Introdução
O presente estudo objetiva identificar, a partir de uma revisão sistemática, como o constructo esperança foi avaliado em adolescentes que se encontram sob os cuidados do sistema de acolhimento institucional. Este tipo de revisão é considerado o nível I das evidências científicas para a tomada de decisão da melhor intervenção no contexto clínico (Melnik, & Atallah, 2011). Entretanto, para que se tenha uma evidência com o poder de apoiar a tomada de decisão, é necessário que sejam reunidos e sintetizados estudos de alta qualidade, ou seja, resultados de pesquisas gerados pela aplicação de método rigoroso e passível de replicação. O conhecimento do nível de esperança em adolescentes nessas condições pode, por exemplo, apoiar um gestor em relação à políticas públicas dirigidas para essa população. Antes, porém, é necessário olhar para a situação desses adolescentes e explicar o que é a esperança no escopo desta pesquisa. Estudos sobre adolescentes e jovens em situação de risco ou vulnerabilidade têm citado o constructo esperança como um estado motivacional multifatorial importante para o direcionamento da ação em direção ao alcance de metas. Esta capacidade aparece associada à resiliência, à motivação para trabalhar, à mudança da situação atual e às expectativas quanto ao futuro. A esperança foi referida como um indicador mais forte de bem-estar do que a exposição à violência comunitária, podendo moderar a relação entre o impacto da violência e o bem-estar dos indivíduos. Portanto, a esperança é um importante fator de proteção na população aqui estudada, tendo a capacidade de preservar expectativas positivas quanto ao futuro (Ciarrochi, Parker, Kashdan, Heaven, & Barkus, 2015, Hoffler, 2017, Mancilla, 2015, Savahl, Isaacs, Adams, Carels, & September, 2013). A Declaração Universal dos Direitos Humanos (1948) prevê que todo ser humano tem direito à vida, à liberdade e à segurança pessoal (UN, Art. 3). O atributo universal designa que esses direitos devem valer a todos, incluindo as crianças e os adolescentes. No entanto, por vezes, esses indivíduos têm seus direitos ameaçados ou violados, o que pode conduzi-los ao afastamento familiar e ao direcionamento provisório dos cuidados a um serviço de acolhimento. De forma recorrente esse processo acontece pela rede de proteção à infância e juventude, sobretudo por decisão do poder judiciário. São vários os motivos que justificam o encaminhamento de crianças e adolescentes aos cuidados institucionais, alguns deles são: negligência, abandono, violência doméstica, uso abusivo de álcool e outras drogas na família e problemas legais dos responsáveis (Fernandes, & Oliveira-Monteiro, 2016, Mastroianni, Sturion, Batista, Amaro, & Ruim, 2018). Em meio a tantas adversidades, o afastamento do ambiente de risco e a inserção em um serviço de apoio social pode ser benéfico, quando oferece ao acolhido a possibilidade de vivenciar relações afetivas de proteção e confiabilidade, muitas vezes diferentes das vivências anteriores em sua história de vida (Rodarte et al., 2015, Wendt, Dullius, & Dell’Aglio, 2017). Além do fator protetivo oferecido pelo acolhimento institucional, esse também pode ser percebido como um evento estressor, com possíveis repercussões negativas no estado emocional de alguns indivíduos. Entre os desdobramentos identificados em estudos científicos é possível citar: sintomas depressivos, baixos níveis de bem-estar social, problemas de comportamento, despreparo, desinteresse e prejuízo nas habilidades sociais (Álvares, & Lobato, 2013, Barroso, Barbosa-Ducharne, Cruz, & Silva, 2018, Brito, Schoen, Marteleto, & Oliveira-Monteiro, 2017, Delgado, Carvalho, & Correia, 2019). Portanto, muitos devem ser os esforços para que vivências positivas sejam experimentadas enquanto os indivíduos permanecem sob os cuidados de uma instituição de apoio social. Alguns aspectos destacados são as funções dos cuidadores e outros adultos de referência, e a qualidade do vínculo estabelecido com os grupos de pares durante o acolhimento, a fim de facilitar um desenvolvimento saudável. As crianças e os adolescentes que vivem em instituições de cuidado precisam de adultos que se tornem modelos positivos em seu cotidiano, auxiliando-as na construção da identidade e no desenvolvimento de potencialidades úteis para a vida em sociedade. Isso pode ser especialmente importante no caso dos adolescentes acolhidos ou que estão próximos do desligamento institucional, já que se espera que administrem as suas vidas com mais autonomia após o acolhimento (Chauhan, 2020, Geenen et al., 2015, Hoffler, 2017). A família também é apontada como importante rede de apoio social ao indivíduo acolhido, de forma que os vínculos familiares devem ser estimulados e mantidos, sempre que possível. Essa condição pode ajudar a criança e o adolescente acolhido a se sentirem acompanhados e que podem contar com o suporte familiar. Para tanto, deve-se pensar em estratégias que auxiliem as famílias na superação das dificuldades que conduziram ao afastamento da criança ou do adolescente, fortalecendo os vínculos entre estes e as suas famílias (Alleyne-Green, Kulick, Osuji, Beharie, & Sealy, 2018). Também se faz oportuno atuar na prevenção da colocação de crianças e adolescentes em cuidados alternativos. Para tanto, ações de fortalecimento familiar como o desenvolvimento de habilidades parentais, o apoio comunitário e o estímulo do relacionamento entre pais e filhos, podem ser medidas favoráveis (Willi, Reed, & Houedenou, 2020). Desse modo, o ambiente institucional precisa estar organizado no sentido de preservar a saúde física e emocional do indivíduo e auxiliá-lo na construção de um planejamento de vida, principalmente voltado para os adolescentes e jovens. Propõe-se que sejam destinadas intervenções que favoreçam a emancipação, a socialização e a preparação para a vida, após o acolhimento, com atividades que estimulem habilidades educacionais e profissionais. As atividades devem ser planejadas a partir de metodologias participativas, em concordância com as necessidades e interesses dos jovens, dando ênfase no empoderamento e na autonomia (Cassarino-Perez, Córdova, Montserrat, & Sarriera, 2018, Mhongera, & Lombard, 2018). A partir dessa exposição, o presente estudo tem como objetivo apresentar uma revisão sistemática da literatura científica sobre o tema esperança na população adolescente em situação de acolhimento institucional. Pretende-se obter um panorama das pesquisas produzidas na última década, a fim de compreender como a comunidade científica tem se debruçado sobre o assunto e os caminhos abertos para os estudos futuros.
Método
Trata-se uma revisão sistemática da literatura científica que levanta a seguinte questão: como o constructo esperança foi avaliado nas pesquisas com adolescentes que se encontram sob os cuidados de instituições de acolhimento? Para a revisão, fez-se o uso de um método sistemático e objetivo para oferecer melhor confiabilidade ao processo de identificação, seleção e avaliação dos estudos. As especificações do Systematic Reviews and Meta-Analyses (PRISMA - http://www.prisma-statement.org/) foram seguidas. O checklist é composto por 27 itens e um fluxograma de quatro etapas para a orientação dos pesquisadores. Dois revisores conduziram o processo de busca, seleção e análise dos trabalhos de forma independente, a fim de se comparar os achados. Foi realizado o rastreamento dos artigos nos bancos de dados, sendo excluídas as duplicidades. Procedeu-se a leitura do título e do resumo, sendo selecionados os que indicavam proximidade com o objetivo da revisão. Os artigos selecionados, conforme os critérios de elegibilidade, foram então lidos na íntegra. Os dados foram extraídos para posterior análise. A fim de se alcançar o consenso entre os revisores, as discrepâncias nos resultados da coleta de dados foram acordadas.
Estratégia de busca
As bases de dados consultadas foram PsycINFO, Web of Science, SciELO, LILACS, PEPsic e BVS Saúde. Os termos foram definidos a partir da pesquisa nos Descritores em Ciências da Saúde (DeCS) e no APA Thesaurus of Psychological Index Terms. Utilizou-se a opção Busca Avançada para a combinação dos descritores com os operadores booleanos em português: (esperança) AND (adolescência OR adolescente) AND (abrigo OR acolhimento institucional). Em espanhol foram usadas as combinações: (esperanza) AND (adolescencia OR adolescente) AND (niño acogido OR abrigo). Em inglês processou-se a seguinte estratégia: (hope) AND (adolescence OR adolescent) AND (shelter OR foster OR residential care OR institutional care). A data da última busca foi 22/02/2021. Não se restringiu trabalhos quanto a área de conhecimento. O gerenciador de referências Zotero possibilitou a exclusão das duplicidades. Os revisores realizaram uma busca manual nas referências, para identificar possíveis trabalhos relevantes não alcançados nas buscas nos bancos de dados.
Critérios de elegibilidade
A seleção dos estudos contemplou artigos científicos indexados nos bancos de dados selecionados e publicados entre 2010 e 2020. Os critérios de inclusão compreenderam: 1) A questão do acolhimento institucional/medida de proteção social; 2. População-alvo: adolescente; 3. Constructo: esperança. 4. Instrumento para avaliação da esperança. Critérios de exclusão: 1. Pesquisas exclusivamente com adolescentes em medida socioeducativa por ato infracional. 2. Pesquisas exclusivamente com população em situação de rua. Ao final, 30 trabalhos foram excluídos por não atenderem aos critérios. Os estudos incluídos são originais e realizados com seres humanos. O detalhamento do processo de seleção é apresentado na Figura 1.
Análise dos dados
Os artigos incluídos na revisão sistemática foram analisados e extraiu-se os seguintes dados: título, autor, ano, país, desenho, amostra, instrumentos de coleta de dados, objetivo e principais resultados. A avaliação da qualidade geral e metodológica dos artigos foi identificada a partir do checklist CONSORT - Consolidated Standards of Reporting Trials (CONSORT 2010 http://www.consort-statement.org/). Optou-se pelo uso desta escala devido a sua credibilidade na avaliação da qualidade dos delineamentos e apresentação dos resultados de pesquisas. Para que se possa atribuir valor a uma evidência científica, o desenho, o modo de condução, a análise e a interpretação dos achados necessitam ser detalhados com transparência e rigor. Embora as recomendações do CONSORT tenham sido desenvolvidas para avaliar ensaios clínicos randomizados, entendeu-se que a sua riqueza de detalhes e a rigidez dos itens permitem a utilização para os estudos de controle, estudos transversais e série de casos, incluídos nesta revisão. A categorização dos delineamentos das pesquisas foi baseada na Pirâmide das Evidências Científicas (Melnik, & Atallah, 2011). Com base no CONSORT, aplicou-se os itens correspondentes ao Método e aos Resultados, totalizando 15 elementos. Portanto, a pontuação máxima que um estudo poderia alcançar é de 15 pontos. Considerando que cada item contaria um ponto, tem-se 8 pontos para o Método e 7 para a apresentação dos resultados. Os trabalhos foram avaliados com base em: Método: desenho do estudo, critérios de elegibilidade dos participantes, intervenções, desfechos, tamanho da amostra, randomização, cegamento e métodos estatísticos. Resultados: fluxo de participantes, recrutamento, dados de base, números analisados, desfechos e estimativa, análises auxiliares e danos/efeitos indesejados. Para uma melhor apresentação dos resultados foi aplicada estatística descritiva para a análise dos dados.
Resultados
A seguir, a síntese da revisão é apresentada. A tabela 1 expõe as características dos artigos incluídos na revisão.
Tabela 1 síntese dos estudos que avaliaram a esperança em adolescentes em acolhimento institucional.
| Identificação do Artigo/ Autor/ Ano/País |
Qualidade metodológica geral | Desenho | Amostra (n, sexo, idade) |
Instrumento para avaliação da esperança | Principais Resultados |
|---|---|---|---|---|---|
| n.1 Teodorczuk et al., 2019, África do Sul |
5º lugar | Quali-quantitativo, caso-controle | n = 29, M/F, 14 a 18 anos |
Children’s Hope Scale (Snyder et al., 1997) | Após a intervenção psicológica, não houve diferenças estatisticamente significativas nos níveis de esperança entre o grupo experimental e o grupo controle. |
| n.2 James & Roby, 2019, Gana -África Ocidental |
2º lugar | Quantitativo, caso-controle | n = 361, M/F, média de 14 anos | Children’s Hope Scale (Snyder et al., 1996, 1997) | A influência da esperança foi mais forte entre as crianças e os adolescentes reunificados às famílias, do que aqueles que permaneceram acolhidos. |
| n.3 Sulimani-Aidan, et al., 2019, Israel |
3º lugar | Quantitativo, estudo transversal | n = 148, M/F, 16 a 19 anos |
Children’s Hope Scale (Snyder et al., 1997) | Níveis mais baixos de educação dos pais e estar em colocação residencial de bem-estar foram associados a menores níveis de esperança. |
| n.4 Paludo et al., 2018, Brasil |
6º lugar | Quali-Quantitativo, estudo transversal | n = 25, M/F, 12 a 18 anos |
Escala de Esperança Disposicional (Pacico, Bastianello, Zanon, & Hutz, 2013) |
Sugere-se um escore de esperança um pouco menor do que a média apresentada por adolescentes da mesma faixa etária que não vivenciaram o afastamento familiar e o acolhimento institucional. |
| n.5 Sulimani-Aidan et al., 2017, Israel |
4º lugar | Quantitativo, caso-controle | n = 231, M/F, 11 a 18 anos |
Children’s Hope Scale (Snyder et al., 1997) | Os resultados não mostraram diferenças significativas no nível de esperança e relacionamento com os pais entre os jovens em risco que vivem em casa e aqueles sob cuidados residenciais. Quanto maior a aceitação parental percebida, maior a esperança geral. Quanto maior o senso de rejeição parental, menor a esperança. |
| n.6 James et al., 2017, Gana -África Ocidental |
3º lugar | Quantitativo, caso-controle | n = 361, M/F, média de 14 anos | Children’s Hope Scale (Snyder et al., 1996, 1997) | As crianças e os adolescentes reunificados às famílias indicaram mais esperança do que aqueles sob cuidados residenciais. |
| n.7 Brooks et al., 2016, Estados Unidos |
3º lugar | Quantitativo, estudo transversal | n = 256 jovens, M/F, 14 a 19 anos |
Hope Score - HS (Lippman et al., 2014) | Os jovens com pontuações mais elevadas no escore de esperança foram associados a menor probabilidade de envolvimento em comportamentos de uso de substâncias psicoativas. |
| n.8 Geenen, et al., 2015, Estados Unidos |
1º lugar | Quantitativo, ensaio clínico randomizado | n = 67, M/F, 16 a 18 anos |
Hopelessness Scale for Children revisada (Kazdin, et al, 1986) |
Após a participação no programa de capacitação, o grupo de intervenção mostrou ganhos significativos em medida de transição, esperança, autodeterminação e fortalecimento da saúde mental, em comparação com o grupo controle. |
| n.9 Lin et al., 2014, China |
2º lugar | Quantitativo, ensaio clínico randomizado | n = 124, M/F, 9 a 17 anos |
Hopefulness about the Future Scale (Whitaker, Miller e Clark, 2000) |
No pós-teste, os participantes de ambos os grupos demonstraram níveis semelhantes de esperança. Contudo, do pré-teste ao pós-teste, o grupo de intervenção experimentou um aumento significativo em expectativas futuras e esperança. |
| n.10 Berg et al., 2013, Estados Unidos |
4º lugar | Quantitativo, estudo transversal | n = 70, M/F, 13 a 17 anos |
Children’s Hope Scale (Snyder et al., 1991) | Como previsto, os escores totais do autorrelato do inventário para a avaliação de insensibilidade foram forte e negativamente correlacionados com a Escala de Esperança. |
| n.11 Reddy, et al., 2013, Estados Unidos |
2º lugar | Quali-quantitativo, ensaio clínico randomizado |
n = 71, M/F, 13 a 17 anos |
Children’s Hope Scale (Snyder et al., 1991) | A análise post hoc revelou uma correlação significativa entre a frequência de prática nas últimas três semanas de treinamento, a uma maior esperança e uma tendência a menor ansiedade. |
| n.12 Narendorf, et al., 2012, Estados Unidos |
7º lugar | Qualitativo, série de casos | n = 8, M/F, 16 a 18 anos |
Entrevistas semiestruturadas | Os jovens em transição para o novo lar adotivo que participaram de um programa de acolhimento temporário revelaram ter esperanças substanciais e perdas potencialmente críticas. |
| n.13 Casey et al., 2010, Estados Unidos |
3º lugar | Quantitativo, M e F, estudo transversal | n = 104, M/F, média de 17 anos | Children’s Hope Scale (Snyder et al., 1997) | Os jovens apresentaram um nível médio de esperança, sugerindo que percebem a sua motivação e a capacidade de resolver problemas e perseverar, dentro da média. |
Fonte: autoria própria.
Dos 13 artigos incluídos, cinco utilizaram a esperança como constructo central para a avaliação dos participantes (Brooks, Marshal, McCauley, Douaihy, & Miller, 2016, James, & Roby, 2019, James et al. 2017, Paludo, Mazzoleni, & Silva, 2018, Sulimani-Aidan, Sivan, & Davidson-Arad, 2017). Três avaliaram os resultados de uma intervenção psicológica nos participantes (Lin et al., 2014, Reddy, et al. 2013, Teodorczuk, Guse, & Plessis, 2019). Dois avaliaram o processo de transição para a saída do cuidado institucional (Casey et al. 2010, Narendorf, Fedoravicius, McMillen, McNelly, & Robinson, 2012). Dois investigaram as contribuições da mentoria como recurso de apoio (Geenen, et al., 2015, Sulimani-Aidan, Melkman, & Hellman, 2019) e um artigo examinou a validade de um inventário para a avaliação da insensibilidade e pobreza emocional (Berg et al., 2013). Dentre os cinco artigos que utilizaram a esperança como constructo principal, dois encontraram associação positiva entre o nível de esperança e a reunificação familiar (James, & Roby, 2019, James et al., 2017), um evidenciou associação negativa entre o nível de esperança e o consumo de substâncias psicoativas (Brooks et al., 2016), uma pesquisa demonstrou associação positiva entre a percepção da aceitação parental e o nível de esperança (Sulimani-Aidan et al., 2017). Em estudo transversal de Paludo et al. (2018) não foi encontrada associação estatisticamente significativa entre as características do acolhimento e o nível de esperança.
Dos três estudos que avaliaram os efeitos de uma intervenção psicológica, dois demonstraram associação positiva entre o nível de esperança e a intervenção (Lin et al., 2014, Reddy, et al., 2013). No trabalho de Teodorczuk et al., (2019) não foi identificada associação entre a esperança e a intervenção. Neste caso, algumas hipóteses levantadas foram a curta duração da intervenção, os valores culturais da amostra e o escore de esperança consideravelmente maior do que a média, o que pode ter impacto no resultado esperado. Os dois estudos que avaliaram o processo de transição para o cuidado fora da instituição demonstraram associação positiva entre as habilidades e expectativas de transição e o nível de esperança (Casey et al., 2010, Narendorf, et al., 2012). As pesquisas que avaliaram as contribuições da mentoria encontraram associação positiva entre o nível de esperança e a presença da mentoria como recurso de apoio (Geenen, et al., 2015, Sulimani-Aidan et al., 2019). Por fim, o estudo de Berg et al. (2013) evidenciou associação negativa entre o nível de esperança e o inventário de avaliação da insensibilidade e pobreza emocional.
A Figura 2 apresenta a qualidade metodológica dos artigos incluídos na revisão sistemática.

Fonte: autoria própria.
Figura 2 Avaliação da qualidade metodológica com o checklist consort adaptado.
Em relação à qualidade dos estudos selecionados por meio dos itens Método e Resultados do checklist Consort, observa-se que 11 artigos estão na média (8 pontos = 53/33% a 12 pontos = 80%), um artigo acima da média (13 pontos = 86,67%) e um abaixo da média (sete pontos = 46,67%). Apenas três critérios do Consort foram cumpridos por todos os estudos incluídos na revisão, sendo: participantes (elegibilidade), intervenções (detalhamento que permite replicação) e fluxo de participantes (participantes que receberam o tratamento pretendido e foram analisados para o desfecho primário). O artigo com porcentagem acima da média (86,67%) foi o único que descreveu os possíveis danos ou efeitos indesejáveis aos participantes. Este artigo não completou apenas com dois dos 15 itens do Consort, os quais correspondem aos critérios de randomização e cegamento. Tais itens também se mostraram ausentes nos demais artigos. Para que um artigo pudesse ser classificado com alta qualidade metodológica, teria que alcançar 15 pontos na escala Consort. Nenhum dos estudos incluídos na revisão apresentou este resultado. Embora a qualidade dos estudos tenha ficado na média, acredita-se que os resultados deste trabalho possam orientar decisões em relação a questão de como se dá a esperança em adolescentes em acolhimento institucional.
Discussão
Na presente revisão a esperança foi considerada como um importante recurso motivacional que favorece o planejamento e a ação em direção ao alcance de objetivos. É útil para o enfrentamento de desafios na vida e associada a um maior bem-estar em adolescentes sob cuidados do sistema de proteção social infantil. A literatura apontou evidências empíricas de que adolescentes com maiores níveis de traços de esperança podem ter menor probabilidade de envolvimento em autolesão não suicida, além da esperança ter um efeito moderador em sintomas depressivos. Este estudo evidenciou a esperança como uma força psicológica importante para adolescentes com sintomas depressivos (Jiang, Ren, Liang, & You, 2018). Esse fato vai ao encontro dos achados da revisão sistemática, em que foi identificado que a melhora na esperança está associada a diminuição da ansiedade (Reddy et al., 2013) e redução nos níveis de trauma e depressão (Lin et al., 2014). Um estudo da literatura avaliou diferentes perfis de esperança em adolescentes escolares. Verificou-se que quanto maior o nível de esperança relatado pelos participantes, mais adaptativo é o seu perfil escolar e mais chances possuem de ter percepções otimistas frente as situações estressantes. Também se constatou associação positiva entre a esperança e as variáveis orientadas para o futuro, considerando a esperança como um caminho potencial para intervenção na adolescência (Dixson, Worrell, & Mello, 2017). A revisão sistemática mostrou ganhos significativos para o grupo de intervenção de um programa de apoio em saúde mental, indicando benefícios na autodeterminação, na esperança e na preparação para a transição para o ensino pós-secundário (Geenen et al., 2015). Considera-se, assim, relevante identificar a presença ou a ausência de esperança, sobretudo na população exposta a fatores de risco, no sentido de se elaborar estratégias interventivas que promovam o bem-estar. Nesta revisão sistemática todos os estudos avaliaram a esperança em amostras de adolescentes sob cuidados do acolhimento institucional. Estas pesquisas não indicaram a ausência de esperança, sugerindo a presença de fatores moderadores e protetivos que contribuem para o bem-estar dos sujeitos. Entre os fatores que facilitam uma visão positiva sobre a vida e o futuro na população estudada, foi apontado a construção de relacionamentos afetivos com figuras de referência (Sulimani-Aidan et al., 2019), apoio social de pais, cuidadores e pares (James et al., 2017); saúde mental (Teodorczuk et al., 2019); desempenho acadêmico e autodeterminação (Casey et al., 2010) e planejamento para a transição da saída do acolhimento (Narendorf, et al., 2012). Os resultados convergem com a literatura que destaca como fatores protetivos ou moderadores para os jovens em situação de risco, o estabelecimento de vínculos afetivos positivos, o apoio social de adultos de confiança e dos pares (Delgado et al., 2019, Moses, Villodas, & Villodas, 2020, Negriff, et al., 2020). Acrescenta-se a isso que o sentimento de segurança, estabilidade e pertencimento em experiências de acolhimento podem facilitar expectativas futuras para o alcance de resultados de vida positivos (Mihalec-Adkins, Christ, & Day, 2020). A revisão evidenciou que maiores níveis de esperança foram associados a menor probabilidade do uso de substâncias psicoativas e menor tendência a traços de personalidade não emocionais e de insensibilidade em adolescentes acolhidos (Berg et al., 2013, Brooks et al., 2016). Esses achados encontram ressonância com estudo da literatura que investigou adultos jovens com histórico de abrigamento na infância ou adolescência. Constatou-se uma associação entre necessidades pessoais não resolvidas carregadas do período de acolhimento e relatos atuais de depressão, automutilação, tentativas de suicídio e dependência de drogas e álcool. Nos relatos, os participantes mencionaram falta de cuidado parental positivo, falta de apoio social e estigmatização durante a vida (Roberts, 2017). Tais considerações ressaltam a necessidade de ações voltadas a prevenção e a promoção da saúde mental na população estudada, a qual é impactada pela fragilidade e inconstância dos vínculos afetivos e protetivos. O vínculo familiar pode ser percebido pela criança e pelo adolescente como um importante contexto de apoio, segurança e pertencimento, mesmo quando medidas protetivas são acionadas devido a ameaça ou violação de direitos, sendo necessário o afastamento temporário familiar. A revisão apontou que os participantes que retornaram ao convívio familiar evidenciaram maior nível de esperança e aqueles que permaneceram nas instituições obtiveram níveis de esperança mais baixos, quando comparados a outros grupos da mesma faixa etária e fora do acolhimento (James et al., 2017, James, & Roby, 2019, Paludo et al., 2018). Estes resultados são consistentes com a literatura sobre adolescentes em instituições de cuidado. Erol e Münir (2010) encontraram que os adolescentes acolhidos apresentavam maiores problemas emocionais e comportamentais, se comparados àqueles que viviam fora dos serviços de cuidado, além de apresentarem maiores indicadores de problemas de internalização: características de ansiedade, depressão e queixas somáticas. Esses resultados reforçam a importância de intervenções voltadas ao fortalecimento das famílias para a superação dos desafios que motivaram a medida protetiva. Nesse caso, os profissionais que atuam no cenário de bem-estar social precisam estar em aproximação com as famílias, acompanhando e ajudando na reorganização da vida cotidiana. Para os adolescentes que residem em serviços de acolhimento a revisão ressaltou a importância da relação do adolescente com figuras de referência, tomadas como modelos, e que favoreçam a orientação dos jovens quanto ao futuro e o desenvolvimento da autonomia. Assim, a presença de mentores, a função parental, a duração do contato, a promoção da independência, bem como a aceitação parental percebida foram associados a maiores níveis de esperança, já a rejeição foi associada com a diminuição da esperança (Sulimani-Aidan et al., 2017, Sulimani-Aidan et al., 2019). Esses resultados são consistentes com pesquisas que destacam a importância da manutenção de vínculos afetivos de confiança para os adolescentes em situação de risco (Hoffler, 2017), de forma que a qualidade do vínculo estabelecido é essencial para o oferecimento de suporte e segurança em um ambiente favorável ao desenvolvimento saudável (Fernandes, & Oliveira-Monteiro, 2016). Pesquisas também têm destacado a necessidade da preparação do adolescente e do jovem para a transição fora dos cuidados institucionais, com o incentivo de ações voltadas à autonomia, à educação, à moradia e ao emprego, a fim de facilitar o desenvolvimento de habilidades para a vida (Barnett, 2020). Dentro de um plano de transição, a entrevista motivacional conduzida por técnicos do serviço de bem-estar social, pode ser uma abordagem que contribui para o desenvolvimento positivo dos jovens acolhidos, a partir do estímulo de habilidades sociais (autoeficácia) e psicológicas (motivação) como preparação para a saída da instituição (Richmond, & Borden, 2020). Na revisão sistemática se observou que certas características relacionadas a uma transição bem-sucedida, como a esperança, podem ser encontradas em adolescentes em situação de acolhimento, sugerindo que os adolescentes podem demonstrar motivação, perseverança e capacidade de resolver problemas (Casey et al., 2010). Porém, a proximidade com a saída do acolhimento também pode revelar, além da esperança, perdas potencialmente críticas relacionadas às incertezas futuras (Narendorf et al., 2012, Paludo et al., 2018). Além da preparação para a saída do acolhimento, a literatura destaca a contribuição de programas socioemocionais e intervenções psicológicas voltados ao desenvolvimento emocional e em habilidades para a vida, como caminhos que facilitam a expressão da esperança (Chauhan, 2020, Öztürk, & Ekinci, 2018). Alguns resultados notados na revisão evidenciaram ganhos significativos para os participantes. Verificou-se que os adolescentes acolhidos podem alcançar aumento, quanto a autoconfiança, autodireção, esperança, bem-estar e desempenho acadêmico, se forem efetivamente apoiados e direcionados a oportunidades que atendam aos seus objetivos (Geenen et al., 2015, Lin et al., 2014, Teodorczuk et al., 2019). Contudo, alguns trabalhos não avaliaram diferenças estatisticamente significativas entre o grupo controle e o grupo de intervenção. O curto período que a intervenção foi realizada, em média seis semanas, pode ter contribuído para não se identificar mudanças comportamentais e psicológicas. Outro ponto destacado é a necessidade dos programas aplicados sofrerem pequenos ajustes para promover o desenvolvimento cognitivo e social dos adolescentes, por exemplo, com atividades fisicamente ativas e a identificação com os pares como um estímulo ao adolescente. Algumas limitações dos estudos revisados podem ser consideradas. Os resultados não são generalizáveis, pois o tamanho da amostra se mostrou variado, assim como os instrumentos de coleta de dados. Vale considerar que cada escala possui medidas específicas e padronizadas validadas para determinado instrumento, portanto, não há como levantar comparações estatísticas entre os estudos. Além disso, é preciso apontar as diferenças culturais das amostras, a partir do país onde os estudos foram realizados, o que pode ter influenciado nos resultados em relação ao nível de esperança. A não padronização do desenho de estudo também é um aspecto que dificulta a generalização dos resultados. O desenvolvimento de ensaios clínicos randomizados com uma amostra consistente poderia ser uma opção a ser adotada em estudos relacionados ao tema. Isso poderia ajudar os profissionais que trabalham diretamente com adolescentes acolhidos em instituições a identificar fatores protetivos na adolescência, oferecendo intervenções que contribuam para o alcance da esperança.
Conclusão
O objetivo do estudo foi apresentar uma revisão sistemática da literatura científica produzida na última década sobre o tema esperança na população adolescente em acolhimento institucional. Os estudos apontaram a importância do ambiente e da qualidade dos vínculos afetivos estabelecidos durante o período de acolhimento, para o desenvolvimento emocional saudável dos adolescentes. O contexto no qual o indivíduo se encontra e as circunstâncias a ele associados, podem oferecer proteção ou se tornar fator de risco, promovendo ou dificultando a transição dos adolescentes para a vida adulta. Enfatiza-se a importância de intervenções voltadas ao estabelecimento do bem-estar, incluindo a esperança, durante o período de acolhimento, a partir de programas direcionados ao alcance de metas e para o desenvolvimento de uma vida autônoma. Iniciativas como essas podem ajudar crianças e adolescentes que passaram por situações adversas e contextos estressantes, a vislumbrarem uma perspectiva positiva de futuro. Sugere-se o desenvolvimento de mais pesquisas com acompanhamento de maior tempo junto à amostra, para se verificar os efeitos de intervenções a longo prazo. Recomenda-se, também, pesquisas que acrescentem uma abordagem qualitativa, explorando demais fatores que contribuam para a manutenção da esperança na população estudada.















