"O Êxtase das Coisas" é uma obra preciosa desde a capa, onde Lady Hamilton, retratada como Circe por George Romney (c. 1782), é iluminada por um jogo de luz magistral que realça um lado de seu rosto angelical e o colo direito da jovem de 17 anos. A técnica do “sfumato” suavemente sombreia o lado esquerdo do rosto e ombro, conferindo ao retrato inacabado uma qualidade evocativa. Essa imagem inacabada parece refletir a própria abordagem de Walter Trinca, que nos ensina, através de uma escrita poética, elegante, refinada, precisa e inovadora, a contrastar a etérea leveza do ser interior com o peso sombrio do "assombroso do desconhecido" (p. 51). Tal como o retrato, a obra equilibra luz e sombra, explorando a complexa constelação dos inimigos internos que nos cercam. A personagem também sugere uma profunda diferença entre suas duas faces. A adolescente angelical e a bruxa Circe, poderosa deusa da Grécia antiga, feiticeira que transformava homens em animais. Circe tinha duas faces: a do amor e sonho e a da vingança e magia negra. A escrita de Walter Trinca nos traz o ensinamento da necessidade de buscarmos a harmonia do ser interior, a luz mesmo que no fim do túnel, a alegria de viver e superar o sofrimento do caos. Ele propõe um modelo metodológico que organiza o pensamento clínico do tipo compreensivo na busca da compreensão da totalidade da pessoa, já ensinado em dezenas de livros seus desde os anos 70 e enriquecido no livro recém-lançado: “A organização do pensamento clínico em psicoterapia”. Dessa maneira, o autor extrapola as colocações de Freud, Bion, Klein e outros expoentes da psicanálise, e traz algo muito necessário na nossa prática clínica. Assim, a resenha do livro é fundamental para o campo da psicologia enquanto ciência e profissão. Na medida em que o mundo está mudando a psicanálise também precisa evoluir. A obra, no entanto, não desfaz dos conhecimentos primordiais da Psicanálise, mas com sua prática clínica, de mais de 50 anos, acrescenta com o Método Compreensivo, uma forma mais aberta, rica e original de compreender a mente humana. Ele propõe o conceito de “ser interior” diferenciando-o do conceito de “self”. O livro contém 33 capítulos pequenos, exemplarmente organizados de modo a permitir a feliz experiência de ir devagar, acrescentando novas reflexões sobre o modelo proposto. Na live de lançamento do livro, Walter Trinca disse que Freud afirmava “que o ego não é dono de sua casa” e acrescentou enfatizando: “é possível sim e deve ser dono da casa e deve pôr ordem na casa!!!”. Ele ensina que o Ser Interior é o organizador da mente.
Em nossa prática clínica com crianças vitimizadas pela violência, confirmamos as palavras do nosso professor. Durante a psicoterapia analítica, observam os que as mentes destroçadas, como dizia Di Loreto, que nos chegam, necessitam de acolhimento e competência para ajudá-las a superar a constelação de inimigos internos. Essas crianças trazem para as sessões, através de suas falas, desenhos e brincadeiras com brinquedos, a "casa destroçada" de suas vidas. Nosso trabalho é ajudá-las a reconstruir essa casa, permitindo que seu ser interior possa introjetar sentimentos edificantes e amorosos em todas as suas experiências, afastando-as da violência. Particularmente, no vinculo terapêutico esta é a constante. Reconhecer seus sentimentos nobres e quase exorcizar os destrutivos, visto que, por identificação com o agressor, essas crianças trazem muita agressividade destrutiva na sua constelação do inimigo, que ameaçam inclusive o vínculo com o psicoterapeuta. Essa reconstrução do ser interior é um trabalho hercúleo, mas de extrema alegria quando vemos a constelação dos inimigos internos ser vencida pela criança. Nesse momento, sentimos que estamos ajudando a criança a "colocar sua casa em ordem", como sugere Walter Trinca, fortalecendo seu ser interior através de uma vivência resiliente. Confesso que, nessas horas, nosso próprio ser interior experimenta a alegria que a função terapêutica nos proporciona, trata-se de um momento de júbilo que é difícil de silenciar. Walter Trinca mostra que os exemplos de vivência do destino imaterial do mundo real visam superar contradições, buscar harmonia pela organização das estruturas em conformidade com o que ensina a natureza. Temos que compreender os fenômenos do universo com o propósito de preservá-lo e harmonizá-lo e, quem sabe, copiá-lo. No capítulo 3, “O alcance da harmonia”, o autor traz esclarecimentos sobre a necessidade de se buscar a harmonia assim como se acreditava na antiga Grécia e na China. Ao pensarmos sobre o poder de destruição da desarmonia, logo vemos que, com o tempo, a ordem se restabelece, a criatividade compensa e a construtividade supera a destrutividade e o caos. As leis que regem a natureza segundo o princípio da vida permitem a incessante criação que resulta na realidade se reorganizando com harmonia, as aspirações da vida vencem a inércia, a destruição e o caos. Vida e ser se unificam seguindo o que a natureza organiza para “manter, coordenar e sintetizar as aspirações, algo fundamental para a existência individual e da espécie” (p. 35). A expressão plena da vida é harmoniosa e faz surgir “a imaterialidade como energia livre que recende das coisas” (p. 35).
O professor ensina que
A transfiguração não é um epifenômeno, é o destino da plenitude da realização do ser, que por vezes acontece. E, quando acontece, o ser esplende em vigor, harmonia e magnificência. Se nos seres vivos, a natureza consegue, ainda que raramente, atingir o alvo a que aspira, significa que, desde o início do movimento, há necessidade de completude (p. 40).
O ser busca se desabrochar e se expressar: “Da harmonia pode emergir a sublimidade da transfiguração” (p. 41). Sempre extrapolando seus dons poéticos, o autor nos descreve as cintilâncias da infinitude, de modo que podemos refletir sobre a finitude como algo natural, mais leve, fazendo parte da realidade. Existimos e, por isso, somos parte do universo e damos significado a ele em sua totalidade: “nos tornamos unificados com o todo” (p. 49), com “a união que dá significação à existência” (p. 50). Ele traz à luz uma verdade “o invisível é maior do que o visível”, ou seja, “o desconhecido está em toda parte” (p. 51). É baseado no conhecimento do que é visível e compreensível que é possível nos aproximarmos dos mistérios do desconhecido. A vida é um reservatório de surpresas em que sempre aparecerá algo novo a nos surpreender. O ser em sua singularidade se auto-organiza para se relacionar com o meio externo. A natureza lhe deu essa inteireza para ser feliz, aproveitando de todo esplendor da imaterialidade. A alegria de viver depende de como o ser se apropria de suas possibilidades para a busca da liberdade. Walter Trinca pontua que “A vida é feita de tal maneira que o ser vivo inclui o paradoxo da flexibilidade e da rigidez, da plasticidade e da fixação, da aspiração e da contenção” (p. 61). Se não houvesse um organizador central para agir equilibrando os opostos, surgiriam as doenças neutralizando o processo de individuação. O princípio da individuação é particular de cada ser e o princípio primordial é o querer viver a alegria de existir: “O querer viver passa a ser, no conjunto, o elemento em comum mais bem representativo dos seres na consecução do princípio da vida” (p. 62). “O querer viver é um fator vital que anima o ser vivo, sendo uma expressão nuclear e primordial do próprio ser” (p. 63). O ser humano desde os primeiros séculos de sua história busca se conhecer, o que não é tarefa fácil. Quando o ser interior comanda as escolhas que o ser faz para se relacionar com o mundo ou consigo mesmo, parece que tudo fica mais organizado. O corpo é o lar do ser. Quando o corpo e o ser interior estão em sintonia, “tende a sobressair a inteireza de um todo orgânico, funcional e integrado” (p. 67). Daí surge a consciência de si e o ser se distingue do que não é parte dele. A dificuldade de contato do ser com a realidade causa experiências sofridas e desastrosas. É preciso nos harmonizarmos: “O êxtase aparece na sintonia, na abertura e na viva existência do ser do ser humano” (p. 69). Há a contribuição de neurocientistas que usaram ressonância magnética para estudar o desenvolvimento de aprendizagens pelos bebês. Aprendemos aí que eles nascem com os cérebros já com um certo grau de organização, sendo capazes até mesmo de diferenciar pessoas de objetos. Há uma abertura para perceber o que se passa no mundo. Posteriormente, o bebê passa pelo processo de autorreconhecimento e reconhecimento do outro, seja esse outro a mãe ou algum cuidador. A partir disso, ele vai descobrindo o mundo e, mais tarde, se dará “a abertura ao universo da significação... Ao descobrir-se como ser, o indivíduo humano descobre a abertura à vida mental lato sensu” (p. 73), e “a transformação que se processa de sensorial a não sensorial, representa um dos mais inacreditáveis saltos da natureza em seus movimentos criativos” (p. 74). A abertura do ser pode permitir conhecer os minuciosos e contagiantes detalhes da natureza que enfeitam nossa existência. É preciso que ser se abra para se deliciar da natureza. As formas imateriais da natureza são recebidas pelo ser quando ele “descobre o êxtase das coisas” (p. 79). É importante apontar que a rica cultura psicanalítica, filosófica, literária, poética e de outras artes é notada pelo autor com as citações do mundo oriental e ocidental, e isso, por certo, dá um colorido especial na maneira como ele escreve sobre as belezas que o ser tem para apreender o mundo. Ele mostra como esse processo se deu desde os primórdios da história humana até as modernas descobertas das neurociências. No capítulo “a metáfora dos sonhos” (p. 81), o autor explica os mistérios dos sonhos a fim de tornar claro o que vivemos na realidade para darmos sentido ao existir, e diz: “eles têm a função de promover o desenvolvimento e dar conhecimento, ao sonhador, do que se passa” (p. 82); e nos sugere o estudo da consciência das perdas “Quanto maior foi a consciência da perda, tanto maior será a consciência do vínculo” (p. 84). A análise dos sonhos nos ajuda a compreender o existir e traz detalhes sobre como lidamos com “as imagens mentais espontânea que se constituem de modo não sensorial, sob alto grau de contato com o ser interior” (p. 87). O autor lembra também como, utilizando as imagens mentais, percebemos o mundo real e nos comunicamos com ele. Essas imagens são o meio de contato do ser interior com o mundo, de tal forma que o ser humano se aperfeiçoa e evolui conforme se adapta e sobrevive, utilizando sua capacidade de aprimorar sua sintonia fina entre o mundo interno e externo. O ser interior define nossa identidade e atua como o organizador da vida diferenciando-nos dos outros. Por meio de sua abertura no espaço mental, ele nos insere no mundo de forma criativa e espontânea, impulsionado pela energia psíquica de maneira autônoma e unificadora. Esse processo vital de expansão e inserção permite a referência necessária para reconhecer a distinção entre interior e exterior. Walter Trinca explica as diferenças entre ser interior e self e como eles se entrelaçam no desenrolar da vida. O contato e distanciamento entre o ser interior e o self dependem de se o resultado da vivência é caótico ou organizado. Do grau de contato deles se distinguem três níveis que resultam em personalidades psicóticas, neuróticas ou organizadas em relação à expansão da conscientização e à noção de si mesmo. Dessa forma, a mente humana pode lidar bem ou mal com as oportunidades do universo que lhe são oferecidas. Quanto ao lado obscuro, destrutivo e caótico, o autor mostra a necessidade de se observar não só os aspectos positivos, virtuosos do êxtase das coisas, mas também o lado trágico e aniquilador da existência que são processados e “de que resultam a fascinante estrutura e a formidável dinâmica da mente humana” (p. 103), que é o extenso material que os psicanalistas não se cansam de estudar. Psicanalistas se debruçam sobre a construtividade e a destrutividade do ser humano e, em especial, sobre a pulsão de morte. No modelo da Psicanálise Compreensiva, Walter Trinca propôs o conceito de “constelação do inimigo interno”, uma esclarecedora contribuição para evolução dos conhecimentos psicanalíticos.
A constelação é composta pela
... autoinveja, autorrejeição, as figuras primitivas cruéis e rejeitadoras, os impulsos sádicos contra os objetos, o superego arcaico e taliônico, a destrutividade sádica original, os estados de culpabilidade essencial ou fundamental, as expectativas irrealísticas destinadas ao fracasso e, especialmente, o ódio à realidade interna e externa (p. 105).
Os ataques da constelação causam desequilíbrio e devastação nos indivíduos e nas sociedades humanas. A partir desse modelo, pode-se considerar sete estágios de influência do ser interior sobre o self. Esses estágios são: (i) dúvidas e descréditos; (ii) autodepreciações; (iii) desqualificações amplificadas; (iv) autoinvalidações; (v) alastramento do sistema de ataques; (vi) bandeamento para o inimigo e (vii) estágio de autoaniquilamento.
Esses estágios da constelação não agem sozinhos. Há outros fatores e formas de violência sofridas que também distanciam a vítima do contato com a realidade. Quanto maior contato do self com o ser interior, maior a harmonia psíquica e, ao contrário, o afastamento leva à desarmonia psíquica. Esse princípio é a base do modelo proposto por Walter Trinca, temas que ele aprofunda em seu livro anterior “Do niilismo ao amor à vida: ser ou não ser” (Trinca, 2022). Outros fatores contribuem para as perturbações psíquicas, como a fragilidade, angústia e dissipação do self, e a sensorialidade. Há uma análise detalhada de como esses fatores atuam e interferem no funcionamento mental, gerando sensações de inexistência e ameaçando a dissolução da individualidade, entre outros transtornos. Isso destaca a necessidade de estudar como a sensorialidade é utilizada e as consequências que surgem quando há um distanciamento do contato sensorial. No capítulo “O êxtase na harmonização” (p. 123), aprendemos que sempre que há desarmonia no funcionamento psíquico. Com desequilíbrio nas formas de contato, forças são reorganizadas para buscar o equilíbrio e a harmonia. É no self que essas forças se unem: “no modelo que apresento, o ser de cada indivíduo humano é considerado inteiro em si mesmo, mas a sua ação ou inação depende dos graus do contato estabelecido com ele” ... “neste modelo... uma atenção particular é dada à fragilidade do self e à sensorialidade, mas, também à constelação do inimigo interno, um produto derivado da pulsão de morte” (p. 124). A partir disso, o autor destaca a necessidade do ser se reorganizar e explica, sobre o princípio fundamental da harmonização natural, sobre a efetividade do ser interior no self e da ação da estruturação inconsciente a serviço da ressignificação das coisas. Os sonhos nos ajudam a compreender o que se passa, a eliminar dissonâncias e a retomar a harmonia do nosso ser, na busca da alegria de viver e na descoberta da realidade profunda. Outra lição é que “a expansão da consciência é um dos principais fatores na composição de um modelo geral da mente” (p. 141). Trata-se das expansões da consciência para permitir a experiência de inteireza do contato consigo mesmo e com o mundo. As propriedades mais comuns na expansão da consciência são: limpidez do self, mobilidade psíquica, liberdade, abertura ao acolhimento, leveza, vivacidade e propriedade etérea e abrangência. Todo ser humano “tem em comum um espaço interno disponível para a expansão” (p. 143); e “a luz do ser interior ilumina o self como correnteza existencial na qual o espaço mental é experimentado de modo aberto, livre e solto, predominando a mobilidade psíquica (p. 145). A limpidez da mente faz a vida fluir e a pureza interior permite a identificação e apreensão da pureza exterior presente na realidade. Quanto à “Clareza e distinção no self” (p. 151), o autor afirma que o self tem que ser analisado para diferenciar o que é sombrio do que é luminoso. É preciso que o inconsciente se torne consciente para o ser interior buscar a organização e eliminar o caos e as doenças. Walter Trinca esclarece como a análise do que se passa no self de um paciente com ideias suicidas pode permitir uma reorganização do que levava ao caos e chegando à harmonização do sistema mental. O diagnóstico compreensivo do que se passa com o paciente nos permite conhecer, não só a constelação do inimigo interno, mas os recursos do self para reparar os danos já causados ao ser e, assim, na análise posterior disso tudo promove a aproximação do ser interior ao self, expandindo a consciência para a busca do prazer de viver. Quando seguindo o Modelo utilizamos o Procedimento Desenhos-Estórias, criado pelo autor, temos a oportunidade de constatar tudo isto que dissemos acima, o que enriquece nossos conhecimentos sobre o ser como um todo. "O espírito verdadeiramente aberto" (p. 163) captura as influências do tempo com toda a historicidade, da cultura com as contribuições dos valores ancestrais e da memória que, numa experiência imaterial e atemporal, torna a relação do ser com a vida um contato significativo e estruturante. Ainda há uma contribuição sobre a temporalidade. “O alto grau do contato com o ser interior, tornando límpido o self” (p. 169) elimina todos os ruídos da mente permitindo uma tranquilidade ampla, que abre a mente para descobrir o mundo real e ainda a temporalidade e a imaterialidade, trata-se de uma vivência limpa do eterno no agora. “Em expansão criativa, sempre é possível ir ao encontro de nosso ser e ter contanto com nossas feições humanas mais profundas” (p. 175). Assim é possível uma vivência construtiva no contato com os encantos da vida. Há uma reflexão sobre “as leis fundamentais da natureza” (p. 183) e como elas organizam todo o universo, de tal forma que “a lei da criação se sobrepõe à lei da destruição, resultando em que, sob os princípios fundantes, o universo como um todo se encontra em processo autoconstrutivo” (p. 184). “Então, para o ser humano, a realização é experimentada como atingimento de uma inteireza, que é disposta pela natureza em seus processos de equilíbrio, organização e harmonia” (p. 185). Sobre a “ordem evolutiva” (p. 187), o autor mostra como, apesar das dificuldades para lidar com os obstáculos, a natureza usa a ação harmonizadora para buscar a inteireza do ser e da espécie com harmonia. A própria seleção natural e a recombinação genética são exemplos de processos que permitem novas organizações dos seres vivos. Walter Trinca destaca também a ação das interações sociais e ambientais na modificação das estruturas cerebrais do ser vivo. O próprio ser interior, com sua estrutura genética, também evolui direcionado pelo princípio de vida “que se manifesta de modo coerente na espécie humana a criatividade ímpar da natureza” (p. 190). Esse processo não se limita, pois, aos humanos. Em outras espécies também pode existir uma ordem construtiva com base em “uma base evolutiva universal”, comum entre as espécies, o que pode ser um importante objeto de pesquisa: “É inegável que a natureza, por propriedades, leis e princípios que lhe são inerentes, tende a se organizar” (p. 195). O desenvolvimento da vida manifesta um processo do inanimado ao animado: “O inverso da tendência ao inanimado é a tendência à manifestação da imaterialidade do mundo, expressa nas culminâncias das realizações da organização, da boa forma, da melhor forma possível e da harmonia” (p. 198). Walter Trinca define imaterialidade como “o conjunto de propriedades em que a natureza se faz notar desse modo, permitindo as descrições dos fenômenos” (p. 199) e descreve como a natureza se mostra como nos sonhos e “na vida que se renova... nos mares... no céu... nas montanhas... nos abismos... o silêncio dos espaços infinitos. Há um universo que continuamente se expande” (p. 200). O autor também faz uma reflexão sobre a magia, a beleza e a força da luz. “A força poderosa da luz habita o ser e, se este esplende em vida, ilumina a interioridade e vivifica as relações... “a evolução do espírito caminha rumo à imaterialidade da luz” (p. 201). “O espaço-claridade no centro da mente reflete o foco de luz amena e silenciosa, que se liga à bondade e ao amor. A mente serena e iluminada plana em voos fluídicos pelo universo da suavidade e da graça (p. 201-202). Essa escrita lança luz sobre nosso juízo a respeito da compreensão do espírito e da imaterialidade. Falando da “ordem da natureza na transdisciplinaridade” (p. 205), Walter Trinca esclarece que há uma força que organiza o universo e as ciências estudam as particularidades de cada elemento e como as partes se organizam: “Transdisciplinaridade não significa apenas considerar as relações entre diferentes disciplinas, mas também uma visão ampla e global do todo e das partes que se relacionam, de que participam diferentes disciplinas, correspondendo-se mutuamente” (p. 206). Walter Trinca cita Hubert Reeves (1982, p. 81) ... “para compreender, olhe o conjunto”, isso nos lembra Freud quando nos ensina a não nos prendermos nos detalhes e fazermos escuta do todo. A partir disso, o livro faz um apanhado da relação entre as ciências durante a evolução da humanidade em diferentes culturas, faz um belo passeio na filosofia e nos mostra que a transdisciplinaridade permite a compreensão da inteireza do ser inscrita na universalidade dos fenômenos da natureza: “Ela se propõe a ser um hino à vida, acolhendo o êxtase das coisas” (p. 217). Sobre a arte interior, Walter Trinca diz que, para acolhimento do universo que se cria e se transforma continuamente, temos que ter “um espaço interno propício a receber as experiências” (p. 221). Para a mente se abrir para experienciar a vida interna e externa é preciso empenho da atenção e do cuidado, por toda a vida, e com o “olho interior” (p. 220), reconhecendo o que se passa, para apreendermos e guardarmos “as imagens profundas do mundo” (p. 222). Em relação à pergunta sobre a existência da realidade, o autor faz uma análise histórico-filosófica, demonstrando que a realidade sempre depende da narrativa de quem a descreve. Quanto à mentira, seu entendimento se torna crucial em tempos de mundo virtual, onde o real é manipulado e se mistura com a ficção, tornando difícil distinguir um do outro à primeira vista. Walter Trinca reconhece que a realidade sempre existiu, independente do espírito humano, e o universo não é uma obra humana: “A realidade se estabelece pelo que ela é, enquanto o que varia é o conhecimento que se pode ter a seu respeito” (p. 230). Entretanto, as interpretações da realidade dependem do “estado de consciência de cada indivíduo” (p. 231) ... “Todavia, se o self se apresentar em condições satisfatórias, os níveis de realidade e de objetividade tendem a ser os melhores possíveis” (p. 233) e mais, “A mente aberta à experiência pode se comunicar com a realidade forte” (p. 244). Daí a importância da psicanálise para a evolução do ser. “A expansão do contato com o ser interior é determinante para a expansão da harmonia interna, que pode se comunicar com a harmonia externa, se esta existir” (p. 239). Dessa interação, surge a alegria gerada pelo equilíbrio e bem-estar, onde os conflitos e suas consequências cessam, permitindo experimentar a alegria de viver e o êxtase humano. Já das interações mãe e filho, assim como as do paciente com o analista, o ser vai organizar sua identidade, se diferenciando do outro, e o reconhecimento do mundo como o lugar de vida e acolhimento” (p. 242). Além disso, a superação da tragédia humana se dá pelo enfrentamento do sofrimento com todas suas consequências, “ao longo deste caminho, podemos nos deparar com a alegria (p. 243). Penso que se Walter Trinca escolheu uma obra inacabada como ilustração na capa, ele quis sugerir que a contribuição apresentada no livro também não tem fim, é um método em evolução. Uma obra de arte pela poética da escrita e científica pela quantidade de pesquisas já feitas ou orientadas pelo autor, que trouxeram grande volume de conhecimento para sustentar as afirmações feitas aqui. Concluímos contemplando novamente as duas faces de Circe, agora percebendo que a face angelical parece mais nítida, cheia de luz e vida. Em contraste, a face obscura e enigmática sugere a necessidade de buscar clareza, compreendendo a constelação do inimigo interno para desmantelá-lo. Assim, pela vitória do ser interior resiliente, alcança-se o êxtase das coisas e o amor à vida. No mundo “bruxuleante” em que vivemos, obscurecido por guerras e mentiras, é fundamental que trabalhemos em busca da luz e da paz. Torna-se cada vez mais necessário estudar e compreender nossa existência. Por isso, recomendo aos colegas psicólogos, psiquiatras, psicanalistas e, especialmente, aos jovens que buscam um caminho para entender e acolher a alma humana por meio da psicanálise, a leitura desta obra genuína, didática e preciosa, repleta de conhecimentos inovadores sobre o mundo interior do ser humano e o que o rodeia.
Agradeço a Walter Trinca por seu trabalho e desejo que ele continue sua missão, pois ela enriquece tanto a Psicanálise quanto o nosso Ser Interior, ajudando-nos a sermos pessoas melhores.














