Introdução
A Internet pode ser compreendida como uma rede mundial complexa que transmite e propaga informações, conectando computadores e pessoas do mundo todo, transcendendo o espaço físico (Monteiro et al., 2022). Essa tecnologia surgiu na década de 1970 nos Estados Unidos com o objetivo de conectar cientistas e professores universitários residentes em diversos locais (Toledo et al., 2022). Gradativamente, se tornou acessível ao público geral, a ponto de atualmente estar presente no cotidiano de aproximadamente 4,9 bilhões de pessoas, ou seja, de mais da metade da população mundial (International Telecommunications Union, 2021). Com o surgimento da internet e os constantes avanços das tecnologias de informação e comunicação, dispositivos como smartphones, tablets e notebooks têm se tornado indispensáveis no dia a dia das pessoas (Martin, 2019). Essas tecnologias têm transformado a maneira como os indivíduos se comunicam, captam e compartilham informações e opiniões (Szwarcwald et al., 2021). As funcionalidades da internet proporcionam aos usuários uma experiência agradável que cria e reforça a necessidade psicológica de manter e ampliar o seu acesso (Siqueira, 2023). Dentre as principais funcionalidades da internet destacam-se a possibilidade de conectar-se com pessoas de diferentes lugares por meio das redes sociais, comunidades virtuais e chats (Cutrín et al., 2017), de obter lazer através de jogos online (Genc et al., 2024), de utilizar ferramentas e aplicativos com finalidades de ensino e aprendizagem (Ghashim & Arshad, 2023) e de gestão organizacional (Isaac et al., 2007; Thomas, 2014), além de adquirir produtos online (Ko et al., 2020). A partir de suas inúmeras vantagens, a internet se transformou em um fenômeno global nas últimas décadas. No entanto, o seu amplo alcance tem estimulado debates importantes no campo da ciência psicológica. Observa-se que a combinação entre internet, dispositivos digitais (como tablets, computadores e smartphones) e redes sociais têm desempenhado um papel fundamental na sociedade contemporânea, principalmente no que se refere à adesão a um novo contexto comunicativo. Embora o uso da internet seja positivo em muitas áreas, para fins privados e/ou comerciais, nota-se uma crescente tendência de dependência por parte de seus usuários, fenômeno que se tem denominado de uso compulsivo da internet (UCI). O UCI refere-se a um padrão comportamental caracterizado por um desejo incontrolável de usar a internet (Akungu et al., 2024). Essa relação desadaptativa com a internet pode promover alterações de humor e sintomas de abstinência quando seu consumo é reduzido ou interrompido (Khazaal et al., 2021), resultando, potencialmente, em sofrimento clinicamente significativo e prejuízos no funcionamento psicológico, social e ocupacional (Yamada et al., 2016). O UCI tem despertado o interesse de vários pesquisadores, principalmente em decorrência de suas consequências negativas, a exemplo da impulsividade (Zych et al., 2023), isolamento, solidão (Casas et al., 2013), ansiedade (Singh et al., 2022) e diminuição do desempenho acadêmico (Chang et al., 2019). Diante dessas consequências, a Organização Mundial de Saúde tem se posicionado sobre o assunto, compreendendo o UCI como um novo problema de saúde pública que merece atenção e que convoca a necessidade de desenvolver projetos de intervenção para minimizar o impacto de tal consumo na vida e na saúde mental dos usuários (Pantic et al., 2017). Essa problemática tem fomentado o desenvolvimento de estudos que visam identificar variáveis potencializadoras do UCI. O estudo proposto por Xiuqin et al. (2010) investigou a relação entre os estilos parentais e a dependência da internet em crianças e adolescentes. Os autores demonstraram que jovens que utilizam compulsivamente a internet classificaram comportamentos parentais como sendo excessivamente intrusivos, punitivos e carentes de responsividade. Além dos estilos parentais, é possível localizar na literatura estudos que visam conhecer a relação entre o UCI e a personalidade (e.g., Monteiro & Mota, 2021). Considerando o modelo dos Cinco Grandes Fatores da Personalidade, os resultados de diferentes estudos demonstram relações negativas entre o UCI e os traços de extroversão, amabilidade, conscienciosidade e abertura à mudança, além de uma relação positiva com o traço de neuroticismo (D’água, 2017; Silva & Nakano, 2011). O estudo do comportamento dos indivíduos nas redes sociais é imprescindível, especialmente porque possibilita identificar perfis de pessoas a partir de suas preferências e, além de outras finalidades, estimar se o uso da internet está relacionado à busca pela obtenção de gratificações, o que poderia acarretar comportamentos compulsivos e, portanto, prejudiciais ao bem-estar (Kuss & Griffiths, 2011). Considerando a importância dos traços de personalidade para a compreensão do UCI, o presente estudo buscou investigar o papel dos traços “sombrios” da personalidade na compreensão do comportamento compulsivo em questão. O modelo teórico conhecido como Tríade Sombria da Personalidade, originalmente nomeado de Dark Triad (Gouveia et al., 2016), tem sido aplicado em diferentes estudos que buscam compreender comportamentos online (Lee & Lim, 2021; Sindermann et al., 2018). Esse modelo reúne os traços de maquiavelismo, narcisismo e psicopatia, que correspondem a traços aversivos relacionados à autopromoção, falta de empatia, dissimulação, agressividade, manipulação interpessoal e insensibilidade e que, possivelmente, podem se constituir como importantes variáveis preditoras do UCI (Monteiro, 2017). Apesar de recente, esse modelo teórico tem sido utilizado para compreender variadas atitudes, características e comportamentos aversivos, como, por exemplo, uso de engano nas relações (Silva Neta et al., 2021), ciúme romântico (Monteiro et al., 2022), corrupção e punição (Caputo & Modesto, 2020), podendo ser também efetivo para a compreensão de comportamentos compulsivos, como o UCI. De modo mais específico, o traço de maquiavelismo descreve uma tendência pessoal à instabilidade e ao afastamento da moralidade convencional, permitindo que o indivíduo busque enganar e usar os outros em benefício próprio (Gouveia et al., 2016). O traço de maquiavelismo é marcado pelo uso de engano, de manipulação e de estratégias interpessoais para garantia de interesses próprios (Jakobwitz & Egan, 2006), o que, no contexto da utilização da internet, pode estar relacionado à preferência por jogos online e jogos de azar online (Kircaburun & Griffiths, 2018). Segundo Gabbard (2022), o narcisismo, por sua vez, é caracterizado pela necessidade de admiração excessiva, exibicionismo, arrogância, superioridade e falta de empatia pelos outros. Esse traço de personalidade tem atraído a atenção de pesquisadores nos últimos anos em razão de o espaço virtual ter se tornado um ambiente ideal para que os indivíduos possam atingir objetivos narcisistas (Casale & Fioravanti, 2018). As redes sociais são ambientes virtuais propícios para manifestação e aumento de características narcisistas, pois esses espaços colaboram para autopromoção e marketing pessoal dos usuários na forma de posts de imagens e vídeos (Kircaburun & Griffiths, 2018). Nesses posts, os usuários tendem a apresentar-se como sociáveis, comunicativos, inteligentes e atraentes, num esforço significativo por elevar o seu alcance, número de amigos, likes, comentários e compartilhamentos (Pantic et al., 2017). O estudo de Malik e Khan (2015), por exemplo, demonstrou relações positivas entre o uso da internet e comportamentos narcisistas. Os pesquisadores verificaram ainda que indivíduos com altas pontuações nesse traço de personalidade apresentam uma maior frequência de postagens de autorretratos (Malik & Khan, 2015). Finalmente, o traço de psicopatia representa indivíduos com fortes características de impulsividade, carência de emoções, charme superficial e baixa empatia (Vaurio et al., 2022). Pessoas com altas pontuações no traço de psicopatia tendem a desrespeitar regras socialmente impostas e direitos de outras pessoas (Jones & Paulhus, 2014). Além disso, já existem evidências de que apresentam elevada probabilidade de desenvolverem UCI (Sindermann et al., 2018). Suas ações mais comuns no ambiente virtual podem envolver a emissão de comportamentos desviantes e antissociais, como cyberbullying, cyberstalking de parceiro íntimo (Smoker & March, 2017), jogos violentos, sexo cibernético e visualização de pornografia (Baughman et al., 2014). Apesar da relevância de se investigar o papel desses traços aversivos na adesão a comportamentos relacionados à internet, ainda não se propôs, especialmente em contexto brasileiro, iniciativas que busquem avaliar essa relação. Para atestar a incipiência de estudos com esse foco em amostras de brasileiros, realizou-se uma busca não-sistemática a partir do mecanismo de busca Google Scholar. Para tanto, utilizou-se os descritores “personalidade”, “traços sombrios da personalidade”, “uso compulsivo” e “internet” em língua portuguesa. As buscas resultaram em uma ampla gama de artigos sobre os impactos da dependência das tecnologias e da internet em aspectos do funcionamento psicológico, mas observou-se que nenhum deles pretendeu avaliar a relação entre os traços sombrios da personalidade a partir do modelo teórico Dark Triad e o UCI. Esta busca motivou a elaboração do presente artigo, o qual tem como objetivo geral conhecer a relação entre os traços sombrios da personalidade e o UCI em uma amostra de estudantes universitários brasileiros, testando, adicionalmente, se tais traços poderiam se constituir como variáveis preditoras desse comportamento compulsivo. Especificamente, propõe-se testar as hipóteses de que os traços de narcisismo, maquiavelismo e psicopatia se relacionarão positivamente com o UCI, constituindo-se também como variáveis preditoras desse comportamento.
Método
Participantes
Contou-se com uma amostra não-probabilística composta por 202 estudantes universitários de instituições de ensino públicas e privadas de uma cidade do interior do Piauí. A média de idade dos participantes foi de 20 anos (DP = 4,90), variando entre 18 e 53 anos, sendo a maioria do sexo feminino (65,8%).
Instrumentos
Além de questões sociodemográficas, como sexo, idade e tempo médio diário de uso da internet, os participantes responderam os seguintes instrumentos:
Escala de Uso Compulsivo da Internet. Essa escala foi validada para o contexto brasileiro por Medeiros et al. (2021). Trata-se de um instrumento unidimensional composto por 14 itens representativos de comportamentos de uso compulsivo da internet (e.g., “Você continua a usar a internet apesar de sua intenção de parar?”; “Você pensa na internet mesmo quando não está online?”). Os participantes indicaram as suas respostas a partir de uma escala de 5 pontos, variando de 0 (Nunca) a 4 (Frequentemente). Para a presente amostra, o coeficiente de consistência interna da medida foi satisfatório (α = 0,91).
Tríade Sombria da Personalidade. Essa medida foi validada para o contexto brasileiro por Gouveia et al. (2016). É um instrumento que reúne 12 itens, distribuídos em três dimensões “sombrias” da personalidade: maquiavelismo (e.g., “Costumo bajular os outros para conseguir o que quero”; α = 0,76), narcisismo (e.g., “Tendo a querer que os outros prestem atenção em mim”; α = 0,81) e psicopatia (e.g., “Tendo a ser insensível ou indiferente”; α = 0,77). Os itens foram respondidos a partir de uma escala Likert de 5 pontos, variando de 1 (Discordo totalmente) a 5 (Concordo totalmente). O coeficiente de consistência interna global da medida foi de 0,84.
Procedimentos
Primeiramente, os pesquisadores entraram em contato com diretores de instituições de ensino superior (IES) públicas e privadas de uma cidade do Piauí, informando-os sobre o objetivo da pesquisa e solicitando-lhes permissão para aplicação dos questionários nas IES. Após as suas autorizações, solicitou-se aos estudantes coletivamente, em sala de aula, que participassem da pesquisa. As respostas foram fornecidas individualmente. Na oportunidade, informou-se sobre o caráter voluntário da pesquisa, o sigilo das respostas, o objetivo da pesquisa, danos, benefícios leves e ainda que poderiam desistir da participação a qualquer momento sem quaisquer prejuízos. Essas informações constavam no Termo de Consentimento Livre e Esclarecido, que deveria ser necessariamente assinado por aqueles que se voluntariaram a colaborar. Todos os preceitos éticos estabelecidos na Resolução nº 510/16 do Conselho Nacional de Saúde foram respeitados, com registro de CAAE no 03674118.2.0000.5214. Foram necessários em média 20 minutos para que cada participante concluísse a participação.
Resultados
Inicialmente, calcularam-se as pontuações totais das variáveis do estudo. Especificamente, computou-se o fator geral de UCI e os fatores correspondentes aos traços sombrios da personalidade, isto é, maquiavelismo, narcisismo e psicopatia. Visando conhecer as relações entre essas variáveis, realizaram-se análises de correlação r de Pearson. Os resultados apontaram correlações significativas entre o UCI e os traços de maquiavelismo (r = 0,26; p < 0,001) e narcisismo (r = 0,35; p < 0,001). No entanto, não se observou correlação estatisticamente significativa com o traço de psicopatia (p > 0,05). Por fim, visando conhecer o poder explicativo dos traços de personalidade sombrios em relação ao UCI, realizou-se um conjunto de análises de regressão simples. Os resultados indicaram que os traços de maquiavelismo (β = 0,27; R2adj = 0,06; t = 3,75; p < 0,001) e narcisismo (β = 0,35; R2adj = 0,12; t = 5,29; p < 0,001) se mostraram variáveis preditoras de comportamentos de compulsão frente à internet. Por outro lado, a dimensão de psicopatia não se mostrou uma variável preditora desse tipo de comportamento (p > 0,05).
Discussão
No presente estudo, buscamos conhecer a relação entre os traços sombrios da personalidade (i.e., narcisismo, maquiavelismo e psicopatia) e o UCI, verificando, adicionalmente, se os traços poderiam se constituir como variáveis preditoras desse comportamento compulsivo. Os resultados corroboraram parcialmente as nossas hipóteses, uma vez que demonstraram que os traços de narcisismo e maquiavelismo constituem variáveis preditoras do UCI, ao passo que o traço de psicopatia não. Tais achados vão ao encontro daqueles que indicam o impacto potencial da tríade sombria na compreensão de comportamentos presentes nos meios digitais/virtuais. No que diz respeito ao traço de narcisismo, observou-se que este se relacionou positivamente com o UCI e também se constituiu como uma variável preditora desse tipo de comportamento. Isso indica que quanto mais um indivíduo tem características do traço de narcisismo (aqui abordamos a sua variação subclínica), caracterizado por baixa empatia, senso de direito, autoadmiração, grandiosidade, autoconfiança e exibicionismo, maior é a sua tendência para usar compulsivamente a internet. A propósito, as redes sociais se apresentam como um espaço de utilização comum a indivíduos com essas características, tendo em vista que seus egos são reforçados por comportamentos de autopromoção e admiração dos seus próprios atributos (Muris et al., 2017). Conforme o estudo de McCain e Campbell (2018), indivíduos com características narcisistas usam as redes sociais para se autopromover, seja postando muitas selfies, atualizando as fotos de seu perfil frequentemente ou passando mais tempo editando as suas fotos, além de darem grande importância aos feedbacks (curtidas e visualizações). Essas atividades demandam significativa quantidade de tempo nas redes, intensificando sobremaneira o uso da internet. Com relação ao traço de maquiavelismo, os resultados também indicaram que esse traço se relacionou com o comportamento de compulsão pelo uso da internet. O traço de maquiavelismo refere-se a comportamentos manipulativos e de adesão a crenças cínicas, de maneira que pessoas com altos níveis nesse traço concentram-se em seus próprios interesses e visionam outras pessoas como ferramentas ou meios para atingir um fim (Gouveia et al., 2016). Assim, esses achados supõem que a internet, para indivíduos com essas características, pode funcionar como um terreno fértil para o desenvolvimento de condutas de manipulação e hostilidade. Estudos têm demonstrado que tanto o narcisismo quanto o maquiavelismo estão positivamente associados ao uso problemático das mídias sociais, seja com relação ao engajamento em jogos violentos online, ao uso excessivo das redes sociais, bem como de sites de relacionamento amorosos. Dessa forma, usuários com essas características costumam destinar elevado número de horas para utilização dessas plataformas, onde buscam se envolver em atividades de manipulação interpessoal e autopromoção enganosa (Zeigler-Hill & Trombly, 2018). No que se refere ao traço de psicopatia, não observamos, para a presente amostra, relações significativas com o UCI. A conduta de pessoas que pontuam alto nesse traço nos meios digitais está associada à emissão de comportamentos desviantes e antissociais, como cyberstalking de parceiro íntimo (Smoker & March, 2017), sexo cibernético e consumo de pornografia online (Baughman et al., 2014), além de serem comuns preferências de entretenimento social, como redes sociais que permitem mensagens instantâneas e que contêm salas de bate-papo online (Sindermann et al., 2018). A psicopatia é considerada o traço mais tóxico da personalidade sombria, sendo caracterizado pela frieza, embotamento afetivo, senso grandioso de autoestima, comportamento manipulador, impulsividade e falta de empatia (Medeiros et al., 2017). Dos três traços sombrios, somente a psicopatia pode ser pensada como uma variável dimensional, de maneira que o traço psicopático das pessoas varia ao longo de um continuum em função da quantidade do traço que cada uma possui. Assim, de acordo com essa perspectiva, os indivíduos não são unicamente classificados como psicopatas ou não psicopatas (ver Monteiro, 2017). No extremo final desse continuum estariam as pessoas caracterizadas como psicopatas a nível clínico, as quais apresentam um padrão de disfuncionalidade que as impede de conviver em sociedade. Claramente visíveis, existem manifestações da psicopatia claramente visíveis no cotidiano das pessoas da população geral. Essas manifestações podem ser caracterizadas como psicopatia subclínica, remetendo à presença de traços de psicopatia não tão acentuados, o que possibilita que os indivíduos que os possuem tenham uma vida típica em sociedade (Coelho & Paixão, 2014; Monteiro et al., 2015). No presente estudo, investigamos a manifestação mais branda da psicopatia em relação ao UCI. Embora outros estudos tenham observado a relação entre tal traço e comportamentos dependentes, impulsivos e irresponsáveis em amostras de estudantes universitários e da população geral (ver Monteiro, 2017), esses são resultados menos frequentes do que aqueles observados para as relações entre maquiavelismo e narcisismo com outros construtos psicológicos. É provável que o traço de psicopatia não tenha se mostrado uma variável preditora do UCI porque este é o traço menos característico de amostras gerais (isto é, não clínicas), como é o caso da amostra atual (Medeiros et al., 2017). Ainda, é possível que a pontuação no traço de psicopatia não tenha sido observada devido ao seu alto grau de desejabilidade social. A medida de personalidade sombria é um instrumento de autorrelato extremamente sensível a esse viés. Logo, é possível que os participantes tenham, em alguma medida, distorcido suas respostas por considerarem-nas socialmente indesejáveis. Pesquisas com medidas implícitas poderiam aprofundar esse debate e permitir conclusões mais seguras a esse respeito. Outro fator limitante do presente estudo é a natureza da amostra. Contamos com uma amostra de conveniência (não probabilística), o que impossibilita a generalização dos achados para a população cuja amostra foi extraída. Desse modo, sugere-se que estudos futuros possam considerar amostras maiores e mais diversificadas, que incluam, por exemplo, extratos da população geral (isto é, não apenas universitários). Além disso, é importante que novos estudos sobre a temática incluam medidas de desejabilidade social a fim de controlar os seus efeitos e reduzir possibilidades de falseamento das respostas (Medeiros et al., 2017). Ainda, é preciso citar a limitação pertinente ao delineamento correlacional. Será fundamental verificar a posteriori, a partir de estudos experimentais, a relação entre a dependência da internet e os traços sombrios da personalidade. A esse respeito, pode ser importante testar modelos de mediação que considerem os traços como variáveis independentes, o UCI como variável dependente, e outros construtos, como os valores, por exemplo, como mediadores (ver Gouveia, 2013). Assim, poderá ser oportuno testar a hipótese de que valores de experimentação (i.e., emoção, prazer e sexualidade) e realização (i.e., êxito, poder e prestígio) medeiam indiretamente a relação entre os traços sombrios e o UCI. Se esse modelo de mediação se revelar estatisticamente significativo, isso indicará que quanto mais as pessoas apresentam tais características negativas em sua personalidade, mais endossam valores de experimentação e realização e, consequentemente, mais se sentem dependentes do uso da internet. Pode ser também relevante verificar em estudos futuros se a relação entre os traços sombrios e o UCI é moderada por variáveis individuais, como o tipo de ocupação/profissão. Estimamos que o tipo de ocupação pode influenciar significativamente o tempo de uso da internet (e, por conseguinte, o grau de dependência deste recurso), de maneira que pessoas que trabalham com recursos digitais e que pontuam alto nessas características de personalidade podem apresentar mais comportamentos excessivos em relação à necessidade de estar conectado do que aqueles indivíduos que trabalham presencialmente ou que exercem atividades não necessariamente vinculadas à internet. Em síntese, os resultados do presente estudo oferecem contribuições importantes ao indicarem que os traços de narcisismo e maquiavelismo se apresentam como fatores potenciais para entender os comportamentos de dependência da internet, configurando-se como características que podem colocar os indivíduos em uma posição vulnerável para experimentar o UCI.
Considerações Finais
A presente pesquisa buscou elucidar o papel dos traços sombrios da personalidade na compreensão do UCI. Os resultados indicaram que, para a presente amostra, os traços que se correlacionaram a esse construto foram o narcisismo e o maquiavelismo. A psicopatia, por sua vez, não se mostrou um correlato ou preditor do UCI. O traço de narcisismo foi aquele que se relacionou mais fortemente com o comportamento em questão. Isso indica que aqueles que endossam em maior medida tal traço encontram no ambiente online estímulos para estarem cada vez mais conectados, o que pode acontecer em razão de sua busca pela autossatisfação através das interações nas redes sociais (e.g., facebook, instagram, twitter), em jogos online, em sites de relacionamento ou em outras ferramentas e aplicações digitais. Em síntese, o presente estudo forneceu contribuições importantes para esclarecer o papel de características intrínsecas na compreensão de um comportamento que vem se tornando cada vez mais recorrente na vida social e que tem afetado a qualidade de vida e dos relacionamentos interpessoais. Não se pretendeu nesta oportunidade esgotar o debate sobre a relação entre personalidade sombria e UCI, mas estimular a produção teórica e empírica sobre esse fenômeno de interesse social.














