SciELO - Scientific Electronic Library Online

 
vol.45Psychologists’ Understanding of Racism and its Relationship with the Structuring of SubjectivitiesEthics, Racism, and Contracolonial Experiences in Psychology Work in Brazil author indexsubject indexarticles search
Home Pagealphabetic serial listing  

Services on Demand

article

Indicators

Share


Psicologia: Ciência e Profissão

Print version ISSN 1414-9893On-line version ISSN 1982-3703

Psicol. cienc. prof. vol.45  Brasília  2025  Epub Apr 28, 2025

https://doi.org/10.1590/1982-3703003272594 

Artigo

Práticas Profissionais de Psicólogos(as) em Demandas da Saúde e Segurança no Trabalho

The Professional Practices of Psychologists in Occupational Health and Safety Demands

Prácticas Profesionales de los Psicólogos en las Exigencias de la Salud y la Seguridad en el Trabajo

Daniel Santos Libardi1 

Daniel Santos Libardi Mestre em Psicologia da Universidade Federal do Espírito Santo (UFES), Vitória - ES. Brasil. E-mail: libardi.tsuru@gmail.com https://orcid.org/0000-0003-3749-2769


http://orcid.org/0000-0003-3749-2769

Alline Alves de Souza1 

Alline Alves de Souza Doutora em Psicologia da Universidade Federal do Espírito Santo (UFES), Vitória - ES. Brasil. E-mail: allineasouza@hotmail.com https://orcid.org/0000-0002-4643-8089


http://orcid.org/0000-0002-4643-8089

Alexsandro Luiz De Andrade1 

Alexsandro Luiz De Andrade Doutor em Psicologia na Universidade Federal do Espírito Santo (UFES), Vitória - ES. Brasil. E-mail: alex.psi.andrade@gmail.com https://orcid.org/0000-0003-4953-0363


http://orcid.org/0000-0003-4953-0363

1Universidade Federal do Espírito Santo, Vitória, ES, Brasil.


Resumo

O desenvolvimento teórico e técnico, ao longo do percurso de existência das ciências ligadas a Saúde e Segurança do Trabalho (SST), apontam para a evolução dos fatores a serem considerados e observados em prol da manutenção de condições saudáveis e seguras no trabalho. Diversas áreas têm produzido conhecimentos contributivos ao campo psicossocial no trabalho, inclusive a Psicologia. O objetivo deste trabalho foi identificar as práticas adotadas por profissionais de psicologia atuantes na área da saúde e segurança no trabalho. Adotou-se a teoria das representações sociais e a análise de conteúdo enquanto aportes teórico-metodológicos, utilizando questionário online como instrumento de coleta. Participaram da pesquisa 31 psicólogos (as) que atuam de forma continuada na SST. Os resultados demonstraram que na formação prevalecem psicólogos graduados em instituições privadas e pós-graduados em cursos correlatos a gestão de pessoas. Na atuação em SST, predominam procedimentos técnicos típicos da clínica, do ensino-aprendizagem, da pesquisa, da gestão organizacional e de pessoas, em sua maioria, embasadas pela Teoria Cognitivo-comportamental, Psicologia Social e Psicopatologia. São discutidas perspectivas profissionais em psicologia neste campo de atuação, contribuindo assim para o entendimento desta possível especialidade em Psicologia Organizacional e do Trabalho.

Palavras-chave: Psicologia Organizacional e do Trabalho; Saúde e Segurança do Trabalho; Práticas psicológicas

Abstract

The theoretical and technical development during the existence of sciences related to occupational health and safety point to the evolution of factors to be considered and observed to maintain occupational healthy and safe conditions. Several areas produce knowledge that contributes to the psychosocial field at work, including psychology. This study aimed to identify the practices of psychology professionals working in health and safety at work. The theories of social representations and content analysis were adopted as theoretical-methodological contributions, using an online questionnaire as a collection instrument. In total, 31 psychologists, who have continuously worked continuously in occupational health and safety participated in this study. Results showed a prevalence of participants who graduated from private institutions and graduates in people management. In the professional practice prevail clinical technics, teaching-learning, research, organizational, and people management procedures, most of which are based on cognitive-behavioral theory, social psychology, and psychopathology. Thus, this research contributed with a practical survey in this field, improving the understanding of this possible specialty in Organizational and Work Psychology.

Keywords: Organizational and Work Psychology; Work Health and Safety; Psychological Practice

Resumen

El desarrollo teórico y técnico, a lo largo de la existencia de las ciencias relacionadas con la Salud y Seguridad en el Trabajo (SST), apuntan a la evolución de los factores a ser considerados y observados a favor del mantenimiento de condiciones saludables y seguras en el trabajo. Varias áreas están produciendo conocimientos que contribuyen al campo psicosocial en el trabajo, incluida la Psicología. El objetivo de este trabajo fue identificar las prácticas adoptadas por profesionales de la psicología que actúan en el área de salud y seguridad en el trabajo. Se adoptaron como aportes teórico-metodológicos la teoría de las representaciones sociales y el análisis de contenido, utilizando como instrumento de recolección un cuestionario en línea. Participaron 31 psicólogas, que laboran de manera continua en la SST. En la formación, los resultados muestran un predominio de participantes egresados de instituciones privadas, posgraduados en gestión de personas. En la práctica, permanecen aplicando procedimientos técnicos clínicos, de enseñanza-aprendizaje, investigativos, organizacionales y de gestión de personas, en su mayoría basados en la Teoría Cognitivo-comportamental, Psicología Social y Psicopatología. De esta forma, esta investigación contribuyó con un relevamiento práctico en este campo, contribuyendo así a la comprensión de esta posible especialidad en Psicología Organizacional y del Trabajo.

Palabras clave: Psicología Organizacional y del Trabajo; Salud y Seguridad en el Trabajo; Practicas Psicológicas

Introdução

A psicologia, quando associada à saúde e segurança do trabalho (SST), dedica-se a contribuir nos processos de saúde no trabalho e suas relações com os fatores de risco e proteção à saúde do trabalhador, bem como o desenvolvimento de políticas e programas de promoção, prevenção e reabilitação no âmbito da saúde, bem-estar, qualidade de vida e segurança no trabalho (Bentivi, 2019). As contribuições dos psicólogos que atuam nessa área são essenciais, tendo em vista que há um aumento do trabalho precário em todo o mundo, diante da crescente incerteza da continuidade do trabalho, da falta de atendimento a necessidades básicas dos trabalhadores e da incidência de discriminação, assédio e condições de trabalho inseguras (Allan, Autin, & Wilkins-Yel, 2021; Rudolph et al., 2021).

Entretanto existe grande diversidade de fontes e saberes associados à psicologia quando aplicada a saúde e segurança do trabalhador. Isso pode ser observado na pluralidade de subcampos da psicologia, apresentadas tradicionalmente pela Associação Americana de Psicologia (APA), em interface com as demandas de saúde e segurança no trabalho, dentre elas: “Occupational Health Psychology” (Psicologia da Saúde Ocupacional), “Work and Organizational Psychology” (Psicologia Organizacional e do Trabalho) e “Human Factors and Engineering Psychology” (Fatores Humanos e Psicologia da Engenharia) (APA, 2013), bem como pelo desenvolvimento desses subcampos na Europa (Roe, 2018) e no Brasil (Borges-Andrade, Renteria Pérez, & Toro, 2019), ampliando ao longo da história o seu escopo de conhecimentos e competências.

Pensando na terminologia do primeiro subcampo apresentado, a Psicologia da Saúde Ocupacional (PSO) suprime o termo “segurança” apenas por uma questão de abreviação, já que um de seus principais objetivos é a busca pela segurança ocupacional (Hofmann, Burke, & Zohar, 2017; Sauter & Hurrell, 2017). Revisando brevemente essa área, os primeiros passos da PSO remetem ao surgimento das teorias clássicas do estresse no início do século XX, perdurando até hoje com a incorporação de um arcabouço teórico que faz referência a modelos e normas de gestão de saúde ocupacional (Carlotto et al., 2018). Zwetsloot, Leka, Kines e Jain (2020) enfatizam em seus estudos uma visão de saúde total do trabalhador, o que envolve a integração entre segurança, saúde e bem-estar dos indivíduos.

Por sua vez, na Psicologia Organizacional e do Trabalho (POT), que tem suas raizes no final do seculo XIX e início do século XX, os psicólogos atuam no sentido de apoiar a gestão organizacional e melhorar as relações entre organizações e trabalhadores, sendo notória sua produção científica em diversos países, com maior representatividade nos Estados Unidos, de maneira que a consolidação científica da POT está respaudada em seu volume de linhas de pesquisa, publicação de artigos, pela existência de revistas e sociedades científica em vigor dentro e fora do Brasil, sendo realizados congressos específicos da área periodicamente para pesquisadores e profissionais (Borges-Andrade et al., 2019; Sott et al., 2020).

Por fim, o subcampo Fatores Humanos e Ergonômicos (FHE), que surgiu nos anos de 1950 a partir de uma visão sistêmica sobre o trabalho, busca promover o melhor ajuste entre os fatores humanos e ergonômicos com foco nos resultados em segurança, conforto, produtividade, usabilidade e bem-estar, por meio da análise do meio ambiente (a organização, os recursos e as tarefas realizadas), do operador (sobretudo em suas capacidades e respostas cognitivas) e do maquinário (controles, programações e procedimentos). Por isso este subcampo é uma ciência multidisciplinar que apresenta perspectiva unificada de ciências como engenharia, design, tecnologia e gerenciamento de sistemas compatíveis aos fatores humanos. Dessa forma os(as) psicólogos(as) que atuam neste subcampo buscam o entendimento da tecnologia para melhorar as interações das pessoas com os sistemas e equipamentos de trabalho (Thatcher, Waterson, Todd, & Moray, 2018).

A diversidade dos subcampos da psicologia que se dedicam a atuar em demandas de SST provavelmente contribuem para que os(as) psicólogos(as) que atuam na área possam desenvolver uma ampla gama de práticas profissionais que possam trazer um impacto direto na redução de acidentes e adoecimentos relacionados ao trabalho. Todavia, a atuação na área envolve muitos desafios que abrangem a falta de formação para atuação prática qualificada, a dificuldade em constituir e articular uma rede de serviços que garanta a atenção integral à saúde do trabalhador, o predomínio de uma atuação predominantemente tecnicista que prioriza o desenvolvimento de atividades operacionais e de baixa complexidade, contribuindo para uma visão incompleta da identidade profissional e a dificuldade em promover a saúde e segurança dos trabalhadores, sobretudo em organizações que fazem cobranças excessivas por produtividade, afetando diretamente a qualidade de vida de seus colaboradores (Keppler & Yamamoto, 2020; Zimmermann & Berni, 2020).

Diante disso, o objetivo desta pesquisa foi analisar as práticas de profissionais psicólogos(as) atuantes em demandas da SST, a partir da identificação das abordagens utilizadas, procedimentos técnicos, ferramentas/instrumentos de trabalho, objetivos da psicologia aplicada a este contexto de atuação, compreendendo ainda a visão dos participantes sobre os principais impactos das intervenções psicológicas neste campo.

Método

Participantes

O método adotado na pesquisa foi qualitativo, de cunho descritivo e exploratório. Fizeram parte de uma amostra de conveniência não-probabilística psicólogos(as) de diferentes regiões do território nacional, atuantes em SST em diversos ramos de atividades econômicas, sejam em organizações públicas, privadas ou mistas. Participaram 31 psicólogos(as) que atuam na área da SST de forma exclusiva, prioritária ou secundária, ou seja, de forma continuada (não ocasional) sendo critério de inclusão ou exclusão a autodeterminação e declaração do participante por meio do Termo de Compromisso Livre e Esclarecido (TCLE).

Não foram incluídos neste estudo psicólogos(as) que atuam no campo da SST de forma descontinuada, ou seja, psicólogos(as) que apenas ocasionalmente oferecem ou já ofereceram algum tipo de serviço na área e que declaradamente não tinham este campo como uma atividade contínua em sua atuação profissional. Tal escolha se justifica pelo esforço em buscar uma amostra mais representativa da atuação do(a) psicólogo(a) em SST, objetivando de forma mais efetiva alcançar uma similaridade de informações que pudessem constituir-se enquanto representações sociais (Moscovici, 2013), sendo relevantes para esta área de atuação.

Instrumento

O instrumento de coleta foi dividido em dois blocos de questões: um relativo à identificação sociodemográfica com itens de múltipla escolha e abertos que investigavam dados pessoais e acadêmicos dos participantes e outro bloco constituído somente de questões abertas sobre as práticas profissionais do(a) psicólogo(a) em SST.

Faz-se importante destacar que, antes da aplicação do questionário, foram realizados pré-testes com a população em estudo para proceder a validação semântica do instrumento, visando avaliar a consistência dos itens e adequação semântica do texto. Três (03) profissionais psicólogos responderam ao questionário, sendo assim ajustados os termos a fim de utilizar um vocabulário mais acessível para os participantes da pesquisa e reduzir o conteúdo das instruções de preenchimento do questionário, a fim de que o texto ficasse mais objetivo e o questionário oferecesse maior fluidez ao respondente.

Procedimentos de coleta de dados

É importante frisar que foram seguidos todos os procedimentos éticos pertinentes a pesquisa com seres humanos, obedecendo a Resolução 466/12 do Conselho Nacional de Saúde (CNS). Dessa forma, esta pesquisa foi apresentada ao Comitê de Ética e Pesquisa da Universidade Federal do Espírito Santo, sendo devidamente registrado seu parecer positivo para que a pesquisa fosse realizada sob o Certificado de Apreciação Ética (CAAE) de no 53752821.4.0000.5542. Dessa forma, a coleta de dados foi efetivamente realizada pelos participantes somente após a assinatura do TCLE, declarando a participação voluntária na pesquisa.

Visando obter uma amostra nacional, a coleta de dados foi realizada de forma virtual, por meio digital em formato de questionário semi-estruturado (com questões de múltipla escolha e abertas). Com o objetivo de recrutar um maior número de possíveis participantes para este estudo, dentro dos critérios estabelecidos, a divulgação da pesquisa foi feita a partir de convocatória por meio de redes sociais relacionadas à Psicologia e SST. Este convite para participação foi realizado por meios virtuais diversificados, sempre por meio de uma comunicação formal padronizada, com link e QR Code disponível para acesso e participação.

Visando garantir maior adesão de participantes à pesquisa, é importante ressaltar que foram feitos contatos telefônicos em igual proporção para organizações dos três setores (público, privado e organizações mistas), convidando psicólogos formalmente à pesquisa e indicando o acesso pelo link ou QR Code referido no e-mail. Foram acompanhadas as inserções de respostas dos participantes a cada nova participação, revisando a pertinência e completude das respostas, evitando que a qualidade do preenchimento fosse comprometida caso algum participante viesse a inserir informações de maneira aleatória ao questionário. Não foi preciso excluir a participação de nenhum sujeito do público pesquisado, chegando-se ao quantitativo de 31 profissionais.

Procedimentos de análise de dados

As questões que compreendem a identificação sociodemográfica foram quantificadas e planilhadas a partir das respostas objetivas e categóricas dos participantes, sendo assim realizada a análise exploratória desses dados e extraídos percentuais possibilitando caracterizar o público participante da pesquisa.

As questões abertas investigaram dados sobre os procedimentos técnicos utilizados, os objetivos profissionais, as ferramentas e/ou instrumentos que fazem parte das práticas profissionais e os principais impactos das práticas profissionais do psicólogo em demandas de SST foram analisadas a partir da técnica de análise de conteúdo temática de Bardin (2016).

A análise de conteúdo, conforme proposta por Bardin (2016), foi empregada com objetivo de identificar as unidades de sentido nas respostas dos participantes para que fosse possível fazer o agrupamento das unidades de sentido em subcategorias temáticas e o agrupamento de subcategorias temáticas em categorias de análise. Esse processo de análise qualitativa incluiu as seguintes fases:

Pré-análise: consistiu-se na organização de todas as respostas dos participantes em uma planilha de dados com o objetivo de facilitar a leitura flutuante e a formulação de hipóteses iniciais.

Exploração do material: foi realizada primeiramente de forma individual por cada analista e depois eram realizadas análises em grupo com o objetivo de promover ajustes terminológicos nos temas e conferir a exatidão dos valores das frequências contabilizadas por cada tema e categoria, visando conferir maior confiabilidade ao processo de codificação e classificação temática em categorias de análise. Essas categorias foram criadas a partir da definição de critérios de inclusão e exclusão dos temas em cada categoria, para que elas fossem mutuamente excludentes, ou seja, os temas inseridos em uma categoria não poderiam ser inseridos em outra categoria. Para atender ao critério da exaustividade as categorias criadas envolveram análises dos conteúdos encontrados nas respostas dos participantes (Carlomagno & Rocha, 2016).

Tratamento dos resultados, inferência e interpretação: o tratamento consistiu na aplicação de técnicas descritivas de análise a partir do cálculo do somatório e do percentual dos temas e das respectivas categorias de análise. A inferência e interpretação dos resultados foi feita com base na literatura da área acerca da prática profissional do psicólogo no campo da SST.

Resultados

Perfil dos profissionais atuantes em SST

Pela análise sociodemográfica percebeu-se na amostra de 31 profissionais a prevalência do público feminino (25 participantes) em contraponto ao masculino (seis participantes). Oriundos(as) em sua maioria de instituições de ensino privadas (23 participantes / 74,2%) verificou-se que quase a totalidade dos(as) participantes da pesquisa possuem cursos de pós-graduação (28 participantes / 90,3%). Ao analisar os campos de formação das especializações realizadas pelos(as) profissionais foi possível evidenciar que grande parte da amostra obteve, após a graduação, uma apropriação teórica e técnica prevalecente no campo da Gestão de Pessoas (15 participantes / 48%), tais como Psicologia Organizacional e do Trabalho ou Recursos Humanos.

Os dados da pesquisa apontam que a maior parte dos participantes atuam no setor privado (25 / 80%), dedicando-se exclusivamente a demandas da SST (18 / 58,1%), podendo possivelmente apresentar maior vinculação com a área, bem como maior apropriação prática para falar das questões que envolvem o fazer profissional do(a) psicólogo(a) na SST.

Com relação às concepções teóricas e abordagens que suportam e dão referência para o exercício das práticas profissionais, foi evidenciada a prevalência no uso da Teoria Cognitivo-comportamental (18), seguida da Psicopatologia (6), Psicologia Social (4), Psicodinâmica do Trabalho (4) e outras abordagens em menor expressão quantitativa. É importante destacar que uma parte significativa das respostas neste quesito foi considerada não pertinente à pergunta (11). Isso ocorreu porque os participantes mencionaram produtos específicos desenvolvidos e comercializados por empresas privadas que atuam na área de SST, em vez de discutirem concepções teóricas ou abordagens psicológicas tradicionais, normalmente abordadas no currículo de graduação em Psicologia.

Procedimentos e técnicas dos(as) psicólogos(as) em SST

Ao analisar as respostas da questão que investigava os procedimentos técnicos utilizados pelos participantes em demandas da SST, obteve-se o total de 91 temas que foram categorizados, evidenciando que os procedimentos técnicos mais prevalecentes eram clínicos, educacionais e de promoção da SST, como pode ser visto na Tabela 1.

Tabela 1 Categorização dos Procedimentos Técnicos Utilizados em Demandas de SST. 

Categoria Definição Quantidade
Clínico Procedimentos de avaliação e atendimento psicológico a partir da utilização de diferentes ferramentas e abordagens, contemplando procedimentos de acolhimento, aconselhamento, suporte, encaminhamentos e afins. 21
Educação Procedimentos de educação em saúde e segurança no trabalho realizados por meio de treinamentos, palestras, programas educacionais, workshops, capacitações, exercícios e construção de material educativo, abordando fatores psicossociais, percepção de risco, segurança no trabalho e Política Nacional de Saúde do Trabalhador. 16
Promoção Procedimentos de promoção de saúde e segurança no trabalho que envolvem práticas de avaliação psicológica a partir da utilização de instrumentos, técnicas e intervenções que envolvem diferentes abordagens teóricas, atividades grupais e encaminhamentos que visam garantir a prevenção de riscos ocupacionais e a promoção da saúde e segurança do trabalhador. 15
Pesquisa Procedimentos de pesquisa qualitativa e quantitativa em saúde e segurança no trabalho que envolvem elaboração e aplicação de questionário, realização de entrevista, revisão de literatura e mapeamento de competências. 12
Gestão Procedimentos que envolvem a gestão em saúde e segurança no trabalho, são eles: consultoria, planejamento, atividades relacionadas ao provimento operacional e corporativo, reuniões, tarefas administrativas e elaboração de relatórios e indicadores de ações. 11
Vigilância Procedimentos de vigilância em saúde e segurança no trabalho que abrangem a utilização de técnicas para análise das causas de acidentes de trabalho, notificação compulsória de transtornos mentais relacionados ao trabalho, investigação epidemiológica, inspeções e visitas em ambientes de trabalho. 8
Normas e Legislações Procedimentos realizados com base em normas regulamentadoras e legislações que dispõem sobre a saúde e segurança no trabalho, bem como normas organizacionais/institucionais e código de ética profissional do psicólogo. 8
Total 91

Com interesse em entender o conjunto de ferramentas e/ou instrumentos de trabalho tipicamente utilizados por psicólogos(as) em demandas de SST, foi questionado aos participantes quais instrumentos fazem parte de suas práticas de atuação profissional, obtendo-se temas (69) que se referem aos instrumentos privativos da atuação em psicologia e aos instrumentos utilizados por profissionais de diferentes áreas vinculados a área de SST, conforme pode ser verificado na Tabela 2.

Tabela 2 Categorização das Ferramentas/Instrumentos de Trabalho Utilizados em Demandas de SST. 

Categorias Definição Quantidade
Diagnóstico clínico Instrumentos diagnósticos utilizados em âmbito clínico individual, de cunho avaliativo e/ou psicométricos. 15
Mapeamento Organizacional Instrumentos para levantamento e/ou qualificação de dados organizacionais, valendo-se de questionários e/ou métricas psicossociais. 11
Procedimentos técnicos Atividades profissionais ou procedimentos técnicos não específicos, tipicamente realizado pela psicologia enquanto atividade ou produção documental. 10
Análise e manejo comportamental Ferramental metodológico utilizado para análise e manejo de processos e comportamentos relacionados à segurança. 9
Comunicacionais Ferramentas que envolvem o processo de comunicação visual, instrucional, analítico-organizacional e interpessoal. 6
Rastreio remoto de riscos para atividades laborais Tecnologias de uso remoto, tais como aplicativos, softwares ou telemetria, para rastreio/identificação de riscos individuais e/ou situacionais relacionados a atividades laborais. 6
Intervenção grupal Ferramental metodológico utilizado na condução de trabalhos em grupo, visando o acolhimento, compreensão, análise e intervenção em demandas coletivamente. 4
Educativas Ferramentas de cunho educativo e didático que auxiliam abordagens e procedimentos técnicos como capacitações, treinamentos e afins. 4
Computacional Estrito recurso tecnológico material para utilização em procedimentos técnicos do(a) psicólogo(a), tais como relatórios, planilhamentos, avaliações, laudos etc. 2
Política/normas Recurso normativo e/ou legal em que se respalda o profissional psicólogo para execução de atividades específicas, de maneira procedural e/ou metodológica 2
Total 69

Entre os 69 temas citados nas respostas dos participantes, 15 temas se referiram a ferramentas voltadas para o diagnóstico clínico, prevalecendo instrumentos utilizados no âmbito clínico individual, de cunho avaliativo e/ou psicométricos, tais como testes cognitivos, de atenção, raciocínio e personalidade, associando seu uso à prática clínica prevalecente enquanto procedimentos apontados anteriormente. Também em forte prevalência, destacam-se nos resultados dessa questão as ferramentas de “Mapeamento Organizacional”, entendidos como instrumentos para levantamento e/ou qualificação de dados organizacionais, valendo-se de questionários e/ou métricas psicossociais.

Escopo da Psicologia na SST

Os participantes também foram conduzidos a refletir sobre o objetivo desta psicologia voltada a demandas SST, ou seja, quais seriam os objetivos da atuação profissional do(a) psicólogo(a) uma vez lidando com demandas da SST. A partir das respostas dos participantes detalhando objetivos diversos foi possível obter 96 temas que revelaram a amplitude do escopo de atuação desse profissional.

Tabela 3 Objetivos da Atuação Psicológica em Demandas da SST. 

Categorias Definições Quantidade
Treinar e desenvolver o trabalhador Planejar e executar ações de treinamento e desenvolvimento que visam desenvolver competências técnicas, socioemocionais, interpessoais e comportamentais do trabalhador. 22
Compreender e prevenir acidentes e agravos Prevenir acidentes e agravos por meio de atuação multidisciplinar que envolva a compreensão e a intervenção sobre contextos, comportamentos, riscos psicossociais e fatores de proteção. 21
Promover a saúde e o bem-estar Promover bem-estar, qualidade de vida, saúde mental e segurança psicológica e preservação da vida do trabalhador. 16
Melhorar aspectos organizacionais Promover a gestão de fatores organizacionais a partir da transformação da cultura, promoção da sustentabilidade e otimização de processos. 15
Prover assistência à saúde do trabalhador Oferecer ações de assistência à saúde do trabalhador a partir da avaliação clínica, promoção de cuidado e suporte e reabilitação. 12
Melhorar o ambiente de trabalho Intervir no ambiente de trabalho, visando torná-lo mais saudável. confortável e com condições seguras. 10
Total 96

Na análise de conteúdo sobre os objetivos da atuação do psicólogo, percebe-se a relevância de temas que envolvem “fatores de riscos psicossociais” como meio de “compreender e prevenir acidentes e agravos”. Ao referir o objetivo de “melhorar aspectos organizacionais” destaca-se o tema “cultura” nas respostas, quanto ao objetivo de “treinar e desenvolver o trabalhador” destacam-se temas voltados ao “desenvolvimento de competências socioemocionais, comportamentais, interpessoais e técnicas”.

Impactos da atuação do psicólogo(a) no campo da SST

Aproximando-se de um entendimento sobre os resultados da atuação profissional do(a) psicólogo(a) junto a demandas da saúde e segurança do trabalho foi questionado aos participantes, de acordo com o que cada um tem verificado em suas experiências, o que percebem como principais impactos dessa atuação. Foi possível obter 82 unidades de sentido a partir das respostas e categorizar os 9 impactos principais verificados por eles. Esses impactos são descritos na Tabela 4.

Tabela 4 Impactos da Atuação do(a) Psicólogo(a) em SST. 

Categorias Definição Quantidade
Comportamento Impactos que geram mudanças de comportamento que incluem a adesão ao comportamento mais participativo e engajado. 22
Segurança Impactos que propiciam a criação de espaços seguros, a prevenção/diminuição de acidentes, a prevenção da incapacidade de realização das atividades laborais, a redução dos afastamentos e a identificação de riscos laborais. 14
Bem-estar e qualidade de vida Impactos que promovem conforto sobre o sentimento de existência da pessoa em seu trabalho, bem como a melhoria da qualidade de vida do trabalhador, tanto no âmbito pessoal como no ambiente de trabalho. 10
Saúde Impactos na promoção da saúde ao trabalhador, no tratamento de suas demandas de saúde mental, que viabilizam sua reabilitação, reduzindo o estresse e o adoecimento. 8
Relações interpessoais Impactos que qualificam as relações interpessoais, qualificando a ética, segurança psicológica, humanização e clima organizacional. 8
Organização/gestão Impactos que melhoram a eficácia os processos de gestão e a segurança organizacional. 7
Cultura Impactos que geram mudança cultural, elevando a maturidade em segurança. 5
Desenvolvimento Impactos que geram o desenvolvimento de competências dos trabalhadores, melhora na comunicação e conscientização. 4
Produtividade Impactos que elevam a produtividade e funcionalidade do trabalhador. 4
Total 82

Foi possível inferir a partir das respostas dos participantes que esses impactos estão correlacionados entre si. As respostas descrevem, em maior frequência, a atuação da psicologia na área da SST como capazes de impactar de formas diversas a mudança do comportamento, elevando a participação e engajamento com a saúde e segurança, configurando-se como um processo educativo, ou seja, de letramento em saúde e segurança. Destaca-se ainda que o item em menor frequência nas respostas diz respeito a produtividade e desempenho dos colaboradores, dado que nos faz refletir sobre o compromisso da psicologia na área da SST, já que o item é apresentado com menor prioridade.

Discussão

Este estudo exploratório objetivou compreender a atuação de profissionais psicólogos(as) em SST. Iniciou pelo entendimento do perfil sociodemográfico desse público, formado em sua maioria por profissionais de instituições privadas, com especialização no campo da “Gestão de Pessoas” e áreas afins, prevalecendo uma dedicação exclusiva a demandas da SST e utilizando a abordagem cognitivo-comportamental em suas atividades.

Os procedimentos e técnicas mais prevalecentes dos(as) psicólogos(as) atuantes em demandas da SST são os clínicos, educacionais e de promoção da SST. Foi possível verificar que os instrumentos tipicamente utilizados por esses profissionais são diversos tanto os aplicáveis em diferentes áreas da Psicologia, como peculiares a área de SST, o escopo dessa área de atuação da Psicologia possuí objetivos de atuação que vão desde o treinamento e desenvolvimento do trabalhador até intervenções a nível organizacional e nos ambientes de trabalho.

A influência da abordagem comportamental fundamentando a atuação desses psicólogos(as) é um aspecto já observado em outros estudos brasileiros realizados com profissionais atuantes no campo da SST (Simonelli, Jackson Filho, Vilela, & Almeida, 2016). Essa abordagem está presente em estudos clássicos sobre a promoção da segurança no ambiente de trabalho (Geller, 2001). Com o tempo, o campo da SST passou a incorporar novos aspectos, como a investigação de fatores cognitivos que influenciam comportamentos inseguros (Goh & Binte Sa’adon, 2015). Além disso, estudos mais recentes exploram processos cognitivos e sociais que mediam a relação entre o clima de segurança organizacional, a conformidade e os comportamentos de segurança proativos (Fugas, Silva, & Meliá, 2012).

Considerando que os participantes possuem preponderantemente especialização no campo da “Gestão de Pessoas” e áreas afins, é possível perceber uma defasagem na formação do(a) psicólogo(a) em bases teóricas e metodológicas específicas no campo da SST, da Psicologia da Saúde Ocupacional ou ainda, em Fatores Humanos e Ergonômicos (FHE). A falta de formação específica pode dificultar uma atuação qualificada, que demanda entendimento de especificidades no processo de promoção de saúde e segurança no ambiente laboral. No atual contexto de perdas de direitos trabalhistas que culminam na precarização das condições de trabalho e dos vínculos empregatícios, a formação de profissionais que atuam no âmbito de SST é essencial para o enfrentamento desse cenário de forma ativa (Mattos, Castro, Cavalcante, & Dias, 2019).

Esta pesquisa também possibilitou verificar que os conhecimentos em Gestão de Pessoas e Psicologia Organizacional e do Trabalho (POT) têm sido a base formal de especialização da maior parte dos participantes. Colaborando com esse cenário, entidades representativas na Psicologia conjugam esforços para propor mudanças substanciais na qualidade da formação e práticas profissionais que fazem interface com a SST (Bentivi, 2019; CFP, 2022; Associação Brasileira de Psicologia Organizacional e do Trabalho [SBPOT], 2020).

A literatura dedicada ao estudo da atuação em POT aponta um nível de dedicação exclusiva de 61% (Bendassoli & Borges-Andrade, 2015). Segundo os dados desta pesquisa, 57% da amostra atua exclusivamente com a SST. Tal similaridade aponta para a necessidade de entender se é possível fazer essa comparação distinguindo áreas ou se, na verdade, não haveria distinção entre essas atuações.

Para o que ampara tecnicamente o Manual de Competências para Atuação em POT (SBPOT, 2020) a atuação do psicólogo organizacional em SST é definida como:

. . . intervenção nos processos de saúde no trabalho e suas relações com os fatores de risco e proteção à saúde do trabalhador, bem como o desenvolvimento de políticas e programas de promoção, prevenção e reabilitação no âmbito da saúde, bem-estar, qualidade de vida e segurança no trabalho (p. 17).

Essa definição se relaciona diretamente às práticas levantadas nesta pesquisa, sendo possível qualificar que os(as) psicólogos(as) desempenham atividades no âmbito da promoção da saúde, segurança e pesquisa, coletando informações para prevenção e/ou intervenção junto aos trabalhadores e à Organização, bem como a atuação no âmbito da gestão, da vigilância em saúde e segurança e atendimento a normas e legislações. Contudo, vale somar a essa discussão sobre as práticas, os esforços científicos para maior compreensão dos riscos psicossociais (Carlotto et al., 2018), dialogando desenvolvimento científico as realidades das práticas atuais em POT no Brasil (SBPOT, 2020), uma vez que em alguns contextos centram-se, ainda, nos processos de gestão de pessoas e recrutamento e seleção (Gusso et al., 2019).

Conforme demonstram os resultados desta pesquisa com psicólogos(as) no Brasil, a Gestão de Pessoas e a Psicologia Organizacional e do Trabalho (POT) são as bases teóricas que fundamentam a especialização e a atuação da maioria dos profissionais que lidam com demandas de SST. Dessa forma, não seria coerente fazer uma distinção entre atuação em SST e em Psicologia Organizacional e do Trabalho. Além disso, é fundamental considerar que a POT abrangeu suas colaborações em diferentes campos, desde a sociologia à ergonomia cognitiva (Zanelli, Borges-Andrade, & Bastos, 2014) abarcando diversos temas de habilidades, desempenho, clima e cultura (Giberson, 2015) à acidentes de trabalho (Madalozzo & Zanelli, 2016), produzindo conceitos, tecnologias e profissões que atualmente povoam diversos territórios, inclusive o da saúde do trabalhador (Malvezzi, 2015).

Apesar de alguns estudos apontarem a tendência do profissional de POT a ocupar posições mais estratégicas nas empresas (Rocha & Wechsler, 2017), pode-se perceber que os(as) psicólogos(as) que trabalham com SST atuam predominantemente em práticas junto ao trabalhador, apesar de atuarem com vistas a envolver toda a Organização. Esse tipo de atuação está representada em uma das atribuições do Psicólogo do Trabalho no Código Brasileiro de Ocupações (Ministério do Trabalho e Emprego, 2022), ao delinear que o(a) psicólogo(a) atua como consultor interno/externo, participando do desenvolvimento das organizações sociais, para facilitar processos de grupo e de intervenção psicossocial nos diferentes níveis hierárquicos de estruturas formais.

Os resultados desta pesquisa apontam que os(as) psicólogos(as) têm atuado em demandas da SST aplicando procedimentos diversos, típicos da clínica psicológica (tais como atendimentos e avaliações psicológicas), o que coaduna com o último censo da Psicologia apontando a clínica como prática predominante em todas as regiões brasileiras, sobretudo por estar inserida em combinação com outras áreas (CFP, 2022), tal como foi averiguado junto aos psicólogos que atuam em SST.

Os resultados encontrados mostraram também que os participantes têm se dedicado consideravelmente às práticas educativas. Isso pode ser reflexo do aumento dos investimentos das organizações em ações educacionais, haja visto que esses procedimentos podem ocasionar benefícios para equipes, organizações e sociedade à medida que podem contribuir para o desenvolvimento de competências relacionadas a saúde e segurança no trabalho (Bell, Tannenbaum, Ford, Noe, & Kraiger, 2017).

Em termos dos instrumentos de trabalho utilizados em demandas de SST, destacam-se primeiramente, os da clínica psicológica, utilizados em abordagens individuais, de cunho avaliativo e/ou psicométrico. É possível confirmar nos resultados desta pesquisa, que o psicólogo(a) carrega em suas práticas relevante influência de uma tradição de atuação clínica (Borges-Andrade, Bastos, Andery, Guzzo, & Trindade, 2015), confirmando que a identidade desse profissional continua ainda fortemente associada ao modelo clínico de intervenção (Piasson & Freitas, 2022).

Apesar disso, como definiu pioneiramente Bendassoli (2011), a clínica é uma das vias fundamentais para o entendimento do trabalho, neste sentido o(a) psicólogo(a) vem conquistando importante espaço no âmbito da clínica ocupacional. Esse processo tem sido evidenciado na própria evolução do amparo técnico para atendimento de avaliações psicossociais no contexto das normas regulamentadoras do Ministério do Trabalho (Normas Regulamentadoras - NRs), a fim de contribuir na avaliação da saúde mental do trabalhador para que eles possam atuar em atividades críticas (CFP, 2022; Resolução n o 2, de 14 de junho de 2023). Apesar de ter sido um grande avanço legal em termos de amparo normativo para a atuação do psicólogo em demandas da SST, essa é apenas uma das possibilidades de atuação do psicólogo na área, frente aos 91 procedimentos técnicos relatados pelos participantes deste estudo.

Apesar da pesquisa ter revelado que a atuação prevalecente do psicólogo em demandas da SST está em práticas clínicas, os dados da pesquisa demonstram o uso de instrumentos para levantamento e/ou qualificação de dados organizacionais. Alguns dos mais utilizados são os questionários e/ou métricas psicossociais, procedimentos técnicos e documentais ligados à identificação de fatores de risco e proteção à saúde do trabalhador (SBPOT, 2020).

Ainda em número expressivo, os participantes relatam o uso de ferramental metodológico de análise e manejo de processos e comportamentos relacionados à segurança, seguidos por instrumentos de natureza comunicacional, rastreio remoto de riscos para atividades laborais, ferramenta para intervenção em grupos, instrumentos educativos e computacionais, diversidade instrumental que coaduna com a abrangência da POT (Carlotto et al., 2018; Madalozzo & Zanelli, 2016) e com a diversidade das demandas relacionadas a saúde no trabalho (Sauter & Hurrell, 2017).

A pesquisa também chegou a resultados detalhados sobre os objetivos dessa atuação da psicologia em demandas da SST, segundo o público pesquisado prevalecem as seguintes prioridades: A pesquisa também trouxe resultados detalhados sobre os objetivos da atuação da Psicologia em demandas de SST. De acordo com os participantes, as prioridades mais prevalentes são: a) treinar e desenvolver o trabalhador; b) compreender e prevenir acidentes e agravos; c) promover a saúde e o bem-estar; d) melhorar aspectos organizacionais; e) oferecer assistência à saúde do trabalhador; e e) aprimorar o ambiente de trabalho. O aspecto em comum na consecução desses objetivos é uma atuação englobando uma multiplicidade de fatores que envolvem a SST, que vão desde emocionais, passam por recursos organizacionais e alcançam questões ambientais e socioculturais, um olhar holístico presente em estudos de diferentes vertentes que relacionam a psicologia com a SST (Hofmann et al., 2017; Hollnagel, Wears, & Braithwaite, 2015; Leka & Houdmont, 2010; Sott et al., 2020).

Os objetivos da atuação em demandas da SST citados pelos participantes reforçam que os profissionais da área devem se comprometer com uma atuação abrangente, focada no entendimento do trabalhador e do ambiente de trabalho como um todo (Zanelli et al., 2014; Sott et al., 2020) possibilitando o desenvolvimento de estratégias mais efetivas de prevenção ao adoecimento, promoção da saúde e desenvolvimento da qualidade de vida e da segurança no trabalho.

Quando analisados qualitativamente, os objetivos da atuação do psicólogo em demandas de SST reforçam a similaridade com práticas teóricas estabelecidas no campo da POT. Isso inclui o apoio à gestão organizacional e a melhoria das relações entre organizações e trabalhadores (Sott et al., 2020), bem como a compreensão do comportamento organizacional e dos indivíduos no ambiente de trabalho. A atuação do psicólogo em SST visa, portanto, promover o bem-estar e a produtividade, avaliando as dinâmicas individuais, grupais e organizacionais, além de identificar soluções para problemas dos colaboradores e da organização, contribuindo para a prosperidade de ambos (APA, 2013).

Contudo, a pesquisa apontou que aplicar esse olhar na abordagem psicológica ainda é um grande desafio na prática profissional, sobretudo pela falta de investimento na área e baixa compreensão do trabalho da psicologia na SST por parte de gestores e outros envolvidos nas demandas. Somado a isto, a tradição da prática clínica do psicólogo, inclusive no âmbito do trabalho (Araújo & Barros, 2019), ainda é prevalecente, reforçando o trabalho da psicologia em prol da mudança do comportamento do trabalhador e do seu psiquismo.

Os participantes apontam na pesquisa sobre a restrita formação acadêmica para atuar na área e a dificuldade de se qualificar nesse campo devido à escassez de estudos, de literatura específica acessível, de cursos e de material didático amplamente divulgados. Esses dados apontam para uma necessidade de maior produção e sobretudo divulgação ampla de conteúdos científicos e trabalhos na interface entre Psicologia e SST no Brasil, favorecendo caminhos para a formação de psicólogos(as) no campo.

Em relação aos impactos da atuação do(a) psicólogo(a) no campo da SST, verificam-se diferenças sutis em sua natureza. Os impactos mencionados incluem a mudança de comportamento, o desenvolvimento da segurança, e o aumento do bem-estar, saúde e qualidade de vida. Além disso, a melhoria das relações interpessoais, a gestão organizacional, o fortalecimento da cultura de segurança, o treinamento e desenvolvimento de competências, e o aumento da produtividade estão entre outras práticas relevantes. Esses fatores refletem o interesse crescente pelo bem-estar no trabalho em estudos e intervenções da Psicologia Organizacional e do Trabalho (Carneiro & Bastos, 2020).

Verificou-se na pesquisa que esses impactos são confluentes e interdependentes, ou seja, o desenvolvimento de competências técnicas associa-se diretamente as mudanças comportamentais; a melhoria da eficácia nos processos de gestão está diretamente ligada à produtividade; a mudança cultural gera impactos no comportamento do trabalhador, entre outras diversas relações evidenciadas a partir das inferências sob os termos e expressões presentes nas respostas dos participantes, reforçando a visão de saúde integral presente no campo da Psicologia da Saúde Ocupacional (Sauter & Hurrell, 2017).

Em uma reflexão metodológica desta pesquisa, destaca-se a importância da análise de conteúdo (Bardin, 2016) para compreender as práticas profissionais dos(as) psicólogos(as). A evidente similaridade das respostas propiciou o entendimento das representações sociais (Moscovici, 2013) que o grupo (Campos & Lima, 2018) de psicólogos tem sobre a própria área de atuação, expondo detalhamentos sobre como pensam as práticas psicológicas no campo da saúde e segurança do trabalho.

Por fim, analisar o que os(as) psicólogos(as) têm realizado, contribuiu para a caracterização das práticas profissionais e assim para a proposição de ações em prol da saúde e segurança no trabalho. Num país em que os índices de acidentes de trabalho são alarmantes, um olhar sobre a realidade profissional se mostra pertinente e interessante para instrumentalizar o trabalho do psicólogo no âmbito da SST, bem como fomentam futuras pesquisas e trabalhos em prol dessa interface teórica e prática.

Referências

Associação Brasileira de Psicologia Organizacional e do Trabalho [SBPOT]. (2020). Competências para a atuação em psicologia organizacional e do trabalho: Um referencial para a formação e qualificação profissional no Brasil. UniCEUB, 2020. https://repositorio.uniceub.br/jspui/bitstream/prefix/14119/8/Ebook%20SBPOT.pdfLinks ]

Allan, B. A., Autin, K. L., & Wilkins-Yel, K. G. (2021). Precarious work in the 21st century: A psychological perspective. Journal of Vocational Behavior, 126, e103491. https://doi.org/10.1016/j.jvb.2020.103491Links ]

American Psychological Association [APA]. (2013). Psychology Subfields. https://www.apa.org/education-career/guide/subfieldsLinks ]

Araújo, J. N. G., & Barros, V. A. (2019). A Psicologia do trabalho e as clínicas do trabalho no Brasil. Laboreal, 15(2), 1-13. https://doi.org/10.4000/laboreal.15515Links ]

Bardin, L. (2016). Análise de Conteúdo. Edições 70. [ Links ]

Bendassoli, P. F. (2011). Crítica às apropriações psicológicas do trabalho. Psicologia & Sociedade, 23(1), 75-84. https://doi.org/10.1590/S0102-71822011000100009Links ]

Bendassoli, P. F., & Borges-Andrade, J. E. (2015). Dicionário de psicologia do trabalho e das organizações. Casa do Psicólogo. [ Links ]

Bentivi, D. (Org). (2019). Manual de Psicologia Organizacional e do Trabalho. Conselho Regional de Psicologia do Maranhão. [ Links ]

Bell, B. S., Tannenbaum, S. I., Ford, J. K., Noe, R. A., & Kraiger, K. (2017). 100 years of training and development research: what we know and where we should go. Journal of Applied Psychology, 102(3), 305-323. https://doi.org/10.1037/apl0000142Links ]

Borges-Andrade, J. E., Bastos, A. V. B., Andery, M. A. P. A., Guzzo, R. S. L., & Trindade, Z. A. (2015). Psicologia brasileira: uma análise de seu desenvolvimento. Universitas Psychologica, 14(3), 865-880. https://doi.org/10.11144/Javeriana.upsy14-3.pbuaLinks ]

Borges-Andrade, J. E., Renteria Pérez, E., & Toro, J. P. (2019). Organizational/Work Psychology in Latin America. In R. Ardila (Ed.). Psychology in Latin America: Current status, challengers and perspectives (pp. 105-158). Sprinter. [ Links ]

Campos, P. H. F., & Lima, R. C. P. (2018). Capital Simbólico, Representações sociais, grupos e o campo do reconhecimento. Cadernos de Pesquisa, 48(167), 100-127. https://doi.org/10.1590/198053144283Links ]

Carlotto, P. A. C., Cruz, R. M., Guilland, R., Rocha, R. E. R., Dalagasperina, P., & Ariño, D. O. (2018). Riscos psicossociais relacionados ao trabalho: Perspectivas teóricas e conceituais. Revista Interamericana de Psicología Ocupacional, 37(1), 52-70. https://doi.org/10.21772/ripo.v37n1a04Links ]

Carneiro, L. L., & Bastos, A. V. B. (2020). Bem-estar relacionado ao trabalho: análise de conceitos e medidas. Arquivos Brasileiros de Psicologia, 72(2), 121-140. https://pepsic.bvsalud.org/pdf/arbp/v72n2/09.pdfLinks ]

Carlomagno, M. C., & Rocha, L. C. (2016). Como criar e classificar categorias para fazer a análise de conteúdo: uma questão metodológica. Revista Eletrônica de Ciência Política, 7(1), 173-188. http://dx.doi.org/10.5380/recp.v7i1.45771Links ]

Conselho Federal de Psicologia [CFP]. (2022). Quem faz a psicologia brasileira?: Um olhar sobre o presente para construir o futuro. (Formação e inserção no mundo do trabalho, vol. II). [ Links ]

Fugas, C. S., Silva, S. A., & Meliá, J. L. (2012). Another look at safety climate and safety behavior: Deepening the cognitive and social mediator mechanisms. Accident Analysis and Prevention, (45), 468-477. https://doi.org/10.1016/j.aap.2011.08.013Links ]

Geller, E. S. (2001). Behavior-based safety in industry : Realizing the large-scale potential of psychology to promote human welfare. Applied & Preventive Psychology, 105(10), 87-105. [ Links ]

Giberson, T. R. (2015). Industrial-Organizational Psychology and the Practice of Performance Improvement. Performance Improvement Quarterly, 28(2), 7-26. https://doi.org/10.1002/piq.21191Links ]

Gil, A. C. (2002). Como elaborar projetos de pesquisa (4a ed.). Atlas. [ Links ]

Goh, Y. M., & Binte Sa’adon, N. F. (2015). Cognitive Factors Influencing Safety Behavior at Height: A Multimethod Exploratory Study. Journal of Construction Engineering and Management, 141(6), 1-8. https://doi.org/10.1061/(asce)co.1943-7862.0000972Links ]

Gusso, H. L., Alvarenga, A. da S., Nunes, P. P., Nunes, M. F. O., Luca, G. G. de, & Oliveira, M. Z. (2019). Psicologia Organizacional e do Trabalho no Sul do Brasil: Características dos profissionais, da atuação e dos contextos de trabalho. Revista Psicologia: Organizações e Trabalho, 19(3), 644-652. https://doi.org/10.17652/rpot/2019.3.16131Links ]

Hofmann, D. A., Burke, M. J., & Zohar, D. (2017). 100 years of occupational safety research: From basic protections and work analysis to a multilevel view of workplace safety and risk. Journal of Applied Psychology , 102(3), 375-388. https://doi.org/10.1037/apl0000114Links ]

Hollnagel, E., Wears, R. L., & Braithwaite, J. (2015). From Safety-I to Safety-II : A White Paper. University of Southern Denmark; University of Florida; Macquarie University. [ Links ]

Keppler, I. L. dos S., & Yamamoto, O. H. (2020). Perfil e atuação de psicólogos nos centros de referência em saúde do trabalhador. Psicologia & Sociedade , 32, e185774. https://doi.org/10.1590/1807-0310/2020v32185774Links ]

Leka, S., & Houdmont, J. (2010). An Introduction to Occupational Health Psychology. In S. Leka & J. Houdmont (Eds.), Occupational helth psycology (pp. 1-30). Wiley Blackwell . [ Links ]

Madalozzo, M. M., & Zanelli, J. C. (2016). Segurança no trabalho: A construção cultural dos acidentes e catástrofes no cotidiano das organizações - uma perspectiva da psicologia. Juruá. [ Links ]

Malvezzi, S. (2015). Reflexões sobre a contribuição da psicologia das organizações e do trabalho para a sociedade. Una Psicología Para Entender y Transformar, (5), 60-67. [ Links ]

Mattos, R. C. O. C., Castro, H. A., Cavalcante, A. L. M., & Dias, E. (2019). Formação profissional como ação estratégica para implementação da Política Nacional de Saúde do Trabalhador e da Trabalhadora. Revista Brasileira de Saúde Ocupacional, 44(24), 1-10. https://doi.org/10.1590/2317-63690000015218Links ]

Ministério do Trabalho e Emprego. (2022). Código Brasileiro de Ocupações (CBO): Psicólogos. http://consulta.mte.gov.br/empregador/cbo/procuracbo/conteudo/tabela3.asp?gg=0&sg=7&gb=4Links ]

Moscovici, S. (2013). Representações sociais : Investigações em psicologia social. Vozes. [ Links ]

Piasson, D. L., & Freitas, M. H. (2022). Representação Social e Identidade do( a ) Profissional de Psicologia no Brasil. Psicologia: Ciência e Profissão, 42(esp), e263487. https://doi.org/https://doi.org/10.1590/1982-3703003263487Links ]

Resolução no 2, de 14 de junho de 2023. (2023, 14 de junho). Regulamenta o exercício profissional da psicóloga e do psicólogo na realização de avaliação de riscos psicossociais relacionados ao trabalho, no âmbito das Normas Regulamentadoras do Ministério do Trabalho e Previdência, dos demais marcos legais de órgãos governamentais e de projetos e ações no âmbito de saúde e segurança, nos diferentes contextos de trabalho. Conselho Federal de Psicologia. https://www.in.gov.br/en/web/dou/-/resolucao-n-14-de-28-de-junho-de-2023-493181704Links ]

Resolução no 2, de 21 de janeiro de 2022. (2022, 21 de janeiro). Normas e procedimentos para a avaliação psicossocial no contexto da saúde e segurança do trabalhador. Conselho Federal de Psicologia. https://encurtador.com.br/XvUI0Links ]

Rocha, K. N., & Wechsler, S. M. (2017). Análise de publicações da Psicologia Organizacional: retrato dos últimos 5 anos. Olhar Científico, 2(2), 145-163. [ Links ]

Resolução n. 466, de 12 de dezembro de 2012. (2012, 12 de dezembro). Aprova diretrizes e normas regulamentadoras de pesquisas envolvendo seres humanos. Conselho Nacional de Saúde. https://www.inca.gov.br/sites/ufu.sti.inca.local/files//media/document//resolucao-cns-466-12.pdfLinks ]

Roe, R. A. (2018). Industrial, work, and organizational psychology in Europe. In: D. S. Ones, N. Anderson, C. Viswesvaran & H. K. Sinangil (Eds.), The SAGE Handbook of Industrial, Work, and Organizational Psychology (pp. 46-75). SAGE. [ Links ]

Rudolph, C. W., Allan, B., Clark, M., Hertel, G., Hirschi, A., Kunze, F., Shockley, K., Shoss, M., Sonnentag, S., & Zacher, H. (2021). Pandemics: Implications for research and practice in industrial and organizacional psychology. Industrial and Organizatinal Pssychology, 14(1-2), 1-35. https://doi.org/10.1017/iop.2020.48Links ]

Sauter, S. L., & Hurrell Junior, J. J. (2017). Occupational health contributions to the development and promise of occupational health psychology. Journal of Occupational Health Psychology, 22(3), 251-258. https://doi.org/10.1037/ocp0000088Links ]

Simonelli, A. P., Jackson Filho, J. M., Vilela, R. A. G., & Almeida, I. M. (2016). Influência da segurança comportamental nas práticas e modelos de prevenção de acidentes do trabalho: Revisão sistemática da literature. Saúde e Sociedade, 25(2), 463-478. https://doi.org/10.1590/S0104-12902016147495Links ]

Sott, M. K., Bender, M. S., Furstenau, L. B., Machado, L. M., Cobo, M. J., & Bragazzi, N. L. (2020). 100 Years of Scientific Evolution of Work and Organizational Psychology: A Bibliometric Network Analysis From 1919 to 2019. Frontiers in Psychology, 11, 1-15. https://doi.org/10.3389/fpsyg.2020.598676Links ]

Thatcher, A., Waterson, P., Todd, A., & Moray, N. (2018). State of Science: ergonomics and global issues. Ergonomics, 61(2), 197-213. https://doi.org/10.1080/00140139.2017.1398845Links ]

Zanelli, J. C., Borges-Andrade, J. E., & Bastos, A. V. B. (Orgs.) (2014). Psicologia, organizações e trabalho no Brasil. AMGH Editora. [ Links ]

Zimmermann, B. M., & Berni, L. B. (2020). A importância da aplicação da psicologia positiva na saúde e segurança ocupacional: uma revisão. Disciplinarum Scientia , 21(1), 187-198. https://doi.org/10.37777/dscs.v21n1-016Links ]

Zwetsloot, G., Leka, S., Kines, P., & Jain, A. (2020). Vision Zero: Developing proactive leading indicators for safety, health, and well-being at work. Safety Science, 130(104890), 1-10. https://doi.org/10.1016/j.ssci.2020.104890Links ]

Recebido: 03 de Março de 2023; Aceito: 12 de Agosto de 2024

Endereço para envio de correspondência: Programa de Pós-Graduação em Psicologia Prédio Professor Lídio de Souza Universidade Universidade Federal do Espírito Santo. Av. Fernando Ferrari, 514, Goiabeira, CEP: 29060-970. Vitória - ES, Brasil.

Creative Commons License Este é um artigo publicado em acesso aberto sob uma licença Creative Commons