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Construção psicopedagógica

Print version ISSN 1415-6954On-line version ISSN 2175-3474

Constr. psicopedag. vol.34 no.36 São Paulo  2024  Epub Feb 03, 2025

https://doi.org/10.37388/cp2024/v34n36a02 

ARTIGOS ORIGINAIS

DA PESQUISA À PRÁTICA: A IMPLEMENTAÇÃO DE UMA POLÍTICA PÚBLICA EDUCACIONAL PARA APOIAR O DESENVOLVIMENTO INFANTIL A PARTIR DO FORTALECIMENTO DAS RELAÇÕES ENTRE FAMÍLIA E ESCOLA

FROM RESEARCH TO PRACTICE: THE IMPLEMENTATION OF AN EDUCATIONAL PUBLIC POLICY TO SUPPORT CHILD DEVELOPMENT BY STRENGTHENING FAMILY-SCHOOL RELATIONSHIPS

Ana Luiza Raggio Colagrossi1  2 

Barbara Barros Barbosa1 

Ana Coelho Vieira Selva3  4 

Ana Cristina Avellar5 

Adriana Oliveira de Toledo6 

Ana Flávia Vieira Rolin6 

Maria Jakelane Darck Finelon Barros6 

Sayonara Souto Rosa da Costa6 

Luciana Lopes de Vasconcelos Lima7 

Mariana Mickaela Oliveira Alves de Souza8 

Magna do Carmo Silva9 

1 Espaço Àra.Brasil

2 Psicopedagogia – Instituto Sedes Sapientiae, SP.Brasil

3 Secretaria Executiva de Gestão Pedagógica do Recife.Brasil

4 Universidade Federal de Pernambuco.Brasil

5 Gerência de Alfabetização, Letramento, Educação Infantil e Anos Iniciais – Secretaria de Educação do Recife.Brasil

6 Divisão de Educação Infantil – Secretaria de Educação do Recife.Brasil

7 Secretaria Executiva da Primeira Infância do Recife.Brasil

8 Gerente Geral da Primeira Infância do Recife.Brasil

9 Pró-reitora de Graduação na Prograd – Universidade Federal de Pernambuco.Brasil


RESUMO

Este artigo explora a trajetória do programa Família+, originalmente concebido como uma iniciativa de pesquisa voltada para o fortalecimento das relações entre família e escola na educação infantil, e foi posteriormente transformado em uma política pública na cidade do Recife. Inicialmente implementado de forma piloto em 36 escolas, o programa foi expandido para 148 unidades educacionais. O texto detalha as etapas desse processo de expansão, enfatizando o papel essencial dos atores envolvidos, as adaptações metodológicas realizadas para atender às necessidades da rede municipal e as lições aprendidas das fases iniciais da implementação.

Palavras-Chave: Desenvolvimento Infantil; Parentalidade; Relação Família-Escola; Política Pública Educacional; Engajamento Familiar

ABSTRACT

This article explores the trajectory of the Família+ program, originally conceived as a research-based initiative aimed at strengthening the relationship between family and school in early childhood education and was later transformed into public policy in the city of Recife. Initially piloted in 36 schools, the program was expanded to 148 educational units. This article details the stages of this expansion process, highlighting the essential role of the involved stakeholders, the methodological adaptations made to meet the needs of the municipal network, and the lessons learned from the initial phases of implementation.

Key words: Early Childhood Development; Parenting; Family-School Relationship; Educational Public Policy; Family Engagement

Introdução

Este artigo explora a implementação de uma política pública educacional na rede de educação infantil do Recife, com o foco no fortalecimento das relações entre família e escola e na promoção de vínculos afetivos mais sólidos entre crianças e seus responsáveis, visando ao desenvolvimento infantil.

A primeira infância é um período altamente sensível à qualidade das experiências iniciais. Segundo Jack Shonkoff, pesquisador do Centro de Desenvolvimento Infantil da Universidade de Harvard, “a qualidade das experiências iniciais molda a estrutura do cérebro e influencia o desenvolvimento das capacidades cognitivas, emocionais e sociais das crianças” (SHONKOFF, 2011, p.8). Essas experiências – positivas ou negativas – estabelecem a base para o aprendizado futuro, comportamento e saúde física, influenciando também a regulação emocional e o desenvolvimento de competências fundamentais para a vida. Portanto, é essencial proporcionar às crianças uma base familiar fortalecida que minimize o impacto de experiências negativas e contribua para o desenvolvimento da resiliência (National Scientific Council on the Developing Child, 2015). Investir na primeira infância reflete-se em benefícios a curto, médio e longo prazo, como a redução de índices de criminalidade e evasão escolar, diminuição da taxa de gravidez na adolescência e aumento da produtividade.

As interações que a criança estabelece, especialmente com sua família, são determinantes para o desenvolvimento de vínculos afetivos e de confiança mútua. Segundo John Bowlby, psicólogo e pesquisador, “o afeto e a segurança proporcionados por vínculos familiares consistentes e amorosos são essenciais para o desenvolvimento emocional e social saudável das crianças” (BOWLBY, 1988, p 119). Esses vínculos formam a base para a autoestima e a regulação emocional, influenciando profundamente o comportamento e o crescimento infantil. Assim, é imprescindível que a família esteja envolvida na dinâmica educacional por meio de reuniões, programas, projetos e eventos colaborativos, garantindo uma educação de qualidade que contemple os diversos contextos de desenvolvimento da criança.

Este artigo discutirá o processo de implementação do Programa Família+1 como política pública, apresentando uma discussão sobre o processo de expansão do programa e do interesse da rede em atuar para o fortalecimento das relações entre família e escola. Inicialmente, será contextualizado o desenho do programa e como a pesquisa que o originou, realizada em parceria com a Universidade Federal de Pernambuco, serviu de base para sua adoção pela Secretaria de Educação do Recife (Seduc). Em seguida, detalharemos o processo de transformação dessa iniciativa em uma política pública, destacando as etapas adotadas para a expansão da implementação. A partir de uma análise metodológica, descreveremos as adaptações feitas para atender às necessidades e a capacidade de atuação da rede municipal. Na sequência, apresentaremos as lições aprendidas durante a implementação, bem como dados coletados junto às unidades participantes. Por fim, serão discutidas as perspectivas futuras do programa Família+, com ênfase para seu alinhamento com a Base Nacional Comum Curricular (BNCC), o Currículo de Pernambuco e Política de Ensino da Rede Municipal do Recife - Educação Infantil, enfatizando a importância das competências socioemocionais e a continuidade da expansão do programa na rede municipal de Recife.

A pesquisa

Reconhecendo a importância das relações família e escola para promover o desenvolvimento infantil, a Rede Municipal de Educação do Recife identificou a necessidade de uma metodologia eficaz para trabalhar a parentalidade, visando estreitar as relações entre família e escola como fator essencial para o desenvolvimento infantil.

Em resposta a essa demanda, o programa Família+ foi apresentado como uma alternativa metodológica para trabalhar a parentalidade na rede. O programa Família+, uma abordagem multinível e de baixo custo, foi criado com o objetivo de apoiar os pais ou responsáveis a promover interações de qualidade com suas crianças e a fortalecer os laços entre família e escola, promovendo o desenvolvimento infantil a partir do envolvimento familiar. Utilizando de princípios da ciência comportamental, o programa busca estabelecer uma comunicação eficaz entre as famílias e os professores.

Em alinhamento com as ações da Seduc, o Família+ foi implementado para trazer estratégias voltadas à parentalidade, envolvendo o desenvolvimento profissional dos educadores e a divulgação de informações e atividades que apoiam o desenvolvimento da criança para as famílias por meio de mensagens digitais e reuniões. Essa iniciativa está em consonância com o compromisso da rede de promover o desenvolvimento infantil de forma integral, focando não apenas nas crianças, mas também no envolvimento ativo das famílias.

As intervenções parentais, conforme destacado por Black et al. (2017), são programas destinados a melhorar o conhecimento, atitudes e práticas dos pais e cuidadores para promover o desenvolvimento infantil. Pesquisadores e formuladores de políticas têm investido cada vez mais nessas intervenções, pois os pais precisam sentir-se apoiados e ter acesso ao melhor conhecimento disponível sobre desenvolvimento infantil. O Família+, como intervenção parental, oferece suporte às famílias para que participem ativamente no desenvolvimento de suas crianças.

Para assegurar a adequação da metodologia à rede do Recife, o Família+ foi implementado em 2023, como parte de uma pesquisa envolvendo 36 unidades educacionais que atendem crianças ente 3 e 5 anos. Estas foram sorteadas e organizadas em três grupos de 12. Cada grupo foi exposto a uma metodologia diferente de comunicação. O Grupo 1: recebia três mensagens semanais; o Grupo 2: uma mensagem semanal; e o Grupo 3: grupo controle, não recebeu mensagens.

Os grupos de WhatsApp foram organizados pelos coordenadores pedagógicos, incluindo as famílias de cada turma. O objetivo era enviar mensagens claras e objetivas, com sugestões de atividades para serem realizadas em casa. Essas mensagens eram elaboradas pela equipe de pesquisa, revisadas pela equipe técnico-pedagógica da Seduc e gravadas por educadores da plataforma online no Youtube do EDUCA-Recife e posteriormente, enviadas às famílias.

A implementação do programa envolveu ações coordenadas e estruturadas, incluindo:

  1. Formações e Reuniões: A equipe pedagógica da Seduc Recife passou por formação específica, seguida de reuniões com gestores e coordenadores das unidades selecionadas. A formação foi estendida aos coordenadores dos Grupos 1 e 2. Reuniões mensais com as equipes escolares fortaleceram a implementação piloto do Família+, proporcionando espaços para a troca de boas práticas. Durante esse processo, desafios e conquistas com as famílias foram identificados e discutidos, promovendo uma implementação colaborativa. Ao final da pesquisa, todos os envolvidos — gestores, coordenadores pedagógicos, familiares — foram consultados.

  2. Uso de Tecnologias Digitais: Baseado na Ciência Comportamental, o Família+ utilizou formações, encontros e mensagens digitais para compartilhar informações e atividades que promovem o desenvolvimento infantil e o bem-estar das famílias. Tecnologias como o WhatsApp facilitaram a comunicação, tornando as atividades acessíveis a um maior número de famílias. O conteúdo das mensagens foi adaptado à realidade cultural e linguística local, reforçando a eficácia da abordagem.

  3. Promoção da Comunicação Contínua: O programa promoveu comunicação contínua entre família e escola por meio de interações presenciais e mensagens, abordando temas como fortalecimento de vínculos através da brincadeira, sentimentos e emoções, autorregulação e organização da rotina familiar.

  4. Encontros Presenciais: Reuniões mensais reforçaram os conteúdos transmitidos nas mensagens digitais e permitiram vivências e troca de experiências entre famílias e educadores.

Com essas ações, a metodologia do Família+ demonstra alinhamento com as iniciativas da Secretaria Municipal de Educação do Recife, que busca fortalecer a participação da família no processo educacional e promover o desenvolvimento integral das crianças. O programa complementa as políticas educacionais da secretaria, contribuindo para a construção de uma educação de qualidade que envolve todos os atores do processo educativo. Os resultados positivos alcançados durante a fase de pesquisa foram essenciais para que o Família+ evoluísse de uma iniciativa piloto para uma política pública, marcando o início de sua expansão e consolidação na rede municipal de educação.

A transformação da pesquisa em política

A bem-sucedida implementação do programa Família+ durante a fase de pesquisa pode ser atribuído ao envolvimento de diversos atores-chave. Dentro da Secretaria de Educação do Recife, a Secretaria Executiva da Primeira Infância e a Secretaria Executiva de Gestão Pedagógica exerceram um papel fundamental na adaptação do conteúdo do programa às realidades das escolas. O foco esteve na formação dos professores e coordenadores pedagógicos, garantindo que o programa fosse eficaz em diversos contextos escolares.

Os coordenadores pedagógicos desempenharam um papel crucial como mediadores entre as escolas e as famílias. Foram responsáveis por sensibilizar a comunidade escolar, organizar grupos de WhatsApp e facilitar a comunicação contínua, tanto presencial quanto digital, com as famílias. Além de garantir que as informações e atividades propostas fossem acessíveis e culturalmente apropriadas para cada contexto escolar, eles também promoveram a integração das famílias nas dinâmicas escolares.

A percepção da rede de educação sobre o envolvimento das famílias foi um dos principais fatores para a transformação do programa de uma pesquisa para uma política de rede. Segundo a coordenadora pedagógica Lucineide Lima, da Creche do Bongi,

O Família+ veio para fortalecer ainda mais o vínculo da escola com os pais… Foi bem enriquecedor, inclusive com depoimentos dos pais que relataram ter resgatado brincadeiras da infância, agora realizadas em casa e no parque, algo que não faziam há muito tempo.

Este depoimento reflete o impacto positivo do programa, mostrando como ele ampliou os espaços de convivência e brincadeira, proporcionando uma experiência lúdica e educativa tanto em casa quanto em outros ambientes.

Outro relato que reflete o impacto do programa é o de Zé Renato, pai de uma criança da Creche Municipal do Bongi. Ele compartilhou:

O Família+ chegou em nossa casa de forma maravilhosa, trazendo brincadeiras que eu brincava na infância. Isso impactou não só a minha família, mas também nossos vizinhos. Quando eu saía para brincar com meus filhos, eles perguntavam sobre as brincadeiras, e eu explicava o que era o Família+ e como estava sendo bom para nós.

A coordenadora Michaelle Morais, da Creche Escola Professor Ariano Suassuna, reforça: “A rotina de comunicação com as famílias foi fortalecida, e os responsáveis ficaram cada vez mais engajados em fortalecer os vínculos com as crianças”. Ela também relata que, “com as conquistas observadas na unidade, planejamos o Dia da Família na Escola, um evento aos sábados que proporcionou contato com a natureza, brincadeiras livres e o resgate de atividades tradicionais em diversos espaços externos”.

Esses relatos ilustram que algumas unidades educacionais vêm participando ativamente do Família+ desde o início da pesquisa. Almerina Nascimento Bandin, coordenadora da Escola Municipal Professor João Francisco de Souza, compartilhou: “Estamos no programa Família+ Recife desde 2022, quando participamos da primeira entrevista com as famílias. Em 2023, o envolvimento familiar nos trouxe resultados maravilhosos, e em 2024 nos surpreendemos com o aumento da participação nas atividades”. Ela destaca o desenvolvimento de encontros periódicos de integração com crianças e pais, promovendo oficinas recreativas, de arte e culinária, além de debates sobre o cuidado afetuoso, propósito central do programa. Bandin acrescenta: “O Família+ Recife trouxe os pais para a escola de uma forma leve e acolhedora. O mais significativo foi o envolvimento dos pais nas reuniões, dinâmicas e brincadeiras com seus filhos”.

Esses exemplos demonstram que o Família+ não apenas atingiu seu objetivo de fortalecer os vínculos entre as famílias e as crianças, como também inspirou novas ações nas unidades escolares. Isso contribuiu para uma relação mais próxima entre as famílias, as crianças e as escolas, um aspecto essencial para o desenvolvimento infantil integral.

Outro exemplo é o Projeto Arte em Família, desenvolvido na Escola Municipal João Francisco de Souza. Inspirado em proporcionar oportunidades de interações de qualidade entre criança e pai ou responsável, o projeto promoveu uma atividade de arte colaborativa envolvendo crianças e cuidadores. As famílias foram convidadas a participar de oficinas de arte na escola, criando obras conjuntamente com as crianças. Essa iniciativa incentivou a colaboração, o vínculo afetivo e proporcionou momentos significativos de interação, além de estimular a criatividade e a expressão artística das crianças em conjunto com suas famílias.

Essas iniciativas refletem a importância do Família+ Recife como uma ação estratégica fundamental para fortalecer as relações das crianças com suas famílias e destas com as unidades educacionais, contribuindo para o desenvolvimento integral da criança nos aspectos afetivos, sociais, emocionais e cognitivos. As Figuras 1 e 2 ilustram as atividades inspiradas pelas premissas do Família+ e desenvolvidas na Rede de Educação do Recife.

Fonte: Arquivo DEI 2023.

Figura 1 Mural de Vivências 

Fonte: Arquivo DEI 2023.

Figura 2 Arte em Família 

Além das atividades realizadas em casa, o programa gerou ações de integração, motivação e mobilização nas unidades educacionais. Um exemplo disso é o Mural de Vivências, elaborado pela Creche Escola Professor Ariano Vilar Suassuna. Nesse projeto, a escola organizou uma exposição a partir das experiências compartilhadas nos grupos de WhatsApp. As famílias, convidadas pelos vídeos do Família+ Recife a partilharem vídeos e fotos da realização das atividades, enviaram registros ricos e significativos. As professoras decidiram expor esses registros na escola, criando um mural que foi explorado pelos pais durante os encontros presenciais. Essa iniciativa valorizou as vivências familiares e fortaleceu a conexão entre família e escola.

A partir da constatação de que houve um engajamento significativo das famílias, evidenciado pelos relatos dos próprios participantes, pelos vídeos compartilhados nos grupos e pela percepção dos educadores em relação à mudança de determinados comportamentos, e com base em uma estratégia acessível para os educadores, foi definido pela Seduc Recife, que o programa Família+ deveria ser expandido para todas as unidades de Educação Infantil. Diante desses resultados, o Família+ Recife se destaca como uma ação estratégica fundamental para fortalecer as relações das crianças com suas famílias e destas com as unidades educacionais, contribuindo para o desenvolvimento integral da criança nos aspectos afetivos, sociais, emocionais e cognitivos.

Após a conclusão da pesquisa inicial com 36 unidades educacionais – 24 que implementaram o programa e 12 que serviram como grupo controle – e a obtenção de resultados positivos tanto na avaliação quantitativa quanto na qualitativa, a Rede Municipal de Educação do Recife decidiu implementar o programa Família+ como uma política educacional. Os passos para essa implementação foram:

  1. Apresentação da pesquisa e seus resultados: Os resultados foram apresentados às unidades de Educação Infantil de forma objetiva e concisa, destacando o impacto positivo do programa no fortalecimento dos vínculos familiares e no desenvolvimento das crianças. Essa apresentação visou despertar o interesse das unidades em participar do programa.

  2. Chamada para participação voluntária: A rede abriu uma chamada voluntária para adesão ao Família+, permitindo que as unidades educacionais interessadas se inscrevessem no programa.

  3. Orientação aos gestores e coordenadores: Foram realizadas explicações detalhadas aos gestores e coordenadores sobre o processo de participação, as formações previstas e o acompanhamento pela equipe pedagógica da Educação Infantil da Seduc. Isso assegurou que as unidades educacionais se sentissem apoiadas em todo o processo.

Para garantir que o programa fosse compreendido e aceito por aqueles que estariam na linha de frente de sua implementação, as apresentações foram realizadas de forma colaborativa. Coordenadores e educadores discutiram suas experiências durante o piloto e ofereceram feedback direto sobre aspectos a serem aprimorados. Esse diálogo foi fundamental para alinhar o programa às necessidades reais das escolas e das famílias.

No segundo semestre de 2023, 60 escolas aderiram voluntariamente ao Família+ Recife. As famílias participantes receberam duas mensagens por semana: uma informativa e outra com sugestões de atividades para serem desenvolvidas com as crianças. Essas atividades promoviam momentos de interação de qualidade, fortalecendo a comunicação e o vínculo familiar. As famílias eram convidadas a compartilhar vídeos desses momentos nos grupos de WhatsApp, estimulando a participação e fortalecendo a comunidade escolar.

No primeiro semestre de 2024, o programa foi expandido para mais 39 escolas, totalizando 99 unidades educacionais participantes. Essa expansão consolidou o Família+ Recife como uma política de rede. A avaliação das unidades que implementaram o programa em 2023 reforçou sua eficácia, mostrando aumento da participação das famílias nas atividades escolares e fortalecimento dos laços entre escola e comunidade.

No segundo semestre de 2024, o programa foi novamente ampliado, alcançando 148 unidades educacionais. Com a metodologia já bem estabelecida, a transição para um número maior de unidades foi suave, mantendo a qualidade do programa. A Secretaria de Educação utilizou a experiência adquirida nas fases anteriores para otimizar a logística, distribuição de materiais e formações, garantindo a eficácia do programa em todas as unidades participantes.

Essa expansão foi marcada por uma maior articulação entre as escolas. Educadores e coordenadores que já haviam participado do programa tiveram oportunidades de compartilhar suas experiências com as novas unidades, promovendo uma cultura de troca de boas práticas. Dessa forma, o Família+ evoluiu de uma proposta piloto para uma política pública abrangente, impactando o desenvolvimento infantil na rede de ensino do Recife e atendendo à crescente demanda das escolas e ao engajamento das famílias.

Ajustes metodológicos

Com a expansão do programa Família+, foi necessário ajustar a metodologia original, desenvolvida durante o projeto piloto, para atender às necessidades específicas da rede pública de ensino do Recife e garantir a eficácia em uma escala maior. As decisões de alterações vieram das necessidades da rede e também foram informadas pelos resultados da pesquisa quantitativa e qualitativa. O feedback contínuo de gestores, coordenadores pedagógicos e famílias durante a realização da pesquisa foi essencial para refinar a metodologia e adaptar para a capacidade de atuação da rede. Esse processo de escuta ativa permitiu ajustes, mantendo o programa relevante e eficaz. Coordenadores pedagógicos desempenharam um papel fundamental na mediação entre escola, educadores e famílias, compartilhando estratégias bem-sucedidas para engajar as famílias, como o uso de vídeos compartilhados via WhatsApp além de fortalecer a visibilidade do Programa pela comunidade.

A primeira adaptação foi a customização das mensagens e atividades para alinhá-las ao currículo pedagógico da rede. Novas mensagens foram elaboradas com o feedback de professores, coordenadores e gestores. Isso permitiu que as atividades sugeridas fossem integradas ao currículo da educação infantil, reforçando os temas abordados em sala de aula e mantendo o programa em sintonia com os objetivos educacionais das escolas.

Para alinhar-se às rotinas das escolas públicas e evitar sobrecarga de trabalho para professores e coordenadores, o número de mensagens semanais foi reduzido de três para duas, o que se alinhou com as sugestões dos pesquisadores. A menor quantidade de mensagens proporcionou mais tempo para que pais e educadores assimilassem o conteúdo. Além disso, a Secretaria de Educação sugeriu que as mensagens fossem gravadas por coordenadores da própria rede, valorizando a participação dos educadores locais e fortalecendo o engajamento.

A formação dos educadores foi outro ponto fundamental da adaptação. Com a expansão do programa, tornou-se necessário ajustar a metodologia de formação para alcançar um número maior de participantes sem comprometer a qualidade. O tempo dedicado às formações foi otimizado para integrar-se às demais atividades de formação da rede. Foram fornecidos materiais autoinstrucionais mais resumidos, permitindo que os educadores fizessem consultas rápidas e tivessem apoio durante a implementação do programa, facilitando a incorporação das atividades na rotina pedagógica.

Com a expansão, foi implementada uma abordagem mais estruturada para o monitoramento e avaliação. Ferramentas como questionários simplificados, de fácil preenchimento, via Google Forms, permitiram o acompanhamento eficiente do programa em todas as unidades participantes. Isso possibilitou a coleta de dados importantes para avaliar o impacto do programa e fazer ajustes conforme necessário.

A flexibilidade e a capacidade de adaptação da metodologia do Família+ foram fundamentais para o contexto de expansão. Ao responder às necessidades e sugestões dos participantes, o programa conseguiu manter um alto nível de engajamento com impacto positivo no desenvolvimento infantil e no estreitamento das relações família e escola.

Lições aprendidas e perspectivas futuras

O sucesso de um programa de parentalidade como o Família+ está diretamente relacionado ao nível de engajamento das famílias e dos educadores. Em Recife, a implementação do programa revelou fatores-chave que influenciam esse engajamento, destacando a importância de manter uma comunicação ativa e uma participação consistente de todos os envolvidos.

Para avaliar a implementação do Família+ Recife, a Seduc encaminhou um questionário aos coordenadores pedagógicos e gestores das 99 unidades que vivenciaram o projeto. Obteve-se resposta de 66 profissionais: 59 coordenadores pedagógicos, seis gestores e um vice gestor.

O engajamento das famílias foi um dos principais objetivos do Família+ Recife e, simultaneamente, um dos maiores desafios. Dos 66 respondentes, em 30 unidades a participação das famílias foi considerada boa ou excelente. Em outras 29 unidades, a participação foi regular, indicando variações no envolvimento familiar ao longo do programa. Essa variação pode ser explicada por fatores diversos como rotinas diárias exaustivas que podem limitar a participação, dificuldade de acesso ao conteúdo e necessidade de outros métodos de incentivo para adesão dos pais por parte de algumas unidades educacionais.

Unidades com maior participação provavelmente ofereceram atividades híbridas, como o Mural de vivências, que permite que as famílias se engajem de forma espontânea e significativa.

As formações do Família+ Recife realizadas pela equipe pedagógica da Seduc foram bem avaliadas, com retornos entre excelente e boa, por 49 Unidades Educacionais; 15, por sua vez, consideraram regulares e 2 respostas, insatisfatórias. Observou-se em registros qualitativos que o retorno insatisfatório se deu por considerar a necessidade de mais formação sobre o Programa. Os materiais usados como apoio para as formações foram considerados excelentes e bons por 63 Unidades Educacionais e por 3, como regulares.

As Figuras 3 e 4 são registros de formações que mostram o engajamento dos educadores durante o processo de implementação do Família+ Recife.

Fonte: Arquivo DEI 2023.2

Figura 3 Formação no Parque Apipucos 

Fonte: Arquivo DEI 2024.1

Figura 4 Formação na EFER Professor Paulo Freire 

Para ilustrar, apresentamos também, a fala de duas coordenadoras pedagógicas: “A proposta está excelente e tem avançado a cada encontro” (Cirlene Ferreira da Silva - coordenadora pedagógica da Creche Escola Ternura do Morro da Conceição); “Como sempre, surpreendendo a cada formação” (Gabriela de Almeida Gomes - coordenadora pedagógica da Creche Escola Foco no Saber).

A maioria das unidades (51) relatou que o engajamento dos profissionais foi excelente ou bom, enquanto 15 indicaram participação regular. Essa diferença pode estar relacionada a carga de trabalho existente na unidade, nível de formação dos educadores e familiaridade com o programa: Unidades que implementam o Família+ há mais tempo podem apresentar maior engajamento. Para manter elevado o engajamento dos educadores, a Seduc busca oferecer formações acessíveis, garantir suporte necessário para lidar com as demandas do programa e proporcionar espaços de troca de experiências entre educadores.

O uso contínuo de feedback por parte de famílias e educadores durante a pesquisa permitiu que o Família+ Recife se adaptasse às demandas e desafios que apareceram na rede. A análise constante de dados sobre o engajamento forneceu insights para reduzir o número de mensagens semanais e adaptar o conteúdo para torná-lo mais próximo ao currículo. Essa capacidade de adaptação é crucial para o sucesso contínuo do programa. Os dados coletados foram utilizados pela Seduc não apenas como avaliação retrospectiva para apresentar o programa, mas como base para o planejamento futuro, permitindo ajustes em resposta às necessidades das famílias e dos educadores.

A BNCC (Brasil, 2017) definiu 10 competências gerais voltadas para a formação integral das crianças e estudantes. De forma inovadora, além das sete competências que destacam a dimensão cognitiva, observam-se três competências socioemocionais que valorizam a dimensão afetiva para o desenvolvimento, reconhecendo que essas dimensões são indissociáveis e muito importantes. Considerando-se a etapa da educação infantil, os dois grandes eixos norteadores do currículo são as interações e brincadeiras, que permitem “pensar a criança como um sujeito integral que se relaciona com o mundo e aprende através da mediação com o outro, com a brincadeira e a cultura” (Pernambuco, 2018, p.57). Além disso, o Currículo de Pernambuco, construído fundamentado na BNCC, reafirma a importância das crianças vivenciarem experiências que façam sentido para elas e o papel das brincadeiras como um fio condutor para o processo de aprendizagem e desenvolvimento (Vygostsky, 1994). A política de ensino do Recife (Recife, 2021) fortalece esses aspectos citados na BNCC e no Currículo de Pernambuco, destacando a centralidade da criança para o planejamento pedagógico nesta etapa de ensino.

O programa Família+ se alinha diretamente a essas diretrizes, uma vez que as interações entre a família, a escola e a criança são centrais para o desenvolvimento integral proposto pela BNCC. As atividades do programa, que promovem o fortalecimento de vínculos afetivos e a integração das famílias nas rotinas pedagógicas das escolas, refletem a importância dada às competências socioemocionais para a educação infantil. Ao fomentar momentos de interação significativa entre pais e filhos, o Família+ proporciona experiências práticas que reforçam as competências definidas pela BNCC, como empatia, responsabilidade e cooperação, todas fundamentais para o desenvolvimento socioemocional das crianças.

Além disso, as brincadeiras, apontadas como um dos eixos principais do currículo da educação infantil, estão no cerne das atividades propostas pelo Família+, incentivando que as famílias participem ativamente do processo de aprendizagem por meio de brincadeiras e interações lúdicas. Como mencionado no Currículo de Pernambuco, essas experiências precisam fazer sentido para as crianças, e o programa reforça a ideia de que a aprendizagem acontece de maneira mais eficaz quando envolve as famílias e promove vínculos afetivos sólidos.

A implementação do Família+ Recife revelou diversas lições aprendidas que reforçam a importância da parceria entre a rede de educação e os pesquisadores. Essa colaboração, construída com base em confiança e proximidade, permitiu a adaptação contínua do programa às necessidades específicas da rede, garantindo sua apropriação e alinhamento com as diretrizes pedagógicas. A capacidade de ajuste, observada ao longo do processo, foi essencial para o sucesso do programa, pois considerou as realidades culturais e socioeconômicas das famílias e a sobrecarga de trabalho dos educadores.

Um dos principais aprendizados foi a flexibilidade da metodologia do Família+, que se mostrou capaz de integrar-se de forma orgânica à rotina escolar. A metodologia aberta permitiu que o programa fosse adaptado para dialogar com as diretrizes da BNCC e com as práticas já estabelecidas na rede. Ao ajustar as mensagens e atividades para refletir o contexto local, o programa respeitou os princípios estabelecidos pelo Currículo de Pernambuco e pela política educacional do Recife. Essa flexibilidade facilitou a incorporação do programa pelos educadores, tornando as ações mais relevantes e eficazes.

Além disso, a apropriação do programa pela Seduc foi fundamental. A pesquisa ofereceu liberdade para que a Seduc adaptasse o Família+ conforme suas especificidades, permitindo que o programa tomasse vida dentro da secretaria. Essa autonomia possibilitou que a equipe técnico-pedagógica ajustasse o conteúdo e as estratégias de implementação, fortalecendo o engajamento dos educadores e coordenadores pedagógicos. A sensação de pertencimento e autoria incentivou a continuidade e a expansão do programa, garantindo sua sustentabilidade a longo prazo.

Outra lição aprendida diz respeito à importância de uma abordagem colaborativa e adaptativa na implementação de políticas públicas educacionais. A parceria efetiva entre pesquisadores e a rede de educação mostrou que programas flexíveis e abertos a adaptações têm maior potencial de sucesso. A integração com as práticas existentes e a consideração das demandas locais reforçaram a eficácia do Família+, destacando que a co-construção de soluções é essencial para atender às necessidades reais das comunidades escolares.

Essas lições aprendidas evidenciam que a flexibilidade metodológica, a capacidade de integração à rede e a liberdade para adaptações são elementos cruciais para o sucesso de programas educacionais. O Família+ tornou-se mais do que uma iniciativa implementada; transformou-se em parte integrante da estratégia educacional da Seduc, adaptando-se às particularidades locais e fortalecendo o desenvolvimento integral das crianças através do engajamento ativo das famílias e educadores.

Olhando para o futuro, a continuidade do Família+ na rede municipal de Recife passa por um fortalecimento dessa integração com a BNCC e o currículo local, especialmente no que diz respeito ao desenvolvimento das competências socioemocionais e cognitivas de forma indissociável. O programa tem potencial para continuar crescendo e consolidando-se como uma política pública de relevância, sempre com o foco nas interações e brincadeiras como eixos estruturantes da educação infantil, alinhando-se à centralidade da criança no processo de ensino-aprendizagem.

Considerações finais

A Política de Ensino da Educação Infantil da rede municipal do Recife (2015) enfatiza que “O princípio norteador das ações das instituições de Educação Infantil é o atendimento integral às necessidades e potencialidades físicas, psicológicas, intelectuais, sociais e culturais da criança” (p.56), o que não acontece sem estreitar os laços entre a escola e a família. A partir dessa perspectiva, a estratégia Família+ Recife utilizou meios integradores com a finalidade de possibilitar a ampliação da relação harmoniosa entre a criança, a família/responsável e a escola, tendo em vista o respeito às necessidades da criança e o reconhecimento da participação das famílias no processo educativo, compartilhando responsabilidades e fortalecendo os vínculos afetivos para a promoção do desenvolvimento integral saudável da criança.

“Pensar em educação de qualidade, é estendê-la para além da escola, promovendo a integração entre esta e a família, na medida em que se configuram como os primeiros grupos sociais da criança” (Recife, 2015, p.55). Portanto, a família/responsável constitui o âmbito inicial da formação da criança nas relações que são vivenciadas no ambiente no qual convive, participa e constrói valores culturais, e a articulação com a escola por meio do diálogo constante é essencial para a garantia de seus direitos e o pleno atendimento de suas necessidades básicas e específicas.

Ao compreender a fase da primeira infância, dos 0 aos 6 anos, como a maior janela de oportunidades de todo ser humano (Heckman, 2017), percebe-se que as interações das crianças com outras crianças, com os adultos à sua volta e, principalmente, com a família, promovem confiança e conhecimento mútuo, favorecendo o estabelecimento de vínculos afetivos necessários para o seu desenvolvimento saudável. Assim, é imprescindível envolver a família na dinâmica da instituição educacional, através de reuniões, programas, projetos, eventos e ações colaborativas, visando uma educação de melhor qualidade para as crianças, nos diversos contextos de desenvolvimento.

A análise do percurso do Programa Família+ Recife na rede de creches do município do Recife de 2022 a 2024 nos mostra a possibilidade de implementação em escala de uma iniciativa nascida em uma pesquisa científica com resultados significativos para o fortalecimento da relação criança/família/instituição educacional. Também permite refletir sobre a importância do processo de implementação, ressaltado por Britto et al. (2022), quando se deseja dar escalabilidade a iniciativas pontuais.

Para implementar uma política educacional em uma rede pública diversa, com múltiplas escolas, profissionais e famílias, foi necessário considerar a importância da ação, reconhecendo o valor do programa para o desenvolvimento infantil e o fortalecimento dos vínculos familiares. Também foi essencial garantir o envolvimento dos profissionais, assegurando o engajamento dos educadores responsáveis pela implementação, além de avaliar a viabilidade dos recursos disponíveis para sustentar a iniciativa e estimar o período necessário para alcançar os objetivos propostos.

Esses fatores foram cuidadosamente observados na implementação do Família+ Recife. A equipe pedagógica da Seduc Recife analisou os resultados da pesquisa piloto, confirmando o potencial da iniciativa. Os resultados foram apresentados aos gestores e coordenadores, promovendo escuta ativa e diálogo sobre o desenvolvimento infantil, reforçando o compromisso da rede com a formação integral das crianças (Recife, 2015, 2021). Realizaram-se ajustes no programa, como a redução do número de mensagens semanais, a escolha de narradores locais, a adequação das formações para os coordenadores e a definição de formas eficazes de registro e divulgação nas unidades educacionais. Essas adaptações garantiram o sentimento de pertencimento dos profissionais envolvidos e a viabilidade da implementação.

Além disso, desenvolveu-se um modelo eficaz de formação e acompanhamento, realizando ajustes contínuos, mobilizando os envolvidos, compartilhando resultados ao longo da implementação e incentivando a participação de todos. A experiência demonstrou a importância da flexibilidade metodológica e da adaptação contínua às realidades locais, reforçando que políticas públicas eficazes devem estar abertas a ajustes baseados em feedback constante. Esse foi o caminho trilhado pela Secretaria de Educação do Recife para a implementação do Família+ Recife como política educacional. Os dados mostram uma crescente adesão das unidades educacionais e resultados qualitativos evidenciam o potencial dessa ação estratégica na formação de muitas crianças e famílias.

A política voltada para a primeira infância nas Unidades Educacionais do Recife torna-se, assim, uma inspiração para outras redes de ensino, revelando possibilidades efetivas de envolvimento das famílias nas vivências infantis. O programa Família + Recife não apenas fortaleceu a atuação dos educadores, mas também contribuiu significativamente para as aprendizagens e o desenvolvimento integral das crianças. A Implementação do Família+ em Recife abre caminho para sua replicação em outras redes municipais, como uma estratégia potente que fortalece o envolvimento parental e promove o desenvolvimento socioemocional e cognitivo das crianças.

Referências

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1 Família+ é uma iniciativa do Espaço Àra Educação, com apoio da Fundação Van Leer e Urban95.

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