Introdução
Este trabalho é parte de uma pesquisa de mestrado, elaborada pelos autores, referente ao desenvolvimento dos vínculos afetivos na adoção e as compreensões sobre os aspectos emocionais e ambientais em face da maternidade adotiva. Nesta perspectiva, enfocaremos o modo como os cuidados maternos, afetam e representam o desenvolvimento emocional e a construção de vínculos mãe-bebê, a partir de um caso de adoção. Quando se fala em maternidade, sabe-se das inúmeras configurações e extensões que tal discussão pode ter, como: a amplitude social referente ao lugar da mulher na sociedade atual; as implicações emocionais para a mulher frente a condição de maternar; a importância da dupla mãe-bebê para o desenvolvimento emocional do bebê e suas implicações na construção e no encontro desta mulher com a maternidade; entre outros. Contudo, este artigo concentrar-se-á nesta última perspectiva de olhar a dupla mãe-bebê no desenvolvimento e na construção do vínculo afetivo com seu filho adotivo, em especial retratando o lugar do cuidado físico e emocional nesta relação. Ao encontrar com Winnicott e toda sua composição teórica, um dos elementos que vale ressaltar é o conceito de mãe suficientemente boa, ou seja, valendo-se da preocupação materna primária, esta mãe irá corresponder às onipotências do bebê e irá compreender suas demandas, não apenas as físicas como também as suas necessidades psíquicas. Esta junção possibilita à mãe a condição de maternagem. Assim, espera-se que esta mãe exerça o holding, o handling e a apresentação de objeto para esse bebê ao longo do seu processo de desenvolvimento, conceitos estes que irão amparar as discussões deste trabalho e por esta razão, será desenvolvido mais adiante (Winnicott, 1960/1983b). Percebe-se que ao longo do desenvolvimento de uma mãe, há um bebê convidando-a para acompanhá-lo em suas demandas e esta é a dança que se propõe alcançar, uma mãe embalando seu bebê a partir de suas necessidades. Para tanto, percebe-se o quanto esta experiência perpassa os núcleos psíquicos desta mãe e, consequentemente, sua história de vida. De Felice (2006) retrata que ser mãe carrega consigo representações maternas advindas do seu lugar como filha, as quais podem ser transmitidas em suas próximas relações de maternidade, esse aspecto auxilia a compreender os movimentos psíquicos desta mãe na construção da sua maternagem. Diante dessas considerações, propõe-se destacar a maternidade adotiva, ou seja, um olhar para esta mãe que exercerá os desejos em ter um bebê ou uma criança a partir de uma gestação que não será experimentada pelas mudanças no próprio corpo, passando por uma experiência psíquica de “sonhar o bebê”. Ao mesmo tempo, esse bebê terá experimentado também outro corpo e outras fontes de desejo. Considera-se que esta experiência emocional da dupla perpassa algumas experiências de perdas e abandonos, pois na adoção tem-se uma criança que foi impedida de manter os laços afetivos com a família biológica (seja porque foi entregue à adoção ou porque foi retirada do ambiente familiar por se apresentar como um ambiente não facilitador ao desenvolvimento desta criança); há também as famílias que buscam a adoção por diversos motivos e um desses diz respeito à infertilidade16, ou seja, por não terem condições de gerar filhos biológicos buscam a adoção a partir desta experiência. Assim, este trabalho tem por objetivo, valendo-se de um olhar winnicottiano, compreender o modo como os cuidados físicos compõem a construção de vínculos afetivos mãe-bebê, a partir de uma experiência de adoção.
Desenvolvimento emocional da dupla mãe-bebê
Inicialmente, cabe apresentar o modo como a relação mãe-bebê se compõe para o desenvolvimento emocional primitivo desta dupla. Ao nascer, o bebê vive um estado de não-integração, no qual corpo e psique não se vinculam, contudo não reconhece experiências externas a ele, ditas como não-Eu, o que denota viver em um estado de dependência absoluta em relação a esta mãe, a qual espera-se que se adapte às suas necessidades, formando uma amálgama mãe-bebê (Winnicott, 1990). Fulgêncio (2016) acrescenta a importância da sustentação ambiental nesses primeiros meses de vida do bebê, em que a mãe, por meio da preocupação materna primária, busca adaptar-se às necessidades do bebê, tanto instintuais como relacionais, as quais possibilitarão princípios de integração psicoemocionais baseados em uma noção do tempo, espaço e experiência de si mesmo. Esse processo de dependência absoluta se dá sem que o bebê perceba o cuidado materno, pois esta mãe está adaptada a ele, sob efeito de saúde nesta dupla. Dias (2014) acrescenta que, na dependência absoluta, essa adaptação da mãe às necessidades do bebê transforma esta mãe em seu primeiro objeto (mãe-objeto), a qual permite que o bebê crie esses objetos e ao mesmo tempo os encontre, possibilitando ao lactente a ilusão de onipotência, favorecendo o desenvolvimento da criatividade originária, inerente ao desenvolvimento humano e constituinte do si-mesmo unitário.Esta capacidade da mãe de se adaptar às necessidades do bebê é possível por meio da preocupação materna primária, citada anteriormente e que se refere, segundo Winnicott (1956/2000), a uma capacidade de identificação da mãe com o bebê. “De várias formas ela é encorajada por seu próprio corpo a ficar interessada em si própria. A mãe transfere algo de seu interesse em si própria para o bebê que está crescendo dentro dela” (Winnicott, 1960/1983c, p. 52). A partir dessa identificação com o bebê, pode-se desenvolver uma sensibilidade quanto às necessidades dele, o que possibilita um maior atendimento às suas demandas, esse processo se estende do oitavo mês de gestação até os primeiros meses após o parto e aos poucos perde sua importância. Conforme o bebê se desenvolve essa mãe passa a sair desse processo de “adoecimento” - apresentado por Winnicott (1956/2000) como uma doença saudável - proporcionando o alcance desse bebê à dependência relativa. Stellin, Monteiro, Albuquerque e Marques (2011) acrescentam que a função materna está relacionada não apenas a essa identificação da mãe com o bebê, mas também com a condição dela enxergá-lo como outro, ter a possibilidade de vivenciar a presença e a ausência, como também alienação e separação. Diante disso, compreende-se a importância desta mãe sair do processo de adaptação total ao bebê para que ele possa seguir seu desenvolvimento rumo à integração. Quando o bebê está nutrido afetivamente, a partir de suas necessidades terem sido atendidas, pode desenvolver a condição de se frustrar e, com isso, continuar seu processo de desenvolvimento saudável (Marson, 2008). Para alcançar esta condição, foi necessário que este bebê tivesse se encontrado com uma ‘mãe suficientemente boa’ que, segundo Winnicott (1988/2018), proporciona a experiência de holding, handling e apresentação de objetivo, ou seja, funções maternas para o desenvolvimento da maternagem que auxiliam na construção dos vínculos afetivos entre a mãe e o bebê. Neste sentido, o holding diz respeito à sustentação do bebê pela mãe no período em que o lactente ainda não se separou dela, ou seja, ainda em um processo de dependência absoluta no seu desenvolvimento psíquico. A partir da vivência da preocupação materna primária, a mãe alcança a experiência de holding que a permite compreender e perceber as necessidades fisiológicas do bebê, a fim de atendê-las, protegendo-o de um estado de maior desintegração. Neste estado, a mãe pode distinguir a temperatura do corpo do bebê, a escuta dele, uma percepção visual mais aguçada, além de uma sensibilidade à queda (em razão da experiência gravitacional), amparando-o nos movimentos, cuidados e nas percepções ambientais, com o intuito de possibilitar seu desenvolvimento psíquico e físico, pois o lactente não vê a existência de outra coisa, que não seja ele mesmo; desta forma, esta mãe permite ao bebê maior estabilidade e previsibilidade, promovendo a confiabilidade no ambiente. Quando o bebê não experimenta um ambiente suficientemente bom, ou seja, não há cuidado materno satisfatório, ele vive uma experiência de aniquilamento, pois não houve fortalecimento do ego suficiente para amparar as falhas ambientais e em situações extremas, o lactente precisa viver experiências intensas, como uma grande irritabilidade, para se sentir vivo; porém segue, desta forma, um caminho contrário à continuidade de ser e à integração do ego (Dias, 2011; Winnicott, 1960/1983c). Granato (2006) corrobora dizendo que a partir de uma experiência de holding, a mãe ampara o bebê psiquicamente, favorecendo o caminho da integração física e psíquica, sendo sustentado e protegido das intrusões do mundo externo. Esse colo materno oferece um contato íntimo da dupla mãe-bebê, no qual o bebê encontra ritmos cheiros e sensações próprias que irão adaptar, formar ou invadir o processo de constituição do self do bebê. Além disso, há também a experiência de handling que se refere ao modo como essa mãe desenvolverá os cuidados físicos deste bebê, segurando-o, dando banho, tocando-o, amamentando-o, trocando as fraldas, entre tantos outros manejos táteis. Esses encontros mãe-bebê e essas experiências permitem as integrações psicossomáticas, pois o processo psíquico se desenvolve com base nas imaginações dos contatos corporais. “A manipulação do corpo do bebê, que se dá através do toque que não interrompe o ser em continuidade, traça contornos do self e faz do corpo a morada do eu, propiciando assim a experiência de personalização” (Granato, 2006, p. 35). Neste sentido, para complementar o processo de integração do self do bebê, a apresentação de objetos se torna um elemento importante de cuidado com o bebê, visto que se dá pelo filtro que a mãe faz ao apresentar o mundo externo a ele, para que possa recriar esse mundo a partir de suas necessidades e habilidades, considerando a tolerância do bebê ao que é externo a ele. Isso tudo possibilita o relacionamento interpessoal e o processo de integração do self. Assim, ao vivenciar o processo de dependência absoluta, o bebê conquistou algumas integrações emocionais e cognitivas que o auxiliam a suportar as falhas do ambiente e as ausências maternas, iniciando a compreensão de elementos não-EU, porém ainda sem reconhecimento do mundo externo como “outro”. Desta forma, o ambiente passa a ser percebido e inicia-se o segundo estágio do desenvolvimento denominado por Winnicott (1963/1983a) de dependência relativa. Neste período, o bebê se depara com as necessidades de cuidado da mãe e gradativamente relaciona tais cuidados com seus impulsos pessoais, caminhando para a desilusão necessária ao desenvolvimento emocional, a qual se dá por meio das falhas maternas (em quantidade adequada) favorecendo o uso da mente a partir de uma primeira experiência de separação. Por fim, almeja-se alcançar a independência do indivíduo por meio do desenvolvimento de recursos para os cuidados reais via a introjeção dos cuidados recebidos a partir da confiança no ambiente, o que possibilita a autonomia de ‘SER’. Esta independência, Winnicott (1963/1983a) apresenta como independência relativa, pois oscila por episódios de dependência, considerando o dinamismo do desenvolvimento emocional. Diante do exposto acima, cabe indagar sobre esses processos de desenvolvimento psíquico nos casos de adoção e como a relação de cuidado pode favorecer o desenvolvimento dos vínculos. Assim, apresentam-se a seguir algumas considerações sobre esses elementos diante de uma experiência de adoção.
Relações de cuidados e desenvolvimento emocional mãe-bebê nas experiências de adoção
Quando se fala de adoção e sobre maternidade adotiva, vale destacar alguns apontamentos de Ducatti (2004) sobre o desejo de gestar e o desejo de maternar, pois o gestar passa por um processo fisiológico possível a todas as mulheres (salvo demandas específicas de cada corpo que poderia impossibilitar de algum modo a gravidez), entretanto gestar e parir não garantem a condição de maternar. Para isso, é necessário o desejo de ter um(a) filho(a), compreender as representações maternas dessa mulher e considerar suas vivências como filha, para então alcançar os processos psíquicos que auxiliarão no modo dessa mãe vivenciar seu processo de maternagem (De Felice, 2006). Desta forma, o encontro com a maternagem adotiva passa pelo “sonhar” o bebê a partir de uma gestação psíquica sem viver a experiência corporal da gestação, ao mesmo tempo que esse bebê terá experimentado o contato com outro corpo e outras fontes de desejo. Esta experiência de maternagem, então, se relaciona ao modo da mãe adotiva viver a preocupação materna primária, experimentada pelo tempo dedicado a esperar e sonhar esse bebê até a sua chegada, sem ter vivido a gestação biológica (Gomes, 2006; Winnicott, 1956/2000). Além disso, o tempo de espera, muitas vezes dirigido pela fila de adoção, pode favorecer ou dificultar esse processo, pois se for longo demais pode atrapalhar na sensibilidade da mãe no encontro com o bebê desejado. “As pessoas vão se preparando para a ideia da adoção, e a criança que querem é aquela que chega no momento em que atingiram a fase certa. É o equivalente a estar grávida - um estado de sensibilidade” (Winnicott, 1955/1997a, p. 137).
Na concepção biológica, os pais também idealizam a criança que irá atender às suas expectativas. Na concepção adotiva, os aspirantes à adoção, enquanto esperam sua criança, também fazem fantasias e expectativas sobre o filho que desejam. Os vínculos entre pais e a criança são construídos tanto na maternidade biológica quanto na adotiva. Portanto, eles são fruto da convivência familiar e não somente da gestação e nascimento. (Ladvocat, 2002, p. 30).
Considerando a teoria do amadurecimento emocional apresentada no item anterior, propõe-se, agora, apresentar algumas considerações no tocante à relação vincular mãe-bebê dentro de uma experiência de adoção. Winnicott (1955/1997a) discorre sobre o quanto as relações de cuidado são favorecedoras do desenvolvimento vincular entre mãe-bebê e esse cuidado perpassa pela alimentação. Nos casos de adoção, o amamentar, processo importante na construção vincular, será realizado pelo leite oferecido a partir de uma fonte externa ao seio da mãe (muitas vezes por intermédio da mamadeira), assim, o modo como esta mãe se disponibiliza para a amamentação promoverá o desenvolvimento singular desta dupla. Essa disponibilidade para o cuidado da mãe adotiva, diz respeito ao holding e handling necessários para a construção vincular da relação mãe-bebê. Essas experiências de cuidado, como a amamentação e o desmame, são experiências importantes no desenvolvimento da relação adotiva, além disso, é necessário considerar a história pregressa da criança, pois poderão ter referências de cuidado já conhecida previamente pelo bebê, o que pode trazer influências na composição do vínculo com a mãe adotiva. Winnicott (1988/2018) exemplifica tal situação, contando sobre um bebê que havia sido adotado com seis semanas, mas que tinha recebido cuidados de maneira pouco afetuosa e rígida, ou seja, a mãe fez contato com a experiência prévia do bebê e o modelo de referência na situação de alimentação gerava certa descontinuidade do modo como havia conhecido, desta forma, a mãe adotiva precisava colocar a bebê no chão ou em uma mesa dura, sem contato físico e segurar a mamadeira, para estabelecer algum tipo de continuidade. Juntamente a esta experiência, pode-se trazer a necessidade de um ambiente estável para promover o desmame, pois favorecerá o desenvolvimento do bebê e de sua segurança em relação ao meio, assim se a mãe estiver atenta ao momento desta separação, poderá permitir uma experiência de desilusão necessária para o desenvolvimento do bebê. Este bebê vai notando a realidade externa e os objetos vão se tornando menos dependentes dele, iniciando com isso o estado de “dependência relativa” (Gomes, 2006). Winnicott (1953/1997b) assevera que há sempre um registro dos pais biológicos e dos pais adotivos para a criança adotiva, porém mesmo os pais adotivos não tendo conhecimento sobre o desenvolvimento primitivo do bebê, estes pais poderão utilizar suas sensibilidades, com base em uma vivência de holding, para experimentar contatos mais profundos com a criança adotada, conquistando maior intimidade e garantindo maior segurança, acolhimento e pertencimento da criança nesta família. Gomes (2006) corrobora alegando que, na dependência relativa, a criança vai compreendendo que perdeu uma mãe e possui uma outra, vai experimentando diversos sentimentos de raiva, ódio, tristeza em relação a seus pais e aos poucos vai reunindo experiências de uma mãe boa e uma mãe má, que então só poderá amá-la à medida que também puder odiá-la. Esse encontro contempla o alcance do estágio de “concernimento”. Tal estágio caminha para a formação do eu unitário, o qual se desenvolve para integrar seus impulsos, a fim de alcançar a integração do eu. Isso leva o bebê a se sentir concernido pela impulsividade, promovendo uma capacidade de preocupar-se com a intensidade de extensão dos seus impulsos, experimentando sua condição de agir e agredir o outro, contudo, passa a conhecer o sentimento de culpa e de responsabilidade frente a sua destrutividade que é intrínseca à impulsividade instintual (Dias, 2014). Chegando ao alcance da integração, ou seja, rumo à independência relativa, a criança vivencia o complexo de Édipo, pois passa a processar seus impulsos instintuais e se responsabilizar por tais experiências, como anunciado pela experiência de concernimento. Assim, a criança ao vivenciar este processo, promove um estado de saúde psíquica suficiente para experimentar as dificuldades advindas desta vida instintual, sendo capaz de estabelecer relações triangulares e interpessoais (Dias, 2014; Gomes, 2006). “A criança que foi adotada não terá problemas em relação à sua vida instintual se a mãe adotiva adaptou-se constante e permanentemente aos diferentes momentos de seu desenvolvimento” (Gomes, 2006, p. 56). Quando propõe-se a refletir sobre a relação filiar, Rotenberg (2018) apresenta a importância de questionar os desejos inconscientes ligados à adoção, pois não é possível instituir ao adulto a condição de progenitor e à criança a condição de filho, uma vez que a autora entende a adoção como um encontro afetivo e íntimo que acontece quando são compartilhadas histórias de contextos diferentes, esperando que o adulto considere o filho como outro e não apenas como uma extensão de seus desejos, promovendo apego seguro capaz de desenvolver afeto de captação das suas necessidades. Neste sentido, quando se fala em adoção, é importante que o desejo de ser mãe esteja à frente no seu mundo interno, para que possa haver espaços psíquicos no real acolhimento desta criança e, com isso, haja o desenvolvimento da maternagem (Queiroz, 2018). Tal movimento se torna fundante para a condição de maternagem adotiva, pois muitas mulheres chegam à adoção após terem vivido tentativas frustradas de engravidar; assim, a infertilidade se torna presente em muitas famílias que optam pela adoção. Diante disso, se o desejo de ser mãe estiver à frente, terá experimentado a renúncia da gravidez e a castração do processo de gestação biológica. Ressalta-se, aqui, a necessidade de se compreender essas implicações dos processos inconscientes e dos recursos psíquicos que estas mães possuem para o desenvolvimento da maternagem e, em especial, para a adoção. Como observado, existem inúmeros elementos e fenômenos que compõem esta condição, não sendo possível considerar o “ser mãe” como algo instintivo na formação da mulher, como algo inato e que está ligado exclusivamente e naturalmente ao feminino.
Apresentação do caso17 e discussão
Sônia (50 anos), casada com Sandro (53 anos), adotou duas meninas gêmeas univitelinas aos 9 meses de idade (no momento da pesquisa estavam há 2 anos e 3 meses com as filhas), após permanecerem na fila de adoção por 4 anos. Logo no início do contato da pesquisadora, ela relata precisar organizar o horário do encontro, visto que possui horários estabelecidos para os cuidados com as filhas. Após a realização do procedimento do D-E com Tema e na metade/final da entrevista, Sônia desejou apresentar as crianças que estavam com 3 anos e 3 meses de idade. Neste momento, relatou que já havia passado da hora de acordarem, assim, ficou entendido se tratar de um convite para encerrar a entrevista, pois Sônia se implicou nos cuidados alimentares, de roupas, etc. com as meninas. Neste momento, a mãe relatou que uma delas apresentava dificuldade acentuada com a fala, não se comunicando verbalmente, apenas resmungos. Para suprir as necessidades desta filha, a mãe sugestionava alguns desejos alimentares da criança, na tentativa de identificá-los. É importante destacar que a adoção, neste caso, partiu de tentativas frustradas de engravidar pelas “formas naturais”, além disso realizaram tratamento até chegarem ao diagnóstico de atrofia das trompas, fizeram então duas tentativas de fertilização e em razão do alto custo e dores, encerraram as tentativas de terem filhos biológicos. Com o passar do tempo e preocupados com a velhice, pensaram pelo processo de adoção até formalizarem a adoção de suas filhas. No período de preparação e para conhecer melhor o campo da adoção, Sônia, por intermédio de um movimento religioso, realizou um trabalho voluntário em um bairro carente de sua cidade que fazia o processo de tentativa de recuperação dos pais que estavam correndo o risco de perderem seus filhos por “falta” de cuidado e, para que as crianças não precisassem ser retiradas do ambiente familiar, esses pais passavam por períodos de orientações e práticas específicas. Sônia conta sobre a importância de compreender a carga que essas crianças carregam, pois algumas delas já vivenciaram experiências horríveis. Quanto à chegada das crianças em sua família, houve uma certa apreensão, pois precisara organizar toda documentação e a casa para recebê-las “Foi paixão à primeira vista [...] é uma experiência assim, única! É como se você estivesse... nascido de você mesmo, de ter alguém assim pra você cuidar”. Com a chegada das filhas, Sônia conta que tudo “gira” em torno delas, que neste interim a mãe não pensa mais nela mesma, e para ela ainda houve o sentimento de ter salvado duas vidas além de suprir o desejo de ter uma vida de mãe, também salienta que inclui as filhas em todos os seus afazeres, por desejar que elas se sintam parte da família. Sônia decidiu não colocar as filhas na escola, pois ela mesma iria se incumbir disso, “não tenho coragem, a criança não sabe nem falar, e eu vou dar pra outra pessoa cuidar né? Eu vou fazer um esforço e eu vou ficar junto, e é isso que eu estou fazendo”.
Sônia acrescenta que não houve uma adaptação imediata com as filhas, pois precisaram conhecê-las e para isso criou uma rotina para a segurança delas e para si mesma, tendo horário para todas as atividades, “tem horário pra levantar, horário pra dormir, horário pra comer, pra tomar banho, tomar mamadeira, brincar”, com isso as crianças foram se adaptando e reconhecendo o casal como pais.
Para compor o estudo de caso, foi realizado o Desenho-Estória com Tema (D-E com Tema) a partir de duas consignas (conforme expresso adiante) que serão apresentadas a seguir nas duas produções gráficas e suas respectivas estórias; e em seguida será promovida a discussão do caso.
No primeiro desenho, ao contar a estória, Sônia diz que as crianças em geral possuem uma necessidade de colo e que suas filhas também requisitam-na, assim enfatiza a importância do cuidado corpo a corpo entre mãe e filha, o que possibilita o sentimento de carinho, segurança, equilíbrio e disciplina, além de permitir maior confiabilidade no ambiente, mesmo diante dos limites e das regras impostas, pois a criança sentirá o calor do corpo da mãe e perceberá a presença viva de uma pessoa a partir da experiência de contato, de sangue. Relata ter desenhado o bebê sendo amado, dormindo e sorrindo e uma mãe sonolenta, a qual acaba entrando no mesmo esquema. Refere que esta mãe está se sentindo recompensada, pois a criança está respondendo há tudo que esta mãe está lhe propondo. O título dado pela mãe a esta estória foi “Corpo a corpo”. Já na segunda estória, na qual foi direcionada a pergunta para sua própria relação com as bebês que adotou, Sônia quiz representar-se dando comida para sua filha; para tanto desenha a criança com a boca aberta e ela com a colher dando comida para sua filha, ela relata que gostaria de ter desenhado a filha com os olhos abertos, mas não sabia como fazê-lo. Ao contar a história, refere ser sobre a hora de cuidar, “cuidar mesmo, trocar, dar banho, dar comida, e até brincar, é uma forma de cuidar e é uma coisa que eu gosto de fazer, que é cuidar!”. Ela reforça em vários momentos a importância da alimentação como expressão de cuidado, comer é sinal de estar bem, pois compara ao momento em que as filhas estão doentes e não comem, “porque precisa comer, precisa estar bem e a fome é um sinal que o organismo está bem, então eu acho assim, a parte de alimentação é uma parte que mostra que você está cuidando delas”. Ela coloca como título: “Cuidar é saudável”. Diante deste contexto, serão feitas algumas discussões a respeito dos elementos acima apresentados, com o intuito de enfatizar o papel materno e suas representações de cuidado. É notório que Sônia apresenta desejo pela maternidade e precisou de 2 anos para a elaboração do luto referente à infertilidade, experienciando trabalho voluntário para acompanhar o modo como as crianças viviam quando retiradas de seu ambiente familiar, precisando ao mesmo tempo lidar com as fantasias inconscientes para viver a experiência de adoção.
Em muitos casos, para que um casal se abra para outras possibilidades de se ter um filho, é necessário o processamento do luto da criança que não pode ser gerada no próprio ventre, e que se pense que, se a via biológica não foi possível, ainda há outras maneiras de ter esse desejo realizado. (Scorsolini-Comin, Amato, & Santos, 2006, p. 42).
O processo de espera para a adoção possibilitou que Sônia vivenciasse uma história gestacional própria, o que a permitiu se aproximar da preocupação materna primária valendo-se das identificações com as necessidades primitivas dos seus bebês, disponibilizando-se para acompanhar e acolher as demandas iniciais das filhas, tentando suprir e permitir segurança e desenvolvimento de confiança no novo ambiente. No entanto, ao mesmo tempo, percebe-se núcleos narcísicos que se sobrepõem em alguns momentos, impossibilitando a vivência integral do desenvolvimento emocional da dupla mãe-bebê, considerando o fato de que aos poucos o estado de fusão precisaria dar espaço para os processos de separação e as falhas maternas, o que permitiria o alcance do bebê à dependência relativa e com isso o reconhecimento da necessidade de cuidados da mãe, favorecendo a individualidade dessas crianças, as quais, neste contexto apresentado, vivem integralmente com a mãe, por meio de uma “dedicação exclusiva” a elas, não permitindo a entrada das filhas na escola ou em outros grupos. Essas vivências convidam a indagar sobre a dificuldade de fala de uma das filhas e a dificuldade de autorização da mãe para o desenvolvimento e crescimento delas, o que impulsionaria novas construções às condições de maternagem de Sônia e o enfretamento da realidade da adoção nos contextos externos ao núcleo familiar. Detalhando e desenvolvendo esses elementos, nota-se no primeiro D-E que Sônia representa um ideal de mãe, construído no imaginário desta mulher, apresentando uma espécie de prazer absoluto nesta relação, dificultando as desconstruções e separações deste lugar materno que fora idealizado, para que possa enxergar o bebê como um “outro”, de forma a compreender as suas reais necessidades. Sônia fantasia a relação mãe-bebê a partir de uma fusão, na qual ambas se misturam e embalam no mesmo sono, “eu até desenhei ela dormindo sorrindo e, a mãe eu acho que está com tanto sono também que acaba entrando no mesmo esquema”. Este primeiro D-E também convida a pensar sobre as fantasias de Sônia ligadas à gestação biológica, quando apresenta na estória e no título como “Corpo a corpo” (período gestacional na qual mãe e filha são uma mesma unidade), além de ressaltar o vínculo consanguíneo, como nomeado na seguinte citação: “a criança sentirá o calor do corpo da mãe e perceberá a presença viva de uma pessoa a partir da experiencia de contato, de sangue”. Neste mesmo sentido, pode-se compreender que estas podem ser as representações psíquicas de maternagem de Sônia, as fantasias e os ideais desta relação. Aqui, cabe uma diferenciação entre maternidade e maternagem apresentada por Gradvohl, Osis e Makuch (2014), em que a maternidade pode ser compreendida pelo laço de sangue que une uma mãe a um bebê, ao passo que a maternagem retrata a relação afetiva, o vínculo que se compõe entre mãe e filho, suas relações com o cuidado e o acolhimento dado a este(a) filho(a).
Segundo Dias (2003), nenhuma criança é capaz de se tornar uma pessoa real se não estiver sob os cuidados de um ambiente que lhe ofereça sustentação e facilite os processos de amadurecimento emocional. Portanto, “o que existe é o indivíduo em relação ao mundo externo; primeiramente, há a relação de um par corporal e depois entre unidades corporais”. (Mishima, & Barbieri, 2009, p. 250 como citado em Barbosa, Machado, Souza, & Scorsolini-Comin, 2010, p. 33).
Considerando o segundo D-E, observou-se que esta mãe está voltada para si mesma e compreendendo as necessidades de sua filha a partir das suas, o que convida a pensar sobre uma mãe que está embebida de seu narcisismo e embalada em seus próprios sonhos e desejos, ou seja, voltada para a idealização do lugar materno, como referenciado no seu primeiro desenho, esse elemento é também representado pela figura da mãe nos dois desenhos, pois ambas possuem a mesma expressão. Ao passo que se pode considerar, no segundo desenho, uma criança voraz, faminta, assustada, o que denota como representante das fantasias de Sônia referente às necessidades das filhas, sendo assim, destaca na estória a importância de nutri-las e o quanto esses aspectos estão relacionados à saúde. Isso pode ser visto pela própria fala de Sônia:
[...] nossa e eu ficava desesperada, porque precisa comer, precisa estar bem... e a fome é um sinal que o organismo está bem, então eu acho assim, a parte de alimentação é uma parte que mostra que você está cuidando delas e eu faço elas não comerem besteira, de ter uma saúde, ter uma alimentação saudável, isso é um cuidado que eu estou vendo que muitas mães até hoje não tem.
Nesta esfera do cuidado, Sônia atribui à alimentação e às rotinas diárias uma experiência de vida, de garantia de cuidados efetivos, de saúde e ao mesmo tempo de atendimento às necessidades de suas filhas, ou seja, como uma forma de reconhecer sua potência materna. Isso se estende até na fusão mãe-bebê que Sônia faz com as crianças, negando o crescimento delas e a necessidade de se separar, pois o fato de sugestionar sobre o desejo alimentar das filhas e seu interesse em cuidar do processo escolar das meninas apresenta tais aspectos, ao mesmo tempo que pode tranquilizá-la sobre o ideal de boa mãe. Vale aqui destacar que isso permite olhar a necessidade de expandir para além da alimentação, ou seja, para aproximações afetivas e de acolhimento emocional, lidando com as faltas e consequentemente as frustrações. O olhar voltado para a alimentação nutritiva pode distanciá-la de atender as necessidades de um alimento psíquico, como os de ordem mais subjetiva, que poderão amparar este bebê que é fruto de um abandono e/ou separação biológica. Neste sentido, também é importante considerar que separação, para Sônia, pode estar ligado a abandono, o que pode dificultar a vivência ligada ao crescimento, pois reproduziria o lugar da mãe biológica e reeditaria a experiência de deixar as filhas. Diante desta demanda idealizada do lugar materno, nota-se que Sônia desenha apenas uma criança em ambos os desenhos e isso leva a pensar na impossibilidade de reconhecer a gemelaridade de suas filhas, pois exigiria desta mãe uma entrega duplicada de cuidado e, desta forma, a mantém segura de suas reais condições a partir da negação de demanda de duas filhas. Quando se pensa no cuidado como expressão de afeto, nota-se que os cuidados físicos, em especial de alimentação aparecem muitas vezes como sinônimos de maternagem. Neste ínterim, cabe destacar os aspectos apresentados no início deste trabalho sobre holding e handling, ou seja, parte necessária para compor o desenvolvimento emocional e afetivo, além de configurar o lugar de uma mãe suficientemente boa. Assim, nota-se que parte dos cuidados perpassam pelo lugar do cuidado concreto de alimentar, porém esse cuidado se amplia e se estende à medida que são supridas essas necessidades, promovendo amparo e sustentação ambiental, pois é também pela via corporal que vai se compondo espaço para a construção psíquica e de um eu integrado.
A ênfase no holding físico do lactante está relacionada a uma forma de amar. Esta forma é a única maneira em que uma mãe é capaz de demonstrar seu amor ao bebê. Há mães que têm condições de sustentar, de conter o bebê, outras não. Essas que não conseguem contê-los vão desencadear no lactante uma sensação de insegurança (ABRAM, 2000). Não havendo um holding suficientemente bom, os estágios de dependência (dependência absoluta; dependência relativa; rumo à dependência do lactante) não poderão ser alcançados, e caso o sejam, não se manterão. Os resultados ocasionados de cada falha materna consequentemente vão interromper a continuidade do ser, resultando em um enfraquecimento do ego. Estas interrupções poderão vir a provocar aniquilamento, ligadas ao sofrimento de caráter e intensidade psicótica (Winnicott, 1983; 2000). (Barbosa et al., 2010, p. 32).
O campo da nutrição física contempla os aspectos de holding e handling, descritos anteriormente, porém precisa ser carregado de investimento afetivo. Diante disso, pode-se considerar o cuidado como parte de uma esfera física e psíquica, na qual o nutriente afetivo se destaca como forma de percepção das reais necessidades da criança. Desta forma, há uma significativa distinção entre cuidado no sentido de manter a criança limpa, alimentada e cumprindo rotinas específicas, e cuidado relacionado a uma compreensão dos elementos e das necessidades afetivas que são atrelados ao cuidado físico, sendo uma junção de todos esses elementos para permitir uma integração da mente com o corpo, o dito psicossoma.Há que se considerar, por fim, uma ressalva sobre a relação da mãe juntamente com filhas gêmeas, pois, segundo Gueller e Morgenstern (2018, p. 34),
[...] o gêmeo ocuparia para o outro o lugar de eu ideal, substituindo a mãe ideal do triângulo imaginário. A dupla parece bastar-se e pouco se afetar pela presença ou pela ausência da mãe, já que o outro do par gemelar está lá sempre presente.
Neste sentido, ficam endereçadas à função fraterna as possíveis falhas maternas sentidas por eles. A entrada do terceiro nesta relação enfrenta certa resistência. Além disso, Bishop e Mogford (2002) e Luria e Yudovich (1985 como citado em Gueller & Morgenstern, 2018) ressaltam que pode haver certo atraso no desenvolvimento em relação à linguagem, além disso, perceberam a criação de uma linguagem própria entre os gêmeos, a qual nem mesmo a mãe consegue compreender e isso implica também a socialização destas crianças. Gueller e Morgenstern (2018) acrescentam, ainda, que em virtude deste desenvolvimento da linguagem, é necessário um esforço a mais da mãe para entrar no sistema fechado que eles criaram e que pode transformar no que elas chamam de “autismo a dois”.
Diante disso, considera-se que Sônia pode estar de fora da relação desta dupla, tendo que quebrar esse esquema fechado, disparado ainda por uma experiência de abandono que pode ter “fertilizado” ainda mais a parceria das meninas, dificultando a entrada de Sônia para oferecer maiores/outros cuidados e alcançar maior intimidade psíquica com cada uma delas. Assim, os processos de separação podem se intensificar por angústias demasiadas e sensações de perda, pois não sente o pertencimento na vida das filhas. Desta forma, nota-se que esse lugar pode colocar essa mãe em maior contato com ela mesma, negando a dificuldade de entrada na relação com as filhas e ao mesmo tempo negando a existência de suas filhas, visto a unicidade em que elas se constituíram.
Citando Winnicott (1964/2015, p. 156) para concluir:
A mãe de gêmeos tem uma tarefa extra, acima de todas as outras, que é dar-se toda a dois bebês ao mesmo tempo. Até certo ponto, ela deve fracassar, e a mãe de gêmeos deve se contentar em fazer o melhor possível, esperando que as crianças encontrem finalmente algumas vantagens que compensem essa desvantagem inata ao estado geminal.
Considerações finais
O desenvolvimento da maternagem adotiva e o amadurecimento emocional do bebê caminham juntos. Desta forma, ao pensar o lugar da mãe suficientemente boa, considera-se também uma disponibilidade psíquica desta mãe em desejar ser mãe, pois precisará flutuar por diversos processos psíquicos adaptando-se às necessidades do bebê. O modo como inicia essa adaptação se dá pelos processos de atendimento físico e psíquico, ou seja, garantindo vivências de holding e handling ao bebê, a qual passa pela via dos cuidados físicos, para consequentemente promover sustentação ambiental, o que promoverá confiança e segurança ao bebê neste ambiente. Contudo, Sônia, por meio da aproximação da preocupação materna primária, adapta-se às necessidades das filhas oferecendo cuidados físicos que garantiriam proteção e amparo. No entanto, percebe-se uma dificuldade de Sônia no processo de separação das crianças em razão de suas fantasias de um ideal materno, ou seja, o ideal de que uma boa mãe estaria disponível totalmente às necessidades das filhas em uma entrega absoluta para elas, mas o que se sabe é que além deste período de dependência absoluta, a mãe precisará oferecer outras formas de cuidados para seu filho, pois a função materna se transforma ao longo do crescimento do bebê, sendo necessário que esta mãe ocupe novos lugares ainda desconhecidos por ela. O ser mãe é construído juntamente com o desenvolvimento de seus filhos, desbravando tais lugares, neste sentido, Sônia precisará deixar de ser absolutamente necessária, o que não significa ser menos importante nesta relação, o fato é que as crianças se nutriram e se nutrem deste alimento quando necessário, mas precisarão vivenciar novas experiências emocionais a partir de então. É preciso considerar, também, que o processo de unicidade que as duas filhas podem ter desenvolvido diante da gemelaridade a faz sentir-se de fora desta relação, favorecendo suas fantasias de impotência materna, o que a leva a alimentar sentimentos de uma mãe insuficientemente boa. Isso pode influenciar no medo da mãe de frustrá-las, a fim de promover o processo separação e consequentemente possibilitando a integração e individuação delas, o que favoreceria a entrada de outros elementos (objetos externos), incluindo o pai, na promoção do amadurecimento emocional das filhas. Entretanto, para frustrá-las, essa mãe precisaria estar segura de suas funções maternas e de uma possível desconstrução do ideal de mãe criado por ela. Como observado, os cuidados físicos garantem relações de afeto, porém, se não houver outras formas de cuidados para sustentar o desenvolvimento emocional, pode dificultar os processos de amadurecimento na relação mãe-filhas. Esses outros cuidados podem ser vivenciados de diversas formas, como: o estímulo ao amadurecimento; o favorecimento e a autorização do desejo das filhas e da individualidade delas; reconhecer as diferenças de necessidades entre as duas meninas; possibilitar e sustentar as “agressões” das filhas ao ambiente quando elas apresentam e reivindicam interesses próprios e, até mesmo, a entrada do pai e de outras pessoas nestas duplas. Como se tem visto, essa relação de Sônia com as filhas tem convocado a mãe para adquirir novas habilidades maternas e novos encontros com o ambiente, os quais são também necessários para possibilitar a continuidade de ser, o alcance do estado de integração e a independência relativa de suas filhas. Para isso, destaca-se a importância desta mãe se sentir segura e com disponibilidade para vivenciar experiências de lutos, o que implica separar-se de suas filhas e desbravar novos encontros com elas. É importante ressaltar que há, na adoção, registros de abandono nos bebês/crianças, e tais registros convocam a mãe, com sua função materna, a sustentar essas vivências de modo vitalizado e seguro durante um determinado período de tempo. Somando a isso, esses pais descobrirão, juntamente com seus filhos, diversas potencialidades do desenvolvimento emocional destas relações afetivas. Portanto, olhar para a maternagem adotiva, suas representações psíquicas e o modo como as relações de cuidado físico e psíquico se aproximam e se complementam são partes importantes para serem consideradas nos estudos sobre vínculos parentais, além de favorecer a construção e o desenvolvimento dos cursos preparatórios para adoção. Sendo assim, faz-se necessário conhecer e explorar ainda mais, por meio de novas pesquisas na área, sobre os desdobramentos psíquicos do processo de adoção e das experiências emocionais, tanto maternas como filiares neste contexto.
















