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Construção psicopedagógica

versión impresa ISSN 1415-6954versión On-line ISSN 2175-3474

Constr. psicopedag. vol.35 no.38 São Paulo  2025  Epub 23-Feb-2026

https://doi.org/10.37388/cp2025/v35n38a09 

RESENHA DE LIVROS

COMO ESCREVER MESMO ESTANDO EM PÂNICO: DA FOLHA EM BRANCO AO TEXTO COMPLETO

HOW TO WRITE EVEN WHEN YOU’RE IN A PANIC: FROM A BLANK PAGE TO A COMPLETE TEXT

Paulo Sergio de Oliveira Junior1 

1 - Especialista em Psicopedagogia pelo Instituto Sedes Sapientiae, licenciado em Letras (USP) e Pedagogia (Uninove) e bacharel em Psicologia (UMC). É Professor de Língua Portuguesa, Psicólogo (CRP 06/161.507) e Psicopedagogo, além de revisor de textos. É membro do Departamento de Psicopedagogia do Instituto Sedes Sapientiae e monitor nas disciplinas de Monografia e Metodologia da Pesquisa Científica, do curso de pós-graduação. É conselheiro do Tear Junguiano - Núcleo de Psicologia Analítica de Mogi das Cruzes e Alto Tietê, exercendo, atualmente, a função de Coordenador Geral.

1Instituto Sedes Sapientiae – SP

ABED, Carolina Zuppo. Como escrever mesmo estando em pânico: da folha em branco ao texto completo. Europa, 2022.


(...) o valor de um texto está naquilo que só quem o escreveu poderia dizer, nas experiências pessoais, na forma única de observar o mundo e de manejar as palavras. (Abed, 2022)

A aquisição da escrita é tema recorrente na Psicopedagogia. É comum encontrarmos trabalhos voltados à Alfabetização e ao Letramento, respondendo, muitas das vezes, a uma demanda escolar de lacunas de aprendizagem do sujeito.

Como escrever mesmo estando em pânico: da folha em branco ao texto completo, obra de Carolina Zuppo Abed (2022), amplia a visão da escrita, propondo um olhar criativo para um processo que, em muitos casos, é temido pelo indivíduo, a ponto de ser negligenciado no ambiente escolar, ou então reduzido burocraticamente a um conjunto de habilidades elencadas pelos sistemas de ensino.

A autora, formada em Letras, pós-graduada em Psicopedagogia e em Formação de Escritores, é Doutora em Letras pela USP, tendo pesquisado Oficinas de Escrita Literária tanto no Brasil quanto em Portugal. A experiência como docente de cursos de escrita literária é somada à de escritora de poesia de narrativas.

A introdução da obra apresenta a dinâmica da ansiedade e o trabalho com o desconhecido no processo criativo da escrita:

O que pouco se diz, porém, é que esse aparente estado de confusão é uma fase natural do processo criativo e que, se não conseguimos evitá-la, pelo menos passar por ela de uma maneira menos turbulenta e mais proveitosa. (...)

A ideia é pensar a escrita como um processo dinâmico e complexo. Seu caráter muitas vezes caótico, embora possa gerar ansiedade se mal compreendido, é uma característica básica da criação. Essa desordem não é apenas inevitável, mas é também necessária - e até mesmo desejável. (Abed, 2022, p. 9)

Caos e ordem são dois termos utilizados por Abed ao longo dos vinte e nove capítulos que compõem a obra. Ainda que curtos, esses capítulos apresentam pessoalidade na escrita, pois a autora se coloca, também, nesse processo, fazendo com que o leitor tenha acesso ao modo como a psicopedagoga compõe seus próprios textos. Nesse sentido, a autora exemplifica o que se professa em Psicopedagogia, no que se refere a desenvolver um olhar sobre o próprio processo de aprendizagem.

É preciso enfatizar que os curtos capítulos não desmerecem a obra de Abed: são intencionais, na medida em que atendem à “democratização da escrita”, expressão utilizada pela autora. O livro é escrito para todo tipo de público, universitário ou não, adulto e também adolescente. Como acadêmica e pesquisadora do tema, a escritora apresenta ao leitor uma lista de obras, ao final do livro, para quem queira se aprofundar no processo criativo da escrita. Nessa lista, encontram-se autores diversos, das áreas de Letras, Esquizoanálise e Psicopedagogia, como as obras de Alícia Fernández.

Na primeira parte da obra, a autora aprofunda o processo criativo, ampliando a temática do caos e da ansiedade no processo escrito. Abed enfatiza a importância do local seguro para o trabalho criativo da escrita e critica métodos escolares que não contribuem para um bom relacionamento com a produção escrita.

Ordem e desordem são faces da mesma moeda, na visão da autora: “Escrever é criar. E, no terreno da criação, a desordem é tão importante quanto a ordem. Sem caos, não existe texto.” (Abed, 2022, p. 18) Acolher a desordem e o caos é essencial para o surgimento de novas ideias, fontes para a criação textual. Outro aspecto que Abed desconstrói, no processo de escrita, é a imagem do gênio, ser superior com habilidades para a criação artística e. Na verdade, o que se tem é a omissão do processo de criação que também apresenta certo caos, mas é desconhecido do leitor. Raramente o escritor mostra seu processo de escrita. Outro aspecto discutido pela psicopedagoga é a idealização da escrita versus o texto real. Em toda dinâmica escrita, o real sempre estará aquém do texto idealizado, já que, na materialidade do escrever, limitações de diversas naturezas atuam, tornando o texto imperfeito. Admitir a imperfeição do texto é o primeiro elemento de coragem para transpor de um texto potencial a uma obra real.

Outros obstáculos que, eventualmente, possam surgir no processo escrito é a vaidade em não receber aprovação de seus pares. Para a autora, é importante saber para quem mostrar seus textos, contudo, deve-se ter em mente que a cobrança em criar um texto da genialidade de escritores consagrados pode ser um obstáculo para que a obra aconteça.

O formato do trabalho de Abed inclui momentos práticos de proposta ao leitor: são atividades e exercícios de escrita, partindo de uma vivência espontânea, com o auxílio de recursos como a música e a imagens, em que o aspirante a escritor trabalha e acolhe o caos inicial da escrita, a qual será fonte potencial para a criação literária. A pesquisadora, ao longo de seu livro, aponta que esses exercícios, ainda que seu foco seja a escrita literária, são úteis a textos de qualquer gênero textual. Ela afirma:

Potência e impotência, ordem e desordem. O mais importante é conseguir transitar entre essas duas polaridades sem se deixar consumir demais por uma ou pela outra. É preciso mergulhar no caos para tomar contato com a potência criativa-criadora. Ao mesmo tempo, é preciso emergir desse caos para poder dar forma e destino para essa potência. (Abed, 2022, p. 36)

Ao lado do caos, a ansiedade e a angústia são também presentes no processo de escrita. A autora sugere acolhê-las, tendo consciência de que, em um momento reservado à escrita, nem sempre se conseguirá encerrar a atividade. Pelo contrário, é muito comum haver momentos de completa falta de produção textual. Nesse sentido, Abed diferencia a ação de escrita de escrito, ou seja, seu produto final. Outra estratégia apresentada pela estudiosa é o hábito de utilizar cadernetas para fazer anotações aleatórias, o que desenvolve não só a intimidade com a escrita, mas também se registram elementos que podem ser úteis para escritas posteriores.

A segunda parte do livro tem por foco o desenvolvimento do texto. Nessa parte, Abed valoriza a escrita como um processo, compreendendo que uma primeira versão de um texto nem sempre é a melhor. “O mais corriqueiro é o trânsito de versões, alterações de palavras, frases, ideias: Criar significa rearranjar elementos de uma forma que ainda não tenha sido pensada.” (ABED, 2022, p. 75)

O processo da escrita não ocorre isolado da cultura e da sociedade: ela é fruto direto da vivência do escritor. A escrita tem três dimensões que se mesclam: o eu, isto é, sua subjetividade; o outro (amigos, familiares etc.) e o coletivo (a sociedade de uma maneira geral). Isso se deve ao fato de que, ao criar, é necessário o exercício não só da observação mas da sensibilidade, de como tudo ao redor o afeta.

Ao lado da escrita, a leitura é uma importante ferramenta para compor repertório. Quanto mais diverso for esse repertório, melhor ao leitor. Assim como a escrita, ler deve ser um exercício crítico, participativo, dialogando com o texto lido, concordando ou não com ele.

Abed defende a ideia de que todo texto é uma resposta a uma pergunta, assim como a problema que se elabora em trabalhos científicos. Desse questionamento, é possível extrair novas anotações que poderão ser transformadas em textos. Além de problematizações, são bem-vindos trechos soltos, sem a intenção de formas capítulos com uma ideia completa. A autora aponta que há obras formadas por fragmentos. É o estilo do escritor que irá apontar as escolhas por esse ou outro gênero textual.

Também faz parte do estilo do escritor reservar um tempo e uma rotina para seus escritos. Há casos diversos de como um escritor se organiza para a criação escrita, desde horas semanais para o ofício até instantes de horas e horas, com intervalos maiores. O ritmo de escrita é determinado por quem a escreve e tão importante quanto ela são as pausas que há entre uma escrita e outra. Nessas pausas, o escritor se renova, entra em contato com outras vivências que podem servir de inspiração para novas ideias. Também estão incluídos momentos de retomada do texto já escrito, no sentido de revisar e de alterar, dinamizando sua criação.

O livro se encerra com a afirmação da autora de que, por mais que haja técnicas para a escrita literária, é fundamental que a pessoa se conheça para que compreenda quais técnicas fazem ou não sentido, quais são suas afinidades com os gêneros textuais, seu repertório de ideias e de outros autores, suas vivências e experiências de vida. O autoconhecimento precede o fazer criativo da escrita. Não é à toa que Como escrever mesmo estando em pânico: da folha em branco ao texto completo transparece a trajetória de Carolina Abed no terreno da escrita literária, seja como pesquisadora seja como escritora e professora. O percurso da autora alia-se ao de psicopedagoga, na medida em que reflete sobre o processo de aprendizagem da linguagem escrita, partindo de si mesma, para que, dessa forma, possa auxiliar quem deseja se aventurar no aprendizado da escrita literária, ampliando e transformando saberes, reconhecendo que o caos e a ansiedade, antes de paralisarem o sujeito aprendente, são fontes de criatividade, trabalhadas em um espaço seguro e potencial.

REFERÊNCIAS

ABED, Carolina Zuppo (2022). Como escrever mesmo estando em pânico: da folha em branco ao texto completo. Europa. [ Links ]

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