Palavras possuem significados aceitos pela comunidade, têm lugar predeterminado por toda construção sociocultural. Usá-las é retirá-las de seus lugares estabelecidos e dar a elas um destino pessoal, ou seja, permitir-se brincar. (Perrotta, 2023, p. 74)
A importância da aprendizagem para a Psicopedagogia leva a adotar o estudo da Alfabetização, do Letramento e da Matemática como seu carro-chefe. No entanto, sua atuação não se esgota nesses campos: é possível ampliá-la para todo o processo de escolarização, contemplando a Educação Básica, mas também o Ensino Superior, bem como outros espaços institucionais, como empresas, hospitais etc.
Nesse sentido, Entrelinhas do criar: parcerias dialógicas no espaço terapêutico da escrita, de Claudia Mazzini Perrotta (2023), é um livro fundamental para todo profissional que se debruça a refletir sobre o processo de escrita. A autora, fonoaudióloga de formação e psicanalista, trabalha, desde 1992, com linguagem escrita em seu Espaço Terapêutico da Escrita. Tal tema é o “terror” de muitos aprendentes e falantes de língua portuguesa como língua materna. Sua reflexão atinge gêneros textuais das diversas esferas de comunicação, mas é a produção escrita acadêmica o seu foco principal. Perrotta tem larga experiência terapêutica com pacientes que solicitam seu auxílio na produção de trabalhos de conclusão de curso, monografias, artigos científicos, dissertações e até teses de doutorado.
A obra é fruto de sua tese de doutorado defendida em 2014, pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo e segue a mesma linha, porém ampliada, de seu primeiro livro, de 2004, intitulado Um texto para chamar de seu: preliminares sobre o texto acadêmico. O título do presente trabalho adianta para o leitor a maneira como a autora enxerga o processo criativo da escrita, qual seja, a “parceria dialógica”, expressão utilizada por Perrotta em todo o seu livro, cuja raiz se encontra na obra do filósofo russo Mikhail Bakhtin e sua conceituação acerca do dialogismo, da polifonia e dos gêneros do discurso.
Somando o conhecimento da teoria dos gêneros textuais ao saber da psicanálise, de inspiração winnicottiana, Perrotta traz a escrita acadêmica para o setting terapêutico para que, possa ser reelaborado:
Nesse espaço-tempo, que aqui denomino Espaço Terapêutico da Escrita, o alimento, palavra escrita, é servido em pequenas doses. Estou ali, disposta a ouvir temores e ansiedades, as dificuldades que persistem no uso do objeto, as frustrações, a tentação de abandonar projetos, de não mais comunicar, escrever, publicar. (Perrotta, 2023, p. 15.)
Na introdução da obra, o leitor entra em contato não só com a gênese do Espaço Terapêutico, mas também com os pressupostos teóricos da autora. Nesse ponto, Perrotta introduz o trabalho de Donald Winnicott, pediatra e psicanalista inglês que fez um importante trabalho com crianças no pós-guerra, e apresenta ao leitor o conceito de objeto cultural para qualificar a escrita. Numa relação de cuidado, cabe ao cuidador apresentá-lo, tendo em vista não só o amadurecimento do ser humano como um todo, mas também do amadurecimento do ser da escrita, sendo realizado quando esse objeto é apreendido de forma criativa.
O primeiro capítulo, intitulado Hospitalidade, dom universal, a autora reflete sobre o binômio hospitalidade/hostilidade, a partir das leituras feitas do filósofo Jacques Derrida. O começo do capítulo apresenta uma situação cotidiana em que a autora, após visitar um sebo, entra em contato com um livro do poeta Paulo Leminski. É neste ponto que o leitor entra em contato com o estilo de Claudia Perrotta, um traço também presente em suas aulas de linguagem escrita: a introdução de cenas do cotidiano que se remetem às crônicas, gênero textual muito apreciado pela autora e objeto de estudo em suas aulas. A autora consegue, no mesmo capítulo, transitar de um estilo a outro, sem romper com coerência do discurso. No mesmo capítulo, o leitor encontra cenas do cotidiano, referências teóricas, além de filmes e episódios clínicos que ilustram a discussão proposta pela autora, como o filme “O conto chinês” e os relatos de Irene e de Juliana. Dessa forma, Perrotta nos mostra, em suas descrições, como a relação com a escrita, inicialmente vista como estranhamento, evolui para a revelação de um potencial criativo, graças à hospitalidade e cuidado trazidos pela relação terapêutica.
O segundo capítulo, “Clare Winnicott: amor incondicional”, introduz o trabalho da assistente social e psicanalista que foi esposa de Winnicott. Perrotta, neste momento da leitura, amplia a percepção do leitor acerca da psicanálise, dando protagonismo àquela que foi responsável por parte dos conceitos divulgados pelo médico psicanalista. Claire Winnicott situa o processo terapêutico como um espaço para a expressão de sentimentos, bem como de local em são apresentadas provisões para que, de fato, se efetive o cuidado e a hospitalidade. A autora reforça que o terapeuta necessita ter um repertório de objetos culturais do campo da comunicação para apresentar a seu paciente, o que reforça a perspectiva de estudo dos gêneros textuais, conforme se encontra no ensino de língua portuguesa. Esses objetos tornam-se símbolos capazes de serem recriados conforme o contexto situacional. Nas palavras de Perrotta:
A capacidade de usar a palavra é fruto do estabelecimento da confiança, do bem-estar que experimentamos no momento inaugural da relação com o outro. Algo que vai sendo reposicionado e reeditado no decorrer da vida, desde que tenhamos guardadas na memória situações significativas, em que tenha sido possível lidar com falhas ambientais e recuperar experiências satisfatórias e vivas com o objeto originário (corpo materno, primordialmente). (Perrotta, 2023, p. 77)
O terceiro capítulo, “Donald Winnicott: brincar de escrever”, retoma as ideias do pediatra inglês, o qual compreende o processo terapêutico como uma brincadeira entre terapeuta e paciente. Para tanto, é preciso trabalhar a criatividade e a imaginação. Um ponto que Perrotta traz a respeito desse pensador é sua escrita peculiar, o que foi apontado por comentadores como Thomas Ogden: “o tom brincalhão e imaginativo, por vezes bem-humorado, com jeito de conversa, que Winnicott imprimia em seus textos” (Perrotta, 2023, p. 100). Não é por acaso que Perrotta imprime, em sua escrita, momentos de leveza e de distração, convidando o leitor a viajar por obras da literatura e filmes. A citação do livro Kafka e a boneca viajante é ponto de partida para compreender que o processo de criação de um escritor não está distante do lúdico, aspecto marcante de uma criança. Aqui, Perrotta sustenta a ideia de que uma boa parceria sustenta o setting, possibilitando trocas:
(...) os autores que me procuram buscam, basicamente, formas de se comunicar de modo pessoal, necessitando, para isso, dessa presença do terapeuta, por vezes silenciosa, apenas uma testemunha de um processo de conquista. (Perrotta, 2023, p. 122)
Para recebermos o aprendente, de qualquer idade, é necessário não só lhe dar o alimento que solicita, mas também acolher a produção escrita, não importa em qual estágio ele se encontra. Com isso, percebe-se como o terapeuta precisa ter um vasto repertório de textos de diferentes gêneros.
O quarto capítulo, “Marion Milner: destinos do criar” traz as contribuições dessa psicanalista inglesa para o trabalho criativo e o brincar como forma de simbolização. Milner, assim como Perrotta, questiona o ensino formal, o qual não abre espaço para o escoamento da imaginação. No caso da escrita acadêmica, a criatividade está diretamente proporcional ao quanto de pessoalidade o autor imprime em sua escrita. A postura corretora daqueles que recebem o texto acadêmico inibe o caos que é a fonte da realização de potenciais criativos, de gerar sentidos, não se afastando de uma dimensão poética que torna a escrita acadêmica menos dura: “o idioma diz respeito a uma estética particular, única, que nos determina, tendo sua origem constitucional nos primórdios da existência” (Perrotta, 2023, p. 183).
Nas considerações, “Um texto para chamar de seu”, a autora retoma as ideias dos teóricos citados em seu livro, partindo de Donald Winnicott e sua realidade compartilhada, espaço em que se pode estabelecer uma ponte entre a interioridade e a exterioridade. Por meio do brincar, segundo esse psicanalista, reforçado por Clare Winnicott e Marion Milner, é possível estabelecer parcerias dialógicas, tendo a palavra como objeto cultural e material: “são provisões disponíveis no meio cultural que possibilitam encontros, tanto de cada um consigo mesmo, como com outro” (Perrotta, 2023, p. 186). Semelhante às ideias de Alícia Fernández sobre autoria do pensamento, para Perrotta, o exercício da palavra é um exercício de autoria, na medida em que, por meio dela, sentidos e significados são construídos e reconstruídos.
Entrelinhas do criar: parcerias dialógicas no espaço terapêutico da escrita possibilita diversas camadas de leitura: contém material teórico de inspiração psicanalítica, que pode ser útil para esse especialista; contém episódios e vinhetas clínicas, essencial para psicopedagogos; oferece uma seleção de filmes e textos importantes para a reflexão e elaboração de atividades voltadas à linguagem escrita; ilustra, mediante uma cuidadosa e ética descrição dos episódios, como se constrói um vínculo terapêutico e potencial, com vistas ao cuidado genuíno com a escrita. Sem dúvidas, o livro de Claudia Perrotta cumpre sua finalidade: ser um livro suficientemente bom.













