Introdução
Conforme Bowlby (1988), o apego é um tipo de vínculo afetivo biologicamente inato entre os seres humanos que visa à busca pela proximidade com outro indivíduo - figura ou objeto de apego, identificado como alguém disponível que oferece respostas e proporciona um sentimento de segurança, sendo considerado como preparado para lidar com o mundo. A partir das primeiras experiências de vinculação na infância e adolescência é que são internalizados os modelos de apego com os pais ou substitutos, sendo acionados na presença de eventos ameaçadores, medo ou estresse (Morais, 2019). Crianças e adolescentes que desenvolvem um estilo de apego seguro encontram no cuidador principal uma base segura para explorar o ambiente e, ocasionalmente, regressam a ele para se sentirem protegidos, mostrando-se cooperativos e se aborrecem pouco (Gomes & Melchiori, 2012). Na vida adulta, demonstram confiança e generosidade em seus relacionamentos, sendo mais propensos à tolerância em relação a si mesmos, e às suas figuras de apego atuais, apresentando maior estabilidade em suas relações românticas. Nesta perspectiva, sustenta-se que o apego seguro durante a infância se fundamenta no funcionamento familiar saudável, cujas principais características residem na comunicação aberta com os cuidadores primários, disponibilidade parental e níveis satisfatórios de coesão e autonomia entre seus membros (Cassel & Diamond, 2023). Ou seja, crianças com apego seguro podem desenvolver sua autonomia, sem temor da crítica ou abandono parental, e manter o senso de se sentirem amados, ao mesmo tempo em que alcançam a individualidade na adolescência, posteriormente. Por outro lado, a ausência de um apoio parental adequado, decorrente de separações, ausências, perdas e falta de investimento afetivo predispõem a relações afetivas de insegurança na infância e adolescência, o que pode repercutir num estilo de apego inseguro para as vinculações futuras (Morais, 2019). Como exemplo, no estudo de Becker e Crepaldi (2022) sobre os padrões intergeracionais do apego e a parentalidade, observou-se que o apego inseguro na vida adulta ocasionou dificuldades no estabelecimento de vínculos amorosos na infância dos participantes com os principais cuidadores. Nesse caso, as autoras constataram que as práticas coercitivas com punição corporal dos pais e indisponibilidade da figura de apego, em determinados períodos do desenvolvimento infantil, foram aspectos presentes nas narrativas trazidas pelos entrevistados. Estudos sobre os estilos de apego e a parentalidade indicaram que a presença de fatores de risco no desenvolvimento infantil e juvenil, tais como negligência, violência física, abuso sexual e demais traumas vivenciados, associou-se ao estilo de apego inseguro desorganizado, além de apresentarem maior risco para o desenvolvimento de quadros psicopatológicos na vida adulta (Mikulincer & Shaver, 2019). Com base na perspectiva sistêmica de família, a parentalidade pode ser definida como a transição responsável por transformar o casal em pais, provocando mudanças mais profundas nas relações conjugais e na família extensa (Barcellos, Dantas & Féres-Carneiro, 2022; Jorge, Santos, Portes & Bossardi, 2021). Nesse sentido, o estudo de Wagner, Predebon, Mosmann e Verza (2005) aponta a relação entre a satisfação conjugal e relações parentais de boa qualidade, ao passo que inversamente, as relações conflituosas entre o casal podem interferir prejudicialmente na relação e no envolvimento parental. Por envolvimento parental, entende-se a interação materna e paterna com os filhos, por meio da participação efetiva na realização de atividades diárias, cuidado e à preocupação contínua dos pais biológicos ou substitutos, acerca do desenvolvimento e bem-estar físico e psicológico de seu filho (Dubeau, Devault & Paquette, 2009). Ao investigar os padrões relacionais de apego, Byng-Hall (1995), apontou que a dificuldade no comportamento de cuidado parental encontra-se fortemente associada a relatos de distúrbio nos próprios relacionamentos de vinculações infantis desses pais com suas figuras de apego primárias, como em situações de divórcio, morte, abandono ou longas separações. Sobre isso, pode-se pensar que o tipo de apego evitativo e ansioso dos pais pode predispor a situações de negligência, insegurança e demais fatores de risco ao desenvolvimento de seus filhos. Um dos conceitos que fundamentam a Teoria do Apego proposta por Bowlby (1988) referem-se às “representações mentais” ou “modelo funcional”, que compreende o vínculo afetivo estabelecido com as figuras de apego, os quais atuam enquanto modelos que direcionam a visão de mundo e dos relacionamentos passados, presentes e futuros das pessoas. Conforme o desenvolvimento dessas representações na vida da criança, esta, ao se tornar adulta, estabelecerá novas relações tendo por base o modelo formado em suas primeiras vinculações de afeto. Assim, as diversas funções da vida adulta desempenhadas na vida conjugal, profissional e parental, serão influenciadas pelo apego estabelecido com a família de origem (McGoldrick & Ashton, 2016). A repetição de padrões relacionais e comportamentais de pais para filhos, ao longo das gerações alude às pesquisas sobre transmissão intergeracional. Compreende-se, portanto, que a natureza do funcionamento familiar e da parentalidade são intergeracionalmente transmitidos, o que significa que as pessoas passam a exercer uma vivência relacional semelhante a que elas próprias experimentaram em sua infância e adolescência (Serbin & Karp, 2003). De acordo com os estudos internacionais de Conger, Belsky e Capaldi (2009) e de Langevin et al. (2022), salienta-se que a transmissão intergeracional é estudada sobre padrões relacionais que podem ser mantidos ou modificados na transição de uma geração para a outra, os quais são denominados de continuidades ou descontinuidades. Entretanto, é importante considerar que a transmissão de tais padrões não pode ser adotada segundo uma perspectiva linear, determinista e rígida, de forma que as pessoas sejam “prisioneiras” de seu passado sem uma possibilidade de mudança e flexibilidade (Falcke, Wagner & Mosmann, 2008). Além disso, consideram-se as dimensões histórica e desenvolvimental que a família vivencia ao longo do tempo em seu ciclo vital (McGoldrick & Shibusawa, 2016), para a modificação dos padrões intergeracionais familiares. Dada a relevância do tema, cujos estudos sobre o apego adulto e sua interface quanto às repercussões na parentalidade apresentam lacunas teóricas expressivas, bem como escassas produções empíricas, este artigo tem como objetivo geral identificar as concepções sobre os padrões intergeracionais de apego e envolvimento parental de casais heteroafetivos. Como objetivos específicos investigou-se as lembranças afetivas na infância, as demonstrações de afeto vivenciadas pelos membros do casal em suas famílias de origem, além da expressão de afeto com seus próprios filhos. Salienta-se que, além da Teoria do Apego, o referencial teórico da Terapia Familiar Sistêmica também foi adotado, a fim de melhor compreender e contextualizar a temática pesquisada.
Método
Caracterização da pesquisa
A pesquisa apresenta uma abordagem qualitativa, tendo em vista o objetivo de aprofundar e identificar os significados atribuídos ao fenômeno investigado. Em relação à temporalidade, trata-se de uma pesquisa transversal, já que que foi realizada em um momento determinado, no espaço e no tempo atual, da trajetória de vida dos participantes. Por fim, adotou-se um enfoque exploratório e descritivo, pois se propôs a conhecer com maior profundidade a temática proposta e descrever as características do fenômeno estudado (Sampieri, Collado & Lucio, 2013).
Participantes
Participaram do estudo cinco casais heteroafetivos, totalizando 10 respondentes (cinco mulheres e cinco homens), cujos critérios de inclusão foram: os casais deveriam estar vivendo juntos e com a criança, por pelo menos seis meses e apresentarem idade igual ou superior a 18 anos, quando do nascimento da criança focal. A escolha dos participantes ocorreu por conveniência, com base nos critérios de saturação dos dados, indicado por Guest, Bunce e Johnson (2006). Não obstante, recorreu-se à técnica Snowball ou “Bola de neve” (Baldin & Munhoz, 2011) para coleta de dados, a qual consiste em localizar os participantes mediante uma cadeia de referências, cujas características se enquadrem nos critérios de inclusão da pesquisa. Os informantes-chaves foram sujeitos conhecidos das pesquisadoras que, além de apresentarem critérios correspondentes ao estudo, também indicaram participantes em potencial para a coleta de dados, que por sua vez, indicaram outros sujeitos, conforme a técnica Bola de Neve. O tempo médio de união conjugal foi de 13 anos, variando entre 10 e 16 anos. As mulheres apresentaram, em média, idade de 39 anos e os homens, 48 anos. Já as crianças focais apresentaram, em média, idade de 3 anos, sendo três do sexo masculino e duas do sexo feminino. A maioria dos participantes (7) referiu possuir nível de escolaridade igual ou maior que o Ensino Superior, de modo que, somente uma participante não concluiu o Ensino Médio. Em relação à renda familiar, três casais apresentaram rendimento igual ou superior a cinco salários-mínimos; e os demais, referiram obter entre dois e cinco salários.Em relação à dimensão laboral, os homens apresentaram mais horas trabalhadas quando comparado às mulheres, em uma proporção de 37 horas para 12 horas. Evidenciou-se uma dispersão dos dados quanto ao tipo de trabalho, em especial para os homens; duas mulheres declararam-se do lar, outra referiu ser autônoma, embora no momento da pesquisa estivesse sem desempenhar sua ocupação profissional, e as demais trabalhavam meio período. Assim, os homens apresentaram mais horas trabalhadas que as mulheres, de modo que a média mensal de horas laborais dos homens correspondeu a 37 horas e as mulheres, de 12 horas. Salienta-se que os nomes dos participantes adotados nesse estudo são fictícios, a fim de preservar-lhes o anonimato. Além disso, as iniciais “CS”, significa “casal”, seguido do nome do membro da díade. Ex.: “CS 5, Gael” = Casal 5, Gael.
Instrumentos Entrevista Semiestruturada
De acordo com Minayo (2010), a técnica da entrevista semiestruturada oportuniza aprofundar a temática investigada de modo que as questões introduzidas suscitem a verbalização livre das pessoas entrevistadas quanto ao modo de pensar e agir frente à temática central do estudo. Além disso, baseia-se em um roteiro de perguntas preestabelecido, com possibilidade de serem feitas perguntas complementares ao tema, à medida que a entrevista avança. Portanto, realizaram-se entrevistas em conjunto com o casal, cujo roteiro semiestruturado visou complementar e aprofundar a intergeracionalidade do apego dos membros do casal desenvolvido na infância e suas repercussões sobre o envolvimento parental dos participantes.
Procedimentos de coleta e análise de dados
A coleta de dados do estudo iniciou-se após a aprovação da pesquisa pelo Comitê de Ética em Pesquisa com Seres Humanos de uma universidade do sul do país, sob certificado pelo número OCULTO. Os participantes que corresponderam aos critérios de inclusão do estudo e que aceitaram participar foram contatados com a finalidade de agendar a visita domiciliar. Após a assinatura do Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE), iniciou-se a gravação da entrevista para posterior transcrição dos dados. Ao final, realizou-se o fechamento do encontro, retomando-se os principais temas abordados. Cabe também salientar que as entrevistas tiveram, em média, uma hora e meia de duração. A fim de preservar o anonimato dos participantes, os nomes atribuídos pelas pesquisadoras foram fictícios. As entrevistas foram gravadas, transcritas e analisadas, com base na técnica da análise de conteúdo temático categorial, proposta por Bardin (2011). Tal técnica fundamenta-se em etapas por operações de desmembramento do texto em unidades de registro e/ ou de contexto, cujo agrupamento resulta na criação de subcategorias e categorias. Nesta pesquisa foi utilizado como recurso o software Atlas.ti 8.4.3 para auxiliar na organização do sistema de categorias, o qual se constituiu como uma ferramenta adequada, tendo em vista que a categorização ocorreu via processo de acervo. Após exaustivas leituras do corpus de análise (10 entrevistas), definiram-se os elementos temáticos e, posteriormente, as subcategorias e categorias do fenômeno pesquisado, as quais foram submetidas à avaliação de duas juízas, experts na temática de psicologia da família, cujos resultados apresentaram 80% de concordância com os dados analisados pela pesquisadora, com base no método observacional de Fagundes (1999).
Resultados e Discussão
Os resultados da pesquisa geraram quatro categorias de análise (Becker, 2020). Duas delas serão focalizadas no presente artigo: “Apego na infância” e “Apego e Envolvimento Parental”. Dentre os conteúdos da primeira categoria destacaram-se as subcategorias: “Lembranças afetivas na infância” e “Demonstração de afeto na infância”. Quanto à segunda categoria, destacaram-se as subcategorias: “Demonstração de afeto na parentalidade” e “Interação parental nas atividades cotidianas”.
Apego na infância
Somente os homens trouxeram depoimentos favoráveis acerca das lembranças parentais na infância. As principais lembranças afetivas positivas que os participantes elencaram como importantes para o seu desenvolvimento foram o significado da mãe e/ ou do pai, os valores familiares recebidos e ainda, as memórias agradáveis da infância, destacando-se os momentos compartilhados com a família estendida como primos e tios, bem como as brincadeiras com os amigos. Por outro lado, também foram mencionadas condutas parentais não adequadas para o desenvolvimento e a dinâmica familiar, ao qual pertenciam. Foram citados exemplos de cobranças, impaciência e punição corporal por parte de seus pais, nesses casos observaram-se aspectos de violência física, verbal e negligência que alguns participantes sofreram na infância; além da ausência de demonstração afetiva, diferença entre os filhos e pouco incentivo aos estudos que também foram mencionados. Alguns relatos expressaram que as lembranças infantis estiveram relacionadas aos valores familiares recebidos da família de origem para se tornarem pessoas íntegras e às memórias positivas vivenciadas, enquanto fatores protetivos e importantes no desenvolvimento do apego. Salienta-se que somente os homens trouxeram depoimentos favoráveis acerca das lembranças parentais na infância. Observou-se que as qualidades pessoais das figuras parentais estão ligadas aos valores recebidos na infância e à representação de afeto que carregam, a partir das narrativas mencionadas, como se pode identificar nos relatos: “Minha mãe também foi uma heroína pelas coisas que ela passou (...) lutava pra dar estudo e cuidava da gente!” (CS 4 - Jonas); “E o meu pai era um homem de caráter, um homem de valor, um homem muito inteligente” (CS 5 - Gael). Pode-se argumentar que as narrativas fazem alusão ao que Bowlby (1988) denominou de “modelos funcionais” ou, mais recentemente, por “representações mentais” (Byng-Hall, 1995), haja vista que as recordações citadas se referiram aos modelos internalizados de aspectos afetivos e cognitivos que constroem a realidade e os significados individuais desses participantes. Segundo Ramires e Schneider (2010), os pais devem atuar enquanto uma base segura para a exploração do mundo interno de suas crianças, para além do mundo externo. Isso implica em criar condições de parentalidade em que seja possível estabelecer diálogos, reflexões e suporte emocional para o fortalecimento do self de seus filhos. Desse modo, estimulam-se a construção e a revisão dos modelos funcionais de apego. Em relação à demonstração de afeto na infância, constataram-se as demonstrações de afeto recorrentes que os participantes receberam de sua família de origem, tais como: toque físico - abraços, beijos, receber colo dos pais - carinhos que envolvessem contato físico; palavras afirmativas - palavras de incentivo, de consolo, de segurança e elogios; cuidado afetivo - preparar as refeições, acompanhar as atividades escolares; Memórias de brincadeiras entre pais e filhos - brincadeiras que os pais faziam com os participantes quando crianças. Os depoimentos mencionaram a satisfação dos participantes em relembrar as demonstrações afetivas recebidas pelos seus pais; especialmente pelo toque físico - o que foi comentado por todos os casais, além da relevância atribuída às palavras afirmativas: “O meu pai é das palavras. O meu pai sempre gostou de conversar e falava que eu era muito inteligente, mas assim, o que eu que vejo que ficou, era isso, de falar coisas boas, positivas para mim (...) isso me deixava forte, me sentia um menino valente!” (risos) (CS 5 - Gael). Observa-se, no trecho citado, que as representações do participante aludem a um espaço de investimento afetivo paterno, capaz de promover a segurança, a autoestima e o senso de sentir-se amado. Por fim, o cuidado afetivo foi relatado no sentido de ressaltar as atividades prestadas aos filhos, como cuidar deles quando estivessem doentes, além do preparo das refeições. Em relação às memórias de brincadeiras entre pais e filhos, foram enfatizados os momentos lúdicos de trocas afetivas de atenção, aprendizado e descontração com os pais, na infância. Com base nos depoimentos trazidos, o modelo funcional interno alude a um espaço de investimento afetivo paterno, capaz de promover a segurança, a autoestima e o senso de sentir-se amado. Apontou-se que o apego seguro vivenciado nas relações primárias e, como exemplo aqui - com a figura paterna -, pode auxiliar a criança no desenvolvimento de habilidades e autoconfiança em situações novas, ameaçadoras e de competição; o que lhe permite uma maior autonomia para explorar o mundo e as relações (Paquette, Eugène, Dubeau & Gagnon, 2009). Na revisão de literatura integrativa proposta por Becker e Crepaldi (2019), em bancos de dados nacionais e internacionais acerca dos padrões de apego desenvolvidos na infância e seus reflexos sobre a conjugalidade e parentalidade - na vida adulta -, verificou-se que as temáticas acerca do apego e a parentalidade se mostraram evidentes, especialmente na perspectiva intergeracional. Todavia, somente a pesquisa de Rempel, Rempel, Khuc e Vuy (2017) demonstrou aspectos do apego seguro em uma amostra de 802 casais vietnamitas, cujo grupo experimental foi submetido a intervenções de um grupo de pais, no período pré-natal até o nono mês de nascimento do bebê. Os resultados indicaram relatos positivos e de aprendizagem na interação afetiva entre o subsistema parental, o resgate à história pessoal dos pais na infância deles e a continuidade dos padrões afetivos, bem como os desafios inerentes à transição para a parentalidade. Ainda no que concerne às características do perfil de apego seguro desenvolvidas na infância, identifica-se que uma das demonstrações de carinho recorrentes nos discursos dos participantes refere-se ao contentamento experienciado por meio do toque físico, tais como beijos, abraços e receber colo dos pais; além do cuidado afetivo e das brincadeiras entre pais e filhos. Portanto, a evidência de que o apego seguro passa por uma via que transmite proximidade, segurança e proteção com a figura de apego é um dado fundante para a saúde mental, presente e futura, do indivíduo (Bowlby, 1988). Por outro lado, no que se refere às lembranças afetivas negativas relacionadas ao apego na infância, o aspecto mais evidente, tanto nos homens quanto nas mulheres, diz respeito à punição corporal que sofreram de seus próprios pais, quando crianças. Todos os casais foram unânimes, ao concordarem que seus pais foram coercitivos na infância. Entretanto, a maioria considerou que tais práticas não se caracterizaram como prejudiciais ao seu desenvolvimento, mas que foram necessárias para garantir uma boa educação e promover valores que os tornassem pessoas íntegras e moralmente corretas. A ênfase conferida à punição corporal vai ao encontro do que propõe Bolze (2016), ao afirmar que a punição física, tais como bater na criança e deixá-la de castigo, constitui-se em estratégias negativas de resolução de conflitos parentais, de modo que nos resultados de pesquisa da autora, as mães evidenciaram mais uso de punição corporal que os pais. Pode-se supor que isso ocorra, tendo em vista que, no Brasil, as principais responsáveis pelas tarefas domésticas e pelos cuidados dos filhos sejam as mães, dedicando-lhes maior tempo e, portanto, sendo mais suscetíveis a vivenciarem conflitos com a criança. Resultados como esses, também foram encontrados nos relatos das mães participantes do presente estudo, de modo que a aplicação da disciplina, de forma coercitiva, por meio da punição corporal, constou nos depoimentos de todas as mães entrevistadas.
Apego e Envolvimento Parental
No que se refere à demonstração de afeto na parentalidade, por parte dos participantes deste estudo com os seus próprios filhos, observa-se padrões de comportamento semelhantes aos que experimentaram em sua infância. Os itens referidos foram classificados pelos tipos de demonstração de afeto, tais como: toque físico - abraços, beijos, pegar o filho no colo - carinhos que envolveram contato físico; palavras afirmativas - palavras de incentivo, de consolo, de segurança e elogios; tempo em conjunto - tempo de qualidade dedicado aos filhos, especialmente para conversar e ouvir a criança, bem como em atividades de lazer. O toque físico foi referido pela maior parte dos participantes, entre mães e pais, enquanto uma das demonstrações de afeto mais presentes na parentalidade. Além disso, as palavras afirmativas, no sentido de encorajar a criança constituiu-se uma estratégia importante, reportada pelos pais, conforme o depoimento: “Eu tento validar ele nessa questão que ele sente medo. Digo que ele é corajoso... Tento mudar essa percepção que ele tem dele, que é negativa” (CS 1 - Rafael). Outros participantes também indicaram que o tempo em conjunto com o filho, é um aspecto fundamental para estabelecer proximidade e deixar boas memórias afetivas na relação entre eles: “Não tem como um pai expressar amor para um filho, se não investir em tempo com ele! Porque tempo é vida! É eu deixar de fazer as minhas coisas em prol do outro (...) Isso é passar tempo, isso é dizer que ama! A linguagem que o filho tem de amor é a presença” (CS 5 - Gael). Conforme Cassel e Diamond (2023), manter relações harmônicas norteadas por trocas contínuas de afetividade e que promovem a coesão entre os membros familiares, tornam-se fatores protetivos para o estabelecimento de vinculações seguras, capazes de promover a autoestima no desenvolvimento de crianças e adolescentes. Nesta perspectiva, o estudo internacional de Hoegler, Mills, Feda e Cummings (2023), evidenciou que filhos adolescentes que mantêm relações de proximidade, confiança, comunicação assertiva e suporte emocional com seus pais, predizem melhores níveis de funcionamento familiar saudável e relacionamentos amorosos de modo seguro, na vida adulta. Demais resultados encontrados na presente categoria referiu-se à interação parental nas atividades cotidianas. Por conseguinte, citaram-se as diversas formas segundo as quais a dupla parental procurava envolver-se com os filhos na rotina familiar, tais como: cuidados básicos - situações que envolvessem o cuidado direto com a criança, dar banho, preparar as refeições, fornecer cuidados adequados quando está doente, entre outros. E ainda, os cuidados indiretos que quando realizados, proporcionam ao filho o seu bem-estar, como exemplo, cuidar da limpeza e da organização do lar. Os relatos demonstraram que, embora algumas mães trabalhassem em dupla jornada, costumavam se envolver mais diretamente com a criança que o pai. Tais resultados corroboram-se aos achados de Medina, Canal e Borges (2023), cujas mães participantes do estudo mencionaram envolverem-se mais diretamente com os filhos pequenos e vivenciarem sobrecarga mental e física nos primeiros meses de nascimento da criança. Não obstante, os pais evidenciaram maior envolvimento por meio da brincadeira e da abertura ao mundo, para incentivar a criança a explorar o ambiente: “Eu sou das atividades extracurriculares! (risos), as de fora de casa com as crianças. Tipo, eu cheguei em casa e já levo eles pra sair. Se eu puder todo dia fazer alguma coisa com eles eu vou, (...) Eu levo pro parquinho, pra andar de bicicleta, ir pra praia... É engraçado, eu brinco muito com eles fora de casa” (CS 1 - Rafael). Destaca-se que os pais enfatizaram mais do que as mães, o envolvimento por meio das brincadeiras e da abertura ao mundo. Como exemplo, comentaram sobre as atividades lúdicas que gostam de realizar com seus filhos, tais como brincar de “lutinha”, jogar a criança para cima, fazer cabana, montar castelos na areia, além de levar os filhos aos parques, à praia e ao cinema, assim como andar de bicicleta. Esses resultados correspondem ao que a literatura sustenta, em estudos clássicos como o de Lamb, Pleck, Charnov e Levine (1985) e também, contemporâneos (Paquette et al., 2009; Silva, Vieira, Bossardi, Souza, Kaszubowski & Jorge, 2023), acerca do envolvimento paterno e das mudanças no relacionamento afetivo entre pai e filho. Já o suporte emocional foi mencionado, tanto pelas mães quanto pelos pais, no sentido de apoiar a criança quando se sente insegura e permitir que ela expresse os seus sentimentos. Por fim, a disciplina mostrou-se presente, através de regras e limites do convívio familiar, utilizando-se de estratégias negativas de resolução de conflitos parentais, como a punição corporal, em quase todos os casais pesquisados: “Aí eu disciplino tanto com vara... Ou dou uns tapas na bunda... Nada em cabeça, essas coisas. E eu também deixo de castigo, tiro coisas que eles gostam... um desenho, um brinquedo e aplico uma coisa assim” (CS 1 - Helena). De modo geral, as mães relataram disciplinar mais os filhos que os pais, exercendo, por vezes, punição corporal ou deixando a criança de castigo e retirar algo que ela goste. Supõe-se que, pelo fato de a mãe passar mais tempo com o filho e apresentar maior envolvimento parental, seja mais suscetível a situações de confronto e desentendimentos com a criança, em contraste com o outro membro da díade parental que se envolve menos. Apontamentos como esse também foram encontrados nos estudos de Bolze (2016) ao investigar sobre as táticas de resolução de conflitos parentais. Dentre os aspectos que nortearam a disciplina, os pais comentaram sobre a importância da clareza na aplicação das regras e limites. Um casal, em específico, trouxe a metáfora do “jogo de futebol” para enfatizar a disciplina parental, cujas advertências são sinalizadas pelos cartões amarelo e vermelho, de modo que a função do “juiz” deva ser exercida tanto pela mãe quanto pelo pai. Ressaltaram ainda que nenhum jogador entra em campo se desconhece as regras, desse modo, preconizam, de forma clara, os limites e comportamentos que esperam dos filhos. Minuchin (1982) esclarece que a hierarquia se constitui um dos pilares do funcionamento familiar ao introduzir a noção de estrutura nas relações familiares. Nesse sentido, a hierarquia pode ser observada por meio dos níveis de autoridade entre pais e filhos e das regras compartilhadas. Infere-se, portanto, que a metáfora proposta pelos participantes e o esclarecimento daquilo que esses pais esperam ou não, de seus filhos, caracterizou-se pelo tipo de fronteira nítida, a qual relaciona-se aos limites claros e bem definidos entre os membros dos subsistemas para o cumprimento de suas funções. Por outro lado, a disciplina aplicada por meio da punição corporal constituiu-se como uma estratégia de resolução de conflitos destrutiva na relação parental, a qual pode desencadear comportamentos internalizados, como a culpa e depressão, e externalizados, como a hostilidade e a agressividade infantis (Bolze et al., 2019). Conforme Becker e Crepaldi (2022), as práticas punitivas podem estar relacionadas às lealdades invisíveis presentes nos estilos intergeracionais de apego, no sentido de validar a herança dos valores recebidos da família de origem. Argumenta-se, assim, que os processos de continuidade, perpetuados desde a infância dos pais e no atravessamento da vida adulta, também estiveram presentes enquanto padrões negativos da demonstração de afeto parental. Assim, além das práticas coercitivas que representaram modelos de continuidade na vivência parental, a demonstração de afeto dos participantes recebidas na infância também parece manter-se na educação atual que concedem aos filhos; o que se caracteriza como um padrão de continuidade positivo transmitido entre as gerações familiares. Identificou-se que, desde a infância até a vida conjugal e parental, os participantes relataram manter as expressões de afetividade pautadas no toque físico, palavras afirmativas e tempo em conjunto, enquanto práticas de carinho direcionadas aos filhos. No caso da parentalidade, pode-se ainda dizer que as brincadeiras, cuidados básicos e suporte emocional, embora classificados como itens respectivos ao envolvimento parental, também se traduziram em demonstrações de afeto entre pais e filhos.
Considerações finais
Este estudo cumpriu com a finalidade para a qual se propôs, no intento de identificar as concepções sobre os padrões intergeracionais de apego e envolvimento parental de casais heteroafetivos. Em relação aos padrões intergeracionais do apego na vivência da parentalidade, observou-se um processo de continuidade no que se refere às demonstrações afetivas experimentadas pelos casais na infância e como reproduzem muitos desses padrões com seus filhos, na vida adulta. Um aspecto a ser considerado refere-se ao exercício da disciplina, cuja ênfase se evidenciou no discurso de quase todos os participantes, no sentido de corrigir os filhos, aplicando-lhes a punição corporal como estratégia de resolução destrutiva de conflitos. Percebeu-se também, que essa prática apresenta características intergeracionais no padrão de apego dos pais, sendo transmitidas na relação atual com os seus filhos. Dessa forma, é importante esclarecer que a disciplina se constitui uma das bases para o desenvolvimento infantil da autonomia, todavia a punição não contribui para resultados positivos desses aspectos, embora essa prática ainda seja socialmente aceitável, especialmente na cultura brasileira. Em relação aos aspectos metodológicos, aponta-se que a abordagem qualitativa, considerou-se adequada para os objetivos delineados, contudo sugere-se a combinação de outros instrumentos de coleta de dados para além da entrevista, tais como a observação e o genograma, os quais poderiam ampliar o fenômeno investigado e produzir maior sofisticação na análise das informações obtidas. Além disso, recomenda-se a realização de estudos longitudinais que possam nortear as pesquisas sobre o apego, a fim de permitir o maior detalhamento e acompanhamento da temática ao decorrer do tempo, uma vez que o fenômeno estudado se refira aos processos intergeracionais familiares. Por fim, outro ponto a ser mencionado é que os estudos sobre o apego se consolidaram pela via dos estudos da díade mãe-bebê, eixo central que marcou o estabelecimento de teorias científicas sobre o tema. Com o avanço do conhecimento, o apego ampliou sua vertente clássica, ao lançar novas proposições em direção a outras figuras e contextos de desenvolvimento. Situa-se, nesse ínterim, a tentativa desse estudo em gerar novos resultados concernentes a um contexto específico; cujo recorte que se estabelece entre o apego do casal na infância e suas repercussões sobre a parentalidade, apresenta-se como uma temática recente nas produções científicas nacionais e de notável visibilidade no cenário internacional. Pode-se refletir, portanto, que o avanço das pesquisas se mostra ainda mais promissor quando é possível serem vinculadas à prática, ou então, quando instruem melhores estratégias de produzi-las. Nesse sentido, estudos que investiguem as repercussões do apego infantil nas relações afetivas da vida adulta e no exercício da parentalidade podem contribuir para a promoção da saúde mental e familiar dos membros envolvidos.














