Introdução
Este ensaio é dedicado ao acadêmico, Prof. Dr. César Ades, no 10° ano de seu falecimento. Não poderíamos deixar de fazê-lo pois temos a honra de ter esse reconhecido cientista como antecessor na cadeira de número dezenove (Cad. Pedro de Alcântara Marcondes Machado) da Academia Paulista de Psicologia. De imediato, evoquemos uma teia de aranha, explicitando-a posteriormente. E assinalemos a pretensão de tecer um texto que, ao gosto de tão querido amigo, possa “dar chance à beleza” (Ades, 2012, comunicação por e-mail à autora), usando daquela imagem que, nas suas palavras, lhe foi tão cara: - “A teia, exemplo tradicional de fixidez comportamental, é plástica e sujeita à aprendizagem” (Ades, 2010. p. 77). Teia essa que encantava César Ades e, muito antes, ao filósofo Aristóteles. Importa lembrar que a teia da vida é a grande metáfora nos estudos sistêmicos sobre a compreensão dos fenômenos vitais (Peçanha & Santos, 2011). Seria por acaso?
Vida e obra
Muito se falou sobre Cesar Ades na época de seu inesperado falecimento. As homenagens continuaram em forma de artigos (Peçanha, 2012; Sabadini, 2013), prêmios, concursos monográficos e mesmo como nome de edifício no Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo (Edifício César Ades no Bloco G do IP-USP). Em 2021 foi instituído o Prêmio César Ades pela Sociedade Brasileira de Etologia (SBEt) para homenagear esse autor e incentivar a produção científica em comportamento animal. César Ades, professor titular pelo Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo, ocupou na Academia Paulista de Psicologia (APP), a cadeira Pedro de Alcântara Marcondes Machado (no 19, de 2008 a 2012). Detentor de Bolsa de Produtividade Científica (CNPq), foi líder de grupo de pesquisa em Psicoetologia (CNPq). Suas principais linhas de investigação situavam-se na área da etologia e do comportamento animal. O autor César Ades foi referência nacional e internacional em etologia e pertenceu à primeira turma de orientados do Prof. Dr. Walter Hugo de Andrade Cunha (1929-2022), um pioneiro no estudo do comportamento animal no Brasil. Por sua vez, César fundou a Sociedade Brasileira de Etologia (SBEt), ocupando o cargo de presidente e, depois, vice-presidente dessa entidade. Como pesquisador assessorou agências de fomento científico, como Fapesp, Capes e CNPq e colaborou com muitas universidades e sociedades científicas. Foi membro da Sociedade de Biologia Experimental e do International Council of Ethologists. Ainda, no âmbito internacional, firmou intercâmbios científicos com o Laboratoire d’Éthologie Expérimentale et Comparée, Paris XIII (França), e com a Unidade de Investigação em Eco-Etologia do Instituto Superior de Psicologia Aplicada, em Lisboa (Portugal). No aspecto editorial, o Prof. C. Ades foi membro (de 1992 a 2004) da Comissão Executiva da Revista Psicologia USP (publicação oficial do IP-USP); editor da Revista de Etologia e membro do conselho editorial das revistas Behavior and Philosophy e Acta Ethologica. César Ades nasceu no dia 08 de janeiro de 1943, conforme seu registro oficial; mas, segundo ele, seu nascimento ocorrera aos 07 de janeiro de 1943, no Cairo, Egito. Nosso homenageado, com cerca de treze anos, iniciou seus estudos sobre a vida das aranhas num jardim em Alexandria (Egito). Aos 15 anos de idade veio para a cidade de São Paulo com sua família e se naturalizou brasileiro. Eram judeus, importante questão se considerarmos a perseguição religiosa da época naquele país. A adolescência de César transcorreu no bairro Higienópolis (SP, capital), cuja casa ele nos apresentou, com grande alegria, numa ensolarada tarde de verão paulistano. A fim de manter sua língua de origem, o francês, César estudou no Liceu Pasteur em São Paulo. Nesse colégio, o curso de filosofia, ministrado pela Mme. Josette Balsa, foi decisivo para a sua posterior formação como pesquisador em ciência psicológica. Das áreas tradicionais da filosofia - lógica, metafísica, moral e psicologia, esta foi a que mais lhe atraiu. Assim obteve graduação em Psicologia na Universidade de São Paulo (USP, 1965). No último ano desse curso iniciou a docência naquele local, no espaço hoje denominado Departamento de Psicologia Experimental. O primeiro artigo científico de C. Ades foi publicado na Revista Brasileira de Psicologia, também em 1965. Há fortes indícios de que foi o primeiro, no Brasil, sobre comportamento exploratório. Ele obteve os títulos de Mestre em Psicologia Experimental (1969) e, aos 22 anos, Doutor (1973), com a tese “A teia e a caça da aranha Argiopeargentata”. Continuou suas investigações com afinco, alegria e paixão até o fim de sua vida terrena. Fascinava-lhe “a ideia de mente como um substrato para a experiência subjetiva, mas também como a instância que controla atos e movimentos” (Ades, em Kinouchi & Ramos, 2011, p. 189). Os nomes César Ades e Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo (IP-USP) estão fortemente ligados. Aí transcorreu sua longa e produtiva carreira (1965-2012) que resumimos assim: foi docente no Departamento de Psicologia Experimental, coordenador do Laboratório de Etologia, orientou dezenas de pesquisas no Programa de Pós-Graduação em Neurociências e Comportamento daquele Instituto, ocupou o cargo de Vice-Diretor (1998-2000) e Diretor do IP-USP (2000-2004) quando muito batalhou para instalar uma comissão de ética em pesquisa com seres humanos, sendo também o responsável pela criação da Comissão de Ética em Pesquisa com Animais (CEPA); foi membro do Conselho Universitário da USP (1998 a 2004), do Conselho Deliberativo do Hospital Universitário da USP (2000 a 2004), e do Conselho Curador da FU-VEST (2004-2008). Chegou, finalmente, a ser o Diretor do Instituto de Estudos Avançados (IEA) da USP. Era com grande entusiasmo que o querido professor relatava os trabalhos do IEA, motivando-nos a nele participar pois, segundo ele, esse era um lugar para se pensar e trabalhar pela transformação da sociedade num sentido de maior cidadania e respeito a todos os seres. Evoquemos outras memórias que eram caras para César Ades. Na Alameda Glette (n0. 463), na cidade de São Paulo, situou-se a primeira sede da antiga Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras (FFCL) da USP e ali nasceu a cadeira de Psicologia Social e Experimental, portanto foi parte importante da história da psicologia (Sabadini, Vilela, Carvalho, Osorio & Ades (in memoriam), 2014; Otta, Ribeiro, Bussab, 2021). Nesse local Cesar iniciou trabalhando no denominado “palacete Jorge Street - um marco na infância da USP” (Ades, 2010). Havia laboratórios e uma sala de aula, no porão antes ocupado pelo geneticista Theodosius Dobzhansky. Assim, depois dos ratos da Alameda Glette, vieram as aranhas argênteas e suas “teias viscosas”, conforme lembrado pelo Prof. Fernando Leite Ribeiro (Mendrano, 2010/2012). A primeira delas lhe chegou numa caixa de sapatos como presente de seu orientador Walter Cunha, no antigo prédio da Psicologia Experimental da USP, no então chamado B-10 (um barracão na cidade universitária). O Prof. César Ades apreciava falar de seus alunos, “bixos”2 e do trabalho de seu primeiro orientado, Prof. Dr. José Lino Oliveira Bueno. Esses autores mostraram que “a descrição minuciosa do comportamento, como é feita pelos etólogos, permite uma maior compreensão do que acontece em situações experimentais” (Ades, 2010, p. 71). César Ades propunha um “recuo em relação à simples coleta e interpretação dos dados. É nesta fronteira que a reflexão filosófica pode intervir, como forma de pensar a própria base sobre a qual o cientista ergue as suas certezas” (Ades, em Kinouchi & Ramos, 2011, p. 193). De forma pioneira, C. Ades defendeu uma visão ecológica da motivação, tendo produzido artigos inovadores, na década de 60-70, em relação ao que era publicado no Brasil. Na Academia Paulista de Psicologia, na apresentação de seu Legado para a Psicologia, encontra-se uma ontologia e psicoetologia integradas, de forma ecossistêmica na teia da vida. Com a última expressão, aludimos também ao trabalho do conhecido físico Fritjof Capra, citado por Peçanha e Santos (2011). Recordemos as palavras do acadêmico C. Ades, naquela oportunidade: “deixo-me absorver pelos projetos do momento que são muitos e que representam o desafio e a esperança” (Ades, 2010). César apreciava a leitura de clássicos como Freud, Darwin, W. James e outros, gratificando-se em neles encontrar “ideias que a ciência não desenvolveu o suficiente” (Ades, em Kinouchi & Ramos, 2011, p. 194). Sonhávamos com as possibilidades de diálogo entre Darwin e Freud. César foi um grande divulgador científico da obra de Darwin. “Quem mais poderia escrever um texto tão singelamente intitulado “Por que os cachorros abanam o rabo?” e em seguida passar a outro texto tão hermeticamente intitulado “Freud, as enguias e a ruptura epistemológica”? (Mendrano, 2010/2012, s/p.). O autor abordou ainda o tema, na época muito controvertido, da consciência animal. Esses pontos sistêmicos de visão nutriam nossos debates sobre, por exemplo, a emoção humana e a maneira como conduzíamos nossas aulas. Lembrar o querido amigo e colega significa presentificar um largo e amoroso sorriso distribuído a todos sem exceção, evocar as palavras psicologia, etologia, comportamento animal, emoções, um apreço especial por memórias e uma clara visão de mundo - raridade nestes tempos brasileiros marcados por forte herança colonial, pelo positivismo, pensamento unidimensional e busca de especializações que esquecem o enquadre do conhecimento maior do qual fazem parte; enfim, tempos ainda de “colonização”, de controle subliminar em que somos arrastados pelos algoritmos, pelas informações de massa e, muitas vezes, aí submergimos, perdidos de nosso centro interior, reverberando, inconscientemente, pensamentos e emoções contraditórios. César superava os desafios com sua peculiar sabedoria e amorosidade. Também era assim que conseguia abordar assuntos delicados, em especial, com oponentes ou com aqueles que apresentavam escassa politização ou consciência de mundo. Esses momentos que seriam de animosidade ou desconforto para a maioria das pessoas, eram transformados por ele em agradável diálogo. A coerência foi outra marca de nosso homenageado e, assim, dada a importância concedida ao legado deixado pelos antepassados, idealizou o Centro de Memória do IP-USP, sendo o seu primeiro coordenador. Para César “uma das maiores aventuras do espírito humano é a possibilidade de reencontrar-se com seus semelhantes, que viveram ontem ou há milhares de anos” (Ades, Editorial da Revista Psicologia USP, 1993. Memória, 4(1/2), p.7). A abertura mental de César Ades ficou registrada nas suas pesquisas etológicas e evolucionistas ao questionar ‘pré-conceitos’, alterar teorias sobre o comportamento social, sexual e humano e indicar caminhos revolucionários como a “ecologia comportamental” na medida em que esta realiza “uma síntese entre o pensamento ecológico e o pensamento comportamental, sob a égide da evolução” (Ades, em Kinouchi & Ramos, 2011, p. 203). Entendemos que os ingredientes: empatia, conhecimento, paciência, sabedoria, alegria e humildade foram os responsáveis pelo êxito que caracterizou a vida e a obra de César Ades.
Passagem
O processo de passagem de César Ades iniciou-se aos 08 de março de 2012. “É a passagem que se continua/ É a tua eternidade/ És tu.” (Epígrafe, Cecília Meireles). Não sem antes avisar que, naquela data, estaria lembrando o Dia Internacional da Mulher. Em 07 de março daquele ano, ele nos escrevera: “li numa camiseta uma inscrição que me fez pensar: GIVE PEACE A CHANCE. Não apenas esperar, mas dar uma chance para a paz”. (Ades, 2012, comunicação por e-mail à autora). Dez anos passaram-se e suas palavras são de surpreendente atualidade, considerando o presente episódio internacional, a guerra na Ucrânia que envolve EUA, países aliados na OTAN e de outro, a Rússia. Naquele oito de março, César foi vítima de atropelamento por um automóvel, muito próximo de sua moradia, na sua querida região paulistana (bairro Cerqueira César, SP) o que, em poucos dias, o levou desta vida. Deixou-nos, oficialmente, no dia 15 de março de 2012, passagem ocorrida nesta capital (São Paulo) que o acolhera e a qual ele tanto retribuiu com seu incansável trabalho, cuidado e sabedoria. Inimaginável, naquela época, sua partida considerando sua jovialidade (seus olhos brilhavam como os de um adolescente, mas de cabelos brancos), vitalidade (sempre sorrindo, alegremente) e produtividade (atestada em seu curriculum Lattes). C. Ades buscava a coerência e a atingiu em alto grau. Estava sem documentos, esportivamente, como preferia vestir-se, e caminhando; aliás não dirigia automóvel, nem o tinha, servia-se de transporte público. César apreciava caminhar, como também parar para observar um grafite num muro, uma flor, um luar etc. Tudo muito coerente com sua forma franciscana de viver, estudando o comportamento animal. Foi presenteado, ao longo de sua existência, com muitas imagens de São Francisco e as guardava num lugar particular. Em César, nada era gratuito ou por acaso. Cada objeto tinha uma história que ele apreciava contar e cada gesto seu, cada palavra, tinha um sentido que nos convidava a ir além...
Aos 69 anos, com muita vitalidade, César não pensava em aposentadoria e chegou a comentar conosco: - “vão ter que me tirar pelo pescoço”. Naquela época, na sua agenda estava previsto, entre outros compromissos, aula inaugural no Programa de Pós-Graduação (IP-USP) que seria proferida, na segunda-feira, dia 12 de março de 2012; e, em abril do mesmo ano, participação em banca de concurso público na cidade de Natal (Rio Grande do Norte). Curiosamente, ou por intuição, César não conseguia se visualizar realizando esses eventos e isso o inquietava. De nossa parte, esperávamos a colaboração de C. Ades num texto sobre Evolucionismo e Saúde, proposto pelo nosso colega do Instituto de Psicossomática Pierre Marty (IPSO- Pierre Marty, Paris) e membro da Sociedade Psicanalítica de Paris, Dr. Albert Blanquer. Esse seria um dos temas nos Seminários de Psicossomática daquele Instituto. De qualquer forma, posteriormente, C. Ades, nosso brilhante pesquisador, foi lembrado por aquele amigo em seus Seminários; e, continua sendo tema de nossos encontros, particularmente dos informais e alegres pelas calçadas da velha e sempre bela Paris. Como não rir das peças que a vida nos prega, como não evocar, caminhando por aquelas ruas pesadas de histórias, aquele que tinha como língua materna, o francês? Como não ficarmos estupefatos com toda a afinidade entre os pensamentos evolucionistas de C. Ades e a psicossomática de Pierre Marty (Peçanha, 2015). Em memória, Albert e eu continuamos a reunir esses dois grandes cientistas. Suas linhas de investigação continuam profícuas e, juntas, ainda inexploradas e potentes vertentes de estudo. Sentimos muito a perda de César Ades - amigos, família, colegas, Academia Paulista de Psicologia, Universidade de São Paulo e comunidade científica no Brasil e no exterior. Raro uma cerimônia póstuma que tenha congregado tanta comoção como a sua na Biblioteca de Psicologia da USP. Jorraram muitas ‘lágrimas-palavras’ e ainda outras, em lugares tão distantes e desconhecidos como Goulet (França), onde um tordo (une grive musicienne) foi convidado por um de nossos amigos, Jean-Pierre Mazer, a dedicar suas mais belas melodias para César, a cada manhã.
“A festa continua ...”
Ao relembrar as palavras de César Ades, vemos como podiam funcionar como metáforas apontando para outras realidades como, por exemplo, no diálogo científico que manteve com a querida Acadêmica Elsa Lima Gonçalves Antunha (APP, Cadeira no. 29; Elsa deixou-nos aos 27 de setembro de 2022), sua ex-professora e amiga, com relação aos trabalhos de Clinton Richard Dawkins3 e de Daniel Clement Dennett4. (César e Elsa, fora de nosso núcleo familiar, eram os únicos amigos a nos chamar pelo segundo prenome). Antes de prosseguir com a resposta de C. Ades às indagações daquela Acadêmica, citemos, brevemente, o polêmico contexto referente às ideias evolucionistas e adaptacionistas daqueles autores. Dawkins (2012) ficou conhecido pela sua visão evolucionista centrada no “gene”. Introduziu o termo “meme”, o que ajudou na criação da memética. Fez importante contribuição à ciência da evolução com a teoria de que o efeito fenotípico não se limita ao corpo de um organismo, mas influencia seu ambiente. Atuou em divulgação científica em temas como biologia evolutiva, criacionismo e religião. Dennett, do ponto de vista da evolução, vem sendo considerado como adaptacionista, em consonância com sua teoria da atitude intencional, e com as idéias de Dawkins. Dennett cunhou termos como gruas ou guindastes (noção monista materialista, bottom up, sem postulações metafísicas), contrariamente aos “ganchos celestes” (noção dualista, top-down) para explicar a concepção ou o design dos seres vivos. Afirmou que Darwin encontrou um processo de concepção que dispensa a existência de uma inteligência superior. Na discutida obra, Darwin’s Dangerous Idea,Dennett (1995/2001) defendeu fortemente o adaptacionismo de Darwin. Segundo ele não há como voltar atrás depois da ideia perigosa de que o design (finalidade ou para que serve) pode não precisar de um designer. Enfim, o problema abordado por esses estudiosos é um dos mais enigmáticos: como inserir os fenômenos não físicos no mundo físico, buscando compreende-los fora de respostas dogmáticas ou religiosas para questões sobre a vida, fenômenos mentais e ética. Retomemos nosso tema sobre as metáforas de César Ades. A partir dos trabalhos de Dawkins e Dennett, Elsa (como carinhosamente a chamávamos) perguntou a César: - “Quer dizer que a festa acabou?” César respondeu-lhe: “a festa não acaba!”; - “mas o que vem depois da festa? (sic. Elsa Antunha) - “vem o amor pela verdade” (sic. C. Ades). Guardemos isso: - a festa nunca acaba! E que o amor pela verdade possa triunfar nos complexos caminhos da ciência que sofreu tantos reveses no contexto político brasileiro dos últimos anos. Pertinente é lembrar a difundida ideia de Dawkins de que o mundo e o universo em que vivemos, é mais bonito e complexo do que qualquer fantasia, e quanto mais os compreendemos, mais belos eles se mostram.
Detalhes de uma grande vida
Para compor este texto, começamos com a ideia de uma teia, no sentido real - as aranhas de César, e metafórico ao buscar capturar o humano em César Ades. Então vamos compartilhar detalhes que, em geral, não aparecem em biografias oficiais. Acreditamos que isso seria mais coerente com a inteireza do nosso cientista. Ele afirmara que sempre é possível discorrer sobre outra face, entre as muitas que compõem uma personalidade. Continuemos rememorando essa fonte de empatia e conhecimento que foi César Ades, trazendo um pouco de “parte da história” (Ades, 2010, p. 66) desse grande amigo com quem partilhávamos afinidades e similaridades. Além de “ratos de biblioteca” (e “tartarugas aladas”), tínhamos em comum o mesmo paralelo geográfico nos distantes locais onde cada um de nós viveu suas inserções no mundo do conhecimento. Explicando, o jardim em Alexandria (Egito) onde Cesar se familiarizava com as aranhas, situa-se no Paralelo 30, o mesmo da cidade de Porto Alegre (RS), local em que vivemos nossa iniciação nas artes e na psiquê. Além disso, tínhamos a língua francesa em comum e a usávamos como se isso nos ligasse a não sei qual tempo. Em música, nosso preferido era Sebastian Bach e, coerente com a ideia de “eus”, César era também um admirador de Fernando Pessoa. A exemplo de outros grandes autores, como Leonardo da Vinci e Charles Darwin, César igualmente se utilizava de anotações5. E, tanto em Ades, como em Darwin “não havia uma ruptura entre o domínio da vida e o domínio da mente” (Ades, 2010, p. 87). Seu herói, assim dizia César, era Simon Bolívar. Coerente com isso eram seus sonhos de uma psicologia comprometida com seu tempo e espaço. Trabalhava, nos últimos anos de sua vida, para a formação de uma agenda estratégica para o futuro da psicologia. Dessa forma, em homenagem póstuma o Conselho Federal de Psicologia (CFP), em 2012, lançou o prêmio monográfico “Cesar Ades: Desafios para o futuro da Psicologia” com o objetivo de promover entre estudantes e profissionais da área, uma reflexão sobre o futuro da profissão. Voltando a Bolívar, este foi um conhecido general e estadista venezuelano, orador e escritor em sociologia e pedagogia, além de autor de tratados militares, econômicos e políticos, considerado uma das mais importantes personalidades públicas da América Latina ao promover a independência da Venezuela, Colômbia, Equador, Peru e Bolívia. César Ades e seu ilustre herói foram consciências avançadas para as épocas em que viveram. Surpreendia-nos a erudição e a politização (no sentido Gramsciano do termo) do Prof. C. Ades. Pois não apenas vivemos sob a égide da divisão e da competição, como observamos um aprofundamento da instrumentalização no sentido de reificação e coisificação da vida, o que dificulta leituras ditas não científicas e o ato de pensar que era tão caro ao nosso César.
Vem-nos ainda à mente detalhes como Sofia (Rossi & Ades, 2008), a cachorrinha que muito frequentou o laboratório do Professor no IP-USP; seu encanto pelas aranhas - a Argiope argentata foi objeto de sua tese doutoral (1973), e de livre docência (1991); e o amor pelas plantas - lutou por um broto de figueira num terreno da Glette e foi o responsável pelo plantio de uma árvore símbolo no campus universitário da USP. César era facilmente captado por uma criança, por uma árvore, por um animal, por um certo luar e os fotografava. Tinha excelente máquina fotográfica que carregava a tiracolo. Fotografava, não para armazenar fotos e sim, nas suas palavras, para registar um certo olhar. Como aquele para uma “florzinha simples que põe sua beleza toda para fora da tela... só quem para e olha é que sente o momento...” (Ades, 2012, comunicação por e-mail à autora). Relacionada a essa capacidade de viver o presente, tem-se outra curiosidade: o Professor apreciava o Yoga, ao qual também nos dedicamos. Passemos a detalhes familiares que eram muito caros para César. Em companhia de seu irmão Albert, em Santos, visitaram as ruínas do Engenho São Jorge dos Erasmos. “foi emocionante estar no que restou de um engenho de açúcar, construído por volta de 1530 por Martim Afonso...
Na capela, disse o guia que vinha José de Anchieta. Demais!” (Comunicação pessoal à autora em 26/01/2012, coerente com seu amor pelas memórias). Além de falar dos irmãos, suas duas filhas tinham um lugar privilegiado em seu coração: Lia Ades Gabbay, psicóloga clínica, por meio da qual César dizia realizar a clínica; e Tatiana Ades, escritora, nas sorridentes palavras de seu pai, uma artista e estudiosa da Psicanálise. Na época do seu passamento, a então ‘pessoinha’ Henrique (o Quiqui) - a criança da família, seu amado ‘sobrinho-neto’ expressou desejo de guardar “qualquer coisa do vô”, pois o que vinha de César era precioso, a ser lembrado para sempre. C. Ades era colecionador de canecas de muitos lugares e países. Ao voltarmos de um congresso em Praga, em 2012, trazíamos uma caneca para ele, toda em vidro, mesmo o macaquinho acoplado na sua borda e que se assemelhava ao de uma foto que César nos enviara. Entretanto essa lembrancinha não encontrou seu destinatário. Outra caneca foi para a também eternamente querida Aidyl Macedo de Queiroz Pérez Ramos (1925-1922, APP. Cad. nº 13 “Paula Souza”) que nela nos serviu muitos chás em alegres e coloquiais tardes em sua casa no bairro Perdizes (SP). Aidyl era a amorosa testemunha das histórias ora relatadas. Academia é assim, um lugar de muito amor, de transmissão do conhecimento, de memórias e eternidade...
Ao gosto de César, segue uma pequena história. Certo dia ao procurarmos uma caneta, ele, muito rápido, puxou do bolso a sua - uma caneta parker corde-rosa. Nossa exclamação de apreço, sentindo o maravilhoso deslizar da escrita, foi imediata. César respondeu-nos: “Fique com ela, é sua; só que tem o meu nome”. Consequência desse fato foi um poema que, espontaneamente, foi brotando em inglês com o título: The Rose Letter. No caso, Rose é uma licença poética (aceita pelos nossos críticos) para a palavra ‘correta’ que seria Pink no que tange a cor da caneta. Outra curiosidade, ao datarmos o poema, escrevemos como local, “Earth Planet”. Talvez isso fosse uma homenagem intuitiva ao cientista internacional que nos deixaria pouco depois, mas, desta vez, não sem antes receber essa lembrança. Escrito em inglês, o poema pode circular e recebeu anuência em diferentes espaços (EUA, Canadá, Inglaterra, França, África). Trata-se de uma “quase poesia”, alusão ao título do livro de poemas do querido Walter Trinca (APP. Cad. nº 40 “Walter Baroni)”. Aliás, foi César que nos encorajou a contatar Walter face ao nosso desejo de comentar essa obra, e, assim o fizemos. Nosso poema aproximativo teve a intenção de brincar com as palavras, ao mesmo tempo em que lembrava detalhes importantes para César, como o seu hipopótamo azul, um objeto que o capturou na seção egípcia do Museu do Louvre, em Paris. Sua réplica, muito apreciada e cuidadosamente trazida por ele, adornava sua sala no IEA.
Gratidão
Gratidão ao Prof. César Ades por nos indicar a importância de uma epistemologia que situa os assuntos psicológicos num contexto conceitual mais amplo, “que faça justiça à complexidade dos organismos” (Ades, 2010, p. 75). São fascinantes os questionamentos desse cientista, numa visão que consideramos sistêmica, entre pré-programação e flexibilidade; nature e nurture, instinto e experiência etc. “Maravilhosas” - palavra que César empregava frequentemente - são as perspectivas que ele abriu para o pensamento evolucionário e, diríamos, sistêmico. Sonhávamos com o diálogo interdisciplinar em Psicologia, notadamente entre ciências básicas e ciências aplicadas, entre Psicologia Experimental e Psicanálise. É justamente o fato da ciência psicológica não se constituir como um todo sistêmico que levanta, em especial por parte dos pesquisadores das áreas exatas, dúvidas quanto ao seu caráter científico. Pois bem, as inquietações de C. Ades são também aquelas da clínica contemporânea em psicanálise (Peçanha, 2015, pp. 38-48). Por exemplo, nos trabalhos de Christophe Dejours, clamando por uma teoria do corpo, e de Pierre Marty e seus seguidores na perspectiva do pensamento evolucionário em psicossomática psicanalítica. Gratidão ao Gestor que harmonizava as diferenças em suas equipes de trabalho em prol do objetivo maior de efetivo desenvolvimento científico e social. Lembremos que ele esperava dos IEA “avanços notáveis no conhecimento, mais pelo lado teórico e conceitual do que pelo lado da pesquisa empírica. É a inovação que interessa, em ideias e modelos de interpretação. No imaginário dos IEA está uma epistemologia de risco e livre exploração, a concepção de que fazer ciência não consiste apenas na aplicação de um paradigma, mas na sua extensão a campos diferentes (até mesmo fora de seu estrito domínio, caso em que entra a intenção interdisciplinar) ou no limite sua colocação em xeque. Uma (certa) desordem criativa, inclusive a que decorre do confronto de ideias divergentes, é bem-vinda”. (Ades, 2011, p. 161). Gratidão ao Professor, em nome das árvores e dos animais que não podem formular um agradecimento. Os últimos, por meio do trabalho de César Ades em prol de seus direitos, foram restituídos a seus lugares como seres únicos. Ele estudou cerca de 60 espécies e via o comportamento animal como “duas curiosidades em confronto” (Ades, 2010). Que belíssima e inspirada expressão para evidenciar que dois são os sujeitos en-volvidos no processo de conhecer. Isso contrariamente ao paradigma tradicional e pretensamente ‘neutro’ da ciência que separa e hierarquiza sujeito e objeto. Com grande alegria, C. Ades dedicava-se - em inúmeros eventos de divulgação científica, especialmente nas palestras sobre Darwin, sua “inspiração evolucionária e psicobiológica” (Ades, 2010) - a sensibilizar as pessoas para uma “ética centrada no animal” que não hierarquiza os seres vivos, mas que promove seu bem-estar e o enriquecimento ambiental. E, ainda, desvelava características únicas das espécies a serem respeitadas na grande teia da vida, como no belo trabalho “Olhar o olhar do outro: será que primatas compreendem estados psicológicos?” (Ades, 2007). Gratidão pelo amor que César Ades dedicou às crianças e pelos textos que para elas produziu. Nos últimos meses de sua vida, havia expressado seu desejo de ter mais tempo para escrever. Suas estórias infantis estão publicadas em Ciência Hoje das Crianças: O namoro dos bichos, Os bichos também brincam, O sono dos bichos, Bicho sabido. Nas suas palavras, “Viver para Contar (a vida), o título das memórias de Gabriel Garcia Marquez, serve para todos nós. Viver algo notável gera a necessidade de contar: Você sabe o que eu vi? Você sabe o que me aconteceu? E tudo o que nos acontece é notável porque nos concerne” (Mendrano, 2010/2012, s/p.). Guardemos o entusiasmo do nosso acadêmico, sua amizade, cooperação (contrariamente às formas competitivas de organização do trabalho), cortesia e exemplo como ser humano e profissional; honremos sua esperança no futuro interdisciplinar da Psicologia, transcendendo as dicotomias estreitas que dividem e separam pessoas, poderes e saberes. “Há de se levar em conta o aumento das interfaces entre as áreas tradicionais de ciência, um movimento de interpenetração que origina, inclusive, novos campos de pesquisa. Nunca a interdisciplinaridade ou transdisciplinaridade tem sido tão concretamente experimentada” (Ades, 2011, p. 160). Eterna gratidão a César Ades pelo imenso conhecimento e alegria. Esta parecia não resultar de condições externas, mas do que César era e fazia. Como cientista, ele partia não só dos conhecimentos disponíveis, mas de sua intuição para colocá-la em dúvida através da observação sistemática e dos experimentos. Destaque especial para sua sabedoria, pois esta é virtude que se forja ao longo do tempo, através da experiência imediata, direta, de insights que estão além do conhecimento e podem ser figurados pela palavra luz. Assim, C. Ades compreendia verdades ou valores e adaptava-se, harmoniosamente, a diferentes contextos, mesmo aqueles que lhe eram hostis. Entendemos que César Ades era uma consciência além de seu tempo e realizou uma “Ciência com Consciência” (Morin, 1982/2005), reatando com a reflexão filosófica, com a consciência política e ética. O Professor entendeu, pela ótica da ciência do futuro, que um princípio organizador - o pensamento complexo impõe-se às especialidades e para além delas. Acrescentamos “não haverá transformação sem revolução nas estruturas do pensamento” (Morin, 1982/2005, p. 11). Precisa tornar-se complexo, como assim era em C. Ades. Nessa complexidade assenta-se o paradigma sistêmico que, no nível atual do conhecimento, deve orientar as teorias, independentemente de seus campos de aplicação aos fenômenos. “Há uma liberdade especial para explorar, mesmo saindo do caminho (mas a exploração não será sempre uma saída do caminho?) e também a compreensão de que os campos do saber, das artes e da ética se juntam em sínteses possíveis, acima das classificações” (Ades, 2011, p. 172). Retomemos a pretensão inicial deste texto, expressa nas palavras de César de “dar chance à beleza”. Dessa forma, com versos de The Rose Pen, encerramos esta franciscana6 teia em torno de um grande homem, cientes de que o ser interior - instância psíquica que compõe a psicanálise compreensiva de Walter Trinca (2007) - não se deixa capturar por palavras; que a unidade última é de ordem estética e a perda dessa “unidade sagrada” constitui um dos grandes erros epistemológicos dos últimos séculos (Bateson, 1996).
A ROSE LETTER
What can I compose
with a rose pen?
Maybe a fine song
that only you admire.
Is the rose pen mine or is it yours?
Never mind!
This is my pledge, dearest one,
by the end we will be just as one light.
But in this very moment
may I sketch something with the rose pen?
Maybe a blue river-horse
and its worthy Egyptian thought.
What can I get
with my rose pen?
It doesn’t matter!
A rose pig flies
and the picture is mine.
In the fascinating byways of using a given pen
I could write you a rose letter to celebrate life.
I would like it to be an echo through the chambers
of your memory
or a simple reminder: “I am thinking about you.
You make me smile!”
Every way the magical pen writes
soulfully and “bodyfully”,
properly and improperly
it makes its own way.
It takes root in the hallow of my hand
and I cannot come near Heaven
than I kiss the words of this rose letter.
“Oh, what good will writing do?”
Like the rose pen I want
to put my finger out and draw you.
Doris Lieth Peçanha, The Earth Planet, Feb. 2012














