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Psicologia: Ciência e Profissão

versión impresa ISSN 1414-9893versión On-line ISSN 1982-3703

Psicol. cienc. prof. vol.46  Brasília  2026  Epub 02-Mar-2026

https://doi.org/10.1590/1982-3703003283407 

Artigo

A Estrutura Colonial Afetiva: Uma Trajetória Recuperada por Mulheres Negras no Envelhecimento

The Affective Colonial Structure: A Trajectory Resumed by Aging Black Women

La Estructura Colonial Afectiva: Una Trayectoria Recuperada por Mujeres Negras en el Envejecimiento

Olivia Leone Silva Escot Morais1 

Graduada em Psicologia pela Universidade de Brasília (UnB), Brasília – DF. Brasil.


http://orcid.org/0000-0002-0147-8722

Polliana Teixeira da Silva1 

Doutoranda em Psicologia do Desenvolvimento Humano pelo Programa de Pós-Graduação em Psicologia do Desenvolvimento e Escolar (PGPDE) da Universidade de Brasília (UnB), Brasília – DF. Brasil.


http://orcid.org/0000-0002-0309-4175

Isabelle Patriciá Freitas Soares Chariglione1 

Doutora em Cognição e Neurociências pela Universidade de Brasília (UnB). Professora no Instituto de Psicologia e nos Programas de Pós-Graduação em Psicologia do Desenvolvimento e Escolar (PGPDE) e Social, do Trabalho e das Organizações (PSTO) da Universidade de Brasília (UnB), Brasília – DF. Brasil.


http://orcid.org/0000-0001-8627-3736

1Universidade de Brasília, Brasília, DF, Brasil


Resumo:

Nas sociedades multirraciais e racistas, a raça desempenha um papel de critério social cuja função simbólica é alocar os sujeitos em estruturas de classe, tendo como referência os padrões raciais do grupo dominante. Este artigo buscou compreender de que forma o preconceito racial e suas implicações influenciaram a trajetória afetivo-romântica de mulheres negras, e como esse fenômeno adquiriu significado em seus respectivos processos de envelhecimento. Por meio de uma pesquisa qualitativa, o presente estudo reuniu a narrativa de 15 mulheres negras idosas, cujos dados foram avaliados sob a perspectiva da análise do discurso. Entre os resultados, observou-se o impacto da colonização e do mito da democracia racial na elaboração de estereótipos negativos sobre mulheres negras, que perduram até os dias atuais, além dos efeitos desses aspectos nos relatos de solidão e no surgimento de famílias matriarcais. Ademais, compara ainda as vivências do passado com as possibilidades da juventude atual. Por fim, diante da relevância dos achados obtidos com a pesquisa, sugere o aprofundamento das investigações dos elementos raciais, sociais e de gênero que compõem as escolhas afetivas.

Palavras-chave: Escolhas afetivas; Mulheres Negras; Colonização; Envelhecimento

Abstract:

In multiracial and racist societies, race act as a social criterion whose symbolic function is to allocate subjects into class structures, taking as a reference the racial standards of the dominant group. This article investigates how racial prejudice and its effects influenced the affective and romantic trajectories of Black women and how this phenomenon acquired meaning in their respective aging processes. Qualitative in nature, this study collected the narratives of 15 elderly Black women whose statements were explored by discourse analysis. Findings revealed the impact of colonization and the myth of racial democracy in the elaboration of negative stereotypes about Black women, which persist to this day, and the effects of these aspects on reports of loneliness and the emergence of matriarchal families. It also compares past experiences with the possibilities of today’s youth. Finally, given the relevance of the research results obtained, it suggests further investigation of the racial, social, and gender elements that constitute affective choices.

Keywords: Affective choices; Black Women; Colonization; Aging

Resumen:

En las sociedades multirraciales y racistas, la raza desempeña un papel de criterio social cuya función simbólica es asignar a los sujetos a estructuras de clase tomando como referencia los patrones raciales del grupo dominante. Este artículo buscó comprender cómo el racismo y sus implicaciones influyeron en la trayectoria afectivo-romántica de las mujeres negras, y cómo este fenómeno adquirió significado en sus respectivos procesos de envejecimiento. A partir de una investigación cualitativa, este estudio recogió las narrativas de 15 ancianas negras, cuyos datos fueron evaluados desde la perspectiva del análisis del discurso. Entre los resultados, se observa el impacto de la colonización y del mito de la democracia racial en la elaboración de estereotipos negativos sobre las mujeres negras, que persisten hasta la actualidad, así como los efectos de estos aspectos en los relatos sobre la soledad y en el surgimiento de familias matriarcales. Además, este artículo compara las experiencias del pasado con las posibilidades de la juventud actual. Por último, en vista de la relevancia de los resultados obtenidos con la investigación, se sugiere que las futuras investigaciones se centren en los elementos raciales, sociales y de género que conforman las decisiones afectivas.

Palabras clave: Decisiones afectivas; Mujeres Negras; Colonización; Envejecimiento

Introdução

Nas sociedades multirraciais e racistas, a raça desempenha papel de critério social cuja função simbólica é alocar os sujeitos em estruturas de classe, tendo como referência os padrões raciais do grupo dominante (Souza, 2021). No que diz respeito à condição do negro no Brasil, tal distribuição impõe uma percepção inferiorizada, que emerge no período escravocrata e se atualiza até os dias presentes, relegando a esse sujeito a posição submissa nos âmbitos econômicos, políticos e sociais (Carone & Bento, 2017; Silva, 2000; Souza, 2021).

Já a condição das mulheres negras brasileiras é atravessada por dois marcadores sociais – raça e gênero – que, quando combinados, promovem uma dupla exclusão afetiva-sociocultural (Gonzalez, 2020; Pacheco, 2008). Ou seja, a experiência vivida por esse grupo é ditada por critérios sociais que relegam a essas mulheres um local dominado por convenções patriarcais-escravagistas.

Como pontuado por hooks (2020), a posição desvalorizada que a mulher negra ocupa remonta à exploração sexual sofrida por esse grupo no período escravocrata, que, por sua vez, não foi interrompida nos séculos seguintes. A exemplo de tal perpetuação, Pacheco (2008) aponta que o trabalho desenvolvido pelo sociólogo Gilberto Freyre – 45 anos após a abolição da escravatura – foi estruturante nas práticas sociais e afetivas dos indivíduos. O mito da democracia racial proposto pelo autor teve responsabilidade fundamental na representação da mulher negra brasileira, definindo estereótipos que a caracterizam desde os cuidados maternais até seu papel na iniciação sexual masculina, reforçando sua hipersexualização (Gonzalez, 2020; Reis, 2019; Santos & Sales, 2018).

Da mesma forma, outros desafios enfrentados pela mulher negra brasileira também remontam ao período escravagista. Em conjunto com a construção da percepção de inferioridade imposta à população negra, a depreciação estética também exerceu função crucial na elaboração de justificativas para a escravização. Ao tornar o branco uma referência, a elite apropriou-se de um simbolismo que reforça a autoestima e o autoconceito da branquitude em sobreposição aos demais, impondo sua suposta supremacia (Reis, 2019; Ribeiro & Vale, 2012). Isso é fundamental para compreender a construção da identidade da mulher negra, especialmente quando se entende que a imagem composta de si mesma está diretamente ligada à imagem que ela desenvolve sobre o grupo a que pertence (Carone & Bento, 2017; Hogg, Hohman, & Rivera, 2008).

Diante desse cenário, há que se questionar a influência do sentimento de inferioridade nas relações desenvolvidas por mulheres negras ao longo de sua vida. Embasado pelo legado de um passado escravagista, Fanon (2020) observa o impacto do desejo de ser branco – termo cunhado por ele como lactificação – nas escolhas afetivas de mulheres negras antilhanas. Segundo a concepção do autor, a mulher preta busca por homens brancos com o desejo de branquear-se, enquanto a mulher negra de pele clara compartilha não somente desse desejo, mas também do receio de "regredir" à condição de preta.

Embora o filósofo se debruce sobre a realidade Martinica, suas constatações podem ser expandidas para o contexto brasileiro, uma vez que o branqueamento no Brasil, produto de cruzamento racial marcado por violência, foi condição estabelecida ao negro, pós-abolição da escravização, para ser aceito na sociedade e desfrutar de alguma mobilidade social (Carone & Bento, 2017; Silva, 2000). Ainda no cenário brasileiro, Souza (2021) defende que é por meio da relação íntimo-afetiva com um parceiro branco que o sujeito negro pode satisfazer o ideal do ego – modelo ideal que embasa a constituição do indivíduo –, que se firma para a população negra como inatingível.

As condições atreladas ao branqueamento também exerceram seu papel nas escolhas afetivas dos indivíduos, desenvolvendo, por exemplo, a percepção coletiva do que é belo e digno de amor – o branco (Oliveira & Santos, 2018; Pacheco, 2008). Mais adiante, o impacto desse imaginário pode se relacionar ainda com o que pesquisadores atuais denominam "solidão da mulher negra", ressaltando a influência de uma ideologia racista em uma esfera que, em princípio, estaria restrita à vida privada (Ferreira, 2019; Oliveira & Santos, 2018; Pacheco, 2008). Ademais, a construção de estereótipos baseados no padrão da branquitude também influenciam tais escolhas, como a figura da "mulata" que, por um lado, festeja a sensualidade e a beleza, mas, por outro, é compreendida como objeto sexual, marcada por sua imoralidade e desacreditada das possibilidades de relações íntimas de amor e afeto (Candido & Feres Jr., 2019; Ribeiro, 2018).

Nesse contexto, quais seriam as especificidades envolvidas no envelhecimento de mulheres negras, dada a combinação entre dois marcadores sociais inferiorizados – raça e gênero – e uma etapa do desenvolvimento humano – a velhice – nitidamente atravessada por seus próprios estigmas? No processo de envelhecimento, ocorre não somente o declínio das funções biológicas, mas também um afastamento do olhar de desejo, prazer e amor, aproximando o sujeito ali presente de uma espécie de "morte simbólica". Somam-se a esse cenário a crescente limitação para realizar atividades cotidianas, o falecimento de entes queridos, o isolamento, a perda de funções corporais, entre outras características associadas a essa fase (Kreuz & Franco, 2017; Silva, 2007).

Embora associado a desafios como perda de autonomia, deterioração da saúde e solidão, o envelhecimento também pode ser compreendido como um período de novas oportunidades, marcado por aquisição de sabedoria, fortalecimento de vínculos sociais e desenvolvimento de outros projetos de vida. É fundamental reconhecer a diversidade de experiências do envelhecimento, evitando generalizações e estereótipos que reduzam essa fase da vida a uma mera sucessão de perdas (Pocahy, 2023; Silva & Ferrari, 2023). De toda forma, devido a práticas discriminatórias com base no preconceito de raça, pessoas negras idosas têm questões únicas que precisam ser enfrentadas na velhice. Isso se refere à múltipla desvantagem proveniente das desigualdades econômicas, sociais e históricas, além dos encargos adicionais de se viver em uma sociedade em que a igualdade racial permanece um mito (Rabelo, Silva, Rocha, Gomes, & Araújo, 2018).

De acordo com o Ministério da Saúde (2021), em 2020, 14% da população brasileira tinha 60 anos ou mais. A projeção é que, em 2050, esse número suba para 30%, ultrapassando a quantidade de crianças e adolescentes. Tendo em vista a transição demográfica atravessada pelo Brasil atualmente e o avanço nas discussões sobre a intersecção entre raça e gênero (Brown & Mutambudzi, 2022; Teixeira da Silva, Hochdorn, & Chariglione, 2024), este artigo tem como objetivo investigar como os processos de solidão, autopercepção da aparência e alteração da afetividade – oriundos do envelhecimento – relacionam-se com os estereótipos impostos às mulheres negras que influenciaram suas vivências ao longo de toda sua vida.

Método

Delineamento de Pesquisa

Este artigo optou por utilizar da metodologia qualitativa, compreendendo a possibilidade oferecida de aprofundamento das relações constituintes da realidade social e suas complexidades (Araújo, Oliveira, & Rossato, 2017) e a necessidade de desestruturação de uma hierarquia nas relações sociais, ao entender o sujeito participante como indivíduo ativo na construção do estudo (Anhas, Rosa, & Silva, 2018). Outrossim, cabe pontuar que esta pesquisa surgiu a partir da necessidade de analisar mais profundamente o subtema da afetividade e da autoestima de mulheres negras idosas a partir dos dados coletados do projeto de pesquisa "Deus é uma mulher preta? As representações sociais construídas por mulheres negras idosas do Distrito Federal sobre seus envelhecimentos". O projeto foi submetido ao Comitê de Ética em Pesquisa e aprovado sob o CAEE n° 61213822.7.0000.5540. A pesquisa foi realizada levando em consideração seus aspectos éticos e metodológicos conforme a Resolução nº 510/2016 do Conselho Nacional de Saúde (2016).

Amostra

Foram avaliadas e incluídas neste estudo 15 mulheres negras do Distrito Federal com idades variadas entre 60 e 82 anos (m = 69; σ = 7,75). Como critério de inclusão no trabalho original, a participante deveria se autodeclarar mulher negra (parda ou preta) com 60 anos ou mais e residir no Distrito Federal. Os critérios utilizados para inclusão das mulheres no presente estudo foram a presença de relatos positivos ou negativos acerca de relações conjugais passadas ou presentes, aspectos relacionados à autoestima e projeções afetivas para gerações posteriores. Um melhor detalhamento das características sociodemográficas da amostra pode ser observado na Tabela 1.

Tabela 1. Distribuição de dados sociodemográficos da amostra. Brasília, DF, 2024. 

Variáveis Sociodemográficas n
Escolaridade
Pós-Graduação 2
Ensino Superior Completo 5
Ensino Médio Completo 2
Ensino Fundamental Completo ou Incompleto 3
Não Alfabetizada 1
Estado Civil
Solteira 3
Divorciada 8
Viúva 2
Casada 0
Autodeclaração
Preta 11
Parda 2

Instrumentos

Para realização da pesquisa, foram utilizados trechos de entrevista semiestruturada composta por cinco questões norteadoras: a) O que é envelhecer para você?; b) Como é ser negra para você?; c) Você acredita que sua juventude, enquanto mulher negra, foi diferente da juventude de mulheres negras hoje?; d) Você sente que ser uma mulher negra impactou no seu envelhecimento?; e e) Como você espera que mulheres negras envelheçam hoje em dia? Adicionalmente foram coletados dados sociodemográficos como idade, estado civil, nível de escolaridade, cor (preta ou parda), naturalidade e região administrativa em que reside no Distrito Federal.

Procedimentos Metodológicos

Após aprovação pelo Comitê de Ética, os procedimentos se dividiram em duas partes: a) Recrutamento e Seleção e b) Entrevista. O recrutamento das idosas ocorreu por divulgação da pesquisa no jornal impresso de domingo da cidade; nas redes sociais da equipe de pesquisa, da universidade e da comunidade externa; pela distribuição de pôsteres em locais públicos; e por indicação das próprias participantes pela metodologia "bola de neve". Já selecionadas, as mulheres marcaram dia e horário mais adequados por contato telefônico. A entrevista ocorreu em local de escolha das participantes e sua realização se deu após serem repassadas informações sobre a pesquisa e a assinatura do Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE), garantindo anonimato e possibilidade de desistência a qualquer momento, sem ônus. Todas as entrevistas foram gravadas e transcritas e, posteriormente, os trechos que se encaixavam no critério de inclusão da amostra foram selecionados para compor o corpus textual.

Análise de Dados

Para análise de dados, optou-se por utilizar da análise do discurso, abordagem em expansão para pesquisas em Psicologia Social (Nogueira, 1998). Na análise do discurso, compreende-se que o sujeito está atrelado ao coletivo e é, portanto, porta-voz de suas representações. Assim, na interpretação abre-se possibilidade da produção de sentido por meio da influência de posicionamentos e experiências do analista, de modo a ampliar as alternativas de investigação (Caregnato & Mutti, 2006). Tendo isso em vista, deu-se prosseguimento ao processo de análise temática e divisão do corpus textual em categorias, com base na abordagem indutiva (Braun & Clarke, 2006).

Resultados e Discussão

Por meio da análise temática dos trechos separados, nove categorias foram identificadas e nomeadas, sendo elas: a) O Casamento Tradicional, b) Violação Intergeracional, c) Cuidado em Via Única, d) Alienadas de Afeto, e) Objetificadas e Hipersexualizadas, f) Inferiorizadas e Preteridas, (g) O Casamento Inter-racial, (h) O Antes e o Agora, (i) Estratégias de Enfrentamento. Ademais, destaca-se que os nomes escolhidos para representar as participantes do estudo em cada uma das categorias acima citadas são fictícios, escolhidos com intuito de fazer referência a algumas figuras mitológicas que se relacionam ao amor (não apenas o amor romântico) em diferentes culturas.

O Casamento Tradicional

Essa categoria revela as percepções das entrevistadas sobre os aspectos que compõem o casamento tradicional. São narrativas que carregam consigo as vivências de toda uma história de vida, responsáveis pela contínua construção de atitudes diante dessa união. No relato dessas mulheres, observa-se que a ideia de casamento é fortemente atrelada à perda de autonomia, à medida que a separação é compreendida como maneira de libertar-se:

Scheherazade: Eu saí do casamento, saí de casa. Peguei minha roupa, uma sacola e fui embora. Então, desde 2011 que eu construo uma nova vida, porque tudo isso que eu te falei antes do que eu fiz, eu não poderia ter feito se eu continuasse casada. Porque o casamento reserva outros papéis para a gente. Eu não poderia ter me sentido com essa liberdade de fazer o que me desse na telha . . .

Eva: Eu fiquei casada 31 anos, então eu posso dizer que houve uma interferência muito grande do casamento no meu modo de viver, né? Coisas do tipo hospedar gente aqui, fazer festa, farra que eu adoro . . . No casamento, isso, não teria esse espaço.

No período em que essas mulheres eram jovens, o casamento tradicional configurava-se como contrato análogo a uma relação de trabalho, em que a função do marido era o sustento e a proteção, enquanto o papel da mulher era a realização de tarefas domésticas e a satisfação sexual do companheiro (Fernandes & Garcia, 2010; Silva & Costa, 2022). Nessa época, fortes campanhas publicitárias propagaram os estereótipos da família harmoniosa, apoiando a concepção da esposa subserviente ao marido e tornando o casamento o objetivo maior dessas mulheres (Strey et al., 1999).

Nesse contexto, também era comum a posse do homem sobre o corpo, a vida e o desejo da mulher, o que favorecia situações de violência doméstica e isolamento (Fernandes & Garcia, 2010). Tais características se refletem na fala das idosas entrevistadas:

Orihime: Eu fui a primeira pessoa a sair de um relacionamento de violência, eu construí a minha casa, eu me divorciei e não tenho dependência de ter um homem, um marido, alguém comigo.

Zhinu: Teve uma conhecida que teve uma agressão, né? Aí no tempo, briga de marido e mulher ninguém . . . Aí ela foi agredida e eu disse "Pai, eu acho que se eu casar e for agredida eu volto pra casa", aí ele disse "Não volta não" . . . E aí eu disse, "tá, então eu não vou casar tá?".

Atualmente, o casamento tradicional é uma instituição em transformação, que acompanha as ideologias progressistas da sociedade contemporânea, em um cenário de maior inserção das mulheres no mercado de trabalho, de incentivo ao controle sobre o próprio corpo e, consequentemente, da maior aceitação do divórcio (Fernandes & Garcia, 2010; Linhares & Vianna, 2015; Strey et al., 1999). Como consequência dessa mudança, Berzins (2003 como citado por Dias & Serra, 2018) argumenta que as mulheres idosas, após o falecimento do marido, conectam-se mais consigo mesmas, sentimento oriundo de sensação de liberdade das atividades domésticas, antes sob sua responsabilidade. Como apresentado pelo discurso das entrevistadas, infere-se que o mesmo processo pode surgir no divórcio:

Orihime: Um dos meus fantasmas é . . . eu te falei que eu fui casada por 17 anos e foi um casamento muito ruim, né? Depois que eu me separei do meu marido, eu tive um relacionamento super rápido e nunca mais. Aí eu falei "não, deixa eu cuidar da minha vida, construir minha casa".

Eva: O melhor casamento é um bom emprego, né? Porque te dá liberdade.

Nessa perspectiva, faz-se necessário debater sobre afetos inter-raciais e apresentar a complexidade desses, não reduzindo às afirmações que não reconhecem a possibilidade de positividade em tais arranjos, produção de vínculos significativos e enfrentamento ao racismo. Em um país onde um terço das relações matrimoniais se dá entre pessoas que se autoclassificam como sendo de raças diferentes, responder a essa pergunta é tarefa urgente para o avanço do combate ao racismo. Ao indagar se vínculos afetivos em famílias inter-raciais podem amenizar ou desconstruir o ideário racista nos indivíduos, Schucman (2018) percebe que a raça não atua apenas como elemento organizador, mas também como categoria geradora de dinâmicas, discursos, conflitos e hierarquias intrafamiliares. Abrindo a porta da casa de cada família, fica escancarado o que no debate público já há muitos anos se diz: a formulação de mais estratégias de enfrentamento ao racismo é fundamental para combater a desigualdade e a crise social no Brasil.

Violação Intergeracional

Essa categoria denuncia de que forma a violência sofrida pelas gerações ancestrais impactou a trajetória das entrevistadas. Em suas narrativas, é possível notar de que maneira o histórico passado de violência doméstica afetou o processo de significação das participantes no que diz respeito à ideia do relacionamento afetivo-romântico, da figura masculina e do casamento tradicional:

Orihime: Uma das coisas que eu reproduzi da minha mãe foi a questão do casamento. O meu pai foi um homem muito violento, que batia na gente, "esculhambava" a minha mãe. Meu pai é um homem branco de olhos claros.

Vênus: Tinha vez que ela [a mãe] brigava lá com meu pai . . . e minha irmã falava assim . . . "Jesus, mamãe, por que você briga com o papai?" . . . "É porque eu não gosto dele" . . . "Por que você casou com ele?" . . . "Porque meu pai me obrigou a morar na casa dele quando eu tinha 14 anos". Pois é, naquele tempo ninguém casava por amor, não.

Nefertiti: E eu venho assim, muito cheia de história dos meus ancestrais, de muito sofrimento, de muita tortura, de muita barbárie. Os homens maltratando-as, e as pessoas brancas maltratando, e os familiares também maltratando . . . Quer dizer, naquela condição de mulher negra, sempre sofrida.

As vivências recortadas acima não são experiência particular das entrevistadas, mas encontram respaldo na literatura e nos dados estatísticos. A violência doméstica, quando testemunhada durante a infância e a adolescência, pode se tornar modelo de relacionamento conjugal nas futuras relações que serão estabelecidas por essas crianças, gerando um ciclo intergeracional de violência (Borges, Lucas, Silva, & Santos, 2021).

Em consonância com tal perspectiva, Carrijo e Martins (2020) observaram o fenômeno da violência intergeracional em seu estudo feito com mulheres negras em São Paulo, apontando o histórico de agressão na família como fator comum entre todas as participantes analisadas. Para além da literatura, os índices governamentais corroboram o impacto do fator racial na violência doméstica. Como descrito no Anuário de Segurança Pública de 2022 (Bueno & Lima, 2022), as mulheres negras representam 61,1% das mortes por feminicídio, enquanto as mulheres brancas representam 38,4% dessa amostra. Essa diferença, já expressiva, cresceu ainda mais em 2023, ano em que 63,6% das vítimas de feminicídio foram mulheres negras e 35,8%, brancas, conforme descrito no Anuário de Segurança Pública de 2023 (Anuário Brasileiro de Segurança Pública, 2024).

Cuidado em Via Única

Essa categoria expõe a sobrecarga das responsabilidades dentro do núcleo familiar. Nesse cenário, os relatos descrevem o cuidado com os filhos, com o marido e com as atividades domésticas como atividade exclusivamente atribuída às entrevistadas:

Psiquê: O tempo todo você está cuidando do outro, né? . . . E as mulheres negras têm muito isso, né? A gente cuida muito dos outros, né? A gente se preocupa . . . eu sei que se meu filho precisar, tiver filho, eu vou arregaçar e vou cuidar, mas eu gostaria que ele tivesse condições e que, né, não precisasse . . . Que eu tivesse a opção de curtir isso [o envelhecimento].

Entende-se o "cuidado" como um termo polissêmico que inclui, além de suas bases teóricas, um problema social e político (Goes, Marques, Ribeiro, & Pereira, 2023). No Brasil, relega-se à família o cuidado doméstico, em vez de investir no desenvolvimento de políticas estatais extensivas, como criação de creches ou instituições de acolhimento a pessoas idosas. Diante desse contexto de ausência do Estado, a mulher negra ocupa função central na mão de obra de trabalhos domésticos, de maneira que cabe a ela a tarefa do cuidado e do afeto, somadas às atividades de manutenção do lar (Engel & Pereira, 2015; Goes et al., 2023).

Tal ocupação não ocorre deslocada de um cenário político e social, mas, pelo contrário, possui suas raízes no período de escravização, que marca a formação da sociedade brasileira (Passos, 2020). Remonta à colonização o estereótipo da "mãe preta", aquela mulher negra subserviente que abdica de suas necessidades e desejos para exercer o cuidado da família branca (hooks, 2020). Assim, observam-se, no discurso das entrevistadas, características de sua trajetória que se aproximam às condições de vida de mulheres durante a escravização, reforçando a perspectiva de que a base das relações sociais surge em um regime escravocrata, mas segue, ainda, presentificando-se (Carone & Bento, 2017; Silva, 2000; Souza, 2021):

Siya: A minha juventude foi no cabo da enxada o tempo inteiro, sem parar. Hoje eu fico assim olhando "gente . . .". Eu de primeira eu não pensava em saber a data do mês, saber a data do ano, pra mim um ano demorava demais para passar, porque eu não parava pra prestar atenção não. O meu fazer era trabalhar na roça, ter filho todo ano, cuidar de filho, cuidar de marido.

Devido ao alto grau de instabilidade conjugal e, por vezes, ao abandono da família por parte dos homens, as famílias descritas pelas entrevistadas frequentemente tornam-se matriarcais. Isto é, a mulher negra idosa torna-se chefe da casa e da família, de modo que as relações entre os demais membros se estabelecem tendo-a como referência (Hita, 2014; Pacheco, 2008). Nesse contexto, ela exerce papel fundamental na sobrevivência familiar – constituição essa que pode ultrapassar os limites de parentesco sanguíneo – por terem poder de decisão sobre alocação de recursos, criação dos filhos e gerenciamento das atividades domésticas (Hita, 2014). Assim, é relevante investigar, especialmente no envelhecimento, a saúde mental dessas mulheres, uma vez que, embora tenham se tornado símbolo de força, elas podem priorizar o funcionamento do sistema familiar em detrimento das suas necessidades e questões pessoais (Barbosa, Rabelo, & Fernandes-Eloi, 2020), como ilustra a entrevistada:

Orihime: Esse papel de cuidadora que é uma fuga, né, pra não enfrentar os meus fantasmas.

Alienadas de Afeto

Nessa categoria, as entrevistadas compartilham como a negritude afetou o desenvolvimento de seus relacionamentos amorosos. A narrativa recuperada pelas idosas demonstra como o racismo está imbuído no imaginário coletivo. O racismo possui uma camada intersubjetiva que influencia nos sentimentos e nas condutas dos indivíduos, moldando, consequentemente, as relações estabelecidas. A discriminação racial torna-se, portanto, norma social, tecendo culturalmente um modo de pensar (Jesus, 2022):

Oxum: Aí, quando eu casei, que eu botei meu convite lá . . . aí, ela falou assim: "que bom, né, que você vai casar porque geralmente menina da sua cor não casa . . ."

O relato trazido por Oxum demonstra como o imaginário social, demarcado por uma cultura racista, afetou a concepção da mulher negra e sua capacidade de adentrar em relacionamentos amorosos. Os discursos de outras entrevistadas também ilustram de que maneira essa linha de pensamento afetou sua vivência:

Naleli: Até mesmo com namorado eu tive discriminação. Eu namorei um rapaz quatro anos e ele virou pra mim e falou que não ia casar comigo porque eu era negra.

Naiá: Eu tinha um namorado que o pai dele era militar e, eu, preta. Logo que a mãe dele me conheceu e viu que eu era preta e ele era branco, e aí eu notei que ela tipo assim "nossa, essa aqui é sua namorada?", o olhar que ela me deu foi esse, entendeu? Eu percebi. Você sabe que chegou ao ponto do pai dele . . . mandar o filho estudar fora de Brasília? Isso ali eu senti perfeitamente que foi interferência dos pais por eu ser preta, isso eu tenho certeza absoluta. Foi a coisa mais séria e grave assim comigo foi isso, entendeu?

Esses discursos demonstram que, conforme a relação que elas tinham foi se tornando mais estável e duradoura, mais explícito se tornou o racismo intersubjetivo discutido anteriormente. Sobre isso, Pacheco (2008) explica que há diferenças entre a afetividade e a sexualidade ao afirmar que a primeira engloba o entendimento de uma união estável e durável que inclua, possivelmente, o desenvolvimento de uma família. Entretanto, as mulheres negras não são compreendidas como ideais para serem apresentadas à sociedade como parceiras de um relacionamento conjugal, o que, por vezes, reduz suas probabilidades de estabelecerem casamentos e/ou uniões (Oliveira & Santos, 2018; Pacheco, 2008; Rosa, Binkowski, & Souza, 2019).

A diferença entre afetividade e sexualidade e sua relação com o racismo pode ser uma das explicações de por que as mulheres "mulatas" experienciam uma ambiguidade constante. Isto é, ainda que sejam reconhecidas e celebradas como símbolo da sensualidade e da beleza, essas mulheres são desacreditadas da possibilidade de relações baseadas no amor e no afeto mútuo (Candido & Feres Jr., 2019; Ribeiro, 2018).

Objetificadas e Hipersexualizadas

Essa categoria desvela a relação do corpo negro com a objetificação, denunciando uma jornada de vida atravessada por assédio e hipersexualização. Em suas narrativas, as entrevistadas relacionam os episódios de constrangimento em ambientes de trabalho, especialmente como domésticas ou ba bás:

Nefertiti: Eu já tive vez de eu chegar na casa da patroa, e ela fica me olhando de alto a baixo, e dizer: "depois você volta aí que eu vou conversar com meu marido, ver se ele vai te querer".

Oxum:O cara me olhou assim de cima embaixo, de baixo em cima . . . Aí ele olhou e falou assim: "é, ela tem um corpinho bonitinho, o corpinho dela, botando uma minissaia e uma blusinha decotada, dá pra trabalhar, sim, a gente deixa ela trabalhar aqui".

Tal discurso não é uma experiência exclusiva das entrevistadas, mas também observada em outros estudos. Por exemplo, em Pacheco (2008), Clementina – membro do sindicato de empregadas domésticas – afirma que muitas jovens buscam o serviço da organização para denunciar assédio sexual realizado pelo patrão ou por seus filhos. Ela argumenta ainda que já experimentara, em seu trabalho, as múltiplas formas de discriminação combinadas, como racismo, importunação sexual, humilhação e violência física.

Observa-se, portanto, relação direta entre os processos de objetificação e hipersexualização. Sob essa perspectiva, Pacheco (2008) e Santos e Sales (2018) argumentam que o legado da colonização para a mulher negra é a percepção de que seus corpos são objetos sexuais. Ao longo desse período, determinou-se que o corpo dessas mulheres, especialmente as negras de pele clara que assumiam as tarefas domésticas na casa-grande, eram de propriedade da família que as escravizavam, tornando-se depósitos de humilhação, moléstia e abuso sexual (Ribeiro, 2018). Nesse contexto, o estupro se constituía como mais uma ferramenta de controle e dominação da população negra, cujo objetivo final do ato era reprimir a resistência à escravização (Davis, 2016; hooks, 2020).

Posteriormente, esse entendimento foi reforçado pelos estereótipos firmados por Gilberto Freyre, que categoriza os papéis desempenhados pela mulher negra, descrevendo desde sua função como ama de leite até o local de iniciação sexual. O desenvolvimento dessas ideias e de outras que compõem o mito da democracia racial torna-se, então, pilar para composição do imaginário social do negro no Brasil (Pacheco, 2008; Santos & Sales, 2018), que norteia as relações estabelecidas até os dias atuais:

Ísis: Eu ia trabalhar de babá pra poder ajudar . . . É uma cena que eu fui muito assediada, dos patrões mesmo, chegar e querer estuprar, sabe, aproveitar que você, por ser você, negra. Então, toda vez, menina, que as patroas saiam, eu saía correndo Porque elas saíam, me deixava com as meninas e os homens ficavam em casa, não é? Os maridos . . . Eu chegava na minha casa de boca aberta de tanto correr, né, e com medo, porque o cara queria porque queria transar comigo. Então, era muito humilhante.

Já no envelhecimento, as entrevistadas analisam as situações ocorridas destacando sentimentos como impotência diante da objetificação e do assédio, além de indicarem sua imaturidade para lidar com a violação, uma vez que os episódios ocorreram na juventude:

Oxum: Então, você vê assim, naquele tempo, meus 16 anos, eu não tinha a mentalidade que uma menina de hoje tem, né? Eu não sabia nem o significado das palavras dele, né? . . . A maneira como ele falou, a maneira como ele me olhou, né, me incomodou . . . Aí, quer dizer, eu sofri, fiquei calada, né? Não tive voz para me defender, né? E era um direito meu.

Ísis: Hoje eu entendo isso [o assédio sofrido por ser negra]. Aquela época era muito . . . Não tinha cabeça para isso. Eu tinha mais ou menos uns 12 anos . . .

Inferiorizadas e Preteridas

Essa categoria engloba os aspectos da autoestima das entrevistadas, simbolizados pelo sentido dado à aparência física e à identidade que surgem na relação consigo mesma e com o outro. Em seus relatos, é possível observar a constante comparação imposta entre mulheres negras e mulheres brancas, sendo essas últimas entendidas como padrão ideal de beleza:

Psiquê: Entre a loirinha e a gente, vai escolher a outra, se a gente não tiver com o cabelinho bem arrumadinho, bonitinho, assim educadinha, né?

Oxum: Eu pensei . . . "é alguma coisa errada comigo", mas assim, na época não relacionava, eu pensava assim "é porque ela é bonita, né? e eu sou feia, né?", pensei assim, sabe? Então, então, essas coisas assim que você passa, vai te machucando, sabe?

Observa-se que o branco se impôs como modelo idealizado, tornando-se referência a partir da qual o negro será definido e se autodefinirá (Nogueira, 1998; Souza, 2021). A percepção inferiorizada do negro no Brasil surge como uma das estratégias de dominação do senhorio branco no período da escravização, de modo que à população negra atrelaram-se as figuras do irracional, do feio, do sujo e do exótico. Essas representações buscavam, em última instância, formar a imagem da "natureza negra", que determinava e mantinha os locais de privilégio da branquitude, ignorando, porém, as forças políticas e históricas que compunham as características utilizadas para formar esse mito (Souza, 2021).

Entretanto, como demonstrado pelos discursos das entrevistadas, essa concepção não sumiu com o fim do regime escravocrata, mas perdurou para além do estabelecimento do sistema capitalista (Oliveira & Santos, 2018; Souza, 2021). Com a abolição da escravatura, o negro foi incentivado a negar os aspectos que o compunham, seu corpo e sua mente, como forma de se integrar e ser aceito na nova norma social, desfrutando, assim, de alguma mobilidade (Carone & Bento, 2017). Atualmente, ainda se nota que o padrão de beleza e o local de referência segue a representação eurocêntrica na cor dos olhos, do cabelo e da pele (Amorim, Aléssio, & Danfá, 2021; Freitas & D’Affonseca, 2023; Silva, Santos, & Rodrigues, 2022). Afinal, conforme exposto por Pinheiro, Rosa e Conceição (2019, p. 8), "a formulação do padrão de beleza instituído pelos colonizadores brancos europeus elegeu ícones estéticos constituintes do seu sistema simbólico de representação".

Diante desse contexto, pressupõe-se que há impactos para mulheres negras nesse "não lugar" de adequação aos padrões vigentes e à referência para o que é belo e digno de amor e afeto. Neste estudo, as participantes constataram o fator racial como obstáculo no envolvimento romântico-afetivo com homens, delimitando inclusive dificuldades no relacionamento com homens também negros:

Naiá: Os homens da minha raça . . . não queria saber de namorar mulher preta, não, queriam saber de mulher branca, entendeu? . . . Porque eles não me davam bola, não gostavam . . . E eu sou doida pelo preto, mas é tão difícil.

Psiquê: Porque os homens brancos, eles demoram pra nos ver. Os homens negros que também não querem ver, né? E aí a gente fica nesse caminho, né? Caminhos e descaminhos, né?

Tais resultados corroboram o estudo desenvolvido por Mizael, Barrozo e Hunziker (2021), que identificaram que as mulheres negras se percebem preteridas inclusive por homens negros, uma vez que esses costumam optar por mulheres brancas. Segundo os autores, isso ocorre pela possibilidade de obter maior status social e pela influência dos estereótipos na percepção de mulheres negras, que contribuem ao afastamento. Pacheco (2013) também observa esse fenômeno, afirmando que a exclusão afetivo-sexual impacta mais as mulheres negras do que os homens negros, uma vez que o modelo homem negro e mulher branca é proporcionalmente mais aceito no imaginário social da comunidade brasileira. Analisando essa dinâmica, Fanon (2020) sugere que, na relação inter-racial com mulheres brancas, o homem negro aproxima-se de ser reconhecido como branco e, consequentemente, de se encaixar nos parâmetros ideais de cultura e beleza.

A vivência de preterimento trazida pelas entrevistadas – confirmada pelos demais estudos – soma-se à inadequação aos padrões de beleza branco, afetando ainda mais a vida de mulheres negras. Repara-se, em algumas das narrativas, a sensação de atraso em adentrar-se na vida afetiva-romântico-sexual na juventude, o que culminou em sentimentos de solidão, exclusão e isolamento:

Iara: Fiquei me autoexcluindo das coisas, né? Até que eu fui namorar com 19 anos. Não tive namoradinho durante a adolescência. Então, foi assim, não foi uma coisa bonita não, foi traumática.

Vênus: Eu vim saber o que era ser moça, curtir a vida, eu já tinha de 18 anos pra cima. É que eu fui pra uma festa . . . que eu arrumei um namorado e arrumei um namorado com 18 anos.

Iara: Minha [juventude] foi meio isolada . . . por exemplo, eu não namorava, eu não paquerava, eu não queria ir à festinha porque eu sempre me achava que eu podia ser a mais feia, a mais gordinha e baixinha, a bunduda.

Scheherazade: Você vê que as moças brancas e negras, mesmo elas sendo pessoas com boa formação acadêmica e tudo, elas não conseguem um namorado. Não consegue.

Santos, Brisola, Moreira, Tostes, & Cury (2023) também identificam a solidão como um dos sentimentos consequentes do preterimento, ao passo que Pacheco (2008) aprofunda essa discussão ao afirmar que tal ausência não se supre pelo estabelecimento de outras relações sociais, como amizade e família. Cabe ressaltar que ainda que uma das participantes argumente que esse isolamento não se justifica pela negritude, essa constatação proposta não dialoga com o discurso das outras participantes ou estudos sobre a solidão. Hoje em dia, compreende-se que as escolhas afetivas são amplamente influenciadas pelos legados da colonização, envolvendo o racismo em camadas subjetivas do sentimento e da relação social (Candido & Feres Jr., 2019; Jesus, 2022; Oliveira & Santos, 2018; Ribeiro, 2018).

O Casamento Inter-racial

Essa categoria aborda os sentidos dados ao casamento inter-racial. No discurso das entrevistadas, é possível observar como uma vida marcada por racismo impactou no estabelecimento de relações afetivo-românticas, especialmente no que diz respeito à preocupação com as próximas gerações:

Ísis: Eu tinha medo de me casar com um negro. Eu namorei com negro, mas eu não quis me casar com ele. Porque eu pensava nos meus filhos . . . se fossem os dois negros, pra eles a vida ia se tornar muito difícil. Aí procurei um branco, me casei com um branco. Branco dos olhos claros. Meus filhos saíram mesclados: uns brancos, uns na minha cor, sabe?

Tisbe: Eu sou feliz, casei com um homem branco, olha a coalhada aí! A neta branca . . .

Vênus: Eu, pelo menos, queria casar com negro. O primeiro namorado meu foi um preto, né? Que papai não gostava de jeito nenhum. Papai era meio racista. Casei, mas meu marido não era negro.

No Brasil, a necessidade de embranquecer-se é considerada problema do negro, que supostamente estaria descontente com sua condição e, por isso, buscaria a miscigenação como forma de diluir seus marcadores raciais (Carone & Bento, 2017). Em diálogo com essa lógica, o mito da democracia racial também difundiu o caráter individualista da ascensão social, enfatizando a capacidade de cada um de efetivar esse projeto (Nascimento, 2021; Neves & Silva, 2019; Souza, 2021). Sob essa lógica, o casamento inter-racial surge como possibilidade de branqueamento social e consequente mobilidade (Pacheco, 2008).

Já no âmbito psíquico, a influência da colonização fundamentou o imaginário coletivo e elegeu o branco como modelo externo de referência estrutural e simbólica, impondo ao negro a impossibilidade de alcançar esse ideal. Na busca pela sua satisfação, restou a ele o estabelecimento de relacionamento afetivo-sexual com parceiro branco como alternativa de identificar e realizar, indiretamente, isso que lhe é inatingível (Souza, 2021).

Ainda nessa perspectiva, Fanon (2020) ousa debater sobre os fatores que envolvem esse relacionamento, colocando em xeque a existência do amor autêntico nessa união enquanto os sentimentos de inferiorização do negro ou de supercompensação do branco não fossem ultrapassados. O termo cunhado pelo autor como "lactificação" ilustra essa linha de pensamento ao descrever o vislumbramento de embranquecer-se por meio da relação afetivo-sexual com homens brancos (Fanon, 2020).

O Antes e o Agora

Essa categoria expõe uma dualidade na maneira como as entrevistadas significaram suas experiências afetivas, de autoestima e de racismo. Observa-se que parte das mulheres significa o momento atual como local de oportunidade no âmbito da educação e do combate ao racismo:

Naleli: Há diferença, né? Do tempo em que eu era jovem pra agora . . . até agora tem mais conhecimento, né? Mas mesmo assim, ainda existe muito racismo, né? E esse racismo, quando acontece com a gente . . . Assim, a gente sente, mas é um crescimento para a gente também. É um momento em que você vira e fala assim "não, eu tenho que ir à luta, eu tenho que ter mais conhecimento para mim poder chegar onde eu quero".

Ísis: Hoje eu acho que já não tem tanto disso . . . As meninas de hoje já são muito sabida. Na minha época, as meninas não eram tão ativas como são hoje. Hoje em dia, é tudo mais fácil . . . Tem os professores que ensinam, tem os pais que ensinam.

Iara: Porque eu falo assim "ai gente, se eu tivesse essa consciência hoje eu ia ser do funk". Então eu ia até o chão, total. Perdi tempo na década de 70.

No discurso das entrevistadas, observa-se a valorização do acesso à informação no combate ao racismo, o que culmina em uma perspectiva positiva sobre os dias atuais. Tendo em vista a média de idade (m=69) das mulheres que participaram deste estudo, compreende-se que essa valorização da educação está presente em seu contexto histórico de desenvolvimento. Domingues (2009) pontua que, entre 1937 e 1978, o movimento negro da época lutava publicamente pela inserção do negro na vida administrativa e social do país, demandando elevação intelectual por meio da educação. Tornava-se missão alfabetizar o negro com a intenção de aprimorar sua autoestima, melhorar suas perspectivas de futuro e significar novas oportunidades de progresso social (Domingues, 2009).

A luta pela alfabetização remonta ao período escolar das entrevistadas; entretanto, a mobilização por uma educação antirracista é produto de tempos mais atuais. Oliveira (2020) considera que há uma diferença crucial na educação que é marcada pela intergeracionalidade: a) os indivíduos que se formaram ainda sob influência do mito da democracia racial e na ausência de apoio político no combate ao racismo; b) aqueles sujeitos que se formaram com uma esperança utópica que mobilizava ações políticas e pedagógicas de militância; e c) jovens que entram nos espaços educacionais com direitos já adquiridos. Diante dessa perspectiva, infere-se que as participantes tiveram sua trajetória educacional compreendida principalmente dentro do grupo 1 e, eventualmente, no grupo 2. Por sua vez, os dias atuais a que elas se referem em seus discursos, que demarcam o maior acesso à informação, compreende o momento atual, representado pela juventude do grupo 3.

Adicionalmente, as entrevistadas pontuaram maior acesso, nos momentos atuais, a produtos de beleza. Sobre esse tema, Larcher, Montagnana e Godinho (2017) demonstram a multiplicidade de estudos que apresentam a evolução no mercado de cabelo e cosméticos que, anteriormente, eram pensados somente para a população branca, e hoje em dia englobam e valorizam outras populações, reconstruindo o "ser negro":

Nefertiti: Porque naquela época, nós não tínhamos, assim, os artefatos que tem hoje para embelezamento. Então a gente se mostrava tal qual era, no cabelo . . . Não tinha como se proteger de alguma forma, que hoje em dia não tem gente feio no mundo mais, né? Com tanta belezura que tem.

Por fim, as entrevistadas pareceram se dividir no que diz respeito à diferença do relacionamento inter-racial no presente e no passado. Enquanto parte delas argumenta que antigamente havia maior segregação, outro grupo defende que antigamente o estabelecimento de uma relação afetivo-romântica entre negros era menos frequente. Para uma das entrevistadas, os momentos atuais culminam inclusive em maior dificuldade em desenvolver compromisso dentro do relacionamento. As diferentes perspectivas são mostradas a seguir:

Naiá: Na minha época, o racismo era mais dentro da própria raça, não queriam. Hoje o preto casa com preto, mas, né, você aceita mais e tal. Mas antigamente era muito difícil, a não ser dentro da comunidade que, né, que é preto casava com preto. Hoje em dia você não vê assim a mistura de raças como tinha na minha geração, na minha geração a mistura de raça era muito mais forte, mais evidente.

Scheherazade: E a juventude toda ali dançando, o branco com preto, preto com branco, amarelo, louro, japonês, todo mundo dançava. A gente não tinha essa segregação que tem hoje. Pelo menos lá no interior . . . era mais, tinha mais liberdade pra todo mundo ficar junto, namorar, dançar, sabe? Ninguém olhava, "ah, porque eu não vou namorar aquela fulana, porque ela é negra". Não, a gente não, não tinha isso na cidade . . .

Vênus: É, agora que está tudo misturado, aí as coisas parecem assim, olha os pretos ali no meio dos brancos, né? Preto tudo que antigamente era dividido era separado. Mas hoje a mulher loira casa com preto . . . Mas no meu tempo não era não. O branco casava com branco. Preto casava com preto.

Os dados estatísticos demonstram que, em 1980, época da juventude da maior parte das entrevistadas, os casamentos inter-raciais eram menos comuns, de modo que apenas 18,2% das uniões eram entrem brancos e negros (Longo, 2011). Nos tempos presentes, ainda se observa o impacto do entrelaçamento entre beleza, cultura e ascensão social nas escolhas afetivas da população, significando a raça/cor dentro dos relacionamentos (Pereira & Rodrigues, 2010). Esse dado pode ser corroborado pelos dados sociodemográficos recolhidos neste estudo, que apontam que, das 15 mulheres entrevistadas, nenhuma se declarou casada, cenário que também foi ilustrado em uma das narrativas:

Scheherazade: Antigamente era tão fácil arrumar um namorado . . . os homens iam na casa da gente, pediam pra namorar, noivava, casava, hoje você não vê mais isso . . . não tem compromisso com ninguém.

Estratégias de Enfrentamento

Essa categoria explora algumas ferramentas utilizadas pelas entrevistadas para lidar com o racismo cotidiano e seus impactos na esfera das relações afetivo-românticas e no desenvolvimento da autoestima. Observa-se, no discurso das entrevistadas, a mídia como fator positivo nessa ressignificação:

Yaa: Eu aprendi sobre o amor, isso aí tá me influenciando, eu não sei se isso vai dar certo, se não vai dar certo, mas eu sei que o amor é a mola ou é a ferramenta pra tudo. Eu vejo muito isso naquele programa, daquela série [cita o nome do programa], não sei se você conhece.

Nefertiti: O título de rainha já não cabe mais para as mulheres, porque a rainha pressupõe que ela é a mulher de quem? Do rei. Não, agora ela é a "mulher-rei" [referindo-se ao filme]. Empoderada, ela tem um poder, ela sabe que ela "chega chegando". E essa eu quero ser! Eu tenho uma grata satisfação de ver, e na mídia! De repente tem uma mulher negra se apresentando, é nova, velha, gorda, magra, linda, cabelo crespo, esvoaçante, preso na trança ou não . . . Isso me satisfaz! Isso me faz esquecer um pouco todas as amarguras. . .

Apesar de a construção de personagens negros ser historicamente ligada a uma ideia estereotipada com raízes na colonização (Candido & Feres Jr., 2019), compreende-se que o cinema também pode ter o potencial de romper com essa lógica, como bem explicado pelas entrevistadas. A produção atual de mulheres negras jovens, por exemplo, traz consigo o objetivo de ampliar as subjetividades da população negra a partir da afirmação de afetos e da representação do pertencimento (Ferreira & Souza, 2017).

Por sua vez, Souza (2021) aponta como estratégia de enfrentamento ao modelo branco inalcançável a elaboração de outra referência de ideal, com valores, vivências e perspectivas históricas. A partir da narrativa das participantes, infere-se que as mídias, quando lideradas por mulheres negras, podem auxiliar na construção desse novo ideal. Ademais, a autora argumenta o papel da militância e da prática política na recuperação da autoestima e na construção de um local de valorização do negro (Souza, 2021), aspecto corroborado por Santos (2021) e pelas participantes deste estudo:

Psiquê: A gente criou, no-na-na universidade, um grupo de negros, que era um grupo chamado "grupo negro da PUC", né, . . . Mas, assim, a gente se encontrava na hora do café, então isso dava energia para a gente poder ir pros outros espaços.

Considerações Finais

Este estudo teve como objetivo investigar como os processos de solidão, autopercepção da aparência e alteração da afetividade – oriundos do envelhecimento – relacionam-se com os estereótipos impostos às mulheres negras, os quais influenciaram suas vivências ao longo de toda sua vida. Diante do exposto, considera-se que os objetivos propostos para este estudo foram alcançados. Foi possível demonstrar que as vivências de racismo, permeadas pela influência de ideias que remontam à colonização, impactaram o relacionamento de mulheres negras ao longo de toda uma vida. Adicionalmente, explicitou-se de que maneira essas experiências foram significadas no envelhecimento.

Os resultados evidenciaram que as vivências de racismo, desde a juventude, moldaram significativamente a autopercepção da aparência e a autoestima das mulheres negras entrevistadas, impactando diretamente suas relações afetivas e sociais na velhice. A categoria "envelhecimento" mostrou-se central para compreensão das experiências das mulheres negras, revelando como o racismo se intersecta com a idade, produzindo trajetórias de vida marcadas por desigualdades e exclusões.

Cabe ressaltar que o instrumento utilizado para o desenvolvimento deste estudo não visava, em primeira instância, a captar a trajetória afetiva-romântica das entrevistadas, de modo que os relatos utilizados emergiram em contexto que objetivava compreender o envelhecimento. Sob essa perspectiva, afirma-se a importância de se aprofundar nessas narrativas e sugere-se a expansão de estudos que visem a compreender o racismo na construção da subjetividade e da identidade, considerando a interseccionalidade de raça, gênero e idade.

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Pesquisa financiada pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq).

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Disponibilidade de dados: os dados da pesquisa estão disponíveis no corpo do artigo.

https://doi.org/10.1590/1982-3703003283407

Como citar: Morais, O. L. S. E., Silva, P. T., & Chariglione, I. P. F. S. (2026). A Estrutura Colonial Afetiva: Uma Trajetória Recuperada por Mulheres Negras no Envelhecimento. Psicologia: Ciência e Profissão, 46, e283407. https://doi.org/10.1590/1982-3703003283407

How to cite:Morais, O. L. S. E., Silva, P. T., & Chariglione, I. P. F. S. (2026). The Affective Colonial Structure: A Trajectory Resumed by Aging Black Women. Psicologia: Ciência e Profissão, 46, e283407. https://doi.org/10.1590/1982-3703003283407

Cómo citar: Morais, O. L. S. E., Silva, P. T., & Chariglione, I. P. F. S. (2026). La Estructura Colonial Afectiva: Una Trayectoria Recuperada por Mujeres Negras en el Envejecimiento. Psicologia: Ciência e Profissão, 46, e283407. https://doi.org/10.1590/1982-3703003283407

Recebido: 17 de Fevereiro de 2024; Aceito: 29 de Novembro de 2024

E-mail: olivialeonemorais@gmail.com

E-mail: fraupolliana@gmail.com

E-mail: ichariglione@unb.br

Endereço para envio de correspondência:

Universidade de Brasília, Instituto de Psicologia, Campus Universitário Darcy Ribeiro, CEP: 70910-900. Brasília – DF. Brasil.

Editores responsáveis:

Miriam Cristiane Alves e Rafael Wolski de Oliveira

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