Sampa (1978)
Caetano Veloso
Alguma coisa acontece no meu coração
Que só quando cruza a Ipiranga e a avenida São João
É que quando eu cheguei por aqui eu nada entendi
Da dura poesia concreta de tuas esquinas
Da deselegância discreta de tuas meninas
Ainda não havia para mim Rita Lee
A tua mais completa tradução
Alguma coisa acontece no meu coração
Que só quando cruza a Ipiranga e a avenida São João
Quando eu te encarei frente a frente não vi o meu rosto
Chamei de mau gosto o que vi, de mau gosto, mau gosto
É que Narciso acha feio o que não é espelho
E à mente apavora o que ainda não é mesmo velho
Nada do que não era antes quando não somos mutantes
E foste um difícil começo
Afasto o que não conheço
E quem vende outro sonho feliz de cidade
Aprende depressa a chamar-te de realidade
Porque és o avesso do avesso do avesso do avesso
Introdução
Diversos são os motivos que levam um sujeito a decidir mudar de país: os declarados e os inconscientes, os conhecidos e aqueles que são descobertos ao longo da jornada de expatriação. Situação radical, de um corpo que se desloca e carrega consigo a sua bagagem, na busca de uma esperança, do estrangeiro, do diferente, do familiar e do encontro. Pode-se achar o que se procura, reencontrar o que se perdeu ou se deparar com o que jamais virá a reencontrar. Na música de Caetano Veloso, o migrante experimenta múltiplas emoções ao chegar em “Sampa”. Similar à experiência de expatriação, e a partir das referências de cada sujeito, a descoberta do “novo’’ que se dá no encontro com o estranho e o diferente faz eco a conteúdos inconscientes em busca de tradução. Este artigo apresenta um levantamento bibliográfico sobre o tema da expatriação sob um olhar psicanalítico, com ênfase em alguns autores franceses que se debruçam sobre tal questão. O primeiro objetivo da pesquisa é o de contextualizar e caracterizar a clínica da expatriação, diferenciando-a da clínica do asilo e do exílio. O segundo objetivo é a investigação dos conteúdos manifestos e inconscientes que motivam o projeto de mudança para outro país. Na clínica, no contexto de expatriação, o analista muitas vezes nomeia conteúdos que emergem em consequência da experiência de contato com a alteridade, e é isso que iremos abordar. Num terceiro momento, seguiremos o caminho aberto por autores franceses que compreendem a expatriação como um ato mensageiro (Roussillon, 2008), para formular a hipótese teórica da expatriação como uma tentativa de vivenciar, por meio da separação geográfica, a separação psíquica em relação ao objeto primordial que não pôde ser completamente simbolizada na infância. Desde a pandemia, enquanto analistas, nos deparamos cada vez mais com atendimentos on-line de brasileiros que se encontram em outro país e decidem manter ou começar um processo analítico com um analista que fale português. Por meio da transferência, o analista encarna, para o sujeito, a figura do objeto primário, possibilitando assim o trabalho analítico e uma mudança da posição subjetiva ocupada previamente pelo sujeito.
Expatriar-se em busca de novas fronteiras
A clínica da expatriação, assim como a clínica do exílio, revela processos psíquicos que surgem quando o sujeito se vê longe de sua “terra pátria” (Pestre, 2010). O conceito de pátria vem da Idade Média e, desde o início, apresenta dois sentidos: o primeiro, ligado à palavra latina “pátria”, faz referência à terra do pai, ao local onde se nasceu, às fronteiras de um país. Um segundo sentido estaria ligado ao “amor”, ou seja, à experiência afetiva de se ter um lar e de estar apropriado de um lugar. A migração exige do sujeito uma reformulação da representação de si e do mundo, em consequência de um novo processo de socialização que entrará em curso e da necessidade de reconstrução do sentimento de pertencimento. Ao mergulhar na expatriação, o sujeito escolhe o não familiar, o extraordinário, o contato com o outro, a alteridade interpessoal e intrapsíquica. Por meio do projeto de expatriação, o viajante sai de uma “zona de conforto” e proteção para se expor ao desconhecido. Com forte conotação positiva, a expatriação pode ser vista, no imaginário social, como uma forma de transgressão, de libertação e de emancipação, com todos os riscos que este “libertar-se” traz ao sujeito (Beck, 2021). Este ato de deixar seu país de origem pode propiciar um processo de transformação subjetiva e de emergência do Unheimliche, o estranho-familiar (Freud, 1919). O unheimliche freudiano, o não-familiar, mostra-se então um conceito fundamental na clínica da expatriação, pois pode dizer respeito tanto ao que motiva a migração (um sentimento de estranhamento subjetivo em relação ao grupo familiar e/ou à cultura do país de origem), quanto ao retorno do recalcado no contato com a alteridade na nova cultura - o contato com o estrangeiro promove associações que aceleram a emergência de conteúdos recalcados. Para Freud (1919), o conceito de estranho-familiar diz respeito a um conteúdo que um dia foi familiar e retorna do inconsciente causando estranhamento. A angústia ligada ao estranho-familiar se justifica pelo desvelamento de algo que estaria encoberto, escondido. O Eu arcaico projeta para fora o que ele percebe em si como perigoso ou desprazeroso, criando assim um duplo de si mesmo inquietante, estranho e ameaçador. Esta expulsão permite ao Eu se identificar apenas com os aspectos positivos e tranquilizadores de si. Com o advento do mecanismo de defesa do recalque, a parte consciente do Eu consegue expulsar para a parte inconsciente aspectos desagradáveis. Em algumas situações específicas, quando este mecanismo de defesa não consegue operar perfeitamente, conteúdos que um dia foram familiares e em seguida encobertos retornam à consciência, causando estranhamento e desconforto. A sensação é de ser invadido por uma ameaça externa quando, na verdade, trata-se de um conteúdo recalcado que emerge à consciência. No país de chegada, o estrangeiro pode representar uma ameaça para o grupo já constituído. Neste novo lugar, o sujeito que migra marca sua presença na distância entre ele e os outros. Esta situação restabelece a condição de separação, rememorando a marca de separações anteriores. O estrangeiro escolheu deixar seu país, enquanto os que ficaram mantém entre si um laço por seguirem em seu lugar de origem, num universo familiar. O expatriado encarna esta possibilidade ou o desejo reprimido de romper com o pacto social e pode, por isso mesmo, carregar certa culpa por ter “abandonado” o país de origem, como se as amarras que o ligassem à família não fossem fortes o suficiente para retê-lo onde nasceu. Num primeiro momento, essa liberdade em relação às amarras familiares pode ser sentida como uma euforia, mas, num segundo momento, pode vir a ser solidão. Neste estado de flutuação, o expatriado pode viver a angústia de não estar “nem lá, nem cá”, e que nada o liga mais ao seu país de origem. Ou pode sofrer com a “impossibilidade de voltar para trás”, junto à insuficiência de ancoragem no país de chegada. É possível pensar que o desejo de ocupar o lugar de estrangeiro em outro país esteja ligado ao fato de já se sentir estrangeiro dentro de si, isto é, a experimentar uma distância entre quem se é e o grupo no qual se encontra (Kristeva, 1988). Historicamente, no Brasil, o começo do século 20 foi marcado por uma onda significativa de imigrações. Com políticas entre Estados, cidadãos de países como Itália, Japão e Alemanha vieram em massa para algumas das maiores cidades brasileiras. Essa onda migratória fez avançar, desde então, os estudos sobre os processos subjetivos e as mobilizações dos exilados. Mais recentemente, a partir da segunda década do século 21, essa temática voltou a se destacar com o aumento considerável de refugiados venezuelanos nos territórios brasileiros. As publicações acadêmicas sobre expatriação estão frequentemente associadas a pesquisas que analisam o assunto sob a perspectiva de grandes empresas transnacionais. Elas buscam entender variáveis externas que possam facilitar ou dificultar o ajuste social e cultural do expatriado no contexto da globalização do mercado de trabalho. A expatriação estaria, então, ligada a um enquadre específico no qual o sujeito partiria para outro país por uma duração determinada. Neste artigo, a clínica da expatriação é estudada como um fenômeno mais abrangente que se refere a todos que residem temporária ou permanentemente em um país diferente daquele onde nasceram e que fazem o trajeto por vontade própria. Na França, a clínica do exílio (ou do asilo) começou a receber mais atenção em 1990, com os trabalhos de F. Benslama, O. Douville, A. Cherki e R. Stitou (Pestre, 2015a). Essa clínica trata de situações extremas de risco de morte ou necessidade de subsistência, que levam um cidadão a fugir de seu país, muitas vezes de forma repentina, deixando para trás a família, bens, documentos. Segundo Pestre (2010), os refugiados chegam ao novo país marcados por experiências de trauma e de violência, e enfrentam inúmeros obstáculos para se integrarem e construírem uma nova vida. Apresentam sintomas de estresse pós-traumático, insegurança psíquica, feridas narcísicas e sintomas psicossomáticos. Nesta clínica da “melancolia do trauma” (Pestre, 2010), conteúdos clivados permanecerão, muitas vezes, inassimiláveis e não simbolizáveis por conta da violência dos fatos vividos ou presenciados. Atualmente, na Europa, esta clínica tem recebido mais visibilidade na mídia por conta do aumento da migração de refugiados e dos debates éticos e políticos decorrentes dessa realidade. Segundo Ribeyrolles Colin (2021), os motivos manifestos do exílio estão ligados à busca por uma vida melhor (eldorado) e ao desejo de fugir de uma situação difícil ou traumática. Se, nos casos de exílio, o sujeito vive uma ruptura com seu país de origem motivada por razões socioeconômicas e políticas, nos casos de expatriação são as escolhas e a construção de um projeto que disparam e viabilizam o processo de mudança. Diferentemente do refugiado, o expatriado chega ao seu destino por um meio oficial (visto de turista, de estudo ou de trabalho) e, na maioria das vezes, existem caminhos construídos anteriormente, por meio de viagens prévias, histórias de familiares ou de amigos, para uma certa integração ao país escolhido (pode-se ter aprendido a língua antes, conhecido o novo país previamente, engatilhado um curso ou um posto de trabalho etc.).
Por outro lado, apesar de ser uma mudança desejada e planejada, quem busca a expatriação prepara as malas para uma viagem interna incerta (Tiberghein, 2021). Trocar de país permitiria mudar as fronteiras internas e viver experiências fora da linhagem familiar. Este projeto é alimentado pela fantasia de que existe algo de si mesmo que o sujeito deseja deixar para trás e, ao mesmo tempo, por inúmeras expectativas do que deseja encontrar em outro lugar que poderia transformá-lo em algo diferente. O viajante pode projetar no país de acolhimento aspectos que gostaria de desenvolver em si mesmo. A autora compara a expatriação a um rito de passagem que proporciona ao expatriado uma chance de metamorfose, de uma mudança geográfica e psíquica do sujeito que migra.
Demanda de análise num contexto de expatriação: de onde se quer mudar?
Nos últimos anos, devido à possibilidade de trabalho remoto, tanto analistas quanto pacientes expatriados têm a flexibilidade de conduzir sessões analíticas de qualquer lugar do mundo. Isso resultou no início de processos terapêuticos à distância, abordando questões relacionadas à mudança e às suas motivações conscientes e inconscientes. Muitas vezes, o sentido da mudança se dá depois e somente a partir do ato. Podemos fazer uma analogia com o sonho: a elaboração dos conteúdos oníricos se tece por associações quando o sujeito se lembra de um sonho, quando o conta em análise, quando se lembra de fragmentos ao despertar. Quais motivos e sentidos levam o expatriado a permanecer no novo país e sustentar a separação em relação à sua família? Por meio do trabalho de análise, o sujeito busca um sentido para ficar e, ao mergulhar em sua história familiar e na história da sua infância, compreende que a expatriação pode ser a maneira, em ato, que encontrou para se reposicionar frente à dinâmica familiar que despertava sofrimento. Como mencionado anteriormente, a expatriação carrega motivações e sentidos aparentemente mais brandos do que os do exílio, mas não por isso ela está isenta de sofrimento ou deixa de mobilizar o encontro com o traumático. Estar longe da família de origem e de uma rede de apoio pode provocar sentimentos ambivalentes, como a falta e o alívio, o ressentimento e a esperança por se viver algo diferente do vivido até então. As questões reveladas a partir do ato de mudança - da expatriação propriamente - também possibilitam ao sujeito experienciar e reviver conflitos antes não tocados. Para que ocorra, o projeto de expatriação exige muito investimento libidinal. O mudar-se, o sonhar, o projetar-se em outro lugar, a necessidade de falar outra língua, estar em outro contexto cultural - tudo isso impõe uma grande quantidade de trabalho ao psiquismo. Quando a principal justificativa da expatriação é o trabalho, pode-se pensar que se trata da única motivação para o gesto. Em análise, no entanto, quando o paciente fala sobre a sua mudança, frequentemente surgem motivações não consideradas e muitas vezes não conscientes. Quando a mudança é mobilizada por um relacionamento amoroso, também parece ser este a única causa. Contudo, as expectativas sobre a relação extrapolam o vínculo e carregam sentidos profundos sobre o mudar: poder ser e estabelecer novos vínculos, ser um outro com novos outros, se apresentar e se reconhecer ou se ver diferente de outros tempos. Poder se ver de outra forma e ocupar um novo lugar. De alguma forma, o sujeito precisa do ato de mudar-se geograficamente para encontrar um novo lugar simbólico. Com a pandemia da Covid-19, muitos expatriados se viram numa situação inesperada, impossibilitados de retornarem ao seu país de origem, mesmo que para uma visita ou uma breve temporada. A condição da separação em relação ao objeto primordial, antes mais velada, se tornou escancarada. Para além das razões manifestas que levam ao projeto de expatriação, podemos pensar que o desejo de separação física do objeto primordial seja uma motivação inconsciente importante. Segundo Rybeyroles Collin (2021), as idas e vindas de pacientes expatriados entre o país de origem e o país de chegada podem ser entendidas como uma tentativa de subjetivação da separação primária, à imagem do “Fort-Da” (Freud, 1920). Ou seja, a distância geográfica pode ser um esforço do sujeito na busca por maior independência e autonomia em relação aos seus objetos de apoio. Dentro desta lógica para além do princípio de prazer, a expatriação pode ser entendida como uma tentativa de o sujeito se sentir ativo, em contraponto à primeira separação com o objeto primário, na qual o bebê tem uma posição passiva e, portanto, mais vulnerável. Partindo da condição de que todo ser falante é um exilado da plenitude e a linguagem é o que permite a ligação com o outro após a separação psíquica, Stitou (2009) pensa a expatriação como uma tentativa de elaboração dessa separação original, fundadora da subjetividade e da alteridade. Esta experiência de separação se reatualiza, ao longo da vida, frente às mudanças, demandando sempre trabalho de elaboração e de reconstrução subjetiva. Diante do desconhecido, o expatriado pode revisitar sua posição subjetiva. Ao longo da análise, os pacientes expatriados podem experimentar certa perda de sentido devido ao distanciamento em relação às ancoragens narcísicas e aos marcadores simbólicos. Para Stitou (2009), várias saídas são possíveis diante de uma crise de identidade, inclusive uma crise depressiva ligada ao retorno de feridas narcísicas e às experiências anteriores de separação. O retorno do recalcado provocado pelo contato com a alteridade pode ser sentido como uma ameaça ao Eu, desorganizando-o e arremessando-o na melancolia. Ou, caso o sujeito encontre apoio no entorno, se puder contar com uma análise, por exemplo, a crise identitária pode ser uma oportunidade de integração de conteúdos arcaicos. A partida para outro país pode ser assim entendida, em algumas situações, como um recurso ou uma oportunidade para o psiquismo trabalhar no sentido da simbolização de ambivalências e de angústias arcaicas de separação. Em outras palavras, o expatriado pode ter a chance de criar um espaço psíquico intermediário (Winnicott, 1958) que permita novos modos de relação com os objetos internos e externos, e consigo mesmo. Para Drweski (2018), a expatriação pode funcionar como um regulador psíquico do envelope familiar, e a distância geográfica e cultural pode servir de proteção face aos traumatismos não elaborados da história familiar. O autor usa o conceito de envelope psíquico de Anzieu (1987) para trabalhar com famílias expatriadas. O envelope psíquico familiar contém as relações entre os membros da família e, ao mesmo tempo, serve de interface para a comunicação com o exterior. Sua hipótese é que a expatriação serve como proteção em relação a objetos internos muito ameaçadores que podem ter sido construídos na infância, ou a objetos tóxicos transgeracionais (segredos, incestos, abortos, suicídios). A distância do país de origem opera como uma barreira protetora aos eventos traumáticos ameaçadores. A expatriação pode também se dar num contexto de transmissão transgeracional, ou seja, o indivíduo que decide se mudar repete a experiência migratória da geração anterior, com o intuito de se inscrever numa continuidade de filiação. A expatriação pode ser um elemento constitutivo da identidade familiar. O projeto de mudança de país pode criar uma identificação com uma figura familiar e reforçar a sensação de ligação com o grupo. Novamente, também nesses casos, nos deparamos com a expatriação como um recurso concreto e para possibilitar separações e reposicionamentos subjetivos. Estes, por sua vez, promovem uma verdadeira reorganização da dinâmica familiar, ao mesmo tempo em que a distância física dá visibilidade aos sujeitos do grupo como íntegros e independentes. Esta aquisição de autonomia permite uma melhor aproximação afetiva entre os membros. A expatriação física corresponde assim, paradoxalmente, a uma tentativa de “impatriação psíquica”. A expatriação pode permitir a integração de uma nova forma de ligação ao objeto primário. Pestre (2015a) chama a atenção para uma outra faceta, também paradoxal, do desejo de expatriação e do próprio ato de mudança: na tentativa de distanciamento geográfico, cultural e idiomático, o sujeito acaba se confrontando com figuras arcaicas e conteúdos infantis. O contato com o estrangeiro pode expor o Eu ao retorno do estranho-familiar. Por trás do desejo manifesto de expatriação e da aparente separação da família, se esconderia um desejo inconsciente de aproximação com ela. No novo país, o movimento de alienação primária, de nostalgia, de desejo de retorno ao familiar pode tomar conta do sujeito num movimento defensivo que se traduz, por exemplo, na procura por um analista que fala a língua materna. Vemos, assim, que a separação física não proporciona necessariamente a elaboração da separação psíquica. A separação primária, quando vivida de forma incompleta, pode ser reatualizada por meio do exílio e se mostrar ameaçadora à integridade do Eu. Frente a esta ameaça narcísica, o sujeito pode viver fantasias de intrusão, sintomas somáticos, despersonalização, raiva ou tristeza incontroláveis que, sem contorno, podem levar a uma expatriação subjetiva. As idas e vindas entre territórios e línguas diferentes estimulariam o retorno do recalcado. O contato com o novo país e a nova língua permite que venham à consciência conteúdos antes velados. Este estado migratório de pensamento pode ser frutífero para o trabalho analítico, pois favorece um novo jogo identificatório que concilia o estrangeiro e o familiar. Essa hipótese de Pestre (2015a) vai ao encontro do pensamento de Stitou (2009) apresentado acima, segundo o qual a expatriação, em condições favoráveis, pode propiciar ao Eu a chance de integração e simbolização de conteúdos inconscientes arcaicos. Frente a uma demanda de análise de um sujeito que escolhe a expatriação, num primeiro momento poderíamos entender este desejo manifesto como um desejo de distanciamento das figuras parentais. Porém, ao acompanhar os processos de simbolização em jogo no retorno dos conteúdos recalcados provocados pelo encontro com o estrangeiro, vemos que o ato de expatriação busca conscientemente a separação do objeto primário, numa tentativa inconsciente de melhor se aproximar. O que, num primeiro olhar, poderia ser visto como uma tentativa de ruptura familiar seria, na verdade, um esforço de inscrição na história familiar. Se pensarmos em sujeitos que verbalizam se sentirem “fora do seu lugar” ou “estrangeiros” em suas famílias de origem, a expatriação poderia ser um caminho para encontrarem um lugar confortável na organização familiar, mesmo que, para encontrar este lugar psiquicamente mais próximo, necessitem da distância física. Esta vivência pode ser integrada psiquicamente pelo sujeito, permitindo uma apropriação subjetiva da história familiar, ou pode ficar apenas no registro da repetição como um sintoma de uma transmissão patológica.
Expatriação como um “ato-mensageiro”
Nossa hipótese teórica é que alguns expatriados necessitam, de certa forma, fazer uma “passagem ao ato” para poder simbolizar conteúdos arcaicos. Enquanto alguns conseguem integrar ao Eu conteúdos não simbolizados por meio da sublimação, da criação, da análise, da maternidade, de crises existenciais etc., outros necessitam passar ao ato. A pulsão de morte se manifesta na compulsão à repetição presente na clínica das adições e nas inúmeras formas de “passagem ao ato”; são ações que implicam uma dissociação corpo/psique e repetem, em ato, uma cena vivida de forma traumática. É neste sentido que Reyberolles Collin (2021) faz uma aproximação entre a expatriação e o conceito de ato mensageiro do psicanalista francês René Roussillon (2008). A mudança geográfica seria um primeiro passo para a simbolização psíquica da separação do objeto primordial. O processo analítico poderia levar o sujeito a um novo trabalho identificatório, integrando aspectos arcaicos no Eu. Para Barry (2018), o processo analítico pode ser visto como uma viagem por meio da qual o sujeito procura se encontrar com o estrangeiro em si (inconsciente). O Eu se constitui num movimento de recalcar conteúdos, que continuam a fazer parte do funcionamento psíquico do sujeito como uma sombra. Muitas vezes, no contato com o estrangeiro, os conteúdos que são projetados e que causam fortes emoções como nojo, medo, raiva também fascinam, repelem e atraem. Para se integrar à nova cultura, o expatriado precisa passar por um processo de elaboração no qual retira a libido de valores, tradições e comportamentos conhecidos para, ao mesmo tempo, investi-la em novas formas de ser, agir e se expressar. De certa forma, desinveste aspectos de si para investir “novos” aspectos de si que estavam recalcados. Para o autor, o expatriado precisa renunciar a ser quem era, se perder, correr o risco de não chegar a lugar nenhum, virar um errante sem possibilidade de ir ou voltar. Este processo de transformação nunca tem um fim, pois não é possível se tornar completamente outro. Sempre permanecerão partes da história e da bagagem com as quais se nasce, as experiências dos primeiros anos impressas em traços inconscientes que jamais serão totalmente assimilados, elaborados ou simbolizados. No entendimento destes autores que viemos acompanhando, o contato com o outro exterior, ao facilitar a regressão e a emergência de aspectos fragilizados e traumáticos, propicia o desvelamento da alteridade em si mesmo. No contexto analítico, a integração de conteúdos arcaicos por meio de processos de regressão e elaboração pode permitir a modificação do Eu. Pensando na função analítica de transformação do Eu, circunstâncias limites como a expatriação, em que o sujeito vivencia, por meio de atuações, afetos que não puderam ser elaborados pela linguagem, nos remetem ao conceito de ato mensageiro de Roussillon (2008). Roussillon (2007) compreende as patologias narcísico-identitárias como aquelas que se fundam nas falhas mais incapacitantes da simbolização primária. Tais falhas se fazem sentir, pelos sujeitos, no retorno dos aspectos cindidos e não simbolizados. Neste retorno, esses elementos cindidos se manifestam em adoecimentos psicossomáticos e condutas enigmáticas. O tratamento desses quadros, se bem encaminhado, pode dar início a processos de representação e processamento psíquico, ou seja, caminha no sentido de fomentar processos de integração e simbolização. O autor dialoga com conceitos de Freud e Winnicott para circunscrever diferentes formas de patologias narcísicas. Estes sofrimentos surgem de uma organização defensiva que se instala contra os efeitos de um traumatismo primário clivado, que ameaça a continuidade do Eu e sua organização psíquica frágil. Ao longo de sua obra, Roussillon aprofunda a reflexão sobre o processo de subjetivação e das tentativas paradoxais para superar a ausência de representação, consequência de uma falha na função simbolizante do objeto primordial. O “ato mensageiro”, conceito fundamental do arcabouço teórico de Roussillon, carrega um conteúdo endereçado a alguém, dando às pulsões não apenas um valor de descarga, mas igualmente uma qualidade de “mensagem”. Ao espelho dos sintomas histéricos que podem ser entendidos como uma linguagem em ato, outros sintomas « em ato » podem igualmente ser compreendidos desta forma. Pela ação, o corpo tenta expressar algo ao sujeito, mas apresenta também, simultaneamente, uma narrativa a um outro-sujeito. Em alguns casos de analisandos expatriados, o analista, por meio da transferência, testemunha uma cena do passado que pode ter acontecido sem testemunha. O retorno do estranho-familiar provocado pelo encontro do sujeito com a alteridade da nova cultura pode assim propiciar o retorno do traumático que procura simbolização na situação analítica, num après-coup. Para Roussillon, a função simbolizante do objeto primário tem um papel essencial na construção da identidade do sujeito. Antes de ser sujeito para si mesmo, é necessário ter tido a experiência de ter sido visto como sujeito pelo outro. A experiência da simbolização primária permite ao sujeito se apresentar ao mundo e a si mesmo, se apropriar das experiências que vem de dentro e de fora. A capacidade de representação permite uma separação dentro/fora e eu/outro, criando assim uma representação do mundo e da alteridade em si-mesmo. O processo de simbolização pode ser considerado paradoxal por reunir, num segundo tempo, o que separou e diferenciou num primeiro tempo. Esta ação produz uma perda, um resto que, em forma de traço, inaugura o recalque originário. Assim, as inscrições de traços de restos da história das novas experiências de simbolização, inclusive as ressimbolizações après-coup, continuarão a modificar o conteúdo recalcado e, assim, a identidade do sujeito.
Da mesma maneira que a criança pré-verbal usa os afetos, o corpo, a motricidade, a mímica, a postura e a ação para se fazer compreender, os sujeitos que sofrem de patologias narcísico-identitárias ligadas a traumatismos precoces utilizam estes mesmos registros para se comunicar. No caso da expatriação, podemos imaginar que o ato de se despedir num aeroporto, fazer fisicamente uma viagem e se separar do objeto primário, sem mais poder contar com ele, seja uma forma de o sujeito transmitir uma mensagem a si e ao outro de que é capaz de cuidar de si em toda autonomia. Nos casos de mudança definitiva de país, os rituais de despedida, separação e reencontro se reencenam inúmeras vezes de maneiras muito semelhantes - mesmo aeroporto, mesmos familiares, mesmos presentes dentro da mala -, mas também sempre diferentes. Esta compulsão à repetição, esta passagem pela carne e pela ação seria necessária para a integração de conteúdos traumáticos. Pestre (2015b) usa o termo “passagem ao ato migratório”. Uma travessia interna se faz em paralelo à travessia geográfica. Os efeitos psíquicos desta mudança podem ser superficiais e passageiros ou intensos e dolorosos, e até psicopatológicos. Na expatriação, o sujeito se afasta da sua família e buscará apoio em seus objetos internos para criar um novo lar. Desta forma, o sujeito poderá finalmente exercer sua capacidade de estar só e criar um lugar para si, separado do outro.
Para Foy-Sauvage (2021), acompanhar o processo de subjetivação durante a experiência de expatriação, num enquadre analítico, consiste em acolher a reorganização dos investimentos objetais. Ao longo da infância, construímos objetos internos parentais de presença, representações de nossos pais construídas pelas trocas afetivas e pulsionais. A separação física obriga a uma reorganização destes investimentos para encontrar um novo equilíbrio. Sem seu corolário externo, estes objetos de presença se transformam em objetos de ausência, o que permite a elaboração da ambivalência em relação às figuras parentais.
Conclusão
Por diversas razões (socioeconômicas, políticas, climáticas), a imigração é um fenômeno presente na atualidade e que tende a se desenvolver cada vez mais, se tornando um vasto campo de debate e investigação multidisciplinar. Desta forma, a expatriação, suas modalidades, causas e consequências são temas de pesquisa relevantes para diversas áreas de estudo, inclusive a Psicologia. Esta pesquisa bibliográfica de autores franceses que abordam o tema da expatriação pelo prisma da psicanálise pretendeu desenvolver o conhecimento dos processos conscientes e inconscientes que impelem um sujeito a tomar a decisão e concretizar a ação de mudar de país. Enquanto estrangeiro em um novo contexto, o sujeito atravessa um processo de mudança profunda, que transforma os pilares de sua identidade, assim como a relação com sua família de origem, sobretudo com as figuras parentais internalizadas. No trabalho analítico, o paciente pode desvelar os motivos que o levaram à expatriação e integrar partes não simbolizadas de sua história. A expatriação, que num primeiro olhar poderia ser entendida como mero ato de mudança geográfica, pode permitir, entre idas e vindas do país de origem, uma apropriação subjetiva do ato de separação, à imagem do “Fort-Da” freudiano, num jogo de presença e ausência. Por meio da expatriação, experiências arcaicas que não puderam ser simbolizadas retornam à consciência pela manifestação de sintomas físicos ou demonstrações de afetos intensos. Frente ao sofrimento e desamparo, procura-se um analista que “fale a mesma língua”, numa tentativa de reencontrar a segurança do familiar e elaborar a relação com o objeto primário.
Se o processo de separação em relação ao objeto primário não se concluiu e a constituição do sujeito não se dá plenamente, a mudança de país pode lançar o Eu a uma regressão. A distância da família pode ser vivida pelo sujeito tanto como oportunidade de reparação (elaboração da separação na transferência), quanto como ameaça narcísica (desamparo do entorno). O sofrimento ligado à dificuldade de separação do objeto primário pode constituir um dos principais aspectos inconscientes que impelem o sujeito a concretizar o ato de expatriação. O analista teria, assim, o papel de acompanhar o sujeito neste processo de luto, permitindo a integração de aspectos arcaicos no Eu e o distanciamento de uma possível posição melancólica. Fica claro que o encontro com o estrangeiro pode fazer emergir conteúdos primários que buscam tradução e sentido. Para Roussillon, o psicanalista precisa estar aberto para escutar a linguagem do corpo e do ato, ambígua, que carrega um sentido em potencial e busca uma resposta do ambiente para sua integração significante. Segundo Minerbo (2014), o papel do analista é o de escutar o arcaico, ou seja, o sofrimento da criança-no-adulto, e dar voz a esta criança. Pode-se, por meio dessa escuta da criança-no-adulto, identificar os momentos traumáticos da infância, bem como as defesas que foram usadas e que se atualizam no presente como sintoma. O entorno e o analista, em particular, teriam a função essencial de identificar esses afetos que buscam representação, poder contê-los, traduzi-los e simbolizá-los, no intuito de ajudar o analisando no seu processo de subjetivação e separação do objeto primário. Em tempos de pandemia e globalização, a psicanálise encontra-se frente a novos desafios ligados à adaptação da técnica a novos enquadres, contextos, patologias e formas inéditas de relacionamentos mediados pelas tecnologias. Neste cenário contemporâneo, o rigor teórico e a troca com pares são pilares essenciais para o desenvolvimento de modalidades de trabalho analítico que permitam alcançar os que se deparam com sofrimentos ligados às patologias narcísico-identitárias, como pode ser o caso de sujeitos expatriados. As ferramentas fundamentais da psicanálise como a atenção flutuante, a transferência, o manejo clínico e a interpretação são os lampiões que nos ajudam a avançar por caminhos ainda desconhecidos. O analisando é portador das marcas do seu sofrimento e procura no analista uma figura que possa ajudá-lo a fazer o processo de simbolização e, no caso singular da expatriação, o trabalho de integração de conteúdos arcaicos do Eu que emergem no contato com a nova situação no país de chegada.














