O desenvolvimento de uma criança é permeado de contradições e conflitos e ela requer intervenções abalizadas do professor e do meio social para se constituir com todas as suas potencialidades. (Alexandroff, 2025)
O trecho citado acima pertence à obra “Afetividade e linguagens expressivas na Educação Infantil: contribuições de Henri Wallon”, escrita por Marlene Coelho Alexandroff, docente do curso de especialização em Psicopedagogia do Instituto Sedes Sapientiae. Pedagoga de formação, a autora acumula uma vasta lista de experiências profissionais que vão da docência, da coordenação pedagógica e da formação de professores na Secretaria Municipal de Educação de São Paulo (SMESP), passando, também, pela formação de professores, pesquisa e autoria de materiais didáticos e pedagógicos no Centro de Estudos em Pesquisas em Educação, Cultura e Ação Comunitária (CENPEC). Com mestrado em Educação pela Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo, Alexandroff atuou como professora universitária e coordenadora de cursos de graduação e de pós-graduação na área da Educação, em instituições privadas de ensino superior.
Convidada por Elcie Mansini, a autora iniciou carreira docente no Instituto Sedes em 1992, lecionando, inicialmente, disciplinas voltadas para a Alfabetização e Letramento, uma de suas áreas de interesse. Atualmente, leciona disciplinas voltadas aos estudos de Lev Vygotsky e Henri Wallon, além daquelas direcionadas para a Metodologia da Pesquisa Científica e orientação para a elaboração da monografia. Alexandroff, além de professora, faz parte do Núcleo de Assistência Social (NAS), onde tem coordenado projetos ligados à infância e adolescência e é editora-chefe da revista “Construção Psicopedagógica”, da mesma instituição.
A obra em questão, publicada pela editora Atalante, é o resultado de anos de estudos e de docência da teoria psicogenética de Wallon, interesse esse fruto da necessidade profissional de se melhorar o sistema serial de ensino da rede municipal de São Paulo, contando com a assessoria de Madalena Freire e tendo por referência o plano Langevin-Wallon, importante documento elaborado por seus autores após a Segunda Guerra Mundial, com a finalidade de reconstruir o sistema educacional francês, dando origem, no Brasil, aos ciclos de ensino, por meio de uma educação democrática e humanística que alcançasse todas as crianças, independente de sua origem social ou étnica, promovendo o desenvolvimento integral, intelectual e moral.
O livro inicia-se com a contextualização de como a autora interessou-se pelo tema, atrelado ao seu fazer pedagógico, apresentando, também, o estilo da obra, de grande influência freireana. Contextualizar como foi gestado o livro é parte importante do processo de pesquisa científica, conforme professa Alexandroff em suas aulas. Afirma a autora:
Proponho reflexões que acredito sejam fundamentais para o professor de Educação Infantil em seu fazer diário, pois uma ação mais adequada pressupõe o estudo da práxis, isto é, da prática refletida em processo de ir e vir da teoria para a prática e vice-versa. (ALEXANDROFF, 2025, p. 9)
Embora o interlocutor da obra seja os agentes que atuam na Educação Infantil, “Afetividade e linguagens expressivas na Educação Infantil” pode ser facilmente adotado em cursos de graduação em Pedagogia, bem como em cursos de pós-graduação na área da Educação, pelo seu caráter altamente didático. Em boa parte dos cursos de licenciatura, Henri Wallon é pouco citado, sendo reservado, a esse pensador, algumas aulas em Psicologia da Educação. É nos cursos de pós-graduação que sua teoria é mais difundida.
O livro contém seções que trazem dados biográficos, obras e principais ideias dos autores citados (Freire, Vygotsky, Wallon, Pichon-Rivière, Piaget), bem como de temas debatidos ao longo do trabalho, como “Materialismo Dialético”, “A criança e a infância no campo das Ciências Sociais”, “Os ginásios vocacionais”, “Colégio e Escola de Aplicação”. Dividido em duas partes, a primeira contempla as “Concepções wallonianas e contribuições à Educação”, em que a autora esmiúça a teoria do pensador francês, enquanto que a segunda parte apresenta “As linguagens expressivas”, voltadas ao público da Educação Infantil.
A parte I inicia-se com a “Introdução”, em que Alexandroff reflete sobre o quanto os sistemas de ensino priorizam o aspecto cognitivo de seus estudantes, deixando de lado o campo emocional, a motricidade e a expressividade: “resgato, com os estudos de Henri Wallon, a ênfase no olhar integrado dos aspectos que constituem o sujeito como pessoa [grifo da autora]: os aspectos sociais, afetivos, cognitivos e físicos” (ALEXANDROFF, 2025, p. 20). Nesse trecho da obra que a autora distingue o autor francês do pensamento de Vygotsky, conceituando a zona de desenvolvimento proximal, importante termo empregado pelo autor russo, bem como sua ênfase para o estudo da criança, “alguém que participa de sua época, sendo afetada e ao mesmo tempo afetando seu contexto” (ALEXANDROFF, 2025, p. 21). A Introdução ainda revisita a legislação brasileira, no que se refere à criança: a Constituição Federal de 1988, o Estatuto da Criança e do Adolescente de 1990, a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional de 1996, bem como diretrizes e referenciais voltados para a Educação Infantil. Alexandroff prova que as propostas educacionais no Brasil, como a formação de professores, têm sua origem no plano Langevin-Wallon, uma vez que, para o desenvolvimento da criança, é necessário valer-se de um repertório de estratégias didáticas.
O primeiro capítulo, “Por que Wallon?”, apresenta resumidamente uma biografia do autor, seguida das principais ideias do que se tornou a psicogênese da pessoa: “como o ser humano se mobiliza e é mobilizado para se constituir como sujeito social” (ALEXANDROFF, 2025, p. 32). O autor afirma que o cuidar e o ensinar são indissociáveis no processo de ensino. A ênfase dada à emoção deve-se ao fato de que, por meio dela, a criança adapta-se ao meio e dele se apropria.
O segundo capítulo nos apresenta os “Principais pressupostos epistemológicos” de Wallon para a constituição de sua psicogênese. O autor adota o método histórico, genético pois entende que “para se compreender uma função, é preciso conhecer a sua gênese” (ALEXANDROFF, 2025, p. 37). O estudo do desenvolvimento da criança, na perspectiva walloniana, vale-se tanto das condições orgânicas quanto das sociais: “o contexto pode propiciar o surgimento ou a extinção de formas de ações, assim como atenuá-las ou acentuá-las” (ALEXANDROFF, 2025, p. 39). É por essa razão que a observação é um importante instrumento para a Psicologia Genética. Wallon também defende o conflito e as crises como potências para o desenvolvimento, visto que enfrentando-as, o sujeito desenvolve-se de forma ativa e interativa. Cabe ao docente de Educação Infantil estar preparado para mediar conflitos individuais e interpessoais provenientes de seus alunos. O outro tem fundamental importância nesse desenvolvimento, pois meio e indivíduo afetam e são afetados mutuamente.
O capítulo 3, “Os campos funcionais”, aprofunda o conceitos como o de afetividade, em contraposição à ideia de emoção: enquanto esta é uma “forma de linguagem” antes da própria linguagem, geralmente acompanhada de reações neurovegetativas, aquela é mais abrangente e pode ser expressa de diferentes maneiras. É neste capítulo que se apresenta a ideia de escoamento de emoções: é dever do professor permitir que a criança o faça, mantendo-se em uma distância segura, sem deixar de acolhê-la em suas crises emocionais, conflitos e inseguranças que eventualmente tenha. Para Wallon, a emoção está diretamente ligada ao tônus muscular, razão pela qual o autor francês é muito estudado em áreas como a Psicomotricidade. Ele considera que a motricidade tem uma dimensão expressiva. Escoar emoções só é possível por meio de recursos físicos, farmacológicos ou representacionais. Quanto mais a criança consegue representar suas emoções, mais desenvolve manifestações afetivas, como os sentimentos e as paixões. Além disso, é importante que o docente consiga fortalecer o Eu da criança, ajudando-a na resolução de dificuldades de aprendizagem.
O capítulo 4, “Os estágios de desenvolvimento”, apresenta tais etapas (impulsivo-emocional, sensório motor e projetivo, personalismo, categorial e adolescência), numa constante relação, em cada estágio de preponderância e alternância de funções, em prol da integração entre as funções cognitiva e afetiva, resultando, dessa forma, em um novo estágio. Esses estágios se relacionam aos campos funcionais (afetividade, motricidade, cognição e pessoa), não necessariamente indicando um desenvolvimento linear. A autora reforça, neste capítulo, a importância da escola e do professor, no que se refere a saber distinguir quais as crises de oposição para cada estágio.
O capítulo 5, “Wallon e a Educação Infantil”, acentua a importância dessa etapa da Educação Básica para a formação da personalidade da criança, uma vez que pode apresentar atividades voltadas a desenvolver a expressividade de suas subjetividades, assim como situações de interação com os pares. Um exemplo é o uso de jogos (funcionais, de alternância, simbólicos, dramáticos, de construção), de forma a desenvolver a autonomia da criança, por meio de um espaço estruturado que permita o movimento, além da cooperação e da solidariedade.
A partir da Parte II, encontramos sugestões de trabalhos com alunos de Educação Infantil, dando prioridade ao desenvolvimento das linguagens expressivas. O capítulo 6, “Integrando os campos de aprendizagem às linguagens expressivas”, apresenta os campos de experiência propostos pela BNCC para esse segmento da Educação Básica. O capítulo 7, “A literatura infantil”, aprofunda o trabalho com poemas e outros gêneros literários, em sala de aula. São feitas sugestões de obras, sendo enfatizada a importância de não só apresentar um repertório diversificado, mas também levá-lo a desenvolver as emoções e a afetividade. É no capítulo 8, “O desenho e as demais linguagens plásticas” que encontramos um importante campo de trabalho na Educação Infantil, tornando o desenho fonte não só para escoar emoções, mas também para levantamento diagnóstico das crianças. O capítulo 9, “Jogos e brincadeiras”, ressalta a importância do brincar como meio de expressão da dimensão afetiva por meio do movimento: “o desenvolvimento motor é fundamental para a evolução individual, pois é por meio do corpo e da projeção motora que a criança estabelece as primeiras comunicações com o mundo que o cerca” (ALEXANDROFF, 2025, p. 131). O capítulo 10, “A música e o movimento”, introduz a música como um importante instrumento de aprendizado e de desenvolvimento da criança, visto que, por causa do som e do ritmo, trabalha gesto, corpo e movimento: “ao exprimir-se com a música associada ao movimento, a criança exterioriza seus sentimentos, libera suas emoções - realizando uma atividade valiosa de escoamento de emoções” (ALEXANDROFF, 2025, p. 142).
Afetividade e linguagens expressivas na Educação Infantil: contribuições de Henri Wallon é um livro muito didático em vários aspectos: introduz o leitor aos estudos de Wallon; sugere outros obras para consulta e aprofundamento; dialoga com documentos oficiais referentes à educação brasileira; é repleto de notas de rodapé e boxes também explicativos acerca dos conceitos abordados na obra como, por exemplo, letramento; apresenta sugestões de atividades e de leituras a serem utilizadas em sala de aula. Para o profissional de Psicopedagogia, sua leitura é muito recomendada, por todos os aspectos apresentados e por Wallon valorizar a “readaptação da aprendizagem”, compreendendo as lacunas de aprendizagem que o sujeito apresenta, quando este chega a nossos consultórios ou mesmo em uma situação de atendimento institucional. Podemos contemplar anos de experiência e de docência de Wallon agora em um belo livro.













