Introdução
A regulação emocional consiste em um recurso fundamental para as exigências de adaptação do ser humano ao seu contexto social. De acordo com estudos atuais, as estratégias de regulação emocional auxiliam no desenvolvimento saudável das pessoas em seus diferentes ambientes de interação (Vieira et al., 2020). Além disso, elas também se revelam importantes na prevenção e diminuição de estados depressivos, ansiedade e comportamentos agressivos (Khakpoor, Saed & Kian, 2019; Machado & Mosmann, 2019). E podem ser um caminho possível para o fortalecimento do bem-estar psicológico (Vitorino, 2018), aprimoramento de habilidades sociais e melhor desempenho escolar (Vieira et al., 2020).
Ao longo do desenvolvimento infantil, a regulação emocional passa por estágios de amadurecimento. Inicialmente, são os cuidadores principais que desempenham a função de reguladores (Thomas, Letourneau, Campbell, Tomfohr-Madsen & Giesbrecht, 2017). Mais tarde, continuam a influenciá-la mediante estratégias que assegurem o bem-estar da criança e que, ao mesmo tempo, promovam a socialização do comportamento emocional de acordo com as expectativas culturais (Melim, Matias, Ferreira & Matos, 2019; Silva, Freire & Faria, 2018).
A literatura aponta que alguns fatores podem influenciar a adoção de diferentes estratégias de regulação pela criança. Estudos sugerem que diferentes emoções solicitam a utilização de diferentes estratégias de regulação ou enfrentamento (Quiñones-Camacho & Davis, 2019). Ademais, a literatura sugere que outros fatores também parecem influenciar no uso de diferentes estratégias de regulação. Entre eles estão o contexto e os objetivos da regulação (English, Lee, John & Gross, 2017), a cultura (Dias, Vikan, & Gravas, 2000), o momento histórico e a classe social (Roazzi, Dias, Silva, Santos & Roazzi, 2011), a idade e o gênero da criança (Dantas, 2019; Roazzi et al., 2011) e a inserção em ambientes adversos (Moreira, Abreu, & Rique-Neto, 2012).
Aprofundando a discussão em torno da relação entre estratégias de regulação emocional e ambientes adversos, pesquisas apontam o quanto crianças de baixa condição socioeconômica sofrem impactos negativos na sua regulação emocional em função de ambientes violentos e de alto conflito (Repetti, Taylor & Seeman, 2002; Wanless, McClelland, Tominey & Acock, 2011). Visto isso, considerar a investigação de contextos vulneráveis parece ser relevante para a ampliação dos estudos sobre regulação emocional infantil.
Vulnerabilidade, parentalidade e contextos
Além de pesquisas apontarem para prejuízos no desenvolvimento emocional de crianças pertencentes a populações vulneráveis, cuidadores inseridos nessas populações também tendem a apresentar uma série de dificuldades em relação ao exercício da parentalidade (Masarik & Conger, 2017). Em revisão narrativa da literatura, Alvarenga, Oliveira e Lins (2018) analisaram estudos que investigavam relações entre variáveis sociodemográficas associadas à vulnerabilidade social e a parentalidade.
As autoras observaram uma tendência de pais com renda e níveis socioeconômicos mais elevados utilizarem menos práticas coercitivas e valorizarem mais a autonomia (Alvarenga et al., 2018). Tais resultados são explicados por meio do modelo do estresse familiar, na qual a falta de recursos pode ameaçar a satisfação de necessidades básicas, o que, por sua vez, pode gerar sintomas físicos e emocionais nos cuidadores, podendo favorecer o uso da coerção e de práticas de socialização severas (Conger, Conger & Martin, 2010; Masarik & Conger, 2017).
Além disso, em relação à escolaridade parental, a mesma revisão apontou uma propensão de pais com menores níveis de escolaridade a utilizarem práticas severas (Alvarenga et al., 2018). As autoras levantam a hipótese de que maiores níveis de escolaridade poderiam contribuir para ampliação de comportamento dos pais e, consequentemente, para a diversificação de estratégias na interação com os filhos (Carmo & Alvarenga, 2012).
No Brasil, grande parte dos indivíduos em situação de vulnerabilidade reside nos aglomerados subnormais, também conhecidos como favelas. De acordo com o último Censo, realizado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), existem no Rio de Janeiro 763 favelas, que abrigam cerca de 20% da população carioca. Entre as cidades brasileiras, é a que possui o maior número de moradores em favelas (IBGE, 2010).
A fim de realizar um levantamento sobre o perfil e as percepções de pessoas residentes em favelas, o Instituto Data Favela realizou uma pesquisa com moradores de 63 favelas brasileiras em 20131. Entre os participantes, 3% não eram instruídos, 27% tinham o ensino médio completo, 4% cursavam o ensino superior e 1% havia completado a faculdade. Além disso, na avaliação desses moradores, 73% consideravam as favelas violentas.
Sobre a questão da defasagem escolar, a Pesquisa Nacional sobre Saúde Escolar (IBGE, 2019) apontou que 11,6% dos alunos do Rio de Janeiro, de 13 a 17 anos, deixaram de frequentar a escola por falta de segurança no trajeto casa-escola. De acordo com pesquisa realizada pelo Centro de Estudos de Segurança e Cidadania (CESeC), 74% das escolas do Rio tiveram, ao menos, um tiroteio em seus arredores no ano de 20192.
Já em relação à violência, os dados do Instituto de Segurança Pública (ISP, 2019a) apontam que 434 pessoas foram mortas em ações das forças de segurança no estado do Rio de Janeiro no primeiro trimestre de 2019, o maior número desde quando os dados começaram a ser compilados pelo ISP em 2003. Além disso, embora a violência decorrente dessas ações seja mais frequente em favelas, bairros cariocas assim não caracterizados parecem ser afetados por outro tipo de violência. Um levantamento sobre crimes contra o patrimônio realizado em agosto de 2019 apontou que o somatório de roubos de rua nos oito primeiros meses do ano cresceu em até 71% quando comparado ao mesmo período do ano anterior. A área com maior crescimento foi a do 19º Batalhão da Polícia Militar, correspondente aos bairros de Leme e Copacabana (ISP, 2019b).
Contudo, cabe acrescentar que, ao avaliar esses contextos, as diversidades de diferentes territórios precisam ser consideradas. No presente estudo, participantes de bairros situados em diferentes zonas da cidade do Rio responderam sobre suas avaliações de satisfação e segurança no bairro onde moram. Para uma maior contextualização dessa pluralidade, utilizou-se o Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) desses territórios (ver Tabela 1).
Tabela 1 Relação dos bairros de residência das participantes do estudo com seus respectivos Índice de Desenvolvimento Humano (IDH, 2010), incluindo os fatores Renda (R), Educação (E) e Longevidade (L).
| Favela | Não-Favela | ||||||||
|---|---|---|---|---|---|---|---|---|---|
| Bairro | IDH | R | E | L | Bairro | IDH | R | E | L |
| Olaria/Tenente Pimentel | 0,834 | 0,899 | 0,804 | 0,802 | Laranjeiras | 0,954 | 0,940 | 0,924 | 1,000 |
| Pavuna/Nova Pavuna | 0,766 | 0,839 | 0,751 | 0,712 | Tijuca | 0,941 | 0,933 | 0,914 | 0,978 |
| Campo Grande/Pq. da Esperança | 0,718 | 0,802 | 0,679 | 0,681 | Copacabana | 0,935 | 0,937 | 0,874 | 0,998 |
| Quintino/Caixa D’água | 0,708 | 0,825 | 0,639 | 0,674 | Vila Isabel | 0,912 | 0,928 | 0,871 | 0,938 |
| Andaraí/Morro do Andaraí | 0,708 | 0,813 | 0,630 | 0,692 | Sulacap | 0,889 | 0,919 | 0,866 | 0,884 |
| Recreio/Vista Alegre do Recreio | 0,701 | 0,824 | 0,598 | 0,698 | Ramos | 0,858 | 0,909 | 0,832 | 0,834 |
| Bonsucesso/Maré | 0,686 | 0,815 | 0,589 | 0,673 | Barra da Tijuca | 0,818 | 0,907 | 0,744 | 0,811 |
| Tomás Coelho/Juramento | 0,652 | 0,765 | 0,570 | 0,637 | Cordovil | 0,778 | 0,865 | 0,723 | 0,752 |
| InhaúmaFazendinha | 0,648 | 0,757 | 0,549 | 0,655 | Ilha do Governador/Jd. Guanabara | 0,751 | 0,928 | 0,684 | 0,949 |
| Vila Isabel/Morro dos Macacos | 0,637 | 0,762 | 0,525 | 0,647 | Taquara | 0,679 | 0,776 | 0,617 | 0,655 |
Fonte: Atlas do Desenvolvimento Humano no Brasil. Pnud Brasil, Ipea e FJP, 2022.
Visto isso, pode-se notar uma tendência de menor IDH na maioria dos bairros caracterizados como território de favela em comparação aos bairros assim não caracterizados. No entanto, também é possível observar o quão plurais são esses diferentes territórios, sendo alguns mais vulnerabilizados que outros.
Por fim, cabe acrescentar que, durante a realização desse estudo, eclodiu uma pandemia gerada pela disseminação da coronavirus disease de 2019 (covid-19). Diante da ausência inicial de tratamento farmacológico e de vacina como medida preventiva, o distanciamento social foi adotado (Linhares & Enumo, 2020). O contexto descrito gerou algumas particularidades. Nesse sentido, se fazem pertinentes as contribuições de Linhares e Enumo (2020) a partir da Teoria do Caos (Evans & Wachs, 2010), que consiste numa releitura da Teoria Bioecológica do Desenvolvimento Humano (Bronfenbrenner, 2011).
De acordo com a Teoria Bioecológica, o desenvolvimento ocorre em diferentes sistemas inter-relacionados. O microssistema corresponde às relações proximais, realizadas face-a-face. O mesossistema compreende dois ou mais contextos nos quais a pessoa participa. O exossistema envolve relações indiretas com um contexto específico que podem afetar o ambiente da pessoa. E, por fim, o macrossistema que abarca todos os demais contextos de forma ampla e complexa (Bronfenbrenner, 2011).
Nesse sentido, o contexto familiar se caracteriza como o primeiro microssistema (Bronfenbrenner, 2011). Contudo, em alguns espaços familiares, certos fatores como falta de estrutura, ambiente barulhento e elevado número de residentes podem ameaçar o desenvolvimento das crianças. Esses ambientes são identificados pela Teoria do Caos como “microcontextos caóticos” (Evans & Wachs, 2010).
Ademais, eventos históricos também tendem a afetar o curso do desenvolvimento, seja positiva ou negativamente (Bronfenbrenner, 2011). Dito isso, a pandemia da covid-19 pode ser entendida como um evento adverso significativo, em função da ameaça à sobrevivência e pela imposição do distanciamento social. Pesquisas anteriores indicam que crianças inseridas em contextos estressores apresentam maiores níveis de cortisol, hormônio que regula o estresse, quando comparadas às crianças que vivem fora desses contextos (Slopen, McLaughlin & Shonkoff, 2014). Por outro lado, os níveis de cortisol tendem a se relacionar com o sistema nervoso, inclusive com áreas relacionadas à aprendizagem, memória e emoção (Shonkoff, Richter, van der Gaag & Bhutta, 2012), o que poderia afetar a regulação emocional de crianças e cuidadores.
Assim, é possível perceber as singularidades que se apresentam de acordo com diferentes contextos culturais, temporais e geográficos, sendo necessário considerá-las para uma melhor compreensão do processo de regulação emocional infantil. Dessa forma, o presente estudo teve por objetivo investigar correlações entre a avaliação de satisfação e segurança no bairro de mães da cidade do Rio de Janeiro e a regulação emocional de seus filhos(as). Além disso, buscou-se comparar as médias de satisfação e segurança no bairro e de regulação emocional infantil em dois grupos de mães: residentes e não-residentes em favela. Com base na literatura revisada, a hipótese foi de que seriam encontradas correlações significativas entre as variáveis e diferenças significativas entre os grupos.
Método
Participantes
Participaram do estudo 40 mães de crianças residentes na cidade do Rio de Janeiro, com idade entre 8 e 11 anos. Entre as mães participantes, 24 eram habitantes de territórios de favela e 16 eram habitantes de não-favela. O recorte da faixa etária infantil foi realizado a partir de evidências da literatura que apontam que estratégias de regulação emocional de cunho cognitivo começam a ser utilizadas entre seis e oito anos de idade (Holodynski & Friedlmeier, 2010).
Ademais, foram adotados os seguintes critérios de inclusão para a composição da amostra: a) cuidadores principais serem pai ou mãe de, ao menos, um filho(a) com idade entre 8 e 11 anos; b) residirem na cidade do Rio de Janeiro. Participantes que não atenderam a esses critérios não foram incluídos na amostra.
Instrumentos
Formulário de dados sociodemográficos: tem por objetivo a coleta de dados pertinentes à pesquisa, tais como gênero e idade da criança e do cuidador, bairro de residência etc;
Escala de Avaliação de Satisfação e Segurança - EASS (desenvolvido por Victor, Ramos, Moura, & Fioravanti, 2017): instrumento composto por 14 itens que mensuram a avaliação subjetiva de satisfação e segurança no bairro. Os itens são compostos por afirmativas que correspondem às percepções de segurança e satisfação dos moradores no bairro em que residem. As respostas são assinaladas em uma escala Likert de cinco pontos que variam de discordo totalmente (1) para concordo totalmente (5). Os escores na escala podem variar entre 14 e 70. O coeficiente alfa de Cronbach obtido na escala foi de 0,83, indicando boa consistência. Em relação às subescalas, no fator 1 (Segurança) o alfa de Cronbach foi de 0,85 e no fator 2 (Satisfação) foi de 0,78; e
Emotional Regulation Checklist - ERC (desenvolvido por Shields & Cicchetti, 1995; adaptado por Reis et al., 2016): instrumento de heterorrelato composto por 24 itens que avaliam a regulação emocional infantil a partir das respostas dos cuidadores. Os itens são distribuídos em duas escalas: Regulação Emocional (RE) e Labilidade/Negatividade Emocional (L/N). As respostas são assinaladas em uma escala tipo Likert de quatro pontos, variando de nunca (1) à quase sempre (4), de acordo com a frequência do comportamento. O coeficiente alfa de Cronbach tanto da escala de Regulação Emocional quanto de Labilidade/Negatividade Emocional indicam boa consistência (RE α = 0,73 e L/N α = 0,77).
Procedimentos éticos e de coleta de dados
O presente estudo está de acordo com as orientações éticas das Resoluções 466/2012 e 510/2016 do Conselho Nacional de Saúde. O projeto obteve parecer favorável do Comitê de Ética e Pesquisa (4.457.929), instância ligada ao CONEP que foi designada para a avaliação ética desta pesquisa.
A coleta de dados ocorreu de forma online, por meio do Google Forms. O link para o preenchimento da pesquisa foi divulgado pelas redes sociais. As mães que se interessaram em participar entraram no link do formulário de pesquisa, no qual constava na primeira página o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE) com informações sobre os objetivos da pesquisa, método empregado, potenciais benefícios e riscos e direito a se recusar a participar a qualquer momento durante sua realização. Caso houvesse dúvidas, também na primeira página foi informado o e-mail da pesquisadora responsável, que se disponibilizou para qualquer esclarecimento referente à pesquisa em qualquer etapa de sua realização.
Mantido o interesse em participar, os pais clicavam na opção referente à concordância com a participação para dar prosseguimento ao preenchimento da pesquisa. Todos que aceitaram participar tiveram suas identidades preservadas. A duração aproximada da coleta foi de 10 minutos e a inclusão no grupo de participantes foi condicionada à concordância assinalada. Por fim, na mesma página, foi disponibilizado um link para download do TCLE, caso os participantes desejassem sua versão em PDF. Na última página, os pais que apresentaram interesse em participar de uma palestra sobre parentalidade ministrada pela pesquisadora responsável foram orientados a inserir seu e-mail para o recebimento do convite.
Procedimentos de análise
Inicialmente, foram realizadas análises com o objetivo de verificar a normalidade dos dados. Como a amostra apresenta menos de 50 participantes, foi realizado o teste de Shapiro-Wilk. Os resultados mostraram uma distribuição normal para as dimensões Satisfação (Shapiro-Wilk[40] = 0,95; p > 0,05) e Geral (Shapiro-Wilk[40] = 0,96; p > 0,05) da EASS e para as dimensões Regulação (Shapiro-Wilk[40] = 0,97; p > 0,05) e Labilidade (Shapiro-Wilk[40] = 0,97; p > 0,05) da ERC. Já para a dimensão Segurança (Shapiro-Wilk[40] = 0,93; p < 0,05) da EASS a distribuição foi não normal.
Foi realizado o teste t para verificar possíveis diferenças na regulação emocional de crianças residentes em favelas e de áreas não classificadas como favela, para aferir os índices de segurança e satisfação entre pais de acordo com a área de residência e para comparar os resultados de regulação emocional entre meninos e meninas. Por fim, foram feitas análises de correlação de Pearson para identificar relações entre os dados sociodemográficos coletados, a regulação emocional infantil e a avaliação de satisfação e segurança no bairro.
Resultados
Caracterização da amostra geral
A amostra foi composta por 40 mães residentes na cidade do Rio de Janeiro, com idade de 27 a 46 anos (M = 37,48; DP = 6,14). Essas mães tinham de 1 a 4 filhos (M = 1,80; DP = 0,85) e viviam em residências com 2 a 5 pessoas (M = 3,30; DP = 0,97). Grande parte delas era casada ou estava em união estável (77,50%), 12,50% eram separadas ou divorciadas e 10% solteiras. A maioria era nascida no próprio estado do Rio de Janeiro (77,50%), enquanto as demais eram naturais do Ceará (7,50%), Maranhão (5%), Paraíba (5%), Minas Gerais (2,50%) e São Paulo (2,50%). Durante o período de coleta de dados, 72,5% possuíam trabalho formal.
Já os(as) filhos(as) das mães participantes tinham idade de 8 a 11 anos (M = 9,18; DP = 1,15). Entre eles, 52,50% eram meninos e 47,50% eram meninas. Todos estavam regularmente matriculados na escola durante a coleta de dados da pesquisa.
Caracterização dos grupos
As participantes foram divididas em dois grupos: residentes em favela - que correspondiam a 60% - e não residentes em favela - 40% do total. Na Tabela 2 consta a caracterização dos referidos grupos a partir das variáveis sociodemográficas coletadas. Para melhor visualização, a variável nível de escolaridade foi representada em um gráfico à parte (Figura 1).
Tabela 2 Dados sociodemográficos divididos entre participantes que moram e não moram em favela.
| Variáveis | Residentes em favela | Não residentes em favela |
|---|---|---|
| Idade das mães | 27 a 46 anos (M = 36,83; DP = 6,29) | 28 a 46 anos (M = 38,44; DP = 5,97) |
| Número de filhos | 1 a 4 (M = 1,88; DP = 0,95) | 1 a 3 (M = 1,69; DP = 0,70) |
| Coabitantes | 2 a 5 (M = 3,42; DP = 0,93) | 2 a 5 (M = 3,12; DP = 1,03) |
| Naturalidade | 70,80% Rio de Janeiro | 87,50% Rio de Janeiro |
| Estado civil | 79,20% Casadas | 75% Casadas |
| Emprego | 70,80% Empregadas | 75% Empregadas |
| Renda Familiar | R$1.000,00 a R$15.000,00 | R$2.000,00 a R$30.000,00 |
| Idade da criança | 8 a 11 anos (M = 9,54; DP = 1,41) | 8 a 10 anos (M = 8,63; DP = 0,96) |
| Gênero da criança | 50% meninos; 50% meninas | 56,30% meninos; 43,80% meninas |

Figura 1 Nível de escolaridade materno dividido entre participantes que moram e não moram em favela ou área controlada por milícia.
Embora possa-se observar certa proximidade entre os resultados dos grupos, em relação à renda e ao nível de escolaridade, diferenças importantes foram identificadas. A renda familiar de mães não residentes em favelas demonstrou ser superior à renda familiar de mães residentes em favelas. Sobre o nível de escolaridade, enquanto a maioria das mães que habitam em favela relatou possuir o ensino médio completo, a maioria das mães que não habitam em território de favela relatou possuir pós-graduação.
Diferenças entre grupos
Foi realizado um teste t para verificar possíveis diferenças na regulação emocional de crianças residentes em favelas e de áreas não classificadas como favela. Os resultados não revelaram diferenças de Regulação Emocional entre crianças moradoras de favelas (M = 3,25; DP = 0,35) e de outras localidades (M = 3,28; DP = 0,31), t(38) = -0,28; p > 0,05. Também não foram encontradas diferenças quanto à Labilidade entre crianças moradoras de favela (M = 2,41; DP = 0,42) e de outras localidades (M = 2,21; DP = 0,62), t(38) = 1,23; p > 0,05.
Em seguida, realizou-se um teste t para aferir os índices de segurança e satisfação entre mães de acordo com a área onde residiam. Mães que não residiam em áreas de favela (M = 4,01; DP = 0,81) relataram maior percepção de Segurança do que mães que residiam em área de favela (M = 2,22; DP = 0,95), t(38) = -6,14; p < 0,001. Mães que não residiam em área de favela (M = 3,57; DP = 0,63) relataram maior Satisfação do que mães que residiam em área de favela (M = 2,66; DP = 0,54), t(38) = -4,87; p < 0,001. Também houve diferença significativa na pontuação geral da escala, em que mães que não moram em área de favela (M = 3,76; DP = 0,51) manifestaram maior Satisfação e Segurança Gerais do que mães que habitam em tais áreas (M = 2,47; DP = 0,55), t(38) = -7,38; p < 0,001.
Também foi realizado um teste t para analisar a regulação emocional de meninos e meninas. Em relação à Regulação, não houve diferença entre meninos (M = 3,34; DP = 0,34) e meninas (M = 3,16; DP = 0,30), t(38) = 1,73; p > 0,05. Também não houve diferença significativa entre meninos (M = 2,25; DP = 0,42) e meninas (M = 2,42; DP = 0,60) quanto à Labilidade, t(38) = -1,00; p > 0,05.
Correlações entre variáveis
Como pode-se observar na Tabela 3, o número de filhos apresentou correlação positiva com o número de coabitantes. O número de coabitantes se correlacionou positivamente com a dimensão Labilidade (ERC). O nível de escolaridade materno apresentou correlação positiva com a renda familiar, com a dimensão Segurança (EASS) e a dimensão Regulação (ERC). E a renda familiar se correlacionou positivamente com a dimensão Segurança (EASS). Já a dimensão Labilidade (ERC) se correlacionou negativamente com as dimensões Segurança (EASS) e Geral (EASS).
Tabela 3 Correlações entre variáveis sociodemográficas, Escala de Avaliação de Satisfação e Segurança (EASS) e Escala de Regulação Emocional (ERC).
| 1 | 2 | 3 | 4 | 5 | 6 | 7 | 8 | 9 | 10 | |
|---|---|---|---|---|---|---|---|---|---|---|
| 1. Idade materna | 1 | 0,32* | 0,14 | 0,12 | 0,25 | 0,27 | 0,11 | 0,23 | 0,02 | -0,31 |
| 2. Número de filhos | 1 | 0,70** | -0,24 | -0,20 | 0,06 | -0,06 | 0,01 | -0,21 | 0,13 | |
| 3. Número de coabitantes | 1 | -0,29 | -0,17 | 0,04 | 0,02 | 0,04 | -0,27 | 0,37* | ||
| 4. Nível de escolaridade | 1 | 0,59** | 0,36* | 0,03 | 0,25 | 0,36* | -0,31 | |||
| 5. Renda familiar | 1 | 0,32* | 0,15 | 0,28 | 0,15 | -0,23 | ||||
| 6. EASS segurança | 1 | 0,51** | 0,90** | 0,05 | -0,33* | |||||
| 7. EASS satisfação | 1 | 0,83** | -0,24 | -0,27 | ||||||
| 8. EASS geral | 1 | -0,09 | -0,35* | |||||||
| 9. ERC regulação | 1 | -0,22 | ||||||||
| 10. ERC labilidade | 1 |
* p < 0,05
* p < 0,01
Posteriormente, também foi realizada uma análise para verificar as correlações com dados divididos entre os participantes que moram e não moram em favela (ver Tabela 4). Em relação às participantes residentes em favela, foi identificada uma correlação positiva entre número de filhos e de coabitantes. Além disso, o nível de escolaridade se correlacionou positivamente com a renda familiar. Já a dimensão Satisfação (EASS) apresentou correlações negativas tanto com a dimensão Regulação (ERC) quanto com a dimensão Labilidade (ERC). Ademais, a dimensão Geral de Segurança e Satisfação se correlacionou negativamente com a dimensão Labilidade (ERC).
Tabela 4 Correlações entre variáveis sociodemográficas, Escala de Avaliação de Satisfação e Segurança (EASS) e Escala de Regulação Emocional (ERC) com dados divididos entre participantes que moram e não moram em favela.
| 1 | 2 | 3 | 4 | 5 | 6 | 7 | 8 | 9 | 10 | |
|---|---|---|---|---|---|---|---|---|---|---|
| 1. Idade materna | 1 | 0,32 | 0,34 | -0,17 | 0,04 | 0,19 | 0,07 | 0,17 | -0,16 | -0,35 |
| 2. Número de filhos | 0,40 | 1 | 0,85** | -0,27 | -0,25 | 0,08 | 0,06 | 0,09 | -0,23 | 0,04 |
| 3. Número de coabitantes | -0,10 | 0,43 | 1 | -0,23 | -0,21 | 0,13 | 0,15 | 0,18 | -0,13 | 0,07 |
| 4. Nível de escolaridade | 0,51* | -0,12 | -0,29 | 1 | 0,60** | 0,15 | -0,08 | 0,07 | 0,35 | -0,04 |
| 5. Renda familiar | 0,39 | -0,15 | -0,07 | 0,54* | 1 | -0,09 | -0,14 | -0,14 | 0,28 | -0,02 |
| 6. EASS segurança | 0,37 | 0,47 | 0,34 | 0,21 | 0,03 | 1 | 0,18 | 0,84** | 0,08 | -0,37 |
| 7. EASS satisfação | 0,01 | -0,07 | 0,15 | -0,52* | -0,24 | 0,05 | 1 | 0,69** | -0,46* | -0,41* |
| 8. EASS geral | 0,26 | 0,27 | 0,34 | -0,23 | -0,14 | 0,71** | 0,74** | 1 | -0,20 | -0,51* |
| 9. ERC regulação | 0,34 | -0,18 | -0,49 | 0,39 | 0,07 | -0,10 | -0,18 | -0,20 | 1 | -0,10 |
| 10. ERC labilidade | -0,25 | 0,23 | 0,63** | -0,52* | -0,24 | -0,17 | 0,01 | -0,11 | -0,36 | 1 |
Diagonal superior: participantes que moram em área de favela.
Diagonal inferior: participantes que não moram em área de favela.
* p < 0,05
** p < 0,01
Em relação ao grupo de mães que não reside em favela, a idade materna se correlacionou positivamente com o nível de escolaridade. Além disso, o número de coabitantes apresentou uma correlação positiva com a dimensão Labilidade (ERC). Já o nível de escolaridade se correlacionou positivamente com a renda familiar e negativamente com as dimensões Satisfação (EASS) e Labilidade (ERC) - ver Tabela 4. No entanto, não foram encontradas correlações significativas entre avaliação de segurança e satisfação e regulação emocional infantil.
Discussão
Não foram encontradas diferenças significativas nos resultados de regulação e labilidade emocional entre crianças residentes em favela e não-favela. Quanto a isso, é possível que o momento histórico no qual o estudo foi realizado tenha influenciado os resultados de regulação emocional infantil (Bronfenbrenner, 2011; Roazzi et al., 2011). Em função da pandemia da covid-19 e da estratégia de isolamento social, muitas famílias precisaram reorganizar suas rotinas diante das demandas de home office e home school, de forma que diferentes microssistemas, como família, escola e trabalho, passaram a funcionar em um mesmo ambiente: suas casas. Em outras famílias, crianças matriculadas na rede pública tiveram suas aulas suspensas e seus cuidadores continuaram a trabalhar presencialmente, levando pais e mães a buscarem novas redes de apoio para cuidar de seus filhos.
Dessa forma, provavelmente, o cenário de pandemia afetou de diferentes formas tanto famílias residentes em favelas quanto famílias não residentes em favelas, expondo-as a diversos estímulos estressores. Em decorrência de possíveis desafios relacionados à adaptação necessária diante de mudanças significativas nos microssistemas familiares, dificuldades como a busca por novas redes de apoio, a falta de estrutura para as novas demandas de home office e home school, e o elevado número de pessoas presentes na casa durante todo o dia podem ter contribuído para que esses ambientes se tornassem microcontextos caóticos, impactando o desenvolvimento infantil (Bronfenbrenner, 2011; Evans & Wachs, 2010). Portanto, é possível que as semelhanças dos resultados de regulação e labilidade emocional entre os dois grupos possam estar relacionados ao estresse vivenciado por pais e crianças de ambos os contextos em função do momento pandêmico que afetou todo o macrossistema.
Outro fator a ser considerado nesse sentido envolve uma possível discrepância entre o relato dos pais sobre a regulação emocional da criança em relação ao autorrelato infantil. Pelo fato do ERC ser um instrumento no qual são as mães que avaliam a regulação emocional dos filhos, há a possibilidade dos resultados de regulação e labilidade emocional das crianças terem sido enviesados pelo que as mães respondentes consideram como características desejáveis em termos de regulação emocional.
Em relação ao gênero da criança, também não foram encontradas diferenças em relação à regulação e a labilidade emocional. Embora no nosso contexto cultural haja expectativas distintas sobre como meninos e meninas devem lidar com diferentes emoções (Dantas, 2019; Roazzi et al., 2011), é possível que o instrumento utilizado não tenha sido sensível a essas diferenças. Isso porque o instrumento avalia os processos de regulação e labilidade emocional como um todo, sem categorizar diferentes emoções. E de acordo com a literatura, emoções distintas tendem a solicitar o uso de estratégias de regulação emocional diversas (Quiñones-Camacho & Davis, 2019),
Sobre a avaliação de satisfação e segurança no bairro, o grupo de mães que residem em favelas apresentou menores médias de satisfação e de segurança onde residem em relação às mães que não moram em favelas. Tal resultado sugere que a violência existente nos territórios de favela (ISP, 2019a) e a precariedade, em termos de saúde e educação, nesses espaços (IBGE, 2019) podem contribuir para a percepção de menor satisfação e segurança de seus moradores. Nesse sentido, é importante que o macrossistema funcione de maneira que assegure necessidades básicas como segurança, saúde e educação para que mães se sintam mais satisfeitas e seguras em seus bairros e consigam adotar práticas de parentalidade positivas em seus microssistemas familiares (Bronfenbrenner, 2011; Conger et al., 2010; Masarik & Conger, 2017).
Em relação às variáveis sociodemográficas analisadas, notou-se que a idade materna se correlacionou positivamente com o número de filhos. O que faz sentido, na medida em que, mães mais velhas podem ter mais filhos em função do maior tempo de vida. Sobre o número de coabitantes, foram identificadas correlações positivas com o número de filhos e com a dimensão Labilidade (ERC). A relação com o número de filhos pode ter ocorrido em função de parte dos coabitantes corresponderem aos filhos(as) dessas mães. Já sobre a relação com Labilidade (ECR), quanto mais pessoas residiam numa mesma casa, maiores foram os níveis de labilidade infantil.
Como visto anteriormente, características físicas e sociais do ambiente são entendidas como fundamentais para o desenvolvimento da regulação emocional infantil (Melim et al., 2019; Repetti et al., 2002; Roazzi et al., 2011). Dessa maneira, o alto número de moradores numa mesma casa pode ser considerado um fator estressor importante, inclusive, podendo contribuir para que o ambiente familiar se caracterize como um microcontexto caótico (Evans & Wachs, 2010). Nesse sentido, as crianças poderiam ter sua capacidade de regulação emocional prejudicadas.
Além disso, em relação ao nível de escolaridade materno foram identificadas correlações positivas com a renda familiar, com a dimensão Segurança (EASS) e a dimensão Regulação (ERC). Desse modo, é possível que maiores níveis de escolaridade proporcionem às mães oportunidades de emprego mais bem remuneradas em relação às mães com baixo nível de escolaridade. Ademais, como a dimensão Segurança (EASS) possui itens invertidos, quanto maior a média dessa dimensão, menor é a avaliação de segurança. Nesse sentido, mães que possuem níveis de escolaridade mais altos tendem a avaliar o bairro onde moram como mais inseguro. Tal resultado pode ser entendido a partir de uma possível percepção mais crítica de mães com níveis de escolaridade mais elevados sobre os critérios de avaliação de segurança. Além disso, acredita-se que mães com maior nível de escolaridade tendem a possuir um maior repertório de práticas educativas (Carmo & Alvarenga, 2012), o que poderia favorecer o desenvolvimento da regulação emocional infantil. Isso porque, os cuidadores primários possuem um papel crucial nesse processo (Melim et al., 2019; Silva et al., 2018).
Por fim, a renda familiar se correlacionou positivamente com a dimensão Segurança (EASS), indicando que quanto maior a renda familiar, maior a avaliação de insegurança. Visto isso, é possível que possuir rendas maiores aumente a percepção de quão expostas as mães se sentem em relação à possibilidade de se tornarem vítimas de crimes contra o patrimônio, aumentando a avaliação de insegurança.
Já sobre as relações entre regulação emocional infantil e avaliação de satisfação e segurança no bairro, quanto menos satisfeitas e seguras as mães se sentiam no bairro em que moram, maiores foram os níveis de labilidade emocional da criança. Esse resultado pode ser entendido a partir do modelo do estresse familiar, no qual a baixa satisfação de necessidades básicas pode gerar sintomas físicos e emocionais nos cuidadores, o que pode favorecer o uso de práticas educativas negativas e, consequentemente, uma baixa competência socioemocional da criança (Conger et al., 2010; Masarik & Conger, 2017). O que também está em consonância com a Teoria Bioecológica do Desenvolvimento, que aponta o quanto elementos do microssistema, do mesossistema, do exossistema e do macrossistema podem impactar no desenvolvimento infantil (Bronfenbrenner, 2011).
Além disso, ao comparar as relações encontradas com os dados divididos entre os dois grupos de mães, algumas diferenças puderam ser observadas. Em relação às variáveis sociodemográficas, no grupo de mães residentes em favela foi identificada uma correlação positiva entre número de filhos e de coabitantes. Por outro lado, no grupo de mães que não moram em favelas, outras variáveis sociodemográficas indicaram relações importantes. Sobre a idade, quanto mais velhas eram, maior era o nível de escolaridade. Além disso, quanto mais pessoas residiam com as mães, maiores eram os níveis de labilidade emocional da criança. Tal resultado é análogo ao da amostra geral e pode ser entendido de forma semelhante.
Por fim, quanto maior o nível de escolaridade das mães que não residiam em favelas, maior foi a renda familiar, o que parece, novamente, indicar que maiores níveis de escolaridade podem gerar oportunidades de empregos mais bem remuneradas. Por outro lado, quanto maior o nível de escolaridade dessas mães, menor a avaliação de satisfação e menor a labilidade emocional da criança. Desse modo, níveis mais avançados de formação podem favorecer o senso crítico dessas mães, o que pode levá-las a questionar o quão satisfeitas se sentem com seu bairro de residência e pode, também, contribuir para o uso de práticas educativas positivas, o que tende a facilitar o desenvolvimento emocional infantil (Alvarenga et al., 2018; Conger et al., 2010; Masarik & Conger, 2017).
Já sobre relações entre regulação emocional infantil e avaliação de satisfação e segurança no bairro, no grupo de mães residentes em favela quanto menos satisfeitas se sentiam no bairro em que moram, maior era a regulação emocional e também a labilidade emocional das crianças. Dessa maneira, é possível que o fato das mães se perceberem insatisfeitas no bairro de moradia, por um lado, dificulte a tarefa de ajudar seus filhos(as) a regularem suas emoções. Isso porque, mães com necessidades básicas não atendidas possuem tendência a utilizar práticas de socialização severas (Conger et al., 2010; Masarik & Conger, 2017). Mas, por outro lado, a insatisfação dessas mães pode atuar como uma espécie de motivador para que incentivem e ajudem as crianças a se regularem emocionalmente.
Além disso, também foi observada uma correlação negativa entre o índice geral de satisfação e segurança e a labilidade emocional infantil. Sendo assim, quanto menos satisfeitas e seguras as mães se sentem no bairro em que moram, maior é a labilidade emocional da criança. Nesse caso, o resultado é semelhante a um dos resultados encontrados na amostra geral. De forma análoga, também pode ser entendido a partir do modelo do estresse familiar e da Teoria Bioecológica do Desenvolvimento (Bronfenbrenner, 2011; Conger et al., 2010; Masarik & Conger, 2017).
No entanto, em relação ao grupo de mães não residentes em favelas, não foram encontradas correlações significativas entre regulação emocional infantil e avaliação de satisfação e segurança no bairro. Uma forma de entender esse resultado pode ser por meio da maneira complexa em que diferentes sistemas se organizam em diferentes bairros (Bronfenbrenner, 2011). Crianças que moram em favelas, por exemplo, tendem a brincar pelas ruas da comunidade, uma vez que são raros os espaços destinados ao lazer, o que pode deixar a criança mais exposta aos perigos, justamente pela precariedade de recursos na região. Por outro lado, crianças que residem em bairros não caracterizados como favela tendem a ter uma maior oferta de espaços de lazer, nos quais é possível que haja uma maior sensação de segurança. Em função disso, é possível que nesses bairros a forma como as mães avaliam a satisfação e segurança tende a gerar uma menor interferência na regulação emocional das crianças.
Considerações Finais
Os resultados encontrados no presente estudo, por um lado, reforçam os achados da literatura sobre parentalidade e desenvolvimento socioemocional e, por outro, agregam novas reflexões em relação a contextos de vida específicos. Nesse sentido, um importante achado envolve mães residentes em favelas demonstrarem menores médias de satisfação e segurança quando comparadas às mães residentes em bairros não caracterizados como território de favela.
Isso é importante porque, a nível social, indica o quanto a população residente em favela sofre com os impactos do baixo investimento em saúde, educação, mobilidade e lazer em seus territórios. Além disso, aponta para os efeitos em termos de alto risco ambiental provocado pelos recorrentes conflitos armados nesses espaços. Sendo assim, pensar em políticas públicas que favoreçam a ampliação de recursos básicos e a reformulação de estratégias de segurança pública revela-se fundamental para o aumento da satisfação e segurança em seus bairros.
Contudo, além da instalação de unidades de saúde, educação e cultura nos territórios de favela, é necessário garantir o bom funcionamento desses serviços. Os profissionais envolvidos precisam ter uma remuneração digna e os espaços precisam contar com equipamentos adequados e manutenção periódica. Além disso, formas de garantir maior segurança nos entornos desses espaços mostram-se essenciais.
Outro achado importante diz respeito às relações que foram identificadas na amostra geral. Uma dessas relações indicou que quanto menos satisfeitas e seguras as mães se sentiam no bairro de residência, maior era a tendência de labilidade emocional de suas crianças. Dessa forma, reafirma-se a relevância de investimento em recursos básicos e em políticas de segurança pública mais eficazes. O investimento nessas áreas, além de viabilizar o aumento de satisfação e segurança dos moradores, pode atuar como um fator protetivo em relação a possíveis dificuldades da regulação emocional infantil.
Além do mais, em relação às variáveis sociodemográficas, foi observado que o número de coabitantes, o nível de escolaridade da mãe e a renda familiar indicaram correlações significativas com as demais variáveis investigadas. Visto isso, investir em melhores condições de vida para essas mães mostra-se um importante caminho em direção à facilitação do desenvolvimento de crianças emocionalmente saudáveis.
Nesse sentido, a criação e disponibilização de recursos que auxiliem as mães a estudarem ou permanecerem estudando pode favorecer oportunidades de crescimento profissional, aumento de renda e condições de vida mais satisfatórias. Tais recursos envolvem o estabelecimento de políticas públicas direcionadas para mães de crianças que tornem mais flexíveis os horários de estudo e disponibilizem bolsas de auxílio, como medidas que poderiam contribuir para que permaneçam estudando. Além do mais, a criação e manutenção de creches públicas e a possibilidade de horário integral em escolas públicas, com atividades no contraturno que favoreçam o desenvolvimento de competências emocionais, a criatividade e a cooperação.
Contudo, deve-se ponderar algumas limitações desse estudo. Um primeiro ponto a se considerar foi o baixo número de participantes na pesquisa, o que inviabilizou que alguns cálculos estatísticos pudessem ter sido realizados. Outro ponto importante diz respeito à escolha do instrumento para a avaliação da regulação emocional infantil. O ERC consiste num instrumento de heterorrelato. Visto isso, existe a possibilidade do relato das mães sobre a regulação emocional dos seus filhos(as) não corresponder, necessariamente, à regulação emocional da criança, mas se referir a uma expressão da forma como gostariam que seus filhos(as) se regulassem.
Por fim, deve-se acrescentar que o presente estudo foi realizado em um contexto pandêmico, no qual o isolamento social foi adotado como uma das principais estratégias de controle (Linhares & Enumo, 2020). Dessa forma, grande parte das atividades do dia a dia passou a ser realizada de forma remota, por meio das telas. A coleta de dados dessa pesquisa, inclusive, precisou ser adaptada para o ambiente online. Sendo assim, é possível que a massiva exposição à tela e o esforço adaptativo para essa nova realidade tenham dificultado o engajamento de participantes para o preenchimento da pesquisa. E, além disso, tenha gerado um viés em relação às participantes da pesquisa, uma vez que apenas mães com acesso a celulares e internet puderam contribuir.
Com isso, recomenda-se a captação de uma amostra de participantes mais expressiva, como forma de ampliar as possibilidades de cálculos estatísticos e diminuir a probabilidade de vieses. Também é sugerido que outros instrumentos de avaliação de regulação emocional infantil sejam acrescentados ao método (tarefas, instrumentos de autorrelato etc.) e a coleta de dados ocorra de forma presencial, o que pode oferecer uma perspectiva mais ampla sobre o processo de regulação emocional das crianças e possibilitar a inclusão de participantes com dificuldade de acesso à internet. Por fim, também é indicado que estudos posteriores levem em consideração a raça dos participantes, tendo em vista a diversidade étnico-racial dos habitantes da cidade do Rio de Janeiro.
Entretanto, acredita-se que este estudo pode contribuir para o avanço das pesquisas sobre contextos de parentalidade e desenvolvimento socioemocional. Na medida em que lançando luz sobre singularidades de contextos plurais dentro da cidade do Rio de Janeiro e sobre as repercussões dessas singularidades na regulação emocional das crianças, propõem-se caminhos e estratégias que podem auxiliar mães e crianças nesse processo.














