Introdução
Este artigo explora a implementação de uma política pública educacional na rede de educação infantil do Recife, com o foco no fortalecimento das relações entre família e escola e na promoção de vínculos afetivos mais sólidos entre crianças e seus responsáveis, visando ao desenvolvimento infantil.
A primeira infância é um período altamente sensível à qualidade das experiências iniciais. Segundo Jack Shonkoff, pesquisador do Centro de Desenvolvimento Infantil da Universidade de Harvard, “a qualidade das experiências iniciais molda a estrutura do cérebro e influencia o desenvolvimento das capacidades cognitivas, emocionais e sociais das crianças” (SHONKOFF, 2011, p.8). Essas experiências – positivas ou negativas – estabelecem a base para o aprendizado futuro, comportamento e saúde física, influenciando também a regulação emocional e o desenvolvimento de competências fundamentais para a vida. Portanto, é essencial proporcionar às crianças uma base familiar fortalecida que minimize o impacto de experiências negativas e contribua para o desenvolvimento da resiliência (National Scientific Council on the Developing Child, 2015). Investir na primeira infância reflete-se em benefícios a curto, médio e longo prazo, como a redução de índices de criminalidade e evasão escolar, diminuição da taxa de gravidez na adolescência e aumento da produtividade.
As interações que a criança estabelece, especialmente com sua família, são determinantes para o desenvolvimento de vínculos afetivos e de confiança mútua. Segundo John Bowlby, psicólogo e pesquisador, “o afeto e a segurança proporcionados por vínculos familiares consistentes e amorosos são essenciais para o desenvolvimento emocional e social saudável das crianças” (BOWLBY, 1988, p 119). Esses vínculos formam a base para a autoestima e a regulação emocional, influenciando profundamente o comportamento e o crescimento infantil. Assim, é imprescindível que a família esteja envolvida na dinâmica educacional por meio de reuniões, programas, projetos e eventos colaborativos, garantindo uma educação de qualidade que contemple os diversos contextos de desenvolvimento da criança.
Este artigo discutirá o processo de implementação do Programa Família+1 como política pública, apresentando uma discussão sobre o processo de expansão do programa e do interesse da rede em atuar para o fortalecimento das relações entre família e escola. Inicialmente, será contextualizado o desenho do programa e como a pesquisa que o originou, realizada em parceria com a Universidade Federal de Pernambuco, serviu de base para sua adoção pela Secretaria de Educação do Recife (Seduc). Em seguida, detalharemos o processo de transformação dessa iniciativa em uma política pública, destacando as etapas adotadas para a expansão da implementação. A partir de uma análise metodológica, descreveremos as adaptações feitas para atender às necessidades e a capacidade de atuação da rede municipal. Na sequência, apresentaremos as lições aprendidas durante a implementação, bem como dados coletados junto às unidades participantes. Por fim, serão discutidas as perspectivas futuras do programa Família+, com ênfase para seu alinhamento com a Base Nacional Comum Curricular (BNCC), o Currículo de Pernambuco e Política de Ensino da Rede Municipal do Recife - Educação Infantil, enfatizando a importância das competências socioemocionais e a continuidade da expansão do programa na rede municipal de Recife.
A pesquisa
Reconhecendo a importância das relações família e escola para promover o desenvolvimento infantil, a Rede Municipal de Educação do Recife identificou a necessidade de uma metodologia eficaz para trabalhar a parentalidade, visando estreitar as relações entre família e escola como fator essencial para o desenvolvimento infantil.
Em resposta a essa demanda, o programa Família+ foi apresentado como uma alternativa metodológica para trabalhar a parentalidade na rede. O programa Família+, uma abordagem multinível e de baixo custo, foi criado com o objetivo de apoiar os pais ou responsáveis a promover interações de qualidade com suas crianças e a fortalecer os laços entre família e escola, promovendo o desenvolvimento infantil a partir do envolvimento familiar. Utilizando de princípios da ciência comportamental, o programa busca estabelecer uma comunicação eficaz entre as famílias e os professores.
Em alinhamento com as ações da Seduc, o Família+ foi implementado para trazer estratégias voltadas à parentalidade, envolvendo o desenvolvimento profissional dos educadores e a divulgação de informações e atividades que apoiam o desenvolvimento da criança para as famílias por meio de mensagens digitais e reuniões. Essa iniciativa está em consonância com o compromisso da rede de promover o desenvolvimento infantil de forma integral, focando não apenas nas crianças, mas também no envolvimento ativo das famílias.
As intervenções parentais, conforme destacado por Black et al. (2017), são programas destinados a melhorar o conhecimento, atitudes e práticas dos pais e cuidadores para promover o desenvolvimento infantil. Pesquisadores e formuladores de políticas têm investido cada vez mais nessas intervenções, pois os pais precisam sentir-se apoiados e ter acesso ao melhor conhecimento disponível sobre desenvolvimento infantil. O Família+, como intervenção parental, oferece suporte às famílias para que participem ativamente no desenvolvimento de suas crianças.
Para assegurar a adequação da metodologia à rede do Recife, o Família+ foi implementado em 2023, como parte de uma pesquisa envolvendo 36 unidades educacionais que atendem crianças ente 3 e 5 anos. Estas foram sorteadas e organizadas em três grupos de 12. Cada grupo foi exposto a uma metodologia diferente de comunicação. O Grupo 1: recebia três mensagens semanais; o Grupo 2: uma mensagem semanal; e o Grupo 3: grupo controle, não recebeu mensagens.
Os grupos de WhatsApp foram organizados pelos coordenadores pedagógicos, incluindo as famílias de cada turma. O objetivo era enviar mensagens claras e objetivas, com sugestões de atividades para serem realizadas em casa. Essas mensagens eram elaboradas pela equipe de pesquisa, revisadas pela equipe técnico-pedagógica da Seduc e gravadas por educadores da plataforma online no Youtube do EDUCA-Recife e posteriormente, enviadas às famílias.
A implementação do programa envolveu ações coordenadas e estruturadas, incluindo:
Formações e Reuniões: A equipe pedagógica da Seduc Recife passou por formação específica, seguida de reuniões com gestores e coordenadores das unidades selecionadas. A formação foi estendida aos coordenadores dos Grupos 1 e 2. Reuniões mensais com as equipes escolares fortaleceram a implementação piloto do Família+, proporcionando espaços para a troca de boas práticas. Durante esse processo, desafios e conquistas com as famílias foram identificados e discutidos, promovendo uma implementação colaborativa. Ao final da pesquisa, todos os envolvidos — gestores, coordenadores pedagógicos, familiares — foram consultados.
Uso de Tecnologias Digitais: Baseado na Ciência Comportamental, o Família+ utilizou formações, encontros e mensagens digitais para compartilhar informações e atividades que promovem o desenvolvimento infantil e o bem-estar das famílias. Tecnologias como o WhatsApp facilitaram a comunicação, tornando as atividades acessíveis a um maior número de famílias. O conteúdo das mensagens foi adaptado à realidade cultural e linguística local, reforçando a eficácia da abordagem.
Promoção da Comunicação Contínua: O programa promoveu comunicação contínua entre família e escola por meio de interações presenciais e mensagens, abordando temas como fortalecimento de vínculos através da brincadeira, sentimentos e emoções, autorregulação e organização da rotina familiar.
Encontros Presenciais: Reuniões mensais reforçaram os conteúdos transmitidos nas mensagens digitais e permitiram vivências e troca de experiências entre famílias e educadores.
Com essas ações, a metodologia do Família+ demonstra alinhamento com as iniciativas da Secretaria Municipal de Educação do Recife, que busca fortalecer a participação da família no processo educacional e promover o desenvolvimento integral das crianças. O programa complementa as políticas educacionais da secretaria, contribuindo para a construção de uma educação de qualidade que envolve todos os atores do processo educativo. Os resultados positivos alcançados durante a fase de pesquisa foram essenciais para que o Família+ evoluísse de uma iniciativa piloto para uma política pública, marcando o início de sua expansão e consolidação na rede municipal de educação.
A transformação da pesquisa em política
A bem-sucedida implementação do programa Família+ durante a fase de pesquisa pode ser atribuído ao envolvimento de diversos atores-chave. Dentro da Secretaria de Educação do Recife, a Secretaria Executiva da Primeira Infância e a Secretaria Executiva de Gestão Pedagógica exerceram um papel fundamental na adaptação do conteúdo do programa às realidades das escolas. O foco esteve na formação dos professores e coordenadores pedagógicos, garantindo que o programa fosse eficaz em diversos contextos escolares.
Os coordenadores pedagógicos desempenharam um papel crucial como mediadores entre as escolas e as famílias. Foram responsáveis por sensibilizar a comunidade escolar, organizar grupos de WhatsApp e facilitar a comunicação contínua, tanto presencial quanto digital, com as famílias. Além de garantir que as informações e atividades propostas fossem acessíveis e culturalmente apropriadas para cada contexto escolar, eles também promoveram a integração das famílias nas dinâmicas escolares.
A percepção da rede de educação sobre o envolvimento das famílias foi um dos principais fatores para a transformação do programa de uma pesquisa para uma política de rede. Segundo a coordenadora pedagógica Lucineide Lima, da Creche do Bongi,
O Família+ veio para fortalecer ainda mais o vínculo da escola com os pais… Foi bem enriquecedor, inclusive com depoimentos dos pais que relataram ter resgatado brincadeiras da infância, agora realizadas em casa e no parque, algo que não faziam há muito tempo.
Este depoimento reflete o impacto positivo do programa, mostrando como ele ampliou os espaços de convivência e brincadeira, proporcionando uma experiência lúdica e educativa tanto em casa quanto em outros ambientes.
Outro relato que reflete o impacto do programa é o de Zé Renato, pai de uma criança da Creche Municipal do Bongi. Ele compartilhou:
O Família+ chegou em nossa casa de forma maravilhosa, trazendo brincadeiras que eu brincava na infância. Isso impactou não só a minha família, mas também nossos vizinhos. Quando eu saía para brincar com meus filhos, eles perguntavam sobre as brincadeiras, e eu explicava o que era o Família+ e como estava sendo bom para nós.
A coordenadora Michaelle Morais, da Creche Escola Professor Ariano Suassuna, reforça: “A rotina de comunicação com as famílias foi fortalecida, e os responsáveis ficaram cada vez mais engajados em fortalecer os vínculos com as crianças”. Ela também relata que, “com as conquistas observadas na unidade, planejamos o Dia da Família na Escola, um evento aos sábados que proporcionou contato com a natureza, brincadeiras livres e o resgate de atividades tradicionais em diversos espaços externos”.
Esses relatos ilustram que algumas unidades educacionais vêm participando ativamente do Família+ desde o início da pesquisa. Almerina Nascimento Bandin, coordenadora da Escola Municipal Professor João Francisco de Souza, compartilhou: “Estamos no programa Família+ Recife desde 2022, quando participamos da primeira entrevista com as famílias. Em 2023, o envolvimento familiar nos trouxe resultados maravilhosos, e em 2024 nos surpreendemos com o aumento da participação nas atividades”. Ela destaca o desenvolvimento de encontros periódicos de integração com crianças e pais, promovendo oficinas recreativas, de arte e culinária, além de debates sobre o cuidado afetuoso, propósito central do programa. Bandin acrescenta: “O Família+ Recife trouxe os pais para a escola de uma forma leve e acolhedora. O mais significativo foi o envolvimento dos pais nas reuniões, dinâmicas e brincadeiras com seus filhos”.
Esses exemplos demonstram que o Família+ não apenas atingiu seu objetivo de fortalecer os vínculos entre as famílias e as crianças, como também inspirou novas ações nas unidades escolares. Isso contribuiu para uma relação mais próxima entre as famílias, as crianças e as escolas, um aspecto essencial para o desenvolvimento infantil integral.
Outro exemplo é o Projeto Arte em Família, desenvolvido na Escola Municipal João Francisco de Souza. Inspirado em proporcionar oportunidades de interações de qualidade entre criança e pai ou responsável, o projeto promoveu uma atividade de arte colaborativa envolvendo crianças e cuidadores. As famílias foram convidadas a participar de oficinas de arte na escola, criando obras conjuntamente com as crianças. Essa iniciativa incentivou a colaboração, o vínculo afetivo e proporcionou momentos significativos de interação, além de estimular a criatividade e a expressão artística das crianças em conjunto com suas famílias.
Essas iniciativas refletem a importância do Família+ Recife como uma ação estratégica fundamental para fortalecer as relações das crianças com suas famílias e destas com as unidades educacionais, contribuindo para o desenvolvimento integral da criança nos aspectos afetivos, sociais, emocionais e cognitivos. As Figuras 1 e 2 ilustram as atividades inspiradas pelas premissas do Família+ e desenvolvidas na Rede de Educação do Recife.
Além das atividades realizadas em casa, o programa gerou ações de integração, motivação e mobilização nas unidades educacionais. Um exemplo disso é o Mural de Vivências, elaborado pela Creche Escola Professor Ariano Vilar Suassuna. Nesse projeto, a escola organizou uma exposição a partir das experiências compartilhadas nos grupos de WhatsApp. As famílias, convidadas pelos vídeos do Família+ Recife a partilharem vídeos e fotos da realização das atividades, enviaram registros ricos e significativos. As professoras decidiram expor esses registros na escola, criando um mural que foi explorado pelos pais durante os encontros presenciais. Essa iniciativa valorizou as vivências familiares e fortaleceu a conexão entre família e escola.
A partir da constatação de que houve um engajamento significativo das famílias, evidenciado pelos relatos dos próprios participantes, pelos vídeos compartilhados nos grupos e pela percepção dos educadores em relação à mudança de determinados comportamentos, e com base em uma estratégia acessível para os educadores, foi definido pela Seduc Recife, que o programa Família+ deveria ser expandido para todas as unidades de Educação Infantil. Diante desses resultados, o Família+ Recife se destaca como uma ação estratégica fundamental para fortalecer as relações das crianças com suas famílias e destas com as unidades educacionais, contribuindo para o desenvolvimento integral da criança nos aspectos afetivos, sociais, emocionais e cognitivos.
Após a conclusão da pesquisa inicial com 36 unidades educacionais – 24 que implementaram o programa e 12 que serviram como grupo controle – e a obtenção de resultados positivos tanto na avaliação quantitativa quanto na qualitativa, a Rede Municipal de Educação do Recife decidiu implementar o programa Família+ como uma política educacional. Os passos para essa implementação foram:
Apresentação da pesquisa e seus resultados: Os resultados foram apresentados às unidades de Educação Infantil de forma objetiva e concisa, destacando o impacto positivo do programa no fortalecimento dos vínculos familiares e no desenvolvimento das crianças. Essa apresentação visou despertar o interesse das unidades em participar do programa.
Chamada para participação voluntária: A rede abriu uma chamada voluntária para adesão ao Família+, permitindo que as unidades educacionais interessadas se inscrevessem no programa.
Orientação aos gestores e coordenadores: Foram realizadas explicações detalhadas aos gestores e coordenadores sobre o processo de participação, as formações previstas e o acompanhamento pela equipe pedagógica da Educação Infantil da Seduc. Isso assegurou que as unidades educacionais se sentissem apoiadas em todo o processo.
Para garantir que o programa fosse compreendido e aceito por aqueles que estariam na linha de frente de sua implementação, as apresentações foram realizadas de forma colaborativa. Coordenadores e educadores discutiram suas experiências durante o piloto e ofereceram feedback direto sobre aspectos a serem aprimorados. Esse diálogo foi fundamental para alinhar o programa às necessidades reais das escolas e das famílias.
No segundo semestre de 2023, 60 escolas aderiram voluntariamente ao Família+ Recife. As famílias participantes receberam duas mensagens por semana: uma informativa e outra com sugestões de atividades para serem desenvolvidas com as crianças. Essas atividades promoviam momentos de interação de qualidade, fortalecendo a comunicação e o vínculo familiar. As famílias eram convidadas a compartilhar vídeos desses momentos nos grupos de WhatsApp, estimulando a participação e fortalecendo a comunidade escolar.
No primeiro semestre de 2024, o programa foi expandido para mais 39 escolas, totalizando 99 unidades educacionais participantes. Essa expansão consolidou o Família+ Recife como uma política de rede. A avaliação das unidades que implementaram o programa em 2023 reforçou sua eficácia, mostrando aumento da participação das famílias nas atividades escolares e fortalecimento dos laços entre escola e comunidade.
No segundo semestre de 2024, o programa foi novamente ampliado, alcançando 148 unidades educacionais. Com a metodologia já bem estabelecida, a transição para um número maior de unidades foi suave, mantendo a qualidade do programa. A Secretaria de Educação utilizou a experiência adquirida nas fases anteriores para otimizar a logística, distribuição de materiais e formações, garantindo a eficácia do programa em todas as unidades participantes.
Essa expansão foi marcada por uma maior articulação entre as escolas. Educadores e coordenadores que já haviam participado do programa tiveram oportunidades de compartilhar suas experiências com as novas unidades, promovendo uma cultura de troca de boas práticas. Dessa forma, o Família+ evoluiu de uma proposta piloto para uma política pública abrangente, impactando o desenvolvimento infantil na rede de ensino do Recife e atendendo à crescente demanda das escolas e ao engajamento das famílias.
Ajustes metodológicos
Com a expansão do programa Família+, foi necessário ajustar a metodologia original, desenvolvida durante o projeto piloto, para atender às necessidades específicas da rede pública de ensino do Recife e garantir a eficácia em uma escala maior. As decisões de alterações vieram das necessidades da rede e também foram informadas pelos resultados da pesquisa quantitativa e qualitativa. O feedback contínuo de gestores, coordenadores pedagógicos e famílias durante a realização da pesquisa foi essencial para refinar a metodologia e adaptar para a capacidade de atuação da rede. Esse processo de escuta ativa permitiu ajustes, mantendo o programa relevante e eficaz. Coordenadores pedagógicos desempenharam um papel fundamental na mediação entre escola, educadores e famílias, compartilhando estratégias bem-sucedidas para engajar as famílias, como o uso de vídeos compartilhados via WhatsApp além de fortalecer a visibilidade do Programa pela comunidade.
A primeira adaptação foi a customização das mensagens e atividades para alinhá-las ao currículo pedagógico da rede. Novas mensagens foram elaboradas com o feedback de professores, coordenadores e gestores. Isso permitiu que as atividades sugeridas fossem integradas ao currículo da educação infantil, reforçando os temas abordados em sala de aula e mantendo o programa em sintonia com os objetivos educacionais das escolas.
Para alinhar-se às rotinas das escolas públicas e evitar sobrecarga de trabalho para professores e coordenadores, o número de mensagens semanais foi reduzido de três para duas, o que se alinhou com as sugestões dos pesquisadores. A menor quantidade de mensagens proporcionou mais tempo para que pais e educadores assimilassem o conteúdo. Além disso, a Secretaria de Educação sugeriu que as mensagens fossem gravadas por coordenadores da própria rede, valorizando a participação dos educadores locais e fortalecendo o engajamento.
A formação dos educadores foi outro ponto fundamental da adaptação. Com a expansão do programa, tornou-se necessário ajustar a metodologia de formação para alcançar um número maior de participantes sem comprometer a qualidade. O tempo dedicado às formações foi otimizado para integrar-se às demais atividades de formação da rede. Foram fornecidos materiais autoinstrucionais mais resumidos, permitindo que os educadores fizessem consultas rápidas e tivessem apoio durante a implementação do programa, facilitando a incorporação das atividades na rotina pedagógica.
Com a expansão, foi implementada uma abordagem mais estruturada para o monitoramento e avaliação. Ferramentas como questionários simplificados, de fácil preenchimento, via Google Forms, permitiram o acompanhamento eficiente do programa em todas as unidades participantes. Isso possibilitou a coleta de dados importantes para avaliar o impacto do programa e fazer ajustes conforme necessário.
A flexibilidade e a capacidade de adaptação da metodologia do Família+ foram fundamentais para o contexto de expansão. Ao responder às necessidades e sugestões dos participantes, o programa conseguiu manter um alto nível de engajamento com impacto positivo no desenvolvimento infantil e no estreitamento das relações família e escola.
Lições aprendidas e perspectivas futuras
O sucesso de um programa de parentalidade como o Família+ está diretamente relacionado ao nível de engajamento das famílias e dos educadores. Em Recife, a implementação do programa revelou fatores-chave que influenciam esse engajamento, destacando a importância de manter uma comunicação ativa e uma participação consistente de todos os envolvidos.
Para avaliar a implementação do Família+ Recife, a Seduc encaminhou um questionário aos coordenadores pedagógicos e gestores das 99 unidades que vivenciaram o projeto. Obteve-se resposta de 66 profissionais: 59 coordenadores pedagógicos, seis gestores e um vice gestor.
O engajamento das famílias foi um dos principais objetivos do Família+ Recife e, simultaneamente, um dos maiores desafios. Dos 66 respondentes, em 30 unidades a participação das famílias foi considerada boa ou excelente. Em outras 29 unidades, a participação foi regular, indicando variações no envolvimento familiar ao longo do programa. Essa variação pode ser explicada por fatores diversos como rotinas diárias exaustivas que podem limitar a participação, dificuldade de acesso ao conteúdo e necessidade de outros métodos de incentivo para adesão dos pais por parte de algumas unidades educacionais.
Unidades com maior participação provavelmente ofereceram atividades híbridas, como o Mural de vivências, que permite que as famílias se engajem de forma espontânea e significativa.
As formações do Família+ Recife realizadas pela equipe pedagógica da Seduc foram bem avaliadas, com retornos entre excelente e boa, por 49 Unidades Educacionais; 15, por sua vez, consideraram regulares e 2 respostas, insatisfatórias. Observou-se em registros qualitativos que o retorno insatisfatório se deu por considerar a necessidade de mais formação sobre o Programa. Os materiais usados como apoio para as formações foram considerados excelentes e bons por 63 Unidades Educacionais e por 3, como regulares.
As Figuras 3 e 4 são registros de formações que mostram o engajamento dos educadores durante o processo de implementação do Família+ Recife.
Para ilustrar, apresentamos também, a fala de duas coordenadoras pedagógicas: “A proposta está excelente e tem avançado a cada encontro” (Cirlene Ferreira da Silva - coordenadora pedagógica da Creche Escola Ternura do Morro da Conceição); “Como sempre, surpreendendo a cada formação” (Gabriela de Almeida Gomes - coordenadora pedagógica da Creche Escola Foco no Saber).
A maioria das unidades (51) relatou que o engajamento dos profissionais foi excelente ou bom, enquanto 15 indicaram participação regular. Essa diferença pode estar relacionada a carga de trabalho existente na unidade, nível de formação dos educadores e familiaridade com o programa: Unidades que implementam o Família+ há mais tempo podem apresentar maior engajamento. Para manter elevado o engajamento dos educadores, a Seduc busca oferecer formações acessíveis, garantir suporte necessário para lidar com as demandas do programa e proporcionar espaços de troca de experiências entre educadores.
O uso contínuo de feedback por parte de famílias e educadores durante a pesquisa permitiu que o Família+ Recife se adaptasse às demandas e desafios que apareceram na rede. A análise constante de dados sobre o engajamento forneceu insights para reduzir o número de mensagens semanais e adaptar o conteúdo para torná-lo mais próximo ao currículo. Essa capacidade de adaptação é crucial para o sucesso contínuo do programa. Os dados coletados foram utilizados pela Seduc não apenas como avaliação retrospectiva para apresentar o programa, mas como base para o planejamento futuro, permitindo ajustes em resposta às necessidades das famílias e dos educadores.
A BNCC (Brasil, 2017) definiu 10 competências gerais voltadas para a formação integral das crianças e estudantes. De forma inovadora, além das sete competências que destacam a dimensão cognitiva, observam-se três competências socioemocionais que valorizam a dimensão afetiva para o desenvolvimento, reconhecendo que essas dimensões são indissociáveis e muito importantes. Considerando-se a etapa da educação infantil, os dois grandes eixos norteadores do currículo são as interações e brincadeiras, que permitem “pensar a criança como um sujeito integral que se relaciona com o mundo e aprende através da mediação com o outro, com a brincadeira e a cultura” (Pernambuco, 2018, p.57). Além disso, o Currículo de Pernambuco, construído fundamentado na BNCC, reafirma a importância das crianças vivenciarem experiências que façam sentido para elas e o papel das brincadeiras como um fio condutor para o processo de aprendizagem e desenvolvimento (Vygostsky, 1994). A política de ensino do Recife (Recife, 2021) fortalece esses aspectos citados na BNCC e no Currículo de Pernambuco, destacando a centralidade da criança para o planejamento pedagógico nesta etapa de ensino.
O programa Família+ se alinha diretamente a essas diretrizes, uma vez que as interações entre a família, a escola e a criança são centrais para o desenvolvimento integral proposto pela BNCC. As atividades do programa, que promovem o fortalecimento de vínculos afetivos e a integração das famílias nas rotinas pedagógicas das escolas, refletem a importância dada às competências socioemocionais para a educação infantil. Ao fomentar momentos de interação significativa entre pais e filhos, o Família+ proporciona experiências práticas que reforçam as competências definidas pela BNCC, como empatia, responsabilidade e cooperação, todas fundamentais para o desenvolvimento socioemocional das crianças.
Além disso, as brincadeiras, apontadas como um dos eixos principais do currículo da educação infantil, estão no cerne das atividades propostas pelo Família+, incentivando que as famílias participem ativamente do processo de aprendizagem por meio de brincadeiras e interações lúdicas. Como mencionado no Currículo de Pernambuco, essas experiências precisam fazer sentido para as crianças, e o programa reforça a ideia de que a aprendizagem acontece de maneira mais eficaz quando envolve as famílias e promove vínculos afetivos sólidos.
A implementação do Família+ Recife revelou diversas lições aprendidas que reforçam a importância da parceria entre a rede de educação e os pesquisadores. Essa colaboração, construída com base em confiança e proximidade, permitiu a adaptação contínua do programa às necessidades específicas da rede, garantindo sua apropriação e alinhamento com as diretrizes pedagógicas. A capacidade de ajuste, observada ao longo do processo, foi essencial para o sucesso do programa, pois considerou as realidades culturais e socioeconômicas das famílias e a sobrecarga de trabalho dos educadores.
Um dos principais aprendizados foi a flexibilidade da metodologia do Família+, que se mostrou capaz de integrar-se de forma orgânica à rotina escolar. A metodologia aberta permitiu que o programa fosse adaptado para dialogar com as diretrizes da BNCC e com as práticas já estabelecidas na rede. Ao ajustar as mensagens e atividades para refletir o contexto local, o programa respeitou os princípios estabelecidos pelo Currículo de Pernambuco e pela política educacional do Recife. Essa flexibilidade facilitou a incorporação do programa pelos educadores, tornando as ações mais relevantes e eficazes.
Além disso, a apropriação do programa pela Seduc foi fundamental. A pesquisa ofereceu liberdade para que a Seduc adaptasse o Família+ conforme suas especificidades, permitindo que o programa tomasse vida dentro da secretaria. Essa autonomia possibilitou que a equipe técnico-pedagógica ajustasse o conteúdo e as estratégias de implementação, fortalecendo o engajamento dos educadores e coordenadores pedagógicos. A sensação de pertencimento e autoria incentivou a continuidade e a expansão do programa, garantindo sua sustentabilidade a longo prazo.
Outra lição aprendida diz respeito à importância de uma abordagem colaborativa e adaptativa na implementação de políticas públicas educacionais. A parceria efetiva entre pesquisadores e a rede de educação mostrou que programas flexíveis e abertos a adaptações têm maior potencial de sucesso. A integração com as práticas existentes e a consideração das demandas locais reforçaram a eficácia do Família+, destacando que a co-construção de soluções é essencial para atender às necessidades reais das comunidades escolares.
Essas lições aprendidas evidenciam que a flexibilidade metodológica, a capacidade de integração à rede e a liberdade para adaptações são elementos cruciais para o sucesso de programas educacionais. O Família+ tornou-se mais do que uma iniciativa implementada; transformou-se em parte integrante da estratégia educacional da Seduc, adaptando-se às particularidades locais e fortalecendo o desenvolvimento integral das crianças através do engajamento ativo das famílias e educadores.
Olhando para o futuro, a continuidade do Família+ na rede municipal de Recife passa por um fortalecimento dessa integração com a BNCC e o currículo local, especialmente no que diz respeito ao desenvolvimento das competências socioemocionais e cognitivas de forma indissociável. O programa tem potencial para continuar crescendo e consolidando-se como uma política pública de relevância, sempre com o foco nas interações e brincadeiras como eixos estruturantes da educação infantil, alinhando-se à centralidade da criança no processo de ensino-aprendizagem.
Considerações finais
A Política de Ensino da Educação Infantil da rede municipal do Recife (2015) enfatiza que “O princípio norteador das ações das instituições de Educação Infantil é o atendimento integral às necessidades e potencialidades físicas, psicológicas, intelectuais, sociais e culturais da criança” (p.56), o que não acontece sem estreitar os laços entre a escola e a família. A partir dessa perspectiva, a estratégia Família+ Recife utilizou meios integradores com a finalidade de possibilitar a ampliação da relação harmoniosa entre a criança, a família/responsável e a escola, tendo em vista o respeito às necessidades da criança e o reconhecimento da participação das famílias no processo educativo, compartilhando responsabilidades e fortalecendo os vínculos afetivos para a promoção do desenvolvimento integral saudável da criança.
“Pensar em educação de qualidade, é estendê-la para além da escola, promovendo a integração entre esta e a família, na medida em que se configuram como os primeiros grupos sociais da criança” (Recife, 2015, p.55). Portanto, a família/responsável constitui o âmbito inicial da formação da criança nas relações que são vivenciadas no ambiente no qual convive, participa e constrói valores culturais, e a articulação com a escola por meio do diálogo constante é essencial para a garantia de seus direitos e o pleno atendimento de suas necessidades básicas e específicas.
Ao compreender a fase da primeira infância, dos 0 aos 6 anos, como a maior janela de oportunidades de todo ser humano (Heckman, 2017), percebe-se que as interações das crianças com outras crianças, com os adultos à sua volta e, principalmente, com a família, promovem confiança e conhecimento mútuo, favorecendo o estabelecimento de vínculos afetivos necessários para o seu desenvolvimento saudável. Assim, é imprescindível envolver a família na dinâmica da instituição educacional, através de reuniões, programas, projetos, eventos e ações colaborativas, visando uma educação de melhor qualidade para as crianças, nos diversos contextos de desenvolvimento.
A análise do percurso do Programa Família+ Recife na rede de creches do município do Recife de 2022 a 2024 nos mostra a possibilidade de implementação em escala de uma iniciativa nascida em uma pesquisa científica com resultados significativos para o fortalecimento da relação criança/família/instituição educacional. Também permite refletir sobre a importância do processo de implementação, ressaltado por Britto et al. (2022), quando se deseja dar escalabilidade a iniciativas pontuais.
Para implementar uma política educacional em uma rede pública diversa, com múltiplas escolas, profissionais e famílias, foi necessário considerar a importância da ação, reconhecendo o valor do programa para o desenvolvimento infantil e o fortalecimento dos vínculos familiares. Também foi essencial garantir o envolvimento dos profissionais, assegurando o engajamento dos educadores responsáveis pela implementação, além de avaliar a viabilidade dos recursos disponíveis para sustentar a iniciativa e estimar o período necessário para alcançar os objetivos propostos.
Esses fatores foram cuidadosamente observados na implementação do Família+ Recife. A equipe pedagógica da Seduc Recife analisou os resultados da pesquisa piloto, confirmando o potencial da iniciativa. Os resultados foram apresentados aos gestores e coordenadores, promovendo escuta ativa e diálogo sobre o desenvolvimento infantil, reforçando o compromisso da rede com a formação integral das crianças (Recife, 2015, 2021). Realizaram-se ajustes no programa, como a redução do número de mensagens semanais, a escolha de narradores locais, a adequação das formações para os coordenadores e a definição de formas eficazes de registro e divulgação nas unidades educacionais. Essas adaptações garantiram o sentimento de pertencimento dos profissionais envolvidos e a viabilidade da implementação.
Além disso, desenvolveu-se um modelo eficaz de formação e acompanhamento, realizando ajustes contínuos, mobilizando os envolvidos, compartilhando resultados ao longo da implementação e incentivando a participação de todos. A experiência demonstrou a importância da flexibilidade metodológica e da adaptação contínua às realidades locais, reforçando que políticas públicas eficazes devem estar abertas a ajustes baseados em feedback constante. Esse foi o caminho trilhado pela Secretaria de Educação do Recife para a implementação do Família+ Recife como política educacional. Os dados mostram uma crescente adesão das unidades educacionais e resultados qualitativos evidenciam o potencial dessa ação estratégica na formação de muitas crianças e famílias.
A política voltada para a primeira infância nas Unidades Educacionais do Recife torna-se, assim, uma inspiração para outras redes de ensino, revelando possibilidades efetivas de envolvimento das famílias nas vivências infantis. O programa Família + Recife não apenas fortaleceu a atuação dos educadores, mas também contribuiu significativamente para as aprendizagens e o desenvolvimento integral das crianças. A Implementação do Família+ em Recife abre caminho para sua replicação em outras redes municipais, como uma estratégia potente que fortalece o envolvimento parental e promove o desenvolvimento socioemocional e cognitivo das crianças.











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