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Boletim - Academia Paulista de Psicologia

versão impressa ISSN 1415-711X

Bol. - Acad. Paul. Psicol. vol.44 no.107 São Paulo  2024  Epub 02-Dez-2024

https://doi.org/10.5935/2176-3038.20240015 

TEORIAS, PESQUISAS E ESTUDOS DE CASO

A AVALIAÇÃO DA PERSONALIDADE POR MEIO DO COMPORTAMENTO EXPRESSIVO: UMA REVISÃO DE LITERATURA

Personality assessment through expressive behavior: a literature review

Evaluación de la personalidad a través de la conducta expresiva: una revisión de la literatura

Carlos Eduardo Bovenzo Filho20 

Psicólogo pela Universidade Guarulhos. Pós-graduado em Psicologia Jurídica pelo Instituto de Pós-Graduação (IPOG).


http://orcid.org/0000-0003-1651-0200

Mylena de Almeida Maia21 

Psicóloga pela Universidade Guarulhos.


http://orcid.org/0000-0002-2859-538X

20Psicólogo Clínico e Técnico Pesquisador do Núcleo de Pesquisa em Violência - Psicologia Jurídica (NUPEV-PJ) e Núcleo de Estudos em Neurociência, Saúde e Educação (NEPSI-UNG)

21Pós-Graduanda em Gestão de Recursos Humanos. Atua como tech recruiter na SUNO Investimentos e Psicóloga Clínica


Resumo

Este artigo consistiu em uma revisão de literatura, a qual implicou a busca por materiais publicados relevantes para o tema pesquisado: a avaliação da personalidade por meio do comportamento expressivo. O objetivo foi compreender o comportamento expressivo e evidenciar como as técnicas e testes expressivos são colocados em pauta atualmente e, ainda, possibilitar uma visão de como favorecem e fomentam a avaliação psicológica em termos de investigação das características de personalidade. Foram abordados os conceitos de Avaliação Psicológica e, num segundo momento, foram expostas as diferentes perspectivas na compreensão do construto Personalidade. Adiante, abordou-se, de forma detalhada, o conceito do Comportamento expressivo, bem como os estudos que envolveram os diferentes testes e técnicas expressivas. Dos poucos instrumentos expressivos existentes, o Palográfico é o teste que tende a ser fortemente utilizado, subsidiando a prática em Avaliação Psicológica com ênfase na personalidade. Apesar disso, atualmente o Brasil carece de pesquisas no âmbito de testes e técnicas expressivas, o que deixa pouca alternativa aos profissionais que buscam, ao comporem seu processo de avaliação psicológica, o emprego de um teste expressivo ou, então, maior amparo sobre a interpretação e compreensão dos processos expressivos contidos em desenhos. Sendo assim, é de extrema importância um maior debruçar em pesquisas da comunidade científica da Psicologia, de modo a promover sustento aos recursos que os profissionais buscam para realizar a avaliação psicológica da personalidade.

Palavras-chave: avaliação psicológica; comportamento expressivo; personalidade; testes psicológicos; técnicas expressivas

Abstract:

This article consisted of a literature review, which implies the search for published materials relevant to the researched subject, personality assessment through expressive behavior. TThe objective was to understand expressive behavior and to highlight how expressive techniques and tests are currently being discussed, and also to provide an insight into how they favor and foster psychological assessment in terms of investigating personality characteristics. The concepts of Psychological Assessment were addressed and, in a second moment, the different perspectives in understanding the Personality construct were exposed. Further on, the concept of Expressive Behavior was discussed in detail, as well as studies that involved the different tests and expressive techniques. Of the few existing expressive instruments, the Palographic is the test that tends to be heavily used, supporting the practice of Psychological Assessment with an emphasis on personality. Despite this, Brazil currently lacks research in the field of expressive tests and techniques, which leaves few alternatives for professionals who seek, when composing their psychological assessment process, the use of an expressive test or, alternatively, greater support on the interpretation and understanding of the expressive processes contained in drawings. Therefore, it is extremely important to focus more on research by the scientific community of Psychology, in order to promote support for the resources that professionals seek to carry out the psychological assessment of personality.

Keywords: psychological assessment; expressive behavior; personality; psychological tests; expressive techniques

Resumen:

Este artículo consistió en una revisión de la literatura, que implicó en la búsqueda de materiales relevantes publicados para el tema investigado, la evaluación de la personalidad a través del comportamiento expresivo. El objetivo era mostrar cómo y con qué frecuencia las pruebas y técnicas expresivas están actualmente en discusión, así como dar una visión de cómo favorecen y fomentan la evaluación psicológica en cuanto a la investigación de las características de la personalidad. Se abordó inicialmente el concepto de Evaluación Psicológica y, posteriormente, se expusieron las diferentes perspectivas en la comprensión del constructo de la Personalidad. Más adelante, se discutió en detalle el concepto de Comportamiento Expresivo, así como los estudios que involucraron las diferentes pruebas y técnicas expresivas. De los pocos instrumentos expresivos existentes, el Palográfico es el más difundido en la investigación, así como tiende a ser muy utilizado, apoyando la práctica de la Evaluación Psicológica con énfasis en la personalidad. A pesar de esto, Brasil actualmente carece de investigaciones en el campo de las pruebas y técnicas expresivas, lo que deja poca alternativa para los profesionales que buscan, al componer su proceso de evaluación psicológica, el uso de una prueba expresiva o, luego, un mayor apoyo en la interpretación y comprensión de los procesos expresivos contenidos en los dibujos. Por lo tanto, es de suma importancia enfocarse más en la investigación en la comunidad científica de la Psicología, con el fin de sustentar los recursos que buscan los profesionales para realizar la evaluación psicológica de la personalidad.

Palabras clave: evaluación psicológica; comportamiento expresivo; personalidad; pruebas psicológicas; técnicas expresivas

1. Introdução

A avaliação psicológica como processo técnico e científico dispõe de diferentes recursos como os testes psicológicos para compreender o sujeito, quer seja em termos de atenção, memória, inteligência e personalidade (Hutz, 2015; Conselho Federal de Psicologia [CFP], 2018). Uma das formas de manifestação das características de personalidade é por meio do comportamento expressivo, o qual se evidencia pela realização de traçados espontâneos, e.g., desenhos, rabiscos ou atividades estruturadas por meio de testes (Van Kolck, 1975; Van Kolck, 1984, citada por Alves & Esteves, 2019). Atualmente, na literatura cientifica, são encontrados poucos estudos sobre comportamento expressivo na avaliação da personalidade e, ainda, sobre técnicas e testes psicológicos que objetivam avaliar a personalidade por meio desse tipo de comportamento. Com base nisso, o propósito deste artigo foi fazer um levantamento bibliográfico que favoreça a compreensão sobre o comportamento expressivo, bem como evidenciar técnicas e testes expressivos de modo a elucidar como tais recursos contribuem para o processo de avaliação da personalidade.

2. Método

Este artigo teve como objetivo compreender o comportamento expressivo, bem como, realizar o levantamento de técnicas e testes expressivos dentro do campo da avaliação da personalidade. Para isso, foi realizado um levantamento bibliográfico (revisão de literatura), que consiste na análise de um material pertencente a um assunto específico (Di Domenico & Cassetari, 2009). A metodologia supracitada foi selecionada, pois não são encontradas palavras-chave que direcionem a artigos publicados que se refere a temática deste estudo - o comportamento expressivo como construto - na base de Descritores da Biblioteca Virtual em Saúde (Decs-BVS). Além disso, termos como “testes gráficos”, “testes expressivos”, “teste palográfico”, “psicodiagnóstico miocinético” e “grafismo” não deram resultados. Por sua vez, a busca e inserção do descritor “Teste Psicológico” na base Biblioteca Virtual de Psicologia Brasil (BVS-PSI) gerou 473 resultados. Destes, apenas dois artigos se relacionavam, de alguma forma, com o comportamento expressivo. O primeiro deles, de Cardoso, Esteves, Silva, Arsuffi, & Franzim Neto (2014), que visou o estudo de precisão do Sistema de correção Informatizado do teste Palográfico (SKIP), e o segundo de Ely, Nunes e Carvalho (2014), cujo propósito foi fazer um levantamento de testes expressivos e de autorrelato no Brasil, para avaliação da Depressão. Nenhum dos dois estudos contribui, efetivamente, para o propósito deste artigo.

Quanto à inserção do descritor “Desenhos”, na mesma base de dados, os resultados foram de 232 estudos. Deles, apenas um artigo trouxe mínima relação com o comportamento expressivo, se referindo ao estudo de Van Kolck (1966) -sobre o uso de cores em desenhos livres de criança, por meio do qual é enfatizado a necessidade de interpretar as cores junto dos aspectos adaptativos e expressivos. Apesar disso, não houve abordagem aprofundada no comportamento expressivo no estudo. Ao longo desta revisão de literatura, notou-se a presença de poucas publicações sobre comportamento expressivo, o que foi somado ao não cadastro, no Decs-BVS, dos descritores citados acima, exigindo assim, outros caminhos para a busca e filtragem de materiais científicos para a composição deste artigo. As combinações de palavras-chave “comportamento expressivo” AND “desenhos”; “teste Palográfico” AND “comportamento expressivo”; “Personalidade” AND “comportamento expressivo”, “psicodiagnóstico miocinético” x “comportamento expressivo”; “grafologia” foram inseridas na base de dados gerais Google Acadêmico (GA), onde foram encontrados e filtrados artigos das bases Scielo, Pepsic, bem como, periódicos da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP) e Universidade do Oeste de Santa Catarina (UNOESC). Durante esta busca, também foram localizados estudos de origem internacional. Referente às obras consultadas (livros e dissertações), foi dada ênfase àquelas que abordassem os seguintes assuntos: avaliação psicológica, comportamento expressivo, personalidade, testes e técnicas expressivas. Acrescenta-se que, ao longo da leitura e análise dos artigos e trabalhos coletados, foi dada a atenção frente à confiabilidade científica destes, bem como, a permanência da relação com o assunto pesquisado. Após a união dos achados teóricos, foi realizada a sua discussão, de modo a favorecer a compreensão dos processos e comportamentos expressivos como agentes representativos de características da personalidade humana e pontos nodais da fundamentação de grandes instrumentos que versam a avaliação do referido construto - a Personalidade.

3. Resultados

De modo a cumprir os objetivos desta revisão, serão elencados os achados científicos na literatura que contribuem para a compreensão da Avaliação da Personalidade por meio de testes expressivos.

3.1 A Avaliação Psicológica e Testes Psicológicos

A Avaliação Psicológica (AP), enquanto processo técnico e científico, tem como propósito o fomento das compreensões e considerações do psicólogo mediante o seu trabalho. Isto é, possibilitará, por meio de diferentes técnicas, instrumentos e métodos, que o profissional colete informações que colaborem para a elaboração de hipóteses sobre funcionamento psicológico do sujeito (CFP, 2018). Dentre as técnicas e instrumentos que podem ser utilizados no processo de AP, encontram-se os testes psicológicos. Em termos de conceituação, Lins (2022) ressalta a importância de se ter cuidado quando se trata das definições dos tipos de testes psicológicos existentes. Os testes psicológicos são considerados recursos que subsidiam a medida sobre variáveis psicológicas, como inteligência, atenção, personalidade, entre outros. Acrescenta-se que os dados avaliados por um teste podem ser coletados por meio de respostas a questionários (escritos ou orais), pelo estímulo do próprio teste ou, ainda, pela expressão natural do comportamento, via observação (Cohen, Swedlik, & Sturman, 2014). No que tange à diferenciação entre os tipos de testes psicológicos, há a falta de consenso na conceituação dos métodos projetivos e expressivos, ambos bastante utilizados na avaliação da personalidade. Os métodos projetivos abarcaram técnicas com estímulos não estruturados, como o Rorschach (manchas de tintas), temas e histórias, como o Teste de Apercepção Temática (TAT- imagens estruturadas) e gráficas (House, Tree, Person Test ou Teste do Desenho da Casa, Árvore, Pessoa (HTP) (Pinto, 2014). Já os testes expressivos, como o Palográfico e Psicodiagnóstico Miocinético (PMK), em que consistem na realização de traçados, não são enquadrados como projetivos, pois seus pressupostos teóricos que os sustentam são diferentes (Mira, 2014; Alves & Esteves, 2019; Lins, 2022). A utilização de testes expressivos por psicólogos tende a ser numerosa. Reppold, Wechsler, Almeida, Elosua, & Hutz (2020) realizaram um estudo com 668 psicólogos, sendo 81,9% do sexo feminino com idade média de 40,4 anos (DP= 12,67). Da amostra, 45% tinham o título de especialista, 20,6% mestres e 21,4% doutores. Em termos de anos de prática, houve variação entre 1 e 48 anos, sendo a média 14,1 anos (DP= 11,34). Os participantes pertenceram às cinco regiões do Brasil. Na realização do estudo, Reppold et al. (2020) utilizaram um questionário eletrônico, publicado originalmente na Espanha, em 2010, por Muñiz e Fernández-Hermida, traduzido e adaptado para o Brasil. O instrumento é composto por 33 itens, com perguntas abertas e fechadas, abrangendo os seguintes temas: formação do psicólogo, áreas de atuação, testes mais utilizados, e dificuldades e sugestões para melhorar a área de avaliação psicológica no Brasil. Em termos de resultados, Reppold et al. (2020) agruparam a frequência das cinco primeiras respostas apresentadas pelos respondentes, destacando-se dentre os testes mais utilizados: WISC, HTP e Palográfico, ou seja, um teste de inteligência e outros dois de personalidade, sendo o HTP projetivo e Palográfico, expressivo. O estudo de Reppold et al. (2020) mostrou, ainda, que o número de profissionais que buscam testes com evidências de validade é crescente. Desta forma, sugere-se que existe a atenção profissional frente à atualização dos instrumentos, bem como, cuidado técnico e qualificação do processo de avaliação psicológica, ressaltando assim o cuidado que se deve ter ao escolher um teste psicológico para compor o processo de avaliação (Hutz, 2015). Quando se trata da definição e conceituação da personalidade, existem mais de 50 definições de personalidade, as quais envolvem diferentes prismas, como a psicanálise, a psicologia analítica, o behaviorismo, a psicologia humanista, entre outras. De forma geral, no estudo da personalidade, as ênfases incluem: Psicodinâmica, Estrutura de Personalidade, Realidade Percebida e Aprendizagem (Hall, Lindzey, & Campbell, 2000). Atualmente, outras teorias também buscam compreender o funcionamento da personalidade, dentre elas, a Teoria dos Cinco Grandes Fatores (Neuroticismo, Conscienciosidade, Abertura, Amabilidade e Extroversão) -que aponta o fato de todos os sujeitos possuírem tais características, porém, diferenciados pelos graus em que cada uma delas está presente (Carvalho, 2022). Cita-se, também, a presença de um modelo que envolve um sexto fator, o Modelo HEXACO de personalidade, que traz os seguintes domínios: Amabilidade, Conscienciosidade, Abertura à experiência, Extroversão, Emotividade e, por fim, Honestidade-Humildade (Igreja, 2019).

A Psicologia goza de diferentes perspectivas, assim como formas de compreensão e análise de personalidade que fundamentam muitos de seus testes e instrumentos. Além disso, tem-se que a qualidade da manifestação de características de personalidade pode ser evidenciada, também, por meio de um comportamento específico que traduz o estilo de resposta do sujeito, ou seja, como ele, dentro de sua particularidade, analisa uma situação. Tal comportamento é denominado Expressivo.

3.2 O Comportamento Expressivo e sua relação com a Personalidade

Há anos o comportamento expressivo foi alvo de estudos, sendo ele um dos diferentes níveis em que se pode estudar a personalidade humana. Isto é, já se dizia que há uma transmissão de comportamentos que ocorre de forma mais espontânea, pouco controlável e, assim, aquém do limiar da consciência. O comportamento expressivo foi definido como gestos que refletem o estilo do sujeito, ou melhor, aspectos do movimento que diferenciam uma pessoa de outra (Allport, & Vernon, 1933). Complementa-se que movimento intrapsíquico é traduzido por um movimento corporal que representa situações vivenciadas pelos indivíduos e que sofre múltiplas influências: culturais, ambientais, idade, sexo e aspectos orgânicos e psicológicos, sendo estes dois últimos evidenciados por meio dos padrões tensionais ou de movimentações musculares que representam reações psicofisiológicas que traduzem a atividade afetiva-humoral (Klages, 1959; Cruz, Sardá Júnior, & Legal, 2014). Na literatura científica, os processos expressivos são definidos como aqueles que o sujeito revela, parcialmente, seu modo de reagir e perceber às situações do ambiente. Assim, o comportamento expressivo também se revela por meio de traços/expressões gráficas, consistindo no estilo particular de resposta do sujeito (Van Kolck, 1975; Van Kolck, 1984, citada por Alves & Esteves, 2019). Ou seja, a realização de traçados simples e desenhos já permite avaliar o aspecto expressivo do indivíduo, favorecendo a evidência de materiais/informações subsidiários para a compreensão da personalidade (Esteves & Alves, 2018). A ocorrência do comportamento expressivo como manifestação afetiva do sujeito, acompanha o ser humano desde a infância, época em que há a presença do rabisco expressivo, no qual as linhas realizadas evidenciam não só o prazer motor típico do desenvolvimento infantil, mas trazem cargas emocionais (Quaglia & Saglione, 1976; Longobardi, Pasta, & Quaglia, 2012). Nelas há carga expressiva, dinâmica, forma e vitalidade, podendo ser fina, grossa, angular, horizontal, espiral e tomar outros distintos formatos (Longobardi, Quaglia, & Iotti, 2015; Quaglia et al., 2015, citados por Grubits & Oliveira, 2020). Visto que o comportamento expressivo acompanha o sujeito ao longo de seu crescimento, acrescenta-se que estados emocionais mais arcaicos estão relacionados ao bem-estar ou ao desconforto. Os traços gráficos que se relacionam à fase do rabisco expressivo tendem a adquirir duas formas expressivas: a gratificação e a frustração - sendo que na primeira há a prevalência de linhas arredondadas e, na segunda, linhas grossas e quebradas (Grubits & Oliveira, 2020). Referente à legitimidade do comportamento expressivo como manifestação afetiva do sujeito, Hammer (1981) constatou que, quando se tenta esconder aquilo que se passa na mente, o sujeito é denunciado pela sua postura e músculos. Em outras palavras, o movimento expressivo dispõe de um potencial diagnóstico cuja manifestação é permitida por meio de movimentos no ambiente e, principalmente no caso de adultos, por meio do grafismo, potencializando assim, as técnicas expressivas enquanto bastante úteis em um processo de avaliação psicológica (Angnes, 2021).

3.3 Estudos sobre testes e técnicas expressivas na avaliação da personalidade

Dando procedência ao objetivo desta revisão de literatura, tem-se inicialmente o emprego de técnicas expressivas, que são recursos que exigem a realização de traçados ou desenhos específicos, que possibilitarão a manifestação de condições afetiva-emocionais de cada indivíduo, conforme as constatações iniciais sobre a manifestação do comportamento expressivo por meio do grafismo (Van Kolck, 1975; Quaglia, & Saglione, 1976; Hammer, 1981; Angnes, 2021). As técnicas gráficas, importantes para a manifestação dos processos expressivos, implicam recursos que, para a comunicação de conteúdos internos, o sujeito não precisa exercer a fala, mas, sim, o grafismo, refletindo conteúdos mais profundos da personalidade: desenhos, pinturas, rabiscos, sejam eles espontâneos ou dirigidos (Rosenzweig, 1949; Trinca, 2003; Resende, 2022).

(...) quando o sujeito não pode se expressar verbalmente, seja por pouca idade, no caso de crianças, porque sofre de algumas inibições ou dificuldades, seja porque devido a qualquer outra razão, a expressão gráfica satisfaz mais do que a verbal (Stern, 1967, citado por Trinca, 2003, p. 1).

Em termos de instrumentação da psicologia, as técnicas expressivas se diferenciam dos modelos de autorrelato, pois, estes últimos, além de apresentarem a possibilidade de escolha das respostas (opções), também podem ser alvos de desejabilidade social. Sendo assim, há possibilidade de o avaliado fornecer respostas condizentes a um resultado “positivo”, diferente de seu real desempenho na atividade (CFP, 2018; Lins, 2022; Lima, 2022, Resende, 2022). Por sua vez, as técnicas e os testes expressivos consideram o fato da ação muscular enquanto involuntária, evidenciando aspectos afetivos que o sujeito pouco omitiria, trazendo assim, uma característica pouco fadada à alteração de seus resultados. Acrescenta-se que, apesar das diferenciações acima, tanto os testes de autorrelato quanto os expressivos devem apresentar propriedades psicométricas que garantam sua utilidade científica (CFP, 2018; Lins, 2022; Lima, 2022, Resende, 2022). Dentre as técnicas expressivas que evidenciam traços de personalidade, a Escola Francesa de Grafologia foi pioneira na sua estruturação científica. A grafologia é um recurso que, por meio de símbolos gráficos (escrita/caligrafia), busca a decifragem de traços de personalidade. No entanto, atualmente não é aceita como técnica aplicável na psicologia brasileira, sendo apenas um recurso utilizável em pesquisas (Xandró, 1991; CFP, 2010). Ao longo de seu manuscrito, constituído por um estudo de caso de neuroimagens e aspectos grafológicos, Tarantino (2019) expõe a análise da escrita de infratores, buscando, na relação de neuroimagens e o “derramar das patologias sobre as habilidades motoras”, evidenciar a escrita como desenho inconsciente cuja origem se encontra nas estruturas centrais do cérebro e podem auxiliar na identificação das características de personalidade no contexto criminal. Algumas das características de traçados mencionadas por Tarantino (2019) são letras esmagadas e queda no calibre (dimensão da letra no espaço) como indicativos de depressão e letras ascendentes que representam exaltação. No Brasil, existem contribuições que reúnem as consolidações grafológicas na investigação da personalidade, como a Grafoanálise Laboral (Pierry, 2010), que, por meio do embasamento em grandes nomes da psicologia (como Odette Van Kolck, Xandró, Walter Trinca e Vels, por exemplo) expõe a relação da simbologia do espaço por meio do grafismo e escrita. Ou seja, a posição/localização em que se encontram os traçados gráficos (região superior, esquerda, inferior, direita ou centro da folha), formas e qualidades dos traços e o que tais condições buscam evidenciar em termos de características da personalidade. Quanto aos testes psicológicos expressivos, atualmente existem dois instrumentos: o Teste Palográfico e o Psicodiagnóstico Miocinético (PMK). Ambos, apesar de disporem de referenciais teóricos e contextos históricos distintos, trazem como modulação do mecanismo de realização por parte do avaliado, o princípio do comportamento expressivo. Eles são amplamente utilizados em avaliações compulsórias para o levantamento de características específicas da personalidade (cargos de periculosidade, concessão do porte de arma de fogo, contexto do trânsito, dentre outros) (Mira, 2014; Brasil, 2014; CFP, 2018; Alves & Esteves, 2019). O Teste Palográfico - cujas análises quantitativa e qualitativa são marcadas por grandes nomes do comportamento expressivo e técnicas gráficas -, é composto pela realização de traçados verticais (denominados palos), os quais conforme a sua disposição e qualidade, evidenciarão ao profissional determinadas características de personalidade, como agressividade, impulsividade, produtividade. Assim como, demais aspectos que mostram a forma com a qual o sujeito reage aos contatos sociais - quer seja de maneira mais contida ou expansiva (Alves & Esteves, 2019). Nos últimos cinco anos, dentre os estudos que denotam a utilização de testes expressivos, especificamente em relação ao Palográfico, encontra-se o realizado por Fritzen e Sehnem (2018), que em uma pesquisa descritiva com abordagem qualitativa, realizou-se a identificação de traços de psicopatia em mulheres que cometeram crimes hediondos de homicídio no meio oeste catarinense. Este estudo utilizou técnicas padronizadas de coletas de dados. A amostra foi composta, inicialmente, por 76 detentas da ala feminina de um determinado presídio, em que 58 cumprem pena em regime fechado ou semiaberto. A amostra final foi composta por cinco mulheres que estavam cumprindo pena, que preencheram o critério de consumação de homicídio (Fritzen & Sehnem, 2018). Ao longo da investigação, foram utilizados o Teste Palográfico, o Teste das Pirâmides Coloridas de Pfister e uma entrevista semiestruturada formada por 21 itens, todos formulados com base nas variáveis que compõem o fenômeno da psicopatia (Fritzen & Sehnem, 2018). Do ponto de vista dos resultados, conforme se esperava na literatura, foram explicitadas características relacionadas à psicopatia nas participantes, porém, não o suficiente para se enquadrarem no diagnóstico. 80% das mulheres, por meio dos instrumentos aplicados (Pirâmides Coloridas de Pfister enquanto projetivo, Palográfico como expressivo e entrevista semiestruturada), apresentaram fortes traços de impulsividade (Fritzen & Sehnem, 2018). Em termos de irritabilidade e agressividade, 60% das mulheres apresentaram tais características ressaltadas. Já 100% da amostra evidenciou frieza, apatia e indiferença e 80%, por meio dos resultados de todos os instrumentos, apresentaram baixa emotividade, a qual é estritamente relacionada com a já citada indiferença (Fritzen & Sehnem, 2018). Na literatura científica, outro estudo comparou o perfil psicológico de profissionais que atuam em atividades que exigem criatividade com outros que exercem atividades que não requerem o seu uso. A amostra foi composta por 10 profissionais, sendo cinco considerados de “atividades criativas” (designers) e a outra metade, da “área não criativa” (atividades burocráticas, administrativas e financeiras) (Gomes & Schreiber, 2018). Os instrumentos utilizados na avaliação dos grupos, além da entrevista semiestruturada, foram: Teste Palográfico, para avaliar fatores comportamentais; Teste D2, para verificar a capacidade de atenção concentrada e o Teste Não-Verbal de Inteligência Beta-III (Gomes & Schreiber, 2018). Considerando a esfera comportamental, os autores partiram do pressuposto de que a manifestação criativa está relacionada à produtividade no trabalho e ao estado emocional do sujeito, i.e., produz-se mais quando está emocionalmente bem, e menos quando se experiencia sentimentos negativos. Esse dado foi confirmado no estudo, pois 4/5 dos avaliados da área criativa apresentaram baixa produtividade e oscilação no ritmo de trabalho (Gomes & Schreiber, 2018; Minicucci, 2002, citado por Alves & Esteves, 2019). Os autores fundamentaram também a tendência dos sujeitos criativos pouco estabelecerem a relação regrada com figuras de autoridade, porém, os resultados dos estudos, por meio da utilização do teste expressivo, não apontaram isso, o que possivelmente se justifica pelas atuais mudanças nas organizações e de relações humanas. Além disso, apesar de não ser uma amostra representativa, notou-se que, quando comparados ao grupo de pessoas que não exercem atividade criativa, demonstram maior flexibilidade, motivação, autoconfiança e energia (Gomes & Schreiber, 2018). Outro estudo foi feito com o propósito de evidenciar a validade do teste Palográfico na avaliação da Depressão, considerado o primeiro que aborda a relação do referido teste com a condição psicopatológica citada. Para isso, foi utilizada uma amostra de 100 adultos alfabetizados, com idades entre 18 e 59 anos de ambos os sexos e de níveis de escolaridade distintos (fundamental, médio e superior). Deste montante, 50 compôs o grupo clínico (depressão, devidamente diagnosticada como Transtorno Depressivo) e 50 pertenceram ao grupo controle (Angnes, 2021). Os resultados dos dois grupos foram comparados considerando as seguintes medidas do Teste Palográfico: produtividade, ível de Oscilação Rítmica (NOR), distância entre palos, distância entre linhas, direção das linhas, tamanho dos palos, impulsividade, margens superior, direita e esquerda, porcentagem de arpões, e qualidade e pressão dos traçados (Angnes, 2021). De maneira geral, os principais indicadores de traços depressivos no Palográfico não foram sensíveis na diferenciação entre os grupos clínico e controle. No entanto, algumas variáveis entre os grupos tiveram diferenças significantes. No grupo masculino, observou-se agressividade e alta produtividade, já no feminino, impulsividade, extroversão e reatividade (Angnes, 2021). Apesar de se tratar de uma amostra reduzida, além de não considerar isoladamente os indicadores de depressão no Palográfico para avaliação da depressão, a autora esclareceu haver possíveis influências, como o uso de psicotrópicos (aumento de produtividade e agressividade, que em uma depressão não tratada tendem a ser baixos) ou, ainda, comorbidades que exercem controle sobre o comportamento expressivo (Angnes, 2021). Seguindo com algumas considerações sobre testes e técnicas expressivas que visam à avaliação de características de personalidade, assim como estudos que fomentem tal propósito, há de se mencionar outro instrumento expressivo - o Psicodiagnóstico Miocinético (PMK). Ele traz uma fundamentação voltada às bases neurais de emoções como controladoras dos atos motores, envolvendo assim um padrão de desenvolvimento neuromuscular, no qual não existe uma emoção sem uma ação (Cruz et al., 2014; Mira, 2014; Arsuffi, 2019). Em sua aplicação, o avaliado realiza uma série de traçados, que variam conforme o exercício solicitado e que, por fim, trarão informações sobre diferentes formas com as quais o sujeito age em situações da vida, abarcando aspectos como rigidez, emotividade, impulsividade, agressividade, etc. (Cruz et al., 2014; Mira, 2014; Arsuffi, 2019).

Apesar de possuir alto grau de complexidade e riqueza nas informações fornecidas na sua utilização, favorece, por exemplo, a avaliação psicológica no contexto da aviação civil, segurança pública e concessão da Carteira Nacional de Habilitação (CNH) (Cruz et al., 2014; Mira, 2014; Arsuffi, 2019). Atualmente, são encontrados poucos estudos publicados sobre o PMK. Dentre eles, Arsuffi (2019) investigou características de personalidade em grupos clínicos. A amostra foi composta por 122 adultos com idades entre 18 e 54 anos (DP = 8,75). Eles foram divididos em três grupos, sendo um sem diagnóstico de transtornos mentais, outro com sujeitos depressivos e, um terceiro, com esquizofrenia. O estudo evidenciou que o PMK é um instrumento sensível para identificar características entre os três grupos. Por fim, apesar de não compor o rol das técnicas e instrumentos expressivos, em 2018, no 10º Congresso AIDAP/AIDEP de Diagnóstico e Avaliação Psicológica de Coimbra, foi publicado um estudo que diz respeito às dimensões expressivas nas Figuras Complexas de Rey-Osterrieth -instrumento psicológico que objetiva avaliar a capacidade grafo-perceptiva ou visuo-construtiva (Trigo et al, 2018). Nesse estudo, os autores construíram um sistema de cotação do instrumento que envolvesse indicadores cognitivos, emocionais e de personalidade, dispondo de uma amostra por conveniência composta por 200 sujeitos, de ambos os sexos, com idades entre 18 e 65 anos e de diferentes níveis de escolaridade. Os autores elencaram sete indicadores expressivos: (1) comportamento perante a prova; (2) traçado; (3) topologia; (4) estruturação; (5) temáticas latentes; (6) sinais com significados especiais; e (7) informações e procedimentos complementares (Trigo et al., 2018). Em (1), foram considerados comportamentos e expressões mímicas, que tendem a elucidar, ao profissional, a ressonância de vivências mais íntimas por meio da observação. Já em (2), tem-se o significado grafo-expressivo do conjunto de traços necessários para a realização das figuras do teste: ritmo, pressão do lápis leve ou pesada, (ir)regularidades (retraçados, rasuras) e precisão dos traçados. Em (3), consideraram a dimensão do desenho e seu ajustamento à folha de resposta, abarcando assim as margens e posicionamento (Trigo et al., 2018). Para a estruturação (4), os aspectos de organização e possíveis deformações das figuras (assimetria, tipo de organização, esvaziamento, fragmentação, detalhismo, limite e perseveração) foram avaliados. Em temáticas latentes (5), foram considerados o aspecto expressivo da carga emocional, abarcando deformações, arrastamentos de elementos, sinais ou pontos de reunião, traçados bizarros e sucessão do tipo de organização (Trigo et al., 2018). Quanto aos sinais com significados especiais (6), existem as manifestações “sem cabimento” com relevância clínica, tais como o esquecimento ou arrastamento de elementos significativos, sinais de reunião ou sucessão do tipo de organização. Por fim, em (7), foram considerados os procedimentos que auxiliaram a compreensão clínica, como o tempo de execução e procedimento de inquérito dos limites das figuras (Trigo et al., 2018). Os resultados indicaram a necessidade de maiores discussões e ampliação da amostra. No entanto, deixaram claro que a organização perceptiva e ação grafo-motora do sujeito apresentam estrita relação com processos emocionais, conativos, afetivos, situacionais e cognitivos. Além disso, quando o sujeito se depara com a necessidade de resolver algum problema, são mobilizados não só os recursos intelectuais, mas os de ordem afetiva, emocionais e de personalidade, passíveis de manifestação via movimentos gráficos (Trigo et al., 2018).

4. Discussão

Ao longo da revisão foi possível evidenciar que, dentre as diferentes perspectivas na conceituação da personalidade, existem aquelas que focam na presença de conteúdos de ordem manifesta e latente. Sendo assim, a personalidade humana, segundo determinadas teorias, dispõe de conteúdos que são observáveis de maneira mais objetiva e, de outros que não são vistos em uma simples observação (Hall, et al., 2000; Hutz, 2015; Reppold et al., 2020; Pinto, 2014; Lins, 2022). Neste último caso, a psicologia possui subsídios para maior compreensão e evidência de tais conteúdos: os testes psicológicos e demais técnicas que devem, em ambos os casos, serem escolhidos com base na cientificidade. Além do cuidado na escolha do instrumento que facilitará ao(à) psicólogo(a) a investigação da personalidade, foi notada a importância desses profissionais se atentarem à diferenciação entre os tipos de testes psicológicos existentes: os ordem projetiva (estímulos não estruturados e de cunho psicodinâmico) e os expressivos (respostas idiossincráticas ao ambiente), sendo este o foco deste artigo (Cruz et al., 2014; Alves & Esteves, 2019; Pinto, 2014; Lins, 2022). Antes de discutir propriamente sobre a importância dos testes psicológicos e instrumentos relacionados à manifestação do Comportamento Expressivo, é fundamental elucidar que ele consiste em processos idiossincráticos de resposta às situações do ambiente e, assim, evidencia a manifestação de conteúdos afetivo-emocionais (inconscientes) do sujeito, favorecendo a compreensão da personalidade. Isto é, a forma com a qual o sujeito age, percebe e reage frente a diferentes situações de sua vida (Allport, & Vernon, 1933; Klages, 1959; Van Kolck, 1975; Van Kolck, 1984, citada por Esteves & Alves, 2018; Alves & Esteves, 2019). Autores como Rosenzweig (1949), Trinca (2003) e Van Kolck (1975, 1984) fundamentaram que o comportamento expressivo se manifesta também por meio de traços gráficos. Assim, são pontos nodais dos processos expressivos: desenhos, pinturas e rabiscos, sejam espontâneos ou dirigidos. Tais recursos representam o ato motor como agente da manifestação expressiva - refletindo, assim, a afirmação feita por Emanuel Hammer, sobre a “honestidade dos músculos”: quando o sujeito esconde algum conteúdo afetivo, o movimento muscular, investido, por exemplo, no ato gráfico, o denuncia. Desde a infância o indivíduo goza do rabisco expressivo - linhas que trazem não só o prazer motor, mas cargas emocionais arcaicas, dispondo de forma e qualidade - tomando características de angularidade, horizontalidade, aspecto espiral e espessura. Por exemplo, a gratificação e frustração são representadas via rabisco, por linhas arredondadas, grossas e fragmentadas, respectivamente (Quaglia & Saglione, 1976; Longobardi, Pasta, & Quaglia, 2012; Longobardi, Quaglia, & Iotti, 2015; Quaglia et al., 2015, citados por Grubits & Oliveira, 2020). O comportamento expressivo, ao passo que apresenta propensão a acompanhar o desenvolvimento humano, possibilita favorecer, mediante estudos sistematizados, a elaboração de estudos com testes psicológicos e outras técnicas expressivas que viabilizam a avaliação de características de personalidade (Quaglia & Saglione, 1976; Longobardi, Pasta, & Quaglia, 2012; Longobardi, Quaglia, & Iotti, 2015; Quaglia et al., 2015, citados por Grubits & Oliveira, 2020). Desta forma, acredita-se que, ao longo do crescimento, o comportamento expressivo continua se manifestando. Sendo ele comprovado não só por meio de testes psicológicos expressivos vigentes, mas tambémpotencializado por estudos elaborados ao longo dos anos (Fritzen & Sehnem, 2018; Gomes & Schreiber, 2018; Anges, 2021). Cabe ressaltar um outro ponto do estudo de Fritzen e Sehnem (2018), sobre a identificação dos traços de psicopatia. Apesar de abranger uma amostra um pouco reduzida e, ainda, pertencente a um contexto específico, sabe-se que a utilização pluralizada de testes e técnicas de categorias distintas (Bleger, 1980/2011; Villemor-Amaral, 2017; Alves & Esteves, 2019), possibilitou o favorecimento da evidência de características de personalidade em comum entre as participantes - sugerindo, ainda, a eficácia do teste expressivo como recurso subsidiário no levantamento de tais aspectos, os quais também foram evidenciados nos demais instrumentos. Desta forma, os dados levantados por meio do teste projetivo e entrevista também foram notados no teste expressivo. Apesar do foco do estudo não ser o fornecimento de dados estatísticos que representem, por exemplo, a magnitude da correlação entre os instrumentos e seus respectivos achados, considera-se tal ideia como motivadora para a realização de futuros estudos da categoria, fortificando, assim, a eficiência dos testes expressivos. É válida a discussão, também, sobre o estudo realizado em Coimbra, cujos autores buscaram evidenciar as dimensões expressivas nas Figuras Complexas de Rey-Osterrieth. Conforme visto nos resultados, Trigo, et al. (2018) elencaram indicadores expressivos, sendo que a maioria deles possui forte aproximação a algumas condições vistas no Palográfico (Alves & Esteves, 2019), as quais também representam, em algum nível, indicadores afetivo-emocionais: (I) ritmo da execução da tarefa; (II) pressão e qualidade dos traçados; (III) irregularidades dos traçados; (IV) ajustamento dos traçados com relação às margens e (V) organização. Apesar de se tratar de um estudo que requer ampliação amostral, os autores afirmaram que quando o sujeito se depara com a necessidade de resolver problemas ou de realizar determinadas atividades, mobilizam-se não só os recursos intelectuais, mas entram em cena conteúdos afetivo-emocionais e, assim, de personalidade, que, conforme visto, podem surgir por meio de movimentos gráficos (Allport & Vernon, 1933; Klages, 1959; Van Kolck, 1975; Van Kolck, 1984, citada por Esteves & Alves, 2018; Trigo et al., 2018). Tal constatação fomenta a riqueza instrumental em termos de evidência de características de personalidade do Teste Palográfico (Alves & Esteves, 2019), uma vez que, ao avaliado, há a determinação de uma tarefa padronizada (realização de traçados) e que exige, por sua parte, atenção, ritmo e organização, facilitando, assim, a manifestação do comportamento expressivo e os aspectos afetivo-emocionais que dele emergem. Ao longo desse manuscrito, foi evidenciada uma outra técnica que, apesar de não ser reconhecida no Brasil para utilização conjunta à Psicologia (CFP, 2010), tende a ser difundida nos países europeus: a grafologia, reconhecida no estrangeiro como método científico de investigação da personalidade por meio da escrita - um outro componente do comportamento expressivo. Apesar de a grafologia ter sido inserida no contexto criminal por Cesare Lombroso, o estudo de Tarantino (2019) não traz, em seu molde, um caráter estigmatizante. Mostra, então, o quão o comportamento expressivo pode ser compreendido por meio da associação às informações neurobiológicas, ainda mais se tratando às formas de contenção de impulsos ou liberação deles (córtex frontal e posterior). Somando-se ao controle de movimentos corporais por parte do cérebro, a afirmação de Tarantino (2019) é reforçada, pois há o “derramar das patologias sobre as habilidades motoras” - entendendo-se patologia como demandas afetivo-emocionais - que, quando feita uma releitura e compreensão articuladas às condições biopsicológicas, endossam o Comportamento expressivo enquanto inerente à espécie humana, possibilitando sua manifestação por meio de movimentos investidos, também, nas atividades gráficas (Quaglia & Saglione, 1976; Longobardi, Pasta, & Quaglia, 2012; Longobardi, Quaglia, & Iotti, 2015; Tarantino, 2019; Quaglia et al., 2015, citados por Grubits & Oliveira, 2020). O ponto discutido traz, também, a consideração crítica sobre a variação cultural que o comportamento expressivo é alvo e, ainda, o quanto da subjetividade humana é projetada no conceito puro de fazer ciência. Isto é, “não se pesquisa determinado tema por pura moção narcísica” ou, de fato, “porque não é útil à população?”. Se tratando de personalidade e comportamento expressivo, a segunda pergunta pode ser tendenciosa, haja vista a carência de estudos com o tema e a necessidade de instrumentos expressivos para a avaliação da personalidade. Melhor explicando o posicionamento crítico, percebeu-se, ao longo das buscas por pesquisas que compuseram este manuscrito, que o Brasil pouco dispõe de publicações abrangendo testes e outras técnicas expressivas. A grafologia, conforme visto, tende a ser um recurso expressivo empregado no exterior e que, pelo fato de o próprio comportamento expressivo ser passível de influência cultural, necessitaria de estudos e adaptação à população brasileira (Klages, 1959). Salienta-se, ainda, que em 2014 o projeto de lei que regulamentaria a profissão de grafólogo foi arquivado (CFP, 2010). Por fim, pergunta-se: o quão, em termos de aprovação de técnicas para uso das(os) psicólogas(os) há mobilização para a ampliação dos métodos expressivos na investigação de personalidade?

Escalas de autorrelato, por exemplo, possuem sua facilidade/rapidez de aplicação, correção e interpretação - o que não as reduz a instrumentos de qualidade inferior e que não demandam técnica, visto que, há por trás delas uma complexidade científica. No entanto, basta consultar o Sistema de Avaliação de Testes Psicológicos (SATEPSI) e será notável o contrapeso da quantidade de escalas em detrimento de testes expressivos. Diante da atual condição da produção científica envolvendo testes e instrumentos expressivos, os achados desta revisão de literatura revelam escassez nas publicações sobre o comportamento expressivo, bem como, das pesquisas que envolvem técnicas e instrumentos psicológicos relacionados a esse constructo. Apesar disso, nos estudos localizados, especificamente envolvendo o Palográfico, notou-se que ele consiste em um instrumento promissor no que tange à investigação de características de personalidade e, assim, de grande utilidade no trabalho das psicólogas. Por outro lado, há ainda a carência de publicações, por exemplo, envolvendo o Psicodiagnóstico Miocinético (PMK), além da ênfase de análise das características expressivas contidas em outros tipos de materiais, como os desenhos. A ciência psicológica, atualmente, está municiada por instrumentos que avaliam a personalidade por meio do comportamento expressivo, mas se trata de um rol restrito, que necessita da ampliação de estudos - isto é, difundir dados empíricos de modo a favorecer não só compreensões mais lúcidas sobre a manifestação do comportamento expressivo, mas subsidiar a prática profissional no que tange à Avaliação da Personalidade.

5. Considerações finais

O objetivo deste artigo, foi, por meio da articulação e discussão teórica a partir de uma revisão de literatura narrativa, compreender como os testes e técnicas expressivas favorecem o trabalho das psicólogas na avaliação das características de personalidade. Foi possível compreender que o comportamento expressivo é caracterizado como uma resposta individualizada do sujeito frente a diversas situações da vida, além de permitir a manifestação das características de personalidade por meio de movimentos do corpo. O comportamento expressivo acompanha o sujeito desde sua infância. Isso possibilita a hipótese de que quando se aplica uma atividade que exige do sujeito, e.g., a elaboração de traços, de alguma forma estarão contidos no grafismo aspectos formais e qualitativos que traduzirão características afetivo-emocionais daquele que os fez. Quando se refere ao comportamento expressivo e realização de traçados, pode-se pensar, por um momento, na presença de rabiscos e desenhos espontâneos. E, de fato, há essa possibilidade, desde que o profissional se proponha a analisar o conteúdo com base em teorias científicas. Quando se opta por recorrer aos testes psicológicos como procedimentos sistemáticos, torna-se importante o processo de padronização e normatização. Especificamente sobre o comportamento expressivo, falar em padronização e normatização não implica limitar a amplitude de movimentos musculares ou de livre expressão, mas, sim, delimitar uma metodologia de pesquisa. Desta forma, há a necessidade de demarcar, dentro de um contexto, a forma com a qual tende ocorrer a manifestação de características de personalidade das pessoas que lá estão localizadas e que poderão, ser mensuradas e evidenciadas por meio de determinado teste. A recomendação final apoia-se na necessidade da constante elaboração de estudos científicos que envolvam a utilização de testes e técnicas expressivos, de modo a favorecer a ampliação de recursos subsidiários à investigação e compreensão de características de personalidade por meio do comportamento expressivo. Dessa forma, a Avaliação Psicológica como processo que dispõe de testes e outras técnicas será alvo crescente de atualizações e, assim, fará da Psicologia enquanto ciência, uma profissão cujo zelo e comprometimento com os seus propósitos tenderão à maior consolidação: promoção, prevenção e orientação em saúde por meio da compreensão do ser humano no contexto em que vive.

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Recebido: 15 de Novembro de 2023; Revisado: 10 de Abril de 2024; Aceito: 20 de Agosto de 2024

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