(os) afirmaram possuir cursos seja de especialização, mestrado ou doutorado, dois estavam cursando especialização no momento da pesquisa e outros dois não possuíam curso de pós. Já em relação a área de atuação e prática psicológica, dos 14 participantes, no momento da pesquisa, dez afirmaram atuar na área clínica, sendo que uma das psicólogas também declarou trabalhar concomitantemente à clínica em um serviço de assistência social, três atuam na docência no ensino superior, sendo que uma das docentes também atua na clínica, e uma das profissionais atua na área da educação.
O estudo foi realizado durante o período de ocorrência da pandemia de coronavírus, causador da covid-19, sendo necessário a manutenção do distanciamento físico para proteção da saúde coletiva. Por isso, assim como o questionário, a entrevista foi realizada de forma online, por meio de plataforma digital a qual permitiu a gravação da conversa. Após a gravação, as entrevistas foram transcritas e as respostas do questionário foram organizadas em forma de planilhas para facilitar o processo de leitura e análise das informações.
As informações passaram pela análise hermenêutica dialética de Minayo (2014) devido ao processo de contextualização e compreensão dos sentidos e significados expressos pelos participantes em conexão com o contexto histórico, social, econômico e demais dados importantes que se manifestaram nas expressões sobre o fenômeno analisado. Assim neste artigo foi delimitada a análise da compreensão que psicólogas(os) possuem sobre o que é o racismo e como ele impacta as subjetividades das populações negra e branca no Brasil.
É importante entender as concepções sobre uma problemática social como o racismo, que estrutura a sociedade brasileira, investigando como esta ideologia pode se manifestar nas experiências de formação acadêmica e, posteriormente, nas práticas profissionais na Psicologia. Portanto aprofundar a compreensão de como são construídos os pensamentos sobre as relações raciais entre os profissionais torna-se necessário na busca futura por práticas antirracistas que visem o cuidado, a luta pela diversidade e propicie mudança social.
A pesquisa foi submetida ao Comitê de Ética em Pesquisa, seguindo as normas e orientações na realização de pesquisa com seres humanos, sendo que a participação das(os) psicólogas(os) ocorreu após a leitura e aceite do Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE) disponibilizados no questionário online e na entrevista.
Resultados e discussões
Compreensão das(os) psicólogas(os) sobre o racismo
Ao serem questionados sobre o significado do racismo é interessante observar como as(os) psicólogas(os) o definem de modo diverso, utilizando explicações construídas nos estudos realizados ao longo de suas trajetórias, por meio da busca individual para a compreensão sobre o fenômeno. Ao serem questionados sobre a procura por capacitação e atualização sobre a temática racial, dos 14 participantes, apenas dois afirmaram que não têm estudado sobre o tema. As diferentes formas de implicação no estudo sobre o racismo relatadas pelas(os) profissionais consistem em leituras, vídeos disponibilizados em plataformas digitais por pessoas negras, cursos de extensão online e gratuitos, participação em seminários, eventos, grupos de estudo, cursos oferecidos pela universidade, documentos elaborados pelo CFP e por meio da psicoterapia individual. É importante destacar que entre os que responderam o questionário, quatro profissionais se declararam como negros1, sendo que os demais (dez) declararam-se como brancas(os). Já na entrevista, dos seis participantes, dois eram psicólogos negros e quatro pertenciam à raça branca.
Deste modo as concepções das(os) psicólogas(os) sobre o racismo forneceram conceituações diversas sobre como a ideologia se manifesta para os participantes. Entre os relatos destacam-se três categorias que englobam as definições utilizadas pelas(os) profissionais: o racismo enquanto preconceito, o racismo cotidiano e o racismo estrutural. Há a compreensão sobre o racismo como sendo um preconceito baseado em raça ou pela cor da pele das pessoas estando conectado a características físicas que identificam pessoas como pertencentes a determinados grupos em uma perspectiva biológica. Uma das participantes afirmou que o racismo compreendia “Todo e qualquer tipo de manifestação contra uma pessoa referente a cor da pele ou biótipo físico” (Patrícia, psicóloga parda). Outra profissional respondeu que o racismo se manifesta como
A discriminação e o preconceito contra o indivíduo ou população de cor de pele negra, pelos traços considerados negróides (como o formato do nariz, da boca, do cabelo), pela intolerância à religiões como o candomblé e a umbanda com herança africana; entre tantas outras (infelizmente) formas de manifestação velada do racismo. (Fernanda, psicóloga branca)
O psiquiatra martinicano Franz Fanon (2008) em sua obra Pele negra, máscaras brancas aponta como o racismo cristaliza o negro ao plano biológico nas relações sociais. A identificação da pessoa como pertencente à raça negra poderá resultar em processos discriminatórios baseados em estereótipos que relacionam-se com sua estrutura corporal: força e sexualidade. Não obstante Lélia Gonzalez (1984) destaca a discrepância entre as imagens de mulheres negras trabalhadoras, que no cotidiano são o grupo social mais explorado e sofrem com a desigualdade, mas durante a época do carnaval são vistas como as ‘rainhas’ da passarela, cobiçadas e exibidas para além das pistas de desfiles e festejos. Entretanto, mesmo o que poderia ser destacado como herança cultural e um momento de destaque para a cultura brasileira está restrita a um modo velado de manifestação do racismo, o qual insiste em reduzir o negro ao corpo, ao plano biológico. Ainda sobre as características físicas como fator importante para a classificação racial no país, o psicólogo Pedro relata que
É eu creio que o racismo no Brasil seja de maneira diferente de outros lugares, principalmente porque ele serve pra manter uma... manter um certo... privilégio de outras pessoas que. . . Famílias e pessoas que sempre tiveram com esses privilégios e mantém até hoje. Digamos assim que tu liberta, tu diz que dá condições iguais, mas por conta da raça, as pessoas não têm acesso às mesmas oportunidades que outras né, digamos que pelo grau que tu tem de cor negra é o que tu mais vai ser desprivilegiado. Existe toda essa inserção da população negra em vários outros contextos que muitos não tavam, porém existe um padrão ainda de negro que vai entrar nesses ambientes, não é qualquer um, não é qualquer tipo de corpo, não é qualquer tipo de pessoa que vai entrar nesses lugares e há essa exclusão. Não é uma exclusão que é feita, falada digamos assim, é aquela coisa mais velada, mas as oportunidades são sempre bem diferentes umas das outras e mantém os privilégios. (Pedro, psicólogo negro)
A ideia de acesso facilitado pela tonalidade da cor da pele coloca em debate como o racismo está conectado ao fenótipo, adquirindo assim, particularidades em sua manifestação em sociedade. O racismo no Brasil possui a marca da cor da pele, sendo que a diversidade de cores e tonalidades, assim como outras características como lábios, nariz, textura capilar, são considerados na classificação racial dos brasileiros (Guimarães, 2004). Com isso, o embranquecimento acaba sendo fortalecido, pois a busca por clarear as futuras gerações é almejada para uma possível ascensão social e também simbólica, já que ser mais claro poderá trazer benefícios materiais e simbólicos.
Esse preconceito pode gerar assédio ou violência de acordo com os participantes, sendo experienciado cotidianamente na vida de pessoas negras. A pertença ao grupo racial negro e a vivência do racismo ficam expressas na resposta de Carla, psicóloga negra que define o racismo como uma violência, a partir de uma metáfora
E daí, daí eu não sou muito de falar assim nos eventos, mas eu pedi para falar e aí eu falei que o racismo era como um jogo de capoeira né, mas como se a outra pessoa que estivesse jogando com a gente estivesse sempre com uma faca ali pronta para nos matar ou cortar, e o racismo é isso não importa se eu vou dormir bem se eu vou dormir mal, eu sei que eu vou, quando eu abrir meus olhos eu tô suscetível né, a passar por uma situação de racismo. Então assim, é uma coisa diária, é uma coisa pesada, é uma coisa que. . . . Mas o racismo faz com que a gente saia sempre com documento, a gente está sempre vigilante, e é uma carga mental, uma disponibilidade desnecessária né, porque a gente infelizmente passa por isso, mas é uma coisa que é uma tensão desnecessária né, que foi imposta, então o racismo é isso. (Carla, psicóloga negra)
O racismo ser estruturante na sociedade brasileira faz a experiência do preconceito e discriminação serem cotidianas para pessoas negras2. A metáfora utilizada pela psicóloga negra mostra a violência a qual esse grupo racial está submetido e a necessidade de estar em estado permanente de vigília para as possíveis manifestações que vão desde demonstrações mais sutis de discriminação até as mais aterrorizantes, como a morte. O genocídio do negro brasileiro, conforme afirma Abdias do Nascimento (2016) ocorre com a morte sistemática da juventude negra brasileira, mas encontra outras maneiras de incursão como o apagamento da história, o silenciamento sobre as contribuições do negro em sociedade, a desqualificação do sofrimento psíquico causado pelo racismo, entre outras formas de aniquilamento da população negra.
Isso está relacionado a outra resposta na qual o racismo assume sua forma estrutural, a qual organiza a vida em sociedade e acaba atravessando a subjetividade de todos os indivíduos. A psicóloga Elisa, mulher branca, define o racismo como
A gente entende que o racismo é estrutural e o que eu quero dizer com isso: está em tudo, está nas nossas relações e nos constitui desde que a gente nasce praticamente né. Então perpassa a nossa linguagem, a nossa cultura, os diferentes aspectos assim da nossa vida, então eu acho que esse... as diferenças que são feitas a partir né das questões de raça mesmo, especialmente com relação a essa diferença entre pessoas brancas e pessoas negras né, então acho que eu compreendo o racismo dessa forma né, falando de uma forma bem geral né. (Elisa, psicóloga branca)
A ampliação do conceito de racismo para o aspecto estrutural expande a compreensão da ideologia de uma visão individualista, na qual apenas o sujeito que comete um ato discriminatório deve ser responsabilizado pela manifestação de ações racistas, para uma visão em que a sociedade e o modo de socialização estão organizados a partir de uma lógica hierárquica baseada no marcador raça, sendo o racismo um componente orgânico dessa estruturação social (Almeida, 2018). Ao nascer em uma sociedade racista, tanto indivíduos negros quanto indivíduos brancos estão sujeitos a socialização e internalização das normas e hierarquias raciais existentes, pois no cotidiano a segregação dos espaços, as posições de poder que são ocupadas, melhores empregos e rentabilidade são alguns dos exemplos que demarcam a experiência de vida e acabam por naturalizar os lugares de negros e brancos na sociedade brasileira.
Cabe escrever o óbvio, pois ele precisa ser dito e repetido: a desigualdade não é causada pela raça e pelo biológico, ela é uma construção social que tem força com a ideologia racista e serve para a manutenção de poder de grupos historicamente hegemônicos. Por isso para enfrentar essa ideologia é necessário expandir o debate sobre o racismo e seus efeitos em todas as áreas que concernem à vida, sendo que a Psicologia como construção científica histórica e socialmente localizada deve atentar aos processos sociais que integram as subjetividades e influenciarão a diversidade humana. Desta maneira, além da conceituação sobre o racismo, decidiu-se investigar na pesquisa se as(os) psicólogas(os) veem o racismo como fator que impacta e influencia a vivência de pessoas negras e brancas, o que será discutido a seguir.
Racismo e processos de subjetivação
Por se tratar de uma pesquisa com psicólogas(os) acreditou-se ser importante realizar uma investigação sobre a maneira que esses profissionais compreendem o racismo como um fator que subjetiva as experiências de diferentes grupos raciais. A pergunta realizada no questionário e nas entrevistas tinha o seguinte enunciado: Você compreende o racismo como um dos assuntos que influenciam a subjetividade das pessoas negras e brancas?De que forma? Ao questionar as possíveis influências do racismo nas subjetividades de pessoas negras e brancas, objetivou-se analisar se havia a compreensão dos profissionais sobre possíveis efeitos psicológicos e de outras ordens para as populações negra e branca. Ao longo do processo de realização das entrevistas, da análise dos questionários e leitura de materiais houve uma mudança significativa na perspectiva deste estudo em relação ao processo de subjetivação e também à maneira pela qual a temática racial poderia ser abordada durante a formação acadêmica de psicólogas(os). A fala de Lia, psicóloga branca auxiliou a reflexão sobre o assunto
Sim, eu acho que sim, até se eu não me engano eu respondi isso ali porque era uma questão que eu já tinha pensado antes, por ocasião de um TCC né que era, a menina colocou vários fatores para analisar, mas pensando alguns materiais assim que eu estudei né pras aulas, eu acho que impacta, eu acho que subjetiva. Eu acho que se a gente pensa como estrutural sabe, não é algo que no decorrer vai ter um impacto, acho que as pessoas já se subjetivam pelo racismo, daí tanto as pessoas negras quanto as pessoas brancas. É claro que é muito mais aniquilador pras pessoas negras né, porque a construção desde sempre de um lugar de subalternidade, de um lugar né de desvalorização muitas vezes perante a sociedade, mas pras pessoas brancas também né, eu acho que constrói às vezes até um senso assim de merecimento e (risos) que é completamente fora da realidade né. . . . (Lia, psicóloga branca)
Essa fala de Lia traz uma importante contribuição ao demonstrar como o racismo estrutural, que faz parte da organização social brasileira, determina os processos de socialização, fazendo com que a ideologia seja parte da subjetividade das pessoas em sua integração ao meio social. Com isso, tanto negros quanto brancos sofrem impactos e efeitos do racismo em seu cotidiano. Entreanto essas ações concretas de discriminação são procedentes de um processo de subjetivação que transgeracionalmente tem repassado a herança escravagista e racista, pela qual ocorre a hierarquização das relações e a manutenção de desigualdades operando pelo marcador da raça. Nesse sentido, conforme Alves, Costa e Castelar (2020), o racismo em sua concepção estrutural perpassa a subjetividade de todo e qualquer indivíduo, sendo a raça a qual se pertence um fator que influencia nas histórias e experiências que as pessoas terão ao longo de suas vidas. Não há como não ser atingido pela ideologia racista, pois ela está na base das relações sociais, políticas, econômicas e culturais e faz parte da constituição das pessoas enquanto sujeitos. Assim, ao refletir sobre a formação de profissionais de Psicologia e o estudo sobre o racismo e as relações raciais, a temática deveria ser desenvolvida em sala de aula não apenas por tópicos, em disciplinas optativas ou mesmo obrigatórias vinculadas ao currículo. O assunto deveria estar integrado e estruturado ao longo de todo o processo de ensino e formação acadêmica, pois perpassa toda a produção teórica e científica na Psicologia já que ela se constitui enquanto ciência em um país que tem o racismo como uma estrutura que marca as subjetividades e vivências da população (Alves et al., 2020).
Seguindo a discussão sobre os impactos do racismo, todos os participantes responderam afirmativamente sobre o reconhecimento de que o racismo impacta as subjetividades. Ao discorrerem sobre como ocorreria esse impacto, para as(os) psicólogas(os) a população negra sofre com os efeitos negativos gerados pelo racismo, enquanto as pessoas brancas são colocadas como agentes que causam o racismo e se beneficiam desse processo, mas que precisam romper com esses privilégios para que essa problemática social seja de alguma forma superada.
Com certeza. Com certeza porque na medida em que a gente presencia e se omite por exemplo, não faz nada e… acho que isso vai tendo efeitos né, tanto pra nós e obviamente muito mais pra quem é negro e sofre esse tipo, por exemplo de preconceito de discurso ofensivo, seja lá o que for né. Então penso que eu teria assim, se eu presenciasse alguma coisa né, me posicionaria e não aceitaria porque entendo que sim, que gera sofrimento né, gera impactos e a gente precisa eu acho cada vez mais enquanto sociedade se trabalhar pra que a gente respeite os outros né, independente de raça, independente de gênero ou seja lá o que for né, então eu acho que esse respeito tem que fazer parte das nossas relações né. (Elisa, psicóloga branca)
Há o destaque para situações em que a discriminação ocorre de maneira direta, sendo que Elisa destaca o posicionamento das pessoas envolvidas como uma forma de enfrentar o racismo. Destaca ainda que o respeito deve fazer parte das relações para que esses impactos negativos, como o sofrimento causado pelo preconceito, não sejam perpetuados na sociedade. Outra resposta, desta vez de Bruno, psicólogo branco, traz em cena a prática clínica, pensando sobre como o racismo impacta a subjetividade de pessoas negras a partir de experiências na área de atuação.
Primeiro eu diria que ele impacta, digo, nesse sentido digo mais como como pessoa branca né, ele impacta as pessoas negras pelo que eu vejo, pelo que eu vejo clinicamente inclusive, com um...uma alienação de si, é muito grave, de muitas pessoas acharem que não tem direito a um lugar e que presumam e suponham que vão ser inevitavelmente mal recebidos ou que não são bem vindos em espaços, especialmente depois de já ter uma experiência onde não se sentiram bem vindos, que se perpetue a sensação de ser malquisto todos os dias. . . .E da subjetividade branca, da subjetividade branca eu diria que basta não olhar. Basta não se interessar, basta... e pra não olhar não é difícil porque existe uma porção de formatos que reforçam pra você não olhar isso, pra você não precisar olhar isso, tem um culto ao comodismo digamos assim, um culto à preservação, uma certa vaidade até, não só no sentido pejorativo de vaidade, mas tem um culto assim… não poder produzir autocrítica na subjetividade branca. Não, não gostam de se ocupar da autocrítica, e isso fica defensivo né, e aí quando entram essas defesas na minha leitura, se perdeu a discussão, não é o tempo de discutir, vai ter que entrar de outra forma né. (Bruno, psicólogo branco)
A resposta de Bruno assim como a dos demais participantes afirmam que o racismo não somente existe como impacta a subjetividade de pessoas negras e brancas de maneiras diferentes. A subjetivação do racismo que normaliza a estrutura social na qual brancos obtém privilégios em relação aos negros e demais populações não-brancas, expõe como a raça continua sendo um marcador importante no estabelecimento das relações sociais no país. A população branca, segundo Bruno, adquire uma invisibilidade positiva no debate sobre o racismo, pois se beneficia concreta e simbolicamente dessa ideologia, mas exime-se de qualquer responsabilidade pela mudança social ao não se racializar, ou seja, ao não discutir a sua participação no processo relacional que origina o racismo. Assim, está expresso o pacto narcísico da branquitude que cumpre o papel de proteção das pessoas brancas ao se colocar à margem das críticas e ver o racismo como um problema do negro (Bento, 2014).
Já para pessoas negras, Bruno destaca como a marca de situações discriminatórias vivenciadas podem permanecer com o indivíduo por longos períodos. E reflete sobre os limites das intervenções clínicas individuais, sendo preciso estratégias coletivas na busca da reparação dos problemas estruturais causados pelo racismo. Ainda sobre como os impactos são sentidos, Carla traz a seguinte reflexão
Impacta positivamente pessoas brancas né, porque o privilégio, os benefícios que eles têm, eles, a gente tem pequenos benefícios né, tem o Rodrigo França que ele falou isso uma vez, eu tava vendo uma live dele, eu achei fantástico assim, ele falou ‘a gente tem pequenos benefícios’, a gente tem benefícios né, nem sempre pequenos, a gente tem benefícios, mas eles têm o privilégio né. Então é... o benefício das pessoas brancas já é dado né, eles já tem os benefícios né, que aí já vai pra outras questões de privilégios mesmo, então assim, impacta positivamente a vida deles né, a gente sabe aí, as estatísticas estão aí pra dizer. Eu que gosto muito de lidar com a psicologia do trabalho né, a questão da desumanização, do assédio né, da disponibilidade de vagas né, das possibilidades de protagonismo e de ascensão de carreiras né, a gente sabe que as pessoas brancas tão bem a frente né, e eu tenho notado assim que tem tido. . . então eu acho que impacta positivamente as possibilidades que eles possam ter de possibilidades. Imagina assim eu atendo pessoas brancas e é nítido assim sabe é muito evidente as questões assim de privilégio, nenhum momento é falado sobre a questão racial né, nenhum momento tem uma uma tristeza em relação né, ou uma fala do tipo ‘eu queria ser negro’ como eu já ouvi pessoas negras falando pra mim que desejariam ser brancas em questão de não ter que lidar com a questão do racismo né. Então nunca ninguém falou ‘ah eu queria ser negro’ né. . . . (Carla, psicóloga negra)
A partir das falas de Bruno e Carla podemos observar que o racismo em seu aspecto relacional opera no desequilíbrio de forças entre os grupos envolvidos. Pode-se pensar através de uma metáfora, na imagem de uma balança, sendo medidas o acesso a bens simbólicos e materiais que os grupos raciais obtêm. Enquanto a balança pende para o lado da população negra com todo o peso dos estereótipos negativos que opera reduzindo-a ao biológico, acrescentando-se a herança do colonialismo e da escravização transmutadas em desigualdades sociais como o desemprego, falta de moradia, saneamento básico, baixos salários e outras perdas de direitos; no outro lado, temos a população branca, para a qual o lado da balança levanta-se sob a leveza de arcar positivamente com a opressão do grupo negro, beneficiando-se com a idealização de sua raça como referência do bom, esteticamente almejado, civilizado e intelectual, ou seja, toda a sorte de características positivas, além de todos os privilégios materiais que foram alcançados por meio da exploração do trabalho escravizado como produção econômica que imperou durante séculos no país.
A branquitude tem sido tema de estudos por teóricos brasileiros para investigar o pacto identificatório pelo qual pessoas brancas mantêm os privilégios alcançados mediante a exploração econômica escravista, que persiste atualmente na sociedade. A branquitude pode ser compreendida como um conceito “em que os brancos tomam a sua identidade racial como norma e padrão, e dessa forma outros grupos aparecem ora como margem, ora como desviantes, ora como inferiores.” (Schucman, 2012 p. 17). Um dos aspectos da branquitude que tem interferido no enfrentamento ao racismo é o silenciamento e a invisibilidade do branco como produtor e responsável pela existência e manutenção do racismo. Conforme Bruno, um dos participantes, há um conformismo de pessoas brancas que buscam não se implicar no processo de desconstrução da ideologia racista. Pensar em si como sujeito que reproduz o racismo, mesmo com a busca de conhecimento e um posicionamento de combate às discriminações, é um passo necessário para efetivar uma atitude antirracista. Pode parecer contraditório, mas ao não afirmar a própria subjetivação em uma sociedade racista, limita-se a criticidade em relação a como os privilégios estão sendo mantidos na análise diária dos comportamentos e situações racistas.
Outro ponto interessante é o receio que Carla, psicóloga negra, possui em relação ao crescente envolvimento de pessoas brancas na aprendizagem sobre o racismo estrutural.
Eu sou muito desconfiada tá, assim vou te falar bem sinceramente, eu sou muito desconfiada assim com essas pessoas brancas que, muitas pessoas brancas têm se interessado mais sobre essa temática né, eu fico pensando de duas formas: é que bom, que bom né, que estão pensando na questão do antirracismo, mas também estão se instrumentalizando mais né, pra tornar as coisas mais sorrateiras, para deixar, saber como fazer velado ou para oprimir mais também, tem isso também assim sabe. . . . (Carla, psicóloga negra)
Carla faz uma colocação relevante sobre como o racismo se transforma historicamente, as pessoas brancas podem se apropriar dos conhecimentos para encontrar novas maneiras de discriminar. Na implementação da Psicologia enquanto ciência e prática, a história das relações raciais mostrou que durante muitos anos o negro foi objeto da ciência. Entretanto, mesmo com a mudança promovida a partir da década de 1970 em que o foco passou a estar no aspecto relacional nos estudos sobre o racismo, o apagamento de produções de intelectuais negros e o silenciamento sobre a raça como marcador nos estudos científicos são exemplos que evidenciam a presença do racismo na ciência e mostra que há resistências para se incluir o branco nesse processo e entender o seu papel na perpetuação da discriminação racial (Schucman & Martins, 2017). Por isso a investigação por meio de pesquisas são importantes para desvelar caminhos de enfrentamento ao racismo e outras questões sociais que são relevantes na discussão sobre os problemas psicossociais que envolvem a população brasileira.
Considerações Finais
A pesquisa sobre o racismo pode enfrentar muitos obstáculos em um país que busca de toda forma negar seus efeitos, encobertos pela ideologia da democracia racial, a qual perpetua a ideia de igualdade entre os diversos grupos raciais. Envolvidos pelo receio de reconhecer o próprio preconceito, muitas vezes os profissionais de Psicologia podem não se dedicar aos estudos e compreensão de como essa problemática interfere nas subjetividades, causando impactos que podem ser prejudiciais à população negra. Assim, ao desenvolver a pesquisa foi pensado em propiciar um momento reflexivo, no qual os participantes pudessem se engajar no processo de pensar como sua compreensão sobre o racismo pode influenciar a prática, trazendo efeitos que podem ser devastadores para a população negra.
Observa-se que as(os) psicólogas(os) que participaram do estudo têm se envolvido na discussão e reflexão sobre o assunto, trazendo concepções diferentes sobre o racismo tanto sob uma perspectiva mais individual, quanto a estrutural. Isso é significativo, pois essa passagem de um visão individualista sobre a discriminação, mostra que o racismo não se trata de uma anomalia pontual, justificada como loucura ou problema de caráter de alguns indivíduos. Mas aponta para o racismo estrutural o qual todos introjetam desde o nascimento nos processos de socialização, ao naturalizar as desigualdades que sofre a população negra, culpabilizando-a pela história de exploração e opressão sofrida e que existe um padrão a ser idealizado, sendo o branco constituído como modelo de superioridade. Pode-se considerar como um avanço que o conceito do racismo estrutural faça parte do estudo desses profissionais, pois o trabalho de enfrentamento ao racismo envolve repensar a estrutura social para que se mude a realidade. Cabe analisar se essas mudanças de paradigmas e de compreensão sobre o racismo tem sido um empenho de alguns indivíduos ou se as instituições refletem esse trabalho crítico e incluem ações de discussão e estratégias de embate ao racismo.
Em especial, é necessário que as instituições de ensino se empenhem nessa jornada de debate sobre o racismo e as relações raciais no Brasil, analisando os aspectos sociais e históricos e como essa ideologia impacta a vida dos brasileiros. Em específico, a Psicologia precisa estar atenta à formação acadêmica de seus profissionais, aprendendo sobre o racismo enquanto componente que faz parte de nossa socialização e subjetivação, buscando reconhecer as lacunas no processo de ensino que possam acarretar em prejuízos para a população atendida.














